O anatomista



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não conheço as profecias do astrólogo Giorgio de Novara? Sei que ele disse que a conjunção de Júpiter

com Saturno originou as leis de Moisés; com Marte, a religião

dos caldeus; com o Sol, a dos egípcios; que com Vênus, Maomé nasceu; que

com Mercúrio, Jesus Cristo - fez uma pausa, olhou fixamente nos olhos do anatomista e,

apontando para ele, acrescentou: - É agora, é hoje a conjunção de Júpiter

com a Lua...

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Mateo Colombo olhou pela janela e divisou uma lua cheia e luminosa. Interrogou Beatrice

com o olhar, como dizendo: "E o que eu tenho a ver com isso?".

- É agora, é hoje o tempo do vosso regresso! - e,

erguendo-se, sentenciou com um grito sufocado - É o

tempo do Anticristo! Eu vos pertenço. Fazei-me vossa

- disse, enquanto atirava ao chão a manta que a

cobria, deixando nu o seu belo corpo.

Mateo Colombo demorou a compreender.

- Que o poder de Deus esteja comigo - murmurou, benzeu-se e imediatamente explodiu numa torrente de cólera: - Idiota, menina

idiota! Queres porventura ver-me arder

na fogueira?

Estava com o punho levantado, a ponto de desferir um soco no rosto daquela endemoninhada, quando de repente percebeu que

acabava de se tornar um ser perigoso. Uma

acusação de "diabólico" era certamente grave; mas muito mais grave ainda era incitar involuntárias adesões. Já podia ver-se

fugindo de Pádua, perseguido por uma

turba de demoníacos adeptos.

Antes que a versão de Beatrice se propagasse como sementes ao vento, o anatomista decidiu solicitar uma viagem em comissão

para Veneza, até que as águas de Pádua

se acalmassem. E para justificar a viagem ante si mesmo, e não perder de vista o propósito que o guiava, aferrou-se a uma

premissa de Paracelso:

"Como pode alguém curar as doenças da Alemanha com medicamentos que Deus pôs na beira do Nilo?"1 Aquela frase o conduziria

à mais estapafúrdia peregrinação.

nota. Paracelso, escritos.


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II

Viajou a Veneza. Esteve recolhendo e selecionando as ervas que brotam na campina, o limo deixado pela crescente noturna

ao pé das escadas quando as águas se retiram,

e até os cogumelos fedorentos que se desenvolvem com o adubo fértil dos nobres dejetos provenientes dos aquedutos dos palácios.

Estava a ponto de preparar uma poção

quando chegou ao seu conhecimento a notícia de que Mona Sofia, quando pequena, fora comprada na Grécia. Antes de partir

para os mares egeus, flagelou o seu já ferido

espírito contemplando furtivamente os passeios de Mona pela Piazza de San Marco. Oculto atrás das colunas da catedral, o

anatomista observou-a passeando a sua arrogante

beleza, deitada na liteira transportada por seus dois escravos mouros. Vinha sempre precedida por uma cadela da Dalmácia,

que marcava o passo da escolta. Antes de

partir para a Grécia, ele se mortificou contemplando aquelas pernas torneadas como a madeira, os mamilos que tremiam junto

com o pulso dos servos morenos e assomavam

no abismo do decote. Antes de partir para a Grécia, flagelou ainda mais as doloridas espáduas do seu espírito contemplando

aqueles olhos verdes a embaçar o brilho

da esmeralda pendurada entre as sobrancelhas.

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AS ERVAS DOS DEUSES

I

No colar de ilhas que circundam como pérolas a península, Mateo Colombo coletou as plantas



com cuja seiva iria preparar as infusões. Em Tessália colheu o meimendro,

sob cujo devaneio as antigas sacerdotisas de Delfos faziam suas profecias; na Beócia, as frescas folhas da atropa; em Argos

exumou a raíz da mandrágora - cujo sinistro

antropomorfísmo Pitágoras descrevera -, tomando a precaução de tapar os ouvidos, pois que, como sabiam todos os coletadores,

caso se a exumasse sem perícia nem cuidado,

os guinchos agônicos da planta poderiam levar à loucura; em Creta recolheu sementes da dutura metei, mencionada nos antigos

manuscritos sânscritos e chineses e cujas

propriedades foram descritas por Avicena, no século XI; em Quio, a temida dutura ferox, um afrodisíaco tão poderoso que,

pelo que contavam as crônicas, podia fazer

a vara estourar, provocando a morte por perda de sangue. E se certificou de que todas e cada uma das ervas, raízes e sementes

estivessem em

bom estado.


