O anatomista



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Sem dúvida, o melhor destino que De ré anatômica podia esperar era o zeloso segredo da Igreja e o ingresso nos índices librorumprohibitorum. Mas quem podia garantir

que Mateo Colombo guardaria o segredo, mesmo comprometendo-se sob juramento? Como garantir, por outro lado, que o próprio anatomista não iria usar em proveito próprio

a descoberta do seu Amor Veneris. Ao mesmo tempo, no entanto, para a Igreja o achado poderia resultar um Santo Remédio para guiar o delicado e díscolo rebanho pelo

caminho da virtude e da santidade, por exemplo, extirpando a morada do demônio do corpo da mulher. Se aquele órgão é o responsável pelo pecado, por que

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então não liberar as mulheres, desde o nascimento, do lascivo Amor



Veneris! Porventura os judeus não cortam a pele do prepúcio? Suas razões devem ter. Mas tudo isso

não passava, ainda, de pura especulação. O importante, o iminente, era silenciar por qualquer meio a publicidade em torno do assunto. De modo que a comissão dispôs-se

a redigir uma sentença que abrisse o caminho em direção ao tribunal do Santo Ofício.

A obra, entretanto, não teria a mesma sorte que o autor. De ré anatômica acabava de entrar nos obscuros catálogos da censura, que o próprio Paulo

III havia inaugurado

em 1543. O anatomista comprometia-se, sob juramento, a não divulgar o seu achado. Era a condição para que Mateo Colombo continuasse

com vida.

No mesmo dia em que o cardeal Caraffa recebeu a tal carta procedente de Roma, a 7 de novembro de

1558, a comissão de Doutores deu a conhecer sua sentença, que, certamente, tinha um destinatário.

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O VEREDICTO

I

Veredicto da comissão de Doutores dirigido ao reitor da Universidade de Pádua



Consideramos com acuidade os informes, testemunhos e alegações apresentados a esta comissão que promovestes em relação ao regente da Cátedra de Anatomia, autor

de De ré anatômica, o Chirologi Mateo Realdo Colombo, da Universidade que presidis.

Esta comissão, em verdade, não chega a compreender a animadversão para

com o vosso catedrático nem as contradições em que vagais nas coléricas reflexões que discorreis,

se é que cólera e reflexão podem ir juntas. E talvez seja este o motivo da cegueira que vos impede de ver as coisas tais como são.

Senhor reitor, em relação às apreciações e aos vitupérios que exerceis contra De ré anatômica, particularmente a respeito do capítulo XVII, não podemos contar senão

com a versão que vós nos dais, pois que, como dizeis, "a obra encontra-se sob o meu mais cioso poder". Não obstante, nossa razão não pode abranger a dimensão do

silogismo que expondes. Primeiro qualificais de absurdo o descobrimento do vosso anatomista; em segundo lugar o acusais de plágio e usurpação, pois que o órgão em

questão, segundo dizeis, teria sido descrito

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na Antigüidade por Rufo de Éfeso e por Júlio Pólux, pelos anatomistas árabes Abul Kasis e Avicena, por Hipócrates e até por Falópio. Chegai a alguma conclusão: ou

fazemos caso à primeira premissa e afirmamos que não existe tal órgão, ou atendemos à segunda e declaramos que é tão conhecido como os pulmões.

De nossa parte, não temos conhecimento de nenhuma descrição anterior de tal órgão. Não podemos afirmar sua existência nem sua inexistência.

Se for confirmada, acreditamos que tanto o vosso afã (venerável, é claro) de defender os Sagrados Princípios como o temor de que tal descobrimento incite à heresia

e aumente o número dos infiéis são honrosos, embora errados. A Verdade, senhor reitor, está nas Escrituras e em nenhuma outra parte fora delas. A ciência não revela

a Verdade. É apenas uma flama tíbia a iluminar a letra de Deus. A ciência só existe abaixo de Deus e para tornar compreensível a Verdade. A nós, fiéis, basta-nos

crer pela fé, mas é impossível que os infiéis cheguem a persuadir-se da Verdade se pela Razão não os

convencermos.

