O anatomista



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Este livro em formato digital destina-se ao uso exclusivo de deficientes

visuais. Digitalizado e corrigido por J. Martins e Mary Baumann, em

abril de 2006.
***

O ANATOMISTA

Federico Andahazi
Copyright - 1997

Prólogo
A PRIMAVERA DO OLHAR

"Oh, minha América, minha doce terra encontrada!", escreve Mateo Realdo Colombo (ou Mateo Renaldo Colón, como registra a

rubrica hispânica) em sua De ré anatômica.1

Não se trata de uma exclamação presunçosa, à guisa de Eureca!, e sim de um lamento, uma paródia amarga dos seus próprios

avatares e do próprio infortúnio, projetada

na figura do seu xará genovês, Cristóphoro. Um mesmo sobrenome e, quem sabe, um mesmo destino. Eles não eram unidos pelo

parentesco, e a morte de um ocorre apenas

doze anos após o nascimento do outro. A "América" de Mateo é menos remota e infinitamente mais breve que a de Cristóvão;

de fato, ela não excede em muito o tamanho

da cabeça de um prego. Mas teve que permanecer em silêncio até a morte do seu descobridor e, apesar da insignificância de

suas dimensões, não provocou menos agitação

que aquela.

Estamos no Renascimento. O verbo é Descobrir. É o ocaso da pura especulação a priori e dos abusos do silogismo, em benefício

da empiria do olhar. É, exatamente,

a primavera do olhar. Talvez Francis Bacon na Inglaterra e Campanella na Itália tenham notado que enquanto os escolásticos

perdiam-se nos

repetidos

nota. De ré anatômica, 1559, liv. XI, cap. XVI.

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labirintos do silogismo, o simplório do Rodrigo de Triana, à mesma hora, gritava "Terra!" e, sem saber, precipitava a nova



filosofia do olhar. A escolástica

- como a Igreja finalmente entendeu - não era muito rentável ou, pelo menos, proporcionava menos utilidades que a venda

de indulgências, posto que Deus decidiu pedir

dinheiro aos pecadores. A nova ciência é boa desde que sirva para arrecadar ouro. É boa desde que não exceda a verdade das

Escrituras, e é melhor ainda tratando-se

da escritura de bens. Assim como o sol começava a deter a sua marcha ao redor da Terra - o que não aconteceu, naturalmente,

de um dia para o outro -, da mesma maneira

a geometria se rebelava contra a planície do papel para colonizar o espaço tridimensional da topologia. Eis o maior trunfo

da pintura renascentista: se a natureza

está escrita em caracteres matemáticos - como anunciava Galileu -, a pintura haverá de ser a fonte dessa nova noção de natureza.

Os afrescos do Vaticano são uma

epopéia matemática, como testemunha o abismo conceitual que há entre a Natividade de Lorenzo de Mônaco e O triunfo da cruz,

que recobrem a abside da Capella

della Pietá. Por outro lado, mas por causas semelhantes, não há cartografia que se sustente. Mudam os mapas do céu, os da

Terra, os dos corpos. Lá estão os mapas

anatômicos,

que são as novas cartas de navegação da cirurgia... E então, regressamos ao nosso Mateo Colombo.

Estimulado talvez pela homonímia com o almirante genovês, Mateo Colombo decidiu que seu destino também era descobrir. E

lançou-se aos próprios mares. Por certo,

suas águas não eram as mesmas que as do xará.

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Foi o maior explorador anatômico da Itália, e entre os seus descobrimentos mais modestos encontra-se nada mais nada menos



que a circulação do sangue,

antecipando-se à demonstração do inglês Harvey (De motus cordes et sanguinis), muito embora até mesmo esse descobrimento

fosse uma coisa menor em relação à sua "América".

