O anatomista



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de falar-vos. E me atrevo a dizer que, se pudermos explicar o funcionamento desse órgão, poderemos, por fim, explicar o obscuro proceder feminino.

PARTE UNDÉCIMA

Da existência de um órgão feminino que chamei Amor Veneris, comparável á alma masculina

O que quero dizer-vos é que existe no corpo da mulher um órgão que exerce funções análogas à da alma

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nos homens, mas cuja natureza é completamente diferente, já que depende unicamente do corpo.

Tal órgão é, antes de mais nada, a sede do deleite nas mulheres. Essa protuberância que surge do «fero, perto da abertura chamada boca da matriz, é a origem e o

fim de todas as ações destinadas ao prazer sexual. Na atividade sexual, não apenas quando é friccionada vigorosamente por uma vara, mas também ao ser tocada por

um dedo, o sêmen2 flui de um lado para o outro mais rápido do que o ar por causa do prazer, mesmo sem que elas o queiram. Se tocarmos nessa parte do útero quando

as mulheres têm apetência sexual e estão muito excitadas, com frenesi, incitadas ao prazer e

com apetência de homem, descobriremos que é um pouco mais duro e oblongo,

a ponto de 'semelhar uma espécie de membro masculino - sobre este ponto haverei de ocupar-me meticulosamente mais adiante. Portanto, como até hoje ninguém discerniu

essa protuberância nem o seu uso, se me é permissível dar nome às coisas por mim descobertas, que seja chamada Amor Veneris.3

E afirmo deforma categórica que nesse órgão se originam todas as ações da mulher e todos os procederes que puderem assemelhar-se às paixões masculinas. Quero dizer-vos

que a mulher é governada pela influência do Amor Veneris e que todas as suas ações, das mais nobres às mais repugnantes, das mais dignas e honrosas às mais vis e

desprezíveis, têm como fonte o órgão que vos mencionei. Da mais promíscua prostituta à mais fiel e casta esposa, da mais devota e consagrada religiosa

nota. Assim menciona o fluxo.

3. "Amor Veneris, vel Dulcedo Apeleteur". Assim o menciona Mateo Colombo em De ré anatômica.

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àquela que pratica bruxaria, todas as mulheres, sem distinção, são objeto do arbítrio dessa parte anatômica.

PARTE DÉCIMA SEGUNDA Da fragilidade moral das mulheres


Irei expor agora como funciona esse órgão e como e por que razão em cada mulher ele produz diferentes procederes. E se interpretais que esta minha alegação é contrária

às mulheres, estais errados, pois assim como o homem procede de acordo

com o seu livre-arbítrio em virtude da alma que lhe foi dada, a mulher não é dona do seu

proceder, mas escrava dos arbítrios do Amor Veneris. Não atribuo a outra causa a sua fragilidade moral, como se verá mais adiante.

PARTE DÉCIMA TERCEIRA

De por que o sêmen masculino é de caráter

principalmente metafísico e depor que se impulsiona

por si mesmo

Já expus minha teoria sobre os fluidos cinéticos. Estes agem deforma similar a como o faria uma vontade, ou seja, canalizam as ações que governam o corpo para que

este não pereça, como as ações elementares de alimentação, evacuação etc. Já vos disse, também, que num corpo que goza da tutela de uma alma as ações pecaminosas

tomam um curso diferente daquele que lhe impõe a fonte, quer dizer, o corpo. Quero falar-vos agora do curso e do destino desses fluidos cinéticos que, assim como

são produzidos no cérebro, devem, por causa natural, ser evacuados do corpo para não intoxicá-lo. Descobri

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que o corpo mantém um caudal estável do volume desses fluidos e que o mecanismo mais freqüente para que não saturem o corpo é a evaporação. Num movimento qualquer

- ilustrou o anatomista, flexionando repetidamente o braço -, o fluido que acorre ao músculo para contraí-lo ou dilatá-lo evapora-se no momento da ação, por obra

do calor que o movimento consome. Isto é assim nas ações mais simples; porém nas ações mais complexas, nas quais é necessária a intervenção da alma, as coisas se

complicam um pouco. No desejo sexual, quando surge a impulsão da cópula, o corpo produz grande quantidade de fluidos cinéticos, que viajam, segundo a mecânica que

já descrevi, para os órgãos sexuais, facilitando assim a abertura das veias e a dilatação dos músculos a fim de que o sangue ingresse na vara e a faça endurecer-se.

