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Nota importante:

Esta obra foi preparada para ser lida exclusivamente por pessoas com deficiência visual. Salienta-se que qualquer outra utilização que se dê a este material é ilegal

e o infrator arcará com as responsabilidades.

Sinopse:


A história de Stephen Hawking é contada pela luz da genialidade e do amor que não vê obstáculos. Quando Jane conhece Stephen, percebe que está entrando para uma

família que é pelo menos diferente. Com grande sede de conhecimento, os Hawking possuíam o hábito de levar material de leitura para o jantar, ir a óperas e concertos

e estimular o brilhantismo em seus filhos entre eles aquele que seria conhecido como um dos maiores gênios da humanidade, Stephen.

Descubra a história por trás de Stephen Hawking, cientista e autor de sucessos como Uma breve história do tempo, que já vendeu mais de 25 milhões de exemplares.

Diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica aos 21 anos, enquanto conhecia a jovem tímida Jane, Hawking superou todas as expectativas dos médicos sobre suas

chances de sobrevivência a partir da perseverança de sua mulher. Mesmo ao descobrir que a condição de Stephen apenas pioraria, Jane seguiu firme na decisão de compartilhar

a vida com aquele que havia lhe encantado. Ao contar uma trajetória de 25 anos de casamento e três filhos, ela mostra uma história universal e tocante, narrada sob

um ponto de vista único.

Stephen Hawking chega o mais próximo que alguém já conseguiu de explicar o sentido da vida, enquanto Jane nos mostra que já o conhecia desde sempre: ele está na

nossa capacidade de amar e de superar limites em nome daqueles que escolhemos para compartilhar a vida. O livro que inspirou o emocionante filme A Teoria de Tudo.

Ficha técnica:

Título: A teoria de tudo: a extraordinária história de Jane e Stephen Hawking..

Título original: Travelling to infinity.

Autora: Jane Hawking.

Tradução por Sandra Martha Dolinsky e Júlio de Andrade Filho

Editora: Única.

Ano de publicação: 2015.

Gênero: Biografia.

Número total de páginas do livro impresso: 448.

Numeração de página: Ausente.

Diretora: Rosely Boschini

Editora: Marília Chaves

Editora de Produção Editorial: Rosângela de Araujo Pinheiro Barbosa

Assistente Editorial: Carolina Pereira da Rocha

Controle de Produção: Fábio Esteves

Projeto gráfico e diagramação: Triall Composição Editorial

Revisão: Vero Verbo Serviços Editoriais

Adaptação de Capa: Ronaldo Alves

Produção do e-book: Schäffer Editorial

Única é um selo da Editora Gente.

Travelling to Infinity: My Life with Stephen é uma versão revista (com material novo) de Music to Move the Stars, publicado pela primeira vez por Macmillan em 1999.

Travelling to Infinity: My Life with Stephen foi publicado por Alma Books Limited em 2007.

Tradução em língua portuguesa copyright (c) 2014 by Editora Gente Ltda.

Copyright (c) Jane Hawking, 1999, 2007.

Todos os direitos desta edição são reservados à Editora Gente.

Rua Pedro Soares de Almeida, 114

São Paulo, SP - CEP 05029-030

Telefone: (11) 3670-2500

Site: http://www.editoragente.com.br

E-mail: gente@editoragente.com.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Hawking, Jane

A teoria de tudo : a extraordinária história de Jane e Stephen Hawking / Jane Hawking ; tradução Sandra Martha Dolinsky e Júlio de Andrade Filho. - São Paulo:

Única

Editora, 2014.



Título original: Travelling to infinity

ISBN 978-85-67028-50-7

1. Conjugês de físicos 2. Físicos - Grã-Bretanha - Biografia I. Título.

14-10205


CDD-530.092

Índice para catálogo sistemático:

1. Físicos: Biografia 530.092

Para minha família.

La parole humaine est comme un chaudron fêlé où nous battons des mélodies à faire danser les ours quand on voudrait attendrir les étoiles.