O fato é que Mateo Colombo nunca chegou a publicar o seu achado, coisa que ocorreu no mesmo ano da sua morte, em 1559. Era

preciso ter cuidado

com os Doutores da

Igreja; os exemplos proliferam: três anos antes, Lúcio Vanini "se fez" queimar pela Inquisição a despeito, ou talvez por

causa, da sua declaração de que não daria

nenhuma opinião sobre a imortalidade da alma até ficar "velho, rico e alemão".2 E certamente o descobrimento de Mateo Colombo

era mais perigoso que a opinião de

Lúcio Vanini. Isso sem contar a aversão que o nosso anatomista sentia pelo fogo e pelo cheiro de carne queimada, sobretudo

em se tratando da própria.

nota. A. Weber, História da filosofia européia.
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O SÉCULO DAS MULHERES


O século XVI foi o século das mulheres. A semente que Christine de Pisan semeara cem anos antes florescia por toda a Europa

com o doce perfume de O ditado dos verdadeiros

amantes. Não foi de modo algum casual que o descobrimento de Mateo Colombo tenha eclodido no tempo e no espaço em que se

deu. Até o século XVI, a História era narrada

pela grave voz masculina. "Onde quer que se olhe, lá está ela com a sua infinita presença: do século XVI ao XVIII, na cena

doméstica, econômica, intelectual, pública,

conflitual e até mesmo lúdica da sociedade, encontramos a mulher. Em geral, solicitada por suas tarefas cotidianas. Mas

também presente nos acontecimentos que constituem,

transformam ou dilaceram a sociedade. De cima a baixo da escala social, ela ocupa o conjunto dos espaços, e sobre a sua

presença falam constantemente aqueles que

a contemplam, amiúde para assustar-se", declaram Natalie Zemón e Arlette Farge em História das

mulheres.

O descobrimento de Mateo Colombo surge, precisamente, quando os âmbitos das mulheres - sempre da porta para dentro - começam,

pouco a pouco e sutilmente, a sair

dos muros dos beatérios e dos monastérios, dos prostíbulos ou da tépida, mas não menos monástica, doçura do lar. A mulher,

timidamente,

nota. História das mulheres, Editorial Taurus.

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atreve-se a discutir com o homem. com algum exagero, chegou-se a dizer que no século XVI foi travada a "Batalha dos sexos".



Verdade ou não, a questão das

incumbências das mulheres instala-se como um tema de discussão entre os homens.

Em tais circunstâncias, o que era a "América" de Mateo Colombo? Certamente, o limite entre descoberta e invenção é muito

mais difuso do que parece à primeira vista.

Mateo Colombo - é hora de dizer descobriu aquilo com que todo homem sonhou alguma vez: a chave mágica que abre o coração

das mulheres, o segredo que governa a misteriosa

vontade do amor feminino. Aquilo que, desde o começo da História, foi buscado por bruxos e feiticeiras, xamãs e alquimistas

- mediante a infusão de toda sorte de

ervas ou o favor de deuses e demônios -, aquilo, enfim, que todo homem apaixonado sempre ansiou, ferido pelo desamor do

objeto de seus desveles e de sua desdita.

E também, aliás, aquilo com que os monarcas e governantes sonharam, pela mera ambição da onipotência: o instrumento que

subjugasse a volátil vontade feminina. Mateo

Colombo buscou, peregrinou e, finalmente, encontrou a sua "doce terra" desejada: "o órgão que governa o amor nas mulheres".

O Amor Veneris - tal é o nome

com que

o anatomista batizou-o, "se me é permissível dar nomes às coisas por mim descobertas" - constituía um verdadeiro instrumento



de potestade sobre o escorregadio -

e sempre obscuro - arbítrio feminino. Por certo, tal achado apresentava mais de uma aresta:

"com que calamidades a cristandade não se veria confrontada se as hostes

do demônio se apoderassem do feminino objeto do pecado?", perguntavam-se, escandalizados,

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os Doutores da Igreja. "O que seria do rentável negócio da prostituição se qualquer pobre entrevado pudesse ganhar o amor



da mais cara das cortesãs?" perguntavam-se

os ricos proprietários dos esplêndidos lupanares de Veneza. Ou, ainda pior, o que aconteceria se as filhas de Eva descobrissem

que trazem no meio das pernas as chaves

do céu e do inferno?

O descobrimento da "América" de Mateo Colombo foi também - e na sua medida - uma épica, cortada pela ladainha de um réquiem.

