O anatomista



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De pé junto ao pároco, Alessandro de Legnano, o reitor da Universidade, controlava

com unção a ordem e impunha o silêncio por meio de olhares severos dirigidos

para aqui e acolá, ou, se fosse o caso, com um pigarro diretamente dedicado aos contraventores.

Antes de ouvir a última badalada, Mateo Colombo levantou-se e caminhou até a porta. Só quando girou a maçaneta e verificou

que a porta do claustro estava trancada

por fora, lembrou que aqueles sinos não dobravam mais para ele. O cansaço da noite em claro, e, mais que isso, a força do

hábito - que toda manhã o conduzia até

a capela depois de uma breve visita à morgue -, fizeram-no esquecer que agora por disposição dos Superiores Tribunais -

estava preso em seu próprio claustro. Sentiu

remorsos pelo seu Leonardino. Talvez devesse dar graças pela sorte que

tinha;

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por certo seria muito pior ocupar uma cela fria e asquerosa no presídio de Santo Antônio. Talvez devesse dar graças ao Tribunal



e ao reitor pelo fato de

não estar de pés e mãos acorrentados e poder ver o morno sol de inverno através da pequena vigia do claustro. Certamente,

as acusações que lhe eram imputadas mereciam

o maior dos rigores: heresia, perjúrio, blasfêmia, bruxaria e satanismo. Por muito menos do que tais acusações os punidos

eram encarcerados. Agora mesmo, do seu

claustro, podia ouvir os passantes insultando - em meio a cusparadas - os réus exibidos nos pelourinhos da praça. E não

passavam de ladrões de quinquilharias.

Os últimos alunos que transitavam junto à janela do claustro de Mateo Colombo ficavam nas pontas dos pés e olhavam para

o interior; então o anatomista podia ouvir

os murmúrios e as risadinhas maliciosas daqueles que, até ontem, tinham sido seus alunos, e mesmo dos que poderiam ter chegado

a tornar-se seus fiéis discípulos.

Podia vê-los.

Muito embora talvez devesse dar graças por sua sorte, Mateo Colombo amaldiçoou o dia em que saiu de sua Cremona natal. Amaldiçoou

o dia em que o seu atual algoz,

o reitor, decidiu colocá-lo à frente da cadeira de anatomia e cirurgia. E amaldiçoou o dia em que, quarenta e dois anos

antes, nascera.

II

"Il Chirologi", como diziam os seus conterrâneos, "Il Cremonese", no seu exílio em Pádua, Mateo Realdo



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Colombo havia estudado Farmácia e Cirurgia na Universidade em que agora estava preso. Foi o mais brilhante discípulo de

Leoniens, primeiro, e de Vesalio, depois.

Quando partiu, em 1542, para fazer escola na Alemanha e na Espanha, o próprio mestre Vesalio sugeriu ao reitor, Alessandro

de Legnano, que seu discípulo cremonense

herdasse a cátedra. Ainda muito jovem, Mateo Colombo ganhou, por direito, o título de Maestro dei maestri. Para orgulho

de Alessandro de Legnano, o catedrático cremonense

descobriu as leis da circulação pulmonar antes do seu colega, o inglês Harvey, que injustamente recebeu os louros. Muitos

o consideraram lunático quando afirmou

que o sangue se oxigena nos pulmões e que não existem orifícios no tabique que divide as duas metades do coração, atrevendo-se

a refutar o próprio Galeno. E, por

certo, aquela era uma afirmação perigosa: um ano antes, Miguel de Servet vira-se obrigado a fugir da Espanha quando declarou,

em seu Christianismi Restitutio, que

o sangue era a alma da carne - anima ipsa est sanguis. Sua tentativa de explicar em termos anatômicos a doutrina da Santíssima

Trindade levou-o às fogueiras de Genebra,

onde o queimaram com lenhos verdes "para prolongar a agonia".1 Mas os louros da descoberta de Mateo Colombo iriam, cem anos

depois, para o inglês Harvey - que,

como assinalou Hobbes em De Corpore, "foi o único anatomista que viu sua doutrina ser aceita em vida".

