O anatomista



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assim iria fundamentá-lo em seu De ré anatômica.

Mas como aquele que se aventura nos vales interiores dificilmente encontra o caminho de regresso, o anatomista haveria de perder-se definitivamente no coração da

selva da sua própria costela.

II

O capítulo XVI do seu De ré anatômica foi uma epopéia, um canto épico. No dia 16 de março de 1558, Mateo Colombo, como exigiam os estatutos da Universidade para



que uma obra pudesse ser dada a público, apresentou ao reitor o seu livro terminado, um caderno de cento e quinze fólios, acompanhado de sete ilustrações anatômicas

- das obras mais belas produzidas no Renascimento - pintadas a óleo por sua própria mão, nas quais expunha os mapas do seu novo continente: o Amor Veneris.

A 20 de março do mesmo ano, Alessandro de

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Legnano irrompeu no claustro de Mateo Colombo acompanhado pelo pároco da Universidade e dois guardas de corps. O reitor leu a resolução do Superior Tribunal que

aceitava o pedido de Alessandro de Legnano para que se formasse uma comissão de Doutores a fim de examinar as atividades do catedrático e decidir sobre as acusações:

heresia, blasfêmia, bruxaria e satanismo. Todos os seus manuscritos foram expropriados, assim como o sem-número de pinturas que jaziam empilhadas contra a parede.

Que Mateo Colombo tenha se livrado de ser confinado numa cela do cárcere de Santo Antônio não deve ser atribuído à benevolência das autoridades, mas ao afã de que

o processo não fosse dado à publicidade antes do veredicto da comissão. O anatomista foi informado de que, segundo a última bula de Paulo

III sobre as comissões doutorais,

que as elevava à categoria de tribunal supremo em matéria de fé, e lhes conferia faculdades ambulatórias, o processo haveria de dar-se na própria Universidade. O

tribunal seria presidido pelo cardeal Caraffa em carne e osso e um delegado do cardeal Álvarez de Toledo.

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TERCEIRA PARTE

Os fatos do processo


CHOVE


Mateo Colombo, sentado à sua escrivaninha, contempla a chuva cair do outro lado da minúscula vigia que coroa a breve cabeceira da sua cama. Chove sobre as dez cúpulas

gêmeas da basílica e sobre a pradaria que se funde na linha incerta do horizonte. Chove uma chuva fina, que mal chega a molhar. Chove uma chuva mansa e persistente,

que acossa como um pensamento ruim ou como uma dúvida. Como uma idéia. Como um segredo. Chove, parece uma chuva de séculos. Chove uma chuva piedosa, descalça. Chove

uma chuva franciscana. Chove com a mesma materialidade leve de que são feitos os pés do santo sobre os tetos, sobre os pássaros. Chove, como sempre, sobre os pobres.

Chove, lenta mas insistentemente, uma chuva que, de tanto cair, irá remover os pés marmóreos dos santos pétreos, obscurantistas. Não há de ser nem hoje nem amanhã.

Mais um momento, mais uns dias, arderão as tochas negras, as brasas das fogueiras. E chove. Chove uma chuva mansa, insistente; como uma advertência ou um augúrio.

Chove uma chuva amável, piedosa, que pelo menos refresca a chaga na carne queimada. Chove uma garoa, cheia de zumbidos, sobre os camponeses que dão de comer ao abade,

e chove sobre a estola de Paulo III.

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Chove sobre o Vaticano. E chove, também, uma chuva morna, ansiada; gotas que são pequenas varas fálicas a se infiltrar sob o cerrado decote das religiosas. Chove



uma chuva germinal. Uma chuva italiana.

Mateo Colombo observa a chuva nova a cair. Chove, e então, das entranhas da lama, exumam-se os tesouros da Antigüidade. Chove uma chuva arqueológica. Ali, debaixo

dos pés, surge o antigo esplendor. Chove, e de tanto chover termina-se removendo o solo histórico que vomita mármores, livros, moedas. Tudo o que permanece na superfície

torna-se, em comparação, trivial e, sobretudo, vulgar. Debaixo do emaranhado de ruas feitas pelo mero acaso do trafegar, debaixo dos vilarejos miseráveis, a água

despe o Antigo e Esplendoroso Império que será exumado. Chove, e das tripas da terra surge o

bom, o Belo e o Verdadeiro. Chove, e de tanto chover se desfazem na

lama os condottieri e, em seu lugar, torna a elevar-se o espírito de Cipião, de Fávio.