Mateo Colombo foi tão feroz e impiedoso

quanto Cristóvão; como aquele - e com a mesma literal propriedade -, foi um colonizador brutal que reclamava para si mesmo

o direito sobre as terras descobertas:

o corpo da mulher.

Mas, por outro lado, para além do que o Amor Veneris significava, uma outra polêmica seria suscitada pelo que era esse órgão.

Existirá o órgão que Mateo Colombo

descreveu? Esta é uma pergunta inútil que deveria, em todo caso, ser substituída por outra: Existiu o Amor Veneris? As coisas

são, ao fim e ao cabo, as vozes que

as nomeiam. Amor Veneris, vel Dulcedo Apeleteur - nome com que o seu descobridor batizou o órgão - tinha um conteúdo fortemente

herético. Se o Amor Veneris coincide

com o menos apóstata e mais neutro kleitoris (comichão) - que alude a efeitos antes que a causas -, é um assunto que haverá

de preocupar os historiadores do corpo.

O Amor Veneris existiu por razões diferentes das razões da anatomia; existiu não só porque fundou uma nova mulher, mas porque,

além disso, promoveu uma tragédia.

O que vem a seguir é a história de um descobrimento.

O que vem a seguir é a crônica de uma tragédia.

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PRIMEIRA PARTE


A TRINDADE

I


Do outro lado do Monte Veldo, na viela de Bocciari, perto da Santa Trindade, estava il bordello dil Fauno Rosso, a casa

de putas mais cara de Veneza, cujo esplendor

não tinha concorrência em todo o Ocidente. A atração do bordel era Mona Sofia, a puta mais bem cotada de Veneza e,

com toda certeza, a mais esplêndida do Ocidente.

Superior, mesmo, à legendária Lenna Grifa. Assim como ela, Mona Sofia percorria as ruas de Veneza numa liteira conduzida

por dois escravos mouros. Assim como Lenna

Grifa, levava uma cadela da Dalmácia aos pés da liteira e, no ombro, um papagaio. Como podia-se constatar no catálogo di

tutte leputtane dei bordello con il lorprezzo1,

seu nome vinha impresso em letras destacadas e, em números mais notórios ainda, o preço: dez ducados, ou seja, seis ducados

a mais do que a própria legendária Lenna

Grifa.2 O catálogo, de feitura muito bemcuidada, editado que era para viajantes seletos, nada dizia, naturalmente, sobre

os seus olhos verdes como esmeraldas e nem

sobre os mamilos duros como amêndoas,

nota. Catálogo que D. Merejkovski menciona em seu Leonardo da Vinci, editora Juventud, Barcelona, 1940.

2. Nota-se que uma fortuna suficiente para viver uma vida inteira de luxos era de uns mil ducados.

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cujo diâmetro e textura evocavam a pétala de uma flor - se houvesse - que possuísse o diâmetro e a textura dos mamilos de



Mona Sofia. Nada dizia sobre as suas

coxas firmes de animal, torneadas como a madeira, nem sobre a sua voz de lenho ardendo. Nada dizia sobre as suas mãos que,

de tão pequenas, pareciam não abranger

o diâmetro de um falo, nem sobre a sua boca mínima, cuja cavidade diria-se impossível de acolher o volume de uma glande

inflamada. Nada dizia sobre o seu talento

de puta, capaz de levantar a coisa até mesmo de um ancião desenganado.

Numa madrugada de inverno do ano 1558, pouco antes de o sol aparecer no meio das duas colunas de granito - trazido da Síria

e de Constantinopla - e de situar-se

entre o leão alado e São Teodorico, quando os autômatos mouros da Torre do Relógio se dispunham a bater a primeira das seis

badaladas, Mona Sofia acabava de despedir-se

do seu último cliente, um rico comerciante de sedas. Descendo os degraus que conduziam ao pequeno átrio do bordel, o homem

ajeitou a estola de lã que usava por cima

do lucco, enfiou a beretta até as sobrancelhas e, espreitando pelo vão da porta, certificou-se de que nenhum passante o

veria sair. Do bordel foi direto para a Santa

Trindade, cujos sinos convocavam para o primeiro ofício.

