Noah Gordon, o xamã



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amarrou um pouco antes de Rob J. imobilizar o outro.

Chega Cantando apanhou a bola e a pôs na rede de Rob J. Sem uma palavra ou um olhar para os três sauks amarrados, Chega Cantando correu. Levando a bola na rede,

como se fosse uma bomba com pavio aceso, Rob J. correu pela trilha atrás dele.

Não foram interceptados por ninguém até Chega Cantando parar e fazer sinal de que era ali que tinham de atravessar o rio. Outra utilidade das tiras de couro foi

demonstrada quando o índio amarrou o bastão de Rob ao cinto, deixando suas mãos livres para nadar. Chega Cantando amarrou seu bastão na tanga de couro e tirou os

sapatos, deixando-os na margem do rio. Rob J. sabia que seus pés eram delicados demais para seguir descalço, por isso, amarrou os sapatos no pescoço. A bola, ele

enfiou na frente da calça.

Com um largo sorriso, Chega Cantando ergueu três dedos no ar.

Embora não fosse a coisa mais engraçada do mundo, serviu para aliviar a tensão e Rob deu uma gargalhada - um erro, pois a água, transportando o som da sua risada,

os traiu e trouxe como resposta os gritos dos seus perseguidores. Os dois entraram rapidamente no rio.

Seguiram juntos, Rob no nado de peito, à moda européia, e o índio com nado de cachorrinho. Rob estava se divertindo extremamente; não se sentia exatamente como um

nobre selvagem, mas muito pouco seria preciso para convencê-lo de que ele era o próprio Meias de Couro. Quando chegaram na outra margem, Chega Cantando rosnou impaciente

enquanto Rob calçava os sapatos. As cabeças dos perseguidores subiam e desciam na água, como maçãs numa banheira. Quando finalmente Rob se calçou e a bola estava

na sua rede, o primeiro nadador estava quase na margem.

Assim que começaram a correr, Chega Cantando apontou para a pequena caverna que significava o fim do jogo e, vendo a abertura na rocha, Rob criou novo ânimo. Soltou

um brado de vitória na sua língua erse. Mas foi prematuro, Meia dúzia de sauks apareceram na trilha entre eles e a caverna. Embora a água tivesse lavado grande parte

da tinta, viamse ainda alguns traços brancos. Quase imediatamente dois Cabelos Longos saíram da floresta e atacaram. No século XV, um dos ancestrais de Rob, Brian

Cullen, conseguira deter, sozinho, um grupo de McLaughlin, girando a grande espada escocesa num tremendo círculo de morte. Com dois círculos, menos letais, mas mesmo

assim ameaçadores, os dois Cabelos Longos conseguiram manter à distância três oponentes, girando seus bastões. Isso deixava três Homens Bravos livres para tentar

apanhar a bola. Chega Cantando aparou um golpe com seu bastão e inutilizou o adversário com um pontapé certeiro.

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- Isso mesmo, no traseiro, um pontapé nesse traseiro assassino - gritou Rob, esquecido de que ninguém estava entendendo.



Um índio lançou-se para ele, com a fúria de um homem drogado. Rob desviou o corpo e pisou com seu sapato pesado no pé descalço do atacante. Apenas a alguns passos

do homem que gemia de dor, estava a entrada da caverna, bastante próxima até mesmo para sua pouca habilidade no jogo. Com um movimento rápido do pulso, atirou a

bola. Não importava que ela tivesse entrado aos pulos na caverna escura. O importante era que todos a viram entrar.

Rob atirou o bastão para o ar e gritou.

- Vitó-ó-ó-ória! Vitória do Clã Negro!

Ele ouviu, mais do que sentiu, o golpe quando o bastão do homem mais próximo atingiu violentamente sua cabeça. Foi um som seco e sólido como o que se ouve nos acampamentos

dos lenhadores quando o machado entra em contato com um tronco sólido de carvalho. Com espanto, viu o chão se abrir. Caiu num buraco profundo e escuro que acabou

com tudo, e Rob parou como um relógio sem corda.