O sêmen, como disse Aristóteles, é de caráter metafísico, embora necessite de uma parte material para impulsionar-se da vara para fora. Essa parte material do sêmen,

que é o que nos é dado ver, são os fluidos cinéticos em estado puro. Não é por outra razão que esguicha

com a energia da lava de um vulcão. O sêmen não apenas tem

a função de guiar os espíritos, mas, também, de libertar o corpo de todos os fluidos cinéticos que este produziu para a cópula, já que se permanecessem nele o intoxicariam,

gerando graves doenças. Pois bem, o que ocorre com tais fluidos quando a ação é interrompida por graça da vontade da alma?


PARTE DÉCIMA QUARTA Da alma e do apetite sexual


Segundo a mecânica que me foi dado estabelecer, o apetite sexual surge no homem quando os órgãos da

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vista ou do tato são excitados por um objeto externo de ordem tentadora e pecaminosa, quer dizer, uma mulher ou uma representação dela (é fácil comprovar que uma



pintura que representa uma bela mulher produz idêntico proceder). Essa excitação que surge dos nervos mais externos (do olho, por exemplo) libera os fluidos cinéticos

depositados nos músculos, e estes viajam para o cérebro como o faria um mensageiro. Ali, no cérebro, são produzidos mais fluidos

cinéticos, que viajam até os órgãos

sexuais, como já disse, para inchar a vara e dar ânimos a todos os músculos que intervém na cópula. A maior parte desses fluidos deposita-se nos testículos e na

vara como sêmen. É neste ponto que a alma intervém e censura as ações. Mas dado que o sêmen, como já disse, é de origem metafísica, a maior parte de seu volume é

constituída por puros espíritos. Se observais o sêmen algum tempo depois de haver sido liberado, vereis que seu volume se reduz ostensivamente, até sua décima parte.

Isto porque os espíritos que o habitavam regressaram à alma. De modo que quando a alma põe fim às ações de origem pecaminosa, transforma essas ações do corpo em

paixões da alma. A que outra razão podemos atribuir o fato de que, quando se reza fervorosamente a Deus para evitar a tentação, o apetite sexual cesse por completo

e a vara volte ao estado de repouso, sendo que antes estava cheia de líquidos seminais? Se encheis de água uma tripa a ponto de fazê-la inchar inteiramente, esta

não poderá desinchar-se a menos que a libereis da água ou que estoure pela pressão. Mas sabemos que isso não ocorre

com a vara que, por obra da alma, pode voltar

ao repouso sem que o sêmen saia dela, quer dizer, sem haver chegado ao desenlace da ação de origem pecaminosa.


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Resulta evidente o caráter metafísico do sêmen, por ser o único fluido que não demanda ser evacuado; não seria possível postergar indefinidamente a evacuação das

matérias fecais e urinárias, ao passo que o sêmen, após ter sido produzido, não precisa imperiosamente ser expulso. E isso porque sua essência está feita de espíritos

provenientes da alma, que a ela voltam quando esta não permite que sejam liberados. Não devemos sentir-nos envergonhados por sermos chamados à tentação; ao contrário,

quanto mais vezes hajamos conseguido vencê-la, tanto maiores e numerosas serão as nossas paixões da alma.