Mateo Colombo era, eminentemente, italiano; filho da plástica, da gala e do ornamento.

nota. Knut Haeger, The Illustrated History of Surgery.

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Filho pródigo daquela Itália na qual tudo, das cúpulas das catedrais até o copo no qual o lavrador bebia, dos afrescos que



enfeitavam os palácios até a foice

com que o

camponês ceifava, dos capitels bizantinos das igrejas até o cajado do pastor, tudo era de uma feitura prodigiosa. Daquela

mesma feitura era o espírito de Mateo Colombo;

da mesma graça ornamental, da amável gentilezza italiana. Tudo estava animado pelo hálito de Leonardo; o artesão era artista,

o artista, cientista, o cientista,

guerreiro, e o guerreiro, de novo, artesão. Saber também era, além do mais, saber fazer

com as mãos. Caso faltem exemplos, o próprio papa Eugênio I havia cortado

com suas próprias mãos a cabeça de um prefeito um pouco díscolo.

com a mesma mão com que deslizava a pena pelo caderno de capa de pele de cordeiro, Mateo Colombo sabia empunhar o pincel

e preparar os óleos

com os quais pintou

os mais esplêndidos mapas anatômicos; era capaz, se quisesse, de pintar como Signorelli ou o próprio Michelângelo. Em seu

auto-retrato, apresentou-se como um homem

de traços finos porém enérgicos; os olhos negros e a barba escura e espessa revelavam, talvez, uma ascendência moura. A

testa, alta e proeminente, era emoldurada

por dois cachos que desciam até os ombros. Segundo seu próprio testemunho, tinha mãos delicadas e pálidas, cujos dedos longos

e finos - conferiam-lhe uma elegância

que se diria quase feminina. Segurava o escalpelo entre o indicador e o polegar. O auto-retrato não foi apenas um fiel testemunho

da sua fisionomia, mas também da

sua obsessão; olhando-se bem - pois é francamente difícil de perceber -, embaixo do bisturi,

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na base inferior do quadro, pode-se distinguir, em meio a uma bruma difusa, o corpo nu e inerte de uma mulher. A pintura



lembra uma outra, sua contemporânea: o São

Bernardo


de Sebastiano dei Piombo; a desproporção entre a beatitude da expressão do santo e sua atitude, a enfiar o cajado no corpo

de um demônio, é a mesma que transparece

no gesto do anatomista afundando o escalpelo na carne feminina. Uma expressão de triunfo.

Numa época feita de nomes, de singularidades, Mateo Colombo usava o seu nome como quem carrega um lastro; como evitar o

forçoso lugar nas sombras a que seu ilustre

xará o submetia? Mateo Colombo estava condenado à paródia, à zombaria fácil dos detratores.

Sua obra, decerto, não foi menos extraordinária que a do seu homônimo. Ele também descobriu a sua "América" e, como ele,

soube da glória e da desgraça. E soube da

crueldade. Mateo Colombo, ao fundar a sua colônia, não teve mais escrúpulos nem piedade que Cristóvão. O madeiro da haste

fundadora não estaria fincado nas tépidas

areias do trópico, mas no centro das terras descobertas que reclamou para si: o corpo da mulher.

III

Encarcerado em seu próprio claustro, Mateo Colombo acabava de redigir a alegação que haveria de apresentar ao tribunal.

Ainda reverberava o eco da última badalada

a chamar para a missa quando, diante de sua janela, divisou uma figura a contraluz.

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Posso ajudar-vos em alguma coisa? - murmurou a silhueta.



Mateo Colombo, que por imposição do tribunal se viu forçado a fazer voto de silêncio, calou-se cautamente enquanto se aproximava

um pouco mais da janela. Só então

pôde discernir que aquela figura de pé contra o sol era o seu amigo, messere Vittorio.

- Estais louco, quereis porventura acabar preso como eu? - murmurou, e

com um gesto nada hospitaleiro sugeriu que se afastasse de imediato.

