Noah Gordon, o xamã



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uma mulher inteligente, com braços fortes, uma mulher capaz de ver o sofrimento sem se descontrolar.

No meio do caminho, Rob fez o cavalo dar meia-volta e seguiu na direção do acampamento indígena.

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A FILHA DO MIDE’WIWIN



Quando Makwa permitia a si mesma pensar no assunto, lembrava um tempo em que muitas pessoas do seu povo tinham peças de roupas dos brancos, quando uma camisa muito

usada ou um vestido rasgado eram medicina forte porque todos usavam couro de gamo curtido e amaciado, ou peles de animais. Quando era pequena, em Sauk-e-nuk - seu

nome era Nishwri Kekawi, Dois Céus, então - a princípio eram poucos os brancos, mookamonik, que influenciavam suas vidas. Havia uma guarnição do exército na ilha,

instalada depois que os oficiais, em St. Louis, apanharam alguns sauks e alguns quakies embriagados e os obrigaram a assinar papéis cujo conteúdo eles não poderiam

ler

nem que estivessem sóbrios. O pai de Dois Céus era Ashtibugwa-gupichee, Búfalo Verde. Ele contou a Dois Céus e à sua irmã mais velha, Meci-Ikwawa, Mulher Alta, que



quando o posto do exército foi construído, os Facas Longas tinham destruído as melhores moitas de amora silvestre. Búfalo Verde descendia da linhagem dos Ursos,

uma ascendência adequada para um líder, mas não queria ser chefe nem curandeiro. A despeito do nome sagrado (o nome de um manitou), era um homem simples, respeitado

pela boa colheita dos seus campos. Quando jovem, lutara bravamente

contra os iowas. Não estava sempre se vangloriando, como muitos outros, mas quando o tio de Dois Céus, Winnawa, Chifre Curto, morreu, ela ficou sabendo muito a respeito

do pai. Chifre Curto foi o primeiro índio que ela viu morrer por causa do veneno que os mookamon chamavam de uísque de Ohio e o Povo chamava de água-de-pimenta.

Os sauks enterravam seus mortos, ao contrário das outras tribos que simplesmente deixavam o corpo na forquilha de uma árvore. Quando o corpo de Chifre Curto desceu

para a terra, seu pai bateu na beirada da cova com seu pucca-maw, brandindo selvagemente a clava de guerra.

- Eu matei três homens na guerra e dou seus espíritos ao meu irmão que jaz aqui, para servirem a ele, como escravos, no outro mundo - disse ele, e foi assim que

Dois Céus ficou sabendo que o pai fora guerreiro.

Búfalo Verde era pacífico e trabalhador. Ele e a mãe de Dois Céus, Matapya, União-de-Rios, cultivavam dois campos de milho, abóboras e abobrinhas, mas quando o Conselho

viu que era um bom fazendeiro, deu a ele mais dois campos. Os problemas começaram quando Dois Céus tinha dez anos, com a chegada de um mookamon chamado Hawkins,

que construiu uma cabana de troncos de árvore no campo ao lado do milharal do seu pai. A terra onde Hawkins se instalou fora abandonada quando o homem que a cultivava,

Wegu-wa, Dançarino Shawnee, morreu e o Conselho não a passou para ninguém. Hawkins tinha cavalos e vacas. Os campos eram separados só por cercas vivas e moitas e

os cavalos de Hawkins passaram para o campo de Búfalo Verde e comeram o milho. Búfalo Verde apanhou os cavalos e os levou para Hawkins, mas na manhã seguinte eles

estavam outra vez no seu milharal. Ele reclamou, mas o Conselho não sabia o que fazer, pois havia mais cinco famílias brancas instaladas em Rock Island, em terras

que há mais de cem anos eram cultivadas pelos sauks.

Búfalo Verde passou a prender os animais de Hawkins em suas terras, ao invés de devolvê-los e imediatamente recebeu a visita de um comerciante de Rock Island, um

branco chamado George Davenport. Davenport fora o primeiro branco a viver entre os índios e o Povo confiava nele. Disse a Búfalo Verde para devolver os animais para

Hawkins, do contrário seria preso pelos Facas Longas e Búfalo Verde seguiu o conselho do amigo Davenport.