PARTE DÉCIMA QUINTA

Do apetite sexual nas mulheres

e da ausência da guia da alma


Pois bem, o que sucede no corpo da mulher quando esta se encontra excitada e

com desejos de vara, sabendo-se que não há nelas uma alma a transformar os líquidos

seminais originados nessas ações em paixões da alma? O sêmen da mulher é muito mais espesso e pesado que o do homem, porque no meio das suas partículas não há espíritos

disseminados como no do homem, quer dizer, são puros fluidos cinéticos. O processo de excitação sexual na mulher é diferente do que ocorre no homem. Já vos disse

que, neste, o processo se inicia nos órgãos sensitivos, que foram excitados por um objeto pecaminoso, quer dizer, uma mulher. De modo que o homem é o sujeito da

incitação e, inversamente, a mulher é o objeto dessa tentação. Assim, como uma coisa não pode ser, ao mesmo tempo, a outra, o sujeito não

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pode ser o objeto ao mesmo tempo. O que desejo dizer é que o processo de excitação sexual na mulher não se inicia nos órgãos sensoriais pela visão de um homem, mas

se dá espontaneamente e de maneira natural, e tem origem no interior do corpo, mais precisamente no órgão que já vos descrevi. A mulher é, sempre, o objeto do pecado.

O que estou expondo em termos anatômicos não é novo em termos morais: lá tendes, outra vez, o exemplo de Eva, que é objeto da tentação cujo sujeito é Adão. Mas irei

referir-me a este ponto mais adiante. Permiti-me que continue minha exposição sobre a origem e o destino do desejo sexual nas mulheres. O impulso sexual, que se

dá de maneira natural e espontânea, origina-se no Amor Veneris, fazendo

com que este libere fluidos cinéticos para o cérebro anunciando-lhe seus desejos. O cérebro,

então, libera novos fluidos de forma maciça, para pôr em marcha os mecanismos de sedução e, ao mesmo tempo, alimentar todos os músculos que intervém na cópula. Assim

se inicia o desejo de vara. Ora, como na mulher não há alma que decida sobre esses impulsos, a concretização do pecado somente será possível se ela conseguir,

com sucesso, tentar um homem mediante a sedução. Podemos dizer que a mulher é a força da vontade da carne e, inversamente, que o homem é a força da vontade da alma.

Dependendo do triunfo de um ou de outro, haverá de dar-se ou não o pecado. Detenhamo-nos agora nessa segunda possibilidade: o que ocorre no corpo da mulher quando

não se dá o pecado, pois que triunfou a vontade da alma do homem? Já vos disse que, no homem, os espíritos seminais regressam à alma regulando e mantendo estável

o volume dos fluidos cinéticos do corpo. Mas o que ocorre com

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todos os fluidos seminais da mulher quando, depois de terem sido produzidos, não podem ser liberados ou convertidos em paixões da alma?


PARTE DÉCIMA SEXTA Da acumulação de fluidos atléticos nas mulheres


O que se observa primeiro é um aumento do tamanho do Amor Veneris, pois que todos os sumos se depositam ali. Em alguns dos casos que me foi dado observar, essa pequena

protuberância pode atingir um tamanho semelhante ao de uma vara de menino. Por fim, quando os líquidos já não podem ser contidos, não são expulsos para fora, e sim

para o interior do corpo, produzindo toda espécie de males, coisa observada

com freqüência nas mulheres. Muitas vezes a doença produzida pela acumulação de fluidos

cinéticos pode ser facilmente confundida com a possessão demoníaca; e, de fato, se algum lugar do corpo é escolhido pelo demônio para fazer a sua morada, não duvideis

que tal ponto é o Amor Veneris. Os antigos gregos acreditaram situar-se no útero a origem de toda espécie de males; de minha parte, estou certo de que tais doenças

não têm outra fonte senão o órgão que me foi dado descobrir. Mas se o processo do desejo sexual se dá nas mulheres de maneira natural e espontânea, como acabo de

dizer, deveis perguntar-vos porque há mulheres que, não sendo feias nem decrépitas, não despertam a tentação no homem, nem manifestam apetite de vara e, pelo contrário,

são bondosas e beatas e até podem mostrar amor, entendido este no seu masculino sentido, quer dizer, casto. Existem diferentes motivos.