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UM PRESENTE DE CÃO DE PEDRA



Rob não lembrava de ter sido arrastado para o acampamento como um saco de farinha. Quando abriu os olhos era noite. Sentiu o cheiro de relva pisada. Carne assada,

provavelmente um esquilo gordo. A fumaça do fogo. A feminilidade de Makwa-ikwa, inclinada para ele, observando-o com seus olhos jovens/velhos. Não sabia o que ela

estava perguntando. Sentia apenas uma tremenda dor de cabeça. O cheiro da carne provocoulhe náuseas. Aparentemente ela previa isso pois estava segurando a cabeça

dele sobre um balde de madeira para que pudesse vomitar.

Quando Rob terminou, Makwa-ikwa o fez tomar uma poção verde e amarga com um vago sabor de hortelã e outro mais forte e desagradável. Tentou recusar o resto, virando

a cabeça, mas ela o obrigou a beber como se obriga uma criança teimosa. Rob ficou zangado. Mas logo depois, dormiu. Uma vez ou outra acordava e ela o fazia tomar

o líquido verde. Assim, dormindo, semiconsciente, ou absorvendo com o líquido a força da mãe natureza, ele passou quase dois dias.

Na terceira manhã a saliência e a dor tinham desaparecido da sua cabeça. Makwa-ikwa concordou em dizer que ele estava melhor, mas continuou com a medicação e Rob

tornou a dormir.

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Lá fora, no acampamento, o festival da Dança da Garça continuava. Às vezes ele ouvia o som monótono do tambor de água, vozes cantando na língua gutural e ruídos

próximos ou distantes dos jogos e das corridas, os gritos dos espectadores. No fim do dia, quando ele abriu os olhos na luz fraca da cabana, Makwa-ikwa estava trocando

de roupa. Rob olhou intrigado para as marcas nos seios dela, que pareciam cicatrizes e vergões, formando símbolos estranhos, marcas cabalísticas que iam da base

à aréola dos seios.

Rob não fez um gesto, nem um ruído, mas de algum modo ela pressentiu sua atenção. Seus olhos encontraram-se por um momento. Então ela voltou-se, ficando de costas.

Não tanto, percebeu ele, para esconder o triângulo escuro, mas para proteger os símbolos misteriosos dos seios. Seios sagrados, pensou Rob. Não havia nada de sagrado

nos quadris ou nas nádegas. Makwa-ikwa tinha ossos grandes, mas Rob imaginou por que a chamavam de Mulher Urso, pois seu rosto e seus movimentos lembravam mais um

poderoso felino. Não podia imaginar sua idade. Rob foi dominado por uma visão na qual ele a possuía por trás, segurando as duas tranças de cabelos negros untados

com óleo, como se estivesse cavalgando um sensual cavalo humano. Atônito, percebeu que estava pensando em fazer amor com uma pele-vermelha selvagem, mais maravilhosa

do que qualquer uma que James Fenimore Cooper pudesse ter imaginado, e sentiu no corpo a vigorosa reação física à idéia. O priapismo podia ser um sinal ameaçador,

mas ele sabia que o motivo era a mulher, não qualquer dano físico, portanto, um sinal de que estava se recuperando.

Imóvel e em silêncio ele a viu vestir uma túnica franjada de couro. Do ombro direito pendiam quatro tiras de couro coloridas que terminavam numa bolsa de couro pintada

com figuras simbólicas e um círculo de penas de cores vistosas de pássaros que Rob não conhecia, a bolsa e o círculo apoiados no quadril.

Ela saiu da cabana e logo Rob ouviu sua voz que se erguia e baixava, certamente numa prece.

Heugh! Heugh! Heugh! respondiam em uníssono e ela continuava a cantar. Rob não tinha idéia do que ela estava dizendo ao seu deus, mas a voz provocava calafrios e

ele prestou atenção, vendo, pela abertura do teto, as estrelas que pareciam pedaços de gelo incendiados por aquela prece.

Naquela noite ele esperou impaciente o fim da Dança da Garça. Cochilava, acordava para ouvir, agitava-se, inquieto, esperava mais, e finalmente os sons foram diminuindo

e a festa terminou. Ouviu alguém entrando na cabana, o som de roupa caindo no chão. Alguém sentou ao lado dele, com um suspiro, mãos se estenderam e o encontraram,

as mãos dele tocaram carne macia. Tudo foi feito em silêncio, a não ser pela respiração acelerada, um riso abafado, um silvo selvagem. Rob não precisou fazer muita

coisa. Se quisesse prolongar o prazer, não poderia porque há muito tempo não dormia com uma mulher. Ela era experiente e hábil, ele, ávido e rápido e, depois, desapontado.