Mona Sofia estava com as costas cansadas. Para seu desgosto, quando puxou as cortinas de seda púrpura da janela de sua alcova,

constatou que já amanhecera. Odiava

ter que dormir com o burburinho que chegava da rua. Pensou que era uma boa oportunidade para aproveitar o dia. Reclinada

sobre a

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cabeceira da cama, começou a fazer planos. Primeiro se vestiria como uma dama e iria ao ofício da catedral de São Marcos



- a rigor, fazia muito tempo que não ia

à missa


-, depois se confessaria e, livre de qualquer remorso, passaria finalmente pela Bottega dil Moro para comprar uns perfumes

que havia prometido solenemente a si mesma.

Continuou planejando enquanto se cobria um pouco mais com as mantas - o repouso, depois daquela noite fatigante, estava

começando a baixar a sua temperatura - e

fechou os olhos para poder pensar com maior clareza.

Os sinos ainda não haviam terminado de tocar quando Mona Sofia, como todas as manhãs, adormeceu profunda e placidamente.

II

Naquele mesmo horário, porém em Florença, caía uma garoa fina sobre o campanário da modesta abadia de São Gabriel. Os sinos



tocavam

com tanta decisão que até parecia

que quem lhes puxava as cordas era o obeso abade, e não as delicadas mãos de uma mulher. Entretanto, o abade ainda estava

dormindo.

com a pontual devoção que todas

as manhãs a tirava da cama antes da alvorada - fizesse frio ou calor, chovesse ou caísse gelo -, Inês de Torremolinos pendurava-se

nas cordas

com a sua leve ossatura

e, como se estivesse animada pelo Todo-Poderoso, conseguia mover os sinos, cujo peso superava em não menos de mil vezes

o do seu feminino e imaculado corpo.

Inês de Torremolinos vivia numa austeridade franciscana,
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apesar de ser uma das mulheres mais ricas de Florença. Primeira filha de um nobre casal espanhol, ela era muito jovem quando

contraiu matrimônio

com um insigne senhor florentino. De maneira que, como prescreviam as normas maritais, partiu da sua Castela natal para

ir morar no palácio do cônjuge em Florença.

Quis

a fatalidade que Inês enviuvasse sem ter podido dar ao marido um elo em sua nobre genealogia: pariu três filhas mulheres



e nenhum varão.

Sendo uma viúva muito jovem, tudo o que Inês possuía era: o pesar por não ter engendrado um menino, uns poucos olivares,

vinhas, castelos, dinheiro e uma alma devota

e caridosa. De modo que decidiu, para esquecer sua mágoa e remediar a culpa que tinha em memória do marido, converter em

dinheiro todos os bens herdados do finado

- em Florença - e do seu defunto pai - em Castela - e construir um monastério. Assim, ficaria para sempre unida ao esposo

imortal por meio de uma existência de pureza

e celibato, e dedicaria a vida a servir aos filhos homens que o seu ventre não soubera engendrar: a comunidade monástica

e os pobres. E assim fez.

Diria-se que Inês era uma mulher feliz. Tinha um olhar franciscano que irradiava paz e sossego. Suas palavras eram sempre

um bálsamo para os atormentados. Dava consolo

para os desconsolados e guiava o caminho dos desencaminhados. Diria-se que ela avançava sem obstáculos em direção à santidade.

Naquela madrugada de 1558, na mesma hora em que Mona Sofia, em Veneza, concluía a sua esgotadora e rentável jornada, Inês

de Torremolinos começava o

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seu dia de alegre e desinteressada labuta. Uma ignorava a remota existência da outra. E nada permitiria supor que uma e



outra pudessem ter alguma coisa em comum.

O acaso, porém, traça às vezes caminhos impossíveis. Sem nem mesmo suspeitarem, sem nem mesmo se conhecerem, uma e outra

eram parte de uma mesma trindade, cujo vértice

estava em Pádua.

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O CORVO

I

No ponto mais alto do maciço promontório que separa Verona de Trento, em cima do último penhasco a destacar-se no colar



de morros que coroa o pico do Monte Veldo,

tão quieto como a rocha onde pousava, o perfil de um corvo recortava-se contra o confim crepuscular, cujo epicentro dourado

não parecia provir do sol - ainda virtual

-, e sim da própria dourada Veneza. Como se o fundamento daquela abóbada de luz fosse o das remotas cúpulas bizantinas da

catedral de São Marcos. Era o crepúsculo

que antecede o dia. O corvo estava esperando. Tinha paciência. E sentia, como sempre, uma fome voraz, mas não peremptória.