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II

Em Atenas, na subida do monte da Acrópole, Mateo Colombo soube o que era o



"bom, Belo e Verdadeiro". Ébrio de helênica "Antigüidade" - além de certa cannabis que

Galeno descrevera, misturada com beladona - e de um paganismo inédito, descobriu, de pé como estava sobre o monte da Acrópole,

as misérias da Rinascitá. Encontrava-se

no berço dourado da genuína "Antigüidade". Lá, na subida do monte da Acrópole, abriu a saca que continha todas as ervas

dos deuses e se certificou de que estivessem

em bom estado. Primeiro comeu o cogumelo da amarita muscaria; e pôde ver o Princípio de Todas as Coisas: viu Eurínome erguer-se

das trevas do Caos; viu-a bailando

a dança da Criação enquanto separava os mares do firmamento e dava início a todos os Ventos. Então ele, o anatomista, foi

Pelasgo, o primeiro de todos os homens.

E Eurínome ensinou-o a se alimentar: a Deusa de Todas as Coisas estendeu-lhe a palma da mão cheia de sementes vermelhas

de Clávicepspurpúrea. E então comeu daquela

semente e foi o primeiro dos filhos de Cronos. Deitado de costas na subida do Monte de Todos os Montes, pensou que aquela

sim era a vida; a morte não passava de

um sonho horrível. Sentiu uma pena infinita dos pobres mortais. Acendeu então uma pequena fogueira e fez arder folhas de

beladona, cuja fumaça respirou longamente:

junto a si podia ver as mênades das orgias dionisíacas; podia tocá-las e sentir aqueles olhares de fogo; podia ver como

lhe esticavam os braços. Encontrava-se nas

tripas da Antigüidade, às portas de Elêusis celebrando

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e agradecendo aos deuses o presente da semeadura da terra.



Não era preciso remexer na lama milenar, não havia que procurar em arquivos ou bibliotecas; ali, diante dos seus olhos,

estava a pura Antigüidade Helênica; dentro

dos seus pulmões achava-se o ar que Sólon e Pisístrato haviam respirado. Tudo estava na superfície, sob a luz do sol; ele

não tinha que traduzir manuscritos ou decifrar

as ruínas. Qualquer daqueles camponeses que caminhavam sobre a linha do horizonte estava talhado pela mão de Fídias; os

olhos de qualquer simplório tinham o mesmo

brilho que o olhar dos Sete Sábios da Grécia irradiava. O que era Veneza, o que era Florença, senão grosseiros e pretensiosos

arremedos? O que era a Primavera de

Botticelli em comparação com aquela paisagem que se lhe oferecia ao pé do monte da Acrópole? O que eram os Visconti de Milão

ou os Bentivoglio de Bolonha; o que

eram os Gonzaga de Mântua ou os Baglioni de Perusa; o que eram os Sforza de Pesaro ou os próprios

Médici, comparados

com o mais pobre dos camponeses de Atenas?

Todos aqueles novos senhores não possuíam outra genealogia ou nobreza além da adventícia heráldica que os seus prepotentes

condottierí lhes conferiam. Até o mais

indigente mendigo do porto do Pireu tinha o nobre sangue de Clístenes. O que era o grande Lorenzo de

Médici ao lado de Péricles? Perguntando-se tudo isso, na subida

do monte da Acrópole, adormeceu profunda e placidamente.

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II
Mateo Colombo acordou, no dia seguinte, encharcado de um orvalho gélido. Ao seu lado viu os restos da pequena fogueira.

