Noah Gordon, o xamã



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No fim do inverno, a cabana de Rob J. começava a parecer um lar. Aonde quer que fosse, ele adquiria coisas para a casa - uma panela de ferro, duas xícaras, uma garrafa

colorida, uma tigela de barro, colheres de pau. Algumas ele comprava. Outras, aceitava como pagamento, como o par de velhas colchas de retalhos, uma das quais dependurou

na parede do lado norte para evitar as correntes de vento e a outra usava na cama feita por Alden Kimball. Alden fez também uma banqueta de três pernas e um banco

baixo para a frente da lareira e antes da neve chegar, Kimball instalou um tronco de sicômoro de três metros, de pé, dentro da cabana. Pregou algumas tábuas e Rob

as cobriu com uma manta.

A essa mesa ele sentava regiamente, no melhor móvel da casa, a cadeira com assento de casca de nogueira, para comer ou ler livros e revistas de medicina, antes de

dormir, à luz incerta de um pedaço de pano aceso num prato fundo com gordura derretida. A lareira, feita com pedras do rio e argila, aquecia a cabana. Acima dela,

na parede, estavam os rifles e molhos de ervas, réstias de cebola e de alho, pedaços de maçã secos, presos uns aos outros, uma salsicha e um presunto defumado pendiam

das vigas do teto. Num canto guardava suas ferramentas - enxada, machado, roçador de mato, garfo de madeira, todos feitos com diferentes graus de artesanato.

Ocasionalmente tocava a viola de gambá. A maior parte do tempo estava cansado demais para tocar sozinho. No dia 2 de março uma carta de Jay Geiger e um suprimento

de enxofre chegaram ao escritório da diligência, em Rock Island. Geiger dizia que a descrição da terra em Holden’s Crossing, feita por Rob J., era melhor do que

ele e a mulher esperavam. Tinha enviado a Nick Holden uma ordem de pagamento referente ao sinal e faria os outros pagamentos no escritório de terras do governo.

Infelizmente, os Geiger não poderiam ir imediatamente para Illinois. Lillian estava grávida outra vez, “uma ocorrência inesperada que, embora nos encha de alegria,

vai retardar nossa ida”. Teriam de esperar o nascimento do segundo filho e, depois, que ele tivesse idade suficiente para suportar a longa viagem.

A carta de Jay provocou-lhe sentimentos confusos. Rob J. ficou satisfeito por Jay confiar na sua recomendação sobre a terra, ele seria seu vizinho algum dia. Mas,

ao mesmo tempo, sentiu quase um desespero, ao pensar que esse dia não estava próximo. Desejava poder tocar com eles a música que confortava e encantava sua alma.

A planície era uma prisão imensa e silenciosa, onde ele passava sozinho a maior parte do tempo.

Rob J. achou que devia arranjar um cachorro.

Metade do inverno já havia passado e os sauks estavam famintos e magros outra vez. Gus Schroeder admirou-se de Rob querer mais duas sacas de milho, mas não insistiu

na pergunta quando Rob não ofereceu nenhuma explicação. Como da primeira vez, os índios aceitaram a oferta em silêncio e sem demonstrar nenhuma emoção. Ele levou

meio quilo de café para Makwa-ikwa e passou algum tempo com ela, ao lado do fogo. Ela misturou ao café tantas raízes secas que o resultado foi uma bebida diferente

de qualquer outra que Rob já experimentara. Tomaram puro. Não era bom, mas era quente e de certa forma com gosto de comida de índio. Aos poucos começaram a se conhecer.