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Uma pequena mordida na fruta maravilhosa para descobrir que não era o que esperava.



Relembrando no escuro, tinha a impressão agora de que os seios eram mais flácidos do que pareciam, macios e sem cicatrizes. Arrastou-se até o fogo e acendeu um graveto.

Voltou para a esteira com o graveto aceso e suspirou.

O rosto largo que sorria para ele não era nada feio, mas Rob jamais o vira antes.

Makwa-ikwa voltou de manhã, com a roupa de todos os dias, de tecido feito em casa. Evidentemente o festival da Dança da Garça tinha terminado. Enquanto ela preparava

a refeição para os dois, Rob ficou calado, sombrio. Então disse que ela não devia mais mandar nenhuma mulher para ele e Makwa-ikwa balançou a cabeça assentindo,

tranqüilamente, sem dúvida como aprendera a fazer quando os professores cristãos a censuravam com severidade.

Ela disse que o nome da mulher era Mulher Fumaça. Enquanto fazia a comida, explicou, sem nenhuma emoção, que ela não podia dormir com um homem, pois perderia seu

poder de curar.

Bobagem de nativos, pensou ele. Mas era evidente que ela acreditava.

Enquanto comiam, tomando o café mais amargo do que nunca, Rob pensou no assunto. Para ser justo, tinha de admitir que ele a recusaria se penetrá-la com seu pênis

significasse a perda da sua capacidade de curar.

Tinha de admirar o modo pelo qual ela havia resolvido a situação, certificando-se de que as chamas do desejo estavam apagadas, antes de explicar como eram as coisas.

Makwa-ikwa era uma mulher extraordinária, pensou ele, não pela primeira vez.

Naquela tarde, vários sauks reuniram-se no hedonoso-te de Makwa-ikwa. Chega Cantando falou brevemente, dirigindo-se aos outros índios e não a Rob, mas Makwa-ikwa

traduziu.

- Ele é um homem - disse o índio grande. Ele disse que Cawso wabeskiou, o Xamã Branco, para sempre seria um sauk e um Cabelos Longos. Por todos os seus

dias, os sauks seriam irmãos e irmãs do Cawso wabeskiou.

O Homem Bravo, que tinha acertado sua cabeça depois do jogo de bola e bastão estar ganho, foi empurrado para a frente, sorrindo e arrastando os pés. Chamava-se Cão

de Pedra. Os sauks não sabiam nada sobre pedir desculpas, mas sabiam muito sobre preparação. Cão de Pedra deu a Rob uma bolsa de couro igual à que Makwa-ikwa usava

às vezes, porém, decorada com cerdas de porco do mato ao invés de penas.

Makwa-ikwa disse que era para guardar sua medicina ali, os sagrados objetos de uso pessoal chamados Mee-shome, que jamais deviam

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ser mostrados a ninguém e dos quais todos os sauks absorviam sua força e poder. Ela prendeu na bolsa quatro tiras coloridas - marrom, corde-laranja, azul e negro



- para pendurar no ombro. As tiras eram chamadas Izze, disse ela.

- Quando você as estiver usando, não pode ser ferido por nenhuma bala e sua presença ajuda a colheita e cura os doentes.

Comovido, mas embaraçado, Rob disse.

- Estou feliz por ser irmão dos sauks.

Sempre teve dificuldade para demonstrar apreciação. Quando, no seu tempo de estudante de medicina, o tio Ronald gastou cinqüenta libras para lhe conseguir um lugar

de enfermeiro no Hospital da Universidade, Rob só a custo disse obrigado. Agora, com os índios, foi a mesma coisa. Felizmente, os sauks também não eram dados a grandes

demonstrações de gratidão, ou despedidas, e ninguém se importou quando ele selou o cavalo e foi embora.

