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O afeto que se encerra é um ajuste de contas com os leitores, com o Rio, com o Brasil e com ele mesmo. Paulo Francis o publicou em 1980, aos 50 anos. O livro tem vigor, não é obra de um memorialista de século XVIII, retirado em um sítio a registrar o pacote de banalidades que foi sua vida. Longe da monotonia do saudosismo e das reparações, Francis abre uma frente de batalha, mostrando que a infância e adolescência de um carioca de classe média em Copacabana, mesmo nos anos 30 e 40, não era o que contam as lendas.

Ele avança para seus 20 anos e lembra como descobriu o Brasil em 1951, na excursão do Teatro do Estudante de Paschoal Carlos Magno ao norte/nordeste.

“Pela primeira vez vi o Brasil, vi a nu o crime secular de uma classe dirigente que em crueldade conhece poucos paralelos, que se esconde em falsa afabilidade e patriotismo, aqui não o último, mas o primeiro e único refúgio dos velhacos”. Estava localizado o inimigo e, nos 40 anos seguintes, Francis vai se tornar o jornalista mais conhecido, lido e discutido do Brasil.

No livro, os tempos se alternam como num solo de jazz. Há um tema principal, a vida do autor, e as variações, na forma de reflexão, informações laterais e propostas. A base destas últimas é a experiência, primeira e única, com o Brasil pobre. “Nunca imaginei que existisse algo igual na terra”, diz, sobre a época. Continuou achando isto, mas não acreditava mais que a elite brasileira, pública ou privada, nem a esquerda, tivessem um projeto para o Brasil. Esta desilusão com as elites brasileiras não o torna um pessimista crônico. Sempre, em qualquer um de seus livros, um humor peculiar distribuirá sarcasmo e ironia ao redor. Na última linha do livro: “Ainda que sozinho continuarei assim, mas sei que estou muito bem acompanhado”.

JOSÉ ONOFRE

“A inocência é uma forma de insanidade.”

(GRAHAM GREENE, O americano tranqüilo)

SUMÁRIO


  1. Bem...

  2. Prolegômenos: ou seja, alô

  3. Brasilidades

  4. A descoberta do Brasil

  5. “Deus é brasileiro”

  6. “E o que que você vai cantar, moço?”

À memória de Irene e Adolpho, meus pais, e de Fred Heilborn, irmão.


I. BEM...

ESTE livro não é uma autobiografia. Contém passagens autobiográficas. Não é o estudo, ou reminiscência, de um período histórico. É memória seletiva. E se toco minha trombeta, verão que nem sempre os sons são harmônicos. Fi-lo porque qui-lo. Esta, de resto, é a gênese honesta de qualquer obra literária. Somos todos narcisistas. A diferença é de grau e entendimento da nossa condição. E, claro, dos usos que fazemos de nós mesmos.

Há outros motivos. Bato bola para enfrentar o último volume da trilogia de romances, Cabeça de papel, Cabeça de negro e Cabeça (inédito)1. Este vai ser trabalho maior que os anteriores. Jornalismo me é fácil. Literatura é autoviolação, em mim que sou pouco dado a intimidades, um cálice que pediria a meu Pai, etc. Mas Paulo Francis dominou Cabeça de papel e de negro. Paulo Francis nasceu em 1951. Mexeu de leve nas cargas e castigos de Franz Paulo Trannin Heilborn, eu, antes que Paschoal Carlos Magno me batizasse “Paulo Francis”, nome típico de “bailarino” de teatro-revista (Glória May e Paulo Francis em Catuca o balaio da negra, de Stanislaw Ponte Preta...). Em Cabeça preciso confrontar a infância e adolescência de F.P.T.H., que não havia desenvolvido (começava) as defesas de Francis. Franz (nome que detesto), se não bebeu fel e gasolina, andou perto, menino meio gago, excessivamente sensível a rejeições dos raros a quem amou, às vezes brutal, indistinguível de uma besta-fera. Latia e mordia.

Esta é, portanto, a preliminar de Cabeça, intelectual na medida do possível, sem torrar os países baixos do leitor que espera, como eu, digeri-la ao de leve. Adio assim os choques emocionais do que será a ficção. E chegamos aos motivos finais. Franz nasceu (me dizem. Ver adiante) em setembro de 1930. Completo(ei) 50 anos em 1980. Acho boba essa mania (e clichê) de imprensa, simplificar a vida em décadas. Confesso, apesar disso, que a expressão “meio século” me fascina um pouco. Não é à toa que fui marxista-trotskista durante 14 anos. Resolvi ter um livro na rua aos 50 anos. Vaidade. E curiosidade.

Jornalista político e cultural, opino sobre isso e aquilo o tempo todo. Mas jornalismo, mesmo ensaístico, é dispersão de energias na vida do próximo, em coisas exteriores à ilha em que vivo e na qual um psicanalista amigo, Borsoi, descobriu uma catedral, meu superego: ajoelho, rezo e cumpro. A imagem é de Koestler. Borsoi não gostou de Koestler sem ler. Pensaram ao mesmo tempo. Borsoi foi um dos poucos psicanalistas brasileiros que escapariam da cadeia em país civilizado. Morreu. Não me analisou. Eu o admirava, mas minha única aterrissada em divã, em 1961, aconteceu quando perdi a memória de duas semanas. Recuperei a memória e dormia no divã de E. M. Medi o bicho, testei-o contra textos de Freud, Klein e até, colher de chá, o prefácio de Strachey ao estudo de Leonardo da Vinci. Desmoronou. Me perdeu de vez quando notei que fumava cigarro de filtro com piteira. Imperdoável. Depois que me despedi, quase em seguida, internaram o pobre E. M., síndrome qualquer-besteira. Duvido que soubesse diagnosticar. O homem levava Erich Fromm a sério. Está de volta, me informam, faturando. Numa das sessões, me fez esperar meia hora, enquanto falava a dois cafajestes, policiais (claro). Tentava suborná-los. Queria porte de armas. É que onde vivia, no Leblon, rapazes vizinhos zombavam dele. E. M. explicou que se refazia do trabalho diário, de cuecas, tocando piano. Os vizinhos emitiam o contraponto de “bicha, bicha”. Se o virtuosismo de E. M. era igual ao conhecimento de psicanálise, os rapazes esses têm minha solidariedade.

Divago. Tanto falo do resto, que não me sobra tempo para saber o que penso de mim. Às vezes me ocorre, desagradavelmente, que conheço melhor a cabeça (o título é de cortesia) de Jimmy Carter do que a minha. E só sei o que penso quando passo para o papel.

Os romances ajudaram bastante a me situar. São uma biografia espiritual do grupo em que me desmamei, mas o de Paulo Francis, não o de Franz (pronuncia-se, no Brasil, Fransh). Não me perguntem quem é quem nos Cabeças. E pergunta de quem nunca escreveu criadora-mente (bem ou mal; é irrelevante, já que o processo é idêntico). Em todo caso, como faço fé que este livro aqui venda, bajulo os interessados com uma pista. O narrador, Hugo Mann, é baseado em Dercy Gonçalves.

Quis ser escritor desde que li Crime e castigo, aos 14 anos de idade. Eu era um revoltado contra a ordem social, família, colégio, padres. Tolstói, antes de morrer, disse que não se sentia diferente de menino, aos 8 anos. Nem eu, agora (fim das semelhanças entre nós). Foi aos 8 anos que comecei a perceber a ambivalência, a ambigüidade, a falsidade do que me pregavam. Uma cacetada emocional me levou a essa precocidade crítica. Não importa. Nos tornamos o que somos. Me fechei em mim mesmo, perplexo, rancoroso, engatinhando sarcasmos. A perplexidade, expressa em aparente abobamento, fez suspeitar retardo. Mas fui sempre, nessa fase, primeiro da turma, prêmio de excelência do colégio. Ainda assim, meu santo pai me obrigou a extrair essa fajutice de Cyril Burt, um QI. A modéstia me impede...

Concluiu-se que Franz era apenas um menino “esquisito”. Eu ria melodramaticamente ao ouvir a palavra em casa, depois que dera uns pontapés violentos nalguma senhora amiga de família que pretendia me bolinar. Fui bebê e menino bonito. Sim, tenho provas fotográficas. Parecia o primeiro filho de Lindbergh, o que morreu, toc, toc, toc. Lourinho e de olhos azuis. A vizinhança que acompanhava o rapto em A noite ilustrada (acho) chegou a suspeitar ligeiramente de meu pai. E se eu fosse o garoto e houvesse sobrevivido? Proibiria papai e mamãe de escreverem, isso garanto, diminuindo o volume de lixo middle-brow, de sentimentalismo de classe média, nas livrarias.

Garoto fulo, eu temia as represálias da Autoridade e, pior, não sabia como combatê-la. Dostoiévski respondeu. Ele e Nietzsche (outro caso de inspiração simultânea) criaram a consciência moderna individual. O cerne revolucionário de Crime e castigo é que Raskolnikov racionaliza, e assim justifica, o assassinato de outra pessoa, em causa própria, pela capacidade maior que tem, teórica, de reorganizar a ordem das coisas, que ele destrói pelo ato consciente de um intelecto superior. Vale tudo, se você agüenta a parada, intelectualmente. A ordem estabelecida é uma tirania contra os súditos. Contra mim. A exaltação que essas palavras me causaram jamais foi igualada em qualquer experiência. Há, claro, outra componente na história, “reacionária”, que ignorei desdenhoso, e de que falo futuramente. Na época, renasci da irritação impotente à subversão do que me impingiam. Bastava “apenas” pensar bem, em profundidade, que a prisão, que a cela se abriria...

De 14 aos 27 anos li tudo que conseguia pegar, média de seis horas por dia, investimento que me rende até hoje. Colégio de manhã, almoço, leitura até à noite, quando voltava à normalidade moleque da idade. O que não entendia, muitíssimo, preenchia em comentários. Mastiguei Ulysses de Joyce olhando o mapa da mina de Stuart Gilbert. Atravessei os “esotéricos” Richards (I. A.) e Bradley (metafísico) me enchendo de eruditas mas transponíveis explicações. É só querer e não andar habitualmente de quatro, zurrando. A experiência me mudou opiniões mil, mas duvido que qualquer universidade me desse base semelhante.

Não que pensasse nisso, “glórias acadêmicas”. Colégio é bom, quando é, para a zorra, o esculacho. Pouco aprendi de útil. Deixe ver. As quatro operações, certo, mas sou fraquíssimo em divisão, frações e nem me lembro do que é uma equação de primeiro grau. Apesar disso, se ficarmos nos essenciais, discuto leigamente a Segunda Lei da Termodinâmica, a Teoria do Quantum e a Lei da Relatividade, o básico real, que, em anos, digeri. Ler? No primeiro dia decorei as combinações de letras (1937). Escrever? Ao contrário, boa parte da ilegibilidade da literatura e imprensa brasileiras se deve ao asneirol filológico ensinado nas escolas. “Custa-me crer” é a vovozinha. Rubem Braga ou Millôr Fernandes valem “n” Aurélios. Escrever é organizar intelectualmente, parafrasear a linguagem viva do povo. Ou fazer algo próprio, à la Guimarães Rosa. Entupiam-nos de regras hieroglíficas, de construções artificiais, de jargão acadêmico. E esse absurdo supremo, negando qualquer conversa normal, de não misturar a segunda e a terceira pessoas pronominais. “Brasil, ame-o ou deixei-o” resume minha crítica. Duvido que até general fale assim. “Tá fedendo, te manda”, é o que eles queriam dizer.

Claro, a idéia que linguagem escrita precisa ser solene é uma componente de elitismo dos privilegiados num país miserável de analfabetos. Idem, a profusão de acentos, os 4 mil verbos irregulares, a insistência em palavras não-coloquiais (me citem o homem público que diz “acho” ou “acredito”. Não, é “creio”. Uma das razões do sucesso de Carlos Lacerda é que falava como gente).

É, em suma, o grito infantil “eu sou o maior”, mascarado de seriedade e aplicação. Essa deficiência foi varrida da literatura e imprensa de países desenvolvidos. Mas persiste, universalmente, nas ciências. A cara de satisfação do medicozinho, quando lhe pedimos que traduza o diagnóstico obscuro, dispensa comentários, é o comentário... Os ingleses são exceção, talvez porque nas escolas deles, de elite, se aprenda (ou se aprendia, antes do “socialismo”) a linguagem clara, direta e resplandecente dos clássicos, de Homero a Shakespeare, que marca de vez quem provou. A economista Joan Robinson é leitura amena, romance de moças, perto da produção de alguns de meus bons amigos do Cebrap.

Bem, o chato do Paulo Francis já citou demais. É tempo de ativar Franz. Minha revolta era natural, gerações sempre se confrontaram, ou se confrontavam até os anos 40, antes que as crianças fossem educadas no narcisismo pseudoliberacionista de hoje, em que todas as vontades (falo das classes privilegiadas) lhes são feitas. Por isso, adultas, enfrentando a crueldade democrática da vida (de que ninguém escapa. Varia a dosagem), tentam compulsiva e neuroticamente repetir o “paraíso” sensório da infância, em sexo promíscuo, drogas, violências (manha), quando contrariadas; ou, alternativa, mulheres em particular e homossexuais em geral, se entregam à submissão e à autodegradação, qualquer coisa que lhes forneça uma consciência de identidade, do que nunca experimentaram. O capitalismo pós-industrial, tecnológico, dispensa (sempre aos privilegiados) a ética passada de trabalho, de sacrifícios, e a de sobriedade, que preservaria energias. Comer doce demais dá dor de barriga, ouvi, menino. Ligue a TV e o oposto é proposto. Tudo, corpo e alma, é bem de consumo ilimitado. O conceito de contenção, de que nada é de graça, que velhice e morte são complexas e inevitáveis evoluções e regressões, que a criatividade depende, em parte, de privações dos criadores (a definição exata de Freud do que é civilização), foi varrido de nossa cultura publicitária. Daniel Bell, o ex-marxista convertido em tecnocrata centrista, chama esse processo de “contradições do capitalismo”. É apenas o capitalismo no estágio atual.

Somente os “índios”, 2 dos 4 bilhões de habitantes do mundo, os miseráveis e os esfaimados estão sujeitos à velha escala de valores, e, na marra, na senzala que um dia explodirá como previ em Cabeça de negro, à la louca, sem nenhuma das ideologias renovadoras do pensamento ocidental (marxismo inclusive). A revolução no Irã', completamente fora dos diversos manuais, ilustra.

De volta a meu assunto, a intensidade da minha revolta não era natural. Notem, talvez eu tenha dado a impressão que vivia enfiado nos livros. Sobrava tempo de ser “normal”. Tocava punhetinhas matinais, vespertinas e noturnas. Ia ao cinema ver Mickey Rooney, Esther Williams, Red Skelton, Ronald Colman, Gloria de Haven, etc. Lendo Huxley (de quem copiei as poses dos intelectuais cheios de taedium vitae), continuava acompanhando o Globo juvenil. Passei noites na sinuca, jogando carambola de bolso com malandros (carambola é mistura de bilhar e sinuca. É, ou era, o preferido dos malandros. Eu, jogador medíocre, sempre atirei alto). Bebia. Aos 11 anos cheguei de quatro em casa, depois de uma festa junina de rua. Os mais velhos deram ao garoto a tarefa de segurar as garrafas de cachaça: minha primeira e última (que eu lembre) coma alcoólica. Me servi das empregadinhas, residentes e itinerantes. Estas apareciam ninguém sabe de onde e os meninos formavam fila, na escuridão da Rua Icatu, onde moram hoje alguns amigos do autor, e elas nos praticavam o que os padres da Idade Média resolveram desencorajadoramente apelidar de fellatio, sexo oral. Joguei futebol no colégio, quebrei e me quebraram, e na rua (racha), em que tínhamos hora em hora de esconder a bola da D.G.I., a polícia brutal de Getúlio, chamada por algum morador indignado pela nossa linguagem ou janelas arrebentadas. Só três íntimos, que partilhavam um pouco meus anseios de libertação, sabiam das seis horas de leitura. Até com o proletariado moleque, depois de incontáveis brigas de turmas (tenho uma cicatriz de navalhada à direita, abaixo do estômago. Às vezes, hoje, de pileque, exibo orgulhoso a amigos), estabeleci uma détente, quase uma entente cordial. Meu vulcão, digamos, geyser, rugia apenas eu sozinho.

II. PROLEGÔMENOS: OU SEJA, ALÔ

NASCI em 2 de setembro de 1930, na Rua São Clemente, Botafogo, Rio, perto da antiga embaixada americana (...), numa casa de vila, em ambiente de classe média. É o que dizem e o tabelião confirma. O leitor tem aí a pista-chave da minha personalidade. Tolero (de uns tempos para cá...), de cara alegre, os tolos, como recomenda o apóstolo Paulo. Tolero às vezes. Paulo também... Mas leio e ouço as coisas sempre em dúvida do que não posso provar. Essa desconfiança, a essa altura, me parece incorrigível. Infelizmente? Me salvou de boas e me priva do abandono emocional, que é uma das alegrias da vida, me informam, enquanto dura. O fato é que nos (raros) paroxismos uma voz me avisa: “Bicho, esse negócio não é contigo”. Não se iludam pela aparente e ocasional fúria de meus escritos. Escrevo frio como um pepino. Prefiro assim, ou já me habituei?

Sei apenas que nasci, presumo que pelos processos convencionais, não existindo na ocasião o bebê de proveta ou os Garotos do Brasil. E fui, jovem, a cara do meu avô alemão, Paul Heilborn, na mesma idade, o que exclui, provavelmente, a hipótese de adoção. Dando crédito à versão oficial, não é verdade que ao me baterem na bunda eu dissesse “Cogito ergo sum”, ou, segundo o vulgo, “Um Black Labei nas pedras”. Se me manifestei, à parte o que Shakespeare chamava sentimentalmente “the mostpiteous sound”, o som mais digno de pena, o nhenhém do desgraçado do bebê, teria sido na linha de “Por que não me consultaram se eu queria vir pressa joça”? A última frase de As memórias póstumas de Brás Cubas é minha opinião da paternidade.

Meus (pressupostos) pais, Adolpho Luiz Heilborn e Irene Trannin Heilborn, já tinham um filho de dois anos, Fred, que, no folclore familiar, eu duas semanas nascido, me atirou uma caixa de fósforos na cara. Essa guerra levou mais de 20 anos. Quando ele morreu, aos 34 anos, assassinado pela Cruzeiro do Sul2, nos tornáramos amigos. Nos respeitávamos e chegamos a alugar juntos um apartamento alguns meses. Perdi um irmão (há outro, Paulo Gustavo, 14 anos posterior a mim); um dos meus melhores amigos, Mário Faustino, poeta e crítico, o crítico de que precisamos ainda hoje, pois não-curriolável; Ivan Meira, um inventivo publicitário e participante da formação de Senhor, divertido, perigoso (diziam os inimigos. Não contem comigo); e Cilo Costa, ator e alegria das mulheres; todos se foram em desastres de aviação. E trabalhei meses na Panair, descobrindo que em toda e qualquer viagem o avião falha aqui ou ali e o público não nota ou é avisado (raramente as conseqüências são sérias). Mário morreu aos 32 anos. Ivan, 30 (no aniversário dele, um amigo comum, Newton Rodrigues, disse: “Como é, Ivan, você garantiu que não passava dos 30”. Ivan: “Cheguei, não passei...”). Cilo, 30 e poucos. Faço, em média, nos EUA, entre domésticos e externos, cerca de 100 vôos anuais. Toc, etc.

É Fred mesmo. Adolpho viveu alguns anos nos EUA, nos anos 20 (me contou a luta de boxe roubada em que Dempsey bateu o argentino Firpo, a que assistiu), e se encantara com o país. Voltando americanizado, tascou um nome afim no primogênito. Paguei. Paul Heilborn quicou em face desse “arreganho colonialista de Washington”. Daí o Franz que recebi, Adolpho me usou para apaziguar o pai. Os dois se entendiam mal. Distraído e sonhador, Adolpho esqueceu de incluir o Trannin na certidão, me surripiando o nome materno, prenúncio de coisas piores. No Santo Inácio, colégio jesuíta do Rio, me chamavam de “Caninho”, a principio, corruptela de Trannin (Trranân). Perdi o Trannin um dia na secretaria e virei eiulbórn (ráiulbórn ).

Meu pai ganhava bem, na Esso... Dez anos de casa, estabilidade (pré-“opção” pelo Fundo de Garantia), futuro certo, americanófilo, inglês sem sotaque (e alemão, francês e espanhol). Paul Heilborn tinha algum. Viera para o Brasil em 1889 assumir uma posição na Teodorville (talvez falte ou haja uma letra demais aí), de que terminou o segundo homem, até que encampada quando o Brasil entrou na guerra em 1943. Não se tratava do imigrante de tamancos, dum cutruco teutônico. Muito nos orgulhávamos disso, considerando-nos à parte do que o célebre Mesquita (Mesquitá, hoje morto ou aposentado em Biarritz, não me lembro qual) do Itamarati chamava de “merros brrasileirros”. Bobo? Sem dúvida.

Paul Heilborn, às 7 da manhã, estava de pé, banho frio tomado, de paletó e gravata-borboleta, passeando o dobermann, Lumpen, nome que, mal sabia eu, era, no contexto marxista, uma palavra a ser repetida em todas as discussões. Lumpen, fazendo justiça ao nome, se desmilingüia diante de qualquer lulu. Velho e doente, assustava, porque baixaram uma regulamentação dessas idiotas (no nível da de Juarez Távora, ministro da Agricultura, proibindo que se carregasse porco de cabeça para baixo em estrada no interior), que obrigava o uso de mordaça especial em cachorros de porte maior. Lumpen, mascarado (meu avô foi, que me lembre, a única pessoa a cumprir a regulamentação), provocava gritos e desvios rápidos de senhoras e crianças. Houve outro, Kid, este o típico dobermann, feroz com todo desconhecido. Kid se revelou um sodomita vocacional. As visitas que ousavam entrar na casa sem guia se viam de repente tendo aquele monstro nas costas, um vasto membro erecto, enquanto nós, netos, ríamos às lagrimas; até que nossa tia, filha de Paul, nos comandava de alguma janela que o afastássemos da vítima, a essa altura já chorando ou tremendo. Kid lutava conosco, de brincadeira, nos lanhando bastante. Nos deu a medida exata do comportamento de cachorros, o que evitar, o que é mero ruído. Ganhei algum dinheiro nisso, apanhando uma vez a mala de colega num terreno baldio cheio de vira-latas bancando machos, aos latidos. Olhei os bichos e entrei tranqüilo, pegando a mala. Cachorro de briga não fica se sacudindo. Pára completamente antes do ataque. Se rebola, não resiste à autoridade masculina. É o nosso primeiro escravo pré-histórico, o animal. Prefiro gatos. Têm mais personalidade.

Paul era uma figura de autoridade benévola, mas “fria” no contexto brasileiro. Um beijo de filha, nora e neta já lhe parecia em conta (um dos filhos o beijava. Ver adiante). Falava português fluentemente, sem erros, com um sotaque não carregado. Acompanhava nossa vida política. Algumas surpresas: tinha horror a militares. Meu tio Sylvio, o mais jovem, recrutado médico, major, da FEB (Força Expedicionária Brasileira à Itália. Sylvio terminou não indo), um dia entrou em casa de uniforme, se exibindo a nós. Paul disse que despisse a farda e reaparecesse “vestido de gente”. Paul admirava Getúlio Vargas, o que pode ser atribuído ao autoritarismo germânico. Ouvi-o no entanto várias vezes falar do bem que Getúlio fizera pelo povo...

Meu tio-avô tinha sido oficial prussiano, jogador e mulherengo, sempre endividado. Paul queria ser o oposto dele. É a velha “síndrome Oswaldo Cruz” (o pai do mata-mosquitos se aniquilara em boêmia. O filho, bem, matou mosquitos, se bem que, dizem, no fim da vida, houve o “retorno do reprimido”, em que procurou imitar o pai. Qualquer estudante de Freud entende). Paul terminou a vida sem o “retorno”. Morreu de enfarte, em 1946, tomando o banho frio diário.

Meu tio-avô (esqueci o nome) morreu na Primeira Guerra. Presumo que numa carga de cavalaria (a arma dele) contra tanques, dado o nível de inteligência do conflito 1914-1918. O souvenir a que tive acesso, uma espada, era maior que eu, garoto, e me fazia sonhar os feitos habituais. Adorei soldadinhos e botão. Importávamos brinquedos da Alemanha cuja qualidade artesanal acredito inexista hoje. Irmãos, primos e amigos guerreávamos no soalho. É expressivo da força de Hollywood na garotada dos anos 40 que todos quiséssemos ser os “americanos” na guerra, nós, Heilborn, descendentes de alemães. Meu avô detestava Hitler. Não havia anti-semitismo em casa, exceto o “normal”, pré-genocídio, o anti-semitismo cristão, em suma. É instrutivo, para citar um único exemplo, ler Agatha Christie ou John Buchan, em que os judeus aparecem vilões, ou, na melhor das hipóteses, desagradáveis corpos estranhos. Os conspiradores de 39 degraus, que a maioria conhece do filme de Hitchcock, no original são agentes do “judaísmo internacional”. Minha família paterna estava nessa. Meu pai, na guerra, confirmou-se “lacaio do imperialismo americano”, irritando Paul, que, se anti-Hitler, patrioticamente não podia torcer, de coração, contra o país em que nascera. Os outros, que me lembre, não davam pelota, exceto Paulo Filho, justamente o mais abrasileirado, que defendia as razões (não, friso, Hitler) da Alemanha contra Inglaterra e França. E razões havia, claro, o Tratado de Paris (erradamente referido como de “Versalhes”) foi uma infâmia. Ingleses e franceses, temendo a competição econômica da Alemanha, levaram o débil Woodrow Wilson a unir-se a eles impondo punições draconianas aos derrotados em 1918. Ninguém escreveu mais eloqüentemente sobre o assunto do que o economista liberal inglês Maynard Keynes, em As Conseqüências Econômicas da Paz (1919), panfleto que é análise devastadora da atitude dos Aliados e que prevê a nova guerra, que Hitler desencadeou. Durante muito tempo, pasmos e culpados pela nossa conivência no massacre dos judeus (sem falar de eslavos, ciganos e outras “sub-raças”), convertemos Hitler em demônio, numa aberração da malevolência teutônica. Nada justifica Hitler, naturalmente, mas isso não justifica a perda de perspectiva histórica, hoje aos poucos recuperada graças a historiadores do nível de A. J. P. Taylor e Geoffrey Barraclough, entre outros.

A guerra mal tocou os confortos da classe média brasileira. Paul, de renda reduzida, economizara mais que o suficiente. Mantínhamos costumes alemães. Aos domingos, jantávamos frios, pão preto, cerveja (para os adultos) e café com leite às crianças. Estas não podiam falar à mesa, exceto se solicitadas. Nos obrigavam que ficássemos de mãos cruzadas, enquanto não comíamos. Eu mexia sem parar nos descansos dos talheres, parando momentaneamente ao ouvir enérgicos “Frantz” (a pronúncia alemã) de Paul. Um dia, para chateá-lo, disse no almoço dominical da família que a vida é “vinho, mulheres e canções”, de que minha experiência era praticamente nenhuma. Levei preleção do velho que a vida é “sacrifício, trabalho, realização”. Contestamos isso, claro, minha geração. Mas contestávamos uma estrutura real e, na aparência, consistente. A juventude (privilegiada, lembro sempre) de hoje contesta um vácuo e daí as vertigens... E a mensagem de Paul se impregnou em mim. Passada a fase de rebelião me converti num cu-de-ferro, com lapsos que não alteram a base.

Meu avô tinha uma casa magnífica de dois andares em Copacabana, na Rua Toneleros (que agora leio nas placas “Tonelero”), então inteiramente residencial, em frente da Hilário Gouveia. Se estendia, à parte o terreno em volta, a um morro “sem fim”. Fred, Carlos Heilborn Filho, Carlito, primo, filho do meu tio mais velho, amigos e eu brincávamos nesse autêntico parque. Tocávamos fogo em formigueiros, nos espetávamos estupidamente com bambus pontiagudos, o que Fred e Franz aprenderam no Colégio São Bento Internato, nossa primeira baldeação no mundo fora dos prazeres e disciplina familiares.

A casa hoje é uma cabeça-de-porco de três blocos, dessas em que se sente o cheiro da comida nos corredores. O morro morre.

Essa casa, enquanto Paul era vivo, uniu a família, aos domingos. Dirigida pela filha, Maria Luiza, Lili, amada de todos, solteirona que, jovem e atraente, recusou propostas de bons casamentos, preferindo servir, acima e além do dever, pai e mãe. Toda vida serviu a alguém. Perfilhou meu irmão mais moço, Paulo Gustavo, depois da morte de minha mãe, dedicando-se a ele até morrer, 1978. É o melhor ser humano que já conheci. Nunca a vi reclamar de nada. Tinha razões de sobra para protestos. Fé sincera e resignação católicas explicam bastante. Não a imaginem uma devota idiota de boa natureza. Nada disso. A família, de brincadeira (espero), diz que eu a comunizei, porque em 1964, pensando que o coronel Borges, chefe de polícia de Carlos Lacerda, iria se vingar do picadinho que eu fazia dele, na Última Hora, fui morar com ela uns tempos. Me recebeu, em 1° de abril de 1964, de bandeira nacional, o Brasil salvo dos comunistas; meu irmão, Paulo, armado, porque o morro supostamente iria descer. Deixo à imaginação do leitor minha cara. Acontece que nunca perco a palavra e, na hora, descrevi, em linguagem leiga, o que Roberto Campos ia cometer contra o país (em 1980, “se queres um monumento, olha em torno”).

Começaram as perseguições e o que a Igreja chama de carestia (digamos, a bem da justiça, o agravamento da carestia). Lili percebeu tudo sozinha. O máximo que fiz, se tanto, foi interpretar a maneira mistificadora de perpetrar o saque “revolucionário”. E Lili era uma católica instruída. Estudou o concílio sob Paulo VI e, particularmente, a encíclica O progresso dos povos, sem falar da Ceiam, das falas de Dom Hélder Câmara, etc. E no prédio morava Mário Martins, outro udenista renascido para a realidade brasileira, em que todos votamos senador na pseudo-eleição de 1966.

A mãe de Lili, minha avó Alice, tinha sido outro tipo de católica. Seguia procissão (um baixo entre católicos informados) com o mesmo entusiasmo que um advogado em início de carreira (nos EUA, ao menos) persegue carro de bombeiro. Já explico os motivos prováveis da carolice. Mal me lembro de Alice. Morreu em 1940, de deficiência cardíaca. Achei extraordinário que tomasse goles de champanhe, parte do tratamento. No dia da morte, fui ao Cinema Pirajá ver Capitão blood, Errol Flynn. Um cara queria que eu pusesse a mão dentro da braguilha dele. Não entendi e mudei de lugar.

Um dos mitos mais resistentes no Rio, hoje nacional, é que os cariocas sempre foram praieiros. Mil e uma lixeiras musicais, pilhas de reportagens, etc. O Jornal do Brasil, no auge do prestígio, década de 1960, fomentou-o mais que qualquer outra força. E Copacabana se convertendo em favela do asfalto, chegou a vez de Ipanema. De novo, hordas aspirando à vida chique, empreiteiros escorados na liberação de gabarito no governo Lacerda transformaram a região em “fezes e merda”, apelido tirado de uma das ruas do bairro, Farme de Amoedo.

Se o mito encarnou em versão caricata, sempre foi falso. Os bairros mais procurados no meu tempo de garoto, década de 1940, eram Flamengo e Botafogo, onde não havia (ainda) praias, Laranjeiras e Cosme Velho. A maioria das casas de Copacabana pertencia a estrangeiros, da Europa central, em particular. Os ingleses preferiam Icaraí, em Niterói, onde morei dois anos e onde Fred nasceu. Em Ipanema e Leblon, quase desertos, a mesma coisa. Existiram pioneiros isolados, do Rio, na paixão pela praia. Lembro logo Millôr Fernandes, Sérgio Porto, Yllen Kerr, o grupo de Edu e Mariozinho de Oliveira (este de ascendência parcialmente alemã).

Foram americanos e judeus que popularizaram Copacabana, que inventaram a “princesinha do mar”, publicitariamente. Os poucos judeus que o governo admitiu (exigindo fiança de 400 contos, uma fortuna) se estabeleceram no Leme, produzindo o trocadilho infame, Jerusaleme. E os americanos celebrizaram o lugar. A partir de 1943, vinham tropas dos EUA, rumo a Natal (em que “deixaram uma criança debaixo de cada cama”), Recife e África. Não havia, convém lembrar, jatos, ou aviões de grande autonomia. A rota Rio-Nova York exigia parada obrigatória em Belém do Pará. No Rio, os gringos se fixaram em Copacabana. Tornaram bares que não existem mais, Albatroz e Alvear, e o decadentíssimo Alcazar (onde se comia, na época, um dos melhores bifes da cidade) em centros populares. As mulheres se atiravam sobre (sob) eles. O amendoim torradinho subiu de 1 a 100 réis. A modernidade, enfim: o entulhamento de gente em prédios irrespiráveis, o congestionamento de esgotos, a inflação, pintaram a partir daí, prenunciando o Brasil Grande.

Nós Heilborn íamos à praia, pegávamos jacaré de prancheta. Meu primo Carlito fez nome deslizando em tarugos, as ondas maiores e assustadoras de tempo ruim. Menos meu pai. Preferia levar os filhos à praia do Russell, em verdade praça, hoje sede do Blocão, da Bloch Editora. Ninguém suspeitava do valor mais alto que se alevantaria sobre aquela plácida grama... Grama se come.

Morávamos, então, depois de Botafogo, no Lido, Leme, linha divisória com Copacabana. As senhoras de classe média tomavam chá no OK, agora um botequim sórdido, como quase todos na orla Leme-Leblon. As senhoras de sociedade preferiam o Copacabana Palace, o único hotel internacional da cidade, dos Guinle, e os senhores iguais comiam no Bife de Ouro, enquanto na piscina se reuniam, à parte estrangeiros e paulistas ricos, os jovens que quebrariam todos os bares quebráveis do Rio a Petrópolis.

Uma das minhas vizinhas do Lido, Belford Roxo, era Leonora Amar, estrela de cinema, que se tornaria Madame Du Barry do México, sob Miguel Alemán. Gostava deste menino e me levava à praia sob uma cacofonia de assobios e graçolas incompreensíveis para mim. Pena que Leonora não fosse chegada a criança, pedófila. Teria sido talvez um prazer e uma nota biográfica lisonjeira.

Exagerei um pouco a ausência brasileira das praias. Mineiros e paulistas gostavam. Estes ficavam mais no Hotel Luxor, no posto 4, nos divertindo os paletós e gravatas que não abandonavam no calor. O posto 4 e o 6 iniciaram a vida em Copacabana, antes da malta. O 6, pelas águas mansas, tinha a preferência de mamães e pimpolhos, e, claro, nosso desprezo; no 4 é que meu primo se exibia brilhante em jacaré de tarugos. As meninas disputadas se chamavam Vivian, loura e olhos azuis, Carmem, o nome diz tudo, e a rechonchudinha e gentil filha do alfaiate número 1 do Rio, De Cicco, Nelly, paixão geral. Desprezada, porque alta e magra, “nada de peitos e nada de costas”, se falava, ninguém prevendo modas futuras, sem as chamadas papas na língua, Danusa Leão, que, quando baixou o new look de Christian Dior, tornou-se modelo dele em Paris e durante anos foi pedida em casamento pelos intelectuais da moda, que a celebrizaram em prosa e verso. E amigo íntimo dela, outro “esquisito”, meu colega de Santo Inácio, implicante, debochado e divertido, Sérgio Figueiredo, “esquisito” porque não praticava jacaré, lia Gide e Variety. Sérgio é hoje um dos assessores informais e amigos dessa mistura de Rasputin e Macunaíma tecnocrático, o Dr. Delfim Netto.

Mas me antecipo. Meu pai pagou o catolicismo de Alice, como paguei o nome americano de Fred. Alice teve o filho mais velho, Carlos, e, depois, uma filha, Carmem. A menina morreu na infância. Não acreditando que raio caía duas vezes no mesmo lugar, superstição banal, Alice deu o nome de Carmem à filha seguinte, também morta no berço. Apareceu Adolpho. Alice prometeu a Deus que, se o poupasse, o filho andaria até os sete anos de idade vestido de azul e cheio de cachinhos. As crianças são o proletariado extremo, porque em qualquer classe social estão sujeitas a caprichos humilhantes de adultos. Adolpho deve ter ouvido incontáveis “viado” e “olha a bonequinha da mamãe”, numa idade importante na formação emocional. Os nervos dele eram vulneráveis. Desenvolveu o hábito de sonhar acordado, vivendo muito de imaginação. Menino frágil, o único franzino e de altura média entre os irmãos (cresci 20 centímetros acima dele), filhinho de Alice, que se preocupava em excesso que sobrevivesse, excesso que trai, em tantos casos, o desejo inconsciente de que o protegido morra. A morbidez religiosa de Alice dá base a essa conjetura. Não passa disso, conjetura. E também, na minha experiência, filhos que vivem depois que antecessores morreram não escapam de um ocasional comentário comparando-os desfavoravelmente aos perdidos, o que dói horrores em crianças e mesmo em adultos. Adolpho precisava se provar em casa e no mundo. Na Escola Alemã, que todos os meus tios freqüentaram, não escapou dos rigores típicos, da palmatória à aridez emocional da “raça”, reforçadas em casa pela distância de Paul e a obsessão de Alice que Deus lhe perdoasse a morte das Carmens. Mais uma vez, especulo. O assunto nunca desceu à terceira geração, o que só me faz reforçar a especulação.

Paul, provavelmente, serviu de pai e mãe de todos, deixando Alice entregue à religião, opiado não apenas do povo. Os filhos mostravam a carência. Carlos, o primogênito, era um secarrão, um rebelde, que, jovem, fugiu da escola, mandou-se para os EUA. Começando de baixo na General Motors (a mulher, Maria Luiza, lhe lavava o único par de meias todas as noites), fez contatos e, no Brasil, converteu-se em bem-sucedido homem de negócios, importador principal da Chrysler, etc. Terminou até grã-fino, suspeito que relutante. Não consigo lembrá-lo sem a boca franzida, “mantenha distância”. Apesar disso e de um individualismo que alienou às vezes os irmãos, era capaz de largesse afetiva. Foi um embutido emocional como quase todos nós.

Adolpho, imagino, sofreu mais que ninguém essa ausência de quem lhe entendesse o superávit de sensibilidade, de resto, ainda na minha geração, considerado “coisa de mulher”. O seguinte, Paulo Filho, se saiu melhor. Gregário, alegre, amável, se abrasileirou fácil. Na família dele, mulher e filhos, um casal, havia aquela beijocação, abraços, abertura, que, em boa parte, nos faltavam. Um outro primo, adolescente, na presença de estranhos, a mãe o esbofeteava. Paulo Filho, dado a esportes, da diretoria do Fluminense, cartola de natação (a filha, minha prima Cecília, foi recordista sul-americana de nado de costas em todas as distâncias), abriu e assimilou o Rio para ele e descendentes. Beijava Paul. Meus primos, Cecília e Walter, se dão e se davam tão bem, que, adolescentes, saíam juntos, sozinhos, em programas, quando se achava um dos baixos máximos irmão acompanhar irmã, exceto se fosse proteger-lhe a “honra”.

Paulo Filho foi corretor de fundos públicos, posição de privilegiados (“Ali Babá e os 40 ladrões”, o apelido desses corretores). Sylvio, o único vivo, até mais ou menos aposentar-se, era um cirurgião e clínico de prestígio, doutorado na Alemanha. Sylvio, caçula, se trancava mais que os outros. Se abria, em termos, conosco, a nova geração, nos mostrava as mulheres de Vargas em Esquire, que assinava, mulheres que hoje não excitariam um monge trapista, mas que no puritanismo oficial estadonovista nos forneciam farto material de punhetinhas. O chamado homme à femmes, que não resistem a um tipo bonito e impenetrável. Casou-se várias vezes, teve pencas de “casas militares” e terminou produzindo dois belos filhos quando a maioria de nós já pendurou as chuteiras. Lembro-me de um episódio: uma embaixatriz (no names, please) atracou-se com uma jornalista (idem), por causa dele, no Metro Copacabana, então bem freqüentadíssimo. Sylvio deixou-as brigando e voltou para casa. O delegado (próximo, na Rua Hilário Gouveia) mandou respeitosamente chamá-lo e pediu-lhe explicações. Sylvio: “Devem ser doidas”. Fred e ele se pareciam fisicamente, em certo período. Em verdade, somos irmãos espirituais, ou “ferreiros”, nos cadeados que nos impusemos, ou fomos, porque desbundei um pouco na promiscuidade de teatro e jornalismo.

Lili, de tão reservada, chegou a criar problemas triste-cômicos. Em dificuldades financeiras (de que não revelava a metade) nos últimos anos, Carlito e eu praticamente tivemos de forçá-la a aceitar um subsídio mensal, que ela recusou persistentemente, até que falei: “Parece até que Carlito e eu queremos roubar você”. E “roubamos”, sim, daquela dignidade e repressão inculcadas na infância.

Não me entendam mal. Paul Heilborn não era um ferrabrás, ou déspota. Foi cortês à européia e não à latina. Foi honrado e justo pelas luzes dele. Tenho certeza que amava os filhos, bem menos que me amasse. Acho que me considerava um futuro marginal, pelos indícios que percebeu. Uma das minhas primeiras memórias de infância, aos quatro anos de idade, é de um banho de banheira, na casa de Paul, administrado por Laudina, babá querida, uma preta velha (reciprocava, estranhando à la “Mammy” de Scarlett O’Hara meus hábitos alimentícios, resmungando: “Pão seco e água, Deus nos ajude”). Aos quatro anos, não tolerava que me vissem nu3. Paul entrou no banheiro. Me levantei da banheira, gritando: “Vai à merda, seu”. Até hoje não me lembro onde aprendi a palavra “merda” e significado. Paul, lívido, rodou nos calcanhares.

Meninos, nas reuniões familiares, nos obrigavam ao paletó. Eu trazia, claro, mas só vestia comandado. No segundo casamento de Adolpho, com Lourdes, “tia” (ela detesta “madrasta”. Tem razão. É onomatopaicamente brutal. Pior é stepmother, em inglês, que sugere pneu), na interminável cerimônia católica daqueles tempos pré-concílio 2, induzi irmão e primos a um pôquer de dados sobre um dos automóveis. Foi a única vez que Paul me atingiu, fisicamente, de mau jeito. Me arrancou os dados da mão, me espremendo os dedos, me acusando, o mais jovem, do desrespeito. Certo, mas como ele sabia? É interessante que aos 20 anos, comparando fotografias, nos pareçamos tanto.

Paul era um alemão do século XIX, educado sob os rigores de Bismarck. As diferenças entre famílias européias e do Novo Mundo falado, ainda hoje, apesar da americanalhação crescente e generalizada, são marcantes. Os pais europeus batem nos filhos. Se privilegiados, mantêm distância deles. Lhes impõem uma estrutura fixa e externa de comportamento que nos parece ditatorial, na era do Dr. Spock.

Paul chegou adulto, formado, ao Brasil imperial. Meu pai e tios receberam essa carga que contrastava chocantemente com o informalismo e o derramamento brasileiros, do Rio em particular. Se Alice não houvesse se ensimesmado depois das Carmens é provável que um certo meio-termo entre o Velho e o Novo fosse alcançado. Até minha geração pegou as sobras. Era raro que nos beijássemos e abraçássemos, a família de Paulo Filho sempre excetuada. Minha timidez levou a semigagueira, mais um stammer, hesitação seguida de arranque ao falar, a uma agressividade na qual eu tentava encobrir o desconforto em face do brasileirismo de colegas e amigos, a que, talvez, eu gostaria de ter podido aderir. Restam muitos reflexos. “Cenas”, fora das artes, me reduzem a secura total. E me sinto sempre numa espécie de exílio pessoal. Sou um estrangeiro nato.

Só no teatro pude baixar a ponte levadiça, aos 21 anos. Ensaiando no pequeno Teatro Duse, de Paschoal Carlos Magno, a voz me faltava, em potência, não indo às ultimas filas. Tive medo do vexame em espado grande. No Teatro Amazonas, a bela relíquia do tempo que Henry Ford quis nos desenvolver e tungar a borracha, ao entrar em cena, nervosíssimo, ouvi voz poderosa repercutindo e voltando das paredes do fundo. Levei segundos a perceber que o som partia de mim. A catarse veio do desespero, que é, de resto, donde deve vir. D. Esther Leão, professora de voz, me disse, ao me ver no palco, ano seguinte, que fui dotado de “impustção natral”. A palavra sábia de sempre dos experts.

Em 1939, meu pai teve a última e uma das mais violentas explosões com Paul. Decidiu deixar a Esso, onde a vida lhe era mansa, e, repito, estável e garantida. Paul achou irresponsabilidade. Estava certo. Adolpho não tinha cabeça ou vocação para negócios. Bondoso, solícito, dispersivo, e, pior, não era ave de rapina. Meteu-se em export-import4. Foi roubado por sócios inescrupulosos; várias tentativas fracassaram porque fracassaram. Em parte isso se deveu a que não sabia jogar pesado. Em parte. O fato também é que não conseguia se concentrar num trabalho que lhe exigisse decisões. Faltava-lhe confiança em si próprio. Sobreviveu sempre, enquanto pôde trabalhar, mas sem o sucesso esperado. Preferia ler poesia romântica, escrever “pensamentos” líricos, sonhar acordado; dançar (sic, ver adiante), suprindo em fantasia o que a vida e ele próprio lhe negaram.

Quando pude analisá-lo, pós-Dostoiévski, deduzi que era incapaz de dominar o mínimo de realidade, que, a um preço, distingue os fortes. Não é crítica, é registro. Amei-o à distância. Irracionalmente, juntos. Os motivos se tornarão claros, não resistia à compulsão de ridicularizá-lo, de contradizê-lo, às vezes com bastante crueldade. Me amaldiçoava por essa ignomínia, que repetia no próximo encontro, isto quando ele já estava morrendo lentamente de câncer no pulmão, a carne queimada de cobalto. Depois do que sabemos de nós mesmos não há perdão.

Adolpho sofreu a vida toda porque não foi bem-sucedido como os irmãos. Não tinha motivo concreto. Minha mãe (e Lourdes), Fred e eu nunca reclamamos. Morávamos em conforto, os filhos estiveram nos melhores colégios, viajaram cedo ao exterior (nos anos 50 privilégio de ricos), nada nos faltou, em suma. O problema não era esse. A explicação virá em tempo. Sou obrigado a plantar o terreno.

Osny Duarte Pereira, bom amigo, jurista, se referindo a duas clientes que preferiram viver em semimiséria a dividirem uma herança, não chegando a acordo, me disse que a burguesia se cria dificuldades imaginárias. A palavra está certa, mas Osny, marxista, é culpado de um certo reducionismo.

Os problemas são imaginários apenas na aparência. É da condição humana cismarmos irracionalmente em certas atitudes, ou assim parece ao observador superficial. A cisma é um disfarce, um substituto (imaginário) do que realmente nos aflige, nos aflige tanto que não ousamos sequer trazê-lo à consciência. A expressão psicopática disso é a paranóia. “Eu amo ele” se converte em “ele me odeia”, na análise que Freud fez do antagonismo de Otelo a Cássio (em Shakespeare, não em Verdi). Me parece correto, ainda que em alguns casos sexo não seja a força motora principal dessa inversão: se bem que acredito, seguindo Freud, que sexo, a origem da vida, em última análise, permeia todos os nossos atos, pensamentos e sentimentos. Que alguém duvide disso, desculpem a franqueza, me confirma a inteligência budista, que considera a burrice pecado mortal. As “irmãs” de Osny certamente encontraram na herança o proscênio visível, tolerável, de algum drama afetivo inadmissível, da mesma forma que Desdêmona paga pelos complexos sentimentos de Otelo por Cássio. Resumindo, acho que minha família paterna sofreu apenas as fisgadas e flechas de um destino ultrajante, o que é comum a todos nós, e acho também que Shakespeare aqui é pleonástico. Prefiro Waugh, apesar do ranço católico: “Qualquer destino é pior que a morte”. O anticlichê sutil da frase se perde um pouco em português.

O destino pior que a morte, em inglês, no vitorianismo, era perder a virgindade sem casamento. Mas a frase é boa assim mesmo.

Os Heilborn não foram tema de escândalo (escorregamos em particular). Os homens atingiram eminência e sucesso, exceto meu pai que, inadequado para a vida prática, nem por isso nos privou das vantagens iniciais dos outros primos. Meu tio Carlos, que envergou a armadura e a maça do homem de negócios, não teria sido capaz de bajular ministros, oferecendo-lhes comissões, mulheres (ou rapazes), em troca de assalto ao Banco do Brasil e quejandos. Gente honrada. Um conceito burguês, irrelevante, a meu ver, mas eles acreditavam e cumpriram. E classe, noutro sentido, não lhes faltava. Impossível imaginar Sylvio, no donjuanismo, plantando notícias de “feitos” em colunas sociais, ou bazofiando em botequim. Um gentleman não faz isso, ponto. Tinham e nos legaram horror à cafaj estada.

A família de minha mãe é igualmente discreta. Francesa de origem, Trannin. Há dúzias de Trannin no catálogo de Paris. Meu ramo é de Friburgo, estado do Rio, e soube, recentemente, “pesquisando” este livro, que se espalhou ao Paraná e Mato Grosso. Uma constante na família é a preferência pelo campo à cidade (sinto ocasionalmente solicitações que presumo atávicas). O folclore é que os Trannin vieram a Friburgo (de Paris) explorar o “bicho-da-seda”. Os exportadores ingleses teriam queimado tudo, obrigando-os a recomeçar a vida. Os ingleses, no século XIX, representavam na demonologia brasileira o papel dos americanos hoje em dia (os alemães-ocidentais serão os próximos?). Eram, sem dúvida, os “amigos” a quem exportávamos produtos primários e a quem devíamos os proventos das exportações, e que nos forçavam déficits comerciais e endividamento permanente. O modelo Campos-Delfim, longe de ser criatura do golpe de 1964, é da essência da nossa História escrava. Mudam as casas-grandes. Trocam os capatazes e métodos, “abordagens”. A senzala continua, se consolando em fantasias e circo. Se o folclore é verdadeiro, os Trannin, imigrantes, formam entre os pioneiros da industrialização nacional, ainda que tubulassem.

