O anatomista



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Sabia, no entanto, que para Mateo Colombo não era preciso engalanar a mercadoria - engano, aliás, impossível

com um anatomista -, de modo que poupava o trabalho

de corar as faces, devolver o brilho aos olhos com terebintina e às unhas,

com verniz de ultramar.

Se o anatomista precisasse, por exemplo, examinar um fígado, Juliano Batista extirpava o órgão, recheava o espaço vazio

com uma estopa ou trapos, separava a mercadoria,

fechava o cadáver costurando-o com um fio de seda e, finalmente, vendia-o para outro cliente. Se um corpo estivesse irrecuperável,

Juliano Batista encontrava para

tudo um destino; coisa alguma era jogada fora: os cabelos para a corporação dos barbeiros, e os dentes, para o grêmio dos

ourives.


A dissecação de cadáveres era tão ilegal quanto corriqueira. A bula de Bonifácio VIII já não tinha, na prática, qualquer

vigência. Contudo, o reitor a mantinha em

atividade exclusivamente para Mateo Colombo. O anatomista bem sabia que Alessandro de Legnano fazia vista grossa para

com todos, inclusive os estudantes, menos

para com ele. De modo que devia agir com o maior dos cuidados.

Nos últimos tempos Mateo Colombo havia comprado cerca de dez cadáveres, todos pertencentes a mulheres. Confeccionava listas

escrupulosas dos corpos dissecados,

nas quais anotava: nome, idade,

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motivo da morte, descrição e até desenhos, não só dos órgãos examinados, mas também da expressão de cada um dos cadáveres.



Mas suas práticas eram mais inclinadas à carne viva do que à morta. Sobretudo a certa carne em particular, que, por outro

lado, não era em absoluto freqüente no

interior da Universidade, pois que era carne proibida. Interdição esta que o reitor se empenhava em fazer cumprir

com mais escrúpulos do que sucesso. Pelos estatutos

da Universidade, de fato, era taxativamente proibido o ingresso de mulheres. Contudo, por razões bem menos relacionadas

com os assuntos da ciência do que com os

ímpetos da carne, eram mais ou menos freqüentes as visitas furtivas de camponesas, vindas do

fics lindante à abadia, que vez por outra ofereciam uma noite de júbilo

aos doutores e alunos.

Uma das formas de entrar na Universidade - além de escalar os altos muros - era confundir-se entre os mortos que ingressavam

na morgue uma vez por semana, no interior

do carro público. Assim, ocultas sob um manto, as mulheres permaneciam quietas até ficarem sozinhas no subsolo da morgue,

onde eram recolhidas pelos seus amantes.

Certa vez, impaciente talvez pela longa e forçada continência, um prestigioso doutor despiu uma das camponesas ali mesmo,

na morgue, em companhia de todos os mortos,

e bem no momento glorioso de uma sublime fellatio o pároco da Universidade, que momentos antes vira entrar o "cadáver" que

agora gemia, gritava e se remexia, ingressou

no lúgubre subsolo. O ilustre doutor levou um momento para

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notar a presença do deífico visitante, que, absorto, contemplava tanto as esmirradas pernas do catedrático quanto a sua

não tão esmirrada vara palpitante esguichando

sobre os bem-proporcionados restos da "defunta". Quando, depois do último estertor, viu o pároco de pé no vão da porta,

só atinou a gritar,

com um trejeito desorbitado:

- Miracolo! Miracolo! - e de imediato começou a perorar sobre a sua recente confirmação das teorias aristotélicas acerca

do hálito que o sêmen transporta em seu

caudal, o qual, segundo o metafísico, produz a vida. E por que não? Se o sêmen é capaz de insuflar ânimo vital na matéria

e engendrar, como não haveria de ser possível,

pela mesma razão, que ressuscitasse

os mortos, argumentava ele enquanto ajeitava a

vara - ainda um pouco dura - por baixo das roupas. E após concluir esse enlouquecido solilóquio

perdeu-se

do outro lado da porta, correndo escadas acima

aos gritos de "Miracolo! Miracolo!".