No outono de 1831, os sauks foram para seu acampamento de inverno, no Missouri, como faziam todos os anos. Quando voltaram para Sauk-e-nuk, na primavera, outras

famílias de brancos tinham se instalado nos seus campos, quebrando cercas e queimando suas casas. Agora o Conselho não podia mais ficar inativo e reuniu-se com Davenport,

Felix St. Vrain, o agente índio, e o Major Bliss, comandante do forte, para resolver a situação. Enquanto prosseguiam as longas reuniões, o Conselho designou outras

terras aos homens da tribo cujas plantações tinham sido roubadas.

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Um holandês da Pensilvânia, pequeno e atarracado, Joshua Vandruff, apropriou-se do campo de um sauk chamado Makataimeshekiakiak, Falcão Negro. Vandruff começou

a vender uísque para os índios no hedonoso-te que Falcão Negro e seus filhos tinham construído com suas próprias mãos. Falcão Negro não era um chefe, mas, durante

grande parte dos seus sessenta e três anos, havia lutado contra os osages, cherokees, chippewas e kaskaskias. Quando começou a guerra entre os brancos, em 1812,

ele reuniu um exército de guerreiros sauks e ofereceu seus serviços aos americanos, mas não foi aceito. Insultado, fez a mesma oferta aos ingleses, que o trataram

com respeito e aceitaram seus serviços, dando a eles armas, munição, medalhas e o casaco vermelho que identificava o soldado.

Agora, perto da velhice, Falcão Negro via uísque ser vendido em sua própria casa. Pior ainda, testemunhava a corrupção do seu povo pelo álcool. Vandruff e um amigo,

B. F. Pike, embriagavam os índios e os enganavam nas trocas de peles, cavalos, armas e armadilhas. Falcão Negro procurou Vandruff e Pike e pediu que deixassem de

vender uísque aos sauks. Vendo seu pedido ignorado, voltou com meia dúzia de guerreiros que tiraram os barris da casa, quebraram todos e esvaziaram o uísque no chão.

Vandruff encheu seus alforjes com provisões para uma longa viagem e partiu para Bellville, onde morava John Reynolds, governador de Illinois. Num depoimento feito

ao governador, ele jurou que os sauks estavam em pé de guerra e tinham esfaqueado um homem e provocado muita destruição nas terras dos brancos. Entregou uma petição,

assinada por B. F. Pike, segundo a qual “os índios trazem seus cavalos para pastar nos nossos trigais, matam nosso gado a tiros e ameaçam incendiar nossas casas

se não deixarmos a região”.

Reynolds fora eleito há pouco tempo e havia garantido aos eleitores que Illinois era um lugar seguro para colonos. Um governador que tivesse sucesso na luta contra

os índios podia aspirar à presidência.

- Por Deus, senhor - disse ele para Vandruff, emocionado -, procurou o homem certo para fazer justiça.

Setecentos cavalarianos do exército acamparam logo abaixo de Sauk-enuk, provocando inquietação e insegurança. Ao mesmo tempo, um navio à vapor, exalando fumaça,

subiu o rio Rocky. Encalhou numa das rochas que davam nome ao rio, mas os mookamonik conseguiram livrar a embarcação e logo ancoraram, com o seu único canhão apontado

para a cidade. O chefe guerreiro dos brancos, general Edmund P. Gaines, pediu para parlamentar com os sauks. Sentados à mesa estavam o general, o agente dos índios,

St. Vrain, e o comerciante Davenport, que servia de intérprete. Uns vinte sauks importantes compareceram. ‘o general Gaines disse que o tratado de 1803, que havia

permitido

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a construção do forte em Rock Island, dava também ao Grande Pai em Washington o direito sobre todas as terras dos sauks a leste do Mississipi - cinquenta milhões



de acres. Disse aos índios atônitos e confusos que eles haviam recebido anuidades e que agora o Grande Pai, em Washington queria que seus filhos deixassem Sauk-e-nuk

para morar no outro lado do Masesibowi, o grande rio. Seu Pai, em Washington, daria a eles milho suficiente para o inverno.