Makwa-ikwa tinha estudado durante quatro anos numa missão para crianças índias, perto de Fort Crawford. Lia um pouco e já ouvira falar da Escócia, mas quando percebeu

que Rob pensava que era cristã, tratou de esclarecer. Seu povo adorava Se-wanna - seu deus principal - e outros manitous e era ela quem os orientava nos ritos tradicionais

dessa religião. Rob compreendeu

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que ela era tão boa sacerdotisa quanto muitas outras coisas, como uma boa curandeira. Sabia tudo sobre a botânica medicinal do lugar e tinha molhos de ervas secas



dependurados em vários postes. Algumas vezes ele a viu tratar os sauks, começando por se acocorar ao lado do doente, tocando suavemente um tambor feito com uma tigela

de barro com dois terços de água coberta por uma pele fina, esticada. Ela passava uma vareta curva levemente na pele do tambor. O resultado era um som rouco e baixo

que, depois de algum tempo, tinha efeito soporífico. Então, ela encostava as duas mãos na parte do corpo que devia ser tratada e falava com o paciente em voz baixa,

na sua língua. Rob a viu curar desse modo uma distensão muscular nas costas de um jovem índio e a dor nos ossos de uma velha mulher.

- Como é que suas mãos acabam com a dor? Mas ela balançou a cabeça.

- Não sei explicar.

Rob J. segurou as mãos da velha índia entre as suas. Embora a dor tivesse desaparecido, ele sentiu que as forças a abandonavam. Disse então a Makwa-ikwa que a mulher

tinha poucos dias de vida. Cinco dias depois, quando voltou ao acampamento, a velha índia estava morta.

- Como você sabia? - perguntou Makwa-ikwa.

- Senti a chegada da morte... algumas pessoas da minha família podem sentir. Uma espécie de dom. Não sei explicar.

Assim, cada um teve de aceitar a palavra do outro. Rob a achava extremamente interessante, diferente de todas as pessoas que já havia conhecido. A atração física

era muito forte entre eles. Geralmente sentavam perto da pequena fogueira no chão do tipi, tomando café e conversando. Certo dia ele tentou descrever a Escócia,

sem saber ao certo quanto Makwa podia compreender, mas ela escutou com atenção, fazendo uma ou outra pergunta sobre animais e plantações. Ela explicou a estrutura

social dos sauks e foi sua vez de ser paciente, pois Rob achou tudo um tanto complicado. A nação sauk era dividida em doze grupos, como os clãs escoceses, só que,

ao invés de se chamarem McDonald, Bruce e Stewart, tinham nomes como Namawuck, Esturjão; Muc-kissou, Águia Calva; Pucca-hummowuck, Perca Listrada; Macco Pennyack,

Urso Batata; Kiche Cumme, Grande Lago; Payshake-issewuck, Gamo; Pesshepeshewuck, Pantera; Waymeco-uck, Trovão; Muck-wuck, Urso; Me-seco, Perca Negra; Ahawuck,

Cisne; e Muhwha-wack, Lobo. Os clãs viviam juntos sem competição, mas cada sauk pertencia a duas Metades altamente competitivas, a Keeso-qui, Cabelos Longos, ou

a Osh-cush, Homens Bravos. Cada primeiro filho homem, logo que nascia, era declarado membro da Metade a que pertencia o pai, o segundo tornava-se membro da outra

Metade, e assim por diante, alternativamente, de modo que as duas Metades eram representadas, mais ou menos igualmente, dentro de cada família e dentro de cada clã.

Eles competiam nos jogos, na caça, na paternidade e em atos de bravura - em todos os aspectos da sua

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vida. A competição acirrada mantinha os sauks fortes e corajosos, mas não havia feudos de sangue entre as duas Metades. Rob J. achou que era um sistema mais sensato



do que o do seu povo, mais civilizado, pois milhares de escoceses tinham sido mortos pelos clãs rivais durante vários séculos de lutas internas selvagens.

Devido ao racionamento de comida e a uma certa desconfiança em relação ao alimento preparado pelos índios, no começo ele evitava partilhar as refeições com Makwa-ikwa.

Depois, algumas vezes, quando os caçadores eram bem-sucedidos, ele experimentou a comida feita por ela e gostou. Eles comiam especialmente cozidos e assados e, quando

podiam escolher, preferiam carne vermelha ou de aves, ao peixe. Ela falou sobre os banquetes religiosos de carne de cachorro, muito apreciada pelos manitous. Explicou

que quanto mais o cão fosse querido como animal de estimação, melhor era o sacrifício nesses banquetes e mais forte o efeito medicinal. Rob J. não escondeu sua repulsa.