- GUSTAVE FLAUBERT

"A palavra humana é como um caldeirão rachado, no qual batemos melodias próprias para fazer dançar os ursos, quando desejaríamos enternecer as estrelas."

SUMÁRIO


PRIMEIRA PARTE

1 Asas para voar;

2 No palco;

3 A carruagem real;

4 Verdades ocultas;

5 Princípios incertos;

6 Pano de fundo;

7 Em boa fé;

8 Uma introdução à Física;

9 A alameda;

10 Uma pausa de inverno;

11 Curva de aprendizado;

12 Um final insignificante;

13 Os ciclos da vida;

14 Um mundo imperfeito;

SEGUNDA PARTE

1 Insones em Seattle;

2 Terra firma;

3 Esferas celestes;

4 Dinâmica perigosa;

5 Expansão do Universo;

6 Em campanha;

7 Mobilidade ascendente;

8 Inteligência e ignorância;

9 Pisadas chekhovianas;

10 O vento frio;

11 A arte do equilíbrio;

12 Horizonte de eventos;

TERCEIRA PARTE

1 Carta da América;

2 Edifícios;

3 Tesouro enterrado;

4 Um jogo de tabuleiro;

5 Floresta céltica;

6 Olhando para trás;

7 Impasse;

8 Uma mão amiga;

9 O inesperado;

10 Dissonância;

11 Turbulência;

12 Ad Astra;

13 Harmonia restaurada;

14 Assuntos pendentes;

15 Partidas;

QUARTA PARTE

1 A noite mais escura;

2 A linha tênue;

3 O peso da responsabilidade;

4 Motim;

5 Renascendo das cinzas;

6 Matemática e música;

7 Extremos;

8 A Rainha Vermelha;

9 Prospectando no Paraíso;

10 A volta para casa;

11 O preço da fama;

12 Honoris Causa;

13 Honorável companheirismo;

14 Dies Irae;

15 Realidade demais;

16 Nulo e sem efeito;

Posfácio


Agradecimentos

Primeira parte

1; ASAS PARA VOAR

A HISTÓRIA DA MINHA VIDA COM STEPHEN HAWKING COMEÇOU NO VERÃO DE 1962, embora, possivelmente, tenha iniciado dez anos ou mais antes disso, e sem que eu percebesse.

Quando entrei no primeiro ano no colégio St. Albans, aos sete anos, nos primeiros anos da década de 1950, houve, por um curto período, um menino com cabelos caídos

na testa e castanho-dourados que costumava se sentar colado à parede na sala de aula ao lado. A escola aceitava meninos, incluindo meu irmão, Christopher, no departamento

de juniores, mas eu só via aquele garoto de cabelos caídos na testa nas ocasiões em que, na ausência de nosso professor, nós do primeiro ano éramos espremidos na

mesma sala de aula com as crianças mais velhas. Nunca conversamos, mas tenho certeza de que essa primeira lembrança é confiável, porque Stephen foi aluno daquela

escola por determinado tempo naquela época, antes de ir para uma escola preparatória a alguns quilômetros de distância dali.

As irmãs de Stephen eram mais reconhecíveis, porque ficaram na escola por mais tempo. Apenas dezoito meses mais nova que Stephen, Mary, a mais velha das duas meninas,

era uma figura excêntrica e facilmente distinguível - cheinha, sempre despenteada, distraída e dada a atividades solitárias. Seu grande trunfo, uma pele translúcida,

era mascarado por óculos de lentes grossas e pouco lisonjeiros. Philippa, cinco anos mais nova que Stephen, era uma garota de olhar vivo, nervosa e excitável, de

tranças curtas e com rosto redondo e rosado. A escola exigia conformidade rígida tanto acadêmica quanto disciplinarmente, e os alunos, como todas as crianças em

idade escolar em todos os lugares do mundo, podiam ser cruelmente intolerantes no que diz respeito à individualidade. Seria ótimo ter um Rolls Royce e uma casa no

campo, mas se, como eu, seu meio de transporte fosse um Standard 10 pré-guerra, ou coisa pior, como o antigo táxi londrino dos Hawking, então você seria objeto de

diversão ou vítima de desprezo compassivo. As crianças dos Hawking costumavam se deitar no chão de seu táxi para evitar ser vistas pelos colegas. Infelizmente, não

havia espaço no chão do Standard 10 para tal ação evasiva. As meninas Hawking saíram da escola antes de iniciar o ensino fundamental 2.