E o que não veis, senhor reitor, é que, a ser verdadeiro o descobrimento de vosso anatomista, teríamos diante de nossos olhos, finalmente, a prova anatômica

da criação da mulher a que se referem as Sagradas Escrituras. Se prestais atenção aos versículos do Gênese, comprovareis que temos razão. Finalmente, e por todo

o antedito, declaramos o acusado, Mateo Realdo Colombo, inocente de todas as imputações. Não obstante, este Tribunal proíbe a publicação de De ré anatômica, segundo

o disposto nos índices librorum prohibitorum.

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QUARTA PARTE


AS SANTAS ARTES
Em 8 de novembro de 1558, bem diante das indignadas ventas de Alessandro de Legnano, Mateo Colombo partiu para Roma

com uma escolta vaticana. O novo médico pessoal

do papa viajava como um verdadeiro príncipe e todos se dirigiam a ele como a uma eminência. Ambos - o reitor e o anatomista - sabiam, porém, que sua boa estrela

era tão frágil quanto a saúde de Paulo III.

Alessandro Farnese jazia em seu leito vaticano. A barba crescida e despenteada conferia-lhe o aspecto de um rabino decrépito. Mateo Colombo ajoelhou-se ao lado da

cama, tomou-lhe a mão e pensou que não poderia conter as lágrimas quando, ao beijar o anel do pontífice, este,

com suas últimas forças, abençoouo com um fio de

voz. Quando se repôs da emoção, o anatomista ordenou que o deixassem a sós

com Sua Santidade, coisa que, naturalmente, não lhe foi concedida. Alessandro Farnese

era só pele e ossos. Já estava velho quando foi nomeado papa - setenta e dois anos - e sobrevivera a quase todas as doenças deste mundo. Não era mais aquele

que havia conseguido unir os príncipes da Igreja contra os turcos; não era, certamente, aquele que finalmente conseguira, por força de paciência, primeiro, e simplesmente

pela força,

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depois, reunir o Concilio de Trento. Não era aquele que tivera, com Santa Paciência, que se submeter aos caprichos do duque de Mântua, aos do imperador e aos

dos protestantes. E também não era, por certo, aquele fervoroso defensor dos tribunais da Inquisição, cujas fogueiras considerou insuficientes para purificar as

almas de tanto pecador e cujos juízes julgou poucos e burocráticos, e então multiplicou-os como fez Cristo

com os peixes e os pães, conferiu-lhes faculdades ambulatórias,

elevou-os à hierarquia de Tribunal Supremo em matéria de fé e nomeou delegados em Veneza, Milão, Nápoles, Toscana e em toda cidade que considerasse oportuno. E já

não era aquele ávido leitor que, pessoalmente, decidia que livros iriam parar nos índices librorum prohibitorum ou na fogueira - junto

com o autor, é claro. Alessandro

Farnese não era mais aquele, era o seu próprio fantasma, decrépito e agonizante. Sua mão sarmentosa, cujo nepótico dedo indicador havia pretendido secularizar Parma

e Piacenza para convertê-las em principados dos Farnese, descansava, agora exânime, entre as mãos do demoníaco anatomista cremonense, que acabava de ser resgatado

do inferno e levado ao paraíso. Sua Eminência estava nas mãos de quem até ontem era a voz de Lúcifer, e hoje, a mão de Deus.

O estado de Paulo III era verdadeiramente preocupante, não apenas para Sua Eminência, mas também para o seu recente médico pessoal, cuja sorte dependia da saúde

do

pontífice. Depois de examiná-lo durante horas, Mateo Colombo teve a inquietante certeza de que não havia muito a fazer; Alessandro Farnese nunca se curara por completo



da doença que,

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cinco anos antes, o levara aos umbrais da morte. A rigor, não havia explicação de como pudera sobreviver um lustro. O coração do papa batia sem convicção, sua

tez tinha a cor dos mortos, falava com uma voz asmática quase inaudível. Cada frase demandava-lhe um esforço esgotador e os impulsos da sua velha loquacidade eram

sistematicamente

interrompidos por acessos de tosses secas que o submergiam numa sufocação que tingia sua pele de roxo. Quando tais acessos se interrompiam, recuperava o

tom verde

que exibia há seis meses. Pouco importavam agora a gota que o perseguira durante quase toda a vida, nem os ataques epilépticos, nem as antigas enxaquecas, nem os

horríveis herpes que lhe sulcavam a pele - motivo que o obrigou a usar sua barba semítica. Paulo