Expulso da sua doce terra encontrada, do seu paraíso; exilado no seu claustro, longe, muito longe da sua "América", da sua Pátria, Mateo Colombo contempla a chuva.

O anatomista observa cair aquela chuva que, a menos que se dê um milagre, haverá de ser a última.

II

No dia 25 de março do ano de 1558, precedida por cinco cavaleiros e sucedida por outros cinco guardas de corps, chegou a Pádua a comissão presidida pelo cardeal



Caraffa e o delegado pessoal do cardeal

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Álvarez de Toledo. As eminências foram alojadas na Universidade e decidiram dedicar três dias a examinar os pormenores do caso, antes de dar começo ao processo.

O reitor ofereceu a Suas Eminências o recinto da sala de anatomia para constituir o Tribunal, mas aos olhos dos visitantes aquilo era amplo demais para tão pequena

audiência; o Tribunal seria integrado por três :uízes: o cardeal Caraffa, o presbítero Alfonso de Navas

- delegado pessoal do cardeal Álvarez de Toledo - e um representante do Santo Ofício de Pádua. A acusação ficaria por conta do próprio reitor, e a defesa só contaria

com a alegação do próprio réu. Também deviam levar-se em conta duas ou três testemunhas. De modo que Suas Eminências consideraram mais do que suficiente o espaço

de uma sala comum.

III


A 28 de março do ano de 1558 iniciou-se o processo. Segundo as formalidades do caso, o Supremo Tribunal haveria primeiro de tomar o depoimento das testemunhas de

acusação; em segundo lugar, seria ouvida a imputação do acusador; e, finalmente, a alegação do acusado. Entretanto, o tribunal não achou conveniente a presença de

pessoas alheias à assembléia e considerou mais de acordo com a prudência que as testemunhas declarassem por escrito, mediante a ata de um notário. Segundo tais

procedimentos, o próprio notário da Universidade, Dario Renni, colheu os testemunhos que haveriam de ser expostos.

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DECLARAÇÃO DAS TESTEMUNHAS



PRIMEIRO TESTEMUNHO

Declaração de uma meretriz que diz ter sido

enfeitiçada pelo anatomista
De pé ante os juízes, Dario Renni leu o primeiro testemunho.

Eu, Dario Renni, tomei e registrei o depoimento de uma hetaira dos altos da Taverna dil Mulo, que diz chamar-se Calandra, contar

com dezessete anos e habitar naqueles

mesmos antros.

A declarante afirma que, no dia quatorze do mês de junho de mil quinhentos e cinqüenta e seis, um homem de olhar feroz chegou-se aos altos da taverna e solicitou

serviços. Foram-lhe mostradas todas as pupilas da casa e decidiu coabitar

com uma chamada Laverda. A declarante afirma que o homem retirou-se com ela aos aposentos,

havendo pagado tarifa inferior, posto que era puta velha e um pouco doente; que mais tarde o visitante saiu da alcova sem a companhia da meretriz e despediu-se da

casa com pressa.

A declarante afirma que sentiu aguda preocupação pela outra pupila, eis que ela não saía do aposento e nenhum barulho vinha da alcova. Afirma a declarante que, como

a outra não aparecesse, chegou-se até o aposento e, junto ao leito, viu-a jazente. Afirma a declarante que a princípio pensou que o homem fosse um cliente

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inconformado que teria se vingado da outra por fazer mal o seu ofício e ser velha e desdentada. Mas viu que

ela respirava e não tinha ferida, nem de lâmina, nem

de porrete.

Afirma a declarante que quando a outra acordou do desmaio, referiu-lhe o ocorrido; que o cliente lhe dera

a vara para lamber, e quando o fez viu que ele era o diabo

que pedia por seu amor e por sua alma. Afirma a declarante que a outra referiu-lhe que esteve pelos rios lê Caronte, vendo demônios fornicadores que lhe

enfiavam

varas de bom tamanho por todos os orifícios do corpo, por ser mulher de má vida.