De volta à sua cabana, a primeira coisa que fez foi escolher os objetos sagrados para a bolsa de medicina. Algumas semanas atrás havia encontrado no bosque um pequeno

crânio de animal, branco, limpo e misterioso. Pelo tamanho, devia ser de maritaca. Muito bem, e o que mais? O dedo de um recém-nascido morto? O olho de uma salamandra-aquática,

um dedo de sapo, penugem de morcego, língua de cachorro? De repente, resolveu preparar sua bolsa sagrada com seriedade. Quais eram os objetos da sua essência, as

pistas para a sua alma, o Mee-shome do qual Robert Judson Cole tirava sua força?

Guardou na bolsa o bem de herança mais precioso da família Cole, o bisturi de aço azul que os Cole chamavam de escalpelo Rob J. e que passava sempre para o primeiro

filho que se formava em medicina.

O que mais havia de precioso desde o início da sua vida? Não poderia guardar na bolsa o ar frio das montanhas da Escócia. Nem o calor seguro da família. Gostaria

de se parecer com o pai, cujos traços tinha há muito esquecido. Ganhara da mãe uma Bíblia quando se despediram e por isso era preciosa, mas não ia ser guardada no

seu Mee-shome, Estava certo de que nunca mais veria a mãe, talvez já estivesse morta. Pensou em desenhar seu rosto enquanto podia lembrar. Não teve dificuldade a

não ser com o nariz que só conseguiu acertar depois de angustiantes horas de trabalho. Enrolou o papel e o guardou na bolsa.

Acrescentou aos objetos sagrados a partitura de Chopin, copiada por Jay Geiger para a viola de gambá.

Guardou também na bolsa uma barra de sabão escuro, símbolo do que aprendera sobre limpeza e cirurgia com Oliver Wendell Holmes. Isso o fez alterar o rumo do pensamento

e, após um momento de reflexão, deixou na bolsa apenas o sabão e o bisturi. Acrescentou então pedaços de pano limpo, ataduras e medicamentos variados, mais os instrumentos

cirúrgicos usados nas suas visitas.

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Quando terminou, a bolsa era uma maleta de médico com suprimentos e instrumentos que lhe davam força e poder e sentiu-se muito feliz com o presente de Cão de Pedra,



o Tinta Branca, como compensação da pancada na sua cabeça.

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OS CAÇADORES DE CORÇA



A aquisição das ovelhas foi um acontecimento importante para Rob porque era o detalhe que faltava para sentir-se em casa. No começo, tratou dos merinos com Alden,

mas logo percebeu que Kimball era tão bom com ovelhas quanto com outros animais e em pouco tempo estava cortando caudas, castrando os machos e examinando as ovelhas

para verificar se tinham sarna, como se fosse pastor há séculos. Era uma grande coisa Rob não ser necessário na fazenda porque, assim que se espalhou a notícia da

presença de um bom médico na região, começou a receber muitos chamados para atender pacientes distantes. Compreendeu então que precisava limitar sua área de atendimento,

porque o sonho de Nick Holden começava a acontecer e novas famílias chegavam constantemente a Holden’s Crossing. Certa manhã Nick apareceu, para ver o rebanho, disse

que os carneiros fediam e demorou algum tempo “para oferecer um negócio promissor. Um moinho de grãos”.

Um dos recém-chegados, um alemão chamado Pfersick, era um moleiro de Nova Jersey. Pfersick sabia onde comprar equipamento para o moinho, mas não tinha capital.

- Novecentos dólares são suficientes. Eu entro com seiscentos, para

50% do estoque. Você entra com trezentos, para 25% - eu empresto o que precisar - e daremos a Pfersick 25% do negócio.

Rob tinha pago menos da metade do que devia a Nick e detestava dever.

- Você está entrando com todo o dinheiro. Por que não fica com 75%?

- Quero forrar de penas o seu ninho, até ele ficar tão macio e rico que nem vai pensar em sair daqui. Você é necessário como a água.

Rob J. sabia que era verdade. Quando ele e Alden foram comprar as ovelhas em Rock Island, viram um impresso distribuído por Nick, que descrevia as muitas vantagens

de Holden’s Crossing, destacando a presença do Dr. Cole. Entrar para o negócio do moinho não podia prejudicar sua posição de médico, portanto, concordou.

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- Sócios? - perguntou Nick.