III estava morrendo. Sua Eminência, pessoalmente, havia despedido

o médico inepto que lhe fora designado pelo crápula do cardeal Álvarez de Toledo, o qual, segundo Sua Santidade, propusera-se a ser o seu sucessor no prazo mais

breve possível. Verdade ou não, desde que o médico anterior se responsabilizara por sua saúde, Alessandro Farnese, dia após dia, desmeIhorava calamitosamente. Mateo

Colombo concordou com a opinião do paciente. A rigor, a terapêutica que lhe haviam imposto era mais nociva que a própria doença; de modo que o novo médico papal

determinou que parassem de fazer-lhe sangrias, pois que estas tinham como único efeito agravar a anemia do Santo Padre, deu diretivas para que cessassem os enemas,

que o deixavam exausto, e proibiu expressamente que continuassem a ministrar-lhe ervas vomitivas. A terapêutica adequada não iria consistir,

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como a anterior, em tentar extrair a doença por todos os buracos, porque, a rigor, a enfermidade do pontífice era só uma, fácil de diagnosticar: estava velho. O

médico


anterior só conseguira eliminar os poucos resquícios de vida que o corpo do velho papa abrigava.

Mateo Colombo dispôs que se juntassem num vidro todos os pontifícios excrementos e, em outro, todos os santíssimos sumos urinários, durante um dia completo. À noite

o anatomista examinou o conteúdo dos vidros. Cheiro, cor e viscosidade foram escrupulosamente considerados. Antes de nascer o sol, Mateo Colombo já resolvera qual

seria a terapêutica, posto que, de fato, a única doença que Paulo III apresentava era a sua própria velhice.

O Santo Padre tinha que viver. Mateo Colombo estaria disposto a dar ao decrépito Alessandro Farnese a metade do resto da sua própria vida. Mas havia outra alternativa.

Paulo III precisava de sangue jovem. E era exatamente o que lhe daria.

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DIA DOS SANTOS INOCENTES


i

No dia dos Santos Inocentes, com a aquiescência de Sua Santidade, Mateo Realdo Colombo, o novo médico pessoal do papa Paulo



III, dispôs que se buscassem dez meninas

de cinco a dez anos, bem saudáveis, naturalmente, e que fossem levadas para o seu pontifício gabinete. Pessoalmente selecionou cinco dentre as dez e levou-as para

o leito de Sua Santidade. O ancião papa abençoou cada uma das meninas, que choraram de emoção ao beijar seu anel e em seguida foram conduzidas a uma alcova próxima

à do anatomista, que havia sido disposta para elas. Depois Mateo Colombo ordenou que trouxessem as amas-de-leite mais saudáveis de Roma. Pessoalmente selecionou

as três que melhor aspecto apresentavam. Eram três mulheres jovens, antecedidas por três magníficos pares de mamas de admirável compleição. Mateo Colombo considerou

conveniente verificar as bondades do leite de cada uma delas; pessoalmente verificou o sabor e a substância do líquido, que jorrava

com abundância ao serem os mamilos

levemente estimulados pelos dedos do anatomista.

Sua Santidade era alimentado três vezes por dia com o benéfico leite das mulheres; como uma criança, aconchegava-se ao peito da ama-de-leite e bebia

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até cair profundamente adormecido. Era comovente ver o decrépito

Alessandro Farnese, desdentado e

com sua barba branca, sendo docemente ninado. Tal terapia mostrava-se

proveitosa porém insuficiente, porque embora o leite de mulher reúna valiosos fluidos cinéticos, estes eram escassos para devolver ao pontífice um pouco da sua perdida

juventude. De modo que, antes do previsto, Mateo Colombo fez comparecer ao seu gabinete o algoz mais experimentado de Roma.