O fato é que Mateo Colombo tinha suas boas razões para introduzir mulheres na Universidade. E, decerto, as mulheres que

o visitavam secretamente também tinham as

delas.


As mãos de Mateo Colombo sabiam tocar numa mulher, como as mãos de um músico sabem tocar seu instrumento. Os imprecisos

limites entre a ciência e a arte faziam de

suas mãos o instrumento mais sublime, mais elevado e mais difícil: a efêmera arte de dar prazer; disciplina que, como a

da conversação, não deixa traços nem testemunhas.


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IV


Era meio-dia quando messere Vittorio atravessou a porta da Universidade em direção à piazza. Sob aquele tépido sol de inverno,

os artistas ambulantes, entre uma

multidão de transeuntes ocasionais, ensaiavam torres humanas deliberadamente derrubadas. Mais adiante, em frente à praça,

um grupo de homens austeros - comerciantes

e senhores - fazia um círculo ao redor dos banditori que se revezavam para vociferar as proclamações do dia. Alguns passos

mais além, postavam-se os que preferiam

consultar os viajantes recém-chegados do outro lado do monte Veldo, que traziam notícias, verdadeiras ou não, ao menos mais

interessantes.

Messere caminhava num passo veloz. Passou por perto dos três cepos em que eram exibidos os ladrões do dia e teve de abrir

caminho entre a multidão de mulheres e

meninas que pugnavam para cuspir nos réus. No outro extremo da piazza, o último mensageiro que ainda não havia partido acabava

de fechar os alforjes e se dispunha

a montar em seu cavalo.

Ainda agitado, messere Vittorio chegou a ouvir as notícias proclamadas pelos banditori. Não pôde evitar uma horrorosa coceira

em seu próprio pescoço quando passou

pelos cepos. Se o bom tempo permitisse, em menos de um mês a carta chegaria a Florença. Àquela altura, salvo que se desse

um milagre, Mateo Colombo estaria morto.

Quis a fatalidade que o bom tempo se mantivesse.

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O NORTE

I

O claustro de Mateo Colombo era um recinto perfeitamente cúbico de uns quatro passos de lado. A pequena vigia que se elevava



acima da austera escrivaninha não tinha

vidro. A rigor, as únicas janelas que possuíam vidro eram as da reitoria e do salão magno. Embora o vidro fosse extremamente

prático

- sobretudo durante o inverno -, constituía um detalhe de péssimo gosto em comparação



com as refinadas sedas venezianas que guarneciam as aberturas. Precisamente

por isso, era muito fácil reconhecer as casas dos novos-ricos de Pádua; todas elas tinham as janelas protegidas por vidros

pintados. O fato é que a pequena janela

do claustro de Mateo Colombo era desprovida, também, de qualquer peça de seda; toda a sua proteção era um pano ordinário

que detinha o vento à custa de não deixar

entrar um mínimo de luz e, pelo contrário, se o anatomista precisasse de iluminação, teria, também, que suportar o vento,

o frio e, se além do mais chovesse, a água.

O cômodo - ao qual se acedia pela arcada que circundava o pátio estava dividido ao meio por uma estante que se erguia até

as penumbrosas alturas do teto. A metade

posterior do claustro era o dormitório: uma cama de madeira - evidentemente sem

capitel - e, ao lado dela,

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uma pequena mesa-de-cabeceira e um castiçal. Na metade anterior, diante da biblioteca e contra a parede adjacente à arcada,



ficava a pequena escrivaninha. Quem

entrasse pela arcada iria ver, então, uma escrivaninha ladeada por uma estante em cujas prateleiras repousava uma infinidade

de ferozes e estranhos animais dissecados

que, decerto, poderiam dissuadir um ladrão desprevenido de avançar além da porta.