Messere Vittorio passou a mão pelas grades da janela e estendeu ao amigo uma bota

com leite de cabra e uma taleiga com pão. com um gesto de aborrecimento, quase

a contragosto, Mateo Colombo recolheu-as. Na verdade, estava com fome. Quando o furtivo visitante girou sobre os calcanhares

e já se dispunha a dirigir-se para

a capela, ouviu um novo sussurro:

- Podeis enviar uma carta para Florença com um mensageiro?

Messere Vittorio titubeou por um instante.

- Podíeis ter-me pedido coisa mais fácil... sabeis com quanto zelo o reitor revista a correspondência...

- naquele momento, os dois homens viram Alessandro de Legnano conferindo, do vão da porta da capela, se todos estavam presentes

na missa. - Bem, daime a carta. Agora

tenho que ir-me - disse o messere Vittorio, passando a mão por entre as grades.

- Ocorre que ainda não a escrevi. Se pudésseis passar por aqui à saída da missa...

O reitor divisou, então, messere Vittorio de pé sob a arcada.

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- O que estais fazendo aí? - inquiriu, pousando as mãos nos quadris e franzindo o cenho ainda mais do que já o tinha por



natureza.

O messere Vittorio ajeitou então as tiras de sua sandália e encaminhou-se para a capela.

- Porventura faláveis com vosso sapato?

O messere limitou-se a corar, com um sorrisinho estúpido.

Mateo Colombo contava com o escasso tempo de duração da missa para escrever a carta.

Quando se certificou de que não havia ninguém fora da capela, voltou a retirar o caderno que mantinha escondido sob a pequena

scriptoria - era-lhe proibido escrever

-, empunhou a pena de ganso, mergulhou-a no tinteiro e, na última página, começou a anotar. Por certo, o voto de silêncio

que o tribunal lhe impusera não era um

castigo arbitrário; tinha um fundamento muito preciso: evitar que o seu satânico descobrimento se propagasse como as sementes

ao vento. Pela mesma razão haviam proibido

que escrevesse. Restava-lhe pouco tempo. Tornou a certificar-se de que não havia ninguém por perto e então começou a escrever:

Minha senhora:

Meu espírito se debate no abismo da incerteza e se oprime na amargura de quem, tendo feito a promessa de segredo em Nome

de Deus, ofende o sagrado Nome quando, injustamente,

pretende-se velar a Obra Divina. É em Nome de Deus, minha querida Inês, que decidi quebrar os votos de silêncio que me foram

impostos pelo reitor da Universidade

de Pádua e pelos Doutores da Igreja. Temo menos a morte do que o silêncio. Muito embora,

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no que me diz respeito, eu esteja condenado tanto a um quanto ao outro. Quando esta carta chegar a Florença já não estarei



com vida. Passei a noite redigindo o arrazoado

que irei expor amanhã diante do tribunal presidido pelo cardeal Caraffa. Contudo, bem sei que, antes de poder pronunciar

uma só palavra a meu favor, a sentença já

estará decidida. Sei que não tenho outro destino senão a fogueira. Se pensasse que vós pudésseis interceder por minha vida

nessa paródia de processo, sem duvidar

eu vo-lo pediria - tantas coisas já vos pedi, que mais uma... -, porém sei que a minha sorte está decidida. A única coisa

que vos suplico agora é que me escuteis.

Mais nada.

Quiçá vos pergunteis por que razão admito revelar meu segredo somente a vós. Mas ocorre que, embora ainda não o saibais,

fostes a fonte dos descobrimentos que me

foram revelados.

Depende de vós agora. Se considerais que estou cometendo sacrilégio por dizer o que jurei silenciar, detende agora mesmo

a leitura, e que estes papéis acabem no

fogo. Se porventura ainda mereço um pouco de crédito e haveis decidido prosseguir a leitura, peço-vos, em Nome do próprio

Deus, que guardeis o segredo.