O homem não pôde disfarçar o seu desgosto quando o anatomista lhe pediu para ser o menos cruento possível. Afinal, nisso consistia o seu trabalho.

Naquela mesma noite, antes do fim do dia dos Santos Inocentes, a primeira das cinco meninas foi executada.

Sua Santidade, antes de beber o primeiro gole da infusão feita com o sangue, fez um voto pela alma da menina que, por certo, havia-se antecipado à dele no Reino

dos Céus, e se alegrou por seu feliz e precoce destino.

- Amém - murmurou, e então virou o copo até ver o fundo vazio.

II

Três vezes por dia Paulo III era amamentado e três vezes ao dia bebia, até a última gota, as infusões de sangue jovem que o seu médico lhe preparava pessoalmente.



Mateo Colombo respirou aliviado quando verificou que, no curso da primeira semana, a saúde do papa melhorava. A terapêutica não era original, exceto por alguns detalhes;

com efeito,

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Inocêncio VIII, o papa que se popularizara por confessar publicamente sua virilidade ao reconhecer três filhos - Franceschetto, Battistina e Teodorina -, fora submetido



por seu médico a uma terapia semelhante quando sua saúde chegou ao ocaso, muito embora, naquela oportunidade,

com pobres resultados. As razões desse fracasso não

eram difíceis de determinar, segundo o anatomista: em primeiro lugar, o leite das amas era tirado previamente pelas criadas e depois servido ao pontífice num copo;

era sabido por Mateo Colombo que os fluidos cinéticos evaporam-se imediatamente ao entrar em contato

com o ar, de modo que o leite deveria ser sorvido do mamilo,

tal como havia disposto o Criador para a lactância. Em segundo lugar, o sangue

com que se preparavam as infusões era extraído de jovens varões, ao passo que o sangue

feminino é, evidentemente, substância, pura matéria, como provara o grande Aristóteles em suas considerações sobre a gestação. O sangue do varão resultava inútil

porque, como todos sabem, é conformado por puros espíritos e pouca substância, tal como o vinho.

Como quer que fosse, e sabe-se lá por que arbítrios, a saúde de Paulo

III parecia restabelecer-se.

A notícia correu até Pádua. Alessandro de Legnano destilava veneno.

Alessandro Farnese simpatizava com o seu médico pessoal. É claro que tinha eloqüentes razões para isso, posto que, entre outras pequenas melhoras, havia recuperado

sua antiga loquacidade. Entre cada aleitamento, o Santo Padre mantinha intermináveis conversações

com Mateo Colombo e se dirigia a ele como seu homem de confiança.

Por certo que o antigo inquisidor,


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o cardeal Caraffa, convivia com o intruso chegado de Pádua como com um punhal atravessado na garganta.

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O SÉTIMO CÉU

I

Mateo Colombo estava no sétimo céu. Durante sua estada em Roma, o anatomista cremonense produziu sua mais vasta obra pictórica: os mais belos mapas anatômicos jamais



feitos, pintados com os óleos mais refinados; centenas de esboços em tinta a representar sua obsessão: o Amor Veneris. E foi durante a permanência em Roma que pintou

a sua mais sublime e estranha obra: Hermes e Afrodite, título que, sem dúvida, só pode ser atribuído à censura, posto que o óleo não representava a reunião das duas

deidades num só corpo, mas evocava a visão que o anatomista tinha de Inês de Torremolinos quando descobriu o Amor Veneris.

Tudo era inspiração. Nada estava fora do alcance da sua mão. Os tormentosos dias inquisitoriais haviam ficado para trás. Agora podia olhar para os seus antigos inquisidores

sentado à destra do altíssimo trono de Paulo III, a quem havia devolvido a vida como Cristo a Lázaro. O obscuro anatomista cremonense era, agora, a mão de Deus.