Afirma a declarante que não deu crédito à outra hetaira, por ser puta já muito velha que padecia de loucura venérea.

Porém, na semana seguinte, apareceu-se de novo o visitante pelos altos da taverna a solicitar serviços, eforam-lhe mostradas todas as pupilas da casa e dessa

vez ele decidiu-se pela declarante, que era puta cara e de boa carnadura. Afirma a declarante que o cliente era homem de fina estampa e olhar feroz, que era muito

do seu gosto e que o atendeu de bom grado e sem protesto. Afirma a declarante que o visitante subiu-se as

roupas por cima da cintura e lhe pediu que se servisse da sua vara, que estava dura e levantada. Afirma a declarante que o fez como manda o ofício:

com arte e engenho, e que, fazendo-o, caiu presa do feitiço e se amaldiçoou por não haver dado crédito às palavras de Laverda. Afirma a declarante que aquele

era o próprio diabo a pedir por seu amor e por sua alma, que viu toda espécie de demônios obedecendo ao maldito, e que todas

aquelas bestas de semblante feroz

submetiam-se ao seu amo,

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metendo suas gigantescas varas dentro do olho do cu da declarante, que sofria de grande tormento. E ouvia o amo das bestas dizendo que lhe desse seu amor e sua alma

para que o grande suplício cessasse. Afirma a declarante que o amo das bestas do inferno pedia-lhe

o seu amor por ser uma mulher ruim; que sua alma lhe pertencia porque ele

fazia do pecado da carne o seu sustento. Afirma a declarante que se negou, apesar dos

tormentos, a dar-lhe o seu amor, porque havia recebido sacramentos, e com Deus era

o seu amor e com Deus era a sua alma.

Havendo-lhe sido mostrado o anatomista, Mateo Realdo Colombo, a declarante afirma que aquele

era o homem.

SEGUNDO TESTEMUNHO

Declaração de um caçador que diz ter visto

o anatomista em companhia de bestas demoníacas.

Eu, Dario Renni, notario da Universidade dePádua, tomei e registrei o depoimento de quem diz chamar-se A., ter vinte e cinco anos e morar na chácara

com a esposa

e quatro filhos.

O declarante afirma que, estando a caçar nos bosques próximos à abadia, viu um homem caminhando em companhia de um corvo. Que o homem tinha um grande saco pendurado

no ombro e nele guardava os animais mortos que recolhia na passagem, conduzido pelo corvo. O

declarante afirma que tal atitude chamou sua atenção e, movido por curiosidade

e temor, decidiu segui-lo sigilosamente, eis que aquele homem parecia

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ser o próprio diabo. O homem caminhou até uma velha cabana ruinosa e abandonada, em cujo interior



esvaziou o repugnante conteúdo do saco. O declarante afirma que viu,

por trás da janela, como o homem dava de comer ao corvo daquela carniça. O

declarante viu sobre uma mesa, horrorizado, umas bestas espantosas: um cão

com penas de

pavão junto a um gato com escamas de peixe. Que, depois de tocá-los, aqueles demônios adquiriam vida e se agitavam e se moviam como loucos.

Havendo-lhe sido mostrado o anatomista, o declarante afirma que o homem que viu é Mateo Realdo Colombo.


TERCEIRO TESTEMUNHO

Declaração de uma camponesa que diz ter sido

enfeitiçada pelo anatomista.

Eu, Dario Renni, notário da Universidade de Pádua, tomei e registrei o depoimento de quem diz chamar-se B., contar

com dezessete anos e ser esposa de A.

A declarante ocupa junto com seu marido a chácara limítrofe com a Casa Maior. A quinta é administrada por C., que dá fé do antedito.

A declarante afirma, sob juramento, conhecer o Mestre Mateo Realdo Colombo, de quem deu fiel descrição. Diz ter conhecido o seu claustro na Universidade, do qual,

também, forneceu leal detalhe.