PARTE DÉCIMA SÉTIMA De por que existem mulheres bondosas e que não mostram inclinação ao pecado


O mais freqüente é a virgindade. Se jamais provastes cervo, nunca poderíeis desejar comer de sua carne. O Amor Veneris começa a exercer sua influência depois que

o virgo se rompeu. É uma crença comum pensar que a perda da virtude é uma conseqüência do apetite de vara; afirmo-vos que a segunda é um efeito da primeira.

- Permiti-me que vos aponte a contradição em que vagais - interveio o reitor. - Se, como dizeis, a mulher é o objeto do pecado, cujo sujeito é o homem, e ademais,

segundo vossas próprias palavras, a primeira, de maneira natural e espontânea, desperta o desejo sexual no segundo, o que leva a mulher virgem a perder a virtude,

sendo que nenhum apetite sexual poderia nascer dela, posto que, como dizeis, vosso Amor Veneris não exerce sua luxuriosa influência enquanto o virgo se encontra

íntegro?

Vossa Excelência adiantou-se ao que me dispunha, precisamente, a expor.

com efeito, pareceria não existir qualquer razão para que a mulher virgem renuncie à sua

virtude, posto que, enquanto o virgo estiver intacto, o Amor Veneris não exerce qualquer função. Poderia argumentar a meu favor que a mulher virgem, quando é oferecida

em matrimônio, torna-se vítima da lascívia do marido, incitando-a à cópula. Contudo, adianto-me à objeção que Vossa Excelência já possui, decerto, em mente. Já vos

disse que o apetite sexual é despertado no homem quando seus órgãos sensitivos foram excitados por um objeto externo e lascivo, isto é, uma mulher cujo

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frenesi venéreo desatou-se no interior do seu corpo, tentando e seduzindo o homem. Também disse que ninguém pode desejar comer carne de cervo sem tê-la provado



antes. O que move a mulher virgem a perder a virtude não é o apetite de vara, mas outra apetência também natural e espontânea; refiro-me à maternidade.

A gestação de uma criança requer a afluência de fluidos cinéticos, tanto para suprir o excesso de atividade muscular que se produz durante a gravidez como para fornecer

ao ser em formação seu quantum estável desses fluidos. Já vos disse de que maneira Aristóteles explica a concepção: o homem é quem dá a alma e a mulher, a substância.

Existem para a mulher dois caminhos virtuosos: a virgindade e a maternidade; e dois caminhos corruptos: o pecado e a doença.

Quando o homem se afasta do pecado em virtude do seu livre-arbítrio, afasta do pecado também a mulher; é o homem quem deve conduzir a mulher pelo caminho da virtude.

PARTE DÉCIMA OITAVA

De por que o Amor Veneris é a prova anatômica

da gênese das mulheres tal como dizem as

Sagradas Escrituras

Permiti-me agora que assinale outras particularidades anatômicas do Amor Veneris. Já vos falei da forma que esse órgão apresenta e das funções e influências que

exerce sobre o proceder das mulheres. Como esta excelentíssima Comissão haverá constatado, nenhuma das minhas palavras se desvia um átimo das Sagradas

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Escrituras e, pelo contrário, não têm outro propósito senão compreender a magnífica Obra e, dessa maneira, louvar o Criador. Por esse caminho me foi dado estabelecer,

em termos anatômicos, uma outra Verdade de que nos falam os Santos Evangelhos. Refiro-me à gênese da mulher. A anatomia humana é como um livro cujos caracteres,

se sabemos lê-los com propriedade, revelam-nos de maneira assombrosa a Palavra. Afirmo-vos deforma categórica que o Amor Veneris é a prova material da palavra de

Deus nos versículos vinte e dois e vinte e três do Gênese. O órgão de que vos falo é o vestígio anatômico da procedência da mulher; a forma masculina que o Amor

Veneris apresenta demonstra que, tal como afirmam as Escrituras, a fêmea é feita da costela do homem.

PARTE DÉCIMA NONA Da comparação da vara com o Amor Veneris


Notei horror em vossos rostos quando vos disse que o órgão que me foi dado descobrir apresenta a aparência de uma vara e, ademais, como esta, ergue-se ou declina.