A mãe deles havia sido uma figura familiar durante longo tempo. Pequena e magra, e vestida com um casaco de pele, ela costumava ficar próxima da faixa de segurança

perto da minha escola, à espera do filho mais novo, Edward, que chegava de ônibus vindo da escola preparatória no interior. Meu irmão também foi para essa mesma

instituição depois da pré-escola no colégio St. Albans: a escola se chamava Aylesford House, e lá os meninos usavam rosa - blazers e bonés cor-de-rosa. Em todos

os outros aspectos, aquele era um paraíso para os meninos pequenos, em especial para aqueles não dotados de inclinação acadêmica. Jogos, camping e shows da turma,

nos quais meu pai sempre tocava piano, pareciam ser as principais atividades. Charmoso e de boa aparência, Edward, com oito anos, estava tendo um pouco de dificuldade

com sua família adotiva quando me encontrei com os Hawking pela primeira vez - possivelmente por causa do hábito de trazer seu material de leitura para a mesa de

jantar, ignorando quaisquer não leitores ávidos que estivessem presentes.

Uma amiga minha da escola, Diana King, vivenciara esse hábito Hawking em particular - e pode ter sido por isso que, quando ouviu, algum tempo depois, sobre meu noivado

com Stephen, ela exclamou: "Oh, Jane! Você está se metendo em uma família muito, muito louca!". Foi Diana quem primeiro me mostrou Stephen naquele verão de 1962,

quando, após as provas, ela, minha melhor amiga Gillian e eu estávamos curtindo aquele período de êxtase de poucas atividades escolares antes do fim do ano letivo.

Graças à posição do meu pai como alto funcionário do governo, eu já havia feito algumas incursões no mundo adulto que iam além da escola, das lições de casa e das

provas - um jantar na Câmara dos Comuns e, em um dia quente e ensolarado, uma festa no jardim do Palácio de Buckingham. Diana e Gillian estavam saindo da escola

naquele verão, enquanto eu ficaria como monitora-chefe para o período do outono, quando então faria minha inscrição para a entrada na universidade. Naquela tarde

de sexta-feira, recolhemos as malas e, ajeitando nossos chapéus de palha, decidimos passear na cidade para tomar um chá. Mal tínhamos caminhado cem metros, quando

vimos algo estranho do outro lado da rua: lá, caminhando de modo incerto em sentido contrário, estava um homem jovem, com andar desajeitado, cabeça baixa, o rosto

protegido do mundo sob uma indisciplinada cabeleira castanha e lisa. Imerso nos próprios pensamentos, ele não olhou nem para a direita nem para a esquerda, nem percebeu

o grupo de alunas do outro lado da rua. Era um fenômeno excêntrico para aquelas monótonas e puritanas garotas do St. Albans. Gillian e eu ficamos observando o rapaz

de modo insensível e com espanto, mas Diana permaneceu impassível.

- Esse é o Stephen Hawking. Saí com ele uma vez - anunciou às amigas boquiabertas.

- Não, você não fez isso! - rimos as duas, incrédulas.

- Fiz, sim. Ele é estranho, mas muito inteligente. É amigo de Basil [irmão dela]. Ele me levou ao teatro uma vez e depois estive em sua casa. Ele vai nesses protestos

de "Proíbam as Bombas".

Levantando as sobrancelhas, continuamos nosso caminho até a cidade, mas não consegui desfrutar mais do passeio, porque, sem ser capaz de explicar exatamente o motivo,

me senti desconfortável com o jovem que acabara de ver. Talvez houvesse algo sobre sua excentricidade que me fascinara, tendo em vista minha existência bastante

convencional. Talvez eu tivesse alguma estranha premonição de que o veria de novo. Fosse o que fosse, aquela cena em si ficou profundamente gravada na minha mente.