Em sua prisão dentro do claustro, Mateo Colombo passava a maior parte do tempo olhando através das grades da janela. Ali

estava,


com o olhar perdido num ponto impreciso

situado sabe-se lá onde, quando viu que messere Vittorio acabava de entrar pela porta principal.

com um levíssimo gesto, o escultor deu a entender ao amigo que

já cumprira a perigosa intermediação. Respirou aliviado; na realidade, estava menos preocupado

com a sua sorte - que já estava decidida - do que com a do messere.

O anatomista não esperava para si a clemência obtida por seu mestre, Vesalio, quando fora enviado aos tribunais do Santo

Ofício. Numa ocasião, André Vesalio confessou

a Mateo Colombo um vergonhoso e triste acontecimento que esteve a ponto de levá-lo à fogueira: certa vez, solicitara permissão

para dissecar um jovem nobre espanhol

que havia morrido durante a consulta. Quando obteve a autorização dos pais do defunto, abriu-lhe o peito e, para seu estupor

e desespero, constatou que o coração

ainda pulsava. Informados do acontecido, os pais do jovem acusaram Vesalio de assassinato, ao mesmo tempo em que lhe iniciaram

um processo junto ao Santo Ofício.

A Inquisição condenou-o à morte; não obstante,

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pouco antes de que a lenha começasse a arder, o próprio rei interveio, decidindo comutar a pena, e, em troca, dispôs que



o anatomista fizesse uma peregrinação à

Terra Santa

para lavar o seu crime.

Mateo Colombo sabia que o seu "crime" era infinitamente mais grave, já que consistiu em desvelar aquilo que devia manter-se

para sempre ignorado. De maneira que

não guardava nenhuma esperança, nem sequer retratando-se do descobrimento, como fizera outro egresso dos claustros da Universidade

de Pádua, Galileu Galilei. O descobrimento

de Galileu era "intangível" demais na prática. Em contrapartida, a sua "América" estava ao alcance de qualquer um.

- O que seria da humanidade se as forças do demônio se apoderassem do vosso descobrimento? - dissera o reitor quando, ao

tomar conhecimento dele, impusera-lhe o

voto de segredo, sugerindo de passagem que seu descobridor, sem sombra de dúvida, era um dos que engrossavam as cada vez

mais numerosas hostes demoníacas. - A que

desgraças não se veria submetida a humanidade se o Mal se assenhorasse da vontade do rebanho feminino? - concluíra o reitor,

dando a entender que seu propósito não

era outro senão, em nome do "Bem", apoderar-se da vontade do rebanho feminino.

De modo que Mateo Colombo não podia esperar um destino diferente da fogueira.

Contudo, era outro o motivo da aflição que lhe oprimia a garganta; não a certeza da morte próxima, nem o cativeiro, nem

a imposição do silêncio. Não era a lembrança

de Inês de Torremolinos nem a incerteza do destino da carta que acabara de escrever.

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Não tinha seu fundamento na quebra do voto de silêncio nem na revelação do segredo que havia jurado calar. O que o atormentava



não era, sequer, a tristeza por não

poder


tornar público o seu descobrimento, e sim o fato de que o inocente intuito que o conduzira ao seu achado havia fracassado.

O norte que conduzira Mateo Colombo ao seu descobrimento não era uma premissa teológica - tal como a havia apresentado -,

nem uma ambição de saber filosófico - como

a havia fundamentado -, nem sequer o desejo de revolucionar a anatomia - como, apesar de si mesmo, havia conseguido. Não

caminhava decidido para a fogueira em nome

da Verdade, como fizera o seu colega Miguel de Servet.

A origem da descoberta era um amor fracassado. O anatomista não ansiava a compreensão das leis gerais que governam o obscuro

proceder feminino, mas, simplesmente,

um lugar no coração de uma mulher.

O norte que havia conduzido Mateo Colombo à sua "doce terra encontrada" tinha, certamente, um nome: Mona Sofia.