- Você não acha estranho comer um animal de estimação?

- Não tanto quanto comer o corpo e beber o sangue de Cristo.

Rob era um homem jovem e normal e, às vezes, embora os dois estivessem agasalhados com várias camadas de roupa e de peles, ele ficava dolorosamente excitado. Certa

vez segurou as mãos frias e quadradas de Makwa-ikwa nas suas e ficou abalado com a força vital que sentiu nelas. Examinou os dedos curtos, a pele marrom-avermelhada

e áspera, os calos rosados nas palmas. Perguntou se ela queria visitar sua cabana. Makwa-ikwa olhou solenemente para ele e retirou as mãos. Não disse se aceitava

ou não o convite, mas nunca o visitou.

Durante a estação do degelo, Rob J. foi a cavalo até o acampamento dos índios, evitando os lamaçais onde a terra não conseguia absorver toda a água da neve derretida.

Os sauks estavam deixando o local do acampamento de inverno e ele os acompanhou a um lugar aberto, a dez quilômetros de distância, onde os índios substituíram os

tipis aconchegantes por hedonoso-tes, cabanas comunais de galhos entrelaçados, que permitiam a passagem da brisa de verão. Havia um bom motivo para mudar o local

do acampamento. Os sauks ignoravam completamente os sistemas sanitários e o acampamento de inverno fedia. A mudança evidentemente animava os índios e por onde quer

que olhasse, Rob via jovens lutando, apostando corrida ou jogando com bola e bastão, um jogo que ele não conhecia. Usavam bastões pesados com bolsas de couro trançado

nas pontas e uma bola de madeira recoberta com pele de gamo. Correndo a toda velocidade, o jogador atirava a bola de dentro da rede de couro do seu bastão e outro

a apanhava, também na rede. Passando a bola de um para o outro, eles percorriam enormes distâncias. Era um jogo rápido e violento. Quando um jogador carregava a

bola, os outros podiam tentar tirá-la da sua rede, quase sempre acertando os oponentes

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com golpes do bastão e eram comuns os tropeções e as quedas. Percebendo o interesse de Rob, um dos quatro jogadores o chamou e entregou a ele o bastão.



Com largos sorrisos, os outros imediatamente o aceitaram no jogo que, para Rob, parecia mais pancadaria do que esporte. Rob era maior do que a maioria deles e mais

forte. Na primeira oportunidade, um deles, com um rápido movimento do pulso, atirou a bola pesada para Rob. Ele não a apanhou imediatamente e correu para alcançá-la,

vendo-se no meio de uma briga selvagem, com a impressão de que todos os golpes dos bastões o tinham como alvo. Percebeu que não era capaz de controlar o passe longo

da bola. Com admiração por uma habilidade que não possuía, devolveu o bastão ao dono.

Quando comiam coelho cozido na tenda, Makwa-ikwa transmitiu a ele um pedido dos sauks. Durante todo o inverno rigoroso seu povo havia apanhado muitos animais com

suas armadilhas e agora tinham dois fardos de pele da melhor qualidade, visom, raposa, castor e rato almiscarado. Queriam trocar as peles por sementes para seu primeiro

plantio do verão.

Rob ficou surpreso pois pensava que os índios não cultivassem a terra.

- Se levarmos as peles a um comerciante branco, seremos enganados - disse Makwa-ikwa, sem nenhum rancor, como se estivesse falando de coisas comuns.