Questionada sobre como conhecera o anatomista, a declarante afirma que o viu pela primeira vez junto ao frei D., nas proximidades da Casa Maior, do outro lado das

sebes que limitam as terras senhoriais e a sua chácara

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nas terras tributárias. A declarante afirma que após uma extensa caminhada, que incluiu os arredores das oficinas, a cozinha, o forno, o celeiro e o estábulo,

dentro do perímetro do fics, o frade e o anatomista se despediram. Um caminhou até a Casa Maior e perdeu-se do outro lado das sebes. O outro avançou em direção

ao

forno em que a declarante assava pão e perguntou-lhe pelo seu senhor, depois de se apresentar pelo nome. A declarante afirma que, como o anatomista pedira, foi buscar



seu marido, que se encontrava labutando na reparação da abadia, pois que era dia de trabalho de favor. A declarante afirma que o visitante falou longamente

com o seu marido, e que as aparências lhe indicavam, posto que não podia ouvir o diálogo, que o objeto da conversa era a própria declarante. Afirma que o marido

saiu em busca do administrador e que, depois, os dois últimos ficaram falando a sós. A declarante afirma que viu como o anatomista pagava em dinheiro ao administrador

e que o administrador deu permissão à declarante para sair da chácara em companhia e sob os cuidados do visitante, Mateo Realdo Colombo.

Afirma a declarante que, de forma sub-reptícia e noturna, foi levada aos porões da Universidade e que, rodeada de mortos, o anatomista pediu-lhe que se despisse

e se deitasse numa fria mesa de mármore. Afirma a declarante que o médico obrigou-a a separar as pernas e que, assim fazendo, introduziu um demônio dentro do seu

sexo. Afirma a declarante que em meio ao prazer e ao êxtase, dos quais não se pôde furtar porque o demônio que estava em seu sexo lhe prodigava imenso deleite, o

qual, de resto, jamais havia sentido, o anatomista ordenou ao filho da Besta que apaixonasse a alma da

declarante e que seu corpo ardesse como o fogo de uma grande caldeira. Afirma a declarante que se apaixonou por aquele demônio feroz e pelo amo que o animava ao

redor do seu sexo, a guiá-lo com um dedo. Afirma a declarante que desde aquele dia não pôde mais sentir deleite na vara do seu marido, pois que seu corpo era presa

daquele demônio feroz.
A ACUSAÇÃO

ALEGAÇÃO INCRIMINATÓRIA

Acusação de Alessandro de Legnano a Mateo Colombo

ante a comissão de Doutores da Igreja

Assistimos à volta do demônio a esta Terra. Podeis vê-lo onde quer que seja. Para onde quer que gireis a cabeça, não vereis mais que a sua mísera obra. Assistimos

à conclusão da profecia de São João, quando teve a visão do anjo a acorrentar o demônio e condená-lo a mil anos de desterro no abismo. Hoje, mil anos depois, o diabo

regressa. Está entre nós. Olhai! Olhai ao vosso redor! Hoje todos exumam os deuses antigos. Iremos porventura substituir Santa Maria por Vênus? Voltaremos porventura

a adorar Baco e enterraremos São João Batista? Basta olhar para as igrejas: todas repletas de antigos deuses pagãos! Por isso vos digo: o que se pode esperar da

humanidade se a casa de Deus converteu-se em casa do demônio? Escutai, simplesmente, as vulgaridades que se falam nas praças e nas feiras e dizei-me em que se diferenciam

esses mexericos da prosa dos novos "literatos" que chegam a ignorar o latim e o grego: indolência, leviandade de consciência, historietas vulgares, chistes e toda

espécie de obscenidades, eis o que chamam hoje de literatura. Alerta! O demônio está entre nós. É a hora da rebelião do filho contra o pai, do discípulo contra o

mestre. Tendes que ver a horda de pequenos anatomistas

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da Universidade que presido: negaram-se até a jurar pela magistral palavra do catedrático. Ninguém escuta mais em silêncio respeitoso, e chegam a zombar de



nós em nossas próprias ventas. Se vísseis com que leviandade fala-se de Deus,

com a mesma gélida distância com que se fala da germinação dos legumes. Qualquer

um agora se declara ateu como quem declara a preferência por um prato em vez de outro! Digo-vos: Alertai O diabo libertou-se de seu cativeiro e está entre nós.