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A PUTTANA


I


Mona Sofia nasceu na ilha de Córsega. Ainda não havia completado dois meses quando foi roubada de sua mãe, numa manhã de

verão em que a mulher levara consigo a menina

para lavar roupa num arroio que desaguava no mar. Certamente, a ilha de Córsega constituía, na época, o lugar menos feliz

para que uma mulher desse à luz uma menina

bonita. Desde que Marco Antônio, primeiro, e mais tarde Pompeu desalojaram os piratas da sua "República" na Cilícia, após

uma longa diáspora pelos mares da Europa

e da Ásia Menor, os "cilicianos", com paciente e brutal obstinação, voltaram a fundar a sua Pátria, dessa vez nas ilhas

de Córsega e Sardenha. Diz-se que, em razão

de sua precoce e promissora beleza, os piratas de Gorgar o Negro embarcaram a menina a bordo de um bergantim junto

com um grupo de escravos mongóis e a venderam

a um traficante na Grécia. A pequena conseguiu sobreviver à viagem graças aos cuidados de uma jovem escrava a quem haviam

separado do filho e ainda conservava um

pouco de leite. Sua estada na Grécia foi muito breve; um comerciante veneziano comprou-a por uns poucos ducados e voltou

a embarcá-la, dessa vez

com destino a Veneza:

naturalmente, já tinha um comprador na sua terra.

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II

Donna Sidonna pagou vinte florins pela menina, com a convicção de que era uma excelente compra. A primeira coisa que fez



quando a viu, encardida de tanta sujeira,

foi lavá-la com uma loção de água de rosas e uma infusão morna de ervas aromáticas, e mesmo assim não foi nada fácil tirar-lhe

o fedor de marinheiro. Esfregou suas

gengivas com uma mistura de vinho, água e mel, raspou-lhe a cabeça, cujas longas mechas estavam duras como arame, e, por

fim, deixou-a sobre um cobertor de pêlo

de cabra perto do fogo. Quando a viu profundamente adormecida, fixou ao redor do seu pulso a pulseira de ouro e marfim que

distinguia todas as raparigas da casa.

E vendo que a pequena estava muito magra e evidentemente anêmica - no barco fora alimentada pelo pobre peito de uma escrava

que mal podia

com os seus pobres ossos

-, designou Oliva para ser sua ama-de-leite. Oliva era uma jovem escrava egípcia. Tinha um leite

bom e nutritivo. Chamaram-na de Oliva porque tinha a pele da cor

de uma azeitona e a estatura de uma oliveira. Era uma mulher esguia, precedida por umas majestosas mamas cujos bicos tinham

o diâmetro de um florim de ouro. Oliva

reunia todas as condições da perfeita ama-de-leite: era morena - todos sabem que as mulheres louras dão um leite amargo

e aquoso e que as negras são boas para alimentar

bestas selvagens, não crianças brancas. Após uma semana já se notavam os progressos; a pequena exibia umas dobrinhas bem

saudáveis e arrotava

com a força de um

adulto. Suas fezes - meticulosamente examinadas pela

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própria Donna Sidonna - mostravam-se sólidas e de uma cor que revelava o perfeito funcionamento das tripas.



Quando fez o primeiro mês - contando a partir da sua chegada à casa -, Donna Sidonna enrolou-a num vestido de infinitas

rendas, perfumou-a

com água de jasmins e

mandou chamar o cônego para darlhe o primeiro sacramento, porque - obviamente uma boa puta devia ser cristã. Como acontecera

tantas vezes, Donna Sidonna negociou

com o vigário o preço dos serviços e chegaram a um acordo: ele exigia o favor de uma das raparigas durante um mês, todos

os dias e "per tutti lê orifici". Donna

Sidonna oferecia o serviço só pelo período de uma semana e não incluía nenhum outro favor além da convencional francescana.

Finalmente acordaram que o cônego usaria

os serviços de uma rapariga durante quinze dias e "per tutti lê orifici". Naquele dia a pequena foi batizada e Donna Sidonna

deu-lhe o nome de Ninna.