Assim, certa manhã, Rob J. e Alden Kimball, levando dois burros carregados com as peles e outro sem carga, dirigiram-se para Rock Island. Rob J. negociou habilmente

com o dono do armazém-geral e voltou com cinco sacas de semente de milho - uma saca de milho pequeno, de cultivo mais rápido, duas de milho maior, mais duro, e duas

sacas de sementes de milho de espiga grande e grão macio para farinha - e mais três sacas, uma com sementes de feijão, outra com sementes de abóbora e a última com

moranga. Ele recebeu também três peças de ouro de vinte dólares americanos para prover os sauks de um fundo de reserva para outras coisas que eles pudessem precisar

comprar aos brancos. Alden mal continha sua admiração pela perspicácia do empregado, acreditando que Rob J. havia tratado essa negociação comercial tão complicada

pensando em seu próprio proveito.

Eles pernoitaram em Rock Island. Num bar, após virar dois copos de cerveja, Rob J. escutou as reminiscências fanfarronas de dois caçadores de índios.

- Este lugar todo pertencia aos sauks e aos fox - contou o ramelento dono do bar. - Os sauks se auto-intitulavam ousakies e os fox se chamavam de mesquakies. Juntos

eles possuíam tudo que havia entre o Mississipi, a oeste, o lago Michigan, a leste, o Wisconsin, ao norte, e o rio Illinois, ao sul - cinqüenta milhões de acres

das melhores terras! A maior aldeia deles era a Sauk-e-nuk, uma verdadeira cidade com ruas e praças. Onze mil sauks viviam por lá, cultivando 25.000 acres entre

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o rio Rock e o Mississipi. Bem, não levamos muito tempo para despachar os bastardos vermelhos e pormos aquela terra em atividade!



As histórias eram anedotas de lutas sangrentas com os black hawk e seus guerreiros, nas quais os índios eram sempre demoníacos e os brancos corajosos e nobres. Eram

relatos como os de veteranos das Grandes Cruzadas, a maior parte deslavadas mentiras, sonhos do que poderia ter acontecido se aqueles que as contavam fossem homens

melhores. Rob J. sabia que a maioria dos homens brancos não via o mesmo que ele quando olhava para os índios. Os outros falavam como se os sauks fossem animais selvagens

que tivessem sido merecidamente perseguidos até a fuga, tornando o campo mais seguro para o pessoal verdadeiramente humano. Rob buscara toda a vida a liberdade espiritual

que percebia nos sauks. Era o que ele procurava quando escrevera o panfleto na Escócia, o que ele julgara ver morrer quando Andrew Gerould fora enforcado. Agora

ele descobria o mesmo num punhado de jovens e exóticos peles-vermelhas. Não estava romantizando nada. Reconhecia a indigência do acampamento dos sauks, o atraso

da sua cultura num mundo que tinha passado ao largo deles. Mas tomando lentamente a cerveja, fingindo interesse pelas histórias dos homens embriagados, histórias

de eviscerações, escalpos, de saque e rapina, ele compreendeu que Makwa-ikwa e os sauks eram a melhor coisa que tinha encontrado naquele lugar.

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BOLA E BASTÃO



Rob J. surpreendeu Sarah Bledsoe e o filho como surpreendemos às vezes criaturas selvagens num raro momento de despreocupação. Ele já vira passarinhos aquecendo-se

ao sol com aquele mesmo contentamento, depois de tirar o pó e arrumar as penas. A mulher e o filho estavam sentados no chão, na frente da casa, de olhos fechados.

Sarah não tinha feito nenhuma limpeza nas penas. O cabelo louro e comprido estava embaraçado e sem brilho e o vestido amarrotado que cobria o corpo magro, muito

sujo. A pele era flácida e o rosto pálido e doentio.

Quando Sarah abriu os olhos azuis e encontrou os de Rob, seu rosto refletiu imediatamente surpresa, medo, consternação e raiva e, sem uma palavra, ela pegou o filho

nos braços e entrou em casa. Rob chegou na porta. Estava farto de tentar falar com ela através da madeira.

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- Sra. Bledsoe, por favor, eu quero ajudá-la - disse ele, mas a única resposta foi a respiração um tanto ofegante pelo esforço de pôr a pesada tranca na porta.