Seu domínio era Veneza inteira: a Veneza

Eugânea - Treviso, Rovigo, Verona e, mais adiante, Vicenza - e também a Veneza Júlia. Mas o seu paradeiro era em Pádua.

Lá embaixo, tudo estava disposto para a festa de São Teodorico, a festa di tori. Depois do meio-dia a multidão, entre um

copo e outro, iria manear cinco ou seis

bois, um de cada vez, que seriam degolados, seguros pelos chifres por outras tantas mulheres,

com um único e exato golpe de sabre. Era como se o corvo soubesse

que haveria de ser assim. Sentia com antecedência o cheiro que mais apreciava.

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Mas também sabia que, com sorte, mal poderia rapinar uma mísera tripa ou um olho, que teria de disputar

com os cães. Não valia a pena a viagem, nem o risco, nem o esforço.

Ainda não se movera. Tinha a paciência dos corvos. Poderia esperar até que os autômatos da Torre do Relógio batessem a última

badalada e, como todas as manhãs, surgisse

do Canal Grande o catamarã público que vinha recolher os cadáveres do Hospital de Humberto Primo e levá-los até a Ilha do

Cemitério. Mas tampouco valeria a pena;

com sorte, poderia arrebatar uma tira de carne ruim, muito magra e já dizimada pela peste.

Girou sobre as patas e olhou para o lado oposto

- o leste -, onde ficava a sua morada. Lá estava o seu amo. E então remontou vôo em direção a Pádua.

II

Voou sobre as dez cúpulas da basílica e depois sobre a Universidade. Pousou sobre o capitel da quarta porta que dava para



o pátio interno. Esperava. Sabia que seu

amo sairia dali de uma hora para outra. Era o que acontecia todos os dias. Tinha paciência. Esticou uma asa e enfiou o bico

entre as penas. Parecia só dar atenção

aos íntimos agrados que se prodigava: ajeitar a plumagem do peito, livrar-se de um piolho.

No mesmo momento em que soou a badalada chamando para a missa, o corvo ficou tenso como uma corda, abriu morosamente as

asas, emitiu um grasnido surdo e preparou-se

para dar um pulo até o ombro do seu amo,

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que como todas as manhãs haveria de aparecer na arcada e, antes de encaminhar-se em direção à paróquia, iria até a morgue

para dar ao corvo aquilo

de que ele tanto gostava: uma tripa ainda morna.

Entretanto, naquela manhã de inverno as coisas não iriam ser iguais. Já soara a primeira badalada e o amo ainda não aparecera.

O corvo sabia que o seu senhor estava

dentro do claustro, podia sentir o seu cheiro, podia até ouvir a sua respiração. E no entanto ele não saía. O corvo grasnou

de desgosto. Estava

com fome.

O corvo e o seu amo sabiam quem era quem. E por isso mesmo nutriam um mútuo e velado receio. Leonardino - esse era o nome

que o amo lhe dera nunca pousava confiantemente

no ombro do seu senhor; mantinha uma distância mínima entre suas patas e a estola, elevando-se

com um bater de asas curto e regular. O amo também não se fiava do

companheiro. Um e outro - ambos sabiam disso - compartilhavam o mesmo espírito inquisitivo de indagar o que se oculta por

trás da carne.

Ouviu-se a segunda badalada e o amo continuava sem aparecer. Alguma coisa estranha estava acontecendo, o corvo podia adivinhar.

Todos os dias, Leonardino, pousado na balaustrada da escadaria da morgue, acompanhava atentamente os movimentos do amo,

as mãos que guiavam sabiamente o escalpelo;

então, ao ver o sangue que surgia por trás do fino sulco que a lâmina deixava em sua passagem, Leonardino se balançava da

esquerda para a direita e emitia um grasnido

de satisfação.