O chefe dos sauks, Keokuk, sabia que os americanos eram muito numerosos. Quando Davenport passou a ele a palavra do chefe guerreiro branco, o coração de Keokuk se

apertou. Os outros olharam para ele, esperando uma resposta, mas Keokuk ficou em silêncio. Porém um homem se levantou, um homem que tinha aprendido a língua dos

brancos quando lutava ao lado dos britânicos, e disse.

- Nós jamais vendemos nossa terra. Jamais recebemos anuidade alguma do Pai Americano. Ficaremos na nossa cidade.

O general Gaines viu um índio quase velho, com cocar de chefe, com roupa de couro manchada, faces encovadas e testa alta. O tufo de cabelos no meio da cabeça raspada

era mais branco do que negro. O nariz, curvo, grande, destacava-se, agressivo, entre os olhos bem separados. A boca era severa e o queixo, com uma covinha no meio,

parecia não pertencer àquele rosto.

Gaines suspirou e olhou interrogativamente para Davenport.

- Chama-se Falcão Negro.

- O que ele é? - O general perguntou a Davenport, mas quem respondeu foi Falcão Negro.

- Eu sou um sauk. Meus pais eram sauks, grandes homens. Quero ficar onde estão seus ossos e ser enterrado junto deles. Por que eu abandonaria os campos que foram

deles?


Ele e o general entreolharam-se, pedra e aço.

- Não vim aqui para pedir nem para pagar a vocês para deixarem sua aldeia. Minha missão é tirá-los destas terras - disse Gaines suavemente. - Em paz, se for possível.

À força, se for necessário. Dou a vocês dois dias para abandonar estas terras. Se até então não tiverem atravessado o Mississipi, nós os expulsaremos.

O Povo confabulou, olhando para o canhão do navio apontado para eles. Os soldados que passavam a cavalo, em pequenos grupos, gritando e rindo, eram bem alimentados

e bem armados, com muita munição. Os sauks tinham rifles velhos, poucas balas, nenhuma reserva de alimento.

Keokuk enviou um homem para chamar Wabokieshiek, Nuvem Branca, um curandeiro que vivia com os winnebagos. Nuvem Branca era filho de pai winnebago e mãe sauk. Era

alto e gordo, cabelo longo e grisalho e, uma raridade entre os índios, usava um bigode negro e despenteado. Era um grande shaman e cuidava do espírito e do corpo

dos winnebagos, dos sauks e dos mesquakies. As três tribos o conheciam

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como Profeta, mas Nuvem Branca não pôde oferecer nenhuma profecia tranquilizadora a Keokuk. Disse que a milícia era uma força superior e que Gaines não daria ouvidos



à razão. Seu amigo, o comerciante Davenport, disse ao chefe e ao shaman que eles deviam obedecer à ordem dada e abandonar a terra antes que o sangue fosse derramado.

Assim, na segunda noite dos dois dias concedidos ao Povo, eles deixaram Sauk-e-nuk como animais perseguidos e atravessaram o Masesibowi, entrando nas terras dos

seus inimigos, os iowas.

Naquele inverno Dois Céus deixou de acreditar que o mundo fosse um lugar seguro. O milho entregue pelos agentes dos índios na nova aldeia, a oeste do Masesibowi,

era de péssima qualidade e insuficiente para alimentar a todos. O Povo não podia caçar ou apanhar animais para conseguir carne porque muitos deles tinham trocado

suas armas e armadilhas pelo uísque de Vandruff. Lamentavam a perda das plantações deixadas nos seus campos. O milho para a farinha. A abóbora nutritiva, as abobrinhas

grandes e doces. Certa noite, cinco mulheres atravessaram o rio, foram até seus antigos campos e apanharam espigas de milho congeladas, que elas mesmas haviam plantado

na primavera anterior. Foram descobertas pelos brancos e severamente espancadas.

Algumas noites depois, Falcão Negro e alguns homens a cavalo foram até Rock Island. Encheram sacos com milho apanhado nos campos e invadiram um armazém, de onde

tiraram abobrinhas e abóboras. Durante todo o inverno, os índios discutiram. Keokuk, o chefe, dizia que o ato de Falcão Negro provocaria um ataque do exército branco.