Antes de prosseguir a carta, Mateo Colombo hesitou por uns instantes. O tempo era curto. A missa devia estar no meio. Esfregou

os olhos, remexeu-se na cadeira e,

antes de continuar escrevendo, perguntou a si mesmo se não era uma loucura.

Aquele ia ser o começo da tragédia. Se soubesse que o que estava por revelar a Inês de Torremolinos acabaria resultando

pior do que a morte e o silêncio, não teria

escrito uma só palavra mais. Não obstante, voltou a mergulhar a pena no tinteiro.

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Acabava de pôr o ponto final na carta quando viu que todos começavam a sair da capela.



Mateo Colombo arrancou o fólio do caderno e o dobrou de maneira tal que o verso ficasse voltado para fora. Primeiro saíram

em silencioso tumulto os estudantes,

que,

do centro do pátio, distribuíam-se em pequenos grupos para as salas de aula. Por último saiu o messere Vittorio e, junto



com ele, Alessandro de Legnano. Messere

Vittorio deteve-se no átrio e, com uma inclinação de cabeça, despediu-se do reitor. Mateo Colombo, pela janela do seu claustro,

pôde ver como o reitor permanecia

parado junto ao messere e não se afastava dele. Viu que o reitor, reclinado sobre uma coluna, iniciava um de seus habituais

interrogatórios. Não chegava a ouvir

o que estavam falando, mas o anatomista conhecia bem os gestos inquisitoriais de Alessandro de Legnano - de mãos nos quadris

e franzindo o cenho mais do que habitualmente.

O anatomista já havia perdido toda esperança de entregar a carta ao messere quando, surpreendentemente, o reitor se afastou

em direção ao seu claustro. Messere Vittorio

aguardou um pouco mais e, quando se certificou de que não havia ninguém no pátio ou perambulando pela arcada, encaminhou-se

diretamente e

com passo rápido para

a janela do claustro do anatomista. Mateo Colombo jogou então a carta pelas grades. Messere Vittorio empurrou-a

com o pé até afastá-la o bastante, acocorou-se e

guardou o papel entre o calcanhar e a sola da sandália. Nesse preciso momento, do fundo da arcada, surgiu Alessandro de

Legnano.


- Parece que é hora de substituir o vosso calçado

- disse o reitor e, antes de que messere Vittorio pudesse


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ensaiar uma resposta, acrescentou: - Espero-vos na oficina - e depois girou sobre o próprio eixo e perdeu-se fora da arcada.

Messere Vittorio bem que gostaria nesse instante de ver o reitor morto; desejo que, de certo modo, haveria de ver realizado.

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O REITOR

I

A cabeça de Alessandro de Legnano jazia sobre a mesa de messere Vittorio olhando para o teto da oficina - olhando, por assim



dizer, pois que na realidade os olhos

eram duas esferas inertes. O mestre passou a palma da mão pela testa do reitor, que parecia decapitado, deteve-se na dobra

do cenho, encostou ali o cinzel e descarregou

uma marretada seca, surda, que levantou uma poeira que parecia óssea. O reitor apresentava a rigidez dos mortos mas sua

expressão era a dos vivos. Estava, contudo,

gelado. Muito mais frio do que um morto. Meio ano empregou o messere para concluir o busto de Alessandro de Legnano, que

acabava de levantar-se da banqueta onde

estava posando e caminhou até a escultura com a qual se homenageava. Contemplou-se e, nariz contra nariz, parecia estar

diante de um espelho de mármore de Carrara.

O mestre obtivera a exata expressão do seu cliente, e qualquer pessoa que se detivesse para ver o busto sentiria a mesma

repugnância que se experimentava diante

do próprio reitor. Foi exatamente o que ocorreu ao messere Vittorio nos últimos seis meses e, sem dúvida, não lhe faltavam

desejos de enfiar o cinzel na testa do

próprio Alessandro de Legnano, sobretudo depois de ouvir o seu veredicto:

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- Já vi coisas piores - disse, enquanto se contemplava com paradoxal desdém e quase jogava na cara do messere os quinze



ducados. - Que o levem esta tarde para o

meu escritório - acrescentou, enquanto girava sobre os calcanhares e se retirava da oficina batendo a porta

com força.

