O anatomista



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com aqueles olhos de lágrimas ausentes e um sorriso

giocondesco, olhava para ela e sussurrava:

- Já terminastes, madonna Creta?

Madonna Creta determinou que, se a pequena era suficientemente adulta para fazer ouvidos moucos às suas lições, também deveria

sê-lo para ganhar a própria comida.

De modo que, antes do previsto, foi à casa do messere Girolamo di Benedetto informarlhe de sua nova pupila.

Messere Girolamo era um dos mais prósperos fabricantes de seda de Veneza e havia sido prior da corporação até o ano anterior.

Como já era um homem velho, decidira

retirar-se da vida pública e dedicar-se por completo ao ócio, começando desse modo a usufruir dos poucos anos que lhe restavam.

A rigor, nunca havia-se dedicado

a coisa diferente da folgança, só que agora, em vez de jogar baralho

com os colegas em seu gabinete na corporação, fazia-o em seu acolhedor palácio. Messere Girolamo

di Benedetto tinha dois fracos: o jogo e as crianças. Naturalmente,

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jamais toleraria que o chamassem de pederasta. Afinal, o que havia de mau em amar as crianças e ajudá-las um pouco financeiramente,

sobretudo quando os pais da criatura

em questão eram pobres?

O preço que madonna Creta exigia pareceu-lhe alto demais, mas não opôs nenhuma objeção; o que não lhe faltava era dinheiro,

e nem mesmo se quisesse conseguiria gastá-lo

todo nos anos de vida que lhe restavam. E muito embora ainda conservasse o costume de pechinchar, em questões tão delicadas

preferia não medir gastos. Só pediu a

madonna Creta uma descrição detalhada da menina. Messere Girolamo di Benedetto ouvia

com o olhar perdido e parecendo antecipar o deleite. Houvesse sabido o que

a pequena Ninna iria deparar-lhe, messere teria preferido morrer naquele mesmo dia.

IV

Tal como concertara com madonna Creta, messere Girolamo chegou ao bordel na hora marcada.



com a antecedência justa para dispor do tempo que demanda entrar no bordel

sem ser visto por ninguém. Esperou que passassem alguns transeuntes e teve que se deter na porta de uma loja até que duas

mulheres terminassem de uma vez o colóquio

iniciado a poucos passos da entrada do puteiro. Quando as mulheres se despediram, esperou que se distanciassem o suficiente,

ajeitou o chapéu de modo a que a aba

lhe cobrisse o rosto e, finalmente, com passo ligeiro, chegou ao pequeno átrio da casa.


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Com um gesto involuntariamente depreciativo, messere Girolamo di Benedetto recusou o copo de vinho oferecido por madonna

Creta. Queria ir aos fatos o quanto antes.

Seu decrépito coração batia agora com uma súbita força juvenil. Oportunidades assim não se apresentavam todos os dias. Seu

amor pelas crianças lhe dera mais de

uma dor de cabeça; em duas ocasiões foi acusado publicamente de abuso de infantes e, apesar de ter, felizmente, dissuadido

os denunciantes, mediante suculentas "atenções",

de avançarem até os tribunais, muito se falava em Veneza sobre os gostos de messere Girolamo. Mas madonna Creta era uma

garantia de silêncio. Seu negócio era, precisamente,

a discrição. Por esse mesmo motivo, ele quase não sentiu pena quando terminou de pagar-lhe os vinte ducados que haviam estabelecido.

Madonna Creta conduziu-o até a alcova preparada para a ocasião. De pé no vão da porta, a anfitriã convidou messere Girolamo

di Benedetto a entrar e, antes de deixá-lo

a sós com a pequena, disse amavelmente:

- Desfrutai, mas cuidai-vos de machucá-la.

Quando messere Girolamo di Benedetto viu a pequena Ninna, seus olhos se iluminaram. Era um verdadeiro sonho contemplá-la

deitada sobre o ventre e completamente nua.