A nova aldeia não era Sauk-e-nuk, mas podia ser um bom lugar para viver, argumentava ele, e os mookamonik na outra margem do rio significavam mercado para suas peles.

Falcão Negro disse que os brancos iam empurrar os sauks para o mais longe possível e depois destruí-los. A única escolha que tinham era a luta. A única esperança

para todos os peles-vermelhas era esquecer os inimigos tribais e unirem-se, do Canadá até o México, com a ajuda do Pai Inglês, contra o grande inimigo, o americano.

Os sauks discutiram longamente. Na primavera, a maioria tinha resolvido ficar com Keokuk, na margem leste do grande rio. Apenas 368 homens e suas famílias acompanharam

Falcão Negro. Entre eles estava Búfalo Verde.

As canoas foram carregadas. Falcão Negro, o Profeta, e Neosho, um curandeiro, embarcaram na primeira e os outros os seguiram, remando contra a forte corrente do

Masesibowi. Falcão Negro não queria destruição nem morte, a não ser que suas forças fossem atacadas. Seguindo rio abaixo, chegaram a uma cidade mookamon. Ele mandou

seu povo


tocar os tambores e cantar bem alto. Contando as mulheres, crianças e velhos, eram ao todo quase trezentas vozes e os brancos fugiram apavorados. Em alguns lugares

eles apanharam alimento, mas tinham muitas bocas para alimentar e nenhum tempo para caçar ou pescar.

Falcão Negro mandou mensageiros ao Canadá e aos britânicos com pedido de ajuda e mais a uma dezena de tribos. Os mensageiros voltaram com más notícias. Não era surpresa

que os velhos inimigos, como os sioux, chippewas e osages recusassem ajuda aos sauks contra os brancos, mas as nações irmãs dos mesquakies e outras mandaram a mesma

resposta. Pior ainda, os britânicos enviaram aos sauks apenas palavras de encorajamento e os votos de boa sorte na guerra.

Lembrando o canhão no barco de guerra, Falcão Negro tirou seu povo do rio, e mandou levar as canoas para terra, na margem leste de onde tinham sido expulsos. Como

cada migalha de comida era preciosa, todos carregavam fardos, até as crianças e as mulheres grávidas, como União-de-Rios. Passaram ao largo de Rock Island, a caminho

da aldeia dos potawatomis, onde esperavam alugar terras para plantar seu milho. Na aldeia dos potawatomis Falcão Negro soube que o Pai de Washington vendera o território

dos sauks aos homens brancos. A cidade de Sauk-e-nuk e quase todos seus campos tinham sido comprados por George Davenport, o comerciante de peles que, fingindo ser

seu amigo, insistira com eles para abandonar a terra.

Falcão Negro mandou que realizassem um banquete de carne de cachorro, porque o Povo precisava da ajuda dos manitous. O Profeta supervisionou o estrangulamento dos

cães e a limpeza e purificação da carne. Quando a carne estava no fogo, Falcão Negro pôs suas bolsas de medicina na frente dos seus homens.

- Bravos e guerreiros - disse ele -, Sauk-e-nuk não existe mais. Nossa terras foram roubadas. Soldados de pele branca queimaram nossos hedonoso-tes. Derrubaram as

cercas dos nossos campos. Araram a terra no nosso Lugar dos Mortos e plantaram milho entre os ossos sagrados. Estas são as bolsas de medicina do nosso pai, Muk-ataquet,

que foi o começo da nação sauk. Foram entregues ao grande chefe guerreiro da nossa nação, Na-namakee, que estava em guerra com todas as nações do lago e todas as

nações das planícies, e jamais foi derrotado. Espero que vocês todos as protejam.

Os guerreiros comeram a carne sagrada que lhes dava coragem e força. Precisavam fazer isso, pois Falcão Negro sabia que seriam atacados pelos Facas Longas. Talvez

por obra dos manitous, União-de-Rios teve seu filho no acampamento e não durante a longa viagem. Era um menino e seu nascimento animou os guerreiros tanto quanto

o banquete porque Búfalo Verde o chamou de Wato-kimita, O-Dono-da-Terra.