As férias naquele verão foram um sonho para uma adolescente à beira da independência, embora pudessem muito bem ter sido um pesadelo para os pais, uma vez que o

meu destino, uma escola de verão na Espanha, fosse em 1962 tão remoto, misterioso e repleto de perigos como o Nepal é para os adolescentes de hoje. Com toda a confiança

dos meus dezoito anos, eu tinha certeza de que poderia me cuidar sozinha, e estava certa. O curso foi bem organizado, e nós, estudantes, fomos alojados em grupos,

em casas particulares. Nos fins de semana, éramos todos levados em passeios guiados por todos os pontos turísticos mais importantes - fomos a Pamplona, onde os touros

correm pelas ruas; fomos assistir à única tourada que já vi, brutal e violenta, mas espetacular e cativante; e depois fomos até Loyola, o lar de Santo Inácio, autor

de uma oração que eu e todos os outros alunos em St. Albans tínhamos aprendido e incutido em nossa alma pela constante repetição:

"Ensina-nos, Senhor, a servir-te como mereces:

A dar sem contar o preço,

A lutar sem contar as feridas" (...)

Em contrapartida, passávamos nossas tardes na praia e à noite íamos até o cais visitar bares e restaurantes, participando de festas e bailes, ouvindo as bandas estridentes

e ficando maravilhados com os fogos de artifício. Fora do limitado círculo de St. Albans, fiz novos amigos muito rápido, principalmente entre os outros adolescentes

que estavam no mesmo curso, e, com eles, naquela gloriosa atmosfera exótica da Espanha, pude experimentar o gosto da independência de um adulto, longe de casa, da

família e da disciplina ridícula da minha escola.

Na volta para a Inglaterra, fui levada quase imediatamente pelos meus pais, que, aliviados com meu retorno em segurança, tinham planejado alguns dias em família

nos Países Baixos e em Luxemburgo. Essa foi mais uma experiência de ampliação de horizontes, um dos feriados prolongados no qual meu pai havia se especializado e

que viria a nos proporcionar durante muitos anos, desde minha primeira viagem para a Bretanha aos dez anos de idade. Graças ao seu entusiasmo, nós nos vimos na vanguarda

do movimento turístico, viajando centenas de quilômetros ao longo de sinuosas estradas rurais por uma Europa em processo de emergir do trauma da guerra, visitando

cidades, catedrais e museus, e que meus pais também estavam descobrindo pela primeira vez. Foi uma combinação tipicamente inspirada de educação através da arte e

da história, e com a satisfação das coisas boas da vida - vinho, boa comida e sol de verão - tudo misturado aos memoriais de guerra e às campinas do cemitério em

Flandres.

De volta à escola no outono, aquelas experiências do verão arraigaram em mim uma sensação sem precedentes de autoconfiança. Enquanto eu emergia de minha crisálida,

a escola fornecia apenas o reflexo lívido de consciência e da autoconfiança que eu adquirira durante as viagens. Usando como inspiração as novas formas de sátira

que eu via pela televisão, eu, a monitora-chefe da escola, inventei um desfile de moda para divertir o sexto ano, com a diferença de que todas as peças tinham sido

confeccionadas com base em itens estranhamente adaptados do uniforme escolar. A disciplina ruiu quando toda a escola queria entrar no palco pela escada lateral fora

do salão, e a senhorita Meiklejohn (também conhecida como Mick), a atarracada diretora castigada pelo tempo e de cujo rosnado terrivelmente masculino dependia o

bom funcionamento do colégio, estava pela primeira vez reduzida à apoplexia, incapaz de se fazer ouvir em meio à balbúrdia. Em desespero, ela recorreu ao megafone

- que, em geral, só era usado para dar avisos nas competições esportivas, na mostra de animais de estimação e para controlar aquela fila indiana interminável que

tínhamos de formar ao marchar por todas as ruas secundárias de St. Albans, para os serviços religiosos que aconteciam antigamente uma vez por ano na Abadia.