Tentou levantar-se, mas seu equilíbrio era

tão frágil que rolou pela ladeira até o pé do monte. Sentia uma horrorosa dor de cabeça. Contudo, lembrava perfeitamente

dos fatos do dia anterior. A rigor, aquelas

lembranças eram mais claras que a paisagem que agora se oferecia, nublada e confusa, diante dos seus olhos: nada mais que

um campo ermo, salpicado de penhascos inóspitos:

aquela era a sua ansiada "Antigüidade". Sentiu uma vergonha profunda de si mesmo; suas mãos não eram suficientes para benzer-se,

nem a alma para pedir perdão a Deus

- Único e Todo-Poderoso - por seu inexplicável arrebatamento pagão. Vomitou.

Mas não esquecia o motivo que o conduzira até a Grécia. No porto de Pireu esteve coletando tudo o que apresentasse forma

vegetal nos interstícios dos tijolos das

paredes dos prostíbulos e das tavernas em que, entre um copo e outro, os traficantes de mulheres mercadejavam.

Estava a ponto de misturar em proporções exatas as ervas, raízes, sementes e cogumelos, quando soube, pelos lábios do próprio

comprador, que Mona Sofia havia nascido

na Córsega. De modo que, seguindo o apotegma de Paracelso, viajou para a ilha dos piratas.

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IV

Mateo Colombo peregrinava com a mesma



devoção com que um penitente parte para a Terra Santa. Seguia os passos de Mona Sofia

com a mística adoração daquele que percorre a Via Crucis e, à medida que avança,

vão crescendo na mesma proporção a sua veneração e o seu martírio. Esperava encontrar a chave da Revelação do Mistério que,

a cada passo, parecia estar mais distante.

E enquanto errava em direção aos tenebrosos mares de Gorgar o Negro, poderia ter escrito como o seu xará de Gênova à rainha:

"Em muitas jornadas de espantável tormenta

não vi o sol, nem as estrelas do mar: as naves apresentavam aberturas, quebradas as velas, perdidas as âncoras e enxárcias

e bastimentos. As gentes, enfermas. Todos

contritos, muitos com promessa de religião, confessavam-se uns aos outros. A dor me arrancava a anima. A pena me arranca

o coração. Bem fatigado estou. Do mal se

me refresca a chaga. Ando sem esperança de vida. Olhos nunca viram o mar tão alto, horrendo e espumoso. Aquele mar feito

de sangue, fervendo como uma caldeira

com

grande fogo. Céu tão espantoso jamais foi visto."



E com a mesma e desesperada amargura, Mateo Colombo vagava a bordo de uma goleta frágil como uma casca de noz, que esteve

a ponto de se destroçar contra as rochas.

O anatomista não conseguiu sequer chegar às costas da Córsega, porque os piratas de Gorgar o Negro assaltaram a goleta e

roubaram e mataram toda a tripulação e boa

parte dos passageiros. Por milagre conservou a vida: Gorgar o Negro,

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na abordagem, havia-se ferido num pulmão, e Mateo Colombo curou-o e salvou-lhe a vida. Por gratidão o pirata deu-lhe a liberdade.



com o ânimo ainda conturbado pelas ervas dos deuses do Olimpo, com o corpo doente pelo frio e a umidade,

com a alma alquebrada, Mateo Colombo

regressou a Pádua.

O acaso haveria de revelar-lhe que podia-se chegar ao Oriente navegando em direção ao Ocidente. Como um buscador de especiarias

que desse acidentalmente

com a mais

esplendorosa jazida de ouro, da mesma forma, tal como o seu xará genovês, Mateo Colombo iria descobrir a sua "América".

O destino lhe demonstraria que, para chegar

com sucesso a Veneza, teria que passar antes por Florença, e que, para governar o coração de uma mulher, teria que conquistar

primeiro o de outra mulher. E assim

ocorreu.
SEGUNDA PARTE

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INÊS DE TORREMOLINOS



I

De volta a Pádua, esperavam-no duas notícias: uma boa e outra ruim. A ruim dizia respeito aos ânimos do reitor.

- Muitas coisas falam sobre vós em Pádua - começou a dizer-lhe Alessandro de Legnano. - E decerto nada de

bom.