Trocaram um aperto de mão para selar a sociedade. Rob recusou um imenso charuto oferecido em comemoração - o uso de charutos para a administração anal da nicotina

cortou-lhe toda a vontade de fumar. Quando Nick acendeu o seu, Rob disse que ele parecia um perfeito banqueiro.

- Isso vai chegar muito antes do que você pensa e vai ser o primeiro a saber - Nick soprou a fumaça para cima, satisfeito. - Neste fim de semana vou caçar corça

em Rock Island. Quer vir comigo?

- Caçar veado? Em Rock Island?

- Veado não. Pessoas do sexo feminino. Como é, vem comigo, bode velho?

- Não entro em bordéis.

- Estou falando em mercadoria particular de primeira.

- Certo. Vou com você - disse Rob J. Tentou parecer indiferente, mas algo em sua voz traiu o fato de que não era assunto sem importância para ele. Nick Holden deu

um largo sorriso.

A Casa Stephenson refletia a personalidade de uma cidade do rio Mississipi, onde novecentos barcos a vapor aportavam anualmente e por onde passavam jangadas de troncos

de árvores, com 500 metros de extensão cada uma. Sempre que os lenhadores e os homens que trabalhavam no rio tinham dinheiro, o hotel ficava movimentado e às vezes

violento. A dispendiosa reserva feita por Nick Holden garantia a privacidade. Dois quartos separados por uma sala de estar e jantar. As mulheres eram primas, ambas

com o mesmo sobrenome, Dawber, e ficaram muito satisfeitas com a companhia de dois profissionais liberais. A de Nick chamavase Lettie, a de Rob, Virgínia. Eram pequenas

e vivas como pardais, mas Rob achou irritante seu ar de importância. Lettie era viúva. Virgínia disse que era solteira, mas, na noite em que Rob conheceu seu corpo,

verificou que ela já tivera filhos.

Na manhã seguinte, durante o café, as duas mulheres cochicharam e riram o tempo todo. Virgínia devia ter contado a Lettie sobre a bainha que Rob chamava de Velho

Tesão e Lettie devia ter contado a Nick porque, quando voltavam para casa, Nick a mencionou, rindo.

- Para que se preocupar com essas coisas?

- Bem, para evitar doenças - disse Rob - e gravidez.

- Estraga o prazer.

Será que o prazer fora tão grande assim? Admitia que serviu para acalmar seu corpo e seu espírito e quando Nick disse que tinha apreciado a companhia, respondeu

que ele também tinha e concordaram em caçar corças outra vez.

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Rob passou pela fazenda de Schroeder e viu Gus manejando perfeitamente a foice, a despeito da falta dos dedos, e os dois trocaram cumprimentos. Pensou em passar



direto pela cabana de Bledsoe porque a mulher deixara bem claro que o considerava um intruso e a lembrança dela o incomodava. Mas no último instante virou o cavalo

para a clareira e desmontou.

Ergueu a mão para bater na porta, mas deteve-se, ouvindo o choro de criança e os gritos roucos da mulher. Sons que não prenunciavam nada de bom. Rob tentou a porta.

Não estava trancada. O cheiro, dentro da casa, agrediu-o como um murro e a iluminação era pouca, mas ele viu Sarah Bledsoe deitada no chão. A criança, sentada ao

lado dela, ergueu os olhos para o homem estranho e enorme com uma expressão de pavor no rosto molhado de lágrimas e parou de chorar. Rob J. teve vontade de pegar

o menino e acalmá-lo, mas a mulher gritou outra vez e ele compreendeu que devia cuidar dela primeiro.

Ajoelhou e tocou o rosto da mulher. Suor frio.

- O que é, senhora?

- O câncer. Ah.

- O que é que dói, Sra. Bledsoe?

As mãos com dedos longos e magros desceram como aranhas para a parte inferior do ventre, parando nos dois lados da pélvis.

- Dor aguda ou surda?

- Como uma facada! Cortante! Senhor, é... horrível!

Rob temeu que ela estivesse eliminando a urina através de uma fístula, provocada pelo parto. Se fosse isso, ele não podia fazer nada.

A mulher fechou os olhos, pois a prova da sua incontinência estava no cheiro que empesteava o ar e era visível em toda parte.

- Preciso examiná-la.