No outono de 1962, aquele ano letivo, havia muito tempo, não deveria tratar de preparar um desfile de moda ou de qualquer outra coisa. Deveria ter sido dedicado

a me preparar para entrar na universidade. Infelizmente, não fui bem-sucedida em termos acadêmicos. Por mais que adorássemos o presidente Kennedy, a crise dos mísseis

cubanos em outubro daquele ano teve o dom de abalar fortemente a sensação de segurança de minha geração e destruiu de verdade nossas esperanças em relação ao futuro.

Com as superpotências jogando perigosamente com nossa vida, não era de todo certo que fôssemos ter um futuro com o qual nos preocupar. Enquanto orávamos pela paz

sob a supervisão do reitor, lembrei-me de uma previsão feita pelo marechal de campo Marshall Montgomery, no final dos anos 1950, de que haveria uma guerra nuclear

em uma década. Todos, jovens e velhos, sabiam que teríamos apenas quatro minutos de aviso antes de um ataque nuclear, o que significaria o fim abrupto de toda a

civilização. O comentário de minha mãe, com a calma e a sensatez de sempre, sobre a perspectiva de uma terceira guerra mundial em sua vida foi de que seria muito

melhor ser obliterada de tudo e de todos que ter de suportar a agonia de ver o marido e o filho ser recrutados para a guerra da qual eles nunca mais voltariam.

Além da ameaça poderosa do cenário internacional, senti que tinha me queimado com os exames de nível A e que faltava o entusiasmo pelo trabalho na faculdade depois

de provar a liberdade em minhas férias de verão. Aquele assunto sério de entrar em uma universidade só me trouxe humilhação quando nem Oxford nem Cambridge expressaram

qualquer interesse em mim. E tudo se mostrou ainda mais doloroso porque meu pai acalentara a esperança de que eu conseguiria um lugar em Cambridge desde que eu tinha

cerca de seis anos. Consciente de meu senso de fracasso, a senhorita Gent, a diretora, esforçou-se de maneira supersimpática em dizer que não havia nenhuma vergonha

em não conseguir uma vaga na Universidade de Cambridge, porque vários dos homens naquela universidade eram muito inferiores intelectualmente em relação às mulheres

que tiveram sua inscrição recusada por falta de lugares. Naqueles dias, a relação era de cerca de dez homens para uma mulher em Oxford e Cambridge. A diretora então

recomendou aceitar a oferta de uma entrevista em Westfield College, em Londres, um colégio feminino nos moldes da faculdade Girton, a primeira a aceitar mulheres

no país e que ficava em Hampstead, a alguma distância do restante da universidade. Assim, num dia frio e úmido de dezembro, saí de St. Albans para a viagem de vinte

e cinco quilômetros até Hampstead.

O dia foi um desastre tão grande que foi um alívio no fim dele eu poder estar no ônibus de volta para casa novamente, percorrendo o mesmo caminho sombrio, cinza

e cheio de neve da viagem de ida. Depois do desconfortável exercício no Departamento de Espanhol de blefar o tempo todo durante uma entrevista que parecia ser cem

por cento voltada a T.S. Eliot, sobre quem eu virtualmente sabia quase nada, fui enviada para me juntar à fila fora da sala da diretora. Quando chegou a minha vez,

ela trouxe o estilo de um ex-funcionário público à entrevista, mal olhando para cima de seus papéis em seus óculos de aros de tartaruga. Sentindo-me extremamente

agitada e confusa pelo fiasco da entrevista anterior, decidi que era melhor fazê-la me notar, ainda que, no processo, isso pudesse arruinar minhas chances. Assim,

quando com a voz entediada, seca, ela perguntou:

- E por que você colocou o espanhol em vez do francês como seu idioma principal?

Respondi com a voz igualmente entediada, seca:

- Porque a Espanha é mais quente que a França.

Seus papéis caíram das mãos, e ela, de fato, olhou para cima.