A primeira coisa que messere fez foi dar-lhe umas palmadinhas leves nas nádegas e passar os dedos decrépitos e sarmentosos

nas suas coxas roliças. Deixou cair um

fio de saliva espessa naquelas costas pequenas e a espalhou com a palma da mão. Ninna não mostrava nenhuma resistência e

até sorriu ternamente quando o ancião,

completamente extasiado,

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sentou-a no colo. Fazia muitos anos que a vara de messere Girolamo di Benedetto não se erguia e, assim que notou aquele

tão ansiado acontecimento,

concluiu que a pequena Ninna era um verdadeiro milagre. É verdade que não se tratava de uma daquelas ereções que podia exibir

com orgulho durante a juventude, mas

aquilo, naturalmente, era melhor do que nada. Pegou a pequena pelos sovacos, levantou-a no ar e pousou as diminutas nádegas

de Ninna sobre a sua vara, que formava

um modesto promontório

no lucco de lã que ainda estava vestindo. Fazia muito tempo que não se excitava tanto. Ninna, quando descobriu a protuberância

sobre a qual estava sentada,

esfregou-se como um gato, coisa que inflamou ainda mais o ancião, que, impaciente, dobrou o lucco para cima da barriga e,

segurando a vara entre as mãos, exibiu-a

para os olhos da menina. Ninna examinou aquela coisa roxa que o velho esgrimia e imediatamente estendeu a mão naquela direção.

Tão pequena era a mão da menina que

nem sequer conseguiu abarcar a metade do diâmetro da glande.

- Você não vai dar um beijinho no meu amigo? perguntou o ancião, e Ninna, ao que parece, achou engraçado como o "seu" cliente

havia chamado aquela coisa, pois este

a viu esboçando um sorriso que o velho achou francamente lascivo. Era a palavra certa: "lascívia"; jamais vira tal disposição

luxuriosa numa menina. E, a rigor,

se um intruso houvesse presenciado a cena, certamente pensaria que a pequena Ninna estava praticando a "corrupção de anciãos".

Tal como messere Girolamo di Benedetto

havia pedido, ela aproximou sua boca do membro do cliente - que,


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agora sim, estava duro e completamente ereto, mais do que jamais havia estado, mais até do que chegara a estar nos dias

de juventude - e beijou-o

com os lábios,

como a sua ama-de-leite Oliva lhe ensinara a beijar as faces de Donna Sidonna, ato ao qual, por outro lado, sempre havia-se

negado. Como faria uma mulher adulta,

Ninna fechou os olhos e passou os lábios ao redor da glande. O velho estava

com os olhos revirados e tremia como uma folha. Como se, em vez de ter sido criada

com leite do peito, sempre houvesse se alimentado com leite de vara - ninguém lhe havia ensinado a arte da fellatio -, Ninna

abriu os lábios o quanto lhe permitiram

as comissuras e abocanhou a glande inteira. O velho não podia acreditar no que estava vendo.

- Pequena puta - sussurrava -, pequena filha de sete castas de putas.

E quanto mais ele falava, com a pequena fitando-lhe os olhos com os seus, verdes e repletos de longos cílios, mais dentro

da boca ela o metia. Então Ninna sentiu

uma convulsão no tronco daquilo que estava abocanhando. Naquele preciso momento, mordeu

com toda a força da sua mandíbula, enfiou os dentes até as gengivas e deixou-se

cair da cama ao chão. Ficou alguns instantes suspensa no ar, pendurada pela boca na vara do ancião, até que finalmente chegou

ao solo. Messere Girolamo di Benedetto

nada entendeu, até que viu uma cascata de sangue jorrando do tronco da vara. Só então percebeu, como se se tratasse de uma

alucinação, que a glande já não estava

lá. A pequena olhou para o velho com um sorriso angelical, a mastigar o pedaço de carne, e seus olhos

descreveram

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uma parábola ao vê-lo cair de costas no chão. As pernas - tesas como as cordas de um alaúde - formaram um V por cima da



cama, coisa que Ninna achou extremamente

engraçado.