O reitor informou ao anatomista que Beatrice, a rapariga do prostíbulo da Taverna dil Mulo, havia sido levada a julgamento e queimada por bruxaria.

- Mencionou-vos em sua declaração - disse laconicamente o reitor.

Mateo Colombo ficou em silêncio.

- Por mim - continuou o reitor -, eu vos entregaria à Inquisição hoje mesmo - disse, e viu como seu interlocutor empalidecia. - Mas a sorte parece estar do vosso

lado.

Então lhe comunicou que um certo abade, parente dos Médici, mandara chamar o anatomista a Florença. Uma dama castelhana - viúva de um nobre senhor florentino, o



marquês de Malagamba - estava agonizando, e um altíssimo duque próximo dos

Médici contratara os serviços do anatomista. Pagara mil florins adiantados e mais outros

quinhentos para o caso de precisar da colaboração de um aprendiz ou

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ajudante. O reitor considerou justa a sua proposta de arquivar o assunto de Beatrice e os testemunhos de Laverda e Calandra em troca dos honorários oferecidos ao

seu catedrático.

- Partireis amanhã mesmo para Florença - concluiu Alessandro de Legnano, e antes de dispensar Mateo Colombo acrescentou: - Em relação ao aprendiz, Bertino viajará

convosco. Está decidido.

De nada valeria um protesto. Mateo Colombo limitou-se a assentir; de fato, o reitor não lhe dava margem alguma para negociar. Bertino chamava-se Alberto e usava

o sobrenome do reitor. Ninguém sabia ao certo que parentesco os unia. Mas Bertino, que funcionava como os olhos e os ouvidos de Alessandro de Legnano e era um jovem

um pouquinho mais idiota que o seu protetor, iria tornar-se a sombra do anatomista em Florença.


II


Inês era a mais velha das filhas do nobre matrimônio que haviam constituído dom Rodrigo Torremolinos, conde de Urquijo e senhor de Navarra, e Isabel de Alba, duquesa

de Cuernavaca e condessa de Urquijo. Para frustração do pai, o casal não gerou filhos homens. De modo que a pequena alteza, em razão de sua feminina "primogenitura",

gozava inteiramente da potestas e da divitia. Tal avoengo e linhagem, contudo, contrastavam

com sua setemesinha saúde, sua pálida fragilidade e sua minúscula e

mórbida figura. Como se aquele corpinho fosse

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demasiadamente pequeno e prematuro para abrigar uma alma, a menina apresentava um aspecto francamente exânime, não como se a vida fosse abandoná-la, mas como se

nunca lhe

houvesse chegado. O berço, de frondoso capitel, que lhe fora construído pelo melhor marceneiro de Castela era tão imenso que a pequena Inês ficava invisível entre

as dobras da seda. Mal se revelava alguma evidência de vida nuns horríveis estertores que, sempre, pareciam ser os últimos. Assim que concluiu o berço, o marceneiro

começou a construir um pequeno ataúde. À medida que iam-se sucedendo os dias a menina perdia mais volume, se assim pudesse chamar-se aquela pura ausência. A ama-de-leite,

vendo que a pequena Inês não tinha forças nem para grudar-se ao mamilo, a desenganara definitivamente: a menina, pelo visto, iria receber o último sacramento antes

do primeiro. Entretanto, Deus sabe como, a pequena Inês sobreviveu. Pouco a pouco, tal como brotos ternos crescem do nada num galho seco, foi adquirindo a cor dos

vivos. Enquanto a pequena Inês ia crescendo, na mesma proporção, mas inversamente, a fortuna familiar definhava. As oliveiras e as videiras da nobre casa, que outrora

foram as mais esplêndidas e generosas de toda a península, e de cuja abundância o escudo familiar dava testemunho, foram devastadas pela voracidade de uma súbita

peste que, de um dia para o outro, arrasou com tudo o que apresentasse a mínima vontade de verdor. Dom Rodrigo, arruinado, sem outra fortuna além do seu desconsolo