Minha mãe e irmãos tiveram o azar de ficar órfãos, crianças. Por que órfãos eram (são?) maltratados? Imagino que, indefesos, excitem o sadismo impune de adultos e das outras crianças que se sentem protegidas. E deve haver a componente de baixa religiosidade que responsabiliza as crianças pela morte prematura dos pais. Irene, Luiz, Almir, Dulce, Orlando e Euclydes foram distribuídos por parentes, recebendo tratamento variado. Nunca se queixaram de nada, diante de mim, ao menos. Almir (morto) fez uma carteira de seguro bem-sucedida. Dulce casou bem e é avó. O casamento de Luiz e Zillah desafia os autores de réquiem dessa instituição (ou sacramento, se preferirem). Todos trabalharam pesado e se sustentaram. Excetuando Orlando, solteiro, continuaram a família. Também eles respeitaram os valores da classe média.

Irene era bonita, um tipo Degas, talvez algo semítico, o que Degas, anti-semita furibundo, não me perdoaria.

Há um mistério aqui. Os Trannin que conheço (nem um décimo) são católicos. Os Heilborn também (menos Paul, que morreu luterano, e alguns outros que aderiram ao babalaô espírita ou seitas protestantes). Mas sei de tios-avós maternos, que mal lembro, chamados Moisés e Davi, o que, diria Lênin, não deve ser acidental. Orlando tio, “Doca” (não Street, pelo amor de Deus), filossemita convicto, afirma que os Trannin são de ascendência judia, que a família é de origem italiana, Trani, e, na França, traduziu-se em Trannin. Me orgulharia partilhar a raça (que não existe, cientificamente, claro; o vulgo no entanto acredita que existe, logo, existe na “cabeça” da maioria) de Freud, Marx e Trótski, influências decisivas na minha vida. O que me parece implausível é que os Trani, segundo Orlando, tivessem deixado a Itália por perseguição religiosa, já que a Itália, ao contrário da França, e me baseio na autoridade de Hannah Arendt, apresenta honroso prontuário de anti-anti-semitismo. Até Mussolini, exceto nos últimos tempos, quando se tornou mero títere de Hitler, dava fuga aos judeus, escondendo-os na Riviera italiana. Se não bastasse o mistério Trannin, vejo no catálogo de Nova York dezenas de Heilbroner, judeus, inclusive um amigo admirado, Robert Heilbroner, o mais razoável e legível dos economistas modernos.

Fica a anotação, que desenvolverei no próximo capítulo, explicando minha brasilidade, ou falta de. Decidi passar em revista as origens familiares porque até amigos íntimos, não de infância, me perguntam sobre minha ascendência, se, inclusive, nasci na idolatrada, salve, salve.

Houve um tempo que corria o boato que eu era austríaco, esse inventado e alimentado pelos galhofeiros de O Pasquim. Na primeria cana, me apelidaram Francis de Orleans e Bragança... Na visita de Carter ao Brasil, em Brasília, um jornalista que respeito, avis rara, disse que me supunha israelita. Sou mesmo é um dos remanescentes dessa espécie quase extinta, o carioca, e nas raras reuniões em que encontro apenas semelhantes, rimos bastante do que os acariocados mineiros, espírito-santenses, paulistas e nordestinos dizem da nossa cidade, que eles, os acariocados, tomaram, sem dúvida, e pela qual falam com a falta de autocrítica peculiar a conquistadores.

Estou ciente também que meu possível judaísmo ancestral reabastecerá gostosas ilusões dos bravos sionistas brasileiros, a turma do “daqui não saio, daqui ninguém me tira”, inconformados com as minhas críticas a políticas do Estado de Israel. Concluirão que não passo de judeu renegado, que descarrega o ódio às origens em anti-semitismo. Certos judeus, stalinistas e homossexuais partilham a alucinação de que ninguém pode criticá-los porque merecem. Não acreditam em Hamlet que disse: ninguém escaparia do chicote se recebesse o merecido. Judeus invocam o anti-semitismo, que, na religião deles, faz parte da natureza (sic) do gentio. Stalinistas falam de “interesses de classe”, ou pior, nas esquerdas, de desviacionismo. Homossexuais pretendem que heterossexuais apenas fingem interesse em mulheres, não tendo coragem social e moral de aderirem ao “espada a espada”. Paranóicos, é verdade, também têm inimigos verdadeiros, agora “também” não quer dizer “tudo”. A superioridade moral do perseguido é tão discutível quanto a do perseguidor. Negros que se queixam da escravidão esquecem convenientemente que outros negros vendiam os escravos que os árabes revendiam aos brancos. Vemos o que os israelenses fazem aos “judeus” deles, os palestinos. Os stalinistas, 1980, deram mais, de sobra, do que levaram. Homossexuais, onde podem, nos EUA, por exemplo, querem rasgar a Constituição (que os liberou, legalmente, até certo ponto; o resto é resistência extralegal), se a liberdade de crítica é estendida contra eles. É uma tragicomédia. Rio pouco e, francamente, a tragédia me impressiona menos, hoje, do que a repulsividade intrínseca dessas manifestações de irracionalismo. Vitimização profissional é um nojo.

Fui o filho preferido de Irene. Gorduchinho, sempre no colo, enquanto deu pé, sorridente (...), e Fred, ao lado, chorando de frustração (fotografias, como avisa laconicamente o teletipo da UPI ao sumarizar as notícias importantes do dia). Companheiro diurno inseparável. Ouvimos seis novelas da Rádio Nacional, juntos. Lembro bem a voz de Ismênia dos Santos, que sugeria um físico de Jean Simmons (primeira paixão cinematográfica). Levado à ópera criancinha, Madame Butterfly (Grace Moore), deslumbrado ao primeiro contato, o que persiste, em 1980. Mudaram os compositores. Hoje, só o último Verdi, Wagner e Richard Strauss (dois seres humanos e “pensadores” odiosos) tocam forte naquelas cordas vibradas 43 anos atrás...

Irene às vezes chorava, em silêncio, na minha companhia. Ouvi-a dizer, muito, a frase mais comum da humanidade: “Como sou infeliz”. Eu respondia carinhoso, presumo, não lembro, sem entender nada, o que lembro.

Dei ratas. Um dia na Drogaria Pacheco (“mais em conta”, me fascinavam os remédios descendo à la Tarzan, em cordas, ao freguês), o caixeiro perguntou: “E a senhora vai bem, não é, D. Irene?” O nosso coloquial é repeticioso e reafirma sempre nossas ansiedades (“fulano não está, não?”). Irene: “Bem, obrigada, e o senhor?” Franz: “Ué, como é então que você diz em casa que é infeliz?” Irene enrubesceu e me fez um “shsh” delicado. Enrubesci eu. Enrubescia à menor crítica dos amados.

Caixeiro “não ouviu”. O serviço no Rio, naquele tempo, era um prodígio de amabilidade. O próprio Rio, que não existe mais, tinha uma fidalguia fraterna, se é que as palavras conjuminam. Sei que parece incrível, em face do presente. E friso que falo dos anos 30 e 40 e não do tempo de Machado de Assis ou João do Rio. Hoje, a miséria, em guerra civil não declarada, nos ataca de um flanco. Do outro, enfrentamos a brutalidade, a ostentação dos beneficiários e produtores da miséria.

A infelicidade de Irene. Ela não sabia que felicidade é apenas aspiração consoladora de leitoras de Cláudia. Terminou órfã, na tutela de um tio materno, Álvaro da Matta. Na casa dele, na Rua Benjamin Constant, namorou o vizinho Adolpho, separados por um muro. O velho da Matta, quando o conheci, digo, já capaz de julgar comportamento, me sugeriu uma dessas personagens adultas de Dickens ou Brontë (Charlotte), cujo prazer na vida é maltratar crianças. Se falasse inglês eu acreditaria em reencar-nação literária. Não é bem assim, me garantem tios sobreviventes, um dos quais no entanto, também sob da Matta, fugiu de casa... Álvaro teria sido honrado, pelos critérios dele. Himmler também foi, claro. Desmaiava ao ver sangue, ia às lágrimas ouvindo Mozart, vomitando ao sentir o cheiro das pessoas que enfiara nos campos de concentração e extermínio. Uma alma sensível. Enfim, escrevi coisa semelhante de Paul Heilborn, logo não vou negar o beneficio da dúvida a da Matta, a quem não experimentei na pele.

De qualquer forma, Irene, sob o estigma da orfandade, reprimiu uma natureza passional que só lhe permitiam expressar em submissão, doçura, meiguice: pelas regras da época, mulheres da classe dela (e de todas, em graus variados) “deviam” apenas esperar casamento, maternidade, a gerência do lar. E qualquer faísca de revolta, aposto, da Matta apagaria impiedoso.

Irene, se vivesse, estaria na idade da minha colega de colunas radicais na Última Hora, Adalgiza Nery, que morreu quando eu escrevia este livro. Adalgiza é uma das poucas dessa geração que fugiu do cricri (ou, abaixo, do papel de “doméstica”). Mas Adalgiza, à parte a vocação permitida (em termos) às mulheres de escrever, na oposição formou personalidade imperiosa. Belíssima, na juventude, percebeu e usou o poder do eterno feminino, que tanto preocupou Goethe. Fez muito bem. E, incomum em mulheres (particularmente nas feministas oficiais), desenvolveu uma cabeça política. Apesar disso, a última vez que a vi, ela cassada, comovida que me solidarizasse (formamos no jornal uma sociedade de admiração mútua, pela nossa resistência conjunta — espontânea — à tutela do PCB), me contou de entraves e humilhações no início da carreira, inconcebíveis se fosse homem. É uma confidência que não vou revelar. Nada tem a ver, aviso aos maliciosos, com o casamento de Adalgiza e Lourival Fontes, melhor conhecido da maioria dos brasileiros como “aquele homem que não penteava o cabelo”, e Goebbels (Lourival foi chefe de censura e propaganda do Estado Novo, DIP) sem talento aos politizados. Em algumas pessoas, a tirania do convencional estimula à revolta. A maior parte se rende ao que Thoreau chamava de “quiet desperation”, um desespero quiescente, nem por isso menos sofrido.

Irene era das últimas. Nenhum sinal da têmpera de Adalgiza. Recebeu pouca educação formal, considerada “perda de tempo” no feudalismo masculino-católico brasileiro. No meu tempo de adolescente é que apareceram, como grupo, as primeiras gatas-pingadas nas universidades, e gente de classe alta, em geral. Acho que a orfandade e a cabeça estreita de da Matta formaram minha mãe. Ficou, de pessoal, a ternura infinita de que fui o principal recipiente. Tinha um mínimo de amigas íntimas. À parte uma irmã querida, Dulce, só lembro uma certa Alice, solteira, de quem um dia, pela fresta da porta, vi as pudendas, quando fazia pipi num pinico. Pudendas não eram nota 10. Sei que minha mãe admirava (elogiando para mim) as cunhadas Zillah e Lili, mas a timidez de Irene impediu, provavelmente, aproximação maior. Os Heilborn reclamavam que ela não falava, talvez porque, timidez já incluída, eles não deixassem ninguém falar, do que me acusam amigos, hoje; com razão?

Irene se sentia atraída pelas artes. Certo, gostava de abominações, A. J. Cronin, A lenda do beijo e Num mercado persa. Achou Stefan Zweig cruel (se lesse um dos filhos...). Mas acompanhávamos aos domingos, 5 da tarde, a ópera completa da Ministério da Educação. Ouvimos atentos as aulas de Ayres de Andrade sobre piano, ilustradas por Rubinstein em Chopin, Gieseking, nazista (a inteligência média de músicos é comparável à de profissionais de tênis), na sutileza nunca igualada em Ravel e Debussy; Casadesus, etc. Ouvi na Ministério o Tristão de Lauritz Melchior e Kirsten Flagstad. Quando rapidamente, pré-golpe de 1964, fiz comentários políticos na Rádio, ofereci ao discotecário três Tristãos. Bõhm, Von Karajan e me esqueço o outro, em troca da preciosidade ortofônica (42 discos, se não me engano) de Melchior e Flagstad. Neca. Flagstad tem quase uma equivalente, hoje, Birgit Nilsson, que, aos 61 anos, é capaz de fazer a sofisticada platéia de Wagner em Nova York entrar em rugidos animais que me assustam, apesar de que partilho. Quebraram a forma que produziu os sons másculo-celestiais da garganta de Melchior, reduzido, no fim da vida, a banalidades de musicais da MGM, a duetos com Kathryn Grayson e Jane Powell...

Minha mãe se horrorizava em face da amoralidade pagã de Wagner. Preferia o óbvio, o Verdi menor, Massenet, Charpentier, Saint-Säens, algum Puccini (não a melhor, Turandot, ou a selvagem Manon Lescault). Havia exceções reveladoras de potencial subdesenvolvido. Apaixonou-se pelo Otelo, do Verdi maioríssimo, que bate em efeito no palco o original de Shakespeare, talvez por ser, como observou Robert Lowell, mais vulgar que Shakespeare (a peça é inacreditável, literalmente. Aquela besteira do lenço se resolveria em cinco minutos. É música poética, certo, que tocada certa nos suspende, temporariamente, a incredulidade. Logo, argumenta Lowell, por que não música-música de uma vez?). E se extasiava em Chopin, Schumann, Brahms, Schubert, os românticos. Em música descobriu a saída das austeridades confinantes em que foi criada. Me diz mais dessa criação, do que informação de terceiros, que nunca aprendesse piano, “prenda” acessível a tantas mocinhas casáveis na época.

Adolpho casou por amor. Irene, não sei. Certamente gostava dele. Acho que amor só deu a mim, que retribuí, até que me fez, ou não impediu, o mais provável, um Otelo. O problema é que Adolpho e Irene foram emocionalmente esfaimados na infância. Se atrofiaram em inibições. Cabia a meu pai, o Senhor, fazê-la dar-se, abrir-se. Não conseguiu, ou não tentou. Se habituara demais a viver de fantasias. Recolhia-se, e Irene, na prisão feminina do tempo, não ousaria tomar a iniciativa. Nunca houve, bem entendido, uma palavra rude entre os dois, ou desentendimentos profundos, na minha presença ou ciência. Adolpho provia e socorria nas horas necessárias. Sentíamos, Fred e eu (e, imagino, Irene, quanto, sem jamais falar no assunto), a barreira que ele estabelecera contra o mundo.

Não quero exagerar. Adolpho nos levava, meninos, à praia da Urca. Nos ensinou a nadar. Fingi que aprendera antes do tempo, ele fingiu acreditar e, um dia, me surpreendi nadando, aos cinco anos. Havia piqueniques de família, em Paquetá, na serra de Petrópolis, etc. Fomos a feiras internacionais, no Rio, onde, uma vez, Carlito ganhou primeiro lugar na corrida de automóveis de criança, eu a tiracolo. E Adolpho nos introduziu ao futebol. Botafoguense doente. Fred, idem, desinteressado. Sócio inscrito do Fluminense (onde treinei natação sob Caximbau. Desisti porque chatíssimo), vi meu primeiro Fia x Flu. Pirilo passou a bola a Zizinho e me tornei Flamengo eterno. Perdi os modos e, na típica tradição flamenguista passional, descarreguei “merdas” e “viados” sobre o adversário, aos gritos, esquecido de que estava na social dos ditos “ms” e “vs” Só não apanhei de flus idosos porque menino de sete ou seis anos. Limitaram-se a me lançar repetidos “cala a boca, moleque”, ao que respondia “é a mãe”. Não há dúvida de que nasci Flamengo...

Víamos Adolpho relativamente pouco. Pela manhã, no café, resolvendo satisfeito as palavras cruzadas do Correio da Manhã; abusando um tanto de geléia, em que não toco nunca. Em 1967, um dos editores do Correio, resolvi suspender as “cruzadas”, que achei debilóides. Desabaram protestos de leitores na diretoria. Niomar, a proprietária, me mandou repô-las. Escrevendo agora me pergunto se não caí inconscientemente numa tola vingança edipiana. A noite, Adolpho reaparecia, em passadas largas, próximas do andar de Groucho Marx, nos dava “buenas” (sic) e se dirigia ao banheiro, antes do jantar, lavando-se e se exibindo diante do espelho. Era vaidoso. Tinha, em aparência, 10 anos menos que a idade, os matusalênicos 40 anos de que essas cenas me voltam à memória. Não se envolvia no cotidiano dos filhos, exceto em emergências e entretenimento de fim de semana, nem se esperava isso de um pai de família burguês. À vontade literária, irrealizada, juntava a Ciência Cristã. Essa seita, fundada por Mary Baker Eddy, americana, pressupõe, entre outras coisas, que males físicos ou mentais decorrem de maus pensamentos, pecados, “más vibrações”, diriam os meninos de hoje. Adolpho se gabava de me haver curado de uma febre, antes de um piquenique, exercendo rezas do credo. Não me lembro de febre ou cura.

A Ciência Cristã é a causa ostensiva de nossos conflitos. E apressou a morte de Adolpho, em 1973, aos 74 anos. Ele tinha uma constituição forte, a exemplo de tanta gente franzina. A recusa de recorrer a médicos, já doente, pressão altíssima, complicações variadas, inclusive insultos cerebrais (de que reemergiu incólume), um mal de pele horrível no rosto (que um antibiótico sabido eliminaria de vez) e, finalmente, o câncer no pulmão; à exceção deste, quase sempre incurável, o resto teria sido controlado pela medicina. Jean Harlow, bem mais jovem, morreu de doença curável no rim, pelo atraso da mãe dela, “cientista”, em chamar um médico. Deve haver dezenas de outros casos. Onde está a polícia?

Antes de explicar nossos conflitos, algumas opiniões sobre a Ciência Cristã. Me dei ao trabalho de inspecionar as obras de Eddy. São, numa frase caridosa, mistura de budismo incompreendido e Coca-Cola. Ninguém nega, ou negava, ao menos depois de Charcot, no século XIX, a componente psíquica possível em doenças fisiológicas. Daí a reduzir todas as panes do organismo ao chamado psicossomático, sem falar da decadência que leva à morte, à mera ação moral, é patético. E moral é uma palavra que exige rigorosa definição contextual. Em miúdos, nada significa exceto dentro de um todo histórico, sociológico, econômico e psicológico. Fico no último, porque não pretendo escrever ensaio sobre tal banalidade.

Desde Freud e Janet, é óbvio que o ser humano não é senhor sequer da própria cabeça, que nos movem impulsos e desejos de que não temos consciência. Logo, na melhor das hipóteses, “moral” é um conceito que precisa ser conquistado (criado) à custa de imenso esforço de autocrítica e crítica das forças externas que nos moldam a existência.

Eddy é a típica otimista idiota da classe média americana, que leva Gabriel Kolko, o historiador, a palavras menos publicáveis que a complexa sintaxe que usa nos contando a História subterrânea dos EUA. Eddy acreditava em “moral fixa”, transcendental. Não é nisso diferente de outros líderes religiosos e pensadores idealistas que imaginam este mundo, o único de que dispomos, um passatempo em face do eterno que nos espera. Agora, se Platão ou Santo Tomás (assessoria de Aristóteles) nos afirmavam dogmatismos de essência, na prática as escolas que orientaram se mostram flexíveis e adaptáveis às circunstâncias. Eddy se poupa essas dificuldades “materiais”.

É uma das precursoras do narcisismo consumista já referido. A “Ciência” talvez tenha sido pioneira em oferecer salvação sem dor, na linha dos pseudocultos do nosso tempo, tão do agrado de jovens que procuram conforto espiritual permanente, sem enfrentar o que Joyce chamava o pesadelo da História. Acontece que esse pesadelo não acaba e termina nos alcançando acordados.

Eddy batoteou os trechos das Escrituras, que afirmam o efeito maléfico do que chamarei estenograficamente “pecado” sobre nós, e propôs que em sessões coletivas de “boas vibrações” e rezas encantatórias os fiéis encontrassem paz, felicidade, etc. enquanto se preparavam para um além em que esses objetivos se eternizassem. Se não fosse a guerra que moveu contra a medicina, a “Ciência” seria somente um placebo a mais na longa história do babalaô. Eddy morreu rica e cercada de médicos, o que Stefan Zweig, entre outros, demonstrou numa biografia arrasadora, que Adolpho se recusou a ler.

A “Ciência”, repito, pedindo um pouco de paciência aos leitores, me fez explodir contra meu pai. Não vou antecipar. Basta dizer por enquanto que nunca o odiei, conscientemente, e acredito que não tinha a menor intenção de provocar o mal que nos trouxe a todos, a ele próprio inclusive, não só no que relatei acima. Aguardem e verão. Ainda assim, acho também que somos, em parte, responsáveis pelos nossos atos. E minhas reações irracionais contra Adolpho vieram desse aborto religioso dessa mulher safada.

É minha última digressão neste capítulo, necessária porque a “Ciência” é desconhecida da maioria no Brasil e, sem entendê-la, o que veio depois pode parecer ainda mais grave do que a realidade que marcou Adolpho, Fred e eu.

Adolpho, cumpridos os deveres familiares, com a retidão Heilborn, recaía na adolescência, aos 40 anos. É mito que as mulheres sofram exclusivamente a menopausa. Tecnicamente, sim; na cabeça o sentimento é bissexual. Carlito gozava (amavelmente) o pai quando este se dava a desforços juvenis, “Olha aí, vai estourar, vai estourar”. É profunda ofensa a um homem que as meninas o chamem de coroa. Aos 28 anos, levei namorada de 18 a matinê de Alda Garrido, de que eu, crítico de teatro, perdera o espetáculo de estréia e precisava comentar. O teatro (Rival) estava fechado, sei lá o motivo. “Boa”, disse, “assim podemos ir ao Odeon (um cinema na Cinelândia, Rio), que há uma reprise de Gavião do mar, Errol Flynn é ótimo”. Ela: “Quem é Errol Flynn?” Se fosse chegado a chiliques, teria tido um. Pela primeira vez na vida me dava conta na carne que gerações mais jovens erguiam a cabeça (no caso, apenas no sentido físico da palavra). Errol Flynn foi, por assim dizer, o meu mais querido amigo de infância.

Adolpho era uma Eliza Doolittle, de calças compridas. Poderia ter dançado a noite inteira como a moça de My fair lady. Saía sozinho à noite, a dancings, e furava cartão. Nada mais. Se lhe ocorria, claro, a idéia, garanto que não mijava fora do penico. Irene contava, divertida, que às vezes ele se despia dançando e punha o pijama dançando, cena que caberia em comédias ligeiras de Hollywood.

Minha mãe era minha vida. Escrevo a frase, paro e pasmo, em face desse clichê, no nível de “agora que já conhece o caminho”. Mas não minto e o lugar-comum sentimental não é, invariavelmente, atestado de falsificação. Vivia grudado nela, enquanto pude e me permitiram, sem qualquer outro interesse. Uma nota dissonante ou complementar. Depois de Laudina, tive uma babá também chamada Irene. Me introduziu ao sexo, aos cinco anos. Não que eu soubesse aonde me levava. Ia. Saias adentro, apalpadelas, até a “zona do agrião”, quando a defesa se fechava inexpugnável. Acontecia “qualquer coisa” dentro de mim, o clímax, nunca me ocorreu analisar. Gostava e pedia mais. Recebia, nos limites “convencionados”.

Irene mãe e eu passávamos os verões em Friburgo. Revia parentes, imagino, e se ocupava de mim, dia e noite, sozinhos. Fui leitor de Cláudia, realizado... Queria me mostrar, fazer farol, se dizia. Tombos vários de bicicleta não me impediram, “macho”, de aprender. Os moleques instrutores, voz baixa, afirmavam, “Esse cabrão é fogo na roupa”. Imaginei que “cabrão” fosse elogio e inchava. Se soubesse o sentido (viado) e que me contestavam a competência, com razão, aliás, é provável que reagisse à la Paulo Francis, que, a exemplo de Alien, o oitavo passageiro, estava dormente apenas. Ciúmes ferozes. Um certo Fábio nos perseguia, gentil, atencioso, o chamado “come quieto”. Dei-lhe um pontapé, ao primeiro e último afago. Sei que doeu. Sempre tive pé de prancha e mirava na canela. Adolescente, um dia vi Fábio, bem velho, em Botafogo. Não me reconheceu, claro. Cheguei a fechar a mão. Um malandro, Pedrinho, assassino (deve continuar na cadeia, pegou três sentenças máximas), meu admirador confesso (?), disse: “Ô França, tu qué acertá esse cara, né? Deixa comigo que eu corto ele, não te mete nisso que tu é bacano”. Declinei o amável oferecimento. Duvido que Irene tivesse dado a Fábio. Nenhuma restrição moral (ciúme é outra coisa). Apenas não fazia o gênero dela.

Desafiando o bom senso (velho hábito), me enchia de maçãs ácidas, que me punham na cama, alergia, coberto de urticárias, menos o rosto. Recuperado, recaía. Adoro o diabo da maçã, que é meu “café” em Nova York, hoje sem conseqüências. Me ocorre que agüentava a urticária porque mantinha Irene prisioneira no quarto, me consolando. Crianças são insaciáveis de carinho. Gatos exigem menos e, em retrospecto, dão mais.

Enfeei. O começo foram os óculos. Uma noite, no campo do Botafogo, vi as luzes dobradas. Estrabismo, corrigível, corrigido. Se diz que é sinal de gênio. Gostaria de acreditar, mas me lembro dos confúsos sinais de tráfego do Sr. Júnior (R. Magalhães) e concluo que é confortadora superstição. O oculista descobriu também hipermetropia (vista cansada) e astigmatismo. Uso óculos desde os sete anos. Nem os sinto mais, certo, e recusei lentes de contato, a que me adapto bem (antes das “quentes” inclusive). Não vou mudar a cara a essa altura dos acontecimentos. Sou capaz de cruzar ruas sem morrer atropelado. Distingo tudo, imprecisamente. Dez graus em cada olho. Há quem tenha 20. Joguei futebol, briguei e apareci no palco sem óculos.

Ainda assim, é um handicap sério e me sinto roubado. Nos tempos de febre intelectual dei com A arte de ver, de Aldous Huxley. O argumento é irrefutável. Os oculistas nos impõem muletas, os óculos, e fica por isso mesmo. É como se alguém quebrasse a perna e vivesse permanentemente no gesso. Não se pesquisa cura das doenças. Huxley elogia um certo Dr. Bates, que criou exercícios de recuperação, que lhe melhoraram, a Huxley, a quase cegueira (ele tinha opacidade na córnea, o que é muito grave). Não haveria jeito de curar miopia, vista cansada e astigmatismo? Ninguém sabe, porque os oculistas, que pedantemente preferem o título de oftalmologistas, são dóceis servos dos fabricantes de muleta e a perpetuaram. É um dos setores mais atrasados, se não o mais, da medicina. Dentistas nos reimplantam uma dentadura “natural” (na Califórnia, Hollywood em particular, é rotina aperfeiçoadíssima). Há, em alguns casos, transplantes bem-sucedidos de córnea, mas são exceções que confirmam a regra de subserviência à indústria ótica.

Precisamos de 50 mil velas, um sol normal, para ler sem esforço. Aumentou a alfabetização e o comércio de muletas, porque rara é a casa, ou cubículo, adequadamente iluminados. No hotel de Niemeyer em Ouro Preto, passei lá dias em 1958, puseram a luz do banheiro embaixo da pia, tornando impossível uma barba decente. Depois de descompor com a delicadeza habitual a gerência, me queixei a Oscar, em pessoa. Ele culpou o construtor, que respeitara apenas o risco do prédio. Se Oscar, a quem todo mundo e “o mundo” ouvem, não pode, quem há de? Os oculistas deveriam estar nos balcões das óticas e não posando de doutores. Nos EUA, de resto, qualquer ótica poderosa nos receita, dispensando a mão-de-obra supérflua.

Depois, na minha inicial decadência, a cabeça começou a crescer desproporcionalmente ao resto. Ainda persiste um certo desequilíbrio, hoje, que o corpo se desenvolveu. Antes disso, até os 15 ou 16 anos, quando cresci 20 centímetros, sugeria uma caricatura de David Levine, elefantíase de cabeça. Aos 11 anos, saindo de um longo nado, satisfeito comigo mesmo, Irene disse: “Como ficou feinho meu filhinho querido”. Morri de ódio, mas já tinhamos “rompido” quatro anos atrás.

Aos sete anos, nos jogaram, Fred e eu, sozinhos, no colégio beneditino, São Bento internato, a princípio em Paquetá, depois na Muda da Tijuca. Não protestei, chorei, ou entendi. O choque deve ter sido sem paralelo, anterior ou posterior, pois reprimi-o na consciência e nunca reemergiu. De príncipe paparicado por mamãe e babás, à solidão e ao desconhecido. Vestia uniforme ridículo, azul-marinho, dragonas azul-claras, quepe que me ampliava o cabeção (nunca mais na vida aceitei um chapéu na cabeça). Uma viagem de 2 horas e 30, na barca da Cantareira, um transatlântico em relação a mim, na companhia de irmão que ao menor pretexto me traulitava. Lembro apenas, concretamente, da maçã que Irene me deu na Praça 15, ponto de partida. Durante dias acalentei a maçã, dormia com ela, nem sei se comi antes de apodrecer. E começaram os pesadelos, tombos de grandes alturas, ataques de animais selvagens. Nos fins de semana em casa, os pais notavam que Franz berrava dormindo. Chamavam de “terror noturno”, não suspeitando a causa. Escrevendo isso, lembro também que só voltei a comer maçã nos anos 70, nos EUA. Ácidas.

Mais uma vez, coloco os fatos em perspectiva. A experiência não foi “preto e branco”. O São Bento me deu alegrias. Os padres, quase todos alemães, nos baixavam vara (de marmelo) e, se a ofensa era grave, nos faziam ajoelhar, de castigo, horas. Talvez a memória me traia, mas não me ocorre ninguém que se dissesse, a sério (havia sempre a choradeira de pseudovitimização em colégio), injustamente punido. Como as mulheres árabes da piada, sabíamos por que apanhávamos. Não tirava pedaço. Uma ou duas varadas, no máximo. Nenhum padre sádico.

Nos conduziam à fé católica sem o terror jesuíta do inferno, que peguei no Santo Inácio, ou a incredulidade igualmente jesuítica de que o homem, livre das presilhas religiosas, fosse capaz do bem. O Deus beneditino era compreensivo, de amor e compaixão. O jesuítico reviveu traços do velho Jeová, implacável e incendiário.

Os beneditinos eram caras “iguais”. Os jesuítas, sutis manipuladores. A Sociedade de Jesus dominou a Igreja desde a Contra-Reforma, foi a tropa de choque em face dos avanços heréticos do protestantismo e concomitantes, nacionalismo e capitalismo. Durante séculos decidiu quem seria papa, apesar da habitual encenação de cardeais. Ordens como a beneditina, que contribuíram para a Inquisição, foram marginalizadas pelos elitistas de Santo Ignácio de Loyola (não é segredo que tanto Dzerjinski, o chefe da Tcheka soviética, e Himmler, da SS, estudaram os métodos de organização de Santo Ignácio), e, no margina-lismo, se amenizaram, devotando-se mais à contemplação e ganhando maior tolerância pelos pecadores. Reemergi-riam depois do Concílio de Paulo VI na vanguarda de uma Igreja menos aferrada somente ao eterno. Os próprios jesuítas se deixaram tocar pelo aggionarmento e, a última notícia, estavam em cisma entre conservadores e os novos ativistas.

Os beneditinos jogavam bola conosco (escondendo a bola na batina: não dava para aplicar uma “tesoura” num padre), nos contavam histórias maravilhosas (de fundo religioso, claro, mas não opressivo). Sabiam consolar e estimular crianças. Tenho as melhores recordações do colégio, em que o recreio era praia, e, na Tijuca, descobri jambo, tamarindo, jabuticaba e outras frutas “exóticas”. Nunca fiz tanto esporte. Vivíamos no mar ou na selva (onde a brincadeira da lança de bambu se desenvolveu). A única vez que estive no Corcovado foi em excursão beneditina a pé. À parte futebol, aprendi a jogar cricket, xadrez e um jogo de cartas divertidíssimo cujo nome esqueci.

Tornei-me devotíssimo, ajudei missa. Pensei ser padre, tal meu encantamento. Hoje, respeito sinceramente a capacidade de fé de quem tenha lido Freud e, em particular, Wittgenstein, e permaneça crente, desimpedido de raciocínio. Não “pensava” assim de 7 a 11 anos de idade. E, em retrospecto, admitindo a impossibilidade lógica do que me pregavam (lógica dentro do cérebro que o próprio Deus supostamente nos forneceu. Que outro instrumento poderíamos utilizar?), não renego os momentos de tranqüila solidão, de paz de tormentos que eu mal começava a entender, que a oração me proporcionou, seja ou não transferência e desvio neuróticos e, em última análise, religião seja devaneio que não se sustenta ao menor teste empírico intelectual. Era bom e sinto saudades daqueles “galhos que tremem contra o frio, corais desnudados e arruinados, em que antes os doces pássaros cantavam”, a única (e maravilhosa, traduzo mal) menção de Shakespeare — soneto 73 — à Igreja de Roma suplantada por Henry VIII.

Os encantos dos ritos tridentinos e do latim também me tocaram fundo. O sopro renovador do Segundo Concílio derrubou um dos supremos prazeres estéticos dessa fé que perdi. Reconheço que me intrometo onde não devo, mas aí está.

Outra surpresa agradável foi o comportamento de Fred. No colégio, ao menos, a fidelidade tribal bateu o rancor edipiano. Ele me protegeu a inocência, destruindo-a. Eu não sabia me dar com os outros, restrito apenas às certezas e familiaridades de casa. Fred me ensinou o que evitar, o que, em colégio interno, naquele tempo, significava principalmente evitar o que chamávamos, não sei por quê, os “bocas-de-fogo”, sodomizadores, mais velhos, de meninos desprevenidos. Havia muito disso no São Bento, à noite, e também “meia”, esfregação mútua, sem penetração. Escapei ileso e me permito duvidar que, se encaminhado ao papel feminino por incompreensão, conseguisse executá-lo. Não gosto que estranhos me toquem. Em 1937 ou 1980.

Se escreve tanta besteira sobre homossexualismo quanto economia. Enfiem uma centena de meninos juntos e é fatal que haja contatos sexuais. Nem sempre, ou melhor, quase nunca, marcam orientação adulta. Parece ponto pacífico que homossexualismo é produto de subdesenvolvimento emocional, de atrofia afetiva em períodos de infância. Essa definição é correta, acredito, em essência, mas pede clarificações e omite variantes. Homossexualismo certamente não é hábito, ou vício, que se adquira. Meninos vários que sei enrabados no São Bento se converteram em heterossexuais. Outros, “homens” lá, se descobriram homossexuais, já adultos. Hoje, se sabe (Charles Rycroft) que a homossexualidade, adjetivo e, a não ser em caso glandular, nunca substantivo, vem a adultos decorrente de dissolução ou confusão de identidade da pessoa. Idem, e principalmente, colegas do Santo Inácio, onde a perseguição ao homossexual declarado atingia crueldade inimaginável no clima amoral do internato. Amoral é a palavra exata. Os alunos veteranos de internatos criam uma relação com os mentores não muito diferente da que existe entre autoridades e meliantes contumazes não perigosos. Há limites intransponíveis, claro, mas os “direitos” dos “bandidos” são submetidos à popular “vista grossa” dos bedéis ou “tiras”. Havia até um “tipo colégio interno”, reconhecível aos que freqüentaram essas instituições: meio porco, esculachado, às vezes polimorfo perverso, bêbado, fumante, jogador, um marginal prematuro, em suma. É um mundo contido em si próprio o dos internatos. Diante dos padres representávamos (eles sabiam) a comédia da aquiescência. Soltos, revertíamos à barbárie.

Eu mesmo, santinho e cê-dê-efe, tinha outra face. Amei a missa tridentina, certo, mas me dava direito a tomar café com o padre assistido, antes dos colegas. A mesa dos padres oferecia pão, café, leite, manteiga, frutas, mel, à vontade. A nossa, média, meia bisnaga, uma fruta. Fé ou fome? Um pouco das duas coisas. À fome natural das crianças se juntava o clichê inevitável da carência afetiva, da falta dos pais, que ronronava em nossos estômagos.

Arranjei um amigo, meio trôpego, sensível e gago como eu, inteligente, o tipo frágil que atrai implicantes brutalhões. Um maior, 11 anos, chateava bastante o pobre. Um dia me irritei de verdade. Esqueci o começo da briga. Lembro de estar em cima do maior, batendo-lhe a cabeça, já sangrando, no concreto, ele desacordado, até que Fred me puxou forte. Se já não tinha sido incomodado, pela proteção de Fred, desta vez em diante acredito que desencorajei definitivamente aspirantes, se havia, a meu marquês de rabicó. O maior, esse esqueceu o episódio, aparentemente. Conheço-o mais ou menos, esbarramos de quando em quando, nunca notei um traço de memória, leve que fosse.

Endureci. Nunca mais houve os chamegos absolutistas de mãe e filho. Minha rudeza e silêncio se tornaram notórios. No futebol, me destacava pela selvageria, não na competência, ao contrário de Fred, que achava o jogo chato, mas era um beque difícil de passar porque jogava bola de verdade (baixando o sarrafo também. Todos jogávamos pesado). Católico sem dúvidas, fiz futebol de hóstia não consagrada e bebia o vinho dos padres (também não consagrado). Comecei a aprender piano. O professor, alemão, civil, numa aula me deu um cascudo. Acertei-lhe um pontapé no saco. Fim do futuro Paderewski.

Não falava quase. Meu olhar era de ódio frio e concentrado, me disse esse único amigo íntimo (Floriano?), contra todos. Minha aridez afetiva e rispidez no trato, esta última que me rende até hoje considerável folclore de agressividade, nasceram aí, no corte brusco da intimidade de mãe e filho. A natureza se compensa. Se fechei as extroversões habituais, não muito difícil, dado o meu lastro de secura Heilborn, o vácuo foi preenchido por uma atitude crítica impiedosa, a princípio baseada apenas, presumo, em frustração emocional, mas em tempo, dos oito anos em diante, se alimentando de si própria, do meio ambiente, das diferenças que se evidenciavam entre o pregado e o cumprido, etc., o que mencionei no início deste livro, até a explosão intelectual de Dostoiévski, em que me vi e ao próximo nus. Sou um subversivo nato. Só reabri afetivamente aos 28 anos, mas essa é outra história.

As aparências não enganam. Revendo fotos de sete anos, ainda tenho o ar do anjinho bebê. Aos 11, a boca mostra um snarl, aquele levantar de lábios do cão que ataca. Aos 14, os olhos são de “quem já viu tudo”, na frase de um colega do Santo Inácio, Fernando Luís Tavares Rodrigues, hoje exercendo talento único em matemática na IBM. Não tinha visto a liça metade, claro, mas veria tudo pela frente confinado num prisma de suspeita, desconfiança e hostilidade. A idade, as pauladas, as artes, filosofia, a reabertura dos 28 anos, transformaram bastante rosto e atitudes; agora, estou sempre de pé atrás, e em riste, na frase de uma amiguinha. Não me sinto inteiramente à vontade na companhia do próximo, nem dos (meia dúzia) mais íntimos.

Bastam alguns exemplos: aos sete anos, fazia pipi na cama, sintoma clássico de insegurança, regressão mental, segundo Adolpho. Furioso, passei uma noite em claro, o que não é piquenique nessa idade. Nunca mais fluí incontinente. Aos sete anos, numa reunião de família no segundo andar (equivalente a cinco em prédio normal) da casa de Paul, de repente corri e pulei sobre o peitoril da janela aberta. Lá fiquei olhando para baixo. Paulo Filho não perdeu a cabeça, o único, e foi a mim, manso, falando amenidades. Não me enganou um minuto. Me deixei trazer à segurança. Não pretendia mesmo pular, que eu saiba. E recusei, correndo da sala, que Irene saciasse o próprio susto me acarinhando. Não admitia que amigos me abraçassem, que pusessem sequer a mão no ombro. A ninguém parece ter ocorrido me chamar de apelido ou diminutivo, humorístico ou afetivo. Adulto e em marcha reduzida, alguns tentaram um Paulinho. Uma vez. Tudo isso veio nos tempos do internato.

A morte de Irene encerra minha formação emocional. Ela ficou grávida extemporaneamente aos 39 anos de idade. Chamou-se um médico de fama, Silvio Sertan. Fred e eu vivíamos nossa vida e não demos maior importância ao acontecimento. Começamos a notar que Adolpho de manhã e à noite rezava alto no quarto o evangelho segundo Mary Baker Eddy. Nas vezes que fomos admitidos, Irene parecia fraca, o que, na ignorância, atribuímos à gravidez “fora de época”. Ninguém nos desmentiu. Não víamos os lençóis cheios de sangue das freqüentes hemorragias internas que sofria. Ouvíamos pedir a Adolpho, entre uma e outra frase do Cristo à la Eddy, que chamasse o médico. Adolpho telefonava. Sertan nunca botou os pés na nossa casa nesse período crítico. Receitava pelo telefone. Chorou no enterro o feito que, em país civilizado, lhe cassaria a licença e provavelmente o poria na cadeia.

Admito que a confiança de Adolpho em Eddy o reassegurasse, não porque Sertan engolisse a “Ciência”, e, sim, porque Adolpho, inocentemente, minimizava os problemas cuja existência, de resto, “desconhecia” convicto. Não é que meu pai negasse remédios a Irene. Cumpria rigorosamente as receitas de Sertan. Não tentava impor religião a ela, ou a ninguém. Não era um fanático.

Acreditando, porém, no que pregava (o oposto é mais comum), tendia a crer que encaminharia Irene a um parto seguro, dispensando assistência médica alerta.

Foi só na manhã que Zillah, tia, veio visitar Irene, descendo de Petrópolis, onde morava, que nos demos conta da seriedade da condição da nossa mãe. Zillah, no vocabulário permissível a mulher educadíssima, descompôs Adolpho, disse mais e energicamente a Sertan, este escondido, como de costume, no telefone. Ordenou por conta própria o internamento de minha mãe na casa de saúde São José.

Ainda assim não prevíamos o pior. Estranhávamos que não nos permitissem visitar Irene. Mais tarde, soubemos que Sylvio operara, com sucesso, um quisto sebáceo grande, na cintura de minha mãe, mas depois Zillah nos contou que Sylvio e enfermeiras notaram que o organismo dela resistia, devolvia medicamentos, de tão debilitado.

Paulo Gustavo nasceu em 25 de agosto de 1944. Irene morreu em 13 de setembro. Nenhuma conexão entre uma coisa e outra. Irene morreu de eclâmpsia, septicemia e fraqueza geral. É verdade que os antibióticos desenvolvidos na Segunda Guerra, começando pela sulfa e penicilina, custaram a chegar ao Brasil. É verdade, também, que feitas algumas clarissímas exceções em 1980, eu não confiaria à medicina brasileira uma unha encravada.

Apesar disso, minha mãe morreu também pela inadvertência de Adolpho e a negligência de Sertan. Adolpho não sabia o que fez. Sertan não fez o que sabia.

Ela me chamara entre o nascimento de Paulo Gustavo e a morte. Desconhecendo a gravidade, fiquei distante, “cortês”, não-receptivo no quarto, na cela de prisão que me enfiaram e que, em revolta, tranquei o cadeado. Lembro os olhos amorosos e súplices que vi vivos a última vez, eu numa confusão de sentimentos e angústia inexprimível que me reduziram à passividade impotente. O horror, o horror.

Zillah, dias depois, nos deu, aos filhos, a notícia que a morte seria em horas (não sabíamos da certeza de morte até aquele momento). Nos plantamos, a família, no quarto, tontos, incompreensivos. Sertan posando de esculápio que luta abnegado contra o último suspiro da paciente. Minha catatonia era de tal ordem que nem a excelente idéia de estrangulá-lo, ou arrebentá-lo a pontapés, me passou pela cabeça. Daí em diante há a memória daquele arfar que marca o fim próximo da respiração e o fim que julguei definitivo da minha capacidade de amar qualquer pessoa. Não chorei ou guardo lembranças do resto. A vida me foi suspensa naquelas horas finais, congelada afetivamente.

Adolpho sofreu e se torturou o resto da vida. Jovem na meia-idade, envelheceu prematuramente. Se consolou acelerando o religiosismo, variando à umbanda, mantendo a “Ciência” que o impediu de tratar-se em tempo e escapar da confluência de males que o mataram. A segunda mulher, Lourdes, também viúva, dedicou-se a repô-lo de pé, cuidando dele de maneira humana, o que Adolpho negara, ingenuamente, por superstição, a Irene. Não lhe guardei rancor consciente. As explosões de baixo são outra conversa. Adolpho se puniu “melhor” do que Fred e eu poderíamos, se quisessémos, e não queríamos, entendendo maduramente causa e efeito. Nem a Sertan consigo odiar. O crime de Sertan é o que mais enfrento tentando entender o mundo: a incompetência pretensiosa e hipócrita. Por que nunca foi ministro da Saúde me escapa. Não conheco ninguém tão qualificado, no contexto brasileiro.

Irene é irrecuperável. Morremos uma vez só. Felizmente, porque nascemos diversas. A primeira é a menos dolorosa.

III. BRASILIDADES

“Não tenho carteira de identidade. Não sei minha idade... Não sei de onde venho... Sozinha, sempre sozinha, não tenho ninguém. E quem sou e porque sou é um mistério... ”

TCHÉKHOV, O cerejal, primeira página, segundo ato.

PASSEI ao todo 14 anos da minha vida fora do Brasil. Havendo livros, manjando a língua, e com ar condicionado para os dias de calor, como chora na musiquinha o pleonástico namorado da insincera Aurora, penduro minha tenda em qualquer lugar. Sou apátrida de cabeça e na prática.

Me criticam isso. Escrevem que detesto o Brasil e o renego. O coro aumentou nesses últimos dez anos de EUA. Henfil, amigo, alega que pontifico sobre a superioridade da matriz à idolatrada, salve, salve. Não uso a palavra matriz. Escrevo “corte” e o humor deveria ser claro a um dos melhores humoristas brasileiros. Carlinhos de Oliveira, outro amigo, referiu-se a Cabeça de papel como o melhor romance (seria, se verdade, o único...) escrito por um brazilianist. Ênio Silveira, íntimo, uma noite, de pileque (nega o pileque. Inútil. Reconheço o sintoma clássico: balança a cabeça de um lado ao outro, pendulando), levou horas afirmando meu “joãoninguenismo” nos EUA e que minha fama se restringia ao Brasil. Bem, em quantidade, sou o correspondente estrangeiro mais lido no Departamento de Estado e embaixadas americanas no mundo, porque todo dia encontro nos telexes oficiais daqui transcrições do que escrevo na Folha de S.Paulo. Talvez ninguém leia e, de qualquer forma, não é fama, é, com boa vontade, eminência. Já escrevi no Washington Post, recusei propostas do Times e tive um artigo aceito na New York Review ofBooks, pelo editor Bob Silvers, se topasse certas modificações, o que recusei. Silvers me devolveu também um ensaio sobre “Solzhenitsyn e a Revolução Soviética”, alegando que scored good points, marcara gois, mas que a publicação estava carregada demais de artigos a respeito de dissidência na URSS. Está, sim, mas todos na linha tradicional de anti-sovietismo impensado. O meu seria a abertura de polêmica que não interessa, no momento, ao menos, à Review, que recaiu no liberalismo convencional depois de um período, na Guerra do Vietnã, em que se tornou o centro do ressurgimento da esquerda (não-stalinista) americana.

Foi-me oferecido um Ph.D na universidade estadual de Indiana, com base num ensaio de 300 páginas sobre a Revolução Soviética e Guerra Fria, que produzi para sócios americanos, que convertemos em script de documentário. Não menosprezem a Universidade de Indiana. Lá estão o Instituto Kinsey e um dos melhores centros de estudos do comunismo. Na biblioteca, não falta nada, encontrei obras de Caio Prado Júnior, Nelson Werneck Sodré, Fernando Henrique Cardoso e Leandro Konder, entre outros. Bastaria que eu residisse seis meses no campus, anotasse fontes e defendesse tese. Nos EUA se permite o salto de quem não tem sequer mestrado, ou bacharelado regular, a doutor em filosofia: “Em casos excepcionais”, me disse o diretor do centro, Robert Byrne, guerreiro frio impecável, que, discordando 70 por cento das minhas opiniões, achou o ensaio excelente e me fez a oferta. Agradeci e dispensei. O tédio e desrespeito pela academia são constantes na minha vida. Há gente de gênio na academia, claro, mas é rara e termina, exceto em ciências exatas, marginal, precisamente porque não se sujeita à burocracia da cultura, aos modismos e, em literatura, a um senescente e voulu experimentalismo. As maiores influências no que escrevo, Shaw em jornalismo, e Joyce em literatura, foram autodidatas. Não é acidental que Eliot, o poeta mais paparicado pelos burocratas literários, tenha preferido ser bancário a viver nesse meio de pobres-diabos, que escondem inapetência e covardia diante da vida em erudição estéril, de fichinhas, de citações virgens da menor contribuição pessoal, e que, agora, substituem o computador pelo cérebro humano (enfim, confessaram o que não têm).

Nada disso é trombeta. Alguém duvida honestamente que eu não faria carreira nos EUA, se quisesse? Inglês é minha segunda língua, escrevo-a, leio-a tão facilmente quanto a portuguesa.

Acontece que não vim para cá pretendendo me radicar. Nunca pretendi me “radicar”, de resto, sempre me imaginei livre, nesse sentido. Vim porque não me deixavam escrever no Brasil. A censura mutilava tudo, até críticas de ópera, cinema, teatro, memórias apolíticas de infância. Me prendiam uma vez por semestre entre 1968 e 1970. Estive no CODI, ameaçado de tortura pelo major Fontenele e o capitão Pablo Malhães, no rapto de Burke Elbrick. É cômico. Eu voltava da Europa, em free lance da Editora Abril, viagem de dois meses. Elbrick chegou na minha ausência, fato não noticiado em Londres, País de Gales, Amsterdã, onde trabalhei. Soube dele lendo jornal quando o raptaram. Claro, levado ao general encarregado do inquérito, conversamos todos os assuntos possíveis, e, manifestando pasmo pela minha presença (nove dias incomunicável, lavando a roupa toda noite), ordenou que o ajudante-de-ordens me escoltasse à casa. Se isso não basta, a partir de 1969, ano do rapto, era obrigado a “persuadir” o DOPS, antes de viajar, me explicou o despachante, pois meu nome permanecia no tribunal militar que julgara os responsáveis. Enfrentei numa das saídas o agraciado. Perguntei-lhe, se eu fosse incriminado, andaria solto no Rio? Resposta: “Claro que não, Dr., o Sr. num tem nada com isso, mas o Dr. sabe como é o Brasil, né?”

Sei. Saí. Aos 40 anos, a alternativa era viver cozinhando a frustração dolorosa de quem não pode reagir, o que, em Ipanema, onde sempre há um presunto pendurado na porta de alguém, terminaria me equilibrando em álcool, etc. Ou tentar vida nova. Escrevia sobre política internacional desde 1959, em Senhor. Lera tudo de importante, de Tucídides e Gibbon a Gabriel Kolko (The Politics ofWar, o primeiro, em 1968). Assinava as principais publicações. Conhecia mais que a metade do mundo, em pessoa. Por que não ser correspondente no estrangeiro, longe dos repressores que inventaram “guerra revolucionária” a fim de garantir os lucros dos 38 mil habitantes do país, que têm realmente dinheiro (a estimativa é do Dr. Delfim), mantendo em abjeta e progressiva miséria a imensa maioria restante?