Hoje, o diabo vestiu o saio da ciência. Hoje, os falsos profetas proclamam-se cientistas e artistas. Será que haveremos de esperar de braços cruzados que um belo

dia os novos pintores, escultores e anatomistas substituam o nosso Senhor Jesus Cristo e ergam a imagem de Lúcifer em fino mármore sobre os púlpitos?

De nós, cristãos, depende agora saber distinguir a Verdade da farsa.

Acuso o réu de perjúrio, posto que transgrediu o seu

juramento. Lembro-vos dos votos que se comprometeu

a observar no dia em que recebeu os títulos de médico:

"Juro por Deus, pondo-o como testemunha, que

darei cumprimento na medida das minhas forças e

segundo o meu parecer a este juramento e compromisso:

ter para com quem me ensinou esta arte igual estima

que para com meus progenitores, dividir com ele meus

haveres e tomar a meu cargo suas necessidades, se lhe

fizer falta; considerar seus filhos como meus irmãos e

ensinar-lhes esta arte, se tiverem necessidade de aprendê-la,

deforma gratuita e sem contrato; tomar a meus

cuidados a preceptoria, a instrução oral e todos os outros

ensinos dos meus filhos, dos filhos do meu mestre e dos

discípulos que hajam firmado o compromisso e estejam

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submetidos por juramento à lei médica, porém a ninguém mais. Farei uso de regime dietético para auxílio ao enfermo, segundo a minha capacidade e reto entendimento;

do dano e da injustiça o preservarei. Não darei a ninguém, mesmo que viesse a me pedir, nenhum fármaco letal, nem farei semelhante sugestão. Em pureza e santidade

manterei minha vida e minha arte. Em qualquer casa que entrar, acudirei, para assistência ao enfermo, desprovido de todo agravio intencionado ou corrupção, em particular

de práticas sexuais com as pessoas, sejam homens ou mulheres, escravos ou livres. O que vir ou ouvir no tratamento, ou mesmo fora dele, em relação à vida dos homens,

tudo aquilo que jamais deva transcender, calarei, tomando-o por segredo. Em conseqüência, seja-me dado, se a este juramento eu for fiel e não o quebrantar, gozar

da minha vida e da minha arte, sempre celebrado entre todos os homens. Mas se porventura o transgredir e cometer perjúrio, seja de tudo o contrário."

Acuso o réu deperjúrio, pois que faltou a cada palavra do seu juramento, desonrando e profanando o oficio para o qual foi instruído nesta Casa.

Acuso o réu de satanismo e bruxaria. Tudo o que eu possa dizer-vos é pouco diante das provas que o próprio réu vos oferece: haveis ouvido a declaração das testemunhas;

haveis lido tudo o que figura em atas; e haveis visto as pinturas que o réu fez

com suas próprias mãos. Mas a prova mais conclusiva é a própria palavra do acusado.

O descobrimento que ele reivindica não passa de um diabólico embuste. De que outra forma pode-se qualificar o pretenso Amor Veneris? O acusado atribui-se haver encontrado

o órgão que governa a vontade, o amor

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e o prazer nas mulheres, como se a vontade da alma e o prazer do corpo pudessem ser colocados em pé de igualdade. De que outro modo senão "diabólico"pode ser chamado



quem pretende encumear o Diabo nas alturas de Deus?

com relação ao estritamente anatômico, o que é o pretenso Amor Veneris? Palavras, nada mais que palavras. Podeis buscar e rebuscar nos genitais femininos, e não

encontrareis nenhum Amor Veneris, nenhum órgão que já não tenha sido descrito por Rufo de Éfeso, porAvicena ou por Júlio Pólux. Talvez o Amor Veneris seja a nymphae

que Berengário menciona ou o praputio matrices descrito, já no século X, pelo árabe Haly Abbas. Digo-vos então: palavras, nada mais que palavras. Ou quem sabe o

"descobrimento" do acusado seja otentigenem referido por Abulcasis? Palavras, diabólicas palavras.