Sem dúvida ela teria recusado, mas quando abriu a boca foi para soltar um grito de dor. Embora seu corpo estivesse tenso, Rob conseguiu fazê-la deitar sobre o lado

esquerdo e dobrar a perna direita. Viu que não havia nenhuma fístula.

Tirou da maleta um pouco de gordura branca para usar como lubrificante.

- Procure se acalmar. Eu sou médico - disse ele, mas ela começou a chorar, mais pela humilhação do que por desconforto quando o dedo médio de Rob penetrou sua vagina,

enquanto com a mão direita ele apalpava o abdome. Rob tentou usar a ponta do dedo como se fosse um olho. A princípio não detectou nada, mas, quando chegou perto

do osso pélvico, encontrou alguma coisa.

Depois outra.

Retirou o dedo cuidadosamente, deu um pedaço de pano limpo para a mulher se limpar e saiu para lavar as mãos no regato.

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Rob voltou para a casa e levou a mulher para fora e a fez sentar num tronco de árvore com a criança no colo. Ela piscou os olhos semicerrados, ajustando-se à luz



do sol.

- A senhora não tem câncer. - Ele gostaria de poder parar aí. - Tem uma pedra na bexiga.

- Não vou morrer?

Rob tinha um compromisso com a verdade.

- Se tivesse câncer, morreria. Com uma pedra na bexiga, suas chances são melhores. - Explicou que uma dieta pouco variada ou diarréia prolongada podiam provocar

o acúmulo de minerais na bexiga.

- Sim, eu tive diarréia durante muito tempo, depois do parto. Existe remédio para isso?

- Não. Nenhum remédio dissolve as pedras. As menores, às vezes, passam com a urina e geralmente têm bordas cortantes que cortam os tecidos. Acredito que seja por

isso que aparece sangue na sua urina. Mas a senhora tem duas pedras grandes. Grandes demais para serem expelidas naturalmente.

- Então vai me cortar? Pelo amor de Deus... - disse ela, apavorada.

- Não - Rob hesitou enquanto decidia o quanto ela precisava saber. Uma parte do juramento de Hipócrates dizia Não cortarei uma pessoa que sofra de pedra. Alguns

cirurgiões carniceiros ignoravam o juramento e operavam, abrindo cortes profundos entre o ânus e a vulva ou o escroto, para abrir a bexiga e retirar a pedra, com

poucos casos de recuperação. Muitos morreram de peritonite e outros ficaram inutilizados para o resto da vida por terem seccionado um músculo do intestino ou da

bexiga. - Eu vou inserir um instrumento cirúrgico na uretra, o canal estreito por onde você urina. O instrumento é um litotrite. Tem duas pequenas pinças de aço,

como garras, para remover ou esmagar as pedras.

- Vai doer?

- Vai, especialmente na entrada e na saída do litotrite. Mas a dor é menor do que a que está sofrendo agora. Se der certo, ficará completamente curada. - Era difícil

admitir que o maior perigo estava na possibilidade de um erro seu. - Se quando tentar prender a pedra com o litotrite, eu danificar a bexiga, ou cortar o peritônio,

você morre de infecção. - Rob podia ver no rosto pálido e desfeito a sombra de uma mulher jovem e bonita. - Você resolve se quer que tente quebrar as pedras ou não.

Na sua agitação ela apertou demais o filho e ele começou a chorar. Por causa disso, só depois de um minuto Rob percebeu o que tinha dito então.

Por favor.

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Sabia que precisava de ajuda para fazer a litocenose. Lembrando a rigidez do corpo da mulher durante o exame, achou que devia ser assistido por uma mulher. Assim,



quando deixou Sarah Bledsoe, foi diretamente para a casa mais próxima para pedir ajuda a Alma Schroeder.

- Oh! Não posso fazer isso! Nunca! - disse a pobre Alma, muito pálida, mas consternada pois sua preocupação com Sarah era genuína. - Gott im Himmel! Oh, Dr. Cole,

por favor, eu não posso.

Cole garantiu que isso não a diminuía aos seus olhos. Muitas pessoas não agüentam ver uma cirurgia.

- Está bem, Alma. Vou procurar outra pessoa.

Voltando para casa, Rob passou mentalmente em revista todas as mulheres do distrito que conhecia, eliminando uma por uma. Já tinha visto muito choro. Precisava de




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