Aos 40 anos de idade, de uma vida de trabalho incessante (não tiro férias, mesmo, desde 1963), ganhando menos que minha habilidade jornalística permitiria, se eu comprometesse princípios que considero invioláveis, impossibilitado de me expressar sob Mediei até nos limites da imprensa nanica, por que não viver na capital do mundo, expandindo em experiência o que eu conhecia de livros e imprensa? O que adiantava me solidarizar, silenciado, com a nossa condição? Me falta vocação de carpideira. O dia-a-dia da política me chateia mortalmente. Meu jogo é idéias e não o que o Tancredo disse ao Magoo, ou candidaturas, poder nu, antiprogramático. As esquerdas eu criticara, de um ângulo radical, em “Tempos de Goulart” (1965), ensaio na Revista Civilização Brasileira. Seria o único ângulo certo, no contexto, na disponibilidade de condições e material humano no país? Precisava ampliar perspectivas, sair do passional imediato ao histórico, ao longo braço e mãos que de piparote em piparote empurraram o Brasil ao abismo em 1964.

Juntei-me oficialmente às esquerdas em 1960. Com extremo desgosto, pois teria de tolerar o convívio de stalinistas, a quem, trotskista, considerava contra-revolucionários. Trotskistas acham que a Revolução regrediu depois da morte de Lênin, em 1924. Perdeu o caráter internacionalista, inegável, que a gerou. Esse internacionalismo não é dogma. É lógica elementar. Era a única saída marxista de um movimento iniciado em nação feudal, incapaz organicamente de resistir ao capitalismo desenvolvido e rico. O movimento só poderia prosperar se subvertesse o capitalismo nos países líderes, se não seria esmagado. Desse prisma de revolução permanente, adotado por Lênin de Trótski (nunca admitido pelos leninistas originais), Stálin, a princípio taticamente e, em seguida, convertendo-se em criatura e gerente da Nova Classe de burocratas, recuara a uma forma de nacional-socialismo, congelando (“o Termidor”, na expressão de Trótski) o internacionalismo norteador de outubro de 1917. É uma análise simplificadora, sei disso há bastante tempo, mas não errada, em alguns fundamentos. Explica em boa parte a decrepitude corrupta e oportunista do PCUS. Explica o imperialismo soviético. Explica o contraste entre o desenvolvimento em superpotência da URSS e o retardamento e iniqüidades da sociedade soviética (previstos à la longue, em A revolução traída, de Trótski, em 1935), atochada sob as nádegas de Stálin (Trótski de novo). O que ficou de fora discutirei no devido tempo.

A mim, Paulo Francis, interessava quebrar o jugo oligárquico e multinacional no Brasil. Me esfalfei nisso, em plena liberdade, na Última Hora. Um panfletário e polemista da porretada seca. Nunca partilhei a ilusão de que as esquerdas estavam próximas do poder sob Jango. As esquerdas falaram no período, aproveitando-se de um liberalismo que negariam aos adversários se assumissem o comando no Brasil. Não havia lista de gente a ser fuzilada, ao contrário da lenda amplamente divulgada pela direita. Porque não precisávamos de lista. Sabíamos os nomes de cor e salteado.

A fraseologia pseudo-revolucionária não escondia um profundo desconhecimento do nível de apreensão do povo (O Globo, por exemplo, sempre vendeu mais que a Ültima Hora, na Zona Norte do Rio), ou a absoluta falta de organização, sequer educacional, do nosso eleitorado. O que se levava a sério, em particular, nas esquerdas, era o golpismo, manu militari. Nossos generais, almirantes e brigadeiros, sem falar dos célebres sargentos. Nada menos marxista, e, no entanto, o PCB colaborava com Jango a fim de restringir a sindicalização popular. Melhor os poucos sindicatos sob controle do populismo ou comunismo do que as massas ganharem a liberdade de compreender e criar, pois todas as esquerdas sucumbiram ao ranço do “substitutismo” de Lênin, em que uma elite de revolucionários se substituiria ao proletariado, instaurando uma ditadura em nome dele, até que o pobrezinho ganhasse maturidade política, quando as belas promessas de Estado e revolução, de Lênin, se concretizariam, o Estado desaparecendo numa sociedade de homens livres e livremente associados, libertos da servidão do capital e ilusões culturais burguesas. Os stalinistas “substituíram” tanto tempo que já se julgam, tal é a natureza humana, os únicos titulares. Nisso Stálin é fiel discípulo de Lênin. A diferença é que transformou tática em dogma.

Trótski arrasara brilhantemente essa posição, em 1904. Previu que o partido se substituiria ao proletariado, depois o comitê central se substituiria ao partido e, por fim, o ditador se substituiria ao comitê central. Omite a intervenção na autobiografia, pois queria provar-se o discípulo correto de Lênin. Os dois organizaram a revolução trocando figurinhas. Trótski aceitou o substitutismo bolchevique, um expediente transitório, afinal, segundo Lênin, adequado a um país onde as mínimas liberdades burguesas, dadas de barato em Londres ou Paris, inexistiam. Não é difícil racionalizar taticamente o substitutismo. Em troca, tirou Lênin do dilema que era tentar impor socialismo numa nação de 85 por cento de camponeses, classe condenada, na melhor das hipóteses, a secundar o proletariado urbano e industrial, na fase de transição do feudalismo ao princípio do socialismo.

Na revolução permanente de Trótski, o incêndio na Rússia se alastraria aos arruinados bastiões do capitalismo europeu, de Berlim a Londres, que, de resto, haviam massacrado o proletariado na luta interimperialista de 1914-1918. Motins de soldados e marinheiros de quase todos os combatentes convenceram Lênin, finalmente, de que a idéia de Trótski merecia crédito. Menosprezaram, bons marxistas, a componente irracional de nacionalismo na guerra. Odiando-a, ingleses, franceses e alemães, odiavam mais aos adversários. E, falhos internacionalistas, Lênin e Trótski não analisaram corretamente o peso gigantesco da emergência do capitalismo americano. Nenhum marxista das variadas estirpes teve até hoje, que eu saiba, a decência de reconhecer que Kamenev, Zinoviev e o próprio Stálin (enquanto não sentiu que Lênin e Trótski prevaleceriam) perceberam o erro de cálculo dos dois gênios revolucionários, propondo, ao contrário, que os comunistas fortalecessem e auxiliassem um governo transitório burguês de esquerda, que estabelecesse uma nova sociedade em que fossem criadas condições autenticamente revolucionárias, pela metodologia marxista, que Lênin e Trótski arquivaram (temporariamente, se diziam e acreditavam). Somente Isaac Deutscher lhes deu uma atenção cuidada, mas, em última análise, também se rende ao fascínio da aventura de Lênin e Trótski.

Não vou escrever a História da Revolução Soviética, não se preocupem. Este preâmbulo é para ressaltar o absurdo que foi o substitutismo praticado pelas esquerdas no período Goulart, em circunstâncias e condições totalmente diferentes das da Rússia Imperial, deposta, em verdade, em fevereiro de 1917, num movimento espontâneo popular, em face de uma guerra assassina e perdida e do agravamento de miséria já intolerável em qualquer país europeu em tempos normais. Não, todas as besteiras foram superpostas à realidade do Brasil, inclusive o arranjo meramente tático de Lênin, inspirado, diga-se de passagem, por Stálin, de propagar uma aliança entre o operário e o camponês. O PCB não lera sequer os autores do Partido, como Graciliano, que demonstraram a absoluta inconsciência, em nível de animal esfaimado, do nosso homem do campo. Julião, que tentava organizá-lo no mínimo de compreensão que lhe era possível, ou Arraes, que tentava educá-lo no ABC de direitos civis, foram vilificados pelas esquerdas aguerridas. Lembro-me de um enragé que encontrei na Avenida Rio Branco, me interpelando por que perdia tempo escrevendo contra Carlos Lacerda, enquanto ignorava o principal agente da CIA no Brasil, Miguel Arraes...

E a infâmia suprema, a dependência dos militares. Lênin e Trótski tinham massas reais, exigentes, e soldados, idem. É inclusive plausível especular ter sido uma demonstração radical desse povo decidido a tudo, em julho de 1917, espontânea e inesperada, que lhes deu margem a convencerem os bolcheviques (líderes), relutantes em aceitar a revolução antes das eleições da assembléia do novo Estado — eleições que produziram tranqüila pluralidade socialista, mas não-bolchevique. Os social-revolu-cionários eram o partido mais poderoso, porque diretamente ligados à maioria campesina no país. Os intelectos superiores bolcheviques (não é ironia) não confiaram no povo, ou toleravam forma alternativa de socialismo e frente ampla: aceitavam somente a submissão de simpatizantes.

O Brasil de Goulart não era, claro, fechado como a Rússia. Tínhamos uma concreta experiência de democracia, irrepresentativa, por certo, pois excluía as dezenas de milhões reduzidas à bestialidade; e os “constituintes” de 1946 garantiam aos pequenos estados, em nome de fraternidade hipócrita, um poder político no Congresso desproporcional às respectivas populações, estados em que a oligarquia se alimentava da miséria e desespero, “elegendo” empregados dos capitães hereditários. Essa situação bloqueava qualquer reforma significativa que se originasse dos parlamentares e Estados dispostos a transformar a face do país. Nada parece mudar em nossa terra. As vitórias do MDB em 1978 foram no Brasil semidesenvolvido, beneficiado relativamente pelo sistema que condenou nas urnas, enquanto que a maioria de cabresto do governo veio das regiões mais exploradas, do Brasil dos zombies, dos escravos, que agüentaram majoritariamente os descalabros pós-1964.

A impaciência das esquerdas com “democracia” era, portanto, compreensível até certo ponto. O bloqueio parlamentar à reforma agrária de Jango, que pagaria os expropriados em títulos da dívida pública (e que outra forma pacífica haveria de pagá-los, num país pobre?), terras que exploravam secularmente como base de especulação e acesso “de pai para filho” ao capital do povo, no Banco do Brasil, é um exemplo da impossibilidade aparente de reforma, exceto à bala.

O problema das esquerdas é que esqueceram o elementar leninismo que é organizar-se. Nunca aferiram in loco a condição dos destituídos. Na tradição elitista brasileira, se aferraram ao dúbio marxismo stalinista, sem a menor mostra de terem compreendido a flexibilidade tática de Stálin, flexibilidade que usou derrotando gente muito mais culta e inteligente do que ele, como Trótski e Bukharin. Ou maltrataram o modelo Cepal de desenvolvimento harmônico, baseado na verdadeira capacidade de produção interna de cada país, em condições econômicas e culturais específicas, variáveis de região a região no Brasil. Foram incapazes de desenvolver uma teoria revolucionária que se ancorasse no que viam, no que, de resto, não viam, porque não se davam ao trabalho, ridicularizando os que partiam da experiência concreta a táticas e à estratégia, à la Arraes e Julião. Brizola, outro que falava uma linguagem acessível à nossa possível platéia, apesar do ranço paternalista e caudilhista que herdou de Getúlio Vargas, era também motivo de chacotas particulares entre os nossos ideólogos de gabinete. E, no centro, João Goulart, despreparado, indeciso, se segurando no manto de Getúlio, tentando equilibrar a política oli-gárquica e multinacional à ânsia populista, um feixe de contradições.

A ansiedade e confusão reinantes queimaram rapidamente o capital que foi a posse de Jango, 1961, exigida pela opinião pública, ratificada no plebiscito, 1963. O desabafo da incompetência se concentrou na ênfase e verborragia anticapitalista, todos esses erros meticulosa e amplamente explorados pelo poder permanente no país, oligarcas, multinacionais e a escora do agressivo neo-imperalismo de John Kennedy, que apesar dos ruídos de reforma, ditados pelo medo do alastramento da revolução cubana, punha a “segurança” do hemisfério, a retaguarda estratégica dos EUA, acima de quaisquer considerações. Quanto menos conseguiam, mais gritavam as esquerdas slogans de “virar a mesa”, que o sistema de comunicações, sempre fiel à classe dominante, reproduzia jubiloso, carregando nas cores, abrindo manchetes intimidatórias, que puseram a classe média em pânico anticomunista, ou seja, alienaram da esquerda a única “massa” realmente atuante do país, já que analfabetos e “vidas secas” não votavam. Essa classe média resistira ao veto militar à posse de Jango, fator decisivo no recuo e arreglo de setembro de 1961. Agora, se sentia apavorada de perder tudo, de empregadas tomarem as jóias da patroa, ou que o morro descesse, apavorada pela propaganda hábil que a direita fez da propaganda inábil da esquerda. Essa é a síntese sociológica do golpe de 1964.

Uma esquerda que não vai ao povo, preferindo dirigi-lo de alto-falante, sem ouvi-lo ou estudar-lhe as necessidades, como esse povo as sentia na carne e não pelo presumido em manuais de substitutismo, é meramente patética. Uma esquerda que, em última análise, confia em militares, oficiais, uma profissão que é elitista da bota ao quepe, é estúpida. Uma simples leitura cronológica de jornais mostraria que desde a FEB, em 1943-1945, o alto comando militar se rendera ao papel de polícia de segurança dos EUA no país, que Washington criara na Escola Superior de Guerra um colégio que educasse os oficiais de Estado-Maior a defender nossas entranhas da infecção comunista, enquanto os EUA procuravam hora e lugar certos de aniquilar o câncer soviético. E esses oficiais, deslumbrados pela prosperidade americana, então imbatível e incontestada, eram hóspedes freqüentes do país que gostariam o Brasil fosse, em tours cuidadosamente dirigidos, bombardeados de propaganda anticomunista, lisonjeados pelos convites à sociedade contra a URSS, recebendo o auxílio em crédito e doações, que lhes garantiam armas, as ferramentas de trabalho, do ganha-pão militar.

Nelson Werneck Sodré, em Memórias de um soldado, que admiro muito, em particular as recordações de infância e juventude, pela candura e emoção rigorosamente calibradas, nos fala das deficiências profissionais do Exército, o senso de inferioridade dos oficiais, a procura de uma identidade, de status, de uma função útil. Em suma, são brasileiros como nós, praticantes da “nudez do imperador”, temendo o menino zombeteiro que nos desmascare. O Pentágono soube aproveitar essa fraqueza. Ligando nossos oficiais a um plano global de segurança, fornecendo-lhes planos sob medida, tão ao gosto da mentalidade militar, lhes deu, na frase americana, um contrato novo com a vida.

Nem todos caíram na empulhação de “tudo que é contra os EUA é a favor da URSS”. Havia oficiais de esquerda. Havia os positivistas que acreditavam na capacidade de o Brasil autodesenvolver-se dispensando atrelamentos excessivos. Ou aqueles que se sentiam alijados, por um motivo ou outro, do clube exclusivo dos Estados-Maiores e a Escola Superior de Guerra. E havia até uma resistência no inconsciente coletivo a que servissem, a exemplo do Estado Novo, de instrumento de instalação de nova ditadura. Esse último sentimento ficou evidenciado numa série de reportagens de O Estado de S. Paulo, depois de 1964. O Marechal Castelo Branco admitiu que só conseguira convencer a maioria dos oficiais a aderir ao golpe sob a promessa de manutenção da ordem constitucional.

Mas dadas a informação e formação militares, a classe social (média) predominante entre os oficiais, a doutrinação anticomunista incessante que recebiam5, a idéia de que fossem apoiar, como bloco, a proposta proletarização revolucionária do Brasil é fantástica. Quando muito se podia depender dos que acreditavam em manter a legalidade. Esses foram progressivamente alienados pela propaganda esquerdista doidivanas, seduzidos pelo argumento direitista que, derrubado Jango, estariam assegurando a “verdadeira democracia”. Não é idiota. As esquerdas, taticamente, tinham de pretender que Jango lideraria a revolução. Jango era o presidente, o totem do movimento. E inspirava suspeitas de conspiração, porque falava ambiguamente da sucessão, que o excluiria, justapondo Juscelino a Lacerda.

Ainda assim, o golpe não teria dado certo da maneira humilhante final, se não fosse a adesão de supostos aliados de Jango, se o considerassem, no mínimo, o “mal menor”. Ênio Gonçalves, comandante da Divisão Blindada do Rio, armada com equipamento da OTAN, telefonou seis vezes a Juscelino em 31 de março, pedindo instruções.

A divisão esmagaria qualquer revolta, sozinha quase. Juscelino aconselhou-o à passividade. Imaginava que Jango seria deposto e, depois do habitual intervalo “modess” (Ranieri Mazilli), voltaríamos, à la 1954, à democracia oli-gárquica. Esse mesmo Juscelino garantiu o voto decisivo do PSD a Castelo Branco, no Congresso, quando poderia eleger o marechal Dutra, que apesar de um passado semi-fascista no Estado Novo e simpatias por Hitler, na velhice se reconciliara à democracia (oligárquica).

A ambivalência do General Jair Dantas Ribeiro, ministro da Guerra, que adoeceu (taticamente?) no momento da insurreição, permanece inexplicada. O ministro interino, Âncora, doente, mal se agüentava de pé. Amigos do Estado-Maior me garantem que a tropa enviada para conter o general Mourão, que vinha de Minas, deflagrando o golpe, era tecnicamente o oposto do que se precisava. E Mourão admitiu posteriormente que ao primeiro tiro ficariam ele e oficiais sozinhos na estrada, os recrutas destreinados fugindo de susto. Metade do Segundo Exército, peça decisiva na unidade do movimento, teve pane de motor na Rio-São Paulo.

Mais importante, em l2 de abril, falei ao telefone com o general Ladário Teles, comandante do Terceiro Exército. Ele me disse que tinha amplas condições de resistir contando com a guarnição de Porto Alegre, mas que o presidente se recusara ao “derramamento de sangue”. Alternativamente, um livreiro udenista da cidade, conspirador arrependido, nos contou a mim e a Ênio Silveira que os civis anti-Jango praticamente tiveram de arrancar oficiais (a favor do golpe) dos quartéis, pois estavam “aguardando acontecimentos”. Apareceram os apelos desesperados de Castelo Branco, no Rio, a Mourão, que recuasse enquanto era tempo, que aquela arrancada estragaria tudo. A História escrita por vitoriosos. As fantasias de unidade e coordenação perfeitas dos que instauraram o flagelo 1964 se tornaram moeda corrente dos meios de comunicações. A verdade é mais complexa.

A maior complexidade é a atitude de Jango. Se permitisse a Ladário deflagrar a guerra civil, o que teria acontecido? Impossível que o outro lado fosse mais forte. Certamente Jango e as esquerdas tinham a hostilidade da maioria dos que votavam. Pesquisas dos nossos militares mostravam que Carlos Lacerda seria difícil de bater na eleição presidencial prevista em 1965, ainda que enfrentando o popular Juscelino. Agora, é possível também que se Jango, enquanto dispunha do poder, fosse às TVs e anunciasse a iminência de uma ditadura militar, muita gente se movimentasse, inclusive no Exército. Soldado cumpre ordens, sem dúvida, mas se estas encontram resistência, se o manual se prova irrealista, ele começa a pensar. Em 1961, afinal, o Alto Comando vetou Jango e quase todo mundo no oficialato se disse de acordo, no início. Quando a insurreição do General Machado Lopes, no Rio Grande, se concretizou, e a opinião pública se exprimiu pela posse, a aquiescência dos oficiais do golpe amoleceu. Não vou dar o nome por motivos de família. Conhecia um general comandante, americanófilo. Telefonei. A primeira vez me disse que em “hipótese alguma” o Exército aceitaria a posse do comunismo via Jango. Na segunda, em plena resistência ao golpe, me assegurou que estava pela solução constitucional...

E se chovesse bala das tropas de Ladário? Os três exércitos restantes convergiriam, sem deserções, sobre ele? Não sabemos. Duvido. Mas não se pode provar um negativo hipotético.

Me parece que Jango foi o próprio coveiro. Não estou minimizando, em absoluto, a extraordinária concentração de recursos da direita nativa e o auxílio externo (desde as conspirações do agente da Defense Intelligence Agency, General Walters, attaché militar da embaixada americana, às criações da CIA, IBAD, IPES, etc.). Jango, em 1963, tivera todo o auxílio americano suspenso. Violando a Constituição dos EUA e a brasileira, Kennedy fornecia auxílio estadual, a Lacerda, Magalhães Pinto e Adhemar de Barros, os governadores que garantiram a base civil do movimento ditatorial. A luz verde ao golpe veio de Thomas Mann, o subsecretário de Estado para assuntos interamericanos, no governo Johnson, ao afirmar que a ênfase doravante seria em “estabilidade” e não “reformas” (referência ao suposto reformismo da pífia Aliança para o Progresso, a resposta, de relações públicas, de Kennedy à revolução cubana, que ele tentava subverter de todas as formas). “Estabilidade” em país nas condições sociais do Brasil é sinônimo de ditadura de direita.

Jango, prisioneiro das próprias contradições, não ouvia ninguém. Nossos melhores oficiais levaram a ele um quadro das transferências que o chefe do Estado-Maior do Exército, Castelo Branco, vinha ordenando, em que nomeava oficiais antigoverno a postos-chaves, alijando os fiéis. Indiferença absoluta. Jango acreditava que corrompia qualquer general. Afinal, empregava-lhes filhos e apaniguados. Esse Castelo Branco, sob os protestos do ministro da Guerra Lott, fora promovido a general por Juscelino, depois de escrever uma carta abjeta ao presidente. Como temer um homem desses? Castelo Branco se dizia “soldado apenas”. Na questão do voto no Congresso visitou Juscelino levando Negrão de Lima, compadre de casamento, invocando fidelidade à Constituição e aos amigos, advertindo que o general Costa e Silva, ministro da Guerra de “modess”, é que tramava contra a retomada democrática. Juscelino acreditou nele, que, “soldado apenas”, se revelara o chefe da conspiração em nível de Estado-Maior, o general que, no comando do Quarto Exército, tinha sido escolhido para anfitrião militar da viagem cancelada de John Kennedy ao Brasil, porque, na expressiva frase de Business Week, “Castelo is our boy”. Castelo, claro, destruiu Juscelino. Deixou autobiografia em atos que ninguém pode melhorar.

Jango se imaginava o único ou o supremo corruptor. Kruel, comandante do Segundo Exército, era amigo íntimo, ex-chefe da casa militar e ex-ministro da Guerra do presidente, a quem devia o progresso profissional. Enquanto Kruel não se decidiu, o golpe ficou em suspenso, excetuada a aventura de Mourão, que o próprio Castelo Branco considerava fácil de sustar. Como Kruel se decidiu, antes propondo que Jango se tornasse títere dos conspiradores, “repudiando o comunismo”, é História.

Em última análise, acredito, a decisão de Jango de não tentar a guerra civil se deveu a raciocínio frio e em causa própria. O latifundiário que se propunha aboli-lo, pacificamente, não acreditando nisso: uma vez me disse que reforma agrária, desde os Gracchi, só se fazia em sangue; me espantei à menção dos Gracchi, que não se espera de um populista gaúcho; esse homem, pergunto, conduziria uma guerra radical? Jango desprezava a esquerda oficial. No exílio, chegou a dar dinheiro a jovens, aconselhando-os a que em hipótese alguma aderissem ao PC. Não tinha teorias. Acredito que fosse um populista sincero, concessionário paternalista de benesses ao povo, dentro de uma hierarquia definida. Era tolerante, sem dúvida, e também um cínico total sobre as motivações do poder. “Boa gente”, acredito que detestasse morticínios. Preferia conciliar. Nenhuma gota de sangue revolucionário.

Percebeu que se Ladário abrisse fogo, sem, notem, nenhuma garantia de vitória, ele, Jango, seria ultrapassado pelos acontecimentos. Brizola, ou outro radical formado pelas circunstâncias, assumiria. Me parece uma análise correta. E as ambivalências permaneceram grotescamente simbólicas até o fim. Enquanto esperava, talvez, um apelo dos vitoriosos à conciliação, Jango recolheu-se a uma fazenda fronteiriça do Uruguai, de que o co-proprietário é, ou era, Walter Moreira Salles, que nunca fingiu sequer ser aquela outra especialidade brasileira, à parte o latifundiário antilatifúndio (não é impossível: os Gracchi foram); digo, o banqueiro de esquerda.

Longe de mim pretender que minha visão desses acontecimentos seja a única possível e plausível. Mas é ancorada nos fatos que conheço, de que participei como ator menor, e, mais importante, crítica.

Pensei que os companheiros de derrota partilhassem essa atitude, à maneira de cada um, em benefício conjunto, pois não há certezas em política, e perder, às vezes, é instrutivo. As esquerdas brasileiras provaram o dito hegeliano que a única lição da História é que ninguém aprende lições práticas da História. Caíram em lamúrias, rasgaram as vestes, cobrindo-as, logo, de trajes liberais. Sobral Pinto, que as combatera sob insultos pesados, quando, bom liberal, começou a combater também a ditadura, transformou-se em herói súbito, merecedor de uma urna enquistada nas paredes do Kremlin. Carlos Heitor Cony, apolítico, mas ser humano que se revolta contra a injustiça, baixou o sarrafo na perseguição dos intelectuais (como intelectuais, não porque fossem de esquerda), se convertendo em guru; e, fatalmente, ao voltar ao natural cínico e bem-humorado, em vilão venal.

Claro, o choque foi grande. Eu próprio tive os cabelos embranquecidos rapidamente. Chorei de raiva, bêbado, várias vezes. E não passei os horrores dos torturados ou dos meus amigos assassinados, Rubens Paiva e Vladimir Herzog. Durante três anos me negaram emprego na imprensa. Fui interrogado em IPMs (um do ISEB, lugar e discussões que eu abominava, só pondo os pés lá uma vez), preso quatro vezes, censurado, etc. Me endividei e encalacrei. Durante dois meses saí do circuito habitual do Rio. Mas não esperava outra coisa, esperava pior. Afinal, o que imaginava a esquerda do tratamento que receberia de uma ditadura de direita?

Não é que eu me opusesse ao protesto. Era o que nos restava de luta, marginalizados e reprimidos. O que não aceitei, isto sim, foi o coro de vitimização, surdo à autocrítica. Jango se tornou intocável e fui repreendido por criticá-lo. Nós não passávamos de inocentes carneiros a quem lobos maus vedaram o acesso à água, usando pretextos desonestos e cruéis em intenção.

Veio o nojo. E a necessidade de revisão. Quanto mais a esquerda gritava contra a intervenção americana, inequívoca, me aumentava a vontade de situar o Brasil no contexto mundial. Exemplos: quem pagaria a conta da nossa revolução? Em 1962, Kennedy e Khruchev se arreglaram sobre os mísseis em Cuba. A linha do PC prevaleceu. A retirada de Khruchev, de rabo entre as pernas, foi descrita como “grande vitória”, pois Kennedy se comprometera a não invadir Cuba. A segunda parte é correta, mas a decisão decorreu de raciocínio tático e não de diktat soviético. Kennedy sabia (o que aprendi nos EUA) que um assalto convencional dos EUA a Cuba, à parte o escândalo mundial, já prenunciado no fiasco da Baía dos Porcos, sacrificaria milhões de vidas americanas, porque as tropas de Fidel Castro formam o segundo exército das Américas. Kennedy não estava disposto a pagar o preço interno dessa sangreira. Preferiram, ele e Robert, montar uma campanha de subversão, isolamento do país e até de assassinatos contra Castro. Diktat se houve, no caso, foi ao Estado-Maior da URSS, que se rendeu ao ultimato de retirar os mísseis, ou seriam bombardeados pelos EUA, obrigando Khruchev a uma guerra nuclear ou perda vergonhosa de face.

Neste mesmo 1962 morreu afogado o embaixador soviético no Brasil, figura importante, membro do Comitê Central (os 287 homens que governam a URSS). A presença dele entre nós significava o interesse de Moscou no progressismo de Jango. Substituiu-o um funcionário menor, Fomin, homem inteligente e capaz, embora ninguém fora do PC deixasse de perceber que voltáramos a ponto morto em relação à URSS. E se não há documentos disponíveis, não se duvida que no arreglo Kennedy-Khruschev havia a pré-condição de “fora do nosso quintal”, ditada pelos EUA. Outro exemplo é a extraordinária displicência da URSS quanto ao governo Allende. Não há em toda a papeleira revelada do governo Nixon, na ligeira autocrítica americana pós-Vietnã e Watergate, a menor menção de que Nixon ou Kissinger, ao armarem o golpe contra Allende, temessem sequer um protesto soviético. Isso não é acidental.

Essas coisas todas me afastaram do rebanho, ao qual, de resto, me juntara contra a vontade e temperamento. E foram fundamentais em fazer ressurgir minha deslocação no e do Brasil. Educação na infância e adolescência me ensinou a não levar a sério o “deitado eternamente em berço esplêndido”. A assimilação até onde foi, não muito profunda, tinha sido penosa. Mas se concretizara.

Considero um given, donnée, a brasilidade. É a língua-mãe, a impregnação inconsciente de costumes, hábitos, o mergulhar profundo num ambiente cultural. As resistências críticas nunca cessaram de todo e se converteram, entre 1955 e 1964, na necessidade imperiosa de mudar o que eu detestava, o que nos parecia possível nessa quase década, em que se a organização social permanecia sórdida, o país marginal e sem futuro testável em lógica, o pensamento criador fluía livre, nos limites de classe média, resguardados por um clima de liberdade. Considerem que apareceu o novo teatro, o cinema novo, Senhor, a modernização da imprensa no Diário Carioca e Jornal do Brasil, o humor crítico se expandiu de Millôr a Sérgio Porto; o comércio de idéias, o experimentalismo político e estático, conquanto mais teórico do que prático, alargavam vistas e sugeriam uma variedade rica de saídas. Se o desenvolvimentismo era basicamente fajuto, pois pagando ao estrangeiro um preço acima dos nossos recursos e deixando intocada a mortalha agrária (que, se não removida, excluirá a industrialização produtiva), ainda assim nos dava uma aparência e gosto do que poderia ser desenvolvimento verdadeiro.

Meus problemas de adaptação ao que aderi de corpo e alma (até certo ponto) foram maiores que os de outros amigos, por motivos complementares à insegurança de identidade decorrente da ascendência estrangeira. É que o mundo de classe média, no Rio, era fechado. Minhas experiências se limitavam a dois colégios de elite, São Bento e Santo Inácio. Se o São Bento Internato nos isolava da plebe, o Santo Inácio ficava a quarteirões da minha casa, nós, família, já de volta a Botafogo. E de Botafogo fazíamos o circuito Copacabana e Ipanema. Nunca estive, até hoje, em Bangu, Bonsucesso, Penha, etc. (exceto de passagem, no fedor da Avenida Brasil), nos subúrbios, em suma. E é difícil explicar a gente de menos de 40 anos as diferenças entre o Rio dos anos 50, pré-Juscelino, e o que veio depois.

Existia, claro, o pau-de-arara, o pobre, a personagem do morro, mas em quantidades muito menores e não “intromissivas”. As ruas da Zona Sul eram “nossas”, da classe média e acima. Se fazia footing na Avenida Copacabana ou Atlântica a qualquer hora, sem risco. A explosão imobiliária ainda estava em fase de cartucho, sem estopim. Não existiam o entulhamento e apertos de hoje, o barulho infernal de automóveis sem silenciador, poluindo o ar, ou as multidões de miseráveis e de prostitutas dos diversos sexos que se tornaram constantes atuais; e nem a Zona Sul se tornara o alvo dos aspirantes nacionais à classe média, que não nos permitem mais um metro de solidão. As redes de esgotos e o suprimento de energia davam para o gasto, apesar de que a Light jamais cumpriu o contrato, tomando dinheiro do governo, do povo, à menor exigência de melhoria. Havia telefones regularmente fornecidos...

O Rio, apesar de capital, no meu ângulo de visão de classe média Zona Sul, sugeria uma vila grande em que todos nos conhecíamos, de vista ao menos. Nos cinemas melhores, Metro, Roxy, ou meio “fora de mão”, o São Luís, nos reconhecíamos, quando garotos nas sessões das 2 da tarde de fim de semana, e adolescentes, na sessão das 10 da noite, em dias de estréia (segunda ou quinta-feira). Havia uma bobagem em filmes muito esperados: o estouro da boiada, em que todo mundo corria ao assento se atropelando, mas o bom humor, brincalhão sem malícia, e amabilidade carioca prevaleciam do grão-senhor ao proletário. Tínhamos cafés em que, à francesa, consumíamos horas pelo preço de média simples (o Vermelhinho, em frente da ABI, foi o centro intelectual e das artes). Os bares da praia eram freqüentáveis também a perder de vista, no chope e sanduíche. A fórmica horrenda, ou o ridículo apóstrofo (Joaquims) americano, permaneciam inéditos. Os botequins ofereciam mesas de mármore, servidas por meninos portugueses, a quem atazanávamos chamando de “paneleiros” (bichas).

Consta que no meu nascimento, em 2 de setembro de 1930, o tenente revolucionário Alencastro Guimarães tomou o quartel da Polícia Militar, próximo da minha casa (hoje substituído por uma porqueira imobiliária. Preferia os meganhas, com quem jogávamos sinuca, limpando-os). Conheci Alencastro nos anos 60, a radicalização fervendo. Perguntei-lhe se a bengala que sempre carregava continha os mesmos tesouros de que tanto falavam (o folclore sobre ele é imenso, de cenas gaúchas de mulheres arrastadas pelos cabelos na escadaria do Copacabana Palace, a assuntos que omitirei, à curiosa declaração de que se tornara “um dos patriarcas da República”, o clássico exemplo do revolucionário que reverte a conservador). Respondeu: “No castão, para servir aos amigos”.

Lembrei-me, na hora, de uma cena do passado, que, no clima de 1960, parecia de conto de fadas. O namoro da bela filha de Alencastro, Tereza, e Aluísio Munir Freire, que os íntimos e, claro, a imprensa, chamam Pecô. “Toda” a Copacabana acompanhava a cena, na porta do Roxy. Pecô, de família ilustre mas, no eufemismo polido da época, “não abonado”, se escondia atrás de uma árvore a distância segura (invisível) do cinema. Chegavam Alencastro, chaperon, e Tereza. Procuravam Pecô, não achavam. Alencastro comprava as entradas. Pecô então surgia apressado, cumprimentando e dirigindo-se à bilheteria, no que era sustado pelo chaperon. Ríamos sem maldade, porque sabíamos que não era “baú”, e, sim, amor, temperado pela necessidade e fragilidade humanas.

No meu encontro com Alencastro, que durou horas, o castão se convertera em artigo de primeira necessidade para nos atenuar as angústias.

Raros recusavam o democrático bonde, aberto e aliviando o calor, a começar por Cincinato Braga, milionário, dono do Banco do Comércio. Qualquer senhora respeitável nada tinha a temer dos destituídos, que raramente ousariam assustá-la. Se destituídos em último grau, havia o taioba, 100 réis a passagem, contra 200, do regular.

Miséria escondida ou distante não é ausência de miséria, naturalmente, mas minha realidade apreendida era essa, às vezes, momentânea e passageiramente distur-bada pelos editoriais fortes do Correio da Manhã sobre a indignidade secular cometida contra os nordestinos, hoje agravada com o suposto progresso. Vivíamos então, como hoje, da mais-valia dessa massa esquecida (não restrita, em absoluto, ao Nordeste) na História, lentamente explorada e assassinada por uma criminosa classe dirigente, que sempre favoreceu o chamado “modelo exportador” (engoliu-o, em verdade, gostando...), indiferente aos recursos vastos da nossa vasta e semi-habitada terra, terra que ignora exceto como gazua de especulação às custas do dinheiro do povo no Banco do Brasil, ou fonte, nas cash crops (colheitas lucrativas) exportáveis, de moedas estrangeiras, enquanto o resto recebe amontoados de “papel colorido” sem valor real. O fator humano, no campo brasileiro, é o supérfluo, o sacrificável. Gerou massas que, levadas a extre-mos de desespero e dizimação, nos encheram as cidades, nos tomaram os espaços de antigamente e já nos assaltam, uma progressão lógica e inevitável. Um dia as cidades cairão definitivamente e uma nova era de trevas se abaterá na cabeça de todos, menos dos responsáveis, que fugirão de Concorde a Paris ou Londres, baldeação da Suíça.

Eu nem sonhava com isso, jovem, numa cultura que, apesar de confortável, já me era menos fácil de me inserir, por tradição de família e pelo soterramento afetivo que sofrera no Internato. Vivia, como Adolpho, na imaginação, mas me embebendo e embebedando de Shakespeare, Eurípedes, Juvenal, Swift, Joyce, Eliot, o que me caísse nas mãos, e Adolpho tinha vasta biblioteca européia e me pagava generosamente o que faltava. Os Heilborn, apesar de não intelectuais propriamente, eram poliglotas, viajados e conscientes da cultura. Típicos da geração deles, encontravam em Anatole France o que eu descobria em Shaw, Austen ou George Eliot.

Nenhum autor brasileiro, certo. Descobri-o e ao Brasil real, em 1951, quando no Teatro do Estudante fui de Manaus a Recife, Teresina inclusive. Vi em Fortaleza centenas de seres humanos encostados em prédios, no chão, pedindo esmolas. Eu me reconheceria e a eles nesta passagem de A ideologia alemã: “Os indivíduos, na imaginação, se supõem mais livres que antes, sob a burguesia, porque a vida lhes parece acidental. Em verdade, são menos livres, pois mais sujeitos à violência das coisas”. Mas li Marx e Engels depois da viagem a Norte e Nordeste, tema do próximo capítulo.

Quem sou e por que sou? A brasilidade, já disse, me ocupa, coexiste com o resto de mim, que é apátrida. Não acredito em nacionalismo e em nação como valor de qualquer espécie. Nação é, quando muito, uma concentração tribal e cultural, intrinsecamente reacionária, porque pressupõe, ainda que em aspiração frustrada, superioridade de um povo sobre outro, o que é o caminho certo da exploração e tirania. E deixou de fazer sentido quando é óbvio que a economia se tornou multinacional e interdependente, irrevogavelmente. Na melhor das hipóteses, é defesa do fraco, mas que aspira, se possível, a subjugar o forte que o oprime. A História tem se resumido nisso, na prática. Prefiro moralmente o trans-nacionalismo da Igreja Católica e da internacional socialista que, ao menos, em teoria, visa à fraternidade universal.

E há o aspecto narcisista e ridículo que não parece ocorrer aos ideólogos do nacionalismo. Hannah Arendt disse-o melhor que ninguém. Numa resposta a Gershom Scholem, o erudito hebraico, acusando-a de não amar o povo a que pertencia, o judeu, povo que, pré-Israel, tinha mais razões que a maioria de defender-se no nacionalismo, a incomparável Arendt escreveu: “Você tem toda a razão, me falta ‘amor’ (aspas no original, P. F.) desse tipo, por dois motivos: nunca ‘amei’ povos ou coletividades, nem os alemães, nem os franceses, nem os americanos, nem a classe operária, ou coisa semelhante. Em verdade, amo apenas meus amigos e a única espécie de amor que conheço e em que acredito é entre pessoas. Segundo, esse amor aos judeus, desde que sou judia, me parece suspeito. Não posso amar a mim mesmo ou aquilo que é parte de mim e de que sou parte...”

As vozes civilizadas escasseiam. As poucas que restam nos, me sustentam.

IV. A DESCOBERTA DO BRASIL

NO SANTO Inácio, em 1943, fiz um grande amigo, Aguinaga, um dos raros que sobraram da infância, tantos desvios e curvas experimentei. Marcelo e eu nos vemos pouco, hoje. Ele é pecuarista e homem de negócios, pai de cinco filhos. Partilhou meu interesse literário e cultural, mas variou mais. Um tempo consumiu colecionando armas. Depois, caçando na África. Finalmente, filmando os animais que perdera o gosto de matar. A intimidade entre nós permanece viva, apesar da distância.

Éramos vizinhos, mas nos conhecemos na fila indiana de entrada do colégio, Marcelo provocava risos. Alto, 1,85 m, mantinha calças curtas. Respondeu à chacota em palavrões, reconhecendo o ridículo da roupa, porque, altura à parte, é do tipo cabeludo. Perguntei-lhe se não morava, etc., certo, explicando que terminara de ser expulso do São José e que a mãe o enfiara naquele “colégio de viados”. Em que ano, eu quis saber. Terceiro. Que turma? Terceiro-primeira. Chegou minha vez de rir.

O terceiro e quarto anos ginasiais eram os Maiores. Os padres preservavam deles uma turma do terceiro, a terceiro-primeira, para meninos fisicamente subdesenvolvidos e tenros, pois os Maiores se caracterizavam pela liberdade brutal, de resto tacitamente aceita pelos jesuítas, que sabem dosar a severidade. No segundo ano, a repressão era forte. Os jesuítas acreditavam que a puberdade coincidia com o momento de martelar os alunos à disciplina. Quase fui expulso, pois suspenso três vezes no segundo ano, o que garantia “bilhete azul” (a expressão usada. Não se é expulso de colégio jesuíta e, sim, convidado a retirar-se). Prometi ao prefeito, padre Coelho, que não me deixaria mais prender (três prisões num mês, uma suspensão) se ele me garantisse continuidade condicional. Cumpri e cumpriu.

Nos Maiores, o clima mudava. Basta dizer que na primeira conversa com um confessor, ele me perguntou, para espanto meu, se eu tivera gonorréia (sic) verde, a resposta é não e continuo ignorando o significado de “verde”. Conheço “de gancho”. Os padres deduziam que nos Maiores a sorte já estava lançada. Tratavam-nos como adultos. Um ano antes a menção a doenças venéreas daria bolo.

Como Marcelo foi parar na terceiro-primeira que, inclusive, medida de proteção, ficava no andar abaixo, dos Médios (segundo ano ginasial)? Um equívoco fácil de explicar. Os pais de Marcelo, o ginecologista e obstetra célebre, Armando Aguinaga, e mulher, Alice, eram católicos devotos, ele carolérrimo, generoso contribuinte em dinheiro e propriedades à Igreja. Os jesuítas imaginaram que o “filhinho” tinha sido cortado no mesmo molde.

Marcelo durou um recreio na terceiro-primeira. Nesse recreio inicial, havia futebol nas turmas e os melhores formavam o time da dita, e os melhores dos melhores (nos Maiores), a seleção do colégio (imbatível há 15 anos quando deixei o Santo Inácio), Marcelo fez quatro pimpolhos baixarem à enfermaria e xingou o juiz. Estava nos Maiores na mesma tarde, em turma diferente da minha, terceiro-segunda e eu terceiro-quarta, em que meu colega de banco, um dos maiores bagunceiros de colégio que conheci, hoje é um dos mais responsáveis, sóbrios e competentes jornalistas do Brasil, Evandro Carlos de Andrade, diretor de jornalismo de O Globo (antes editara o Diário Carioca, quando o reencontrei, e ocupou cargos de chefia no Estado e Jornal do Brasil).

Marcelo, em verdade, preferia a companhia de meu irmão Fred, eram dois anos mais velhos que eu. Brigaram sei lá por que e nos herdamos um ao outro. Marcelo me levou ao primeiro bordel. Tomávamos pileques de martíni seco e cerveja, mistura que hoje, suspeito, me derrubaria em alguns goles. Agüentávamos firmes. Namoramos e “desvirtuamos” um número considerável de “meninas de família”. Ele muito mais. Se hímen fosse troféu de parede apreciado, Marcelo não encontraria problemas de decoração. Fomos esporádicos delinqüentes juvenis, participando da turma de Fernando, este de uma coragem suicida, capaz de enfrentar a todo custo, ou seja, contra handicaps tecnicamente insuperáveis, qualquer parada. Basta um exemplo. A turma dominante era dos chamados cafajestes, chefiada pelo piloto da Panair, Edu (morreu entrando numa montanha. Não se sabe como, pois profissional impecável, sempre inteiramente sóbrio 48 horas antes de voar), e Mariozinho de Oliveira. Fernando namorava Carmem, do posto 4. Edu e amigos faziam ponto na altura do posto 3, no Alvear e praia. Fernando e Carmem passam de bicicleta. Assobios. Fernando deixa Carmem em casa. Volta, sozinho. Apanha barra de ferro e desce à praia, a Edu, cercado de várias montanhas de músculos (inclusive meu amigo Paulo Soledade). Avisa: “Olha, vou passar todo dia com aquela menina. Se assobiarem outra vez, meto esse ferro na cara de vocês”. Músculos se flexionaram. Fernando, é claro, teria sido massacrado. Precisamente por isso, deduzo, Edu, que, por trás da brincadeira agressiva, tinha bom senso e cabeça, respondeu: “O.K., garoto, pode ficar tranqüilo que não há repeteco”. Olhando Fernando, uma pessoa observadora concluiria que, pará-lo, só matando. E os baderneiros desse tempo, do meu conhecimento, não excediam limites agora ultrapassados por tantos psicopatas.

Nossa participacão, de Marcelo e a minha, foi marginal. Lembro-me que ajudamos a desmontar vários bailes de formatura e botequins. Dos bailes lembro o do Sacré Coeur de Marie, pelos gritos das freiras, ao verem Fred (não meu irmão), um monstro de forte, arrancando as pesadas cortinas do salão, cabelo aparado, ao contrário do equivalente bíblico. E de botequins lembro-me de um pileque iniciado no posto 4, pela manhã, que terminou no D’Angelo, em Petrópolis, então centro de respeitabilidade e não o covil de maconheiros de hoje, em que, de calção de banho, meninos e meninas (seria divertido citar algumas, mas me abstenho), expulsamos todos os presentes, atirando-lhes insultos e azeitonas, ou, no caso dos recalcitrantes, Fred e outro gigante, Modesto, pegando-os pelo fundilho das calças e arrastando-os ao (raso) rio Piabanha, no qual também tomamos banho depois da “festa”. A polícia veio. Nos olhou e medrou.

Lembro-me que bebíamos o dia inteiro, que havia sempre escravas brancas atendendo nossas variadas necessidades e que, inocentemente, nossa única droga era éter, ou quelene. Faziamos o carnaval do sábado no Copacabana Palace, Quitandinha, domingo, Municipal, segunda, e Iate, uma suruba mal disfarçada, terça-feira (“é hoje só”; no nosso caso, não, porque recomeçávamos quarta-feira, considerando carnaval farra de amadores). Lembro também uma noite no Quitandinha em que nos barraram a entrada, pondo uma patrulha do Primeiro Batalhão de Caçadores, baionetas caladas (é essa a palavra?). Fernando, tipicamente, pulou de pés juntos sobre as baionetas, derrubando três soldados, pobres e assustados recrutas. Nós o recolhemos em tempo, antes que o tenente, Pinto, recobrasse o prumo mental, disturbado pela guerrilha. Heleno (da turma Edu e Mariozinho), o craque de futebol, ia tentar o mesmo ataque, mas aí Pinto já estava prevenido e dissuadimos Heleno. As turmas se uniam contra a autoridade, o inimigo comum.

Guardei o nome Pinto porque duas moças muito conhecidas, vestidas de sujo, que nos acompanhavam, insultaram o militar no chamado baixo calão, inclusive com os predizíveis trocadilhos que “Pinto” rende. O homem ficou pasmo, envergonhado, enfurecido. Jovem de inequívoca pequena classe média, do interior, jamais lhe ocorrera que as filhas da classe dirigente conhecessem e muito menos usassem aquele vocabulário. Não vou nomeá-las, porque, entre outras coisas, anos atrás, tentei junto a uma delas glosar o episódio, e se esquecera completamente...

Fernando tinha problema familiar grave. No com-ment. Não sei que fim levou. Segundo os boatos virou de padre a fazendeiro. Era amigo fiel, generoso e pronto a tudo pela turma, desde que não lhe catucassem o ferimento (interno) na mente. O pai dele foi meu pediatra e de toda a minha geração, e Fernando posava de bebê modelo nos livros do pai, que Irene e outras devoravam.

Friso que participei desses episódios como coadjuvante dispensável. Nem membro permanente da turma fui, ou Marcelo. Não sou forte ou bravo. Sou pesado e bato pesado, quando me irritam demais, ou não há alternativa, o que era rotineiro, saindo em grupo, para dizer o mínimo. Os centuriões eram Fernando, Modesto e Fred. Lembro-me de haver criado apenas um caso, em Teresópolis, numa festa de carnaval da gente da cidade, onde devo ter feito algo com moça que parecia dispor de legião de parentes ou amigos puritanos, porque todos uma hora lá resolveram me atacar, no que foram impedidos por Fernando e Modesto, que lhes barraram o caminho, interpondo mesas e cadeiras, enquanto me davam fuga, e vieram logo atrás. O episódio mais aterrador é que desci uma noite a velha estrada de Petrópolis no conversível de Fernando, ele guiando naturalmente, enquanto partilhávamos quase duas garrafas de vodca. O probleminha é que o carro “carecia” de freio de pé...

Alguns mitos merecem ser desfeitos. É uma suposição freqüente que as chamadas moças de família começaram a dar nos anos de 60. Devo ter conhecido todas as exceções dos anos 40 e 50, portanto, porque desconheço a que não desse, nesse meio (não estou falando das escravas brancas). De resto, “célebre cirurgião plástico” iniciou a carreira triunfal repondo o que Luzia perdeu na horta, as diversas luzias nos contando, velhas amigas, que se viam obrigadas a isso a fim de casarem com paulistas ricos, os quais exigiam o selo de castidade. A diferença de comportamento entre os adolescentes do meu tempo e os de agora é de relações públicas e publicidade. Os de hoje mal se contêm enquanto não nos contam as aventuras sexuais, que julgam cheias de originalidade e interesse a estranhos, o que é mais um indício do triunfo do narcisismo na nossa cultura de comerciais. No nosso tempo havia discrição, ou, ao menos, as intimidades ficavam entre os íntimos. Prefiro assim. Talvez seja preconceito de idade.

Descrevo essas cenas sem ordem cronológica. O período, em todo caso, é de 1943 a 1953. E a cronologia não é importante, porque as constantes não mudaram (continuava lendo como um obsessivo), a baderna era substituída por longas pausas de tranqüilidade, eu não tinha ligações ou compromissos fixos de qualquer espécie. Vivia do jeito que desse, às custas do generoso e paciente Adolpho, com quem mal falava, exceto para lhe dar estocadas.