Seu nome estava destinado à Glória. De fato, morava na cidade do Céu na Terra e substituíra seus velhos luccos de linho por outros de seda e sua beretta rústica

por

um fez bordado em ouro que o alfaiate do papa confeccionara



exclusivamente para ele. Era um homem rico; seus honorários como médico pessoal do papa ascendiam à quantia que ele mesmo achasse justa e, quando assim o dispusesse,

podia recorrer às santíssimas arcas; ao fim e ao cabo, que preço podia ter a vida de Sua Santidade? Nada o abalava; ninguém chegava aos seus calcanhares. Passeava

pelo Vaticano como se tudo aquilo lhe pertencesse. Era a única pessoa que podia ingressar, sem pedir permissão e quando bem lhe aprouvesse, nas alcovas papais; o

único homem que podia interromper as reuniões; o único homem que podia dar ordens ao Santo Padre. Ele decidia a que hora Sua Santidade devia comer, quando dormir

e acordar; decidia se era conveniente que Sua Santidade recebesse esta ou aquela visita; e decidia sobre as iras pontifícias e o pontificial repouso.

Mas sua felicidade ainda não era completa; todas as noites, antes de dormir, pensava em Mona Sofia. Mas suportava a ânsia pelo encontro

com o sossego que um título

de propriedade outorga. Tinha a certeza da possessão; não importava quantos homens a pretendessem, e nem mesmo quantos passariam pelo seu corpo. Haveria de chegar

o dia em que, livre, rico e famoso, ele subiria os sete degraus do átrio do bordello dil Fauno Rosso e, então sim, como um general a cujos pés um velho inimigo se

rende, entraria em sua ansiada colônia. Mas sabia que devia ser cuidadoso e, sobretudo, paciente; devia, daí por diante, comportar-se como um político.

Ninguém no Vaticano ignorava a influência que Mateo Colombo exercia sobre a vontade de Paulo

III. Assim compreendeu o seu antigo inquisidor, o cardeal

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Álvarez de Toledo. Vendo que já não gozava da influência que outrora exercera sobre Sua Santidade,



Álvarez de Toledo decidiu aproximar-se do médico pessoal do papa.

Bem sabia o cardeal que palavras o anatomista gostava de ouvir. Bem sabia como agradá-lo.

O cardeal Caraffa, em contrapartida, não podia disfarçar a antipatia medular, o desprezo que sentia por Mateo Colombo. Não podia ocultar o seu profundo ressentimento,

nem podia tolerar que houvessem apagado nas suas ventas a tocha que acende a fogueira.

Como prova de confiança e de reconciliação definitiva, o cardeal Álvarez de Toledo depositou nas mãos do médico do papa a sua própria saúde. Mateo Colombo não ignorava

que Álvarez de Toledo era o cardeal com mais possibilidades de suceder Paulo

III.

com efeito, o cardeal espanhol sabia muito de negócios.



II

Confiante em sua boa estrela, Mateo Colombo resolveu expor ao Sumo Pontífice a situação da sua obra, De ré anatômica, e solicitar que fosse levantada, de uma vez,

a censura que o cardeal Caraffa lhe impusera.

- Talvez não seja o momento - limitou-se a responder Paulo III.

Aquela foi a primeira grande desilusão de Mateo Colombo. Mas tinha paciência e estava disposto a esperar.

- Veremos, mais adiante, veremos... - foi a resposta, seis meses depois, quando o anatomista voltou

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a mencionar o assunto. - Filho, deveríeis confessarvos, pois cometestes um grave pecado - disse paternalmente Alessandro Farnese -; acabais de revelarme aquilo



que jurastes, ante a comissão, não dizer a ninguém.

Mateo Colombo não se repunha da sua indignada surpresa. Ele mesmo havia-lhe salvado a vida, e assim agradecia Sua Santidade. Não apenas eliminava qualquer esperança

de ver sua obra publicada, como permitia-se, ainda por cima, admoestá-lo.

Mateo Colombo terminou desejando que o decrépito e ingrato Alessandro Farnese morresse de uma vez. Afinal, ele era a mão de Deus e, assim como podia dar a vida -

tal como fizera com seu agônico paciente -, também podia tirá-la. Já não era porventura o médico pessoal do futuro papa?