E na realidade o Amor Veneris comporta-se, em aparência, da mesma forma que uma vara. Muito embora, é claro, não sejam absolutamente iguais. A principal diferença

é fisiológica, mais do que anatômica, porque a vara é apenas um meio, um instrumento, e o Amor Veneris, uma causa. Quero dizer-vos que o proceder da vara, conforme

inche ou se recolha, depende dos avatares do corpo e da alma - como já vos mencionei -, ao passo que do Amor Veneris dependem todas as ações das mulheres. Outro

anatomista, o grande Leonardo da Vinci, disse que a vara tem vida própria, que é um animal

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provido de uma alma e uma inteligência independentes daquelas do homem, e que procede segundo a sua própria vontade. E disse que, por mais que um homem deseje excitá-lo,



esse animal se nega a obedecer, move-se por conta própria, sem autorização nem desejo do homem, tanto quando está acordado como adormecido, e que, enfim, a vara

faz o que bem lhe apraz. E, na verdade, parece ser realmente assim algumas vezes. Contudo, direi que só é verdade na aparência.

com efeito, quando a vara se ergue

intempestivamente sem haver qualquer razão, ou seja, sem a intervenção de um objeto externo e lascivo, isso tem uma explicação diferente daquela que nos dá Leonardo

da Vinci. A causa de a vara inchar sem alguma razão é simplesmente o desvio de fluidos cinéticos que foram produzidos para um determinado fim e, por algum motivo,

esse fim viu-se adiado ou suspenso; por exemplo, quando nos dispomos para uma tarefa qualquer e um acontecimento inesperado nos impede de levá-la a cabo. Dependendo

da magnitude da tarefa, o corpo prepara os músculos para afrontar o trabalho, provendo-os de um determinado volume de fluidos cinéticos. Segundo a mecânica que expus,

se o corpo se vê privado de levar adiante essas ações, por algum meio será obrigado a liberar-se desses sumos. Não é difícil reunir um e outro fato numa relação

de causa e efeito; vereis que é comum e fácil de comprovar que, quando a vara se ergue por conta própria, isso ocorre depois de adiar uma tarefa para a qual estávamos

dispostos. Não obstante, é fácil desfazer-se desses fluidos, pois que não produziram sêmen na vara e, assim como anteriormente se desviaram do seu curso natural

em direção à vara, podem retomar o rumo inverso, dela para os diferentes

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músculos, e serem assim evacuados por evaporação, mediante uma tarefa que demande um volume de sumos semelhante ao daquela para a qual estávamos dispostos. Quanto

ao motivo pelo qual, num homem decidido a pecar, inclusive havendo pagado para isso, a vara decide não colaborar

com ele no pecado, a razão não é alheia aos motivos

que descrevi antes. Ocorre que, em determinadas circunstâncias, desconhecemos os desígnios que nossa própria alma impõe ao nosso corpo, separando-se a alma da nossa

vontade e obrigando o corpo a ficar de seu lado.1

Pois bem, tudo o que Leonardo disse em referencia à vara é aplicável,

com mais fortes razões, ao Amor Veneris, porque este não apenas possui vida, vontade e inteligência

próprias, mas essa vida, vontade e inteligência guiam o procedimento do ser que esse órgão traz em torno de si.2 Neste sentido deve-se entender a vontade e a inteligência

femininas: no sentido do Amor Veneris.

O homem deve proceder com a mulher do mesmo modo que sua alma procede

com o seu corpo, porque o corpo do homem é feminino assim como sua alma é masculina.

Concluo dessa maneira a minha alegação, na certeza de que tudo o que vos disse é de absoluta justiça e de que minhas palavras não se afastam nem um átimo das Sagradas

Escrituras. Que a justiça esteja comigo.

nota. Nota-se que neste ponto Mateo Colombo desmorona todo o seu constructo dualista corpo-alma, feminino-masculino, pecado-virtude, e introduz um terceiro elemento

que dissocia a vontade da alma e do corpo, embora não tenha elementos para fundamentar essa afirmação enigmática.