e seus títulos, amaldiçoava o ventre da esposa que, como os campos enfermiços que só produzem inúteis capinzais, fora incapaz de fazer
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um varão do seu sangue, apto, pelo menos, a trazer um dote para a casa. Estava comprovado que a duquesa só podia engendrar meninas esquálidas. Desesperado, dom Rodrigo

viajou para Florença a fim de pedir auxílio ao seu primo, o marquês de Malagamba, a quem, ademais do parentesco, uniu-o, outrora, o cultivo da oliveira. O nobre

espanhol implorou, rogou e até chorou. O marquês mostrou-se um homem de bem, propenso à compaixão e à misericórdia. Ofereceu-lhe consolo, palavras de ânimo e de

fé; quanto ao dinheiro, nem um só florim. Dom Rodrigo regressou a Castela desconsolado. Não obstante, no verão seguinte chegou um mensageiro à casa do contrariado

nobre castelhano. Trazia um recado do seu primo, o marquês. Para estupor do conde, o florentino pedia a mão da sua filha Inês e, em troca, oferecia a dom Rodrigo

a soma de dinheiro que este lhe pedira no inverno anterior. A proposta não carecia de motivo: o marquês, homem viúvo, não tivera descendência, de modo que necessitava

um meio para obter um varão legítimo, quer dizer, uma mulher. Por outro lado, a união

com a casa de Castela o beneficiava, pois que desse modo estenderia os seus

domínios até a península ibérica. O mensageiro partiu para Florença com o assentimento de dom Rodrigo. Inês, na época, tinha apenas treze anos.

Não houve cortejo nem sedução, não existiram cartas amorosas nem presentes, exceto o que consistia na própria Inês, ofertada por seus pais, que foi enviada a Florença

- onde seu esposo a esperava com uma escolta formada por membros de ambas as casas. O marquês era da nobre raça de Carlos

Magno,


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e a impressão que Inês teve na primeira vez que o viu foi de que o florentino trazia em sua própria pessoa o volume de todos os ilustres antepassados e a idade

de todas as insignes gerações carolíngias. Nunca imaginara que seu marido fosse um homem velho e obeso, embora tampouco o contrário.

Inês foi uma boa esposa, que entregou ao marido toda a sua virtus in conjugio; sabia ostentar o avoengo e, sobretudo, a "casta", quer dizer, a cristã castidade marital.

Se a esposa, como ordenava o preceito apostólico, devia despojar-se de toda paixão e "usar do marido como se não o tivesse", para Inês, certamente, isso não foi

nada difícil; de fato, mal cabia no leito nupcial ao lado de seu incomensurável esposo. Não precisava refrear acessos de paixão nem de umidades baixas. Não sentia

a menor atração pelo marido e, a rigor, por nenhum homem. Diria-se que Inês jamais havia sentido qualquer inclinação para a sensualidade. Nada lhe provocava prazer

ou, sequer, repugnância. Nada sabia de gemidos, nem de ais, nem de noturnas impulsões. Durante todo o tempo que o matrimônio durou, o marquês tivera três ereções

senis, três vezes se conheceram e três vezes Inês pariu, sem jamais saber o que é o frenesi veneris. Como se uma maldição houvesse caído sobre a família, Inês, da

mesma maneira que sua própria mãe, não teve filho homem; todas foram meninas; pura e ressequida folhagem para a murcha árvore genealógica carolíngia. Uma quarta

ereção seria um milagre; de modo que, farto, indignado e desesperançoso, o marquês decidiu morrer. E assim fez.

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III

Inês era uma mulher muito jovem. Dedicava-se por completo à criação de seus três

deméritos, não sem algum pesar em memória do defunto, para quem não pôde realizar o desejo de formar

um elo na sua nobre genealogia. Seu espírito orientou-se inteiramente para a compaixão, a

misericórdia, a caridade e, sobre todas as coisas, Deus. Na intimidade da alcova,

escrevia um sem-número de poemas em Seu nome. Rezava. Era uma das mulheres mais ricas de Florença.

Enfrentava a viuvez com uma só mágoa: não ter cumprido com a santidade

conjugal, cujo padrão de medida é a glória que um filho varão representa. De resto, não

precisava de outro amor senão o de Deus. Não se via desprovida do consolo de um homem; não ansiava doces prazeres nem era invadida por obscuros ou pecaminosos pensamentos

porque, a rigor, nunca soube dos primeiros, de modo que sequer podia imaginar os segundos.