Ninna convivia com oito garotinhas da sua mesma condição, mas desde muito cedo começou a diferenciar-se das outras meninas

da casa; nenhuma chorava

com aquela

força nem comia com tamanho apetite tanto era assim que os mamilos de Oliva ficavam roxos depois de cada refeição. E, ao

contrário das outras, Ninna resistia obstinadamente

à faixa em que Donna Sidonna a embrulhava todas as noites para evitar monstruosas deformações. Os gritos

com que a menina manifestava seu descontentamento eram

tão fortes que, por puro contágio, as outras lhe faziam coro, tal como as mulheres contratadas nos velórios não deixam de

imitar o pranto da viúva.


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Aquele foi o primeiro e inocente sinal de uma perigosa rebeldia. Uma boa puta, da mesma maneira que uma boa esposa, devia

ser submissa, obediente e agradecida.

À medida que a menina ia crescendo em idade, altura e beleza, na mesma proporção desenvolvia-se em seu espírito um caráter

vulcânico; seus olhos verdes e rasgados

povoaram-se com umas pestanas pretas, longas e arqueadas, mas também

com uma malícia inteligente, sarcástica, que inspirava a mesma fascinação, o mesmo medo que

o olhar da serpente infunde em suas vítimas. Nas almas supersticiosas ela despertava terrores e negros augúrios. Nos espíritos

religiosos, satânicos temores, porque,

sabia-se, a inteligência numa mulher bonita era sinal indubitável de influência do demônio.

Pouco antes de completar o primeiro ano, Ninna começou a balbuciar as primeiras palavras, que, para surpresa de todos, não

foram as mesmas que as outras vocalizavam

em tatibitate. Assim, quando as pequenas pupilas começaram a chamar suas amas-de-leite pelo nome e, em sinal de precoce

gratidão, referiam-se a Donna Sidonna como

mamma, Ninna ignorava sistematicamente a presença da sua benfeitora e nem sequer se dignava a olhar para ela. De nada serviam

os esforços das babás, que a levantavam

no colo diante da sua mamma instando que lhe dirigisse, ao menos, um sorriso. Nada disso; tudo o que conseguiam era que

a menina soltasse um saudável arroto nas

ventas da protetora. Donna Sidonna consolava-se pensando que Ninna era pequena demais para compreender que aquele era o

melhor destino a que uma mulher podia aspirar.

As meninas ainda não podiam se dar conta

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da fortuna que ela estava investindo em cada uma delas; ao fim e ao cabo, Donna Sidonna somente aliviava os pais do infortúnio



que significava trazer uma mulher

ao mundo. Por mais que os genitores da pequena Ninna tenham sofrido com o roubo da filha, era melhor que padecessem tudo

de uma vez só e não durante o resto das

suas vidas. De fato, os pais deveriam ficar agradecidos a ela. Quem, em seu perfeito juízo, poderia estar feliz em ter uma

filha? Apenas despesas enquanto solteira

e, se tivessem a sorte de conseguir-lhe um marido, ainda restaria o desembolso do dote. Se todos seguissem o seu critério

- pensava Donna Sidonna -, os usureiros

do Banco de Dotes não iriam lucrar com os pobres e desesperados pais de mulheres casadouras. E assim lhe agradecia a pequena:

com mal-intencionados ares regurgitados

e, mesmo, com sonoros desaires daqueles que saem pela via contrária.

Certa manhã, quando Donna Sidonna foi observar o sono da sua ingrata filia, encontrou-a de pé no berço, de olhos fixos nela;

para seu estupor, Ninna recebeu-a

com

um cumprimento:



- Puttana... - disse com uma pronúncia perfeita, e acrescentou - me dá dez ducados.

Aquelas foram as cinco primeiras palavras de Ninna. Donna Sidonna fez o sinal da cruz. Se pudesse, sairia correndo do quarto.