2. Eis a definição de mulher que resulta da teoria Mateo Colombo', toda aquela carne que circunda o Amor Veneris.

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A SENTENÇA

O MILAGRE

I

Os que eram considerados culpados em primeira instância pelas comissões doutorais dificilmente conseguiam reverter o veredicto nos tribunais do Santo Ofício. Não



obstante, um milagre haveria de intervir na sorte de Mateo Colombo.

No mesmo dia em que a comissão se dispunha a redigir o ditame condenatório, chegou a Pádua um mensageiro de Roma; trazia uma carta dirigida ao presidente da comissão.

O cardeal Caraffa leu a mensagem uma e outra vez e não pôde evitar a sensação de que o piso se movia sob os seus pés. A carta trazia o selo do papa Paulo

III. A saúde

do septuagenário pontífice decaía com precipitação e ele, pessoalmente, havia requerido os serviços de Mateo Colombo. A fama do anatomista em Roma não era, precisamente,

a de quem está predestinado à santidade, antes o contrário. Mas era um fato que Mateo Colombo haviase tornado - por obra de seus detratores - o médico mais renomado

da Europa. Apesar de seus homens mais próximos tentarem convencer Sua Santidade de que não era uma decisão conveniente, mesmo

com o fio de vida que lhe restava

Alessandro Farnese, do seu

leito de doente, ainda era suficientemente obcecado para decidir sobre a própria saúde. E suficientemente temível para impor a sua vontade. Assim, a comissão presidida

pelo cardeal Caraffa viu-se forçada a redigir às pressas um veredicto favorável ao acusado. A sentença da comissão de bispos recaiu sobre a pessoa do anatomista,

mas não sobre a sua obra. Mateo Colombo foi declarado inocente e os Doutores decidiram não levar o processo aos tribunais do Santo Ofício. Mas a comissão determinou,

ao mesmo tempo, manter a censura que o reitor havia imposto a De ré anatômica. Uma decisão salomônica que, longe de conformar as partes, decepcionou e surpreendeu

a todos. Inclusive os próprios bispos.

O ânimo dos Doutores inclinava-se - como em quase todos os casos, e por predisposição natural para o luminoso caminho das fogueiras propiciado pelo reitor. A comissão,

levando em conta o bom crédito que este possuía junto aos seus integrantes, havia abaixado o polegar para o anatomista antes mesmo de que ele pronunciasse uma só

palavra em sua defesa, e preparava-se para uma sentença impiedosa. Não porque considerasse demoníacas as revelações do anatomista; pelo contrário, o descobrimento

de Mateo Colombo era uma verdadeira revelação do ponto de vista dos Doutores; finalmente, o Amor Veneris explicava um dos maiores enigmas - e,

com certeza, um dos

mais obscuros problemas - para a Igreja: a mulher. A questão não era exclusivamente o descobrimento, mas, também, o descobridor. E, decerto, seria calamitosa a difusão

de semelhante assunto. Se as coisas eram da maneira que o anatomista

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propunha, o Amor Veneris constituía um verdadeiro instrumento de potestade sobre a volátil vontade feminina. Por certo, a publicidade do descobrimento conduziria,

forçosamente, a todo gênero de danos. O que sucederia se o achado de Mateo Colombo caísse nas mãos dos inimigos da Igreja? A que calamidades não seria confrontada

a Cristandade se, do feminino objeto do pecado, se apoderassem as hostes do demônio ou, pior ainda, se as próprias filhas de Eva descobrissem que possuem, no meio

das pernas, as chaves do céu e do inferno? A lógica do descobrimento era a seguinte: se o Amor Veneris é o órgão que governa a vontade da mulher, a arte da medicina

é que irá proporcionar o domínio do lascivo Amor Veneris, e, por ação transitiva, quem governar aquele órgão haverá de governar a vontade feminina. Mas como se obtém

o governo do Amor Veneris?; mediante as sábias artes da medicina ou, se for o caso, da cirurgia. Saber tocar. Saber cortar.


: 2015
2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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