Incitado pela histeria do povo provocada pelos rumores de que Falcão Negro e os sauks estavam em pé de guerra, o governador Reynolds, de Illinois, convocou mil voluntários

montados. Mais de dois mil se apresentaram,

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ávidos para lutar contra os índios, e 1.935 homens nãotreinados para combate foram incorporados ao serviço militar. Em Beardstown uniram-se a 342 homens



da milícia, formando quatro regimentos e dois batalhões de batedores. Samuel Whiteside, de St. Clair County, foi promovido a brigadeiro-general e comandante.

Os colonos informaram onde estavam Falcão Negro e seus homens e Whiteside se pôs em marcha. A primavera fora excepcionalmente chuvosa e os homens eram obrigados

a atravessar a nado até os pequenos regatos e chapinhavam nos atoleiros comuns, transformados agora em extensos pântanos. Só ao fim de cinco dias de marcha difícil,

atravessando uma região sem trilhas ou marcas, chegaram a Oquawka, onde esperavam encontrar suprimentos. Mas, por falha do exército, não havia nada em Oquawka e

os soldados já tinham consumido tudo que levavam nos alforjes. Como civis que eram na realidade, indisciplinados e revoltados, exigiram que os oficiais providenciassem

comida. Whiteside enviou um mensageiro ao Forte Armstrong e o comandante do forte, Atkinson, ordenou que o barco a vapor, Chieftain, descesse o rio carregado de

alimentos. Whiteside mandou os dois batalhões da milícia seguir em frente, enquanto o corpo de voluntários enchia a barriga e descansava à vontade, durante duas

semanas.


Os homens nunca esqueciam o fato de estarem num ambiente estranho e ameaçador. Numa bela manhã de maio, o grosso da tropa, cerca de mil e seiscentos homens montados,

incendiaram Prophetstown, a aldeia deserta de Nuvem Branca. Depois disso, os homens ficaram extremamente nervosos, certos de que atrás de cada colina estava um índio

sedento de vingança. Logo, o nervosismo se transformou em medo e o terror os dominou. Abandonando equipamentos, suprimentos e munição, os homens atravessaram em

disparada relvados, moitas e florestas e só pararam quando, sozinhos ou em pequenos grupos, entraram envergonhados em Dixon, a vinte quilómetros de onde tinham começado

a correr.

O primeiro contato real ocorreu logo depois. Falcão Negro, com cerca de quarenta bravos, seguia ao encontro dos potawatomi, dos quais esperava alugar terras para

plantar milho. Estavam acampados na margem do rio Rock, quando um batedor informou que uma grande força de Facas Longas marchava naquela direção. Imediatamente Falcão

Negro mandou pregar uma bandeira branca na ponta de um mastro e mandou três sauks desarmados levá-la até os brancos, e pedir um encontro de Falcão Negro com o comandante

dos brancos. Atrás deles, mandou cinco observadores sauks, a cavalo.

Os soldados brancos, sem nenhuma experiência na luta com os índios, ficaram apavorados quando viram os sauks. Imediatamente aprisionaram os três homens desarmados

com a bandeira branca e saíram em perseguição dos cinco observadores, matando dois. Os outros três voltaram para o acampamento, perseguidos pela milícia. Quando

os soldados

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brancos chegaram, foram atacados por cerca de trinta e cinco bravos liderados por Falcão Negro, que, com fúria fria e determinada, estava disposto a morrer



para vingar o ato de traição dos brancos. Os soldados na vanguarda da cavalaria não sabiam que os índios não tinham um vasto exército de guerreiros atrás deles.

Quando viram os sauks investindo para eles, deram meia-volta e fugiram.

Nada é mais contagioso do que o pânico em batalha e em poucos minutos a milícia era um caos. Na confusão, dois dos três sauks capturados com a bandeira de paz conseguiram

fugir. O terceiro foi morto a tiros. Os 275 homens da milícia, montados e armados, fugiram cheios de medo, com a mesma histeria com que tinham fugido os voluntários,

mas dessa vez, o perigo não era imaginário. Os poucos guerreiros de Falcão Negro os fizeram debandar, caçaram os desgarrados e conseguiram onze escalpes. Alguns

dos 464 brancos só pararam de correr quando chegaram em casa, mas a maior parte dos soldados finalmente alcançou a cidade de Dixon.