Mas o medo era tão grande que ela só

conseguiu dar um berro. Donna Sidonna decidiu que aquelas cinco palavras eram um sinal indubitável de que a pequena estava

possuída pelo demônio. De modo que optou

pelo caminho mais expeditivo.

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Antes de brotarem mamilos em seu peito, antes de ganharem a dureza das amêndoas e o diâmetro e a textura de uma pétala,



Ninna foi revendida a um traficante por dez

ducados, a metade do que sua benfeitora havia pagado. Em certa manhã de verão foi leiloada em praça pública junto

com um grupo de escravos mouros e jovens putas,

oferecida a peso e finalmente vendida para a madonna Creta, uma alma filantrópica que, entre outras coisas, era dona de

um bordel em Veneza.

III


Ninna - cujo nome estava gravado na pulseira foi rebatizada com o nome mais elegante de Ninna Sofia. Era a rapariga mais

jovem do bordel. Sua nova mamma era agora

a madonna Creta, uma próspera e já aposentada cortesã. De madonna Creta ela não podia esperar a doçura nem a dedicação que

a sua antiga benfeitora lhe prodigava.

E muito menos podia esperar paciência. Na primeira vez que pôs a menina no colo, examinou-a como se fosse um pé de alface.

Felicitou-se por sua nova aquisição e

disse a si mesma que em poucos anos - dois ou três - seu pequeno investimento começaria a dar frutos. Três coisas sobravam

em Veneza: nobres, padres e pederastas

- e, é claro, todas as combinações possíveis desses três elementos. Sim, era um

bom negócio, pensou. Já imaginava a cara do messere Girolamo de Benedetto ao ver

aquelas jovens e ainda imaculadas carnes; quanto não pagaria por acariciar

com seus dedos decrépitos

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aquela vulva arrepolhada; o que não daria para esfregar sua vara murcha nas coxas roliças da jovem pupila. Madonna Creta



já podia contar os ducados de ouro

com


antecedência. Mas não haveria de ser tão fácil.

Ninna Sofia examinou a nova alcova que iria dividir com cinco raparigas já adultas. Aquilo era pior que um estábulo e, de

fato, cheirava a curral. Era um cubo sem

uma única janela. Ao pé de cada uma das paredes viam-se umas camas de madeira que, à guisa de colchões, exibiam uns sacos

de palha em cujas bordas estavam sentadas

as suas novas companheiras. Eram todas escravas compradas por uns poucos ducados. Uma delas não apresentava um único dente,

outra tinha o aspecto que a sífilis oferece

quando se encontra em estado muito avançado, e as outras duas permaneciam

com o olhar perdido em pontos imprecisos que pareciam estar situados do outro lado da

parede do quarto. As quatro tinham um olhar de resignada derrota, impregnado daquela tristeza que se perpetua até o último

dia, o qual, por certo, nunca estava muito

distante. O escasso ar que se respirava lá dentro era quente e sufocante. Ninna Sofia explicitou seu desagrado por meio

de um alarido seguido de um choro estridente.

Quando a porta se abriu, Ninna, que esperava a diligente chegada de sua ama-de-leite Oliva, só teve tempo de ver a crescente

figura de madonna Creta aproximar-se

dela. Depois das três primeiras bofetadas em suas bochechas, compreendeu que se parasse de chorar talvez os golpes também

cessassem. E assim aconteceu. Então, a

pequena Ninna jurou nunca mais chorar em sua vida. E assim fez.

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Seu espírito tornou-se cada vez mais ingovernável, mais áspero e perigoso. Ninna Sofia era uma flor venenosa.



De nada serviam os castigos que, amorosamente e em seu benefício, por certo, madonna Creta lhe propinava. De nada serviam

as chibatadas exemplares que marcavam as

suas costas, nem as penitências noturnas de joelhos sobre o milho, nem as promessas de círculos infernais. Ninna Sofia olhava

para a tutora

com seus olhos verdes

repletos de longas e arqueadas pestanas e repletos, cada vez mais, de uma malícia e de uma inteligência infinitas;


: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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