Quando transcorreu o tempo estabelecido, madonna Creta entreabriu a porta e, ainda do outro lado, murmurou:

- O tempo acabou, messere; espero que não tenhais machucado a pequena.

Madonna Creta tropeçou com o cadáver do cliente e, antes de conseguir agarrar-se em alguma coisa, escorregou no sangue que

cobria o chão da alcova e caiu junto

ao morto. Ninna, sentada num ângulo do aposento, ainda mastigava o seu quitute e mostrava-se feliz

com o trabalho precoce. Sorriu para madonna Creta, como a dizer:

"Está satisfeita, é assim que devo ganhar a comida?".

Naquele mesmo dia, Ninna Sofia encontrou o seu caminho.

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O FAZEDOR


I

Tomada de pânico, madonna Creta embrulhou o cadáver de messere Girolamo di Benedetto num lençol, pôs a menina debaixo do



braço e subiu a bordo de uma pequena gôndola.

Após pagar em moeda o silêncio do absorto gondoliere, lançou pela borda o finado castrato e a menina no lugar menos transitado

do Canale Grande.

Como se o seu destino estivesse escrito, o exausto corpinho de Ninna Sofia foi parar na Riviera di San Benedetto, exatamente

à beira do cais que levava às escadarias

do átrio da Scuola que, trinta anos antes, Mássimo Troglio fundara.

Mássimo Troglio era o fattore dei putanne mais prestigiado de toda a Europa. É verdade que comprava, vendia e também roubava

como qualquer traficante. Mas aquilo

era apenas o começo de uma longa e laboriosa tarefa, o primeiro elo de um custosíssimo e proporcionalmente rentável ofício.

Mássimo Troglio era, eminentemente, um

pedagogo, mistura do pior pederasta e do mais sublime mestre.

- Fattore - como alguns o chamavam - era o fundador da mais prestigiosa Scuola

di Puttane; pai, por assim dizer, da raça de putas mais sublimes de Veneza, da própria

Lena Grifa e de todas as putas que

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adornaram a côrte dos Médici, das putas que cativaram os corações de monarcas e arcebispos, de todas as putas em cuja honra



se levantaram os palácios mais faustosos

de Veneza.

Nem mesmo uma imperatriz recebia educação igual à da menos ilustrada das putas de Mássimo Troglio. As mais jovens, como

a pequena Ninna Sofia, eram objeto dos mais

delicados cuidados. As madonnas - putas mais velhas - exerciam a tutela das de idade mais tenra. Encarregavam-se de banhá-las

com leite de loba, pois que a água

era proibida desde as grandes pestes, e, como predicava Mássimo Troglio, o leite de loba estimulava o crescimento e evitava

a decrepitude; esfregavam-lhes saliva

de égua na pele para impedir que as carnes crescessem flácidas; e, um dia por semana, faziam-nas dormir no chiqueiro

com os porcos para que aprendessem a suportar

os fedores mais repugnantes e as companhias mais ingratas.

Mássimo Troglio foi autor de Scuola di Puttane1, uma sucessão de 715 aforismos divididos em sete livros - inspirado, sem

dúvida, nos Aforismos de Hipócrates.2 Entre

outras coisas, sustentava que as putas melhores e mais leais eram as meninas nascidas de:

1. Marceneiro e ordenhadora; 2. Caçador e mulher mongólica, preferentemente chinesa; 3. Marinheiro e bordadeira.

Afirmava também que "uma mulher pode conceber um filho de até sete homens, cujos sucos

seminais

nota. Scuola di Puttane, Veneza, 1539.

2. A estrutura de Scuola di Puttane é idêntica à dos aforismos de Hipócrates. Assim como estes, apresenta a mesma quantidade

de aforismos por cada livro. O estilo,

por outro lado, é notável e deliberadamente semelhante.

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se unem no útero e combinam-se entre si segundo a força seminal de cada um dos pais".

"A arte do Fazedor de Putas é a arte mais sublime; mais que a do perfumista, mais que a do próprio alquimista; como estes,

unimos as essências mais nobres

com as mais vis, as mais antagônicas e as mais simpáticas."