Sua amizade com o cardeal Álvarez de Toledo consolidava-se dia após dia; ambos tinham um mesmo anseio e, toda vez que falavam da saúde de Sua Santidade, não podiam

evitar um olhar cúmplice. Jamais disseram uma só palavra sobre seus secretos desejos; não fazia falta.

III

Numa chuvosa manhã, Paulo III amanheceu morto. Foi o próprio Mateo Colombo quem se encarregou de divulgar a má notícia. Naquele mesmo dia o conclave reuniu-se. Na

realidade, nada parecia indicar qualquer surpresa. Mateo Colombo estava a um passo de ver, por fim, sua obra publicada. Estava prestes a beijar o anel do novo papa,

seu amigo,

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o cardeal Álvarez de Toledo. com o ânimo sereno não havia motivos para aflição nem inquietude -, o anatomista almoçou em sua alcova, pediu que o acordassem no meio

da tarde e se dispôs a dormir.

À tarde, debruçou-se na janela da alcova e olhou para a basílica. Ainda não havia fumaça. Decidiu permanecer em seus aposentos, porque não queria ouvir o falatório

do palácio. Caía a noite quando tornou a olhar pela janela. Sentiu uma ligeira inquietação ao não encontrar qualquer notícia no céu do crepúsculo. Por que razão

haveria de tardar tanto a boa-nova, se era coisa resolvida? Mas imediatamente voltou à calma.

Já era noite fechada quando o anatomista decidiu instalar-se na janela até ver a fumaça branca.

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A ÚLTIMA CEIA


Pensou ver, à distância, que o novo pontífice lhe dedicava um olhar.

I

Exatamente à meia-noite, a chaminé da basílica soltou uma levíssima coluna de fumaça branca. Todos os sinos do Vaticano dobraram ao pique e todas as arcadas começaram



a vomitar multidões que corriam para a praça de São Pedro. Uma bandada de pombos assustados voou ao redor da cúpula da basílica. Tudo se iluminou de repente. O coração

do anatomista animou-se com uma ansiedade longamente contida. Da sua janela podia ver perfeitamente a varanda de Sua Santidade. Riu de emoção como não ria há muitos

anos. A multidão reunida pedia a gritos para conhecer o novo papa. Como sementes a espalhar-se

com o vento, começou a se instalar em todas as bocas o nome do novo

pontífice: iria chamarse Paulo IV. Mas qual dos cardeais seria Paulo IV? "Álvarez de Toledo", lia-se nos lábios da multidão.

Precedido por um silêncio sepulcral feito de emoção, ansiedade e reverência, Sua Santidade surgiu na varanda. Mateo Colombo ria como nunca havia rido. Só quando

a exaltação sossegou e lhe permitiu abrir bem os olhos, o anatomista pôde ver, claramente, o rosto de Paulo IV. Seu coração deu um salto no peito. O riso ficou petrificado.

Quem saudava agora na varanda era o cardeal Caraffa.

II

Naquela mesma noite Mateo Colombo empacotou suas coisas. Não havia razão para esperar, não a censura definitiva da sua obra - que era um fato consumado -, mas nem



sequer que o seu antigo inquisidor não executasse a sentença que ficara em suspenso. Sabia do ódio visceral que Caraffa lhe nutria.

Entretanto, nem tudo estava perdido. Refletiu serenamente e resolveu de imediato. Ainda lhe restava o seu ansiado refugio em Veneza. Não havia esquecido a causa

da sua vida. E nada no mundo podia impedir que, por fim, Mona Sofia lhe entregasse definitivamente seu coração. Agora sim, o anatomista tinha a chave que abria as

portas da vontade da mulher que quisera para si. E essa mulher era Mona Sofia.

Além do mais, era agora um homem rico, dono de uma fortuna que dificilmente poderia gastar pelo resto da sua vida. Pensando bem, não seria tão difícil fugir das

garras de Caraffa. Em dois minutos decidiu o rumo da sua existência: partiria agora mesmo para Veneza, subiria ao bordello dil Fauno Rosso, pagaria os dez ducados

que lhe permitiriam conquistar o amor de Mona Sofia e partiria com ela para o outro lado do Mediterrâneo, ou, se necessário, para as novas terras situadas do outro


: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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