O busto que o messere Vittorio acabava de concluir era fiel ao modelo. O reitor tinha a perfeita expressão do idiota: as

faces inflamadas, um severo prognatismo

que dava baseamento ao rosto sobre uma espécie de varanda maxilar e umas pálpebras semifechadas que lhe conferiam um ar

sonolento. O mestre florentino não usara

de nenhuma benevolência; se os clientes eram do seu agrado, tinha a generosidade de embelezá-los um pouco, como fizera,

por exemplo,

com o perfil irremediável de

um certo ilustre próximo aos Médici. Mas a escultura de Alessandro de Legnano era uma verdadeira opinião do messere a respeito

de Alessandro de Legnano.

Ninguém em toda Pádua tinha qualquer simpatia pelo reitor. E ninguém, sem dúvida, lastimaria por vê-lo morto.

Como todas as manhãs, por volta do meio-dia, Alessandro de Legnano haverá de ir à Piazza dei Frutti. Atravessará a Riviera

di San Benedetto, em sua passagem será

cumprimentado por todos, não sem uma empolada grandiloqüência, e depois de virar em direção ao Ponto Tadi vão desejar-lhe,

por trás, os piores augúrios.

com o mesmo

anelo do messere Vittorio, a obesa vendedora de frutas - de quem, como todos os dias, o reitor haverá de comprar uns damascos

irá augurar-lhe um

bom apetite e,

para si, rogará que

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o freguês se engasgue com o caroço. E tal qual a vendedora de frutas, o alfaiate - em cuja loja haverá de se deter para

encomendar um lucco de seda - desejará vê-lo

enforcado na delicada estola que ele lhe encomendara na semana anterior e que provocou seu comentário,

com um gesto de repulsa:

- Não a haveríeis cortado com os dentes?

Alessandro de Legnano sabia que todos o odiavam. O que só lhe provocava um imenso prazer.

O reitor fora discípulo de Jacob Sylvius, em Paris. Mas não possuía o talento do mestre para as artes médicas. A única coisa

que Alessandro de Legnano herdara de

Sylvius era a sua visceral tendência a suscitar o desprezo dos seus semelhantes. Todos os qualificativos aplicados ao anatomista

francês - avaro, grosseiro, arrogante,

vingativo, cínico e cobiçoso, entre outros - eram poucos para adjetivar o reitor da Universidade de Pádua, e ele mesmo,

sem dúvida, não esperava para o seu epitáfio

algo menos lapidar do que o que dedicaram ao seu mestre:

"Aqui jaz Sylvius, que jamais fez nada sem pagamento.

Agora que está morto, fica furioso de que leias isto de graça."

II

Naquela manhã o reitor estava de excelente humor. Parecia confortado. Tinha o aspecto espiritual de quem ganhou uma batalha.



E,

com efeito, assim fora exatamente.

Deleitava-se antecipadamente com
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o ansiado lume da fogueira que com todo prazer acenderia, se dele dependesse,

com as próprias mãos. Esperava ansiosamente que o dia que estava recém-começando

acabasse de uma vez. Amanhã seria o início do processo que ele iniciara, não sem inumeráveis escolhos, ante os cardeais

Caraffa e

Álvarez de Toledo e, conseqüentemente,

ante Paulo III em pessoa.

Alessandro de Legnano caminhava animado, como se de repente houvesse deixado de sofrer da gota que arrastava, fazia anos,

como um empecilho pertinaz. Tanta era a

sua euforia que sequer notou que da sandália de messere Vittorio sobressaía um pedaço de papel maldobrado. Talvez a solícita

atitude do messere não tivesse outro

fundamento senão a ignorância. Quiçá o escultor florentino não soubesse que, se descoberto, teria a mesma sorte que o seu

amigo: segundo a Sagrada Legislação, quem

falasse com hereges presos haveria de ser considerado também herege.