O velho Aguinaga construíra um enorme sítio em Secretário, além de Petrópolis, um desvio de Pedro do Rio (em seguida a Itaipava, na estrada União Indústria). Passávamos verões lá, Marcelo e eu. Aprendi a montar a cavalo, depois de catorze tombos num dia (me emperraram o mindim direito um pouco), instruído por Sérgio Aguinaga, irmão de Marcelo, médico (ele e Hélio Aguinaga seguiram a carreira do pai). Vi os casamentos dos dois, Marcelo e eu tomando a providência de chegarmos à recepção na frente dos convidados, arrebanhando “adegas” que bebemos ao delírio. Fui “adotado”, mais ou menos, pelos Aguinagas, criaturas extremamente amáveis. Outro “adotivo”, amigo de Fernando Aguinaga, alegria das mulheres, era um jovem esforçadíssimo, lutando contra a pobreza e a falta de vantagens iniciais. Se chamava Ibrahim Sued. Nos conhecemos em 1946 ou 1947. Nunca vi alguém tão disposto a encontrar uma posição na vida, à custa de sacrifícios, o que representava, vale notar, atitude muito pouco brasileira, na classe média, cujo sonho se resumia em “arrancar do velho” o que fosse possível, um anel de doutor em direito, emprego público, vida mansa, praia e chope gelado. Sempre nos demos bem. Muita gente o desencorajava e ria das ambições dele. Eu, não. Quem o lançou na imprensa escrita foi meu faturo amigo, Joel Silveira, mas quando começou a escrever me mostrava textos e dei-lhe mãozinha técnica. Ibrahim é fiel aos amigos. Devo-lhe incontáveis gentilezas. Ao voltar dos EUA, em 1956, descobri-o todo-poderoso colunista de O Globo. Nenhuma surpresa. Tenacidade assim sempre paga dividendos.

O Dr. Aguinaga se cansou do sítio, porque os filhos não gostavam, excetuando Marcelo e a filha mais moça, Vera. Aproveitamos o quanto pudemos. E nas ausências da família, Marcelo promovia bacanais, a maioria das moças se chamando “May”, “Stuart”, etc. não eram inglesas. Vinham do teatro-revista. A memória, vaga e exagerada, desses acontecimentos permanece viva entre os velhos habitantes de Secretário, que provaram, à distancia, visualmente, na nossa passagem ruidosa, doses cavalares do pecado na cidade grande.

De notável, francamente, só me lembro que dois amigos se casaram com essas “não tem tu, vai tu mesmo”, provando que mesmo nos anos 50 a tolerância sexual era maior do que o anunciado. Lembro-me de uma delas, N., já casada, cricri, me contando graçolas e dificuldades do segundo filho, que trazia no colo, carinhosa, em nada “diferente” das mães ditas direitas. E no entanto N., no palco, às vezes recebera do maître uma nota de 50 cruzeiros (quantia equivalente hoje a 30 mil) de algum freguês desconhecido, pela qual pagaria depois do espetáculo na(s) posição(ões) tradicional(ais).

O mito a desfazer aqui, desapontando os que sabem dessas coisas apenas devorando revistas de sexo e os moralistas convencidos que sexo livre destruirá o mundo antes das armas nucleares, é que “orgia” é um tédio. Talvez seja opinião meramente pessoal, de quem não foi talhado para isso (continuava, repito, lendo e indagando, e até nos fins de semana orgiásticos levava dois ou três livros na maleta). Duvido. Afinal, sei analisar caras e estados de espirito, não é à toa que critiquei teatro.

Bebíamos cada vez mais, acredito, porque nos aborrecia aquela vida e a inconsciência alcoólica nos ajudava a temperá-la. Sexo de graça e em excesso satura, gera indiferença. O corpo excepcional (em média) das participantes e “convocadas”, uma vez provado no café, almoço, lanche, jantar e ceia, se torna tão atraente quanto o saco de batatas que evitávamos na rua. Depois de um tempo, usávamos cantárides, um afrodisíaco perigoso (e verdadeiro), o que é sintoma do ódio. Fred tomou demais um dia, jorrava sangue, tivemos de chamar ambulância. O médico, espantado, logo posto em ordem por um safanão de alguém, aplicou-lhe cânfora e finalmente o mastro baixou, nós, sordidamente, às gargalhadas.

Messalina não se saciava, certo, mas era ninfo, o que é doença.

Nos excedíamos na violência, hoje deduzo, porque sempre envolvia riscos, não tinha desfechos predeterminados. Conhecemos todos os prontos-socorros do Rio. Aprendi de útil onde se deve bater e evitar que nos batam, se possível. A velocidade e a pontaria são a alma do negócio. Não se perde tempo em “exposição de motivos”, velho hábito peroratório brasileiro. Se vai ao saco, ao pescoço ou ao rim, aos pontapés, de preferência, e sempre de lado. Ainda assim, quantas vezes vi Fernando segurar um do grupo, que se exaltara contra alguém (nenhum motivo real), que apenas exercia o direito de entrar onde estávamos. Fernando: “Porra, deixa esse cara pra lá. Aí, vira outro. Não estou a fim”. “Virar” era beber. Fernando sabia... sabia... sem ter lido Bellow...

Acreditem: uma boa moça que nos excite ternura, retribua, que nos entenda, que nos acompanhe, que esteja presente e solidária quando o mundo desaba sobre nós, o que é freqüente, vale todas essas exibições de juvenilia que mencionei (omitindo muitos detalhes...). As feministas se queixam de que usamos também as que amamos. É provável que estejam teoricamente certas, mas não é por esse critério que as relações bem-sucedidas entre homem e mulher funcionam. E desconheço mulher querida e indispensável que reclame contra essa suposta sujeição aos homens. Não pretendo generalizar. Apenas, como jeanne D’Arc, pergunto: por que julgamento posso julgar se não o meu? O que inclui décadas de observação.

As feministas ajudam as enjeitadas a encontrarem uma identidade, ou a se consolarem. Fortalecem as que desejam um papel independente. Estimulam a mulher trabalhadora a não ser explorada. Tudo muito útil, sem dúvida, e socialmente progressista. É verdade que se sente em muitos desses programas e retórica raiva pessimamente disfarçada à mulher que atrai homens e a homens que se deixam atrair. É raiva de carência, ou raiva crítica, justa, ou, ao menos, racionalizável? Cabe às mulheres responderem. Modestamente, sigo Louis Auchincloss que vê no feminismo, em síntese, uma forma de as mulheres se protegerem delas próprias, a alternativa conciliatória ao arranca-rabo antigo, implícito na frase “agarre o seu homem”. E expando o que disse acima: em matéria de relações íntimas, quimicamente compatíveis, cheias de complexidades e contradições, entre homem e mulher, as feministas nada têm a declarar. O mundo que propõem, de igualdade afetiva, de divisão de trabalho “socialista”, é uma tolice iletrada, porque o mundo geral não é assim (não distinguindo entre sexos) e porque biológica e psicologicamente possuímos, homens e mulheres, uma variedade incatalogável, de que permanecemos, na maior parte, ignorantes, o que o próprio Freud foi o primeiro a admitir e nenhum “revisionista” o contradiz. Fomos, minha geração, a vanguarda da permissividade. Certo, houve sempre, presumo, boêmios e baderneiros, desde que as sociedades estabeleceram regras (restritivas, supostamente de proteção mútua) de convívio. E as classes dominantes nunca praticaram o que pregaram. Juvenal, favorito de adolescência, tem páginas satíricas admiráveis sobre as senhoras da sociedade romana que mantinham um “flagelador residente”, escravos que as chicoteavam, produzindo-lhes orgasmos. Oscar Wilde não foi preso por ser homossexual, o que a aristocracia percebera (e cerca de 500 membros da aristocracia, muitos da Casa dos Lordes, se refugiaram em Paris, no segundo julgamento de Wilde, medida de precaução), e, sim, porque deu escândalo à plebe, assustou os cavalos na rua, na frase da atriz Mrs. Patrick Campbell.

Não inovamos, portanto. Mas há uma nuance sociológica importante. No tempo de Adolpho, ele me contou, a boemia era mantida distante do lar com “muralha de Berlim”. No nosso tempo, a muralha começou a desabar e hoje restam escombros, ou improvisações de material ordinário, que não resistem ao menor sopro.

Os sintomas de desagregação saltavam aos olhos. Os mais significativos, a meu ver, foram: o álcool pesado, uísque, etc., e o jogo a dinheiro se tornaram freqüentes no lar de classe média. O jogo, buraco, a princípio, que, difícil, aguaram em biriba, pif e variantes, se tornou em verdade o centro social de famílias, ao menos até que a televisão invadisse e conquistasse. Não fumar (incluindo mulheres) era caretismo. Ainda peguei restos do tempo em que moças não fumavam em público. As mesmas caem bêbadas em bares e são chaminés, de uns tempos para cá.

Se se trepava, não era costume alardear. Hoje, quem não alardeia corre o risco de ser considerado impotente ou coisa que não quer revelar.

As mulheres, o barômetro moral da sociedade burguesa, oferecem as melhores ilustrações. Não apenas propagam o que fazem na cama a estranhos. Se exibem seminuas à plebe ignara. E, antes, notávamos a relutância com que nossas mães envelheciam (a minha morreu pré-transformação). O cristianismo, nossa base ética, não importa quão avacalhado na prática, pressupunha que a mulher, casando, constituiria família vivendo em função de lar, filhos e marido, abandonando vaidades e fantasias líricas de virgem solteira. Esta desapareceu na frente de tudo. Algumas se decidiram por carreiras, ou uniram papéis tradicionais a trabalho, o que é sinal de progresso, ou necessidade. Falo é das donas-de-casa que permaneceram nos postos.

A mãe que vivia nos e pelos filhos, agora, quarentona, botava os bofes para fora na mesa de jogo (melhor reveladora de personalidade do que o divã do analista). De uísque e cigarro na mão (um tempo era chique fumar depois de cada prato. Ou seja, entrada, cigarro; pièce de resistance, idem, sobremesa, idem, café, idem), fazendo o proibido aos filhos na cara deles; coroa se pintava, feito moça, produzindo os resultados grotescos de sempre, se vestia (pretensamente) à la estrela de Hollywood, e, claro, uma coisa levando a outra, o adultério, a promessa ou confirmação nada sutis, aparecia claro a quem tivesse olhos, e adolescentes enxergam fundo os pais.

Os filhos mais e mais ficavam entregues a si próprios, solitários, abandonados, carentes de afeto e diretrizes, e procuravam chamar atenção numa cópia carregada e não raro delinqüente do que viam em família. Os desquites começaram a competir com os casamentos. No segundo casamento, havia uma “cerimônia” na embaixada da Bolívia. Nenhum valor legal, ou nada que substituísse a continuidade de gerações dentro de certos princípios que se, no passado, sofriam infrações, estas cobriam de vergonha os responsáveis, enquanto que no meu tempo a “queda” se converteu em rotina não criticada sequer. Durante anos, famílias tradicionalistas não recebiam mulheres casadas na “Bolívia”. Em breve, mudaram de posição porque os próprios filhos casavam e descasavam ao menor capricho. Os valores burgueses se desintegraram nessas coisas.

No primeiro capítulo, gozei Daniel Bell que considera a transformação de tudo em bem de consumo, corpo e alma inclusive, uma das “contradições do capitalismo”. Escrevi que era o próprio capitalismo no estágio atual, em decadência da ética da produtividade à lazeira do consumismo. Nada tenho a acrescentar nesse contexto.

Há, porém, a questão histórica brasileira, específica. Os valores (superestrutura, diria Marx) que sustentavam a impostura burguesa desapareceram na Europa na guerra de 1914-1918, no lodaçal de Somme, Ypres, etc., em que morreram a flor da elite da juventude e os habituais proletários, provocando em reação o Outubro soviético de 1917. Essa guerra abriu sob pretextos idealistas de lado a lado. Thomas Mann apoiou o Kaiser contra a barbárie do Tzar e reclamando o lugar ao sol negado à Alemanha, produtiva e culta, pela perfídia inglesa e a cupidez francesa. Os ingleses afirmaram estar defendendo a “pequena Bélgica” estuprada (a pobrezinha dispensa comentários, depois que lemos Conrad, em particular Heart of Darkness). O idealismo, por ser estúpido, não perde a credibilidade psicológica. A primeira vez que fui a Oxford me comoveu ler, em todas as faculdades, os nomes dos que tombaram em combate, não excluindo os filhos das mais poderosas e aristocráticas famílias. Em verdade, proporcionalmente, morriam três oficiais para cada soldado. Dos três mil oxfordianos guerreiros sobreviveram somente 300, vários inapelavelmente mutilados.

Quando se tornou claro o verdadeiro sentido da guerra, a disputa interimperialista dos adversários, a burguesia, não é exagero, faleceu espiritualmente. Toda a literatura e arte do período expressam esse tema. T. S. Eliot negou inúmeras vezes que The Waste Land tratasse disso, afirmando que descreveu uma crise pessoal, apenas. Bobagem. Há não só várias referências específicas à inutilidade e gigantismo do morticínio, como a segunda stanza do poema (“que raízes se agarram”, na tradução excelente, ainda que inevitavelmente falha, de Paulo Mendes Campos, que merece reedição e permanência nas livrarias) resume sucintamente a justaposição do mundo morto, que Eliot admirava e gostaria de ter preservado, e a “rocha vermelha”, a revolução bolchevique.

A burguesia, obviamente, se readaptou à nova situação, ao social-darwinismo, que só fez crescer até nossos dias. Em defesa de si própria, tentou assustar os explorados com os horrores maiores da “rocha vermelha”, no que, a partir de Stálin, recebeu preciosa colaboração da URSS. Lutamos essa batalha de convicções e pressuposições nos nossos dias, conscientes ou não desse fato, que permeia de mil maneiras nossa vida.

A burguesia não conseguiu foi preencher o próprio vazio espiritual e moral. No resto, considerando os crimes que comete e o preço de banana que paga, não se tem saído mal. Continua retendo a parte de leão dos recursos e riqueza do mundo, explorando a condição subumana de dois bilhões, metade dos habitantes da Terra. Conteve revoluções internas, quase sempre concedendo farta distribuição de migalhas do banquete aos oprimidos “em casa”. Reconciliou-se, medida de sobrevivência, com o Estado de Welfare, em que todo destituído recebe subsídio que lhe permita sobreviver marginal e degradado, e até, nos países em que o radicalismo desenvolveu tradição forte, Alemanha e Inglaterra, com a social-democracia, desde que não-revolucionária. Willy Brandt, em 1969, declarou Marx “irrelevante”, abrindo assim o caminho a que a burguesia aceitasse o “domínio” quase ininterrupto dos social-democratas.

Esse feito, nada desprezível, digno de gato de “n” fôlegos, só é contestado culturalmente, isto é, falo de contestação conseqüente. Saudosistas incuráveis, à la Eliot, recolheram-se à panacéia religiosa. Românticos incuráveis e loucos, do tipo Ezra Pound, viram no fascismo a forma de retornar a um passado fantástico, às comunidades pré-capitalistas de Atenas e similares gregas (presume-se que antes da guerra do Peloponeso).

A maioria da nossa arte, porém, arte burguesa, é de depredação, de uma negação absoluta da fachada artificialmente reconstituída da burguesia. Não que esses artistas sejam necessariamente favoráveis a um futuro democrático ou socialista. Muitos detestam a idéia de renovação como detestam o presente. E, de qualquer forma, a matéria-prima da criatividade é o presente. Futurologia é coisa de gente menor, de astrólogos a tecnocratas.

Da radical subversão de aparências, em Picasso, aos poemas apocalípticos de Yeats (em particular, “The tower” e “The second coming”), às negações da harmonia em Webern, à fria catalogação do genocídio dos judeus por Hillberg, temos um imenso painel fúnebre da falência moral da burguesia. Até os relativamente otimistas, como D. H. Lawrence, que acreditava num individualismo que o salvasse da História, e Thomas Mann, que (ironicamente) aceita uma troca de casca social, são muito mais convincentes descrevendo as entranhas do cadáver do que a possível ressurreição, que é mais esperança ideológica do que realização artística. Rimos de O amante de Lady Chatterley; O arco-íris nos esmaga. Em Kafka, a sociedade se tornou uma fantasmagoria irracional. Em Joyce, a própria palavra, o primeiro e supremo instrumento da inteligibilidade, se desmembra em reflexos e variantes de si própria, ou transmitindo uma cacofonia irracionalista que só se orquestra esteticamente.

Eu e tantos outros no Novo Mundo, intocado pelo choque de 1914-1918, percebemos onde estávamos, aonde não íamos, pela leitura. A sociedade brasileira, marginal, sempre dependente, presa, em essência, à ideologia feudal, anticapitalista, antiautocrítica da contra-reforma do catolicismo, com pequenos retoques do otimismo bocó positivista (também enterrado na Primeira Guerra), só começou a sentir forte o cheiro e infecções do defunto de 1918 no pós-guerra de 1945, quando o capitalismo imperialista, revivido pela segunda ascendência majestosa dos EUA, derrubou todos os competidores e nos invadiu, a princípio tratando-nos à inglesa, nos vendendo caro em troca do que comprava quase de graça, em seguida, por necessidade de expansão e consolidação, nos enfiando na armadilha multinacional. Trouxe a cultura do consumo às elites (que, no Brasil, incluem a classe média) e, não há saída, a amoralidade da dita, que sem a menor dificuldade travestiu os valores pré-industriais, pré-choque de

1918, sob que vivíamos na minha infância e parte da adolescência. Já se disse que a Segunda Guerra foi a última batalha da Primeira. E a globalização real que representou (ao contrário da outra) atingiu os mais distantes espectadores e insignificantes partícipes.

Minha geração viveu precisamente o atravessar da linha divisória entre o Brasil feudal dependente e esse Brasil decadente, sujeito a impactos externos da revolução capitalista que o Segundo Império, fiel à estagnação latifundiária da contra-reforma, ignorara, enquanto D. Pedro II brincava de raça superior, cortejando Wagner e o Conde Gobineau, um dos pais do racismo. E, claro, mesmo o rabo da revolução capitalista não só nos reformulou a passividade pastoril que a República e “revolução” de 1930 deixaram fundamentalmente inviolada, como gerou anticorpos que pressionavam a nova ordem no sentido de humanizá-la, recusando feudalismo e capitalismo. Paulo Francis nasceu nessa encruzilhada, não num esforço hercúleo de vontade, ou numa explosão de gênio, e, sim, brasileiramente, procurando evitar o batente, porque Adolpho, com toda a razão, resolveu dar um basta na vagabundagem que pagava sem, na realidade, dispor de sobras que não lhe doessem na carne.

A baderna foi meu adeus à infância que tentávamos todos manter, crianças chocadas pela decomposição da família feudal de que pegamos o desfecho, rejeitando também o conformismo burguês de sacrifício e frugalidade, que nos pregavam e não praticavam.

Eu não sabia o que fazer. Já lera Machado de Assis. O diabo é que comecei logo por Memórias póstumas de Brás Cubas e achei que o resto era igual. Imaginei exercícios fantásticos de ironia que fariam Machado sair da tumba e me congratular. A nova paixão se manteve em Quincas Borba. O estilo de Memorial de Ayres me deslumbrou, me parece o melhor escrito dos romances. Então apareceu Helena, a poesia abominável, e pedi licença para mandar Detefon no meu lugar. Drummond, claro, foi de primeira. Aqui alguém que entendera a anti-retórica de Gertrude Stein. Uma rosa é uma rosa é uma rosa: (sic) a pedra fundamental da literatura moderna, que, apesar desses exemplos, permanece bastante ignorada, a julgar pelos livros que certos autores generosos me enviam. Eles parecem não duvidar que os sentimentos deles, sentimentalmente expressos, são literatura.

Essa pedra é uma pedra é uma pedra (sic). Não apenas rola no caminho. E tudo. O escritor substantiva, o substantivo é o princípio, meio e fim. O ponto de vista deve fluir da estrutura e não se impor. E não há estruturas fixas. Valery dizia que “nuvem cinzenta” é nuvem, ponto. Quanto menos não explícito, melhor.

O contexto e o rigor verbal falam por si próprios. O nouveau roman levou esse processo ao extremo, abolindo opiniões. Beckett, joyciano, poeta a ininteligibilidade.

Não se trata de tirania elitista, ou formalismo “modernista”. E essa revolução é contestável. Poetas como Robert Lowell e Dylan Thomas trouxeram de volta a retórica anterior, se bem que a limitam ao confessional e se defendem em ambigüidades. O que se procura evitar, no caso, é o mero impressionismo emocional, as “visões de vida” historicistas e abrangentes. Porque não fazem mais sentido. A estrutura burguesa que se construiu, ornamentando, superestruturando a “igreja gótica” (fachada esplêndida, interior tosco) do capitalismo, ruiu por terra, nas trincheiras de 1914-1918.

O artista ficou na terra de ninguém. É o nosso hábitat natural. Abaixo a retórica que levou uma geração, uma cultura, uma falsa consciência, ao extermínio. Registramos fragmentos (“esses fragmentos salvei das minhas ruínas”, termina The waste land, resumindo o que é possível e crível em literatura). Nenhuma reverência a instituições, credos, à grandiloqüência que nos trouxe o suicídio coletivo da Grande Guerra. A própria aparência do mundo social é imaginária, nos disseram e mostraram Kafka e Picasso. Quando Joyce escreve que pretende criar na forja da alma uma nova consciência da raça, ou Yeats que o “centro” não se sustenta (o “centro” é o consenso da civilização burguesa pré-1914, e não, como desonestamente usam o poema os reacionários, o centro político), é disso que está falando, oratio obliqua, naturalmente, porque qualquer explicitação é suspeita.

A ironia e incredulidade do melhor Machado pertencem a outra era, a da crítica à sociedade aristocrático-burguesa do século XIX, à escola de Flaubert, Stendhal e George Eliot. Dado o meio cultural em que se expressou, no entanto, continua, no Brasil de hoje, em espírito, membro da avant-garde... Recebo livros carregados de epígrafes de Drummond. O interior é o anti-Drummond, em que fulaninho ou fulaninha nos descrevem estados d’alma coerentes, carregados de adjetivação emotiva, nus de ironia, ambivalência, ou reflexão crítica, e chorando de dar pena que o mundo cruel destrua o que sentiram. Os estados d’alma são incoerentes e esse mundo inexiste. Caprichos e narcisismo frustrados não são literatura. E muito menos é a crítica tradicional da burguesia, outra constante, porque a burguesia sólida de Balzac cessou de existir, nem ela própria acredita nos “valores” que propaga. Sim, sobrevive e oprime, no social-darwinismo, mas sem convicção. Satisfaz apetites incontroláveis. Exige um tratamento formal que transcenda o realismo do século XIX. E o que Balzac definiu, Flaubert despedaçou as entranhas e realidade concreta, e Stendhal enterrou em ironia histórica e sociológica. Daí o fato, previsto pelo próprio, que só o “redescobririam” em 1935, quando a burguesia despiu a fantasia, naquela década em que se revelou monstro de filme de horror, só que não era cinema.

O modernismo de 1922 entendeu e enfrentou nossa era. O problema é que as duas figuras maiores, na minha opinião, Drummond e Oswald de Andrade, parecem ter divergido num dos fundamentos. Drummond rolaria a pedra dele, à la Joyce, pessoal e intransferível. Oswald preferiu bombardear, com a nova liberdade formal (ditada pela decadência da solidez burguesa), o simulacro pseudo-europeu da classe dirigente brasileira. E, claro, o Brasil, marginalizado dos centros de poder e cultura, podia se permitir um compasso atrás, retrógrado em forma, útil no caso. O Brasil precisava ainda se descobrir e pesquisar brasileiro. Escrevi acima sobre o outro pólo emergente da queda da burguesia, a reestruturação da sociedade em moldes revolucionários. Graciliano e Jorge Amado surgiram dessa fornada. Infelizmente, sob Stálin, foram obrigados a manter o realismo clássico, “socialista”, já incompatível, a meu ver, com a realidade nos centros mundiais da cultura, mas plausível no Brasil feudal. Atingiram, claro, um público mais amplo do que Drummond ou Oswald, ou o próprio Mário de Andrade, que usou o popular em Macunaíma para satiricamente expressar a visão catastrófica do modernismo europeizado.

E dada a inanidade dos movimentos de reforma, nada mais natural que o PC se tornasse a influência cultural dominante e que os escritores do prolekult criassem a escola mestra da nossa literatura, o regionalismo de protesto social.

Não há consenso e conformismo em artes. Parte do sucesso de Tolstói se deveu, de início, a que aplicasse o realismo crítico de Flaubert e Stendhal, que dissecavam uma sociedade moribunda, a uma sociedade feudal em que Tolstói descobriu a capacidade (e uma vitalidade impensável em Paris) de renovação. Abriu vistas de um mundo que de tão diferente do criado pelas revoluções francesa e industrial ainda era possível tratar liricamente. Há claro o fato que transcende essa peculiaridade, o gênio de Tolstói. Da mesma forma, parte do sucesso de Gabriel Garcia Márquez decorre do que parece a americanos e europeus, e a afins culturais, o exotismo da Colômbia feudal. O Jorge Amado de Capitães de areia foi uma explosão na nossa consciência urbana. O Jorge Amado delicioso de A morte e a morte de Quincas Berro d’Água, primeira obra depois que se livrou do “realismo socialista” (deixou, sem brigar muito, o PC, em 1956, em face das revelações de Khruchev contra Stálin, e o pau quebrou entre os intelectuais comunistas brasileiros), é outro assunto. A obra toda de Graciliano é um painel fotográfico de nitidez insuperada sobre a alienação e desolação de uma classe sem consciência de si própria, nosso homem do campo, que os stalinistas e muitas esquerdas, em 1961-1964, quiseram atrelar mecanicamente à “união do proletariado e campesinato”, copiando o manual de Lênin fora de contexto.

Entre o modernismo de 1922 e o “realismo socialista” dos anos 30 faltaram os críticos, a componente de mediação e polêmica produtiva, que colocassem os pontos nos diversos “ii”. Não é nosso jeito. A “vida literária” nos engolfa. Somos todos queridos uns dos outros. O destino do crítico do contra, que é o que vale (nos “lundis”, Sainte-Beuve escreveu um montão de asneiras contra Balzac, Flaubert, Stendhal e Baudelaire. Permanece um grande crítico porque, mesmo errando, ilumina), é a excentridade marginal (Agripino Grieco é um exemplo). O negócio, negócio brasileiro em todo o espectro social, é fugir ao assunto. Temos lukacsianos, lacanistas, semióticos, o diabo a quatro; em geral pseudo-erudito, um refogado do que os iniciadores dessas escolas propuseram. A tendência dominante é a conciliação. Os brazilianists me detestam, porque, jornalista importante no Brasil, me recuso a levá-los a sério. O motivo é simples: alguns livros deles, em primeiro lugar... O que mais me irritou, à parte a ignorância, foi o debate sobre “opções” dos militares de 1964. Eu lhes disse que, no Brasil, o golpe terminaria se dissolvendo na falta de caráter, o que é, admito, uma noção anticientífica, mas realista, na linha de Macunaíma.

Mário Faustino era uma exceção. Num ensaio brilhante, ressaltando a posição única de Drummond entre nossos poetas, espinafrou-o por recusar-se ao papel de “mestre”, a assumir e debater o que representa, à margem e complementar à criação. Mário queria que Drummond, em suma, fosse o nosso Pound ou Eliot, grandes poetas que desceram à crítica, esclarecendo (errando muito, claro) o que propunham e faziam. Drummond subiu pelas paredes. Em verdade, espero não ofendê-lo com a inconfidência, raspou parede a gilete, de raiva. Tem todo o direito de ser o que é, grande poeta e omisso das batalhas culturais. Talvez nunca se tenha recuperado das humilhações que sofreu quando tentou praticar o “realismo socialista”. Meu conhecido, o stalinista-chefe, Arruda Câmara, teve a audácia de tentar reescrever versos dele... Intelectuais do partido, espécie desprezível no auge do stalinismo, eram tratados como contínuos. Conheço um brilhante economista que foi reduzido a empacotar impressos de propaganda. Arruda, me contam, um dia deu uma “gravata” em Drummond, quando este resistiu ao copidesque da “linha justa”. Certo, tudo bem, mas perdemos todos pela ausência, enquanto a academia, mascarada de avant-garde, corrompe a juventude copiando a última moda de Paris.

Eu cometia “Eliots”, de que quanto menos for dito, melhor. Elaborei (e vou escrever) uma peça sobre a guerra dos Farrapos, um intervalo sério da pachorrice e babalaôs de revolta no Brasil do século XIX. Me reconhecia incapaz de escrever um romance, pela ignorância da sociedade brasileira, fora do meu canto irrepresentativo. Adolpho não agüentava mais a vagabundagem. Cedi. Me apresentei à Panair, Adolpho tinha amigos na direção.

Fiz um teste de inglês e o malfadado QI. “Passei.” Um certo Cooper Cooper (sic) me deu boas-vindas. A Panair era subsidiária da Pan Am e nossa única bandeira à Europa (a Varig não arrancara ainda, existindo apenas regionalmente, se não me engano). Proliferavam companhias, inclusive uma, Lóide Aéreo, conhecida como “Jesus está chamando”, tal a velhice dos aviões, visível a olho nu. O que isso representava, pela disparidade de equipamento, em queima de divisas, dispensa comentários. Até um dos irmãos de Marcelo, o mais boêmio e cheio de charme e inteligência, Haroldo, fundara a Nacional (morreu num desastre de automóvel, afogado no canal do Rio Comprido, em companhia de estrela de TV, Sônia Ketter). Haroldo pilotava. Nesse amadorismo todo não resta dúvida que a aviação uniu o vasto continente Brasil. Uniu bem à brasileira, de início para uma elite que podia pagar as passagens. Leiam o seguinte, mas sentados: quando um cidadão comprava passagem de primeira classe, era um funcionário da direção que ia à casa dele, levá-la em mãos. Paparicávamos à abjecão os mais intoleráveis fregueses. Hoje, aqui, nos EUA, discos nos respondem e aguardamos “horas” que a voz humana nos atenda. Os aeroportos sugerem o Maracanã em decisão do campeonato do Flamengo. Até na primeira classe o espaço é inadequado e não se escapa da batalha da bagagem. Não há pior investimento de capital do que malas caras. Em três viagens viram molambos.

Bagagem, parece, sempre foi problema insolúvel em aviação. Ou seja, não existe computador ou controle que impeça desvios, irritando democraticamente primeira e segunda classes. As companhias se lixam. Não quer viajar conosco, passe bem. No nosso tempo diferente, de cortejar uma população inocente de tecnologia a reconhecer as utilidades do pássaro de ferro, reagíamos rastejando diante dos insatisfeitos. Dado: é vergonhoso, mas desconheço estados abaixo de São Paulo. Nunca estive na Bahia ou no Espírito Santo. Mas conheço todos os aeroportos do país aonde fui enviado procurando descobrir a bagagem do Dr. fulano de tal que, destinada ao Rio, desaparecera, sendo redescoberta (às vezes) em Belém do Pará.

Fui recebido por um chefe (Pinto também, ou alucino?) “como um filho”, o que me coloca automaticamente de pé atrás. Tímido, eu disse que não sabia se o “8 às 5h30” combinaria comigo. Bobagem, cacarejou (se é que pinto...). A Panair era uma grande família, e, de concreto, “não havia horário”. Terminado o trabalho, go home. Magnífico, certo? Bem, não havia horário porque trabalhávamos 24 horas ao dia. Inúmeras vezes me chamaram de madrugada. E os colegas tinham paixão pelo trabalho, apesar do salário baixo. Sentiam-se pioneiros da maravilha

unificadora nacional. Meus interesses eram outros. Uma noite, escapei. Boris Godunov, nunca visto, estava no Municipal. Tomei banho. Vinha de Porto Alegre (aeroporto). Comecei a me vestir. No dia seguinte, senti as calças na mão. Dormira enfiando as calças até o joelho. Fui à máquina de escrever e bati carta de demissão em caráter irrevogável. Adolpho explodiu.

Da Panair, à parte pilotos que julgavam voar tão arriscado quanto subir num elevador, enquanto contavam que pifava isso e aquilo em toda viagem, lembro Luís dos Santos Jacinto, colega, mais velho, em posição diferente (superior à minha, esqueci qual). Família conhecida, pouco dinheiro. De uma beleza incomum, enlouquecia mulheres. Teve um caso com Lana Turner, que de Hollywood o bombardeava de telegramas, não respondidos. Uma resistência extraordinária. Bebia até as 5 da manhã e aparecia impávido às 8, no escritório. Um gentleman, mais saído de algum romance de Evelyn Waugh do que de “nossa sociedade”, a que tinha horror, pelo provincianismo. Luís desconhecia freios, zombava, sempre amavelmente, de pruridos. Pouco se importava do que falavam dele, o diabo, na época; hoje passaria despercebido. Saímos juntos algumas vezes, no grupo dele, bastante diferente do meu, mas respeitador das posições de cada um. Em retrospecto, aliás, acho que até os quebradores de bares, quando não quebrando, eram menos ofensivos esteticamente do que os cafajestes atuais, que se limitam a falar alto e a nos imporem uma presença ostentatória. Fomos presos uma noite, treze, juro, porque o delegado repetia escandalizado o número, no MG de dois lugares de Luís, em frente do Café Bonfim, uma das tradições da cidade, aberto a noite inteira, tradição enterrada com tanta coisa mais. Andávamos, os treze, na contramão da Avenida Copacabana. O delegado, ao ouvir o nome da maioria dos indiciados, limitou-se a uma advertência. Brasil.

Onde andará Luís? Espero que na Europa ou em qualquer lugar distante do Rio presente.

Neste mesmo Bonfim, conheci Brutus Pedreira, grande influência do teatro brasileiro, como organizador e tradutor, e um dos meus melhores amigos. Outro gentleman, do Sul, que achava o Rio estragado quando os gaúchos conterrâneos tomaram a cidade em 1930. Tinha sido pianista prodígio, estimulado por Rubinstein. Me introduziu ao simbolismo musical e poético, ala francesa, que liguei à inglesa. Brutus sofreu sífilis em último grau, então tratável com choque de malária. Recuperou-se da doença, mas não de todo o equilíbrio, andava em semiziguezague, e foi forçado a desistir do piano. Um homem culto disponível. Bem relacionado. Veio-lhe a idéia de criar uma ensemble teatral, inexistente no Brasil, onde o comum, o único, era o ator famoso, Procópio, Jaime Costa, etc., se exibir cercado de gente apanhada na Cinelândia, iluminação de cozinha, cenários pintados, ausência de diretor. Um grupo de canastrões, o que não é pejorativo. Canastrão é quem sempre representa a si próprio. A velha guarda, de Procópio a Dercy, tinha talento e presença. Apenas não se disciplinava ao teatro moderno, como o país... Autores de fama, Joracy Camargo (cujo Deus lhe pague ganhou reputação de drama social), Henrique Pongetti e, adiante, Guilherme Figueiredo.

Brutus formou Os Comediantes. Não havia estrelas. Havia atores, ou, pelo menos, tentavam comportar-se como parte de um conjunto. Trouxe Ziembinski, ator e diretor polonês fugido de Hitler, para dirigir peças. Os Comediantes estouraram em 1943 com Vestido de noiva, do quase desconhecido Nelson Rodrigues. No papel principal, Evangelina Guinle, o que só não deu escândalo social porque a companhia se mantinha amadora e o Guinle (e o Rocha Miranda, do marido) foram substituídos por pseudônimo. O espetáculo não é do meu tempo de percepção. É de 1943. Um marco. A idéia de que teatro era algo mais do que o humor de Procópio semeou. Atingiu Dulcina e Odilon, minha estréia como espectador, montando César e Cleópatra, de Shaw, A filha do Iório, de D’Annunzio, Noel Coward, Chuva, do conto de Maugham, etc. Uma nova mentalidade se esboçava. Vi tudo.

Brutus trouxera Ibsen e O’Neill, pesos pesados, à parte encaminhar Nelson Rodrigues (não que Vestido de noiva esteja no nível de obras-primas como Senhoras dos afogados, Álbum de família e Dorotéia, esta antecipando Ionesco, Pinter, etc., no que tolos críticos batizaram de “teatro do absurdo”). Eu lera e lia, sem parar. Sempre gostei de diálogos, e teatro, como a tantos tímidos, parecia um meio de berrar de forma coerente e inteligente o que sufocava dentro de mim. Mas à parte os gregos, de que tínhamos boas traduções em português clássico, ou Shakespeare, que atravessei linha por linha, de dicionário na mão, achava que o drama, banalizado pela intromissão de tanta gente, de atores a eletricistas, não se equiparava à individualidade do romance e da poesia.

Essa ilusão desapareceu em 1947 (me parece) quando o governo francês, ansioso de recuperar a influência cultural omissa na Segunda Guerra, nos enviou a companhia de Jean-Louis Barrault.

Pela primeira vez vi ensemble totalmente profissional, que, dos “desprezíveis” eletricistas a atores, funcionava criando uma intimidade entre espectador e palco; essa relação, quando estabelecida (o que é raro), tem ressonância imediata e envolvente que só encontro igual nesse evento ainda mais incomum, ópera encenada e cantada à perfeição. O Hamlet de Barrault, apesar da tradução matar inevitavelmente muito do original (o que o próprio tradutor, Gide, admitiu, comparando francês a um piano sem pedal), ficou anos comigo. Das brincadeiras de Marivaux, ilegíveis, a companhia fazia outra forma de teatro, em que a imaginação cênica usa o texto como trampolim criador. E pouco depois, ou quase ao mesmo tempo, vimos os filmes Henry V, de Laurence Olivier, Shakespeare engatinhando (mais alto que a maioria dos autores na maturidade), também estendendo a riqueza de recursos do teatro a quilômetros das possibilidades da câmera; e, em seguida, o Hamlet freudiano, que, excluindo monólogos insubstituíveis (“What a rogue and peasant slave am I” e “How ali occasions inform against me”) e reduzindo bastante a peça nos confins do complexo de Édipo, ainda assim nos mostrou o que era um grande ator, ao contrário dos divertidos canastrões a que nos habituáramos. Tentei meus Farrapos de novo, que saíram farrapos. Não desisto fácil.

Em verdade, o governo francês não precisava se preocupar com perda de influência. Os Comediantes, Brutus me contou, nasceram, em idéia, de uma companhia de Louis Jouvet, que visitava as Américas, em 1940, quando a França caiu diante da Alemanha, e Jouvet preferiu permanecer em tournée permanente. Contratou no Rio uma jovem francesa de talento, formada no conserva-toire da Comédie, em Paris, “la petite Risner”, mais conhecida como Madame Morineau. Quis levá-la de volta com ele. Morineau preferiu marido e família, deitando raiz no Brasil. Quando fomos amigos e trabalhamos juntos, antes de eu virar crítico de teatro, naturalmente, não se disse arrependida. Separada do marido, lhe restava a filha, me falha à memória o nome (Henriqueta?), um amor de moça, talentosa, mas preferindo o casamento e família. Um caso que requer urgente pesquisa feminista. Dois casos, em verdade.

Assim é que, procurando conter Adolpho, quando resolvi tentar o Teatro do Estudante, eu não era propriamente um estranho ao teatro. Nunca me ocorrera representar, imaginem, com a minha timidez. Não havia perigo disso, descobri, no Teatro do Estudante.

Lia Paschoal Carlos Magno, crítico de teatro do Correio da Manhã, o jornal que entrava em nossa casa. Não me parecia conhecer os textos que eu amava, limitando-se a rápidas observações da conduta dos atores,

rapidíssimas, em verdade, porque em geral dormia profundamente na primeira cena, acordando apenas nos intervalos e no final. Escrevia à inglesa, chamando os atores de Sr. e Sra., Sra. Dercy Gonçalves, sem dúvida.

Paschoal produzia e promovia o teatro. Jogara um Hamlet em cena que conquistou público e críticos. Era uma porcaria indescritível, nada, literalmente, correspondendo ao original. Mas o protagonista, Sérgio Cardoso, tinha talento. Maria Fernanda, a Ofélia, entrara no castelo errado, confundindo Elsinore com a mansão de Jorge Amado em Salvador. Tem, apesar disso, talento e está conosco até hoje (Sérgio Cardoso morreu jovem, nunca se recuperando da impostura do sucesso inicial para converter-se no ator que existia dentro dele, apesar de algumas performances memoráveis no tempo rápido que se submeteu à disciplina do Teatro Brasileiro de Comédia em São Paulo). Sérgio Brito, o Rei Cláudio, era muito ruim. Hoje, não é. Evoluiu como intérprete, é diretor e produtor, uma das bases do que resta de teatro no Brasil em face da indiferença popular e da rendição cultural à TV.

O TE montara várias peças e lançara outras pessoas. Lembro Myriam Carmem, excelente criatura, presença forte, Lady Macbeth. Na tradição da peça, que dá azar, toc, etc., um dia as feiticeiras do texto lhe queimaram a bunda; noutro, na cena da loucura, em négligé, o dito ficou preso aos bastidores e quase Myriam entra nua em cena; de resto, deveria ser assim que a Lady andava à noite, segundo o estimado crítico Kenneth Tynan (duvido, no frio dos castelos da Escócia). Macbeth, nome do ator esquecido (vivi demais e conheci gente demais, este último excesso inescapável a jornalistas), uma noite se excitou tanto na luta final contra McDuff, que este, melhor esgrimista (os duelos pareciam verossímeis), cortou-lhe o dedo, arrancando gritos lancinantes de Macbeth, muito admirados pela crítica. Em Romeu e Julieta, Narto Lanza e Sílvia Orthoff sugeriam promessas. Sílvia permanece escrevendo e dirigindo teatro infantil. É minha amiga. Narto preferiu a diplomacia. Suicidou-se recentemente.

Convidei Marcelo a ir comigo a Paschoal, ao ler que o TE montaria tragédias gregas, minha paixão, e, melhor, em face do clima com Adolpho, seguiria em excursão de três meses ao Norte e Nordeste, locais onde nunca pusera os pés (excetuados os aeroportos) e, depois da viagem, não mais voltei. Adolpho, sempre suscetível à cultura, não bronqueou, achando apenas que eu perderia mais tempo. Me sugeriu o Itamarati. A origem dessa idéia, dado o meu tom rude habitual, aparência esculhambadíssima, cinismo brutal, etc., me escapa. Adolpho talvez não me notasse direito, enfurnado na própria imaginação, e a nova mulher, Lourdes, sem a timidez de Irene, dava-lhe carinho, solicitude e vida calma. Fred e eu, a princípio, fomos abomináveis em relação a Lourdes. Me redimi em tempo e permanecemos muito amigos.

Marcelo, aos 23 anos, foi o primeiro hippie brasileiro. Cabelos e barba nazarenos, calças cáqui remendadas, botas embranquecidas pelo uso, uma indiferença total às graças sociais, o que parecia, curiosamente, excitar as mulheres, as mais variadas e algumas imencionáveis, porque o furor, ainda hoje, seria certo. Os pais lhe exigiam, que Adolpho, uma “decisão na vida”. Marcelo, cercado de um pastor-alemão feroz, Nero, e um são-bernardo, Sultão, manso, que provocado insistentemente por Nero o surrava de quando em quando, partilhava meu desdém pelas coisas “desse mundo”. Foi expulso do Santo Inácio porque esfolou a perna de um colega, a gilete, Brenildo Meireles, me parece. Na passagem (curta) de serviço militar obrigatório quase subverteu o quartel à zorra. Jogávamos, bebíamos, delinqüíamos. Pretendíamos continuar assim indefinidamente.

Aceitou o que propus, pelos mesmos motivos, mais ou menos: três meses fora de casa, longe das recriminações da família. Cortou o cabelo, fez a barba e banhou-se, concessões que sublinhavam nosso desejo de fugir. A idéia era, pela nossa altura não muito comum entre brasileiros, nos oferecermos a Paschoal como soldados, mudos e fortes, que acompanham os heróis e anti-heróis de Eurípides (Hécuba) e Sófocles (Antígona e Édipo, a que o tradutor, prenunciando o resto do trabalho, adicionara um “rei”, resultando em “porrei”). Nada mais.

Meu senso de direção é nenhum. Sempre confio que a pessoa que esteja comigo me conduza. Com Marcelo isso era perigoso, ou, no mínimo, cansativo. A primeira vez que subi ao Sítio Oriente, em Secretário, ele calculou errado o horário de ônibus, e andamos (precisamente) oito quilômetros a pé, carregados de malas, sob o sol brasileiro. Rumo a Paschoal, o cego guiando o cego, escalamos a Rua Hermenegildo de Barros em Santa Teresa, suando álcool e tossindo Oliu ainda sem a grande inovação que Rubem Braga celebrizou, o filtro. Propus várias vezes dúvidas à legitimidade de Marcelo que, em resposta, me comandava ao impossível, aquele palavrão de partícula, F...

Fomos acolhidos amavelmente. Paschoal era cercado de irmãos, Rosa e Orlanda, e sobrinhos. Ficava visível a diferença social entre ele e o resto. Rosa e Orlanda tinham maneira única de pronunciar certas palavras. Sexo, por exemplo, saía secho. Constellation, o avião da moda, “costeleta”. Os sobrinhos viam no tio uma mina de ouro. Walmir Ayala, um amigo, poeta e jornalista de arte, me disse que Paschoal morreu só, abandonado, pobre, numa enfermaria. Acredito.

Eu era muito feio, cheio de espinhas (nos dois sentidos), e não interessei muito a Paschoal, exceto que se bestificou literalmente de que o bagulho conhecesse os textos de Hécuba, Édipo, Antígona e Romeu e Julieta, e para me fazer de importante (e disfarçar a timidez), comecei a perguntar sobre o estilo das encenações, do que não recebi resposta, tendo finalmente minha curiosidade satisfeita quando ensaiamos. Já Marcelo, apesar da acne também, das depredações de anos de orgia, tinha, repito, um enorme charme sexual, e o nosso mentor olhou-o cobiçosamente.

Paschoal não escondia o homossexualismo, o que, entre os inúmeros homossexuais do Itamarati, os hipócritas, lhe custou promoções e postos. Embaixador, nunca o enviaram a qualquer capital, onde teria brilhado bem mais que a maioria dos bolhas que conheço.

Marcelo e eu não ligamos a mínima à reputação bicharoca do TE. Já se disse que os dois temas preferidos da humanidade, em mentira, são sexo e dinheiro. A suposta separação rígida entre héteros e homos na minha geração certamente não correspondia à experiência. No nosso grupo em Botafogo, vários dos rapazes freqüentavam e tiveram casos homossexuais. Chamavam isso de “agitar”, “meia”, no meu tempo de infância, sem penetração. Aqui, ó. Homossexuais ricos ou socialmente eminentes eram os preferidos, porque abriam a esses companheiros de classe média luxos e situações que conheciam de cinema. Nenhum, que eu saiba, se “contagiou”, o que é, repito, asneira propagada por ignorantes que, embora parte, são eles próprios homossexuais enrustidos, os que tentam resistir na inversão paranóide de ódio e guerra aos homossexuais. Lembro-me, em particular, de uma dupla que namorava irmãs. De tanto ouvir falar em “agitação”, deixaram as namoradas (com quem casaram, produziram filhos, etc.) e passaram um fim de semana juntos, num hotel. Voltaram radiantes. Se continuam radiantes até hoje, não sei. Ambos seguiram carreira que não mencionarei, se destacando a altos postos, e omito nomes porque detesto esse tipo de fofoca, e a carreira porque a “abertura” pode ser o buraco onde desaba a avalanche.

Marcelo e eu nunca nos sentimos atraídos pela “agitação”. Tenho certeza de que, se vontade houvesse, nós cederíamos sem hesitação, culpa, ou temor da boca dos idiotas. Fazíamos nossos próprios valores, lixando-nos para a opinião do próximo. Quando me tornei conhecido, claro, veio o folclore habitual que persegue a fama no Brasil; em geral o indigitado é corno, ladrão, impotente, ou esconde doenças incuráveis. Escapei do ladrão e corno, este porque então solteiro, e ladrão porque me julgavam à esquerda de Prestes.

A mãe de uma namorada me disse uma vez que temia pela nossa relação, dada a minha ficha de alcoólatra, cocainômano e homossexual. Respondi-lhe que se homossexual ela nada precisava temer quanto à filha, que não exibia vocação lésbica. O resto, francamente, sugeri que fizesse o que bem entendesse. Não dou satisfações pessoais a ninguém. Me arrependi até de ter respondido obliquamente a parte da acusação. Já contei o número de pessoas cuja opinião intelectual respeito no Brasil. É dúzia de livreiro, 13.0 resto é ralé ou motivo de total indiferença.

No TE, como no teatro brasileiro, havia héteros e homos. Conviviam sem hostilidade, ninguém assumindo palmatória do próximo. O show business sempre se marcou pela tolerância em costumes. É das melhores qualidades do meio. Até o troglodita Ronald Reagan, nos EUA, tomou posição que destruiu uma ofensiva que visava a retirar, pelo voto, direitos civis aos homossexuais. Sendo o direitista supremo, liquidou (temporariamente. Os repressivos não morrem, dormem apenas) o assunto. Por quê? Simples. Reagan passou a maior parte da vida em Hollywood. Fez, ator, inúmeros amigos homossexuais no cinema. Sentiu na carne o absurdo de se vedar direitos a quem não é maioria heterossexual. Talvez conheça o comentário de Gore Vidal, que se freqüência é o critério determinante de normalidade, o punheteiro é o normal verdadeiro.

O próprio Paschoal dizia que há dois tipos de ator no Brasil (ele não mencionava as mulheres), um é homo. O outro fica na Cinelândia, de pernas abertas, em pé, acariciando o saco e se oferecendo às mulheres. No meu tempo, perfeito, ou quase. Quando crítico, eu diria que os homos predominavam, tanto que um dos apelidos, posto pelos próprios homos, do Teatro Brasileiro de Comédia, a principal companhia do país, era “Casa de Bernarda Alba”, título da peça de Lorca onde só há mulheres. Nos atores da geração de Procópio, os homos foram raros. Quando o teatro brasileiro se polarizou politicamente, na década de 1960, os héteros voltaram à maioria. Mas insisto em que, em toda minha experiência no palco e de crítico, o tema não excitava um milésimo das tensões e intolerância típicas da sociedade dos “desgraçados”, a gente, na nossa opinião, fora do teatro.

Paschoal estava longe de ser um homossexual agressivo, quando o conheci. Se colar, colou, se não, tudo bem. É mentira deslavada que só desse papéis principais a homos. Na nossa temporada, os melhores papéis couberam a Marcelo e a Cristóvão Filho, ambos héteros. O único homo de destaque acontecia ser o melhor ator de nós todos. Antes, Sérgio Cardoso foi Hamlet pelo talento e não hábitos sexuais (de resto, variáveis). O Macbeth de nome esquecido, um hétero agressivo. Nenhuma das moças do nosso grupo, ou dos anteriores, praticava lesbianismo. Pelo contrário, de vocação, em geral, eram cricris.

Paschoal escrevera romances (um traduzido em inglês) e poemas. Foi na Inglaterra, durante a Segunda Guerra, que emergiu personalidade. No consulado em Liverpool, as bombas o apavoraram tanto que desenvolveu o cacoete célebre, de virar abaixo compulsivamente o canto direito da boca, quando nervoso. Uma vez visitamos um asilo de loucos em Belém do Pará. Esgares adoidados. Paschoal: “Meu filho, esses aí estão piores que eu”. A voz de Paschoal. Inconfundível, meio canora, com as inflexões ondulantes que adquiriu, imagino, ouvindo a elite inglesa. Quem o conheceu sempre tentava imitá-la de brincadeira. Áureo Nonato, o compositor, reproduz à perfeição. Jaime Maurício, crítico de arte e cria de Paschoal, se aproxima.