Mássimo Troglio mostrava-se particularmente interessado na pequena que o céu lhe ofertara. Para que não restasse qualquer

dúvida de que era uma das suas pupilas,

tirou-lhe a pulseira e mandou fazer uma outra - de ouro com rubis -, onde constava o seu novo e definitivo nome: Mona Sofia.

Poucas vezes vira uma garota de caráter

semelhante, tanta e tão precoce inteligência e, sobretudo, dotada daquela singular e extraordinária beleza. Mona Sofia era

a síntese de todas as putas num corpo

de menina, uma espécie de extrato de puta em estado puro. Contudo, não estava isenta dos dois grandes e, certamente, misteriosos

problemas que um mestre de putas

deve enfrentar: o amor e o prazer. Mássimo Troglio jamais tinha visto um ódio tão incomensurável como o que a menina lhe

dedicava, não porque lhe preocupasse ser

objeto daquele sentimento mas porque, como a experiência lhe ensinara - e assim testemunha o aforismo IX -, "quanto mais

propensa a odiar for uma mulher, mais propensa

a amar". A segunda preocupação não era, intrinsecamente, a ausência de qualquer manifestação de dor, mas a suspeita de que,

por trás daquela máscara de insensibilidade,

quanto mais intensa fosse a dor para Mona Sofia, mais intenso seria o prazer que esta lhe provocava. E, assim, os primeiros

ciclos

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de formação de uma puta não tinham outro objetivo imediato senão a interdição do amor e do prazer. O investimento era demasiado



grande e paciente para um belo dia

ver a ingrata - como havia acontecido mais de uma vez - partir apaixonada por algum homem. Entre outros aforismos, Mássimo

Troglio escreveu:

* Corromper é mais difícil do que educar.

* É mais fácil substituir um sistema moral por outro do que despojar alguém de sua moral.

* A educação baseada na moral favorece a formação de putas.

* Tanto quanto o filósofo, o mestre de putas deve ser o veículo da moral.

* É mais conveniente para o monarca a existência das putas por dinheiro do que a existência das putas por prazer.

Mássimo Troglio fundamentava toda a sua teoria nos cânones helênicos. Os apotegmas que guiavam a sua pena e, conseqüentemente,

a sua prática eram - como não podiam

deixar de ser - os da Metafísica de Aristóteles. Aristotélica era a sua concepção da mulher e do homem, e aristotélico,

evidentemente, o seu juízo sobre a procriação;

hauria também na fonte aristotélica para explicar de que maneira "o homem há de servir-se, por causa natural, do proveito

da mulher". No capítulo "Da monstruosa

condição feminina", dizia: "Como ensinou o mestre Aristóteles, o esperma do homem é a essência, a potencialidade essencial

que transmite a virtualidade formal do

futuro ser. O homem traz em seu sêmen o hálito, a forma, a identidade, ou seja, a kinesis que faz da coisa

matéria viva.

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O homem, enfim, é quem dá alma à coisa. O sêmen tem o movimento que seu progenitor lhe imprime, é a execução de uma idéia



que corresponde à forma do

próprio genitor, sem que isto implique transmissão de matéria por parte do homem. Em condições ideais, o futuro ser tenderá

à identidade completa

com o pai. A mulher

proporciona o sustento material no seu sangue, a corporeidade, a carne que envelhece, corrompe e morre. A essência da alma

é sempre masculina. Como o Mestre ensinou,

a procriação de meninas é, em todos os casos, produto da fraqueza do progenitor em razão de doença, velhice ou precocidade.

"A mulher sempre fornece a matéria e o homem, o princípio criador: para nós esta é,

com efeito, a função própria de cada um deles, e isto é ser fêmea e ser macho.

É necessário, também, que a fêmea ofereça um corpo, uma determinada quantidade de matéria, ao passo que isto não é necessário

para o macho: não é necessário que

os instrumentos existam nos produtos que são fabricados, nem que neles exista o agente que os faz."