Mas deixarei a minha acusação a cargo do próprio réu. Escutai sua defesa, e achareis em suas próprias

palavras as provas do que vos digo.

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A DEFESA

I

Três de abril foi o dia fixado para que o acusado apresentasse a sua alegação. Mateo Colombo ingressou na sala onde o supremo tribunal se constituíra sem outra companhia



além da própria convicção. Usava um lucco de lã, a estola sobre os ombros e uma foggia cobrindo-lhe a cabeça e a metade da testa, que só tirou diante do estrado.

À destra dos juízes estava seu acusador, o reitor Alessandro de Legnano. O cardeal Caraffa lembrou-lhe as imputações que pesavam contra a sua pessoa e, cumprida

essa formalidade, foilhe ordenado que desse imediato início à sua alegação.

Todos os olhares convergiam para a sua pesarosa estatura. De pé diante do júri, não encontrava as palavras; a rigor, tinha ensaiado tantas formas durante o cativeiro

que agora não acorria nenhuma em seu auxílio.

II

Alegação de Mateo Realdo Colombo diante da comissão de Doutores da Igreja



Embora as circunstâncias não pareçam as melhores nem as mais apropriadas, quero primeiro dizer-vos

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que representa uma grande honra para a minha humilde pessoa que Vossas Excelências vos digneis a prestar atenção ao que haverei de expor. E se vos digo isso, o faço

na íntima convicção de que, em circunstâncias menos apremiantes que as que o destino me deparou, vós mesmos haveríeis acolhido de

bom grado a minha obra e o meu

descobrimento sob vossa inestimável proteção. Sou daqueles que acreditam que as questões relativas ao corpo devem ser demonstradas, antes, de maneira teológica,

pois que nada existe fora de Deus. Meu ofício, o da anatomia, consiste em decifrar a Obra do Todo-Poderoso e, desse modo, adorá-Lo. Vós, teólogos esclarecidos, sabeis

não só pela fé, mas também pela razão. Nem uma só palavra dentre as que haveis lido em minha obra tem outra razão que não a fé. Quero dizer-vos

com isto que as

Sagradas Escrituras não são mero papel impresso; cada vez que me é dado examinar um corpo, vejo nele a Obra do Altíssimo e em cada átimo daquele corpo posso ler

a Sagrada Palavra, e minhalma se comove.

Antes de expor minha alegação, quero dizer-vos que não perco a esperança de que vós, ao escutar minhas palavras, tomeis sob a vossa sábia proteção o

descobrimento que me foi dado estabelecer e o testemunho que minha De ré anatômica constitui. Entendo que algumas das minhas afirmações,

postos na boca do meu acusador,

possam parecer-vos não mais do que aventuradas quimeras. De minhas considerações anatômicas podem ser deduzidos certos outros conceitos concernentes à moral.

Quero dizer-vos: apresentar uma tese sobre o corpo implica, por força, outra sobre a alma. Meus descobrimentos são anatômicos; se a exposição das funções dos

órgãos que descrevo e aos

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quais atribuo determinadas funções conduz a uma doutrina metafísica, pois então deixarei aos filósofos depreender uma de outra. Eu, modestamente, não passo de um

humilde anatomista cujo único propósito é interpretara obra do Altíssimo e, dessa maneira, louvá-Lo.

Adianto-me a dizer-vos, pois, que, tal como estou convencido de que assim o interpretareis quando eu con cluir minha alegação, nada do que está escrito em minha

De ré anatômica, nem nada do que irei vos expor, contradiz as Sagradas Escrituras, e que, pelo contrário, sempre me inspirei na Verdade que delas surge.

Permiti-me que divida o meu discurso, para ordenar a exposição e para que esta resulte inteligível,

em dezenove partes.


PARTE PRIMEIRA


Depor que a kinesis não é um atributo

da alma e sim do corpo

Permiti-me, então, fazer um pequeno rodeio por certas questões atinentes ao corpo e a suas funções elementares, e deixai que eu vos exponha algumas das relações


: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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