Em Londres, Paschoal entrou no teatro. Escreveu peças, mas não é isso que o fez popular. Abriu apartamento de diplomata, numa época de intensa austeridade dos ingleses, a atores famosos, John Gielgud, Beatrix Lehman, Laurence Olivier, etc., alguns homossexuais. Teve um grande caso de amor com o bissexual Michael Redgrave, pai dos explosivos Corin e Vanessa e da “mundo livre” Lynn. Jovem bonito, cheio de charme, apelidaram-no The Brazilian Bombshell, o apelido de Carmen Miranda em Hollywood. Sucesso absoluto.

De volta ao Brasil, meteu-se no que sabia melhor: promoção das artes. Não é o fundador da Casa do Estudante, ou sequer do Teatro do Estudante do Brasil. Tanto que os lesados da criação exigiram e conseguiram que retirasse o “do Brasil” do TE, usávamos apenas Teatro do Estudante, bastante vago, já que outros grupos no país, de estudantes, poderiam pleitear o mesmo nome. Mas ninguém batia Paschoal em promoção. Ele “fez” Sérgio Cardoso e outros escrevendo sem parar sobre eles, valendo-se do destaque incontestado do Correio da Manhã, enquanto o Rio foi capital, e pré-renovação, nos anos 60, do Jornal do Brasil, que antes só se abria à procura de empregadas.

Marcelo e eu percebemos rapidamente a impostura. Pedíramos papéis de soldados mudos e não participantes diretos nas peças. Ganhamos, ele, sete papéis, inclusive o protagonista em O noviço, de Martins Penna, e eu, seis, coadjuvantes, mas alguns fortes, como Frei Lourenço em Romeu e Julieta, Ulisses em Hécuba e Engstrand em Espectros, de Ibsen. Nenhum teste de voz sequer. Simpatia e decisão caprichosas de Paschoal. De experimentados no grupo havia apenas Ruy Cavalcanti e Míriam Carmem, remanescentes de outras temporadas. Outros novos, sem qualquer experiência, também foram escolhidos à la Paschoal. Cristóvão Filho, de uma família portuguesa, tendo de acordar às 4 da manhã, trabalhando no mercado, louco por teatro, foi escolhido sem o menor preparo cultural sequer para o quase intransponível Édipo. Na tradução péssima do texto dizia a folhas tantas, numa das cenas chaves da peça, “Parece-me que este homem quer tergiversar”, tímido, bonito, excelente caráter, sofrendo pressão da família, que o imaginava “perdido”, talentoso ao extremo, apesar de um problema de voz que qualquer professor real corrigiria, meses depois encheu-se de coragem e me perguntou o significado de “tergiversar”.

Marcelo e eu topamos por dois motivos: primeiro, sentindo o ambiente, com a nossa experiência do “mundo”, aquilo era mais uma contestação ao convencional, sem ninguém presente que nos pudesse infligir chateações de qualquer espécie, que não pudéssemos tirar de letra, até pela violência física, se fosse o caso. A maioria dos colegas vinha de famílias de pequena classe média, ainda presas a inibições que Marcelo e eu descartáramos no ginásio, no Santo Inácio. E, claro, imaginamos, assim que os diretores nos vissem no palco, absolutamente despojados de talento, nos expulsariam.

Não poderíamos estar mais enganados. Não havia diretores. Quer dizer, pessoas ocupavam os cargos, mas não as funções. D. Esther Leão é um exemplo. Ao marcar (distribuir movimentos dos atores) Antígona, de Sófocles, obra de gênio, que expressa como nenhuma o conflito de direito individual e direito do Estado, modelo da estética de Hegel, foi perguntada numa cena inicial pela protagonista, Luciana, uma estudiosa de teatro, se devia carregar ali na emoção, ou contê-la de reserva às cenas do clímax. D. Esther respondeu: “Num sei, minh fiulha, porqui num li o rsto du peça” (sic). Ruy Cavalcanti, num papel menor de mensageiro, elaborou uma entrada espetacular que caía de joelhos e estendia o braço saudando o rei Creon. D. Esther: “Ó Ruy, stá bunit, mas tu nun achas ess gest meiu fuxista”? (sic).

E havia Kossóvski, meu diretor em Espectros. Disse que nos dirigiria seguindo o (inexistente) método de Stanislávski. Ou seja, que encontrássemos em nós os equivalentes dos sentimentos das personagens de Ibsen. Até aí, tudo bem, é uma sólida máxima diretorial em realismo (há, claro, outras possibilidades). Agora, se espera do diretor que, a) explique a peça como um todo; b) que explique a equivalência que o intérprete deve escavar de si próprio. Nenhuma palavra de Kossóvski, nem sequer que Espectros, em particular a protagonista, a Sra. Alving, é uma continuação de Casa de bonecas. A Sra. Alving é a Nora, a “boneca”, se tivesse ficado em casa. Eu lera isso em Bernard Shaw, ou George Jean Nathan. Um dia, timidamente, sugeri a interpretação a Kossóvski. Ele pareceu genuína e agradavelmente surpreendido. “Bom achado, meu filho, olha aqui, pessoal, ouçam o Paulo Francis.” Paschoal já decidira que Franz Heilborn, junto ao público, seria impronunciável e me batizara “Paulo Francis”. Aceitei porque achava que aquela brincadeira jamais passaria dos limites da casa dele, que, no subterrâneo, continha o Teatro Duse, minúsculo, onde “ensaiávamos”.

E, finalmente, havia S. F., mais conhecido como “a sofisticada”, pelas costas, pelos íntimos. Ator sem nenhum talento, estudara, ou dizia ter estudado, teatro em Paris. Viveu em Paris, às custas de imensos sacrifícios de uma mulher com quem se casou e que explorava, pois obviamente homossexual, o que pretendia esconder. Repito, ali ninguém ligava para as inclinações sexuais dos outros. Logo, o disfarce de S.F escondia outra coisa, à parte o medo da reação da sociedade a homos, escondia um caráter esquivo, intrigante e malicioso. Apesar de inteligente e sensível, conhecendo mais teatro que Paschoal,

Kossóvski, Esther e nós todos, nunca produziu nada na vida. Foi o único do grupo a quem Paschoal chegou a odiar. Bajulava Paschoal e o desfazia quando conosco. Deus, às vezes, castiga.

Ainda assim nos deu lições preciosas de direção, representar, iluminação, conjunto. Explicou linha a linha o texto de Romeu e Julieta, que dirigiu, sem dúvida o menos ruim dos espetáculos que apresentamos. Romeu e Julieta se beneficiava de uma tradução em verso de Onestaldo Pennafort, que há quem não goste, mas ao menos era, quase sempre, um texto dizível. Depois de tentarmos dissuadir o tradutor dos gregos, Justino não sei de quantas, que palavras como “delongas” não cabem em teatro, eu próprio reescrevi várias passagens da tradução, retirando focos da praga acadêmica de Justino (professor de grego, bom rapaz. O problema é que nunca aprendera português de gente).

Romeu e Julieta teve uma carreira interessante no Teatro do Estudante. Abriu-o, se não me engano, em 1938, com Sônia Oiticica, rosto belíssimo, e Paulo Gracindo, outro que, talentoso, entrou na cidade errada. Ia a Salvador e terminou em Verona. É um bom ator, quando contido dos muitos vícios que intérpretes desenvolvem sem freio de direção. Ambos, Sônia e Paulo, voltaram aos vícios nas novelas da TV Globo, em que não há direção ou crítica.

Já na versão Sílvia Orthoff e Narto Lanza, o pai de Romeu, Montéquio, usando a tradução de Onestaldo, cismou que na fala final da personagem seria construída uma “estátua de urubu” (sic) em homenagem aos trágicos amantes. O texto, bem entendido, fala de “estátua de ouro puro”. Onestaldo, um gentleman, vendo ensaio corrido, protestou delicadamente o equívoco. O ator, me esqueço o nome, reagiu violentamente, insistindo na adequação de “urubu” à tragédia e, claro, urubu ficou.

Na nossa versão, o pai de Julieta, Capuleto, conta que a Sra. Capuleto “morreu de dor” por causa da filha morta. Depois de um mês e meio em cartaz, no Norte e Nordeste, alguém notou que a referida senhora, interpretada por Ana Edler, aparecia ressurrecta, ao lado do marido, enquanto este lhe anunciava a morte... Ana chorava tanto que lhe dizíamos baixinho, “que que há, perdeu o cabaci-nho?” e outras amabilidades. Mas era tal a esculhambação que “sobreviveu” até quase o fim da temporada.

Durante seis meses ensaiamos naquela base. Alguma coisa saiu. Não há dúvida que parte de representar é uma assimilação lenta e segura, que cobre toda nossa personalidade, de outra pessoa, via texto, atitudes, etc. Tudo feito em cena é rigorosamente marcado, quase que ao mínimo gesto. Não há improvisações. E seis meses de horas de convívio diário, somos criaturas condicionáveis, produziram “interpretações”. O fato de que raramente tinham algo a ver com as intenções dos autores, ou que não seguissem a gradualização e modulações que diretores de verdade conduzem, nada disso impedia que o espetáculo corresse, baseado no talento (ou falta) de cada um, e que existisse entre nós uma familiaridade em cena que ao olho destreinado sugerisse ensemble. E vários eram talentosos, Ruy, Cristóvão, Míriam, Ana Edler, Luciana, Jorge Chaia, Marcelo, eu próprio e outros mais que omito apenas pela falta de memória.

Nada funcionava. Cenógrafos e figurinistas sofreram mutilação de projetos. Trajes de outras peças eram “adaptados” às novas produções. Meu Ulisses em Hécuba, para citar um exemplo, tinha couro e outros petrechos autênticos sobre o saiote preto e branco. Na prática, restou o saiote, que me fazia parecer moça do Botafogo (logo de que clube), uma baliza, talvez. Romeu vestia a roupa de Oberon. O próprio texto de Onestaldo provocou dificuldades, dessa vez não atribuíveis a ator “pancada”. Chaia, Capuleto, no falso enterro de Julieta, falava da filha “desflorada”, o que era acompanhado das sacudidelas de riso de todos, “morta” inclusive, moreninha brasileira, nosso tipo mais popular, Celma, que durante a viagem fazia imitações esplêndidas das irmãs Batista e Dalva de Oliveira, cantando “Eu gostei tanto, quando me contaram”, etc. A cena terminou cortada. No final, Frei Lourenço, eu, entrava no túmulo, descobria o corpo de Romeu e, em seguida, o do Conde Páris. Dizia: “Como, Páris também”, que soava, claro, “pares também”. Gargalhadas. Convenci Onestaldo a reduzir a “o Conde Páris!” inflexionando a contento o pasmo e dor do frei trapalhão.

A promoção funcionava. Paschoal conseguiu hospedagem gratuita de todos os governadores dos estados que visitaríamos. Verbas do Ministério do Trabalho para que em cada cidade fizéssemos um espetáculo aos operários, entrada livre. E fomos a Getúlio Vargas, pedir transporte. A única vez que vi, em pessoa, a figura. Primeiro apareceu o secretário particular, cortesão perfeito, Roberto Alves. Ao fundo, Gregório. Na “República do Galeão”, na revolta iniciada contra Getúlio pela FAB, em 1954, Gregório acusou Alves de “espique(r)”, “Roberto, tu é um espique”...

Getúlio entrou com a aura que marca toda pessoa que os meios visuais de comunicação nos implantam na retina. De charuto na mão, sorridente, atento a si próprio apenas, projetando uma imagem que parece dirigida a nós, mas que em verdade é o auto-reflexo do poder. Jogava a cabeça para trás, rindo, movimento que, a meu ver, pegou de Franklin Roosevelt, que gostava dele. Paschoal pediu dois aviões, um que carregasse a parafernália cênica, outro, o elenco. Getúlio deu um, comentando: “Levei o avião a Teresina. Você vai levar Sófocles”. Estava certo quanto ao avião.

A viagem foi inconfortável, longa. Levamos 18 horas do Rio a Belém e de lá a Manaus mais seis. Não havia assentos, e, sim, bancos de pára-quedistas, o cenário e trajes amontoados na frente, nós espremidos nos bancos. Foi nesses vôos que conversei muito com Paschoal. Ele não dormia, de medo, rezando bastante, de Novo Testamento na mão. Eu nunca dormi em avião. Durmo em automóvel, talvez porque este chateie pela vista de estradas. De avião, apesar da palavra insistente do piloto, não se vê nada e, entregue a mim mesmo, não conseguia relaxar, nem sequer de estado a estado, em que nas últimas noites alguns de nós tomávamos pileques, passando sem cama (para dormir).

Não nesse primeiro vôo. Para quebrar a monotonia, Marcelo e eu convidamos aquelas pobres crianças, os rapazes, a um sete e meio. O jogo tem três regras fundamentais: só se ganha na banca. Fora da banca, se possível blefar, não passando de cinco pontos (7,5 é o máximo, um 7 e figura é 7 meio real, que passa a banca ao vencedor. O banqueiro distribui uma carta fechada e as demais abertas. Contesta as que tira para si próprio às dos outros. Ganha até se houver empate); e, se recebendo um 7, pedir carta, porque há 12 figuras no baralho (em que são excluídos 8s, 9s e 10s), as chances do real (e a banca) são grandes. Os outros não conheciam esses básicos. Acho que na altura da Bahia, Marcelo e eu já os havíamos limpado completamente, inclusive o mais sofisticado, Eugênio Carlos, bela figura mas decididamente não de palco. Teria dado um galã de cinema, o que de resto tentou, inclusive em Hollywood. De bom humor, divertido, nada bobo. Marcelo, ele e eu resolvemos pedir uma diária a Paschoal, que no fim de contas amealharia bilheterias fartas pela publicidade prévia e a novidade que qualquer coisa do Rio representava no interior.

Paschoal terminou cedendo, não graciosamente, sob ameaça de greve. Foi meu primeiro ato de “subversão política”. Ganhávamos 50 ao dia. É difícil calcular o valor desses 50, hoje. Não eram 50 cruzeiros, pois tomamos pileques federais no Hotel Amazonas, deixando conta gigantesca de 68 cruzeiros, estes, sim, equivalentes aos cruzeiros da época. Alugamos, Fred irmão e eu, em 1956, um apartamento de quarto e sala, dependências, em Copacabana, por quatro cruzeiros. O apartamento de dois quartos, sala, etc., mobiliado, em que morei antes do golpe de 1964, na Rua Rodolfo Dantas, custava 86 cruzeiros ao mês. Logo imagino que os 50 equivalessem a 500 pratas de hoje, ou 15 milhas mensais (também de 1980). Não pagávamos nada, logo os “alfinetes” foram consumidos em proveito de cada um. Lembro que dava para Eugênio Carlos, Beatriz Veiga e eu almoçarmos, com vinho, num delicioso restaurante francês, A Brasileira, em São Luís do Maranhão. O cálculo ainda assim é pura especulação. A partir da “reforma cambial” que Roberto Campos extraiu do ministro da Fazenda, Lucas Lopes, em 1958, o dinheiro nosso perdeu qualquer realidade.

Falando nisso, dizem que Roberto Campos é agente da CIA. Espero que seja. Ao menos, estaria cumprindo um dever. Se não for, o que pensar dele? É o maior tortu-rador e assassino da nossa História, não em atos diretos, mas pelo que inspira de gabinete. Que motivos, à parte o serviço a outra nação, ou causa, poderiam inspirá-lo? Na CIA, se humanizaria.

A desolação de Manaus, Belém, Fortaleza, Natal, João Pessoa, Teresina, São Luís e Recife. E nem fui ao interior. As capitais bastaram. Nunca imaginei que existisse algo igual na terra. A subnutrição, a miséria, o atraso, a inconsciência quase absoluta do que é bem-estar, do que é uma sociedade civil, o isolamento cultural acima do crível, o atordoamento do ser humano bestializado por um clima (nos dois sentidos do termo) intolerável, inconcebível nos meus confortos de classe média, do circuito Zona

Sul do Rio, que agora me sugeriam luxos aristocráticos. E, mais chocante, a passividade dócil, amiga, infantil, a festa que nos faziam. Pela primeira vez vi o Brasil, vi a nu o crime secular de uma classe dirigente que em crueldade conhece poucos paralelos, que se esconde em falsa afabilidade e em patriotismo, aqui não o último, mas o primeiro e único refúgio dos velhacos.

Quando, a partir de 1952, comecei a estudar a revolução bolchevique, estudo que é produto direto dessa viagem, a violência me feriu, porque acredito e sinto compaixão, ou piedade animal, se preferirem, até pela vítima que merece tudo que recebe, mas o raciocínio por trás da cirurgia radical, que Lênin e Trótski iniciaram e Stálin completou, cheio de deturpações e monstruosidades desnecessárias, me pareceu lógico e coerente. A revolução comprime e às vezes exacerba o horror em nome de suprimi-lo de vez. Será pior que a violência “normal”, do desleixo, da negligência em “nome da lei”, das sociedades que se arrastam séculos em injustiças crônicas e não minoradas?

A questão revolucionária que ponho em xeque, no mundo de hoje, em que revoluções meramente nacionais são forçadas, onde ocorrem (sempre em países miseráveis), a se atrelarem às superpotências, é se os meios trazem os fins propostos, ou se apenas mudam a fachada da tirania e sofrimento. Quem disse que os meios justificam os fins não foram os bolcheviques e sim os jesuítas. E o que disseram é que os meios não podem ser julgados independentemente dos fins, o que é muito diferente da simplificação que a direita faz dessa idéia, à parte atribuí-la erroneamente aos comunistas. É lógica elementar. Os jesuítas, propondo uma vida extraterrena e eterna, não precisaram enfrentar as dúvidas dos revolucionários ateus, que pressupõem uma vida única e material. Sacrificá-la assim e a do próximo em nome da História?

O fim do capitalismo me parece certo. Vou fundo ao assunto quando retomar o tema que iniciei no capítulo sobre o golpe de 1964. Por enquanto, deixo claro o que me atraiu ao trotskismo, a idéia da revolução permanente. Ou seja, uma vez que Marx se enganou prevendo que começaria em países ricos e industrializados, que imporiam o socialismo de cima para baixo, a nações dependentes; uma vez que começa, ou começou até hoje, em dependentes e na rabeira do progresso, a solução menos desumana, ao menos em teoria, é procurar alastrá-la de baixo para cima e não cair no ensimesmamento nacionalista do stalinismo, que, em nome da defesa do patrimônio revolucionário, em face do poderio superior do capitalismo, termina adiando às calendas gregas o progresso e desenvolvimento social dos seres humanos colhidos na “vanguarda”, porque dissidências ameaçam a integridade do que é fraco e embrionário, e a tirania tática de autodefesa termina se institucionalizando indefinidamente, tática se torna estratégia, disfarçada em ideologia, o que tem sido, na essência, o stalinismo na política interna dos países em que vingou.

Essas idéias não me vieram de rojão desfilando no Norte e Nordeste. Fincaram apenas raiz, irremovida até hoje. Havia o imediato, o dia-a-dia, os problemas pessoais.

E fomos recebidos como paxás. As “sociedades” locais nos abriram os braços, outros membros, músculos e orifícios. O mito de separação de “direitas” e “desfrutáveis”, já desmascarado no Rio do meu ambiente, se provou igualmente falso onde o diabo perdeu as botas. Em Manaus, havia sete mulheres para cada homem. É possível que, em face dos nativos, mantivessem a reserva de manual. Conosco, não. Bastava apenas escolher. A outra escolha, e isso me surpreendeu um pouco, dada a virilidade enfática dos homens da região, era ainda mais escancarada. Os homos locais, em que incluo prefeitos, chefes de polícia e membros da profissão imencionável, iam aos aeroportos, à la chasse. Nenhuma pretensão de que estivessem lá com outro objetivo. É bem diferente o texto da vida do que ouvimos do púlpito ou lemos nas inscrições dos pilares do establishment, imprensa, etc.

Paschoal, inimitável, num clube em Manaus, quando as moças (o que é praxe local) nos tiravam para dançar: “Pra que você precisa de mulher, meu filho? Você já nasceu”.

As nossas moças do elenco, as que namoravam colegas, se enciumaram com a agressividade das provincianas e a fraqueza da carne dos amados. Muitas juras e perjuras e, principalmente, mentiras, eram audíveis em fim de noite, nos corredores do Hotel Amazonas.

Marcelo e eu já experimentáramos tudo isso, ad nauseam, e não partilhamos o entusiasmo aquisitivo dos colegas, que, no Rio, Zona Norte, provavam no Norte as liberdades que eram rotina na Zona Sul, ao menos no nosso grupo. Organizamos, isto sim, badernas, talvez uma inconsciente reação anárquica ao horror ambiente, que o conforto relativo de que dispúnhamos não conseguia desalojar de nossa sensibilidade. Bebemos o bar do hotel. Organizamos festas em que, numa, de pileque, discursei de uma sacada ao povo de Manaus, sandices e incoerências, lembrando nossos políticos, até que um popular me definiu: “Tu tá bebo”. Certo, amigo, e por que tu tá sóbrio?

O hotel, de luxo, saiu todo errado. Naquele calor, os lençóis eram de nylon, um americanismo estúpido que, mesmo dormindo nus, nos esquentava horrivelmente. A comida, intragável, porque “internacional”. Coisas como batata frita doce e engulhos semelhantes. Só quando provamos os refrescos da terra, de frutas variadas, e caça local, é que comemos bem, ainda que a maioria devolvesse “a chicote” no W. C. O prazer picante e gorduroso. O som de descargas e o consumo de elixir paregórico foram constantes. Meu organismo, nesse tempo, resistia a tudo, uma das poucas saudades reais que tenho da juventude, e atravessei incólume a Amazônia e adjacências, inclusive um hotel em São Luís do Maranhão, em que qualquer comida representava o tiro de arranque geral aos banheiros.

Estreamos e já contei que minha voz ganhou corpo e se quebraram grilhões de timidez. Certo ou errado nos papéis, há poucas sensações tão intensas quanto aparecer num palco em face de centenas de pessoas. É uma grande suruba emocional.

Começa naquele momento em que o contra-regra (que conduz os atores ao palco, zela por cenário e efeitos cênicos) nos leva às coxias, à lateral da cena, ou fundo, onde entraremos, e esperamos ali segundos. O corpo literalmente ferve de excitação intoxicante. Pomos o pé no palco e sentimos, sem ver, os olhos e os sentimentos da multidão. Cada gesto ou palavra nossa se misturam quimicamente a essa atenção. Aprendemos a manipulá-la e é delicioso sentir o poder que exercemos (ainda que nos estejam amaldiçoando em silêncio, na platéia). Cinema e TV, remotos e mecanizados, não comunicam esses prazeres, porque o ator representa para diretores e técnicos. E a continuidade do espetáculo teatral significa uma forma de vida alternativa, de que, ao contrário da nossa vida, temos absoluto controle. Quem experimentou essas sensações compreende com maior facilidade e tolerância os sacrifícios e o ego gigante das estrelas, assim como os excessos a que às vezes se entregam fora de cena, porque tudo parece tão menor e tedioso depois daquelas horas em que nos tornamos o centro do “mundo”, e, curiosamente, na pele de outra pessoa, sem carregarmos os ônus inevitáveis da nossa existência real.

Abafamos em Manaus. De mim não direi nada. Marcelo se revelou uma presença poderosa em cena, presença de estrela, apesar de não conseguir inflexionar certo. E, protagonista de O noviço, a única peça brasileira, de fácil acesso a qualquer platéia, não é exagero afirmar que se tornou o mais popular de nós. O sucesso (e, ou, o tédio das repetições) lhe subiu à cabeça. À la Procópio e geração, começou a soltar “cacos”, palavras fora do texto, a inventar situações inexistentes na peça. Algumas eram engraçadas, outras não. Ambas são impermissíveis, em teatro sério, logo permissiveis no Teatro do Estudante.

A desolação cultural. Às vezes tristemente cômica. Numa recepção ao grupo do governador do Amazonas (verifiquem a data e terão o nome), o líder, entusiasmado, disse a Paschoal: “Parabéns. Agora, Édipo, essas coisas estrangeiras, não surpreendem. Maravilhoso é o ‘nosso’ (.sic) Romeu e Julieta”. Portanto, se o petróleo não é nosso, ou talvez nem exista, ao menos nacionalizamos Shakespeare. A peça provocava outras confusões. Ruy Cavalcanti, Romeu, é mulato. O papel é chatíssimo (Romeu e Julieta acaba na morte de Mercúcio no segundo ato. O resto, apesar da poesia, é de doer. Julieta é irrepresentável, exigindo uma menina com sensualidade de adulta. Romeu pouco tem a declarar depois que se fixa na paixão impossível). Ruy dava tudo. Viril, passional, morria especialmente bem, levando um tombo espetacular depois de beber o veneno, sugerindo uma águia abatida (o segredo de cair em teatro é o relaxamento completo dos músculos, o que atenua a um mínimo tolerável o baque no solo).

A mulatice era um problema. Ruy lembrava Cantinflas, na paródia da tragédia. O público ocasionalmente “via” Cantinflas e ria nas horas erradas.

E a esculhambação se alastrava. Marcelo, Polidoro, filho morto de Hécuba, tinha uma única cena, em que desfilava carregado pelos outros. Estes lhe enfiavam o dedo no cu, obrigando Marcelo a prodígios de contenção e lhe arrancando palavrões às vezes audíveis na platéia. Eu, Ulisses, vinha buscar Polixena, última filha viva de Hécuba, que os gregos decidiram sacrificar em troca de bons ventos dos deuses. Usava barbicha e bigode. Em João Pessoa, abri a boca e a barbicha me rolou a um dos cantos, quase caindo. Passei o resto da cena segurando-a. Nos bastidores, quis surrar o contra-regra. Ele me explicou que o “Dr. Paschoal”, por motivos de economia, aceitara verniz de mobília, bem menos colante que o usado em palco. Imprequei palavrões contra Paschoal e fui beber no hotel. Lá, no bar, encontrei José Lins do Rego, que me cumprimentou efusivamente pelo desempenho, gostando em particular do toque de mexer “ironicamente” na barbicha...

Paschoal, antes das estréias, fazia um discurso standard, invariável, em que lembrava uma igreja que viu destruída pelos nazistas em Liverpool e, no dia seguinte, pedreiros e marceneiros começaram a restaurá-la. Nesse espírito, o Brasil precisava construir, etc. Estreávamos sempre com Romeu e Julieta, interminável. Todos queriam ir embora, fazer o que bem entendessem. Eugênio Carlos (o conde Páris) e eu (Frei Lourenço) dobrávamos como criados dos Montéquios e Capuletos, na cena inicial de duelo, porque sabíamos alguns golpes de esgrima. Numa noite, cheios do discurso, espetamos a espada no cu de Paschoal, que, para pasmo da platéia, interrompeu a odisséia de Liverpool com um grito lancinante. Grande alarido quando voltou aos bastidores.

Esses duelos criavam dificuldades. Eugênio Carlos, o melhor esgrimista, tinha praticamente de abrir o peito para Ruy matá-lo na cena final de Romeu e Julieta, como dita o texto, já que Ruy apenas encenava (bem) os gestos, não pegando o molejo real da luta. Eu, razoável, quase arranquei o dedo do meu adversário no duelo da abertura, um certo Spínola, boa-praça, mas sem noção do que fosse esgrima. Havia sempre o perigo de que a cabecinha da arma, protetora, caísse. Em Teresina, Marcelo, Eugênio e eu, de pileque, em trajes da peça e maquilados, esgrimimos em plena praça central. Pasmo das massas. Nos ferimos no entusiasmo. Paschoal manteve o senso de humor, entrando em “cena” e parafraseando o príncipe de Verona, nos desejando “uma praga sobre vossas três ferramentas”, em inglês, em que ferramenta equivale ao membro masculino mais obviamente que em português.

Insistimos em ir a Teresina, outra revolta do elenco, porque Paschoal não queria. Um inferno. Os amabilíssi-mos prefeito e governador puseram as moças no hotel melhor, e nós, homens, entre os oficiais da Polícia Militar. A noblesse oblige não funcionou. As moças entravam no banheiro do hotel e encontravam leitões e outros animais. Nós, no quartel, éramos tratados a uísque escocês e frutas frescas, no café, almoço, jantar, dia e noite.

Há lugares agradabilíssimos no Norte e Nordeste. Lembro em particular a praia Ponta Negra, em Natal, e a do Futuro, em Fortaleza, que vai, me disseram, a Alagoas, e em que na areia dura se pode andar, em partes, de automóvel. A idéia do cearense cabeça chata sumiu em face das moças bonitas de Fortaleza. A beleza arquitetônica de São Luís diminuía o impacto certo da comida do hotel na maioria dos intestinos. Apesar disso, na “Atenas brasileira”, descobri apenas uma livraria-papelaria... E se Ponta Negra é bela, o Ponto Chique de Natal sugere uma favela.

O horror maior eram rostos e corpos da maioria e, em Teresina, a dificuldade de se arrancar duas frases articuladas de qualquer popular. Evoco a qualquer momento essa lembrança de 29 anos atrás e me dói em fúria.

O paternalismo não escondia os contrastes. Em Natal, levei Marcelo a almoçar na casa de uma irmã de Lourdes, mulher de Adolpho. O marido, um médico dedicado, a quem os pobres amavam pela caridade. No almoço, a amável anfitriã nos ofereceu uma dúzia de pratos, no mínimo, e 14 sobremesas, que provocaram uma cólica hilariante em Marcelo, que andou horas em volta da casa, tentando digerir o excesso. A nossa resposta ao contraste em Rio e São Paulo é que um jantar de dois casais, que bebam um pouco, sai por mais de dois salários mínimos...

Fomos friamente recebidos pelo público em Fortaleza e Recife. Na primeira porque o teatro não tinha fundo, terminando em espaço aberto, ou seja, só vozes poderosas eram audíveis. Em Recife, porque, a capital do Nordeste, existia uma tradição de amadorismo, de Valdemar de Oliveira, tão ruim quanto nós, mas melhor organizada, apesar do ranço de velhice cênica. Incapazes de autocrítica, nos criticaram.

No avião, caí em cima de Paschoal. Falei do travesti de teatro que perpetrávamos, entrando em detalhes. Ele não discordou. Me surpreendeu, admitindo tudo. Confessou achar teatro chatíssimo, as artes representadas em geral (entrava no Metro Passeio do Rio durante uma sessão apenas para dormir duas horas em ar condicionado). Dormia, repito, como crítico, na primeria cena, ele e uma apaixonada que trouxe de Londres, Claude Vincent, crítica da Tribuna da Imprensa, que usava óculos escuros, pensando que iludia alguém. Propus renovação, ensemble, mencionando Barrault e Olivier. Paschoal disse que eu sonhava, que não conhecia a realidade do Brasil, que Barrault e Olivier eram produtos de culturas seculares, estruturadas, enquanto que nós mal estávamos no nível de compreensão de O noviço. O importante, insistiu, é plantar uma bandeira numa sociedade miserável como a nossa, não importa que mal executada. Me chamou de livresco. Propôs que me tornasse crítico ou professor, afirmando que me daria mal tentando impôr de cima para baixo minhas idéias na mediocridade ambiente. Respondi que preferia tentar corrigir o que via e detestava.

Paschoal me pareceu cínico e corrupto, ainda que lhe admirasse a franqueza. Hoje, reconheço que em parte tinha razão. Continuo achando que se entregou fácil demais à mistificação cultural brasileira. Mas o tipo de resistência obtusa, primitiva, irracional, que encontrei em imprensa, teatro e política no Brasil não me deixa dúvida de que o diagnóstico dele, em 1951, se aproximava mais da verdade do que meus desejos, teóricos e não testados. Terminei crítico de teatro. Fui o ator mais votado ao prêmio de revelação da crítica do Rio, em 1952. Ainda assim, o charme da profissão se esvaiu em mim, rapidamente, depois de uma passagem ligeira na companhia Morineau. O comercialismo triunfante na nossa sociedade destruiu um a um os planos que Marcelo, Cristóvão, Beatriz Veiga, Lígia Nunes (uma nova, hoje em teatro infantil, me parece) e eu, rebeldes na maioria da contrafação do Teatro do Estudante, tentamos concretizar num grupo, Teatro da Semana, que se exibia às segundas-feiras no Copacabana. Descobri o elementar, que repertório se escolhe em função dos atores disponíveis e não de nossa preferência estética. O dinheiro acabou depois de duas peças...

A corrupção era generalizada. R. Magalhães Júnior dominava na SBAT (Sociedade Brasileira de Autores) o comércio de traduções. É um exemplo apenas. Rara é a peça que traduziu que não tenha sido reescrita por Brutus Pedreira ou Mário da Silva, jornalista e intelectual europeizado, filho de empresário famoso, Celestino da Silva, que trouxe Sarah Bernhardt ao Brasil. O Sr. Júnior, no entanto, sem dar o braço a torcer, papava os 5 por cento das receitas a que batoteara direito, “não notando” as alterações que lhe faziam na joça produzida. Perguntado uma vez qual a próxima peça, e não é piada, Tennessee Williams respondeu que não sabia, mas que um certo “Magalhães” no Brasil já havia traduzido...

O teatro evoluiu, claro. Hoje, há tradutores do nível de Millôr Fernandes. Companhias se formaram, como o Teatro Brasileiro de Comédia, de São Paulo, que apesar do desprezo do empresário, Franco Zampari, pelos autores e diretores brasileiros, nos trouxe diretores estrangeiros, Adolfo Celli e Luciano Salce, empregou Gianni Ratto e Ziembinski, os quais criaram uma visão próxima do que propus a Paschoal, em 1951. Em tempo, Millôr, Dias Gomes, Callado, Jorge Andrade, Nelson Rodrigues, Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho, etc. começaram a competir com Pirandello, Górki, Williams, Arthur Miller, em assiduidade nos palcos. Surgiu o Teatro de Arena de São Paulo, politizando a cena, tentando um naturalismo interpretativo na linha do Actors Studio (importação de Augusto Boal) bem superior ao declamatório inepto que predominara antes. Intérpretes de talento, Cacilda Becker, Tônia Carrero, Walmor Chagas, Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Maria Delia Costa e outros, formaram companhias em que a presença normativa do diretor era o ponto de partida.

Havia, portanto, um meio-termo entre o cinismo realista e derrotista de Paschoal e minhas supostas fantasias. Ou houve, naquela quase década de 1955 a 1964, enquanto não baixaram sobre nós os obstinados do retrocesso, da estagnação, da censura, da vulgarização massifi-cada da cultura, do circo permanente em TV, os subprodutos culturais do sistema de 1964.

Minha participação nisso foi mais como crítico. Dirigi seis peças. Nenhum espetáculo fez sucesso bastante (exceto a primeira versão de Pedro Mico, de Antônio Callado, outro dramaturgo de potencial sustado pela ignorância e repressão), que me firmasse diretor. Esse fato aceito sem ressentimentos. Poderia discutir razões, mas não vale a pena e não me interessa olhar para trás, ou melhor, para onde não pretendo voltar.

Passei um tempo nos EUA estudando literatura teatral comparada com Eric Bentley, certamente o mais intelectualizado dos críticos do nosso tempo. Ele propunha o que eu queria, um teatro que pensasse, que não fosse apenas de bugios emocionais. Mais honesto do que eu. Deixara (temporariamente) a política, ex-marxista, enquanto que política já era minha preocupação suprema, o que eu tentava ocultar dos outros e de mim mesmo, procurando conciliar as duas coisas num teatro intelectualizado, em que idéias políticas tivessem lugar garantido. Bentley, uns 15 anos depois, escreveu um livro se desdizendo quase linha por linha, propondo a vitalidade espe-cífico-formal do teatro, contrapondo-a ao intelectualismo que pregara antes, louvando o melodrama e farsa como gêneros, o que me ensinara tabu em 1955, na Universidade Columbia. Editei-o para um amigo: O teatro vivo6, Zahar Editores, 1969 ou 1970. Não vendeu, de resto, encalhou junto com a coleção inteira, que reunia o supra-sumo da crítica de teatro moderno. Ecos do derrotismo de Paschoal repercutiram na minha cabeça.

Nos EUA, me “lotei” de Marx e teatro. Sim, em pleno macartismo, Marx era encontrável em qualquer livraria, ao lado de Harold Robbins. É, a liberdade burguesa é pseudo, mas nesse pseudo sobram manjares para os privilegiados...

Não queria me meter em política no Brasil. Assisti à queda de Getúlio do meu Olimpo trostkista. Uma briga de facções burguesas, intrinsecamente reacionárias7, que me interessava isso?

Os trotskistas não formavam partido. Os stalinistas os difamavam como “ponta de lança do imperialismo”. Este, se nos notava a existência, não via diferença entre nós e stalinistas. A maioria nos desconhecia. Trótski só voltou lentamente à consciência civilizada depois da biografia em três partes de Isaac Deutscher, O profeta armado, O profeta desarmado e O profeta proscrito. O primeiro volume saiu em 1952, na Inglaterra e EUA. No Brasil, Ênio Silveira editou-os na década de 1960. Contribuí bastante.

Havia grupos trotskistas, algumas famílias e pessoas isoladas do meu tipo e vários amigos que me proíbem de citá-los. Não há porquê. Respeito-lhes a vontade. Talvez não queiram ser confundidos com os sectários juvenis e às vezes terroristas que hoje usam o título.

Havia uma briga comigo mesmo que só resolvi em 1960. Hesitava em dar a menor contribuição à aventura de Lênin e Trótski repetida no Brasil, em particular porque o PC me parecia estulto, oportunista e rabo menor stalinis-ta, não existindo alternativa conseqüente de esquerda. E, ao mesmo tempo, Marx lido e digerido, me era difícil até acompanhar o que passa por política no Brasil (ainda é...).

Política burguesa é intragável depois que se lê O dezoito brumário de Luís Napoleão, o maior strip-tease crítico do meu conhecimento da liberdade sob o capitalismo. Marx nos mostra minuciosamente o que todas as facções políticas fazem, às vezes inconscientes disso, as forças reais que as manipulam, e é preciso ser muito burro para continuar levando-as a sério, exceto, claro, na “opção do mal menor”. Isso no Brasil, que, em 1980, permanece, no nível de consciência, atrasado em relação à França de Luís Napoleão (que, afinal, em 1848, inaugurara revoluções comunistas); se torna risível, não consigo sequer rir, porque me defendo num enfado inexpugnável ao asneirol.

E eu queria fazer teatro nos anos 50. De jeito algum me dispunha a relegar o que acumulara culturalmente em troca de um engajamento restritivo e contra moinhos de vento. A consciência me doía. A lembrança dos deitados “eternamente” nas calçadas de Fortaleza. Me consolava em Shaw, surpreendido por William Archer, na sala de leitura do Museu Britânico, lendo alternada e alternativamente O capital e a partitura de Tristão e Isolda. E Trótski e trotskistas (da minha e precedentes gerações) sempre foram contra a conversão das artes em mero expediente político. Quem leu Arte e revolução sabe disso. Quem conhece a História da Revolução conhece a polêmica de Trótski versus Lunatchárski e Bukharin (nível cultural idêntico), Trótski se opondo ao prolekult e os dois outros, apesar de humanistas de igual experiência (Lunatchárski chegou a flertar com a idéia de trazer valores espirituais ao socialismo, escandalizando Lênin), a favor. A alienação suposta do modernismo me parecia mais revolucionária do que a pieguice raivosa do realismo socialista, que projeta santos proletários contra cruéis caricaturas burguesas, posição que mantenho ainda agora. Aprendo mais da morte da civilização burguesa no reacionário Eliot do que no revolucionário (um tanto relutante) Górki. E, no Brasil, o prolekult teria nossa cara. Tem...

Tudo mudou quase sem eu perceber, quase acidentalmente. Dois dos meus melhores amigos, na ocasião, Francisco Pereira da Silva, um dramaturgo de talento, estilista completo, que não encontrou a companhia séria que lhe permitisse desenvolver a inspiração literária a nível equivalente de execução dramática, e João Augusto, aspirante como eu a diretor, eram críticos de teatro, do Diário Carioca e Tribuna da Imprensa, respectivamente.

Uma noite na Gôndola, em Copacabana, ponto do pessoal de teatro do Rio, vi-os cumprimentando Ziembinski, Walmor Chagas e o resto do talentoso elenco que havia estreado em Volpone, a adaptação de Stefan Zweig da peça de Ben Jonson, no TBC. Talentoso o elenco, o espetáculo tinha sido lamentável. Perguntei-lhes, a sós, se estavam me gozando. Não, responderam, concordavam comigo, mas de que adiantava baixar o malho na melhor companhia do país? Não mudaria nada a auto-suficiência do TBC (de uma arrogância que “nada deixava a desejar”, comparada à minha, cujo cabedal se limitava às aventuras já descritas e à direção de uma peça infantil para orfanatos que, de tão ruim, cortei metade e reescrevi o resto, não conquistando a amizade do autor, e espetáculo que, à parte as crianças órfãs, ninguém vira). Se criticassem a sério fariam apenas inimigos pessoais.

Me queimei. Nada de pessoal contra Chico ou João, nenhum dos dois carreirista ou oportunista. O que disseram ontem, hoje e amanhã é constante do nosso subdesenvolvimento, em que aqueles acima disso, como Chico e João, preferem evitar o dragão, porque, morto, renasce na próxima esquina, sendo, em última análise, filho de forças contra as quais pouco temos a contrapor. Abram qualquer publicação. Há os intocáveis, os rejeitados e os vetados. Mudam caras e nomes. O dragão se permite alguns passos de valsa, no mesmo lugar... Sugere movimento aos menos observadores.

E a vocação deles não era crítica. Nem minha. Juro. Resumo da ópera: discutimos à madrugada e fizemos um pacto. Se eu conseguisse um lugar na imprensa e começasse a testar a política de dizer o que pensava, eles me acompanhariam. Paulo Francis polemista nasceu desse incidente, uma discussão entre amigos, em botequim de quinta categoria em Copacabana.

Procurei emprego. Todos os postos ocupados; não, claro, as funções. A maioria dos críticos de teatro no Rio da época apenas bajulava o establishment, se limitava ao noticiário (excetuando os já citados, havia Henrique Oscar, do Diário de Notícias) e não raro levava comissões de empresários de quem recebia a publicidade teatral, o que as direções dos jornais, quase todas, aceitavam.

Sobrava a Revista da Semana, a mais antiga revista ilustrada da cidade, parte de um patrimônio que fora gigantesco, e incluíra os popularíssimos Tico-Tico e Cena Muda, então reduzido a quase nada, pelo desinteresse e unhice-de-fome do herdeiro, Gratuliano de Brito. Diretor Hélio Fernandes. Eu era amigo de Millôr, irmão, que em pouco tempo se tornaria íntimo e assim permanece, uma ilha cercada de conformismo por quase todos os lados.

Hélio começara a vida jornalista de esportes, que o apaixonam até hoje. Em seguida, passou ao colunismo político no Diário de Notícias. Participara da campanha Juscelino à presidência. Desentendeu-se. Continua se desentendendo muito, urbi et orbi. Os Fernandes brothers jamais poderão ser acusados de marias-vão-com-as-outras.

A grande chance lhe veio em Manchete. Fundada com o dinheiro do povo, cinco mil cruzeiros do Banco do Brasil, dinheiro esse facilitado a 99 por cento dos donos da imprensa, embora muita gente acredite que somente Samuel Wainer se beneficiou (o assunto será tratado em tempo), Manchete nascera sob a maior boa vontade dos meios intelectuais e jornalísticos, pois não só expandia o mercado de trabalho como enfrentaria o monopólio informal de O Cruzeiro, de Assis Chateaubriand, a revista semanal que até hoje mais vendeu no país, atingindo, na década de 1940, quando nossa população e minoria alfabetizada eram bem menores, uma circulação de 700 mil exemplares (Millôr foi uma das estrelas, se não a máxima, de O Cruzeiro, tendo criado o modelo de humor de toda uma geração, no Pif-Paf, e escrevendo hilariantemente contra as mulheres, em mensário da empresa, A Cigarra, sob o pseudônimo de Adão Júnior). Hélio passara pelo Cruzeiro. Também Nelson Rodrigues, que escrevia folhetins de sacanagem que assinava Susana Flagg. Franklin de Oliveira ganhou fama nacional. É de perder a conta o número de talentos que Chateaubriand usou. Manchete enfrentaria uma parada.

Os Bloch eram gráficos, da chamada extração humilde, extração esta que inclui acreditar em “nomes” que sabem se promover. Escolheram diretor da revista Henrique Pongetti, cronista subliterato, belle époque em tricentésimo carbono, no estilo, e dramaturgo dos que ajudei a varrer do palco em definitivo.

Em pouco tempo, Manchete estava à falência, reduzida a cinco mil leitores, dos quais 1.500 são compulsórios, pois representam instituições que compram automaticamente tudo que é publicado. A paginadora da revista era a Sra. Lucy Bloch, mulher do Bloch-chefe, Adolfo. D. Lucy decorava a revista usando critérios de Casa e Jardim. A subliteratice de Henrique Pongetti, da escola “emprego apenas amigos e no escuro”, dominava de ponta a ponta. Encalhe certo.

Samuel Wainer quase comprou a revista por 500 cruzeiros. Desistiu, ocupado na Última Hora, em fera competição pelo mercado vespertino com O Globo. Numa dessas reuniões na empresa, supostamente íntimas e para se tratar de assuntos confidenciais, em que terminam participando estranhos, o que é tipicamente cosa nostra, Hélio deu alguns palpites, provavelmente elementares, mas jornalísticos, sobre como salvar a revista. Ouvindo falar do mundo misterioso do jornalismo, pela primeira vez, os Bloch lhe ofereceram a direção de Manchete.

Hélio aceitou. Em meses, Manchete subiu a 140 mil exemplares e se fez. Hélio admite que se limitou a contratar jornalistas de talento, a ordenar a produção de jornalismo que fosse da política às artes, a paginar a revista em vez de decorá-la, a instituir uma personalidade jornalística inconfundível (decisivo numa publicação, indispensável, em verdade) para Manchete. À parte reportagens memoráveis, de uma abertura à crítica e à polêmica, então relativamente raras em toda a imprensa, Hélio trouxe um bocado de gente nova, ignorando a tediosa coleção de medalhas que Pongetti colecionara (Pongetti, de consolação, recebeu uma página de crônica, uma página em branco, em suma). Manchete estava em todas e beneficiou-se da já inequívoca decadência de O Cruzeiro, entregue a Leão Gondim, um dos condôminos dos Associados e outro que, é certo, ficaria surpreendidíssimo se alguém lhe descrevesse o funcionamento do jornalismo. Hélio aumentou o pagamento dos colaboradores (naquele tempo eram raríssimos os jornalistas que, fora do bolso alheio, sobreviviam da profissão, a maioria trabalhando em dois ou três lugares). Entre outras coisas, incentivou um obscuro cronista da escola Rubem Braga, Sérgio Porto, a abandonar pretensões de copiar o incopiável e soltar-se, no humor carioca, Zona Sul, o que deu à luz Stanislaw Ponte Preta.

Hélio impôs condições, a primeira e principal proibindo (sic) a entrada de Blochs na redação. Os irmãos, acho que todos vivos, na época, não gostaram e, muito menos, D. Lucy, que, à maneira de Pongetti, recebeu de consolação uma revista (acredito que já desaparecida), Jóia, título dado a sério, antes que a gíria de hoje existisse.

Os Bloch foram apelidados por um dos sucessores de Hélio, Otto Lara Resende, de irmãos Karamabloch. O humor é um tanto ambivalente. Eles brigavam ferozmente entre eles. Se jogavam máquinas de escrever um no outro. Não os conheço direito e não acho que valham uma análise, pois há muito tempo a orientação da empresa tem um parentesco apenas remoto com jornalismo. Ainda assim, conversei algumas vezes na longa mesa na Rua do Riachuelo (antes que se instalassem no Russell), em que generosamente convidavam visitantes a almoçar. Fiz alguns free lances em Manchete, na gestão Nahum Sirotsky, em que Alberto Dines chefiava a reportagem e entre os copidesques estavam jornalistas que deixariam presença na imprensa, Jânio de Freitas e Reynaldo Jardim. Os Bloch empregaram e empregam profissionais de primeiro nível. Raramente os deixam trabalhar, o resultado sendo que não conheço uma pessoa que leia Manchete, e ouvi várias vezes no Rio queixas de colegas que precisavam do emprego, mas se sentiam no “túmulo do jornalista desconhecido”.

Boris Bloch me fascinava, talvez porque comesse com as mãos, dispensando talheres. O éxotique retém um certo charme para mim, admito. Num desses almoços se sentou a meu lado uma senhora de aparência plácida e sofrida. Muda. Apesar do tom que na época assumia em face de quase todo mundo, sei pegar no talher certo (nenhuma intenção de analogia), ou seja, mantinha um mínimo de cordialidade social. Dirigi-lhe a palavra. Notei que era americana. Trocamos de língua e ela se revelou Mrs. Boris e me disse estar preocupadíssima. Motivo: Boris em casa descrevia as mil maneiras que mataria o irmão, Adolfo. Acalmei-a o melhor que pude, cão que ladra não morde, etc.

Nesse clima, a revista garantida, os Bloch tentaram reaver o controle, que haviam cedido humilhantemente, no desespero, a Hélio, uma reação predizível, que provocou a briga também predizível, e Hélio passou-se à Revista da Semana. Sem recursos, Gratuliano deveria ter algum horror de “irmãs” de Osny a jornalismo, Hélio escrevia dois terços da publicação. Levou gente nova. Me apresentei a ele. Me empregou na hora, valendo-se de recomendações que já ouvira de Millôr e porque nos entendemos de saída.

Estreei, portanto, assinando, o que é raro. Já fizera alguns free lances anônimos, antes de ir para os EUA em 1954, e de lá, no segundo caderno do Correio da Manhã, dirigido por um velho amigo (e de todo mundo), Guima. Brincadeiras. Agora me profissionalizava. De cima.

Sou gratíssimo a Hélio, claro, e acredito que ele não se tenha arrependido do investimento cultural e do risco. Quanto ao financeiro, bem, Gratuliano me pagava 1 cruzeiro a colaboração (a bem da justiça, um dia disse a Hélio que eu merecia...). Os raros de fora (Ely Azeredo, me lembro, que nunca escreveu tão bem) recebiam o mesmo caraminguá. Hélio, repito, usando vários pseudônimos, enchia a revista. Divertidíssimo foi quando ao chegar o Carnaval ele compareceu a todas as festas principais e deu, sozinho, um banho em Manchete, que alardeava vasta equipe. Hélio e o fotógrafo Alberto de Oliveira fugiram dos clichês. Descreveram o que viram, palavras e fotos. Um autêntico ovo de Colombo.