Essas afirmações de Mássimo Troglio não constituem apenas uma noção da concepção, mas também

- e sempre sob a tutela intelectual de Aristóteles - da própria genealogia do ser vivo: "o sêmen é um organon que possui

movimento em ato".3 "O sêmen não é uma parte

do feto em formação; assim como nenhuma partícula de substância passa do marceneiro para o objeto que ele elabora e vai

unir-se à madeira, nenhuma partícula de sêmen

pode tampouco intervir na composição do embrião."

nota. Aristóteles, VII, 9, 1034b.

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E exemplifica: "A música não é o instrumento, nem o instrumento é a música. No entanto, a música é idêntica à idéia prévia



do autor."

Pode-se deduzir o cerne da teoria de Mássimo Troglio: a propriedade, a potestade paterna, o direito à posse da descendência

pelo autor, isto é, o pai. Assim como

está claro que o propósito de Aristóteles não era outro senão a reafirmação do Direito grego.

A mulher, diz a teoria, fica como um simples resto, cuja essência é aquele sangue que vaza uma vez por mês: uma massa de

líquido cru, impuro, não-elaborado, inerte

e amorfo, mas, evidentemente, tocado pelo hálito, a kinesis, do seu fraco progenitor.

De modo que esta última revelação aristotélica é o que lhe proporciona o método, o modo de produção e apropriação de mulheres.

Mona Sofia era a mais bela e a mais prematuramente desenvolvida das discípulas de Mássimo Troglio. Demonstrava, além disso,

uma precoce disposição para o ofício.

Tinha uma sensualidade infreqüente para uma menina da sua idade. Quando Mona fez seis anos, Mássimo Troglio determinou que

a pequena já podia iniciar a segunda etapa

da sua formação.

Na Scuola di Puttane as pupilas recebiam educação religiosa desde muito cedo, ensinavam-lhes mitologia antiga e aprendiam,

naturalmente, a ler e escrever, não só

em italiano, mas também em grego e latim. A Scuola era, eminentemente, uma instituição renascentista, tão prestigiosa como

qualquer uma das numerosas escolas de

pintura da Itália. De fato, a Scuola recebia um subsídio da Prefeitura e cada uma das pupilas tinha o estatuto de funcionária

pública.

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Mona era fascinada pelas histórias que Filipa, sua preceptora, lhe contava. Toda vez que ouvia como a baleia engolira Jonas



inteiro, ela arregalava desmesuradamente

os olhos e obrigava Filipa a omitir as partes supérfluas do relato e a dizer de uma vez qual tinha sido a sorte do herói.

Tudo ia muito bem até que Filipa começava a fazer-lhe acusações. Mona negava qualquer participação na crucificação de Nosso

Senhor Jesus Cristo e lhe parecia intolerável

a imputação de que Ele houvesse morrido por sua causa. Afinal, quem era ela?, que importância podia ter a sua insignificante

existência na sorte de, nada menos,

o Salvador?

Também declarou-se isenta de toda culpa e cumplicidade nos pecados de Eva, a quem, por outro lado, declarou jamais ter visto.

Não obstante, e a contragosto, terminava

por assentir, inclinando a cabeça sem muita convicção, porque era capaz de tolerar qualquer coisa menos os agudíssimos gritos

de Filipa, que lhe destroçavam os tímpanos.

II

Mássimo Troglio - por seu mérito, ou, talvez, à sua revelia - fez de



Mona Sofia sua obra mais sublime. Dez anos de educação e cuidados haviam

dado seu fruto: ela era a mulher mais bela de Veneza. O Fazedor soube

ser paciente; quando sua pupila completou treze anos, anunciou-lhe que

havia chegada a hora da iniciação. Mona foi apresentada à sociedade na

festa di graduazione que, todo ano, Mássimo Troglio

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dava em seu palácio. Tratava-se de uma cerimônia emotiva na qual cada formanda recebia sua nomeação como funcionária pública



das mãos de algum notável do Estado

da República. Quando Mona Sofia foi anunciada, fez-se um silêncio construído de veneração e estupor. A Vênus de

Médici era uma camponesa rústica em comparação

com aquela mulher que acabava de transpor a porta do salão.