A pequena índia, então chamada Dois Céus, jamais esqueceu a alegria do seu povo depois da batalha. A esperança voltava. As notícias da vitória espalharam-se por

todo o mundo dos peles-vermelhas e imediatamente noventa e dois winnebagos juntaram-se aos sauks. Falcão Negro desfilava orgulhoso com uma camisa branca enfeitada

com babados e um livro de direito, encadernado em couro, debaixo do braço - encontrados no alforje abandonado por um oficial branco. Sua oratória estava no auge.

Tinham demonstrado que os mookamonik podiam ser vencidos, disse ele, e agora as outras tribos enviariam guerreiros para a aliança dos seus sonhos.

Mas os dias se passaram e não apareceu nenhum guerreiro. A comida estava quase no fim e a caça não era boa. Finalmente, Falcão Negro mandou que os winnebagos seguissem

um caminho e ele e seus sauks seguiram outro. Contrariando suas ordens, os winnebagos atacaram fazendas desprotegidas e escalpelaram os brancos, entre eles St. Vrain,

o agente dos índios. Por dois dias seguidos, o céu escureceu e o manitou Shagwa fez tremer céu e terra. Wabokieshiek recomendou a Falcão Negro que nunca começasse

uma marcha sem enviar batedores na frente e o pai de Dois Céus resmungou sinistramente que não precisavam de um profeta para saber que alguma coisa terrível estava

para acontecer.

O governador Reynolds ficou furioso. A vergonha que sentia era partilhada por todos os que viviam nos estados da fronteira. As depredações dos winnebagos eram descritas

com muito exagero e a culpa atribuída a Falcão Negro. Novos voluntários apareceram, atraídos pela notícia de que a recompensa determinada pela legislação de Illinois,

em 1814,


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estava ainda em vigor - cinquenta dólares por cada índio morto ou por uma mulher índia ou criança capturada. Reynolds não teve dificuldade para reunir mais três

mil homens. Dois mil soldados extremamente nervosos estavam acampados nos fortes, nas margens do Mississipi, sob o comando do general Henry Atkinson, tendo como

segundo em comando o coronel Zachary Taylor. Duas companhias de infantaria foram transferidas de Baton Rouge, Louisiana, para Illinois e um exército de mil soldados

de carreira chegou dos postos do leste sob o comando do general Winfield Scott. Durante a travessia dos Grandes Lagos, nos navios a vapor, vários homens de Scott

apanharam cólera, mas, mesmo sem eles, uma força enorme, sedenta de vingança e decidida a restaurar a honra dos brancos, foi posta em movimento.

O mundo ficou pequeno para a menina Dois Céus. Sempre lhe parecera enorme nas jornadas entre o acampamento de inverno dos sauks, no Missouri, e a cidade de verão

no rio Rocky. Mas agora, para onde quer que seu povo se voltasse, lá estavam os batedores brancos e os tiros e gritos. Ganharam alguns escalpos e perderam alguns

bravos. Por sorte não tinham encontrado o corpo principal do exército dos brancos. Falcão Negro procurava esconder as marcas da sua passagem e criava pistas falsas

para iludir os soldados, mas a maioria dos seus seguidores era de mulheres e crianças e tornava-se difícil esconder os movimentos de tantas pessoas.

Esse número diminuía rapidamente. Os velhos morriam, bem como algumas crianças. O rosto do irmãozinho de Dois Céus ficou muito pequeno e os olhos ficaram muito grandes.

Sua mãe ainda tinha leite, mas era pouco e ralo, insuficiente para alimentar a criança. Dois Céus carregava o irmão o tempo todo.

Falcão Negro não falava mais em expulsar os brancos. Agora, falava em fugir para o norte distante, de onde os sauks tinham vindo há centenas de anos. Mas, à medida

que as luas passavam, a confiança dos homens desaparecia. Famílias e mais famílias abandonavam Falcão Negro e tomavam outro rumo. Grupos pequenos provavelmente não

poderiam sobreviver, mas a maioria estava convencida de que os manitous não estavam mais com Falcão Negro.




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