Comecei explodindo uma bomba no teatro. Comparei Cacilda Becker a Fernanda Montenegro, que disputavam a primazia entre as atrizes. Não que isso fosse reconhecido pelos críticos velhos. Achavam as duas “divinas” e continuamos todos amigos. Nada de original na inspiração do artigo. Repeti à minha maneira a comparação que Shaw fez de Bernhardt e Duse. Sarah, notou Shaw, sempre impunha a própria personalidade à personagem. Duse encarnava a personagem. Há quem discorde, Max Beerbohm, o sucessor de Shaw, por exemplo, achava Duse um saco. Na linha de Shaw descobri em Cacilda uma personalidade extraordinária, enquanto que Fernanda “desaparecia”, iluminando os papéis. A diferença entre Sarah e Cacilda é que esta exibia momentos de gênio, a meu ver insuperados, em meio ao show pessoal. Lembro-me em particular da cena em que na Longa jornada de um dia para a noite, de O’Neill, quando, dopada de morfina, implorava a companhia da empregada (Kleber, Santos ou Fernandes. Um é homem outra é mulher. Desculpem, mais uma vez, a amnésia). Fernanda fazia e faz tudo certo. É nossa melhor atriz.

Depois, refiz a reputação de Nelson Rodrigues, esquecido como autor, insultado por uma corja de reacionários, a mesma corja a quem apoiou durante a longa noite pós-1964. Também produzi um ensaio imenso sobre Gonçalves Dias, dramaturgo que, se houver no Brasil uma companhia de repertório decente, terá um lugar certo, pois falhas como são as peças, atingem altos raros em nossa literatura dramática. Inês de Castro é um dos grandes espetáculos do teatro brasileiro, na versão TBC de Flávio Rangel.

Chico e João pontualmente abriram fogo. Animamos outros e a polêmica, esse corpo estranho na alma brasileira, ressuscitou no palco. Em São Paulo, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi e Delmiro Gonçalves, os três do Estado, nos haviam precedido em estimular o estabelecimento de valores e em negar os falsos. Sábato, o mais aguerrido, criou bons e necessários casos, mas o tom do trio nos parecia mais didático (deliberadamente, sem dúvida) do que julgávamos adequado à “ação entre amigos” no teatro brasileiro.

Tenho de fazer uma revisão desse período, que, afinal, me deu nome como jornalista. A primeira confissão é técnica. Na maturidade, os jornalistas mais rápidos dos que conheci sem dúvida foram Lacerda, Hélio, Casteli-nho, Franklin de Oliveira e eu. Não comecei assim. Cozinhava dias o que hoje escrevo em triplo diretamente no telex. Escrever rápido não quer dizer bem. Há lentos esplêndidos, mas todos os rápidos citados marcaram a imprensa desse tempo e ainda em 1980, menos, claro, Lacerda, morto.

Não há regras gerais. Arrisco apenas um palpite. Os lentos competentes, e há dúzias, têm de vencer inibições pessoais antes de se expressarem. O problema é psicológico e não de talento ou técnico. Certos patrões, da estirpe Bloch ou Gratuliano, desconfiam que estão sendo roubados se alguém lhes redige matérias em minutos. Não entendem o lastro cultural, a experiência e a técnica por trás da velocidade. Franklin, ao se juntar a José Lino Grunewald, a Edilberto e a mim no Correio, como editorialista, tive de arrancá-lo da máquina e convidá-lo a um sanduíche, porque escrevia em 10 minutos as 60 linhas principais. Editorial, claro, é mais fácil que um artigo nosso. Editorial expressa uma linha coletiva. A nossa opinião é sempre mais individualizada. Agora, isso não significa que o editorial, numa publicação de qualidade e do “contra”, à la Correio, não exija uma pauleira mental. É que a dita foi concentrada e acelerada nessa palavra fácil, vaga e misteriosa, talento. O leigo que vê o jornalista-metralha, imagina que imitaria a performance, se quisesse, naturalmente. Vi alguns patrões tentarem. Depois de horas de luta chamavam a um de nós.

Chico se cansou logo do papel de tutor. Nenhuma surpresa. Queria mesmo era escrever peças. É um dos muitos talentos desperdiçados no Brasil, pela falta de um meio ambiente, da irrigação cultural que permitiria que crescesse. A parte isso, é um homem educadíssimo, gentil, de sensibilidade à flor da pele, ou seja, “inadequado” à brutalidade na luta pela subida ao pau-de-sebo. Ele, outro amigo, Anísio Medeiros, pintor, cenógrafo de talento, personalidade forte e crítica, e eu, passamos muitas horas de papos em que não só aprendi muito dos dois, como me ensinaram (na medida do possível) a arte brasileira da convivência. Devo-lhes mais do que imaginam e do que me dei conta na ocasião. Que não os veja nesses últimos anos é perda minha.

Chico, generosamente, me indicou ao lugar que deixou, de crítico de teatro do Diário Carioca. Amizade e sorte me impulsionaram. A sorte é que um dos diretores do jornal, Pompeu de Souza, tinha sido um fero crítico de teatro no período dos Comediantes e acreditava em “ferro na boneca”, na senhora velha, superpintada e desdentada que víamos nos palcos. A maneira de Hélio (que, inevitável, se enchera de Gratuliano, voltando ao colunismo e, posteriormente, assumindo a Tribuna da Imprensa, onde tornamos a trabalhar juntos em 1971-1976), me deu liberdade total. Editavam o Diário Carioca, alternadamente, Evandro Carlos de Andrade e Carlos Castelo Branco.

Deste aprendi uma das raras lições proveitosas de jornalismo. Um dia, depois de ler meu artigo, antes de baixá-lo (à oficina de composição), devolveu-me o dito, por contínuo. Isso não acontecera antes. Fiquei espantado. Onde eu tinha escrito “via de regra”, Castelinho puxou um traço à margem, adicionando: “é buceta”. É a primeira vez que escrevo “via de regra” desde 1957.

Uma nota sobre Hélio: a maioria o conhece colunista ferrabrás, o que ele não nega, pratica. A decisão é dele. Provoca ódios impublicáveis em pessoas e círculos. É um dos maiores polemistas da imprensa, gostemos ou não. Numa época escrevi que houve três polemistas profissionais no jornalismo brasileiro: Lacerda, Hélio e eu. Não mudo uma palavra. E “profissional” é uma definição de temperamento e técnica. Agora, lamento que Hélio, chateado de Blochs e Gratulianos, tenha perdido o gosto de editar. Compreendo o desgosto. Sofri desapontamentos parecidos, em posições de mando. Mas Hélio foi um dos mais inventivos, tolerantes e experimentais chefes que conheci. Não padecia do ridículo senso de inferioridade de tantos editores, que temem se cercar de gente de talento que possa “ameaçar” o deles. Ao contrário, quanto melhor, melhor recebido por ele. Nada lhe agradava tanto como lançar gente desconhecida e talentosa. E até em assuntos que desconhecia, se confiando no subordinado, dava-lhe liberdade absoluta de expressão. Não mexia numa linha de colunistas ainda que divergisse do que escreviam. Os que o supõem intransigente e rancoroso, é bom que fiquem sabendo disso. Fazem-lhe toda espécie de acusações. É parte da guerra e Hélio dispensa defensores, cuidando muito bem de si próprio.

João Augusto também desertou a crítica. Mudou-se para a Bahia, onde estabeleceu companhia de teatro popular, com muito sucesso, me dizem, antes trabalhando numa escola experimental de teatro da Universidade Estadual, que Eros Gonçalves, diretor, cenógrafo, intelectual, montou e dirigiu, atraindo gente como Brutus Pedreira, Gianni Ratto, Domitila do Amaral (atriz brasileira que fizera sucesso em Paris, personalidade reclusa), Ségio Cardoso, Maria Fernanda, Glauber Rocha e Luis Carlos Maciel. O experimento, em parte, não deu certo por culpa de Eros, que, talentoso e culto, era de difícil convívio pelo temperamento colérico e uma insegurança — profissionalmente — injustificada, mais um caso de “irmãs” de Osny, que, um senhor respeitável, já deve estar achando chato que eu o arraste a toda hora à narrativa, batizado de síndrome. Nota breve: soube da existência de Glauber Rocha num artigo em que ele me atacava porque bombardeei Eros. Muitíssimo bem escrito. Não respondi, concluindo, corretamente, que o silêncio o enfureceria. Finalmente nos conhecemos e emergiu uma amizade resistente até hoje. Também fiz as pazes com Eros, então se chamando Martim Gonçalves, o que muito me agradou, porque sempre gostei dele, um dos raros intelectuais do teatro brasileiro que sustentava uma discussão séria.

Escrevendo este livro, descobri, chocadíssimo, que João morreu recentemente, ainda jovem, do coração. Foi um dos meus melhores amigos em teatro e formamos UIIl grupo cheio de esperanças, que incluía, à parte os citados, ítalo Rossi e Brutus Pedreira, nos tempos que achávamos que o Brasil se renovaria e amadureceria pelos nossos esforços e talento. Ingênuo, sem dúvida, mas uma constante dessa geração.

Nada houve de espontâneo no que escrevi no Diário Carioca. Foi um “trabalho do negativo” cuidadosamente planejado. Primeiro, iniciei campanha de desmoralização sistemática da Velha Guarda, o que incluía empresas, atores e críticos, a meu ver, coniventes. Depois enfatizei a importância dos textos. Às vezes, antes de criticar espetáculos, consumia colunas (e dias) discutindo a dramaturgia. Terceiro, promovi os novos, autores, diretores e atores brasileiros que me pareciam a chance de sairmos do retrógrado e criar algo novo e expressivo da nossa cultura. Não ataquei os estrangeiros, de Celli a Ziembinski, os quais me pareciam contribuir à reforma e, à parte isso, nunca fui chauvinista. Combati apenas as pretensões excessivas do Teatro Brasileiro de Comédia, excessivas em relação a resultados, e o chauvinismo estrangeiro do empresário, Franco Zampari.

Tudo deu certo, na medida (limitada) que um crítico influi. E ao assumir simultaneamente a crítica de Última Hora dispus de duas tribunas diárias, um duplo e incessante martelo. Em pouco tempo, os “velhos” estavam em retirada, o que incluía autores do tipo Pongetti e Guilherme Figueiredo, de que nunca mais se ouviu falar desde então. Citei acima a geração de autores brasileiros que apareceu e que, hoje, é aceita ao mesmo nível de qualquer dramaturgo estrangeiro. Não falo de qualidade, o que não é possível impor, se tem ou não. O empresário da época, porém, concluía, a priori, que tudo escrito originalmente em português não prestava, “não atraía público”, a desculpa esfarrapada que ofereciam. Isso mudou.

Tão importante, a nova crítica abriu caminho para uma geração de diretores, Flávio Rangel, Antunes Filho, Boal, etc. Os atores, afinal, sempre tinham sido brasileiros, na maioria esmagadora. O diretor brasileiro é que podia “nacionalizar” o teatro, ou seja, retirá-lo da tutela estrangeira exclusiva. Apesar disso, um dos maiores sucessos da época foi do brasileiro Jorge Andrade, em São Paulo, com A moratória, dirigida pelo italiano Gianni Ratto. Isso não me preocupava, repito minha completa rejeição do chauvinismo (e Ratto, como Ziembinski, não considerava o Brasil uma escala antes do retorno à Europa. Estudaram o país, se assimilaram).

Me acusavam de “brutal”, ou na palavra mais precisa de Paulo Autran, “ferino”. É verdade, mas não se catuca o balaio da nega com afagos. O negócio é demolir. Ninguém, talvez, me acredite, mas insisto em que (à parte uma exceção lamentável) nada havia de pessoal na minha blitzkrieg. Usei, sem dúvida, um tom único de violência na crítica às artes daquele tempo. Mas isso se devia não apenas à certeza de que eu estava certo, certeza determinante, como a questões de família e formação. Os Heilborn diziam um na cara do outro o que pensavam. Não fomos chegados às mumunhas e eufemismos brasileiros, ao que, em jornalismo, chamo a escola do “por outro lado”. Somos mão única, únicas em verdade, não temendo colisões. Jesuítas consideravam ilusões uma forma de corrupção da alma (consideravam corrupção qualquer atitude fora da “linha justa” que propunham...). Na turma de Fernando, ou entre os amigos de Marcelo e meus no circuito Zona Sul, inexistiam candidatos ao Itamarati (exceto na cabeça de Adolpho). E, finalmente, decisivo, eu freqüentava intelectuais marxistas. Estes, desde os tempos de Lênin, se caracterizam por uma rudeza que parece espantosa aos não-iniciados. Basta ler as atas do Partido da URSS, antes que Stálin começasse a falsificá-las em decisões unânimes, redigidas em burocratês. O marxista que não dissesse precisamente o que pensava não seria levado a sério. Lênin, o suposto ditador, várias vezes tentou pedir demissão, tal a fúria com que os colegas o atacaram em debates difíceis, em momentos de crise. Paulo Francis se condicionou assim.

De exclusivamente meu não nego o que mais doeu: o temperamento satírico, “ferino”. Rejeito porém explicações psicológicas imediatistas. Desde criança ferida e “alienada”, a ironia, a mordacidade e, quando evoluí, a sátira, me foram armas de defesa contra o que perdi emocionalmente. Essa explicação psicológica aceito, até certo ponto. Recebeu considerável reforço, muito mais influente, em conclusões a que cheguei intelectualmente. Depois de ler Darwin, Freud, Marx, apreender o sentido das descobertas de Copérnico a Einstein, levar o ser humano, essa mutação acidental, segundo Darwin, inteiramente a sério, atribuindo-lhe o “reinado da criação”, etc., me era impossível, repito, impossível, intelectualmente. Só rindo, ainda que tentando criar valores que a ciência e a lógica filosófica me demonstravam improváveis, mero esforço existencial da nossa parte, que nos alivia a vida da insignificância intrínseca afirmada pela nossa própria cabeça, em face de provas esmagadoras. E o deboche de Shaw e Nathan não os impediu de se tornarem defensores e promotores do que nos redime, temporariamente que seja, dessa insignificância que termina em cinzas. Essa, a minha escola.

Em retrospecto, talvez eu devesse ter sido menos “ferino” com os “velhos”. Em 1958, no auge da campanha sofri humilhações emocionais (“reabri”, como disse em capítulo anterior): me provaram na carne que o ser humano não pode viver sem compaixão. A experiência me ensinou tolerância. Aos 27 anos, flexionando pela primeira vez de público os músculos intelectuais, em face de adversários peso-pena, sentindo a “História do meu lado”, essas coisas não me ocorreram. Se injustiça houve, ou crueldade, foi de tom apenas. Reconhecia o talento dos “velhos”, de Dulcina, Procópio, Alda Garrido, Dercy Gonçalves, etc., criticando-os porque estagnaram no canastronismo, por recusarem corrigir a visão de teatro que me parecia errada, e, pior, obstruindo o caminho dos renovadores. E dispunham de um amplo aparato, maioria, de relações públicas na imprensa que os protegia e mantinha em lugares imerecidos, ou que haviam perdido o direito cultural de reter. Disso não me arrependo. Em matéria de autocrítica, admito ainda minha intolerância bentleyana a gêneros menores, à farsa, à revista, etc., mas mesmo nestas o que me irritava mais era o ranço e não o conteúdo.

Hoje, à la Bentley de O teatro vivo, qualquer prazer me diverte, desde que executado com criatividade e não meramente apoiado em clichês.

E não que enchesse de pétalas o caminho dos novos. Fui, o quanto é possível, imparcial. Ataquei inovações mal feitas e pensadas. Critiquei os meus melhores amigos, quando me pareceram falhar, ou desapontavam. Minha consciência está tranqüila.

A exceção foi um ataque pessoal a Tônia Carrero, a quem admiro mulher e atriz. O artigo é muito bom, lamento dizer, do ponto de vista técnico, enrubesci ao relê-lo, dias depois. Eu estava física e emocionalmente doente, trabalhando em excesso (assumira uma das editorias de Senhor, à parte o Diário e Última Hora), febril da doença física (um sinal de tuberculose que me atacava) e febril de um assunto que censurarei à la Mediei. Não há, nem é isso, desculpa. O artigo é sórdido, imperdoável, uma das mais pungentes vergonhas da minha vida, porque pessoal, mesquinho, deliberadamente cruel, sem que houvesse motivo. Na zonzeira em que vivia, no Diário, aceitei, inexplicavelmente para mim até hoje, uma interpretação suburbana de um colega de uma brincadeira que Tônia Carrero fizera comigo na coluna de Antônio Maria, em O Globo. Ou seja, além de cachorro, me portei como idiota.

O marido de Tônia, o diretor Adolfo Celli, muito meu amigo, me procurou à noite no Teatro do Leme, onde, à parte jornalismo e chateações pessoais, eu dirigia uma peça. Em frente do elenco, me insultou pesadamente. Ouvi, encabulado, dando razão a ele, no íntimo, e despido, pela vergonha, da habitual agressividade. Em seguida, trocamos alguns sopapos frouxos. Todo o elenco viu. Celli é pesado. Apesar disso, em estado normal, acredito que não apanharia dele, sem precisar sequer recorrer a golpes baixos. Não apanhei assim mesmo. Ninguém apanhou. O choque foi rápido, separado pelos atores, Celli foi embora, gritando insultos.

O grande fã-clube de Tônia na imprensa, encabeçado por Antônio Maria, transformou o episódio num melodrama em que eu, difamador, me provara covarde, fugindo dos punhos de Celli. Manchetes em alguns jornais. Me defendi no Diário, e, brasileiramente, chamei o difamador Maria à briga, preparando contra ele expedientes de delinqüência na minha humilhação e raiva. Maria que, em pouco tempo, se tornou até morrer um dos meus melhores amigos, nossas saídas noturnas, em companhia de Ivan Lessa, rendendo um interminável folclore, felizmente, para mim, recusou o desafio. Ele, sim, me quebraria em dois. Vi-o exibir a força de brincadeira, no Grego (agora chamado Partenon, ou asneira semelhante), restaurante na Rua Barata Ribeiro, onde Maria, Ivan e eu nos entretínhamos, em companhia de moça chamada “Miss Borboleta”, e, pela mostra da brincadeira, o sério seria mortal.

Esse caso me saiu caro. O único amigo de teatro que me procurou, prestando solidariedade condicional (isto é, ao amigo, não ao artigo), foi Flávio Rangel. Duas vezes, uma em particular, outra em público (para “provar”), ataquei fisicamente Paulo Autran, outro amigo perdido (é um dos melhores amigos de Tônia), que me humilhara. Na tradição do macho brasileiro, Paulo acha que ele ganhou, eu acho que eu ganhei... Até hoje não nos falamos.

Na Última Hora, não entendia a hostilidade pessoal dos dois diretores abaixo de Samuel Wainer, Paulo Silveira e Moacyr Werneck de Castro. Paulo, o mais fechado (não só comigo), se abriu primeiro, por gostar da inteligência dos meus ataques a Lacerda, inteligência um tanto rara naquele tempo de polarização. A Última Hora, em geral, à parte xingar Lacerda de “canalha fascista”, “ladrão”, etc., o que é rotineiro nesse tipo de luta, insistia absurdamente em que Lacerda era burro. Meu primeiro artigo começava declarando-o o mais inteligente, culto e articulado dos políticos brasileiros, baixando-lhe depois o chanfalho pelas posições. Paulo me convidou a um uísque e tomando-o, com o ar de imperador romano que é exclusivamente dele, disse: “Me rendo ao talento”, etc. Explicou que ele e Moacyr se chocaram pela minha crueldade injustificada contra Tônia Carrero. Em tempo, Moacyr e eu também nos tornamos amigos. Samuel Wainer, acima dessas coisas, como só sabe ser quem já esteve por baixo dessas coisas, sempre foi um modelo de cordialidade comigo.

Encerrando a crônica dessa queda desagradável, fui um dia convidado por Carlos Thiré, ex-marido e amigo de Tônia (tiveram um filho, o ator e diretor Cecil), para surpresa minha, a fazer reportagens na parte de jornalismo que dirigia num programa de variedades de Vítor Berbara, na TV Tupi. Thiré, cujo folclore também encheria páginas, me recebeu sisudo e correto. Nos entendemos profissionalmente e ele gostou e manteve o meu “quadro”: entrevistei Celso Furtado, ministro do Planejamento de Jango, examinei o Fundão (a universidade fantasma, agora parece que apenas “semi”) e vários problemas sociais, até que o chefe de polícia de Lacerda, coronel Borges, que me odiava (bons motivos), deu um susto em Berbara, que me demitiu, cortando assim o avanço de um futuro, quem sabe, Amaral Neto, às avessas.

Notem que Thiré, à parte Yaffaire Tônia, tinha outro motivo (sem base real) feminino para me detestar. Sempre foi impecável comigo, lamentando a covardia de Berbara, contra a qual protestou o quanto pôde. Falavam malíssimo dele. No que me toca, se portou como um gentleman e profissional a quem não faço restrições. Quando morreu de enfarte, também antes do tempo “normal”, me achei no dever pessoal de visitar-lhe o corpo na capela do São João Batista. Lá estavam todas as pessoas que haviam tomado partido, às vezes estridente, contra mim. Eu não tinha sequer a quem prestar condolências, a menos que usasse luvas de boxe, ou armadura. Fiquei alguns minutos e fui olhado tão atentamente quanto em minha breve experiência de ator. Ninguém rosnou ou, que eu percebesse, fez nada de agressivo. Ainda assim, vivi momentos “prenhes” de tensão.

O teatro finalmente me levou ao que eu desejava evitar: o envolvimento político direto no Brasil marginal. O impulso veio do próprio teatro, do que eu escrevia, do que há e contrastava à realidade. A nova geração e novo teatro se consolidaram. Em tempo, à parte o TBC, surgiram as companhias de Cacilda Becker, Tônia-Celli-Autran, Maria Della Costa (a mais antiga, que se recauchutou às regras que exigíamos), e o Arena, em São Paulo, politizava abertamente o prolekult. Fui receptivo a tudo enquanto os “velhos” se aposentaram, ou sobreviviam desprestigiados. Os críticos não currioláveis do Rio formaram um círculo que excluía os noticiaristas publicitários. Se Fernanda Montenegro, também de companhia organizada (Ratto, Sérgio Brito, ítalo Rossi, Fernando Torres), ganhava quase todo ano o prêmio de melhor atriz, a “culpa” era dela e não de tendenciosismo dos críticos votantes.

Derrubado o anáen régime, o que pôr no lugar? Me cansei das exegeses de Shakespeare, Shaw, O’Neill, Pirandello, Jorge Andrade (sobre quem um dia, em vários artigos, perdi o controle e terminei inflando à incoerência o material), Nelson Rodrigues, Millôr, etc. Os elencos permaneciam, excetuando um e outro ator, ruins, apesar de submetidos à disciplina diretorial de brasileiros. Um impasse.

Nosso ator, em geral, não sabia e não sabe falar. Declama ou cria um modus artificial de dizer. É a réplica patética do empolamento da elite dirigente. Patética porque é um dos escravos e não senhor. O nosso coloquial lhe parece coisa de “gente baixa”. Não me refiro ao coloquial mesmo, ao naturalismo de que Robert Altman abusa, no cinema, em que perdemos metade do diálogo. O ator de teatro precisa projetar a voz à última fila, o que é problema de respiração, claro, e não de gritar. Aprende-se. Agora, se queríamos o coloquial, precisávamos de um texto que o ator, ser humano, brasileiro, em geral de pequena classe média, pudesse enunciar como coisa dele, parte da modesta identidade cultural do país. Era visível, até nos melhores intérpretes, a distância cultural em que ficavam dos originais ingleses, franceses, italianos e até espanhóis. Isto sem mencionar as gafes de superfície, lordes ingleses usando meias soquetes fantasia, criaturas pardas representando nórdicos, os choques do nosso temperamento, expansivo, e a secura, ou a mesura cadenciada, de ingleses e franceses elegantes.

Precisávamos, em suma, do autor brasileiro. E do autor que representasse o Brasil que nos parecia possível no interregno de 1955-1964. Claro, o autor político, politizado, que expusesse a luta entre a “linda criança” que gestávamos e “o negro porvir” que nos reservava, e à criança, a reação.

Nada disso me ocorreu da noite para o dia. E, claro, ocorreu a outros também. Augusto Boal, enquanto dominou o Arena, nos precedeu a todos, por exemplo, mas escrevo minhas memórias e, na posição de crítico, diário e mensal (em Senhor), ocupava um posto único, pelo alcance e assiduidade, para promover uma revisão e começar a propaganda.

Fui maturando essa idéia, repito, da experiência de anos, enfrentando os mesmos erros e insuficiências dos novos, depois de derrotarmos os “velhos”.

Lembro-me até do título que marcou a mudança: Uma proposta modesta. É de Swift e a proposta é modesta coisa nenhuma. Swift, pastor da Irlanda esfomeada, sugeriu que os opressores ingleses permitissem às vítimas comerem os rebentos mais jovens, assim saciando a fome e contendo o crescimento populacional. A única semelhança entre nossos objetivos está na palavra “fome” e usada em contextos diferentes. Nesse artigo falei da importância concreta do Brasil para os brasileiros, da necessidade de que efetuássemos uma autocrítica e exame crítico da nossa sociedade, em vez de continuarmos, deficientemente, presos a culturas que só muito raro e das alturas tocavam nos nossos problemas.

Politizei as críticas. Há várias que gostaria de comer ou incinerar. Ataques a autores que admiro, como O’Neill e Pinter, porque falavam de mundos mortos e não pregavam a nova ordem revolucionária. Comecei a cobrar engajamento. Dizia-se que Paulo Francis se politizara. Não é bem assim. Politizado eu já estava, no lusco-fusco semi-secreto do trotskismo intelectual que assistia de camarote à falência conjunta de burguesia e stalinismo. O que decidi, isto sim, foi seguir o conselho sartriano de meter as mãos na merda, e, em seguida, o que Sartre omitiu, as mãos me, nos puxam a cabeça...

A verdade é que eu me cansara da crítica de teatro. Não é profissão que me atraia ou a alguém ambicioso, e sempre fui ambiciosíssimo. É uma profissão a que “se chega”, na falta de melhor. É uma profissão de jovens. Agüentar três produções ao ano de Aurimar Rocha, Eva Todor, Alda Garrido, ou mesmo os italianismos apaulistados do TBC, só conseguia, depois de certo tempo, na base de ingerir previamente meio copo de uísque puro. Engrossei. Se o espetáculo era ruim, me mandava em cinco minutos, o pano aberto.

E brasileiro, finalmente, a polarização política me atraía a participar do geral, apesar dos encantos (ocasionais) do específico, do teatro, a ir do cenário à cena maior. E o jornalismo, outra carreira em que ingressei acidentalmente, passara a ser vital como interesse e ganha-pão. Confinar tudo isso ao teatro se tornou impraticável. O Paulo Francis comentarista e editor emergiram do casulo teatral, que achei esgotado. Talvez minha vida tivesse sido mais mansa se eu ficasse na casca velha, redecorando-a. Certamente evitaria muitas chateações e desapontamentos.

Nunca desisti de ser escritor, meu primeiro e resistente amor. Mas um longo período de separação me aguardava, a partir dos 30 anos, quando explodi politicamente, nas páginas de Última Hora, agora sem o pretexto de corrigir a mentalidade de atores, autores e empresários. Trinta anos é o fim da juventude, prazo limite que se permite (ou me permito) à debilidade mental, à negligência do que é importante, ou assim me parece. Seja qual for o veredicto do próximo, escolhi meu destino, dentro do possível, na idade e momento certos, em que a reação encontrara maquilagem enganadora, no populismo de caspa e bananas descascadas em público de Jânio Quadros, enquanto o progresso parecia confinado no uniforme de um homem decente e injustiçado, o marechal Lott. Não houve até hoje outra transformação na minha vida que se igualasse a esse mergulho no centro político e jornalístico do país. Ficção e exílio voluntário, expatriamento, são subprodutos, já eram parte latente do que fiz de mim esses anos todos.

Ninguém me forçou a nada. Assumo sempre a responsabilidade pelos meus atos. O livre-arbítrio é uma ilusão intoxicante.

V. “DEUS É BRASILEIRO”

LEMBRO-ME de uma visita ao Brasil, acompanhado de casal jovem, bem de vida, ela carregando bebê; voltavam de vez depois de anos em Nova York. Ao nos instalarmos, Varig, uma aeromoça veio, se colocou à disposição, fez graças e agrados ao bebê, uma babá uniformizada. Foi-se e a mãe caiu em lágrimas de gratidão, me dizendo: “Tá vendo? Não há povo igual ao brasileiro. Onde você encontra esse calor, esse carinho?” Moitei. É regulamento das companhias que as aeromoças socorram mães que não dispõem do senso prático do canguru. Havia, porém, nuances, a língua, o estilo, nosso jeito. “Que raízes se agarram?” Estas.

Não pensem que escapo à agressão gravitacional quando vou ao Brasil. Meus amigos íntimos estão lá, aí. O que resta de família, idem. Algumas horas com Millôr Fernandes, Ênio Silveira, Jorge Zahar, se eles riem às bandeiras despregadas, para cunhar uma frase, me pregam a velha e boba esperança positivista da nossa “Ordem e Progresso”, que a esquerda juvenil, em 1963, chamava “Ordem Pró-Esso”. Não consigo formar intimidades aqui. Tenho amigos, alguns, uns poucos bem agradáveis até, mas certas ligações, aquelas em que o pressuposto em comum, e não o explícito, predomina, se formam na juventude, ou infância. A vida não começa aos 40. Começa a terminar, se tivermos sorte de resistir tanto.

Um exemplo: no meu último endereço de Ipanema, todo dia Millôr e eu nos víamos. Ou ia ao estúdio dele, próximo, ou Millôr vinha à minha “biblioteca”, o lugar mais confortável da casa. Quando não saíamos juntos à noite (o que fazíamos muito), ficávamos horas no uisquinho discutindo, sem ordem ou sentido conscientes, do trabalho a vitórias e derrotas, o próximo, vida e morte. Nos psicanalisávamos mutuamente. Não que pensássemos nisso. Amizade, repito, é feita de pressupostos e subentendidos. Almoçamos juntos, anos a fio, Ênio, Jorge e eu. Estranhos, até estimados amigos menos íntimos, perturbavam a estabilidade química da relação.

Sérgio Lacerda me disse que, numa volta da Europa, o avião parou inesperadamente na Bahia. Os passageiros na sala de trânsito, ele pediu a um dos faxineiros do aeroporto que lhe comprasse algumas revistas e jornais, em local vedado ao acesso dos transitórios. O cara se foi e trouxe a pilha. Sérgio quis recompensá-lo. O homem se recusou terminantemente. Sérgio se comoveu.

Há pouco tempo, vendo o papa na favela do Vidigal, a cara do povo me partiu o coração. Como podem rir aquelas pessoas subnutridas, anêmicas, faltando dentes, cobertas de andrajos, a quem nada é dado, exceto a “potemkização” momentânea da favela, onde o governo, para engambelar João Paulo II, fez uma capela e cedeu um pouco de luz e água corrente? Mário Faustino e eu, dirigindo a Tribuna da Imprensa, no intervalo entre Carlos Lacerda e Hélio Fernandes, em que o jornal era de propriedade de Nascimento Brito, do Jornal do Brasil, fomos tomar café em botequim na Rua do Lavradio, onde fica a Tribuna. Entrou um bando de populares, suados do futebol que jogavam em terreno baldio, pedindo cerveja ao português. Riam, se abraçavam, se catucavam, alegres. Era domingo. Mário e eu sorumbáticos, aguardando que nosso organismo eliminasse a ressaca da noite anterior. Eles riam, Santa Maria.

Às 3 da manhã, no velho Jirau, Samuel Wainer me chama e convida a ir ao jornal. Àquela hora? Precisávamos enfiar na vespertina um editorial sobre o estado de sítio que Jango “cancelara” na noite prévia (se não cancelado, o golpe de 1964 teria acontecido naquele outubro de 1963. Sabíamos. O público leitor nunca foi informado). Fomos, escrevemos. Na volta, na manhã, paramos num sinal. Alguns populares chutavam uma bola de meia. Samuel olhou para mim e disse simples, compassivo, numa contenção que raramente conseguimos até dos nossos melhores atores: “Eles querem tão pouco e lhes negamos”.

Todo brasileiro privilegiado sabe que é cúmplice de um crime, seja praticante (minoria), omisso (maioria), ou esbravejante (minoria). Somos todos, de certa forma, “iguais”. Passado o susto de perseguições em 1964, perseguições que viriam a partir de 1968, voltei aos bares e restaurantes de sempre. A direita triunfante me recebeu cavalheirescamente, dizendo-se preocupada, na minha “ausência”, pelo meu bem-estar. Alguns ofereceram auxílio financeiro, se eu precisasse. Banqueiros me emprestaram dinheiro, a pagar quando pudesse (com os juros devidos, naturalmente. Em todo caso, prazo ilimitado, na miséria, não é concessão desprezível). Antes de encontrar refúgio permanente, me imaginando mais importante do que sou, me escondi horas na casa de um irmão de Lourdes Heilborn, Fraterno, nome que descreve o homem, uma flor de pessoa. O medo, grande, de Borges, não me roubou o senso de humor. Fraterno, almirante reformado, apoiara integralmente o “restabelecimento da verdadeira democracia”, o apelido inicial do golpe, hoje “esquecido”. Me colocou numa sala suíte, medida de proteção, e que eu ficasse à vontade. Em volta de mim notei, à parte as tradicionais ornamentações católicas e mementos da marinha, uma coleção de fotografias e lembranças de Carlos Lacerda. Fraterno, amabilíssimo, família é família, “relevou” meus pecados à imaturidade. Ali, falando ao telefone, Carlos (eu o conheceria nos anos finais, graças ao filho Sérgio, e estabelecemos bastante cordialidade, jantando juntos duas vezes em Nova York e uma no apartamento do próprio Carlos, no Rio) me olhava hipnoticamente, à maneira do poster de Kitchener, recrutando ingleses ao massacre da Primeira Guerra, com os dizeres “your country needs you”, que traduzi, na sala de Fraterno, “Borges te caça”.

Recebi, por intermédio de um banqueiro, o recado de velho amigo e colega de colégio, figura-chave no círculo Lacerda, que eu nada tinha a temer de Borges ou do governo da (então) Guanabara. Garantia de quem podia dá-la, melhor que ninguém, logo digna de crédito total. E assim foi feito. Isto, bem entendido, antes de Lacerda “cair”, quando, ao contrário, se pensava que ele seria o herdeiro natural do golpe. Voltei à vida “normal”, livre como um táxi, na frase de Millôr Fernandes. Todas as minhas canas seriam futuras e federais, precedidas de tediosos IPMs.

Pessoas que me conhecem no meu atual ceticismo, a “metralhadora-giratória”, na definição tipicamente elegante e exata de Veja, se surpreendem que eu pudesse ser, ou tenha sido, comunista na juventude. Depois de esclarecer, faço questão, as diferenças entre Trótski e Stálin, respondo com outra pergunta: como é possível não ser, ou não ter sido comunista, no Brasil que descrevi nessas vinhetas?

É possível a gente de sólida base cultural, penso logo em Alceu Amoroso Lima, Adonias Filho e Marcílio Moreira, já “armados” antes de encontrarem as legiões agressivas, até certo ponto irresistíveis de Marx, cuja bandeira brilha, nos ofusca e submete, a exemplo da luz divina que cegou Paulo na estrada de Damasco. A maioria, claro, é omissa e ignorante e se enclausura nessa ignorância, defensivamente. Noutros, bem numerosos no meio intelectual e jornalístico, é puro mau caráter, a vocação irrestrita ao egoísmo e vassalagem aos poderosos, que os faz desviar os olhos do que nos cerca, nos nossos privilégios. Impressionaram muito mal e simbolicamente os óculos escuros de Ernesto Geisel a uma amiga e intelectual americana, Elizabeth Hardwick, a qual depois de escrever um ensaio devastador contra nossa realidade, no New York Review of Books, faltou-lhe ânimo, tal a repulsa, de concluir o trabalho. Elizabeth não viu as lentes de contato usadas pela maioria dos que sabem e negam, colorindo o que não querem enxergar, e cujas cores favoritas são as trevas.

Pagamos um preço pelos nossos privilégios, num país em que as diferenças de classe, apesar da bonomia de superfície, fazem as da Inglaterra parecerem mera excentricidade. Em intelectuais, o preço, em geral, é a limitação criadora.

Estive com Otto Lara Resende, no Rio, em maio deste ano [1980], no escritório dele na TV Globo. É difícil alguém corresponder tão bem ao folclore que corre sobre si próprio, repetido à náusea por gente que não o conhece (no Brasil, a fama atrai incontáveis amigos de infância que nunca vimos sequer). É tudo verdade: Otto cintila em humor, às vezes cáustico, nada lhe escapa, e equilibra esse poder com maneiras impecáveis. Quando nos derruba, intelectualmente, temos a impressão de que nos ninou ao solo. Muitos admiradores dele, já notei, não percebem o quanto recebem, em troca, de zombaria, amável, na forma, a mestria em manipular a linguagem do ícone que adoram. Otto é um católico liberal. Nesse prisma estreito (na minha opinião), sabe distinguir o Bem do Mal. Não precisa de lupa.

Li contos dele. O poder da linguagem, a capacidade de concretizar substantivamente relações pessoais e coisas, relações pessoais a coisas, é inequívoco. O substrato e o próprio extrato de violência nesses contos são também inconfundíveis. Um grande escritor. Em potencial. Falta um centro de aferimento do que nos transmite. Existe uma barreira à consciência, à “explicação” (em realização estética, obviamente), do que nos escreve. Por quê? Por que, vivendo no centro do poder brasileiro, que penetrou mais que qualquer intelectual brasileiro, permanece no casulo regionalista? Por que, em suma, escreve tão pouco? Em quantidade e alcance?

Não é, deixei claro, falta de talento ou de experiência social, que tem de sobra. Nem o fato de que seja um cínico. Todos, ou quase, somos. A sociedade burguesa é cínica, o que até um fiel defensor das virtudes do capitalismo, Joseph Schumpeter, admite no clássico de defesa do sistema, Capitalismo, socialismo e democracia (ver capítulos 5 e 14). Schumpeter lamenta que o capitalismo morrerá de ceticismo e autodesmoralização, o que os artistas burgueses, notei num capítulo anterior, previram e expressaram.

Uso Otto como exemplo porque ele me parece perfeito, um espécime refinado do intelectual brasileiro, para o que digo. É um editor e jornalista contratado à menor chance que der. Faz tudo bem. E culto. Por que, portanto, o bloqueio?

Me parece que é uma resistência fundamental de enfrentar o monstro que criamos (explico já o grifo), por descrença que seja mortal, ou que, se morrer, a alternativa será o stalinismo. Otto apoiaria reformas, certamente, ele e muitos outros, inclusive capitalistas, alguns. Trabalhei (e trabalho) em várias publicações reformistas. Nunca trabalhei para os propagandistas do sistema e, muito menos, colaborei na propaganda do dito.

Otto não quer dar o crédito ilimitado do que nos exige o stalinismo, em que todas as crueldades podem ser explicadas como defensivas. Nenhuma ironia aqui. Podem mesmo ser defendidas e com argumentos marxistas, ou seja, solidamente alicerçadas no maior arsenal revolucionário que o homem produziu. Por esse motivo é que o marxista, ainda que não stalinista, é indiferente à crítica burguesa, feita em bases idealistas, moralistas, meramente psicológicas, que não resistem à luz impiedosa do marxismo, que as incendeia ao menor contato. A propaganda anticomunista é dirigida às vítimas do sistema capitalista. Não é séria, dos economistas neoclássicos aos lamentos de Solzhenitsyn. O que enfurece os stalinistas é quando marxistas voltam Marx contra eles. Aí, sim, se sentem ameaçados e reagem violentamente. Nada disso deverá surpreender. A Igreja Católica ignorava intelectualmente o islamismo, tão ecumênico quanto o catolicismo, ou o judaísmo, budismo, xintoísmo, etc. Não passavam de pagãos, retrógrados desinformados, ou obtusos. No momento que Lutero virou as Escrituras contra a Igreja a reação foi uma guerra secular, sem quartel, em que o próprio armistício de hoje está cheio de cláusulas condicionais e restritivas.

O problema de intelectuais como Otto, de boa parte dos melhores escritores e intelectuais, é a desatenção a um dos mais agudos comentários de Marx, que a sociedade teve como pai “o trabalho do ser humano, enquanto que a natureza é a mãe”. Ou seja, Marx nunca negou que exista o que os economistas convencionais chamam, em miúdos, o “que vende ou não”, o “que produz ou não”, “terra rentável ou não”, etc. O que acrescentou é que esses valores naturais são determinados, no capitalismo, pela quantidade de trabalho humano que é empregado na “mãe”, e que o capitalismo, se apropriando da dita senhora, cobra uma taxa do trabalhador, a mais-valia, que consiste no lucro e produz a subumanização dos que servem meramente vendendo mão-de-obra, sem partilha real dos benefícios do serviço. Isso me parece irrefutável e irrefutado, apesar dos erros comprováveis de várias profecias de Marx.

A mais-valia é impossível de provar empiricamente, tamanha a diversidade social que atingimos, o crescimento excrescente das instituições (governo, burocracia) que se intrometeu nesse processo, e até dos fatores imponderáveis que a camada dos privilegiados impôs ao valor de objetos. Ainda assim, Otto e eu, bem pagos e não subumanizados, podemos duvidar a sério de que nossa fatia do bolo seja, em última análise, calculada em função das relações de custo e lucro dos nossos empregadores? Não precisa resposta.

Marx, em síntese, demoliu a economia convencional, que atribui lucros, pobreza e a “ordem das coisas” a acidentes de recursos, produtividade, forças competitivas do mercado, ao avanço da tecnologia, etc. O último argumento andou muito em moda, na década de 1950. Daniel Bell escreveu um livro célebre chamado O fim da ideologia. O argumento central é que o desenvolvimento infinito da tecnologia tornava superada a necessidade de exploração do trabalho, que justificaria, em tese, a proposta revolucionária do marxismo. Bobagem. Marx respondera a esse argumento antes de Bell nascer, em Gründrisse (esboço das principais idéias que exporia, texto “redescoberto” em 1939 e ignorado até por marxistas antes dos anos 60). Escreveu: “A natureza não constrói máquinas, locomotivas, mulas de autopropulsão, etc. Essas coisas são produtos da indústria humana. São órgãos do cérebro humano, criadas pela mão humana: o poder do conhecimento, objetificado” (grifos no original, pp. 704-706).

Bem, não pretendo expor marxismo aqui, o qual, de resto, me parece uma inestimável contribuição à nossa consciência, mas que rejeitei, em boa parte, porque não é uma resposta a tudo e deixa muitas perguntas importantes irrespondidas. O que acho insofismável, e Marx o demonstrou conclusivamente, é que as relações sociais e a mais-valia determinam a natureza e o funcionamento do capitalismo sob que vivemos, e não que os japoneses apliquem mais eficientemente tecnologia que os americanos, ou que meu grande amigo Carlos Nasser, vivíssimo, jogue na bolsa melhor que A ou B. Criamos o Brasil, repito meu grifo.

Excetuando, porém, os stalinistas, à maneira deles, que acho sectária e sentimental, escritores e intelectuais como Otto vivem à margem dessa realidade. Descrevem, brilhantemente, às vezes, os “acidentes” da natureza e do comportamento humano. São capazes, à la Guimarães Rosa, de inventar uma linguagem que exemplifica a criatividade estética do modernismo, que tanto me encanta e encantou pessoalmente. Mas mesmo nos melhores não-politizados, Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, ou Otto, falta a cabeça que norteie a experiência que transformam em arte. Não estou sugerindo que escrevam tratados, ou sequer se tornem marxistas. É possível usar Marx, da mesma forma que Freud (de quem Marx precisa, falando nisso) ou Platão. Considero desperdício é ficar na vontade misteriosa de Deus (Octávio de Faria), no acidental e no psicológico exclusivista.

Esses escritores são sensíveis à lacuna. Não querem, ou não podem, identificá-la. Fabulam a violência numa extraordinária violência anímica e física expressa nos textos de Rubem Fonseca, Adonias Filho, Otto e, em clave mais sufocada, de Dalton. É a violência da nossa sociedade que a consciência criadora exige deles, agora não conseguem, seja qual for o motivo, objetificar-lhes as causas, que, se não restritas a Marx, não podem excluir o que ele descobriu.

E não são suecos ou alemães ocidentais, filhos de sociedades onde o capitalismo se deixou domesticar, em parte, internamente, na social-democracia que vive, claro, em última análise, da mais-valia que extrai das novas e crescentes conquistas internacionais da multinacionalização, sociedades, portanto, em que o capitalismo reverte à sua barbárie intrínseca às custas dos 2 bilhões de pobres-diabos que vivem à margem da nossa precária civilização. A tecnologia, nesse contexto (que, segundo o pobre Bell, anularia Marx), comprova Marx, mostrando-se um dos instrumentos supremos de dominação dos fracos pelos fortes, da exploração do “valor de troca” do trabalho, que caberia, ainda hoje, no capítulo mais devastador da ideologia burguesa, no primeiro volume de O capital: “Um dia de trabalho”.

Privilegiados, a caminho do escritório e do ar condicionado, vemos das janelas dos automóveis a massa de autômatos, enferrujados e batendo pino nas ruas. Onde trabalhamos, esbarramos nos contínuos e faxineiros, cujo salário é mais “barato” que o preço do jantar e do uísque de ontem. Notem: não estou chamando esses escritores de propagandistas da burguesia. Eles a condenam revelando a violência em que vivemos, apenas excluindo a lógica brutal que a determina (sempre em última análise, pois há, claro, outros fatores contribuintes).

Não me é difícil compreender como se sentem. Descrevi o meu Rio de criança, idílico, em relação ao presente, no meu canto de classe média. O silêncio do campo era, bem, inaudível. A miséria visível, ainda comparativamente pequena e, na aparência, resignada. Dominávamos as ruas em que hoje seguramos as carteiras e as mulheres escondem as correntes de pescoço. A própria brutalidade comercial não mostrava, às escâncaras, a verdadeira face. Lembro que novos moradores recebiam de presente doces e pães escolhidos dos fornecedores e, até, segurem-se nas cadeiras, carne dos açougueiros.

Éramos a cabeça do iceberg que em breve se ergueria imprevisivelmente e não somente na nossa modesta escala nacional, mas se chocando com o Titanic do capitalismo em expansão internacional.

Nossa cultura não nos preparou para isso. Essa classe média do Rio rico (em termos), ao contrário, desconhecia a ética da ambição. “Seu garçom, faça o favor, etc.”, Noel nos repercutia em referência ao “baixo extrato”, dormente. Queríamos sombra e água fresca. Nada disso é acidental.

O Brasil foi colonizado por uma das potências da contra-reforma. Me repito e expando. Os jesuítas, em face das ameaças de protestantismo e decorrentes, capitalismo, nacionalismo, sem falar da ciência, pregando o pensamento livre e materialista, decidiram, no Concílio de Trento, 1545-1563, congelar o mundo feudal, em perigo, contra a modernidade. O resultado prático disso foi que as potências protestantes em breve assumiriam o controle do mundo, enquanto que os velhos impérios católicos decaíram e terminaram em insignificância, Espanha e Portugal incluídos. A Itália lutou até o século XIX contra o transnacionalismo da Igreja, apoiado na Áustria católica, para converter-se em nação unificada. A exceção, a França, teve os grilhões eclesiásticos partidos em 1789, e o subproduto cesariano da dita, Napoleão, chegou a pensar seriamente em extinguir o Vaticano, porque se opunha aos projetos multinacionais dele.

O Brasil, sob o feudalismo português, emergiu da caatinga à grama, a primeira “reservada” aos miseráveis, a segunda aos senhores da terra, apontados por determinação divina, incontrastável. Sim, o direito sagrado dos reis é subproduto da Igreja, da doutrina de predestinação de Santo Agostinho, em que Santo Tomás passou panos quentes, aliviando sem conseguir, realmente, encobrir o “mistério” de que uns se salvam, outros não, tudo já sabido previamente por Deus, o que nos ajuda a nós, pecadores vocacionais, que aproveitemos enquanto podemos porque, apesar do “livre-arbítrio”, nosso destino está selado. Essa é a ideologia que fundamentou secularmente os privilégios da aristocracia, os escolhidos de Deus, e que o capitalismo transformou em relação dinâmica (e opressiva) de capital e trabalho.

A influência da contra-reforma não pode ser subestimada na criação do Brasil. Promoveu a indiferença da classe dirigente à emergência do capitalismo e industrialização, os dois propulsores supremos da burguesia no século XIX. Enquanto os EUA, o outro país continente das Américas, explodiam industrialmente depois da guerra civil de 1861, já em 1890 se convertendo na primeira potência industrial do mundo, o Brasil pastava sob Pedro II. Os EUA, em tempo, assumiriam o quase monopólio colonial de Inglaterra e França, consolidando a supremacia no pós-guerra de 1945. Nossa única aventura imperial foi o estúpido e inútil genocídio de 750 mil do milhão de homens paraguaios. Os EUA produziam fábricas e racionalizavam a agricultura, nós importávamos escravos. Em 1865, os EUA destruíram o feudalismo, a escravidão e o “modelo exportador” do Sul, estabelecendo a primazia do poder central. Nossa primeira Constituição republicana, em 1891, graças ao absurdo Ruy Barbosa, foi um retrocesso, pois cópia malfeita da Constituição americana de 1787, em que o direito dos Estados prevalecia contra â centralização, o que a guerra civil americana renegara, em nome do progresso. Foram o Estado Novo e o golpe de 1964 que reimpuseram o centralismo que o Segundo Império criara, a exceção à regra das idiotices de Pedro II.

Perdemos literalmente um século de História, sob o feudalismo contra-reformista imperial. Antes, claro, desde o Tratado de Utrecht no século XVIII, Portugal se tornara mero satélite da Inglaterra, situação agravada pelas guerras napoleônicas, as quais puseram D. João VI a correr em cima de nós. E os ingleses nos confinaram no “modelo exportador”, agora herdado pelos EUA. Na História do Segundo Império há dezenas de Robertos Campos e Delfins Nettos enunciando que “exportar mais é a solução”, devendo os olhos da cara a Londres e negligenciando o desenvolvimento interno do país. A maioria do povo pagava e continua pagando todas as contas, enquanto a classe “compradora” permanece na sela do burro manso que é o Brasil. Dos títulos aristocráticos aos de agora, a diferença é do fedor da nobreza à pseudo-auste-ridade pseudo-apolítica da tecnocracia.