Mateo Colombo tornara-se a última obsessão do reitor. Ambos jamais haviam-se entendido. Alessandro de Legnano nutria para

com Mateo Colombo um ódio proporcional

à íntima admiração que lhe devotava. Sempre havia-se dirigido ao anatomista

com desprezo e não perdia oportunidade para desqualificá-lo diante dos alunos, chamando-o

barbieri, como alusão à norma que excluía os cirurgiões do Real Colégio de Médicos e os obrigava a se filiarem à Corporação

de Barbeiros, que os igualava aos padeiros,

cervejeiros e notários públicos. Naturalmente, quando Mateo Colombo tornou-se uma eminência, o reitor não se furtou aos

elogios e tomou posse das felicitações chegadas

de toda parte quando

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o seu catedrático descobriu as leis da circulação sangüínea, tal como se o mérito devesse ser atribuído à inspiração que



sua reitoria irradiava.

O anatomista e o reitor em nenhum momento demonstraram grande simpatia mútua. Ao contrário. Mantinham uma recíproca, embora

não simétrica, inveja. Mateo Colombo

era o anatomista mais respeitado da Europa; tinha prestígio, mas não poder. O reitor, como ninguém ignorava, nem mesmo os

Doutores da Igreja, era dono de uma inteligência

próxima à de uma mula, mas usufruía da influência do Vaticano e contava

com as bênçãos do próprio Paulo III, em carne e osso. Era a autoridade e tinha uma boa influência

junto a alguns inquisidores, para cuja tarefa havia contribuído com seu arrazoado no processo que entregou à fogueira mais

de um colega herege.

O novo achado do anatomista superava todos os limites da tolerância. O Amor Veneris - a América de Mateo Colombo - ultrapassava

o permissível para a ciência. A mera

menção de um certo "prazer de Vênus"

- por mais de um motivo - fervia-lhe o sangue.

A juízo do reitor, desde que Mateo Colombo fora nomeado regente da Cátedra de Cirurgia a Universidade havia-se transformado

num bordel de onde entravam e saíam camponesas,

entravam e saíam cortesãs, e chegou-se a dizer que até religiosas entravam à noite e saíam antes da madrugada. E todas elas,

segundo os rumores, saíam dali

com


os olhos arregalados e um sorriso semelhante ao da Mona Lisa. Como se não bastasse, chegara aos seus ouvidos o rumor de

que também passavam pelo claustro do anatomista

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as raparigas do prostíbulo situado no sobrado da Taverna dil Mulo. E esse rumor não era infundado.


Desde que a bula papal de Bonifácio VIII proibiu a dissecação de cadáveres, obter corpos era um trabalho perigoso. Mas havia

em Pádua, naqueles tempos, uma espécie

de mercado clandestino de mortos, cujo membro mais solvente era Juliano Batista, que pôs, de certa maneira, as coisas em

ordem. Depois da passagem de Marco Antônio

della Torre pela Cátedra de Anatomia da Universidade, seus discípulos não vacilavam em abrir sepulturas, saquear os necrotérios

dos hospitais e até despendurar defuntos

das forcas exemplares. O próprio Marco Antônio teve que refrear a turba de pequenos anatomistas para que não assassinassem

passantes durante a noite. Tanto era o

afã, que precisavam cuidar-se uns dos outros; tanta era a necrofilia, que o mais alto elogio a que uma mulher podia aspirar

era:


- Que belo cadáver tendes - diziam antes de degolá-la.

O seu predecessor mais remoto, Mundini dei Luzzi, que duzentos e cinqüenta anos antes fizera a primera dissecação anatômica

pública, de dois cadáveres, na Universidade

de Bolonha, pelo menos tivera o infinito decoro de não abrir a cabeça, "morada da alma e da razão".

Juliano Batista tinha, por assim dizer, o patrimônio do mercado de cadáveres; comprava-os dos

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parentes mais ou menos indigentes, dos algozes e dos coveiros. Após deixá-los em condições apresentáveis, revendia para



os universitários, catedráticos e necrófilos

mais ou menos reputados.


: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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