De todos os pontos da Europa chegavam nobres senhores à Scuola e pagavam verdadeiras fortunas. Em menos de seis meses, Mássimo

Troglio havia recuperado até o último

ducado que investira em sua pupila. No transcorrer do primeiro ano, o Fazedor quintuplicou o total do investimento. O corpo

de Mona Sofia havia incrementado o patrimônio

de Mássimo Troglio em... dois mil ducados!
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A LIBERDADE

I

Foi durante o segundo ano a partir do dia da sua formatura que Mona Sofia apresentou-se na luxuosa scriptoria de Mássimo



Troglio. O Fazedor estava anotando a contabilidade

da Scuola, inclinado sobre um volumoso caderno de lombada dourada.

- Venho anunciar-vos a minha liberdade - sentenciou Mona Sofia, sem preceder suas palavras, sequer, de uma saudação.

O Fazedor levantou a vista dos assuntos que o ocupavam. Escutou claramente a frase mas não a

compreendeu, como se sua interlocutora acabasse de falar numa língua

desconhecida.

- Aqui vos deixo o documento que me torna independente do vosso patronato - disse, estendendo-lhe um pergaminho escrito

com tinta vermelha -, não é necessário que

vos incomodeis em levantar-vos, deveis apenas colocar aqui a vossa firma - acrescentou, depositando o pergaminho sobre a

escrivaninha do seu protetor.

Mássimo Troglio soltou uma gargalhada franca. Em sua longa vida ninguém lhe fizera um pedido - se assim pudesse chamar-se

a exigência da sua pupila de tamanho descaramento.

Havia sofrido, sim, com a fuga de mais de uma ingrata. Tivera que empregar

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castigos exemplares com alguma fugitiva recapturada a ablação de um dedo do pé era um corretivo usual -; mas que uma pupila



irrompesse em seu próprio escritório

com semelhantes pretensões era uma coisa, clara e simplesmente, estapafúrdia.

- Recordo que a Scuola tem seus estatutos e suas normas - começou a dizer Mássimo Troglio

com um sorriso afável e paternal -, de maneira que...

Antes que seu mestre pudesse terminar a frase, Mona Sofia sacou uma faca

com empunhadura de ouro e pousou a aguda ponta em seu próprio peito.

com absoluta parcimônia,

disse:


- Meu corpo pagou-vos sobejamente a educação que me prodigastes e, se vos compraz escutá-lo, agradeço-vos e ofereço toda

a minha veneração e o meu respeito. Mas

agora vos exijo que me outorgueis o que me corresponde: o meu corpo.

Mássimo Troglio ficou pálido e, a seguir, vermelho de cólera. Tentando manter a calma, interpôs:

- De nada me servirias morta. Posso, se realmente quiseres, assinar o que me exiges. Mas o que te faz pensar que eu não

haveria de recapturar-te

com o direito que

me outorga a lei? E sabes quais são os meus corretivos.

Mona Sofia sorriu.

- Não vos atreveríeis a mutilar um átimo do meu corpo. Eu sou vossa criação. Mas não pensai que sou ingrata; se lerdes o

pergaminho, vereis que me lembro bem de

vós: dar-vos-ei um décimo de todo o dinheiro que ganhar com o meu corpo, até o dia em que um dos dois morrer. A opção é

o dízimo que vos ofereço ou nada - disse,

enquanto enfiava um pouco

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a faca em seu próprio peito, fazendo uma gota de sangue rolar até o ventre.



Mássimo Troglio submergiu a pena no tinteiro e assinou o pergaminho. Mona Sofia ajoelhou-se a seus pés e beijou as mãos

do mestre, antes de deixar a Scuola para

sempre.

Sozinho em sua scriptoria, Mássimo Troglio chorou desconsolado. Chorava como uma criança.



Chorava como um pai.

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DE QUANDO MATEO COLOMBO CONHECEU MONA SOFIA

: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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