Para meu espanto, eles me ofereceram um lugar em Westfield, mas, por volta do Natal, muito do otimismo e entusiasmo que eu descobrira na Espanha desvanecera. Quando

Diana me convidou para uma festa de Ano-Novo que ela e o irmão estavam dando em 1º de janeiro de 1963, fui bem vestida em uma roupa de seda verde-escuro - sintética,

é claro -, com o cabelo preso atrás em um coque extravagante, interiormente tímida e muito insegura. Lá, meio deslocado, encostado na parede em um canto de costas

para a luz, gesticulando os dedos longos e finos enquanto falava, o cabelo caindo no rosto por cima dos óculos, e vestindo um paletó preto de veludo empoeirado e

uma gravata-borboleta vermelha, estava Stephen Hawking, o jovem que eu vira andando de forma desengonçada na rua, no verão.

Separado de outros grupos, ele estava conversando com um amigo de Oxford, explicando que havia começado uma pesquisa em Cosmologia em Cambridge - não, como ele esperava,

sob os auspícios de Fred Hoyle, o popular cientista da televisão, mas com Dennis Sciama, dono de um sobrenome incomum. A princípio, Stephen pensara que o nome pouco

comum do seu supervisor fosse Skeearma, mas na chegada em Cambridge ele descobrira que a pronúncia correta devia ser Sharma. Admitiu ainda ter recebido com certo

alívio, no verão anterior, quando eu estava cursando o nível A, a notícia de que ganhara o grau de primeira classe em Oxford. Esse havia sido o feliz resultado de

um exame oral realizado pelos examinadores perplexos para decidir se ao candidato singularmente inepto, cujos trabalhos também revelavam flashes de brilhantismo,

deveria ser dado o grau de primeira classe, o de segunda classe ou sem honras, este último equivalente ao fracasso. Ele calmamente informou aos examinadores que,

se lhe dessem o grau de primeira classe, iria para Cambridge fazer doutorado, dando-lhes a oportunidade da introdução de um cavalo de Troia no campus rival, ao passo

que se lhe dessem o de segunda classe (o que também lhe permitiria fazer pesquisas) ficaria em Oxford. A banca de examinadores preferiu escolher a segurança e deu-lhe

primeira classe.

Stephen passou a explicar à plateia de dois, o amigo de Oxford e eu, de que maneira também tomara medidas para jogar no seguro, percebendo que era extremamente improvável

que ele receberia essa honraria em Oxford, tendo em vista o pouco trabalho que fizera. Ele nunca tinha ido a uma palestra - que não era uma coisa que estaria predisposto

a fazer -, e a história lendária de que rasgara um trabalho em pedacinhos e o arremessara no cesto de lixo de seu tutor ao abandonar um seminário era verdade...

Temendo suas chances na Academia, Stephen fizera sua inscrição para se juntar ao serviço público e fora aprovado nos estágios preliminares de seleção para trabalhar

em um escritório no interior nos fins de semana. Portanto, estava pronto para prestar o concurso logo após os exames finais. Certa manhã, ele acordou tarde, como

de costume, com alguma coisa martelando em sua cabeça que havia algo que deveria estar fazendo naquele dia, além da tarefa corriqueira de ouvir O Anel dos Nibelungos,

de Wagner. Como ele não costumava manter um diário, porque confiava tudo na memória, não teve como descobrir o que o incomodava até algumas horas depois, quando

ficou claro que aquele era o dia das provas do concurso para o funcionalismo público...

Eu ouvia entre fascinada e divertida, atraída pelo senso de humor e pela personalidade independente daquele personagem incomum. Suas histórias eram muito atraentes

de ouvir, em especial pela forma de quase sufocar a si mesmo com as risadas geradas pelas piadas que contava, muitas delas contra ele próprio. Claramente aqui estava

alguém que, igual a mim, tinha a tendência de tropeçar ao longo da vida e ainda assim conseguir enxergar o lado engraçado das situações. Alguém que, como eu mesma,

era bastante tímido, mas não avesso a expressar suas opiniões; alguém que, ao contrário de mim, tinha a autoestima desenvolvida e o descaramento de transmiti-la.




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