Em face desse monstro é compreensível que os privilegiados que não o manipulam diretamente prefiram alienar-se na “tradicional cordura do bom humor” do brasileiro, a enfrentá-lo. O ser humano, porém, é um bicho estranho, pois o único a pensar no que constrói (Marx). Abelhas e formigas são tão hábeis ou mais que nós. Mas não padecem da consciência do que fazem. E o intelectual é o pensante in extremis. Não pode deixar de ver o custo ao próximo, às dezenas de milhões de desgraçados, que a omissão de um cérebro vivo, capaz de formular reformas, ajuda a promover. Então o intelectual bebe e se desespera em personalismos, na mulher amada impossível (quanto mais, melhor, aumenta a ilusão de seriedade), ou tenta, se bem pago, imitar os grão-senhores. Não dá certo. É da condição do intelectual enxergar a realidade. Esnobes sociais, Proust e Fitzgerald terminaram virando a mesa grã-fina. E daí o pessimismo crônico, as explosões alcoólicas, desproporcionais à suposta causa (“irmãs” de Osny, outra vez), a autodepreciação masoquista, o senso opressivo de futilidade da nossa vida intelectual.

Esse escapismo, em última análise, é suicida. Pasmo, sempre que vou ao Brasil, com o grau de ingestão de álcool de amigos intelectuais, o tipo de briga que criam entre eles, motivadas por cismas e suspeitas paranóides, que, no fundo, escondem apenas, ou essencialmente, a recusa de assumir um papel de combate ao horror ambiente.

O presente, ridículo ou humilhante, termina aceito porque decretado inevitável. Assim é que os stalinistas fingem orgasmos em face do popularesco nas artes (que é, claro, mero reflexo da indigência material dos que o praticam), descobrindo-lhes virtudes e potencial revolucionários, quando é esse tipo de cultura que uma revolução socialista eliminaria, criando um estágio superior, não da grandiloqüência proposta, num entusiasmo excessivo de Trótski, ao falar que o comunismo converteria o proletário num Goethe (o mesmo Trótski, sóbrio, disse que levaríamos cem anos, pós-revolução, até que a cultura socialista atingisse o nível dos melhores exemplares de superestrutura dos burgueses. Marx, que esnobava líderes operários falando grego clássico na frente deles, preferiu prudentemente abster-se).

Otto ri e debocha melhor que ninguém do fardão que envergou. Drummond se recolhe, certo da poesia que deixou, certeza que partilho, mas generosamente elogia, em crônicas, subliteratos que não valem a fita de máquina em que perpetraram tudo que Drummond é contra e que, no íntimo, ele mantém inviolável. Os senhores do monstro recaem à infância em delíquios de paixão pelas simplicidades do futebol, onde ganha, em geral, quem jogar melhor, o que é o oposto da forma em que assaltam a vida e a bolsa do alheio. Ou há, mais revelador, talvez, o culto da MULHER.

O homem brasileiro de elite trata, quase sempre, as mulheres como aparecem caricaturadas nos panfletos feministas. Um objeto. Ela, se esperta, tira a forra, chifrando-o e, em separações, arranca-lhe boa parte da conta numerada na Suíça. Ouçam no entanto nossa música popular. Quando não chora os coitadinhos, vítimas da exploração, o que pouco incomoda a burguesia (Didu de Souza Campos debulhou-se em lágrimas, a meu lado, na estréia no Rio de Eles não usam black-tie. Tereza dizia e repetia: “Vai estragar a camisa, vai estragar a camisa”, revelando um senso prático ausente da peça e da reação da platéia), temos um lirismo tatibitate entre homem e mulher, que é um vomitório, ou, a alternativa, as dores de coração dos rejeitados. Ninguém canta as glórias das “pistoleiras” de alto coturno, as Billy the Kid de saias, que, ao menos, no plano pessoal, contestam a opressão masculina que é a constante da sociedade. Merecem cobertura “heróica” igual à dos meliantes na imprensa, aqueles que tanto atraem o povo, pois neles cheira a revolta...

É natural que intelectuais e artistas gostem da companhia dos ricos e poderosos. À parte primitivos vocacionais, Guarnieri, Plínio Marcos, ou Henfil, eles pertencem à elite, por mais que o neguem, inclusive pregando e atuando em revoluções. As duas coisas, elitismo e “subversão”, podem coexistir numa pessoa. Como fugir ao elitismo quem se sabe capaz de transformar experiência em formulação lógica, ou beleza, esse trabalhador que carrega as ferramentas na cabeça, na frase de Maugham? E riqueza e poder são esteticamente agradáveis a cérebros suscetíveis por excelência às atrações do estético. Se come melhor na mesa dos ricos, em geral (há muito novo-rico no Brasil...). As bebidas costumam ser excelentes. Há casas magníficas em que vemos, no ambiente adequado, um hábitat humano, quadros só encontráveis na monotonia impessoal dos museus. Algumas mulheres, à parte cheirarem sempre bem (nada do honesto suor e desarranjo de um dia de trabalho), se vestem, pintam e penteiam em nível de modelos internacionais. E aprenderam à perfeição as artes da gueixa. O próprio rico e poderoso tem a aura, o charme perigoso, do tubarão, que, no filme aquele, me pareceu, apesar de ser de borracha, mais interessante que os caçadores, feitos de papelão histriónico. E muitos senhores viajaram, falam diversas línguas, possuem informações inacessíveis à “ignara”, sabem das coisas, conhecem a variedade cultural do mundo e são, desde que não falemos de dinheiro, refinadamente tolerantes.

Os intelectuais e artistas são tão esnobes da “diferença” que os marca quanto aristocratas e bem-nascidos dos nomes. Estes, a sós, não falam de outro assunto que a ascendência que supostamente os distingue do resto dos mortais. Os intelectuais exibem maior versatilidade, mas sempre chega o momento que, a sós, comentam a indigência mental dos “outros”, nem sempre caridosamente...

É uma atração entre elites. Muitos tubarões devem apreciar a elegância e inteligência dos delfins, e estes a fúria poderosa dos tubarões, que não pedem, tomam o que querem. Nada disso precisa significar compatibilidade de objetivos, ou de valores. Os vassalos da classe dirigente na imprensa e (sub)intelectualidade se irritam com o acesso do intelectual de opinião própria à grande burguesia. Cunharam o pejorativo “esquerda festiva”. Wilde dizia que fala mal da (alta) sociedade quem não consegue penetrá-la. Minha opinião dos críticos da “esquerda festiva” é que gostariam de participar dela.

Há nuances, claro, entre freqüentar gente socialmente “bem-nascida”, por prazer estético (os pobres são extremamente desagradáveis. É um dos motivos que tantos intelectuais de esquerda pretendem, pela revolução, elevá-los à dignidade humana que condições sociais lhes negaram), e as auto-ilusões dos que se rendem e servem aos interesses da burguesia, ainda que pela omissão. Acho mais útil bebericar com Walter Moreira Salles, que pode me ensinar fatos que a imprensa perdeu, à parte o charme do cavalheiro, do que escrever a enésima peça mostrando que operários, “tadinhos”, são explorados pelos capitalistas, “bicha, bicha”. O Flamengo, ou o Coríntians, são times de futebol (os meus) e não magnetos da capacidade (primitiva, naturalmente) das massas contestarem o sistema.

As novelas da TV Globo foram melhoradas, me dizem (estou fora do Brasil há quase 10 anos), pelo velho amigo Dias Gomes, que suou bravamente a camisa no teatro, tentando, inclusive, em A invasão, fazer peça que mostrasse os destituídos, como grupo, classe, personagens centrais, evitando as fórmulas heróico-familiares em que Guarnieri e Vianinha se expressam, que terminam convertendo a idéia de crítica socialista em freudianismo (insuspeitado pelos autores). Agora, as novelas de Dias, é evidente, não incomodam o mais arguto, eficiente e próspero empresário de comunicações no Brasil, Sr. Roberto Marinho, que não esconde o conservadorismo. Logo...

Prefiro a companhia dos excêntricos e marginais, digo, os marginais das côteries, como Jânio de Freitas, Millôr Fernandes, Cláudio Abramo, Ivan Lessa, Antônio Maria, Sérgio Porto e o Alberto Dines pós-Jornal do Brasil. Alguns se ofenderão que eu os coloque juntos. Vários gostariam de agredir-se mutuamente. Já se agrediram por escrito, se fizeram barbaridades no trato (no names, please). Politicamente, minha formação é parecida com a de Cláudio. Em temperamento, de preservar a independência e dignidade pessoais à loucura, Millôr, Jânio e o Dines que se redescobriu aos 40 anos são bem próximos. Ivan Lessa, o mais íntimo. Em comum têm que são incapazes de aderir a qualquer rebanho. Nunca foram sequer companheiros de viagem da esquerda oficial, papel a que me prestei, fechando o nariz e desenvolvendo uma violenta dermatite alérgica, entre 1960-1964.

Não é muito ou pesa muito em face dos condutores da horda, desta própria, ou dos que se refugiam em coteries ou na subserviência aos poderosos. É uma vela acesa, quase invisível em meio ao neon mistificador das trevas que nos circundam. Não raro nos queima os dedos. Há uma ponta de orgulho irracional na nossa atitude e, claro, sofremos escorregões ocasionais, sem falar de fúrias neuróticas em que passamos do crítico ao meramente pessoal, às vezes cruel, quase sempre desnecessário. Mas nos preserva do conformismo pseudo-alegre do “deixa disso” (“joga pro alto”, no meu tempo de garoto), ou do radicalismo de gabinete, que nunca mostra as cores, exceto em botequins, ou da certeza histérica dos imaturos. Os que citei acima, notem, são meus amigos. Poderia incluir outros. Falo apenas dos que conheço bem.

Existe nesse meio, que se convencionou apelidar “Ipanema”, uma douceur de la vie, ao alcance dos bem dotados de cabeça, ou dos que tenham charme. É um equívoco subestimar charme pessoal, como atrativo. Quem diverte o próximo será festejado pelo próximo. O presunto, repito, está sempre pendurado nalguma porta de interior luxuoso, onde todos os confortos são gratuitos. Os almoços terminam quando as pessoas determinam. O álcool e etc., fluem mais barato que água, ou seja, de graça. A companhia é variada e cativante, das mulheres bonitas (ou rapazes, dependendo do gosto de cada um) aos espirituosos, à informação a que só privilegiados têm acesso, a um sentimento, em essência infantil, que o sensorial puro pode ser o centro da vida, entremeado de um sono de exaustão e outro. Até trabalhar não é artigo de primeira necessidade. Algum co-habitante do paraíso descobre um posto de aspone (assessor de porra nenhuma) aos que precisem pagar o aluguel. A liberdade de preferência sexual, ou de experimentos não aprovados pela polícia (a menos que subornada previamente), é total, desde que o praticante não engrosse contra os direitos dos outros. Casas em Búzios, na serra, etc., oferecem ao “anjo exterminador” locais diversos e, claro, escolhidos, onde pousar as asas.

Tenho amigos produtivos que conciliam sem dificuldade trabalho e “isso”. A mim não me serve. Não é que eu seja virgem da experiência, ou que, nela, me sinta violado. Vez ou outra cai bem, e por que não? É a continuidade monótona que me perturba, e, pior, entedia mortalmente. Preciso de uma certa solidão ocasional. Prefiro ler à maioria dos papos ou a álcool, o que não quer dizer que não sinta falta dos amigos, conversas, da vida que deixei no Brasil, ou que, bebendo, eu não me exceda. Esta última atitude me deixa perplexo. Passo meses literalmente sem tocar em álcool, que há à beça em casa. Nada de drinques, antes, durante ou depois do jantar. Já se vou a um restaurante acompanhado, bebo, como pau-d’água. Às vezes, idem se convido gente que bebe a me visitar. Corto o fumo, quando quero. Deixei uma vez quatro anos, outra um ano e meio. Voltei, no momento. Largo assim que terminar este livro. Quanto a outros itens que nos levantam artificialmente o moral, “amo-os e deixo-os”, sem me fixar numa ou outra posição. Sei que há gente que se cria problemas mexendo nessas coisas. Acredito que “essas coisas” apenas trazem à superfície os problemas latentes. A balbúrdia moralista em torno do assunto me provoca o torpor único do enfado.

A perturbação é mais decisiva que o tédio. Como tantos que escrevem, não gosto de escrever, mas me sinto infeliz, mais do que o habitual, se não escrevo. Sou, como disse, ambicioso, pessoalmente, não resisto à vontade de me destacar, essa vulgaridade em que me confesso “viciado”, e porque me realizo espiritualmente no trabalho. Há muito pouco na vida que se compare ou dure tanto com e como a sensação do dever (que nos impusemos) cumprido. Fui dotado de uma capacidade de trabalho, que desenvolvi, verdadeiramente elefantina. Perco a consciência de mim mesmo, esse miserável feixe de nervos e sensações que é o ser humano, elevando-a, paradoxalmente, ao pôr no papel o que me interessa. Não gosto de fama, aquela em que nos apontam o dedo na rua. Me agrada ser conhecido, respeitado e, principalmente, não humilhado.

E a consciência intelectual, que ganhei pela lógica e estudo, se tornou parte inextricável, orgânica, de mim. Ainda hoje, que ninguém mais me convence, ou nenhum conjunto de idéias, que exista uma verdade, hoje que reconheço a prudência tático-estratégica de Cristo em não responder à pergunta de Pilatos (duvido que ambos tenham existido na forma que chegaram a nós, claro), sei ao menos o que detesto e rejeito. Reverti, dizem marxistas amigos, ao moralismo subjetivo, que lastreio cosmeticamente do cabedal que armazenei quando proponente revolucionário. Me consideram um caso perdido, um pequeno-burguês que tornou às origens, se acreditando o centro do mundo. Talvez. No dia que me explicarem Stálin, dentro do marxismo, quem sabe assumo o rótulo que me colaram, ou volto ao aprisco.

Mas antecipo. Não desconheço as limitações de uma posição pessoal, não integrada à teoria e ações coletivas. Nos meus romances explorei esse dilema. Em Cabeça de papel, Hesse é o revolucionário comunista que, julgando o capitalismo incorrigível e o stalinismo sórdido (ver últimas páginas do penúltimo capítulo), ainda assim optou pelo último porque acredita que, apesar de tudo, contém uma saída da crueldade, da estagnação e morte certa da burguesia. Paga um imenso preço psicológico. É um monstro no trato de quem lhe atravessa o caminho, mente, dissimula, “trai” amigos velhos e novos, engana mulher e filhos, maltrata quem se interponha a desejos inconcebíveis num socialista, no novo homem, de quem se imagina vanguarda. A experiência me fez, enfim, entender a ressaca emocional de Raskólnikov, a personagem que me encaminhou ao rumo e ao desvio da racionalização. Sem uma ideologia revolucionária que lhe sustente o ato voulu que cometeu, só resta a Raskólnikov a rendição à piedade animal, que Sônia e a miséria russa lhe provocam, e termina se submetendo à crueldade das coisas, submisso à autoridade.

Dostoiévski, mais que qualquer autor, nos demonstra a inevitabilidade da demolição do edifício podre do tzarismo. Não sabendo o que pôr no lugar, ou temendo algo pior (...), nega desesperadamente o que o gênio lhe obriga a escrever, imagina fantasias de redenção religiosa, ou da impossível reforma do tzarismo na fé cristã, ou, ainda, baixando ao babalaô racista do pan-eslavismo. É maravilhoso e pateticamente ridículo.

Se a reação de Dostoiévski é, em si, absurda, não deixa de conter um cerne geral de realidade. O trabalho subversivo nos leva a violar sentimentos de fraternidade, inibições de consciência, etc., para com o próximo, se este nos cria obstáculos. A revolução bolchevique pressupõe a liquidação de uma classe social, a coação de toda e qualquer pessoa que impeça o objetivo, inclui o assassinato (“liquidação”, no eufemismo) de contra-revolucionários ou meros dissidentes, ao menos no período crítico em que os revolucionários procuram submeter o situacionismo ao que aspiram. Classes, porém, são pessoas, individualizadas, e é assim que o revolucionário real teve e terá de confrontá-las. Dzerjinski, o primeiro chefe da Tcheka (hoje KGB), era um homem cheio de calor humano, bondoso e afável, que desejava no governo de Lênin ser o comissário do bem-estar da criança. Mandou matar centenas de milhares de pessoas, ou milhões, na luta e guerra civil que se estenderam de 1917 a 1921. Certo da necessidade de defender a revolução, cumpriu o que lhe ordenou o Partido. Sabemos que se deprimiu quase ao suicídio, porque, ser humano, e excepcional, a matança, não importa a justificação intelectual, “histórica”, deixou-o em angústia incurável. Em plano incomparavelmente mais modesto, meu Hesse é um alcoólatra, cocainômano, um sádico sexual. Até o sadismo esse, na minha concepção, é parte do humano que reprime, à la (a última vez, juro) “irmãs” de Osny. Imaginem viver assim, fingindo-se do que não é, dia e noite, anos a fio, inclusive, no caso de Hesse, agüentando as injúrias de velhos companheiros de esquerda. O sogro dele, inimigo ativo e perigoso in extremis, porque advogado principal de multinacionais, se revela uma pessoa adorável: é o “acaso” que Dostoiévski fixou imortalmente quando Raskólnikov tem de matar outra pessoa depois da velha avara, socialmente parasitária e deletéria, inútil e dispensável. Hesse gosta dele, ama-o como o pai que (o natural) rejeitou, e, no entanto, é do sogro que extrai o que precisa, cafiolando-lhe a estima reciprocada.

Neste romance dei minha opinião política, limitada de certa forma e ampliada de outra, pela forma que usei, a ficção; esta, se corta a coerência do ensaio, expande o fator humano que os ideólogos, Marx inclusive, costumam deixar de fora. Marx nos disse tudo que é necessário sobre o “reinado da necessidade”, em que o ser humano organiza formas de sobrevivência, de dominação da natureza e do próximo, da revolta dos oprimidos, e, no caso do capitalismo, sobre as contradições que a expansão, indispensável ao dito, trazem à tona, levando a um processo de autodestruição. Silencia quanto ao “Reinado da Psicologia”, típico iluminista científico do século XIX (pré-revolução freudiana, que afirmava a permanência do irracional...), pois humanizadas as relações sociais, evoluiríamos aos poucos à sociedade comunista altamente desenvolvida, “de cada um de acordo com a capacidade, a cada um de acordo com a necessidade”.

Stálin, depois da heresia inicial bolchevique tentar revolução num país pré-capitalista (ao assumir, Lênin previu que o governo duraria 66 dias, meio de brincadeira...), cumpriu os essenciais do manual de transformação marxista, de uma posição inequivocamente defensiva. O que inclui, durante a mudança de estruturas, os diferenciais de salários e privilégios dos líderes (Marx, Crítica do programa de Gotha, 1875), tão criticados por submarxistas e a burguesia que adora a escrotidão do próximo, se sentindo refletida...

Matou 10 milhões de camponeses, disse a Churchill. Violência indispensável, em face do atraso e resistência, à modernização da agricultura. Matou de 1 a 2 milhões de bolcheviques e famílias, que pudessem contestar, em potencial, a abolição de facções e divisões perigosas, abolição votada por Lênin e Trótski e a maioria do Comitê Central, em 1921; pregou obediência cega em face do perigo nazicapitalista que temeu unir-se contra a URSS. Esmagou a dissidência cultural pelo mesmo motivo. Disse a Djilas, o ex-revolucionário iugoslavo, que Dostoiévski era um grande escritor, mas perigoso à juventude mobilizada, o que é, de uma posição defensiva, justificável.

Usou sem pudor a Internacional a serviço da URSS, sacrificando a vida de milhões de comunistas. De novo, explicou que a defesa da URSS, já encaminhada ao socialismo, se tornara prioridade absoluta, superando quaisquer outras considerações, pois, caso contrário, os Chamberlains e Hitlers a reconduziriam à servidão capitalista e, na década de 1930, ninguém contesta que as aparências indicavam uma possível aliança entre o velho imperialismo anglo-francês e o nazismo emergente.

Se é possível defender o marxismo stalinista, não é difícil prová-lo numa contrafação do original. Trótski afirma que socialismo nacionalista (“num país só”) não é socialismo. Certo. Não é. Mas Trótski assistiu ao fracasso da revolução permanente em que ele e Lênin basearam o Outubro soviético. Logo, o que fazer? Os trotskistas notam, entre o orgulho e a repulsa, que Stálin roubou o programa de Trótski de desenvolver a URSS: industrialização pesada a todo vapor, coletivização e mecanização da agricultura, a modernização e profissionalização das Forças Armadas, em defesa do Estado, enquanto o mundo não aderia ao socialismo. É certo também.

Então de que se queixam? Trótski certamente não foi um ambicioso vulgar, a quem a mera perda de poder convertesse em inimigo de Stálin. Se queixam que os métodos de Stálin foram desnecessariamente brutais. Merda. Quando Trótski lançou essas idéias no Comitê Central, nos tempos de Lênin, todos perceberam o que implicariam em violência e coação. O profissionalismo militar, por exemplo, pareceu à maioria dos bolcheviques o caminho do bonapartismo. Trótski foi o mais ardoroso defensor da extinção dos direitos do trabalhador à greve. Chamava-o funcionário público do Estado socialista, logo, greve contra quem, contra si próprio? Sugeriu que se copiasse a lei Taylor, americana, que proíbe greve a funcionários públicos. Dirigiu o massacre dos marinheiros anarquistas da Kronstadt, em 1921. Trótski, apesar do gênio, dos serviços prestados à revolução e na guerra civil, que dirigiu executivamente, sugeria à maior parte dos bolcheviques o que Stálin se tornou.

A crítica mais devastadora a ele partiu de Lênin, no famoso “Testamento”. O próprio Deutscher, num raro momento de desonestidade, não aprofunda o assunto. Fiquei sem entender, quando li a primeira vez o comentário de Lênin. Digo, o motivo da fúria de Trótski. O motivo é uma palavrinha inocente no nosso linguajar: administrativa. Lênin, afinal, chama Stálin de rude (se considerando a rudeza normal bolchevique, já referida, esse rude aí tem o peso de um petardo nuclear), de desleal (sic), e propõe que Stálin seja removido da secretaria (chefia) geral do Partido (da burocracia que governa o país). Horrível, não? De Trótski, diz que é indiscutivelmente o mais capaz dos líderes, que a oposição dele, pré-1917, às regras do partido bolchevique, não deve ser usada contra ele. Ridiculariza o marxismo de Bukharin, a falta de seriedade de Rikov e a covardia moral de Zinoviev e Kamenev.

A crítica a Trótski é que ele se deixa fascinar por soluções administrativas. Repito que nos soa um tapinha de moça (não feminista). Em linguagem bolchevique o significado é outro: administrativo é o eufemismo de peremptório, de cima para baixo, antidemocrático, de apolítico, no sentido de que não leva em consideração os sentimentos do povo, dos fiéis, que, mesmo no erro, devem ser persuadidos (digo, insisto, que Lênin fala dos proletários e camponeses, não da burguesia. Contra esta era o supremo “administrativo”) e não dobrados ditatorialmente à vontade do Partido.

Trótski, no exílio, voltou a pregar a democracia partidária, a tolerância da dissidência, se não contra-revolucionária, e se defendeu com raro brilho das acusações infames de Stálin, e foi, em suma, um grande marxista, revolucionário e intelectual. Não perdi a admiração por ele, nesses pontos de dúvida de tantos marxistas. Agora, apresentá-lo em 1917-1924, sob as cores que reassumiu gradualmente no exílio, me parece falsificação histórica. Admito também que ele, no poder, modernizaria a URSS sem os excessos paranóicos de Stálin e duvido que matasse bolcheviques apenas porque discordassem dele. Mas isso é especulação. Sabemos como as pessoas se portam no poder apenas quando estão no poder.

Concedo mais, ex-trotskista, que Bukharin e apologistas estão certos em que Lênin, confrontado pelo isolamento e pobreza da URSS, pós-1923, quando as outras revoluções haviam falhado, preferisse uma solução conciliatória entre “o campo e a cidade”, em suma, entre as ânsias de modernização às pressas a fim de garantir o novo Estado e o terrível primitivismo das diversas nacionalidades soviéticas. A Nova Política Econômica, NEP, de 1921, é um exemplo disso, pois permitia um retorno a certas atividades capitalistas, e Lênin procurou (sem muito sucesso) comerciar normalmente com as nações capitalistas, propondo, assim, pela primeira vez, o que se batizou de coexistência pacífica ou détente, até, claro, que a URSS se desenvolvesse, houvesse novo surto revolucionário no mundo e que as crises cíclicas do capitalismo chegassem ao paroxismo final. Acontece, porém, que Stálin liquidou a NEP em 1929 porque a conciliação de “campo e cidade” fracassara, porque sentiu na Grande Depressão uma nova chance de internacionalismo revolucionário e a necessidade urgente de mobilizar a URSS, o alvo provável e prioritário do capitalismo em crise. Como teriam reagido Lênin e Trótski, no lugar dele? Não podemos saber.

Não estou fazendo a defesa de Stálin e do stalinis-mo. Apenas procuro colocar as coisas em perspectiva. É fácil demonstrar que se de um lado a repressão e coação que aplicou transformaram a URSS numa potência de primeira grandeza, trouxeram também uma miséria infinita ao povo do país, aos comunistas estrangeiros, e, mais grave, Roy Medvedev, o marxista soviético dissidente, prova, em Deixem a história julgar, falando de experiência que ele e família viveram na carne, que Stálin tolheu, pela intolerância e pavor que inspirava8, boa parte do progresso material e científico do país. Criou problemas de produção, pelo excesso de centralismo, irresolvidos até hoje. Em 1980, a URSS dispõe de um PIB de 1 trilhão e 400 bilhões de dólares. E no entanto é uma sociedade culturalmente atrasada, em ciência exata e humanismo, na tecnologia (exceto a militar, porque, nota Medvedev, aos cientistas militares Stálin concedeu o direito raro da dissidência, restrita ao plano técnico), e sociedade que não provê à imensa maioria do povo o mínimo básico de consumo material e de bem-estar, à parte lhe haver cerceado a diversidade de costumes, maneiras e criatividade, que deveriam florir sem impedimentos uma vez formada a base econômica socialista. O maior serviço que a URSS presta à humanidade, e um grande serviço, é impedir que os EUA e aliados ricos nos escravizem totalmente na barbárie capitalista de que já desistiram em boa parte, nos respectivos países, e que nos infligem, ao Terceiro Mundo, à menor chance.

Marx, repito, desprezando o “Reinado da Psicologia”, não nos explica o aparecimento de um Stálin, uma vez estabelecida a abolição do capitalismo. Rosa Luxemburgo foi mais aguda: disse que a morte (certa) do capitalismo traria socialismo ou barbárie. O veredicto sobre a URSS se equilibra entre esses opostos.

Alguém acredita que a burocracia dominante, que se reproduz e expande, irá altruisticamente ceder um dia as rédeas do poder? Sem uma revolução? Duvido. A explicação da burocracia amenizada, pós-Stálin, que o líder padecia de uma enfermidade chamada “culto da personalidade” é palhaçada antimarxista, de um reles psicologismo. Stálin, claro, diria Marx, foi gerado das relações sociais do Estado soviético. Os marxistas silenciam quando se toca nisso, ou nos propõem o “se” de Trótski ou o “se” de Bukharin, sem falar desse retorno mal disfarçado à social-democracia de Kautsky e Bernstein, vulgo “eurocomunismo”.

Haverá sempre os Hesses acreditando que emergirá do colapso capitalista a ordem que Marx previu. Não lhes falta base na previsão do colapso. Toco nos essenciais no processo nas páginas adiante. Marx escreveu tanto e tão bem que permite a exegetas toda espécie de desvio e devaneio. Não nos iludamos. A força incontestável dele, a meu ver, reside na análise do sangrento suicídio do capitalismo, e não no socialismo que espera nascer do morto. Marx, que escreveu 2.500 páginas de O capital (ainda assim visão genérica, a qual deixou inacabada, nem entrando na visão específica, prometida a Engels em tantas cartas...), nos deixou duas páginas e meia sobre o futuro Estado socialista.

O narrador, Hugo Mann, é um perplexo, perdido entre a terra e o céu, submetido a impulsos e idéias que se contradizem. A experiência que teve de revolução foi o patético aborto brasileiro de 1961-1964. Acredita, como Freud, que o ser humano contém um cerne biológico intratável, indomesticável, que erguerá a cabeça irracional em qualquer contexto humano, “parecendo a flor inocente mas se revelando a serpente por trás”. Detesta a burguesia. Ex-trotskista, admira o “Velho”, descrendo no entanto que existam respostas “certas”. Hugo duvida da capacidade de intelectuais influenciarem os acontecimentos, pela razão ou à la Hesse. Hugo respondeu a si próprio (e expande a resposta no romance seguinte, Cabeça de negro) a pergunta de Luxemburgo: acha que o cadáver do capitalismo gerará os vermes da barbárie.

A justaposição de Hesse e Mann é o tema de Cabeça de papel. Resumi neles a alternativa do intelectual de esquerda, situando no debate a posição específica do Brasil, fora do paroquialismo do Figueiredo, ou melhor, do Geisel versus o prezado Faoro, dos diversos Ps, os partidos dispostos a repetir a tragicomédia de 1946-1964, da qual, noto triste sempre que vou ao Brasil, não extraíram uma única lição evolucionária.

Que é que eu tenho com isso? Mais e mais me pergunto. Por que não me dedico, no que me resta de vida, a escrever o que acho necessário? Espero que meus romances tenham dado prazer e informação a quem os aceitou. Sem malícia, invejo autores como Adonias Filho, ou Dalton Trevisan, que, à parte o talento comprovado, constroem uma oeuvre, um volume e continuidade de trabalho, ausentes (Adonias de uns tempos para cá) do barulho e bagunça de superfície da calamidade brasileira. Não incluo Jorge, o mais bem-sucedido, porque afinal gastou boa parte da juventude enfiado até o pescoço na shit que partilho, se bem que escapou do diversionismo jornalístico. Tenho um canto fora do Rio onde sonho me isolar, escrever o dia inteiro e, à noite, cultivar amigos íntimos, ouvir música, ler, adquirir o gosto pelas coisas simples (minha incultura do rotineiro da vida é incomum), gozando o conforto afetivo que minha mulher provê. Não abrir jornal, ouvir rádio, ou ter sequer TV. Se alguns se masturbam pensando em Bo Derek, meu balanço de mão é outro.

Há uma contradição, claro. Foi à distância, nos EUA, que encontrei a relativa paz de espírito em que exorcizei os demônios de Cabeça de papel e Cabeça de negro. Escrevi um livro político de uma sentada, descrevendo as duas Américas, a de McGovern (se recolhendo) e a de Nixon. Reuni três volumes de ensaios. E, notem, escrevo cerca de 700 artigos ao ano, um mínimo de nove por semana e sempre há extras, nos momentos de crise, quase diários. No Brasil, provavelmente, eu teria de pedir emprestados os óculos escuros de Geisel, ou, melhor, do cego honesto da esquina, se quisesse não ver. O que nos aflige, para mim, é tão fácil de evitar quanto Les demoiselles d’Avignon a primeira vez que enxergamos.

A lógica dita essa posição de recolhimento produtivo, se é que vou cumprir o desejo infantil de ser escritor, e Freud nos avisou que só os desejos infantis saciados nos trazem um mínimo de felicidade, o possível mínimo, no que acredito. Já lutei mais batalhas, participei de mais polêmicas, de “campanhas”, do que tenho fios brancos na cabeça. Nunca achei, bom e ex-marxista, que pessoas sozinhas conduzem movimentos históricos. Estes ganham uma dinâmica própria. O líder é, quando muito, expressão do coletivo (Hitler), ou sintoma (Stálin). Poder político, política de “p” minúsculo, me são soporíferos. Claro, sempre se pode dar mãozinha à História, ou mão-cheia, em casos excepcionais, Lênin e Trótski. E no entanto consideremos os objetivos supremos desses indivíduos. Hitler inclusive. Hitler queria exterminar os judeus e comunistas. Israel não existiria sem Hitler e a URSS não se haveria expandido tão rapidamente sem Hitler. O que diria o Lênin de Estado e revolução, o mais humano e esperançoso dos tratados socialistas, do Leviatã de Stálin? O que diria Trótski do Exército Vermelho, que ele criou de massa imunda e analfabeta de camponeses, quando esmagou o socialismo democrático de Dubceck?

We know what we are but we know not what we may be”, sabemos o que somos, mas não o que viremos a ser, diz Ofélia, “louca”. O escritor, ao menos, tenta fixar um presente e passado como nos pareceram reais e vivos, apesar da decadência e mortalidade intrínseca do que é humano. Proust, torturando ratos, decorando bordel de homossexuais com os móveis de mamãe Proust, nos deixou, mais amplamente, humanamente, que qualquer historiador, a cortina final da sociedade aristocrático-burguesa, enterrada em 1914-1918. Euclydes da Cunha, nosso maior escritor, em Os sertões, e o Jorge Amado, de Capitães de areia e Jubiabá, nos fixaram na mente que as notícias da abolição da escravatura no campo brasileiro são prematuras.

Não renego o jornalismo. Paga o meu pão-de-ló. Mereço todas as migalhas. Não discuto qualidade, mas nenhum jornalista brasileiro trabalha em quantidade como eu. Alguns troféus na parede me consolam, à maneira de posters que nos lembram a grandeza do original. Fui o autor do editorial anônimo, “Rico ri à toa”, que destruiu a candidatura de Juracy Magalhães a senador da Guanabara, em 1960 (o próprio irmão de Juracy o admitiu a Samuel Wainer).

Paulo Silveira, Moacyr Werneck e eu quase impedimos a eleição de Carlos Lacerda ao governo do Estado. Nosso candidato, Sérgio Magalhães, insistia na asneira de tirar votos de Carlos na UDN, tão fácil quanto a Albânia bater a URSS numa guerra. Paulo Silveira queria atrope-lá-lo. Eu, que não guio, sugeri afogá-lo. Moacyr, aristocrata de nascimento (um estilista impecável), não condescendeu em expressar opinião sobre a cabeça de Sérgio (um excelente deputado). Sérgio foi à TV exibir uma irmã freira (a Igreja, antes de 1960, não “aderira ao comunismo”). Tudo inútil. Política, no Rio, naquele tempo, se dividia em pró e anti-Lacerda. Nossa chance remota estava em identificar o “anti” em Sérgio Magalhães. Havia dois pseudopopulistas (dizem que financiados pelos “pró”) rachando o voto “anti”, Sérgio persistia boquejando “moderação”. Perdemos a paciência. Um dia, pegamos uma reportagem (Ib Teixeira, acho), sugerindo que o Carlos entrara em negociata no prédio da Tribuna, na Rua do Lavradio. Redigi “entrevista” em que Sérgio Magalhães pedia “enérgica investigação” da suposta safardanagem. Ficção pura.

Sérgio ficou furioso. Carlos também. Este resistia a tudo, menos a uma boa provocação. No dia seguinte, saiu de artigo assinado na primeira página da Tribuna, “A ofensiva comunista”, da qual Sérgio seria o agente. Em uma semana Sérgio subiu 10 pontos no IBOPE. Aí, gostou. Também elegemos Aurélio Viana (que apoiou 1964), um bestalhão, pastor protestante. Todas as “entrevistas”, perguntas e respostas foram escritas pela equipe política de Última Hora. Esta dobrava de circulação em época eleitoral. E Samuel, que detesta polêmicas, entregava o comando a Paulo Silveira e Moacyr. Sérgio perdeu somente por 22 mil votos, numa arrancada que, uma semana mais (a culpa do atraso foi dele), ultrapassaria Lacerda.

Métodos feios, sem dúvida, mas guerra é guerra, e “mãos na merda”. Tive a sorte também de participar do Diário Carioca. Não nos pagava antes de seis meses de atraso, em que sustentávamos, na mais-valia, o proprietário, Horácio de Carvalho, em Paris. Tínhamos em troca liberdade absoluta, inclusive de cometer a minha gafe contra Tônia Carrero. O Diário revolucionou a linguagem pedante, professoral, da imprensa. Manchete famosa: “Galinha bêbada põe mais”. Autor: José Tinhorão. O Diário colocou gente de costas e de lado, na primeira página, expôs animais no mesmo espaço de honra, tudo novidade completa. Procurava o coloquial brasileiro. Lançou dezenas de jornalistas que se destacaram e conseguiram, depois da escola “austera” do Diário, ganhar a vida. Lembro Pompeu de Souza, diretor, sempre suspendendo as calças, rindo excitado, quase à la filme de horror, de deleite, em face de nossas travessuras contra o convencional. Samuel Wainer criara um jornal populista, pró-Getúlio Vargas, numa imprensa em que os proprietários todos usavam o governo e o atacavam, representando a mínima e cruel elite do país (havia exceções liberais. Sempre há. A Folha hoje substitui o Correio da Manhã). Samuel se tornou incômodo. Tecnicamente desenvolveu o chamado Segundo Caderno, antes um monturo de press releases e picaretagem.

Iniciou-se furiosa campanha contra Samuel. Motivo: teria, graças à amizade com Getúlio, feito a Última Hora, apanhando dinheiro no Banco do Brasil. Presumo que seja verdade. No meu trotskismo distante do período, 1953-1954, essas questiúnculas burguesas não penetravam. É

claro que a maioria dos donos da imprensa, dado o poder, se servia de Caixa Econômica, Banco do Brasil, etc., da mesma forma que os privilegiados do “modelo exportador” consideram o dinheiro do povo conta particular deles. Neste momento mesmo que escrevo, o Sr. Roberto Marinho é acusado de haver comprado a participação inicial de Time Inc. na Rede Globo, via Caixa Econômica. O que há de novo nisso? Nada, rigorosamente nada, em toda nossa História. E o Sr. Roberto Marinho, ao menos, dispôs do crédito do povo afastando um sócio estrangeiro, o que deveria ser motivo de júbilo do nacionalismo caboclo. E não é esse o motivo por que a Globo encaçapou as rivais. O motivo é competência, no contexto.

Samuel Wainer, claro, era o biombo, a primeira e frágil barreira do verdadeiro alvo dos acusadores, Getúlio Vargas. Um governo corrupto? Sem dúvida. E qual não é, ou foi, na História do país? “Corrupção” é da essência do sistema capitalista, um dos óleos que azeita a máquina propulsora do dito. Agora, esse corrupto criara a Petrobrás. E, bem ou mal (mal, a meu ver), garantira alguns direitos dos trabalhadores urbanos. Pretendia impor uma lei de remessas de lucros. Advertia contra a ganância (ai, o tédio do vocabulário pleonástico da burguesia) das multinacionais, produzira a Instrução 60, que garantia à indústria nacional que o cruzeiro não se esfrangalhasse sob o dólar. Essa a razão real da campanha, que quase arruinou Samuel, homem de muitos fôlegos, e conduziu Getúlio ao ato heróico do suicídio e da carta-testa-mento, que, movimentando emocionalmente as massas, adiou a totalidade do Leviatãzinho caboclo, o Golpe de 1964, por 10 anos.

Também fui um dos fundadores de Senhor. Simão e Sérgio Waissman, dois empresários editores de enciclopédias (Larousse) e de coleções (Nobel, Freud, etc.), decidiram lançar uma revista mensal de cultura, diferente do que existia, garantindo liberdade absoluta ao editor-chefe, Nahum Sirotsky. Este me convidou a ser editor de texto, de ficção, das matérias pesadas da revista. Carlos Scliar dirigia a arte e brigava comigo pelos mesmos motivos que Trótski e Stálin, só que éramos e permanecemos amigos pessoais. O caráter de Scliar é sólido. Havia Luís Lobo, encarregado de serviços e da sacanagem que davam o molho a Senhor. Por que nunca subiu muito na imprensa é, para mim, motivo de perplexidade. Talvez lhe falte vocação. Certamente influiu na leveza e humor da revista, produzindo-os ou contratando-os, das melhores fontes. Tivemos, entre outros prazeres, o de refletir a glória de Clarice Lispector, em face de quem a crítica se baba, hoje, mas que, na época, era praticamente inédita (apesar de famosa nos meios intelectuais), pois não encontrava editor. E demos a Guimarães Rosa (que gostava muito de dinheiro, o que é bem mais comum do que se imagina entre talentos literários altamente desenvolvidos) quase uma renda fixa, editando-lhe todos os contos que se celebrizaram. Vários outros participaram de Senhor, Newton Rodrigues (com quem co-editei a revista quando Nahum saiu), Glauco Rodrigues, substituto de Scliar (que preferiu uma concentração total na pintura), Bea Feitler (que, desapontada pelo pouco progresso na carreira, radicou-se nos EUA, tornando-se diretora de arte de Harper’s Bazaar e, posteriormente, MS, à parte produzir diversos livros de arte e fotografia), sem falar do talento de dezenas de colaboradores, boa parte desconhecida, entre os quais algumas serpentes que envenenam a cultura...



Senhor tinha dois critérios: talento e tom. O primeiro excluiu inúmeros medalhões, quase todos membros da academia brasileira do túmulo gratuito. Tom é mais vago. Queríamos uma certa ironia, uma seriedade temperada pelo humor, à parte humor puro e simples, rejeitando o solene e grandiloqüente. Recusamos bons amigos, de valor, porque não pegavam o tom. Isso doeu, em nós também, logo censuro menções.

Não vou descrever toda a minha carreira jornalística. Cito apenas o que me parece importante. Senhor foi uma pequena revolução cultural, no Brasil critério de excelência é revolucionário, enquanto os Waissman agüentaram a carga financeira. Os proprietários seguintes entregaram a revista a Odylo Costa, filho, a quem faltava o tom. Reynaldo Jardim, o último proprietário e editor, tinha tom de sobra, mas tentou popularizar Senhor, descaracterizando-a, e a coitada morreu, jovem e gloriosa.

Participei de outra revolução, a da linguagem, de O Pasquim, que estendeu o coloquial do Diário aos extremos possíveis num país puritanizado (de fachada) à força. O Pasquim, nascido do crédito de Altair de Souza, amigo e distribuidor, em meses vendia 200 mil exemplares, em 1969. Reunia muito da sacanagem e sátira autenticamente Rio, Zona Sul. Brigas, algumas neuróticas, outras justificadas, diluíram o espírito inicial, a ponto de quase não resistirmos à censura (e prisão de dois meses) Médici, nos salvando da falência os esforços de Millôr Fernandes, Fernando Gasparian e vários amigos. Hoje, sobrevive confortavelmente, um membro agigantado da nanica, edita livros, etc. É um semanário político, incluindo algum humor. Começou ao contrário, humor e um pouco de política (eu, Millôr, Sérgio Augusto e, agora, Alberto Dines, ocupando o lugar de ponta-de-lança. O problema me parece, sem intenção de piche, é que a ponta virou a lança toda, ou perto disso, talvez porque no Brasil a absorção política seja inevitável). Permaneço amigo (reciprocado, espero) da casa e da “turrrmmaa”.

Perdi, ou participei minimamente, da revolução do Jornal do Brasil, cujo líder principal é Jânio de Freitas. Começou sob Odylo Costa, filho, a contragosto dele, um conservador, no Suplemento Dominical, a que Reynaldo Jardim deu aparência gráfica única, Ferreira Gullar, substância então concretista, ideólogo in extremis do movimento (chegando a considerar os pais do dito, no Brasil, os irmãos Campos de São Paulo, cultíssimos, meros “centristas”) e que Mário Faustino levantou pela qualidade da crítica poundiana de poesia. Colaborei lá algumas vezes. Odylo me contratou crítico de cinema. No primeiro dia, tão velho era o jornal, um contínuo me perguntou quando eu ia apanhar o “dinheiro”. Que dinheiro? Uai, dos anúncios de cinema, que meu antecessor recebia, bem comissionado. Ri. Sinal de maturidade. No Diário Carioca, um jovem me propôs dinheiro se eu promovesse o Teatro Castro Alves da Bahia. Dei-lhe uma bofetada.

Fui demitido, me disse Odylo, por provocar um chilique na estimável proprietária, Condessa Pereira Carneiro, porque chamei o Cardeal Spellman de débil mental e reacionário. Não foi outra coisa, esse padre, que abençoou os canhões americanos no Vietnã. É que, no caso, ele criticara o ingênuo e mal feito Baby Doll, de Kazan, proibindo que católicos o vissem, garantindo assim a bilheteria do filme no mundo inteiro.

O que me deu mais prazer foi editar o Quarto Caderno do Correio da Manhã. Quem era inteligente e não nazista, se quis, escreveu no dito cujo. Meu co-editor, José Lino Grünewald, cuidava do modernismo literário. Eu, das polêmicas políticas. O criador do Caderno é meu velho, atual amigo e colega da Folha, Newton Rodrigues, que, editor do jornal, me empregou depois de me vetarem em todas as publicações (exceto, anonimamente, em Visão, setor cultura), entre 1964 e 1967. O Correio não tinha dinheiro e nos pagava mal. Eu ganhava bem na revista do Diner’s, que tentei transformar numa mini-Senhor, revelando dois talentos extraordinários, Alfredo Grieco e Flávio Macedo Soares (que se suicidou). O trabalho no Correio, apesar de pesado e improfícuo, nos alimentava a alma. Fomos a trincheira quase única em que se defendia o país da ditadura. A proprietária, Niomar Moniz Bittencourt, tem horror a ditaduras de qualquer espécie, exceto a dela, que é, porém, despotismo feudal, benévolo. Amo-a. Depois de Newton, outro amigo assumiu o jornal, Oswaldo Peralva, ex-comunista famoso por um livro, O teatro, descrevendo mazelas do stalinismo (falta o ardor que o levou ao Partido. Se o incluísse, o livro seria uma obra-prima). Peralva, tendo ido à forra, reverteu ao liberalismo, ao contrário de tantos ex-comunistas e trotskistas, que terminam na extrema direita, ou seja, apenas trocam a cor do fanatismo e radicalismo.

Nunca sofri a menor censura onde trabalhei, dos patrões, isto é. Fiz um elogio a Che Guevara, no Correio. Saiu na sexta página, ao lado dos editoriais, de que fui também um dos redatores. Continuo assim na Folha de S.Paulo.

Lamento não ter trabalhado com um dos dois maiores jornalistas da minha geração, Jânio de Freitas. Trabalhei com o outro, Cláudio Abramo, o diretor da renovação da Folha de S.Paulo, que me levou ao jornal. Jânio mudou a face do jornalismo brasileiro ao assumir JB. A cara do jornal ele a encomendou e executou, estabelecendo uma estrutura e uma intenção. No recuo da última, caiu. A estrutura permaneceu, sob outro amigo, Alberto Dines, que a expandiu, mas então conservador, ou, melhor, dando prioridade ao anticomunismo. Não se pode ou se deve propor prioridade ao anticomunismo no Brasil (nada tenho contra o antistalinismo, que é o verdadeiro nome do comunismo, agora, na nossa situação, é desconversa concentrar-se na luta contra o dito). Não estou pondo em dúvida a integridade de Alberto Dines. Cometeu erros como todos nós. O que emerge, num balanço, lhe é altamente favorável.

Há tipos na imprensa que detesto, pela vassalagem sórdida aos poderosos. Não pretendo mencioná-los. É dar-lhes imerecido destaque. E fedem tanto que o poder termina lhes apodrecendo nas mãos, ou o poluem de maneira tão óbvia, que ninguém sério os leva a sério, lacaios histéricos de uma classe condenada.

Não sendo um pequeno-burguês moralista, reconheço que a imprensa é a cara da sociedade. E a nossa oferece tantos respiradouros, é margem ou no meio do conformismo opressivo à classe dirigente, que não me impressionam muito os críticos radicais da Velha Senhora. À parte os nichos liberais e de contestação, onde me enfio, existem as “superestruturais” decência e orgulho profissional. Evandro Carlos de Andrade e equipe transformaram O Globo numa das publicações mais bem feitas tecnicamente no país. O jornal vende tanto não apenas porque é respaldado na Rede Globo, ou apela ao popularesco, e, muito menos, pelo conservadorismo editorial. Evandro luta e ganha muito preservando a integridade da notícia. Nem sei o que ele pensa politicamente, nem me interessa (nisso permaneço um liberal). Sei que é um profissional. O profissional Cláudio Abramo, quando secretário de O Estado, regia o noticiário ao lado de editoriais do século XIII. Transformou o jornal no melhor do país, naquele período, pela defesa da precisão da notícia e o estofo cultural. Li Isaac Deutscher a primeira vez na edição dominical de O Estado.

Há, portanto, nuances, um meio-termo entre a subserviência e a contestação cegas. Os editoriais que expressem opiniões, todas. O jornalista maduro luta pelo fato, o fato interpretado e analisado. Na era da TV, aliás, não há outra saída para a imprensa. O modelo que sobreviverá é Le Monde, não importa a cor ideológica. O jornalista print, não-eletrônico, necessita de um capital de História e Economia, no mundo de hoje. São dispensáveis as escolas de jornalismo, que ensinam (errado, em muitos casos) técnicas ao alcance de qualquer pessoa medianamente inteligente em alguns dias de redação.

“Rodei a bolsinha” num bocado de publicações. Nunca briguei, ha! Duvido que alguém trabalhando diretamente sob minhas ordens tenha queixa da arrogância que me atribui o folclore. Demitido do Jornal do Brasil e de Visão, sempre soube que sobreviveria sem dificuldades. Houve dores. A morte lenta de Senhor, as bobagens personalistas que fecharam a revista do Diner’s contra a vontade do proprietário, Horácio Klabin. O fato de que Said Farhat9 vendeu Visão a um certo Maksoud, quando Luiz Garcia, editor, Zuenir Ventura, eu e outros amigos tínhamos planos que ainda hoje me parecem excelentes de converter a revista no melhor veículo liberal e de cultura do país. O assassinato do Correio da Manhã; o de Niomar, pela ditadura. O tempo em que O Pasquim se esvaía em lutas internas. Se não fosse a alma de mãe tolerante de Jaguar, que esconde uma obstinação férrea (na órbita dele), acredito que o jornal houvesse explodido. Os outros fundadores cansaram.

Restam prazeres. O maior é torcer o nariz dos poderosos. Participar de aventuras (no início, apenas) do tipo Status, da Editora Três, e Vogue, pela liberdade que me deram e pelo perigo que o troço afundasse antes de chegar às bancas. Às vezes improvisamos bem e consolidamos, no Brasil. Às vezes.

Meus poucos inimigos na profissão me enchem de orgulho. São a gente mais repulsiva da imprensa, opinião que sei majoritária. Até num jornal do PC trabalhei, de graça, Folha da Semana, enquanto a ditadura não o fechou. Espero não ofender aos corajosos editores escrevendo que me trataram como fidalgos, nunca sugerindo sequer censura de qualquer espécie.

Acredito que a Folha seja meu fim de carreira. Me dou bem lá, eles me garantem reciprocar, não tenho motivos de dúvida. É um dos quatro maiores jornais do país e o único liberal. Estou onde é possível estar na profissão, se vivendo de jornalismo (o que é meu caso) e não me auto-humilhando ou sendo humilhado moralmente. Lamento, claro, a perda do público do Rio, por sentimentalismo, dada minha origem. O de São Paulo é mais atento e sério. Recebo perto de 100 cartas ao ano. Brasileiro não é chegado a cartas, quanto mais ao exterior, sem que saiba sequer o endereço do destinatário. E a editoria da Folha me informa que envia seleções, apenas. É a maior receptividade escrita que experimentei.