Todos os bens que Inês havia herdado não eram suficientes para atenuar a mágoa de ter sido incapaz de dar um varão ao seu finado esposo. De modo que, para moderar

seus pesares e - sobretudo - para saldar a própria culpa em memória do marido, decidiu vender as oliveiras, as videiras e os castelos, e

com esses fundos construir

um monastério. Assim, mediante uma existência de castidade e celibato, haveria de cumprir o mandato

conjugal, servindo aos filhos que seu ventre não soubera engendrar:

a irmandade monástica e os pobres. E assim fez.

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Inês parecia avançar sem obstáculos em direção à santidade, até que - é justo

dizê-lo agora - um homem se interpôs entre a sua diáfana vida e a glória eterna: Mateo

Realdo Colombo.

IV

Bem perto esteve de acabar seus dias como uma verdadeira santa. No verão de 1558 sua saúde deteriorou-se em razão de uma enfermidade desconhecida. Retirou-se então



com as três filhas para uma casa simples, junto ao monastério que havia erguido, e decidiu aguardar a morte

com cristã resignação.

O espírito de Inês havia-se tornado, progressivamente, sombrio e pessimista; ela se encerrou num mundo escuro e tormentoso. Qualquer acontecimento mais ou menos

incomum, ou mesmo trivial e cotidiano, constituía para ela um sinal dos mais negros augúrios; se os sinos do convento tocassem por algum motivo, não podia furtar-se

à idéia de que tocavam pela morte de alguma de suas filhas. Temia pela saúde do abade - que, aliás, era exultante - e, a rigor, pela de todos os que estavam ao seu

redor. Qualquer resfriado corriqueiro revelava, sem nenhuma dúvida, uma pneumonia fatal de breve desenlace.

com o tempo, esses temores voltaram-se para o seu próprio

espírito, e ela começou a suspeitar de que estava padecendo as mais graves doenças; uma simples irritação na pele era o sintoma que antecedia o próximo desencadeamento

da lepra. Sentia-se espreitada pela morte. Padecia de intermináveis insônias, em cujo

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tenebroso decorrer seu coração parecia querer sair do peito; sofria de angustiosos sufocamentos, que a submergiam na certeza de uma asfixia mortal; e era sobressaltada

por súbitos arrebatamentos de suores frios. Na solidão do leito, imaginava como seria o próprio corpo depois de morta e via-se atormentada pela idéia da decomposição

de sua jovem matéria. Em breve, todos esses angustiosos mal-estares foram se estendendo para além da fronteira da noite e se instalaram por completo em sua vida.

Pouco a pouco, em função das vertigens que pareciam amolecer o chão sob os seus pés, ínês decidiu refugiar-se definitivamente na cama, à espera do que Deus dispusesse.

Mas não encontrava tranqüilidade ou consolo nem mesmo em Deus, o que contribuía ainda mais para o seu tormento, pois isso a defrontava

com a própria e devota consciência

e sequer podia esperar a morte com cristã resignação, ínês exibia um aspecto francamente agônico.

Vendo que a saúde de ínês se quebrantava definitivamente, o abade lembrou-se de que em Pádua um cirurgião salvara miraculosamente a vida de um agonizante, fato que

na época havia sido muito comentado. De modo que, sem hesitar, intercedeu junto ao seu ilustre primo do círculo dos

Médici, o qual, sem medir gastos, fez-lhe chegar

mil florins para os honorários

da eminência e outros quinhentos para a viagem

e outros imponderáveis que pudessem ser suscitados.

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O DESCOBRIMENTO

Um homem a cavalo atravessou a todo galope as estreitas ruas de Pádua. Em sua passagem, derrubou a banca de um vendedor da Piazza dei Frutti - que nem teve tempo

de xingá-lo -, deixando um tabuleiro de laranjas rolando rua abaixo. O cavalo estava encharcado de suor e soltando espuma pela boca; vinha galopando desde o outro


: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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