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Por mais que tenha tentado, o amo não conseguira fazer com que Leonardino comesse da sua mão; e na verdade não faltavam



motivos para temer; o corvo sabia de quem

era a tripa que o amo lhe oferecera no dia anterior, reconhecia o cheiro daquele gato que, até ontem, sentava-se confiante

no colo do homem que o esvaziara por dentro

para dissecá-lo com a mesma mão que o acariciava e lhe dava de comer.

- Leonardino... - cantarolava o amo enquanto se aproximava lentamente do corvo,

com o braço estendido brandindo uma tripa. - Leonardino... - repetia, e, à medida

que avançava um passo, o corvo retrocedia outro.

Leonardino não olhava para a tripa; sentia o cheiro dela, sim, mas não olhava. Mantinha os olhos fixos nos do amo, que,

ao que tudo indica, pareciam-lhe mais apetitosos

que aquele pedaço de intestino. Então o homem jogava-lhe a tripa, e o corvo a segurava no bico

com uma voracidade longamente contida.

Mas naquela manhã ninguém apareceu na arcada. Soava a terceira badalada quando o corvo teve certeza de que o seu amo não

iria comparecer ao encontro cotidiano. Desgostoso

e faminto, alçou vôo rumo a Veneza.


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O VÉRTICE


I


O nome do amo era Mateo Realdo Colombo e, decerto, tinha naquela manhã de inverno do ano 1558 motivos muito bons para não

comparecer ao encontro habitual que o reunia

todos os dias, antes da missa, com o seu Leonardino. Encerrado entre as quatro paredes do claustro na Universidade de Pádua,

Mateo Colombo escrevia.

"Se me assiste o direito de dar nome às coisas por mim descobertas, chamarei isso de Amor ou Prazer de Vênus", anotou Mateo

Colombo, e dessa maneira concluiu o arrazoado

que estivera redigindo durante a noite inteira. No mesmo instante em que fechou o grosso caderno de capas de pele de cordeiro,

escutou as badaladas que chamavam

para a missa. Esfregou as pálpebras; tinha os olhos vermelhos e as costas cansadas. Olhou para a pequena vigia que se elevava

por cima da sua escrivaninha e comprovou

que a vela junto ao caderno ardia agora inutilmente. Mais além, sobre as cúpulas da catedral, o sol começava a aquecer o

ar e a evaporar pouco a pouco o orvalho

que reverdecia o gramado do jardim em que a Universidade se erguia. Do outro lado do pátio chegava o perfume do incenso

recém-aceso da capela, que por momentos se

alternava, segundo dispusesse o vento,

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com os aromas hospitaleiros da fumegante chaminé da cozinha. E à medida que o sol se levantava por sobre as telhas da arcada,



na mesma proporção ia crescendo o

morno alvoroço que chegava da Piazza dei Frutti. Os gritos dos lojistas e o pregão dos vendedores ambulantes, os balidos

das ovelhas oferecidas por dois ducados,

como vociferavam as camponesas que desciam para a cidade, contrastavam

com o monástico silêncio imposto pelo toque do sino a convocar para a missa.

Ainda sonolentos, esfregando as mãos para atenuar o frio e soltando vapor branco pela boca, os alunos saíam dos pavilhões

para a arcada que circundava o pátio central,

convergindo todos numa fila que se iniciava na entrada do pequeno átrio da capela.


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2015 -> Componente Curricular: Enfermagem Médica Profª Mônica I. Wingert Módulo II turma 201E
2015 -> Visando melhorar o desempenho e cobertura do Programa Coletivade Odontologia Preventiva do Escolar e ao mesmo tempo incentivar a participação de todos os municípios e facilitar a Operacionalização, Controle e Avaliação do mesmo
2015 -> Relatório Anual de Atividades Modelo – Sorriso do Bem 2015 – Dentista do Bem
2015 -> Regeneração Ad Integrum da Cabeça do Côndilo em uma Paciente com Disfunções Temporomandibulares
2015 -> Revisão unidade – 6º ano leia os textos abaixo. Texto o sapateiro
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim
2015 -> Casa semana Mapeamento celestial
2015 -> Linhas da cúspide da casa e do fim da casa 6 os graus da cúspide e do fim


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