É agradável ter furado toda a imprensa mundial na queda de Somoza, ou prevendo a derrubada do ex-xá, quando toda a imprensa mundial, adversária inclusive, o imaginava seguro, ou haver percebido a fajutice e incompetência de Jimmy Carter, já na campanha contra Ford, e, no governo, antecipar a opinião sobre a debilidade do dito cujo, no mínimo um ano antes dos outros; não se preocupem, a autopromoção, justificada, acabou.

Ninguém me nega independência. Os americanos me acham inimigo do sistema deles, gratuito e grosseiro. Os soviéticos, não me podendo chamar de agente da CIA, conhecedores dos protestos dos americanos, fabricaram que sirvo a Bonn, que se queixou formalmente ao jornal do meu tratamento ao método “administrativo” que dispensaram à Baader-Meinhof. E por aí vai. Citem um artigo anti-humanista que tenha minha assinatura, ou em que adule poderosos.

A minha assinatura é essa.



VI. “E O QUE QUE VOCÊ VAI CANTAR, MOÇO?”

QUASE não terminei Cabeça de papel, a melhor coisa que já escrevi. Durante um ano suspendi o trabalho, empacado na discussão central entre Hesse e Hugo. No original, era maior que o livro e ia de Tucídides a Kolko... A forma definitiva permanece meio “esquizo”. Ia ser tudo como é no início, um longo monólogo interior de Hugo, premeditadamente dispersivo, desconexo, saltando à frente e para trás, carregado poundianamente de paráfrases, citações, paródias, em que o intelecto de Hugo, em última análise, reuniria os fios da meada, inclusive se ironizando porque, apesar de poderoso, tanto tempo deixou que Hesse o iludisse.

Ênio Silveira viu trechos e me escreveu que era melhor tirar uma edição numerada de seis exemplares para seis pessoas sofisticadas que, ele imaginava, entenderiam o livro. Ivan Lessa se queixou que eu deblaterava ad infinitum. Duas opiniões que respeito. Me desencorajaram bastante, me deprimiram horrores. Considero o julgamento de Ivan em literatura difícil de bater, política à parte, pois ele demorou bem mais que eu a se interessar pelo assunto. Juntos, jovens, sou mais velho cinco anos, passamos noites e noites, discutindo nossas ambições literárias, trocando idéias sobre autores que amávamos. A propósito, muito me diverte quando leio que sou criatura literária americana. Ao contrário, pré-Ivan, toda minha formação é européia, de Dostoiévski a Stendhal, a Sartre (romancista). Ivan me levou aos americanos, me esculachando o conservadorismo, de Hemingway a Fitzgerald, a Norman Mailer, a Capote, a Faulkner, etc. Li-os quando já era um senhor de 27 anos. E Ivan me mostrou as delícias de Auden, Berryman, Lowell, sem falar da enciclopédia de música popular de qualidade que carrega na cabeça, de que me passou verbetes selecionados. Brigamos Ivan e eu, várias vezes, uma, feio. Não adianta. Bastante gente o odeia e certas explosões paranóides dele me ofendem (tenho as minhas). Mas é o irmão mais moço, como Jorge Zahar, Ênio Silveira, Millôr Fernandes e Cláudio Abramo são os mais velhos, que me faltaram na adolescência, papel suprido por Marcelo Aguinaga, exclusivamente, naqueles tempos: são os que me aliviaram a solidão. Romper com eles seria queimar inutilmente energia nessa era de escassez dirigida pela Exxon e irmãs, aliadas à OPER

Foi Sônia, minha mulher, que me fez acabar Cabeça de papel. “Fi-lo” para agradá-la. O casamento (coisa que jamais me passou a sério pela cabeça antes dos 40 anos) tem um custo oculto não computado na contabilidade feminista, o que qualquer espectador de Bergman (a quem cito como ponto de referência, já que tão pouca gente lê mesmo) percebe. O que não quer dizer que eu não tenha posto o bacalhau para fora, no romance. O meu Livro Branco e Negro de política. Intimidado em face do fracasso certo, que Ênio e Ivan previam, o fato é que fiz “concessões”. Deixei os outros falarem, reverti em várias passagens ao realismo narrativo, que acho restritivo; o monólogo e o poundianismo erguem a cabeça aqui e ali, do todo passaram a acessório. Da forma original restam a oração oblíqua (as pessoas não estão dizendo precisamente aquilo que parecem dizer; em verdade, não raro, dizem o oposto do que pretendem dizer), minha raiva e a “noite negra da alma” que herdei da vida e de longas leituras de São João da Cruz.

Não renego a criança recauchutada que é Cabeça de papel. Compreendo, sem condescendência de qualquer espécie, a maior (comparativa e relativamente) popularidade de Cabeça de negro. Ambos venderam bem, vendem ainda, para Brasil. Ênio acha estupenda a vendagem de Cabeça de papel, que publicou, considerando as dificuldades intelectuais do livro e que eu era um romancista estreante. Omite, delicadamente, que esse estreante é jornalista plastrado em quase toda a imprensa há no mínimo 23 anos. Não vamos agora pretender que saí de Pirapora anteontem, aplaudido pelos parentes, na estação de trem, rumo ao Rio de manuscrito debaixo do braco, o.k.?

Me surpreendeu em Cabeça de papel que nenhum intelectual de esquerda, pró ou contra, quisesse entrar, por escrito, na briga de Hesse e Hugo. Afinal, é, ou me parece, paradigmática dos problemas da esquerda, depois de Stálin e na relação específica, no livro à condição brasileira. Alceu, um liberal católico, foi o único a anotar o caráter multinacional do romance, escrevendo que eu colocara a revolução brasileira no contexto mundial. Reclamei desse desinteresse na Folha. Fui recebido, respondido, com derrisão. Continuo perplexo. Dei meu recado. Talvez, com o tempo, receba a resposta. É a consolação do escritor que se sente rejeitado.



Cabeça de negro é um romance sobre o Terceiro Mundo, em face da revolução. Ou seja, esse o tema político; sublinha outros, vários e diversos. Formalmente, é um experimento sobre os limites da fala humana. É quase um matraquear contínuo, em que deixei todo mundo falar pelos cotovelos, calcanhares, orifícios, etc. Repete um dos temas de Cabeça de papel. O intelecto forte de Hugo Mann não percebe coisas que lhe estão diante do nariz. Contraponho assim racionalismo e irracionalismo, o problema filosófico que mais me preocupa. Agora, é também um thriller que se lê de uma sentada, sem as dificuldades de Cabeça de papel. Isso não significa que evite paráfrases de outros autores, citações (não identificadas), paródias, etc. Apenas estão incorporadas ao livro sem exigir que o leitor precise parar buscando a fonte. E coloquei o script da revolução mundial que enxergo: os 2 billhões de destituídos, cedo ou tarde, mais cedo do que tarde (embora, à la Marx, não proponha prazos fixos), vão explodir sobre os ricos numa fúria que devastará a terra, fúria que de jeito algum aceitará o reformismo ou sequer o corretivo revolucionário de Marx, que é, afinal, premissado em economia clássica inglesa (David Ricardo e Adam Smith é que inspiraram Marx na mais-valia, ainda que fossem conservadores e social-darwinistas), socialismo francês e filosofia alemã. Cabeça de negro, em política, propõe a já mencionada alternativa de Rosa Luxemburgo que do capitalismo morto surgirá socialismo ou barbárie. O romance “opta” pela barbárie. É minha posição, exposta, inequivocamente, na leitura que Hugo Mann faz do sombrio, profético e inigualável poema de Yeats, The Second Corning (devidamente traduzido linha a linha).

Esperava muito, comercialmente, de Cabeça de negro. Me esbaldei promovendo-o. Fiz noites de autógrafos. Amigos na imprensa foram da maior gentileza, dando-me um lançamento que em geral só Jorge Amado, veterano estabelecido de tantas guerras, recebe. O custo psicológico dessa promoção me foi caro. Nenhum assanhamento me move a aparecer em TV todo dia. Ao contrário, é uma autoviolação de profundas resistências internas. Me sinto Chacrinha Jr. Eu queria testar se me seria possível sobreviver como romancista, não dependendo exclusivamente de jornalismo.

O resultado, desapontador (o livro, repito, “vendeu bem” pelo critério de Ênio e outros editores), me levou a uma depressão única na vida. Durante dias, me mantive na base de 10 Libriums, quase um de hora em hora. Me custou a perda de uma amizade querida (nenhuma briga ostensiva. Afastamento mútuo apenas). Uma velha obsessão de adolescência e boa parte da maturidade, antes que eu começasse a escrever romances, me voltou insistente à cabeça: o suicídio. Jurei que não escreveria mais ficção, ou poria os pés no Brasil. Por decisão própria, comemorei 49 anos sozinho, olhando fixamente as paredes do aparta-mento em Nova York. Depois das primeiras críticas, proibi que me enviassem qualquer referência ao livro.

Bem, aqui estou, terminando este, e em 1981 acabarei a trilogia com Cabeça. Não guardo rancores ou cultivo a vitimização. A mesma voz que me dizia, “bicho, isso não é contigo”, em outros paroxismos, se reafirmou. Minha mulher, Sônia, e um amigo íntimo, Jorge Zahar, ajudaram bastante a me “trazer de volta” à sanidade de que disponho, nos melhores momentos. E o próprio trabalho jornalístico de que não perdi, eterno cê-dê-efe, um dia, também garantiu um mínimo de estabilidade no pior da crise.

Decidi deixar para lá, jogar pro alto. Escrever, afinal, é uma necessidade irresistível. Seria ótimo se pudesse converter necessidade em liberdade. Se não é, vai assim mesmo. Descubro-me, à beira dos 50 anos, um “moderado”, palavra que abomino em política. Todos nós somos humilhados de uma maneira ou outra, afetivamente, profissionalmente, etc. Me considero até pouco humilhado, em comparação a tantos amigos que vi perderem potencial de grandeza na brutalização da vida brasileira.

E houve compensações. Alceu Amoroso Lima e Franklin de Oliveira, dois dos poucos intelectuais que respeito, escreveram poderosos ensaios sobre Cabeça de negro. Eu nem sabia que o criticariam e muito menos lhes pedi. O “de sempre” ocorreu entre os resenhadores. Às vezes me é difícil distinguir no que escrevem se o ataque ou o elogio é o mais insultuoso. Acho que, invariavelmente, se insultam a si próprios. Nenhum escritor sério os leva a sério. Claro, é chato ter um livro pichado em publicação que vende. Não é o piche que incomoda. É o público provavelmente perdido que acredita no resenhador. E há os acadêmicos, tentando esconder impostura e esterilidade em erudição de orelha de Lukács, Benjamin, Lacan, etc. Dei umas lambadas num grupo, pesadas, não dou lambadas leves. Foi um erro. Coloquei-o no mapa, o que o grupo desejava, nas sinecuras obscuras em que sobrevive à custa de (mais) dinheiro furtado do povo. É uma ralé pomposa. Deveria se dedicar a escrever ordens no dia da Bucetona de 1935...

E houve uma surpresa que quase compensou todo o desapontamento. Um crítico jovem, do Rio Grande do Sul, de quem nunca ouvira falar, José Onofre, não só leu cuidadosamente Cabeça de negro (o que os resenhadores parecem não fazer. Dou-lhes esse crédito, tamanhos os erros factuais que cometem, eles e a praga acadêmica); analisou-o, em detalhe, em 13 páginas da revista Oitenta, de uma editora do Estado, LPM, que é dirigida por jovens dispostos a sacudir o tradicionalismo paternalista típico dos editores de Rio e São Paulo. O comentário de José Onofre me é favorável, apesar de restrições bem fundadas. Se não fosse, ainda assim eu escreveria o que está aqui. O que me impressiona nele é a seriedade sem frescuras pseudo-eruditas, a capacidade de emitir opiniões sem o prefixo “já dizia fulano de tal”. São opiniões pessoais forjadas em contato e contraste com o texto. Isso é crítica, o que nos falta quase completamente no Rio e São Paulo. Temos alguns brilhantes ensaístas. O crítico, porém, é aquele que praticamente reescreve a obra do autor, à margem, usando-a como parte integrante do que põe no papel, em contato e contraste, repito.

Insisto em que ataques ou elogios me fazem mal e bem à vaidade, respectivamente. Nada mais. Esqueço rápido. Não tenho rancores porque disponho de uma tribuna onde posso me expressar. Se me sinto atingido, revido. É tão simples assim (e acredito que não seja, de natureza, rancoroso). Crítica nos leva à autocrítica. Interessa menos ao leitor que procura se divertir, que é servido pelos resenhadores, em verdade palpiteiros de marketing, mas é indispensável ao autor que procura aferir o que produziu ou em que pifou. Que Deus, o Diabo, Marx, ou quem seja, preserve José Onofre longe da “vida literária” do Rio e São Paulo, é o que lhe desejo, se bem que, pelo que escreve, me parece ter personalidade que resistiria à corrupção carreirista habitual. Afinal, outros, uns mínimos, mantêm a integridade que Carlos Lacerda (generosamente, a meu ver) atribuiu a Castelo Branco, a integridade de “anjo da Rua Conde Lage” (aos que não conhecem o Rio: a rua foi um dos centros de bordéis da cidade).

E chega, aguardem o próximo e emocionante capítulo, se me acompanharam até aqui.

Aos 50 anos, politicamente, continuo, de coração, na esquerda. Minha cabeça me lança sinais contraditórios. Acho que a esquerda tem muito a explicar sobre as desmoralizações que lhe foram infligidas e que se auto-infligiu no stalinismo, hoje espraiado de Moscou a Cuba. As sociedades que produziu não são destituídas de certos méritos. Toda criança recebe um litro de leite ao dia na pobre, miserável Cuba. Houve uma nivelação por baixo que, na maioria desses países, exterminou a miséria absoluta, o analfabetismo e as epidemias que persistem, em “bolsões”, até nos mais ricos países capitalistas. Um litro de leite ao dia aos 2 bilhões (DOIS BILHÕES, FAVOR PRESTAR ATENÇÃO) de destituídos do mundo não comunizado, sob influência dominante do capitalismo, seria tido como milagre, salvaria milhões de vidas que se estiolam sob selvagem negligência e exploração. O preço foi alto. Não posso pagá-lo. Nenhuma racionalização me fará participar de um movimento que mate 10 milhões de seres humanos pela “causa”. A cumplicidade nisso, ainda que pela omissão, me é definitivamente impossível. Sei e disse que essa morte é mais rápida do que o extermínio crônico e lento, agônico, desses DOIS BILHÕES referidos acima. É, portanto, menos cruel. Mas não agüento. Chamem de pruridos pequeno-burgueses, ou do que acharem conveniente. Sou assim, fiquei assim e não abro.

Se a burocracia stalinista, tentacular (progressivamente), é um fenômeno de transição da tirania indispensável à destruição de uma ordem antiga e o estabelecimento da liberdade no contexto marxista, me parece uma pergunta fútil. Tudo na vida, na História, é transitório. Sempre me diverte que tantos capitalistas e ideólogos do dito o imaginem hegelianamente uma síntese histórica, a final. Leiam Tucídides e Gibbon, cuja tese, amplamente comprovada empiricamente sobre os esplendores e misérias de Atenas e Roma, seriam redutíveis ao carioquismo “tudo na vida é passageiro, menos o condutor e o motorneiro”. Mas o que advirá da burocracia, quem serão os condutores e motorneiros? A transformação radical das relações sociais, como propõe Marx, não garante que a barbárie (também transitória) não herde a terra, ou, como São João Apóstolo previu no Apocalipse, que as feras não prevaleçam. Talvez — uma impossibilidade no tempo de Marx — uma das facções dominantes incinere a Terra, preferindo o suicídio coletivo à “subversão”. EUA e URSS, juntos, no momento, podem nos destruir 66 vezes.

Marx me parece ter previsto o fim do capitalismo. A necessidade de crescer e consolidar é essencial à manutenção do domínio e mais-valia. A contradição é que enriquece, em última análise, empobrecendo: destrói os competidores fracos; notem o que os grandes do petróleo fizeram a milhares de capitalistas. O avanço tecnológico que abate custos e aumenta lucros levará à miséria (“a relativa superpopulação”) a imensa maioria da humanidade. Contraditoriamente, essa pujança é autodestrutiva, pois super-produz, eficiente, enquanto perde, na pobreza dispensável da mão-de-obra humana, os frutos da exploração. O monstro do capitalismo, que se alimenta de sangue, morre de anemia, dos próprios excessos.

O capitalismo sobreviveu a 1914-1918, rendendo-se, nos centros mundiais, ao impacto da revolução bolchevique, nas reformas internas, em que se autoconteve. Se compensou estendendo a barbárie que lhe é peculiar na multinacionalização. A luta de classes permanece, ou nasce. Nos centros, a “aristocracia do proletariado” exige mais e mais. Os capitalistas pagam extorquindo a mais-valia do Terceiro Mundo. Este, no desespero crescente, termina explodindo. A Ford, nos EUA, se rende aos operários. No Brasil, prestigia a polícia que prende e mantém os metalúrgicos submissos. E o Brasil é um pálido exemplo. Da Indochina ao Irã, a revolta ruge (as aparências do babalaô do Irã não nos devem iludir quanto à origem da revolução). O processo de exploração é finito, pela sistemática inexorável que descrevi no parágrafo acima.

A besta-fera da revolta não será, a meu ver, o animal comportadinho que os marxistas esperam, o Messias coletivo da classe operária, que realizada a tarefa de “expropriar os expropriadores” se recolherá à busca da sociedade de homens livres, livremente associados, cujas personalidades florescerão nos bilhões de “Goethes” de Trótski.

O intelectual que entra nessa é um “poeta”. Melhor que fiquemos de olho aberto, recusando e combatendo a injustiça, não importa o rótulo em que se apresente. Melhor, como Freud, não subestimar o poder do irracional, que Marx limitou à ideologia (falsa consciência) dos capitalistas e respectivos ideólogos, que justificam a tragédia da opressão em “forças do mercado”, “recursos”, “produtividade”, “acidente”, “tecnologia”, etc. O mundo sempre viveu pegando fogo. As pausas, como a que preservou o equilíbrio de esferas de influência, de 1815a 1914, terminam em explosões que superam as expectativas dos mais pessimistas (e pausas, lembremos, intercaladas de revoluções, 1848 e 1871, e de guerras limitadas).

Todas as ciências exatas, da física à astronomia, nos mostram que inexistem ordem e harmonia universais, como as concebe o cérebro humano. Nossas vidas, gotas dágua no oceano, são tempestuosas até no íntimo familiar, não há inteligência, cultura ou ética, todas características adquiridas, que consigam impedir a desordem e o sofrimento pessoal e coletivo. É quixotesco pressupor que um dia a sociedade se domesticará se as relações sociais deixarem de ser as que existem hoje, no capitalismo, entre senhor e escravo.

Dom Quixote, claro, apesar de ridículo, é imortal. Não proponho a solução do avestruz, que afinal tem a bunda colhida pelos ventos, se forem — e serão — suficientemente fortes. Lutemos de todas as formas pelo que nos parece justo, sem porém nos rendermos aos confortos ilusórios da utopia, que a exemplo do bumbum do avestruz terminam alvo fatal da realidade cruel. Só se desilude quem se iludiu.

No que me toca, permanecerei jornalista, dizendo o que penso, enquanto me quiserem, me deixarem e eu for capaz, mental e fisicamente. Nos meus romances e outros livros tentarei ampliar minha experiência, em benefício próprio, de auto-expressão, e a quem possa interessar, o gesto de fraternidade a que me sinto apto, ou, em face dos críticos, a que me sinto disposto.

Aos que gostam de mim (sempre suspeito que cometeram equívoco de identidade) procuro retribuir na medida do que posso, grato pela atenção dispensada. Quem me ama e me gosta, me enriquece e consola a vida, me alivia do tormento que é a consciência que tenho do que sou, da sociedade que criamos. Me privei durante muitos anos desse conforto, traído e ressentido da traição, e temendo correr novos riscos. O temor persiste e o pé atrás. Se atenuaram com a idade e o afeto tantas vezes testado e mantido pacientemente por uns poucos, da minha mulher a alguns íntimos e já citados amigos. Desapareceu a dúvida de que preciso desse conforto. Acredito que também quem me conheça hoje me achará cordial. Sublimei quase totalmente a hostilidade e, pior, o esnobismo intelectual que exibi durante tanto tempo em face dos que tentaram aproximar-se de Paulo Francis sem credenciais autenticadas. Paulo Francis e Fransh menino, antes da queda, encontraram um pequeno porém real denominador comum. Aspiro à visão de George Eliot em Middlemarch, ou, vamos ao cinema, na nossa era “visual”, à visão de Louis Malle, em Lacombe Lucien e Pretty Baby, que a crítica, que me flui fácil como o sangue nas veias, é substituída pela tentativa de apreender precisamente o que os outros, o “resto”, a otherness, na palavra de D. H. Lawrence, representam, sem tirar ou muito menos explicitar conclusões. “Forbearance, a good word”, está nos diários de F. Scott Fitzgerald, incapaz de não amar qualquer personagem que escrevesse. É, clemência é uma boa palavra, e precisamos tanto dela quanto os que nos cercam. E o intelectual deve lembrar o encontro de Freud e Bleuler (o descobridor da esquizofrenia). Freud a um amigo: “Ele é um pobre-diabo”, acrescentando, rapidamente: “Como nós”.

Todas as eras são insatisfatórias e trágicas para os que as viveram, de que temos testemunho escrito interminável. Idealizam o passado os que temem o presente e o futuro. É um temor justificado, mas intrínseco à vida, que termina em morte, na derrota irrecorrível.

É interessante que não acreditemos que vamos morrer, apesar de sabermos que vamos morrer. Até com a hora marcada sentimos em tanta gente aquela esperança ilógica de que perdurará. Nossa sensibilidade, por mais sofrida, exceto quando entregamos definitivamente os pontos, resiste à idéia da extinção. É dessa chama que ora vemos, ora desaparece, nunca nos abandonando de todo, que as religiões e, em plano baixo-astral, os políticos, se alimentam e opiam o povo (a referência leninista ao ópio do povo, falando nisso, é caridosa, não zombeteira, ao contrário da propaganda anticomunista).

É um bom momento de nos observarmos quando raspamos por “madame”. Ao ficar tuberculoso, em 1961, eu estava de tal maneira noutra, de enrijecimento intelectual e marxista, que, passado o choque da descoberta; que devo a um amigo solícito, o endocrinologista José Carlos Cabral de Almeida, que venceu minha recusa de ver especialistas, me acompanhou uma noite inteira de explosões e vomitório neuróticos (estes causados por problema pessoal); não posso dizer que me assustei muito, principalmente porque dois médicos de alta competência, Jesse Teixeira e Hélio Fraga, me garantiram cura, porque o meu organismo aceitava bem duas das três drogas prescritas. Cumpri.

Já quando me cresceu um tumor de tiróide, que se revelou benigno em três biopses, pré e pós-operatórias, antes, na expectativa dos testes, durante e depois, salvo, minha vida inteira me passou pela cabeça, o desenraizamento a que me condenei, a semimorte que foi a morte de Irene, a tragédia política de 1964, as esbórnias insanas com que procurei encher o vazio afetivo; tudo permeado pelo fato corriqueiro que se morresse, apesar de, na época, 1973, ganhar mais de 3 mil dólares ao mês, precisaria que alguém telefonasse a um amigo no Rio que investisse no enterro. Adolpho morrera naquele ano, eu, covarde, querendo manter distância, não ousando enfrentar o desfecho da nossa longa relação de atritos, amor e culpa, satisfeito e me odiando simultaneamente quando Sylvio, tio, ao telefone, me deu, gentil, a notícia da morte e enterro de meu pai, se desculpando que não me avisaram a priori porque eu nada poderia fazer... Grunhi os ruídos apropriados ao telefone. Ele entendeu...

No hospital de câncer, cercado por caras e pescoços que fazem Picasso, no auge da deformação experimental, parecer figurativista, apoiado por alguns amigos, entre os quais apenas Sônia (então de passagem, morava em Paris) participara do meu passado, a força das coisas germinou em mim, enquanto eu assistia na TV à guerra árabe-israelense de outubro, estopim da desagregação do Terceiro Mundo sob controle capitalista, abusava do carinho de Sônia, de que eu necessitava desesperadamente, mas ainda não preparado para recebê-lo, e à noite dormia sob o refrão de minha autoria, antes motivo de orgulho, agora de choque autocrítico: “Não tenho onde cair morto, deixo apenas papel de jornal em que se embrulha o lixo do dia seguinte”.

Não saí do hospital lépido, disposto de repente a uma organização existencial da minha vida. Isso é filme de Hollywood. Retomei o trabalho, os mil free lances de que vivia. Nunca o interrompi, aliás. Antes da operação que poderia, na biopse segunda e terceira, me condenar à morte, preparei adiantadas as colunas diárias da Tribuna da Imprensa, reportagens de Visão, artigos de Status, etc. O business continuou as usual, quase. Uma noite consegui chorar a morte de Adolpho, convulsivamente e com força que até me surpreendeu. Descobri que precisava de Sônia permanentemente, o que terminou em casamento.

As formulações políticas escritas aqui já fermentavam no Brasil, em 1967-1968. Nos anos de EUA, a experiência, o acesso ao centro do poder e da cultura me mostraram, em longas horas de conversas e leituras, e também pelo que via e sentia, complexidades que, se tive consciência delas, nos tempos de jornalista “quadro”, e tive, afastava-as como o cristão tentado que brada: “Atrás de mim, Satanás”. O que me faltara antes era a coragem moral de pôr no papel a situação clara, de um mundo rico e casa-grande, dos EUA à URSS, e o mundo senzala, numa interdependência inextricável, em que os dependentes têm duas saídas: a soviética, a ferro e sangue, enfrentando isolamento por tempo indeterminado, usando métodos que se tornariam iguais aos fins, pois de uma violência que se institucionaliza, se por mais não for em autodefesa, temendo retribuição; e tamanha a pobreza desses dependentes, tamanha a rabeira industrial, tecnológica e cultural, que só lhes restaria atrelar-se em nova dependência à superpotência oposta à derrotada revolucionariamente; isso, ou a tentativa de regresso a um comunismo primitivo, agricultural, de subsistência, rejeitando a revolução industrial, o que é fantasia. E me pergunto se o Brasil revolucionário, sob a tutela da URSS, não levaria os EUA à guerra nuclear, ditada, apesar de suicida, por imperativo geopolítico e militar-estratégico. Gore Vidal acha que sim. Eu também.

Não estou propondo que chafurdemos na dependência. Proponho, isto sim, que a esquerda brasileira, a que pensa, não imagine, do gabinete, que o povo brasileiro é remotamente semelhante ao vietnamita, uma nação milenar de guerreiros, cuja infantaria, segundo os generais franceses que a combateram, é melhor que a prussiana na Primeira Guerra.

Proponho que se abandone a ilusão que as companhias estatais e os grupos financeiros brasileiros são mais que duas partes do tripé que garante a um por cento dos privilegiados 60 bilhões de dólares, ou 1/4, do nosso PIB, criando um câncer, uma “Bélgica” dentro da nossa “índia”. O Brasil precisa antes de uma revolução burguesa e liberal, iniciada em 1930 e abortada em 1937, revolução que crie uma sociedade civil no país, que se inicie pelas garantias constitucionais dos direitos elementares de que já gozam os cidadãos das desprezadas e “conciliatórias” democracias burguesas, inclusive o direito à sindicalização e à greve. O resto é impraticável, a médio prazo. O que está nesse parágrafo seria o início da nossa entrada no século XX. Continuamos no XIX, não só nas atitudes recíprocas da classe dirigente e dos que as contestam, mas em alfabetização social. Quando comparo o Brasil aos EUA, concluo que os negros aqui, a verdadeira subclasse americana, têm mais direitos que 90 por cento dos brasileiros, independente de cor, credo ou sexo.

Desejo boa sorte aos que gostam de política e às novas gerações, ou remanescentes da minha, que caiam na realidade. Quanto a mim, procuro recriar em literatura o que experimentamos, o grupo que me fez, saciando o último desejo infantil que me resta. Jornalista, continuo atirando no escuro donde saem as feras, esperando acertar algumas. Agora, não quero enganar a ninguém. Vejo esse trabalho em termos internacionais. Português é minha língua, nasci no Brasil, os amigos estão lá, etc., etc., e espero ser enterrado onde nasci, “revertendo a meu lugar”. E só.

Vejo a Nicarágua, Brasil, EUA e URSS dentro de um prisma único, do humanismo apátrida de que ajudo a segurar a tão ultrajada bandeira. Está em frangalhos a bandeira, mas sempre tive um fraco por causas perdidas. Seguro e defendo os trapos enquanto seu lobo não vem. Desejo mais. Não faço por menos.

Exagerei talvez a aridez emocional da minha vida antes da maturidade de hoje. Me ficou o gosto bom do companheirismo de Marcelo Aguinaga quando pintávamos o sete na adolescência, uma louca sanidade na nossa prisão provinciana. As noites de desespero de 1964, que Antônio Maria, Ivan Lessa e eu partilhamos, convertendo em alegria, ou sobrevivência, se preferirem, à custa de riscos à nossa saúde. A insistência de Sérgio Porto nessa alegria “contra todas as apostas”, na última noite que o vi, na varanda do Antonio’s, me pedindo loucuras, quando mal podia respirar, loucuras que rejeitei, mas embasbacado diante da coragem. Maria e Sérgio tinham uma capacidade de viver que me deixa humilde. Sim, amei, fui amado, humilhei e fui humilhado. Quem não? Respondo: votam em Ronald Reagan, votaram em Carlos Lacerda, em 1960. Se enganaram quanto a Lacerda, governador desenvolvimentista, o que mais construiu na cidade, dentro do possível e das limitações do sistema, sem abandonar a retórica de direitismo extremado. Conheci-o um pouco vivendo os anos de terrível ironia, quando tudo que pregara aconteceu no Brasil, marginalizando-o, enquanto, no sistema que condenou, atingiu os pináculos. A História trata cruelmente os candidatos a Prometeu, o que já sugeri em relação a Lênin, Trótski e Hitler. Carlos não dava pena. Era inteligente demais para isso, tinha charme até em excesso. Me pergunto se entendeu o destino dele. Se entendido, morreu tranqüilo. Foi o que lhe desejei, ao saber a notícia.

Lembro as noites acordadas em que Ivan Lessa e eu discutimos tudo, ou assim imaginávamos, explicando tudo, ou tal imaginávamos, compreendendo tudo, imaginamos, tudo imaginado menos que essencialmente nos consolávamos um ao outro do isolamento claustrofóbico em que vivíamos do Brasil horrível. A luta frenética de Millôr Fernandes, cheia de sátiras autodepreciativas, de entrelinhas irônicas, por manter uma identidade que não se deixe avacalhar na corrupção ou se perca no conforto conformista dos rinocerontes. As guerras verbais ideológicas vis-à-vis Ênio Silveira e companheiros, as comparações de notas que outro isolado e meu companheiro, Cláudio Abramo, promovemos, sem a regularidade que desejaríamos, me deram a indispensável, porque sempre ameaçada, consciência de que existe vida política inteligente no Brasil. A serenidade e solidariedade de Jorge Zahar, que nunca nos fala do que vai mal na vida dele, e que se solidariza conosco nas minhas besteiras, tentando corrigi-las. É homem cuja editora é a universidade que ainda não existe no Brasil, trata a todos democraticamente. Se não aprendi a viver, não foi por falta de bons professores.

Preservo na memória até o fogo de palha de jornal; queima rápido mas intensamente. É um prazer no Brasil oprimido ter escrito o editorial do Correio que sugeria ao marechal Castelo Branco onde enfiar o papelucho hitleriano da lei de segurança nacional. Ou, ainda em editorial, o espanto deste ateu em face da audácia social da encíclica O progresso dos povos, em que o pêndulo da salvação pela fé (São Paulo) uma vez volta a São João Apóstolo, também (a salvação pelos atos). Escreveria três livros maiores que este com momentos semelhantes.

Lamento as amizades reais que perdi, pois continuo gostando pessoalmente dos amigos afastados por divergências irreconciliáveis. Das gafes e crueldades públicas, ao menos, à parte a vergonha, aprendi que, antes de ditar regras sobre o irracionalismo do próximo, eu deveria examinar o meu próprio... Lamento também não ter sido mais paciente e compreensivo em face de gente que não se podia defender da minha mão, língua, ou Smith-Corona elétrica. Reconheço: sou um cristão manqué, se fixaram em mim os aspectos fraternais da fé em que não posso racionalmente crer. Esse cristianismo, legado dos beneditinos e de alguns jesuítas, é um sonho. Acordei. Me pergunto se não era melhor continuar dormindo.

Fiz tudo, errado ou certo, na hora certa. “Não há, por exemplo, aquele perigo que ronda os coroas de tentar reverter à baderna da juventude, porque deixaram a juventude passar em convencionalismo e conformismo. Alguns anos de Marcelo, Fernando e Cia. valeram vidas, que, fosse eu da classe “errada”, não teria estado preso apenas por resistir aos neoxavantes do obscurantismo 1964-...

Acho que não preciso repetir onde está meu coração político. A cabeça se libertou das simplificações e paliativos, das certezas de manual. Examina e se auto-examina constantemente. É meu inferno e delícia, minha única justificativa plausível de alegar que evoluí dos macacos. Aceitos os riscos e incertezas dessa liberdade, essencialmente modesto, pois me acho disposto a aprender do que ou de quem me persuadir. Ainda que sozinho continuarei assim, mas sei que estou muito bem acompanhado.



FRANZ PAULO TRANNIN DA MATTA HEILBORN, OU PAULO FRANCIS, nasceu em 2 de setembro de 1930 no Rio de Janeiro. O jornalista que maior influência exerceu na formação e na conduta política e cultural do intelectual brasileiro era descendente de alemães e freqüentou escolas de elite do Rio. Em 1952 abandonou o curso da Faculdade Nacional de Filosofia e ingressou no Teatro do Estudante do Brasil como ator. Paschoal Carlos Magno, diretor da companhia, cunhou o pseudônimo de Paulo Francis e o levou em uma tournée teatral pelas regiões Norte e Nordeste do país, onde o contato com a miséria e o atraso do Brasil profundo viria a marcá-lo perenemente. Por essa época, Francis se tornaria um trotskista convicto. Entre 1954 e 1957 estudou literatura dramática na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e ao regressar ao Brasil começou sua carreira jornalística no exercício da crítica teatral, primeiramente na Revista da Semana, depois no Diário Carioca. Praticou uma crítica militante e defendeu uma dramaturgia de vanguarda, livre de estrelismos e concessões comerciais. Em seguida passou ao jornalismo político nos jornais Última Hora e Correio da Manhã. Esteve entre os primeiros editores da mitológica revista Senhor e editou ele mesmo a revista Diners, a primeira e talvez até hoje melhor custom magazine do país. Esteve entre os fundadores de O Pasquim, em 1969, o tablóide semanal que renovou a linguagem da imprensa brasileira e liderou a imprensa alternativa, de resistência, durante a ditadura militar. No ano seguinte, depois de quatro prisões e da censura sistemática a seus escritos, mudou-se em definitivo para os Estados Unidos e casou-se com a jornalista Sonia Nolasco. Em 1975, a convite de Cláudio Abramo tornou-se articulista exclusivo da Folha de S. Paulo e começou aí sua famosa coluna Diário da Corte, “um esquisito buquê de crítica literária e artística, análise política, palpitologia econômica e saborosa psicanálise de amigos e inimigos”, segundo a crítica a favor. A coluna viria a servir de norte político e cultural para gerações de leitores, e para a geração de jornalistas que, desta vez em São Paulo, iniciaria um novo movimento de renovação da imprensa brasileira, Francis tornou-se o maior modelo e influência. Em 1990 ele levou a coluna para O Estado de S. Paulo e O Globo, em uma transação de repercussão só comparável às transferências de craques do futebol entre grandes clubes. Francis era também, então, uma das mais marcantes personalidades do jornalismo na televisão brasileira, um diferencial ruidoso, na inteligência e na crítica, a romper a apatia dos telejornais. Com o advento da Globosat juntou-se ao time de Manhattan Connection e ajudou a criar o mais movimentado e interessante programa de idéias da televisão brasileira. Publicou dois livros de memórias, O afeto que se encerra e Trinta anos esta noite; os romances Cabeça de papel, Cabeça de Negro e Filhas do segundo sexo e inúmeras coletâneas de artigos. Foi um jornalista de opinião, homem marcado pelos acontecimentos, que passou "do trotskysmo idealista da juventude para as ilusões perdidas da idade madura” -mas conservou até o fim o mesmo retrato de Trotsky na parede em frente à escrivaninha de trabalho, à altura do olhar. Morreu no auge da carreira e da influência, em 5 de fevereiro de 1997, de um ataque cardíaco.

PAULO FRANCIS

O AFETO QUE SE ENCERRA

Memórias
ISBN 978 85-89362-71-9

EDITORA FRANCIS

capa: TONY RODRIGUES

imagem de capa: MUSEU METROPOLITANO DE ARTE MODERNA - RJ.

© JOSON/ZEFA/CORBIS/LATINSTOCK

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1ª edição pelo selo Francis, maio de 2007

Capa e diagramação: Tony Rodrigues

Preparação: Maria da Graça Mendonça Couto e Francisco José Mendonça Couto

Revisão: Bruno SR e Ceei Meira

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

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Francis, Paulo

O afeto que se encerra : memórias / Paulo

Francis. — São Paulo : Francis, 2007.
ISBN 978-85-89362-71-9
1. Francis, Paulo, 1930-1997 - Memórias

2. Literatura brasileira I. Título.


07-1707 CDD-928.69

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índices para catálogo sistemático:

1. Francis, Paulo : Memórias : Literatura brasileira 928.69


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EDITORA FRANCIS, OUTONO de 2007.



1 Cabeça não chegou a ser publicado. (N.doE.)

2 A Cruzeiro do Sul continua viva, absorvida pela Varig. Nada sofreu. O laudo pericial começou em nível de tenente da FAB, Montenegro Fernandes, me lembro. O tenente descobriu negligência criminosa na queda do Convair da Cruzeiro. Lemos, meu advogado e amigo Paulo Mercadante. Parecia incontrovertível. O tenente Fernandes é ou era o expert da FAB.

O Globo publicou entrevista com um dos raros sobreviventes, húngaro, ex-piloto na Segunda Guerra (e, portanto, provavelmente nazista, o que não vem ao caso). O homem disse que na decolagem viu um dos motores pegar fogo e avisou à aeromoça. Ela, exibindo o charme e veneno da mulher brasileira, emitiu os ruídos apropriados a débeis que voam inocentes. O húngaro insistiu na seriedade, se identificando piloto profissional. Nada. No diário do comandante havia frases como “se não consertarem esses flaps um dia vai haver uma desgraça”.

Inútil. O laudo subiu a brigadeiro e “renasceu” falha humana, a eterna desculpa das companhias (nem sempre, claro, falsa). Em 1962, eu escrevia uma coluna diária na Última Hora do Rio, “Paulo Francis informa e comenta”, bastante lida. Desci o sarrafo na Cruzeiro. O sindicato dos aeroviários me entupiu de documentos sobre deficiências de manutenção das empresas todas. Reproduzi os extratos plausíveis e fundamentados. Samuel Wainer, o proprietário do jornal, nunca me proibiu, censurou, ou disse sequer uma palavra, exceto de condolências. A Última Hora perdeu muitos milhões de cruzeiros em publicidade durante a campanha.

Minha intenção era destruir a “reputação” da Cruzeiro, processá-la criminalmente e, se possível, levá-la à ruína. Meu pai se sentiu mal, na opinião dele, em “explorar o cadáver”. Parei somente por insistência dele, já bastante doente na época e carregado de culpas.

Durante seis dias vi meu irmão mutilado, sofrendo o diabo, no excelente hospital de São Paulo, cujo nome esqueço, especializado em queimaduras. Se sobrevivesse, Fred perderia um braco, estropiado, já ficara cego de um olho. Os médicos me explicaram que dependia da capacidade dos rins de Fred que ele não morresse, ou seja, da eliminação das toxinas provocadas pelas queimaduras. Fred teve falha de rins. Eu segurava a perna dele quando deu aquele último arranque, duro, em que depois o tormento de nos sabermos vivos e vulneráveis se extingue. Antes de morrer, beijei-o a primeira, única e última vez, na testa. E pela primeira vez na minha vida consciente, o filho morto, abracei meu pai.

Em desespero homicida, chorando de raiva, na capela de São João Batista (Fred, nos poucos momentos que saiu de coma, pediu que o enterrassem no Rio), apareceu nosso padre prefeito do Santo Inácio, o executivo do colégio, Padre Coelho, homem severo e justo, cuja voz potente de barítono quem ouviu não esqueceu. Ele me consolou, ao ateu, ao trotskista, melhor que ninguém. A raiz jesuíta nos alunos não morre. O Padre Theijus, professor de Fred, morrendo de câncer, mal se agüentando de pé, fez questão de levantar-se da cama e encomendar a alma de meu irmão, que permanecera católico.

A fidalguia paulista. Um poeta a quem só conheci pessoalmente anos depois, num encontro casual, em Nova York, me emprestou o apartamento para a única noite que dormi inteira, fora dos bancos do hospital. Julio Neto, cujo jornal, o Estado, eu atacava bastante na Última Hora, a pedido de outro amigo, Flávio Rangel, pôs a reportagem do Estado à procura de Fred, na confusão das primeiras horas em que nem se sabia se alguém sobrevivera. Flávio, na noite da notícia, tinha ido a minha casa apresentar a mulher com quem se casaria, Dulce Pedreira. Vendo meu susto de enfrentar a ponte aérea, me levou de automóvel a São Paulo.

Fred morreu cercado de duas das tias a quem mais amava, Maria Luiza, Lili, irmã de Adolpho, e Zillah, mulher do irmão da minha mãe, Luiz. Pela primeira vez entendi o que lera em algum lugar, que as mulheres, que nos põem no mundo, sabem como ninguém nos fazer deixá-lo. Geram a vida e assumem uma autoridade instintiva em face da morte.

Meses depois, numa festa, uma pilequenta qualquer da “sociedade” veio me contar que a Cruzeiro sofrera com o desastre, gastando vários orçamentos anuais. Eu ia lhe dar um soco no rim. Aprendi de mestres que não se desperdiça soco na cara, bobagem de cinema. No rim, às vezes, mata. Vontade não me faltava. Felizmente, meu pileque era maior que o dela, me imobilizando a mão que mal consegui fechar. Só pude olhá-la, em silêncio, estupidificado de ódio. Não lembro quem é e ela não sabe do que escapou. Nenhum arrependimento, do ódio, ou da chance perdida. Afinal, a burrice é incurável.

Sou realista e reconheço que na morte de Fred chorei a de minha mãe, dor que reprimi, que reprimo até hoje. E que no ódio havia uma componente marxista, que compreendia a tranqüilidade com que o capitalismo destrói qualquer ser humano, se isso abater os custos e elevar os lucros, e se o criminoso não for pilhado, o que é dado de barato no Brasil.

Mas havia Fred também, companheiro de infância, que mal conheci. Fred, atraente, uma versão melhor acabada de Gene Kelly, ciosíssimo da aparência, da saúde, tímido de morrer com as mulheres; emocionalmente emaranhado pela afeição que minha mãe me favorecia, um inocente político, chocadíssimo ao saber que eu votaria em Lott e não nesse palhaço sinistro, Jânio Quadros. Fred que comprava um apartamento na Lagoa, idéia que me fazia rir em face de tanta pequena-burguesice, eu que esperava morrer como Lord Byron, não fazendo por menos. Fred, o cidadão honesto, diligente e trabalhador, que os paradigmas da nossa burguesia afirmam “validar moralmente o sistema”. A verdadeira moralidade dessa gente está criticada no diário do comandante (morto) do Convair e no laudo do jovem tenente Montenegro Fernandes, que provavelmente pensou que era dever de oficial e cavalheiro não mentir. Aqui fica um silêncio concretista, ou de Harold Pinter, se preferirem. Não há mesmo mais nada a declarar.

Fred fechara em São Paulo um contrato em que assumiria a superintendência geral da Reader’s Digest, a revista talvez de maior sucesso naquele tempo. Me contou feliz que finalmente se realizava, administrador de poderosa empresa. A Reader’s Digest, apesar de Fred, no Brasil, não ter direito legal, generosamente pagou um seguro de 25 mil dólares a Adolpho, o que só fez atormentá-lo, mas essa é outra história.

Fred morreu também pela nonchalance carioca. Deixou de viajar num avião que chegou incólume, porque, sem pressa, preferiu ir ao pipi, aguardando o próximo. “Somos para os deuses como insetos para meninos vagabundos; eles nos matam por divertimento”, disse o poeta supremo, que traduzo de qualquer jeito. “De qualquer jeito” é um epitáfio que, em última análise, nos serve a todos.


3 Com 21 anos, fui preso em Recife, por “me expor nu” numa janela de hotel. Fazia um calor infernal. Estávamos, uns seis colegas do Teatro do Estudante, nus, ainda assim suando. Espiei da janela uma rua, feira de automóveis. Nenhuma presença feminina. Apareceu o anêmico de bigo-dinho rente. O clássico exterior do lacaio que se converteu em “tira” dizendo: “Esteje preso”. Éramos hóspedes oficiais do Estado. Nem cheguei à delegacia, a prisão sustada pelo governador. Esses pernambucanos, hem, aquela peixeira, hem, cala-te boca.

4 Um dos negócios de Carlos Heilborn, que importava Chryslers, Plymouths e De Sotos. É claro que Adolpho pensava provar-se igual ao irmão, o que é rotineiro.

Quanto a mim, num tempo em que só ricos tinham carro, provei cedo as supostas delícias dessa engenhoca: o carro, o instrumento mais anti-social, excluídos os artefatos militares, já concebido pelo homem.

Provocava, o diabo, pasmo das massas. Sylvio, proprietário de uma baratinha Chrysler, lateral de madeira, era um ímã de mulheres (à parte o resto que tinha a oferecer, naturalmente). Deve ter sido um dos inspiradores do estribilho da marchinha “Eu quero ver é a pé”.

Carlito era e é capaz de montar e desmontar um carro a mão. Fred, a primeira vez que pegou volante, subiu o Sétimo Céu, cheio de curvas, guiando sozinho. Paulo, o irmão mais moço, tem a habilidade de Carlito e pensou seriamente em ser corredor profissional. Eu sempre achei automóvel sujeira, apesar dos confortos. A vista de um motor me dá misto de sono e engulhos. Guio, se não me obrigarem a estacionar e não for em estrada. Digo que é a vista, ruim. É inapetência total.



5 Os oficiais aprendiam (aprendem?) nos cursos de Estado-Maior que os EUA, e não a URSS, ganharam a guerra contra Hitler. A URSS, de junho de 1941 a janeiro de 1945, enfrentou e bateu 78 por cento das tropas, tropas de elite, alemãs. De janeiro a maio de 1945, quando os anglo-americanos avançavam, esse esforço diminuiu a 58 por cento... Hitler chegou a ter 240 divisões na frente leste. Contra a invasão anglo-americana, de junho de 1944, contrapôs apenas 85 divisões, a maioria de segunda classe. A URSS perdeu 13 milhões de soldados (de um total de cerca de 20 milhões de mortos). Os EUA, em todos os teatros (Pacífico inclusive), menos de 400 mil.

6 Bentley ganhara fama mundial com The playwright as thinker (1948), em que praticamente introduziu o método e teatro brechtianos ao mundo anglo-americano, traduzindo ainda várias peças do autor. O dramaturgo como pensador é uma análise do poderio intelectual do drama, ao contrário de O teatro vivo. Contém desvastadores ensaios contra Arthur Miller, Tennessee Williams, e a Broadway em geral. Exalta os méritos de Shaw, Sartre e Pirandello. Bentley editou várias antologias de clássicos antigos e modernos, que considerava injustamente banidos do palco americano. Escreveu uma excelente biografia crítica de Bernard Shaw. É dramaturgo, tradutor, diretor e ator. Ex-marxista, quando o conheci, no macartismo, havia recuado ao liberalismo meramente anti-soviético na moda em Nova York. Voltou à esquerda na guerra do Vietnã, chegando a demitir-se do cargo vitalício de catedrático da Universidade Columbia, em 1968, em sinal de protesto à atitude brutal da reitoria contra os estudantes que ocuparam o campus. É um dos mais influentes críticos de teatro nos EUA e Inglaterra, leitura compulsória em todas as escolas de dramaturgia, ao lado de Kenneth Tynan, George Jean Nathan, Harold Clurman, Ronald Peacock, Martin Esslin, John Willet, etc. Bebi em todas essas fontes, absorvi e devolvi. Continuo achando que Shaw e Nathan, anteriores aos outros citados, me influenciaram mais a que desenvolvesse opiniões próprias. O problema de Bentley é que só se descobriu sexualmente aos 60 anos. Hoje, escreve ensaios brilhantes defendendo o direito e liberdade homossexual, não tendo, apesar disso, abandonado o teatro. Conheci-o casado com o outro sexo.

7 Lembro que Adolpho me acordou às 8 da manhã, anunciando o suicídio de Getúlio. Respondi, de mau humor, “E daí?” voltando a dormir.

O PC se portou de maneira menos inteligente que os trotskistas do meu conhecimento. Prestes e Arruda decidiram que a linha justa era os comunistas serem “mais anti-Getúlio que Lacerda” (sic). No dia do suicídio, a Imprensa Popular, órgão do Partido, saiu com editorial exigindo a renúncia do presidente. Quando a direção percebeu a revolta popular de rua é que, revelando o oportunismo típico, uniu-se à massa e se gaba até hoje, sem a menor justificação comprovável, de havê-la “guiado”, o que se tratava obviamente de um movimento espontâneo.



8 O pai de Medvedev foi assassinado por Stálin.

9 Foi sob Antonio Pimenta Neves, hoje meu colega nos EUA, correspondente da Gazeta Mercantil, que Visão começou a deixar de ser apenas uma revista de business, convertendo-se aos poucos numa publicação que abrangia análises econômicas em profundidade, apresentando pluralismo e equilíbrio de opiniões, o melhor material disponível do estrangeiro e uma grande abertura cultural. Jornalistas competentes como Luiz Weiss, Rodolfo Konder e Vladimir Herzog, à parte Zuenir Ventura, no Rio, participaram dessa transformação, que teria continuado caso Farhat houvesse mantido a revista. Depois da queda do sucessor de Pimenta (que foi trabalhar, a princípio, na Editora Abril), Luiz Garcia, desisti de vez de trabalhar em editoria na imprensa brasileira. Prefiro, de qualquer forma, escrever, atirar livre. Mas não nego o desapontamento, já experimentado em Senhor, Correio da Manhã e O Pasquim.



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