Os índios não rebentavam a terra com arados, como faziam os colonos brancos. Eles procuravam as camadas mais finas entre o mato e perfuravam o solo com bastões de

ponta aguda para plantar as sementes. Cobriam as partes mais duras com pilhas de mato e galhos secos, o que fazia com que a raiz da relva apodrecesse dentro de um

ano, abrindo nova área para o plantio na primavera seguinte.

Quando Rob J. visitou o acampamento de verão dos sauks, o milho estava plantado e havia uma expectativa de festa no ar. Makwa-ikwa disse a Rob que, depois do plantio,

eles realizavam a Dança da Garça, o mais alegre festival do seu povo. Começava com uma partida de bola e bastão, da qual todos os homens participavam. Não era preciso

escolher os times, era Metade contra Metade. Os Cabelos Longos tinham uns seis homens a menos do que os Homens Bravos. O índio grande, chamado Chega Cantando, foi

quem selou o destino de Rob J. Ele trocou algumas palavras com Makwa-ikwa e ela, voltando-se para Rob, disse, em inglês.

- Ele convida você para jogar com os Cabelos Longos.

- Ah, bem - respondeu Rob, com um sorriso idiota. Lembrando a habilidade dos índios e sua falta de jeito, jogar era a última coisa que queria fazer. As palavras

de recusa estavam nos seus lábios, mas o homem e a mulher o observavam com interesse, e ele percebeu que o convite tinha um significado mais profundo. Assim, ao

invés de recusar, como qualquer homem sensato faria, ele agradeceu delicadamente e disse que teria prazer em jogar com os Cabelos Longos.

Com seu inglês impecável de aluna de colégio - tão interessante de ouvir - ela explicou que a competição começaria no acampamento de verão. Ganharia a Metade que

conseguisse pôr a bola numa pequena caverna, na outra margem, uns nove quilômetros rio abaixo.

- Nove quilômetros! - Ficou mais admirado quando soube que não havia nenhuma linha demarcadora. Makwa-ikwa procurou explicar que o homem que fugisse para o lado,

a fim de evitar seus oponentes, não era bem visto.

Para Rob era uma competição completamente estranha, um jogo de outro povo, a manifestação de uma cultura selvagem. Então por que tinha aceitado? Fez essa pergunta

a si mesmo centenas de vezes naquela noite, passada no hedonoso-te de Chega Cantando, porque o jogo ia começar logo depois do nascer do dia. A cabana tinha uns quinze

metros de comprimento e seis de largura, construída de galhos entrelaçados e coberta, no lado de fora, por camadas de casca de álamo. Não havia janelas e as entradas,

nas duas extremidades, eram fechadas com peles

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de búfalo, mas o ar circulava livremente. Tinha oito compartimentos, quatro de cada lado do corredor central. Chega Cantando e a mulher, Lua, dormiam num deles,



os pais de Lua em outro e um terceiro era ocupado pelos dois filhos do casal. Os outros compartimentos serviam de depósito, e foi num deles que Rob passou a noite

insone, contemplando as estrelas através da abertura para saída da fumaça, no teto, e ouvindo os suspiros, os pesadelos, os gases expelidos e, em várias ocasiões,

o que só poderia ser o som de um vigoroso e entusiasmado ato de amor, embora seu anfitrião não tivesse cantado nem uma nota, nem mesmo cantarolado.

De manhã, depois da canjica na qual, felizmente, só conseguiu identificar as bolas de cinza, Rob J. submeteu-se a uma honra duvidosa. Nem todos os Cabelos Longos

tinham cabelos compridos. Os times diferenciavam-se pela cor da tinta usada. Os Cabelos Longos usavam uma pintura negra, uma mistura de gordura animal e carvão.

Os Homens Bravos estavam pintados com argila branca. Por todo o acampamento, os homens mergulhavam os dedos nas tigelas de tinta e decoravam a pele. Chega Cantando

aplicou a tinta negra no rosto, no peito e nos braços. Então, passou a mistura para Rob.

Por que não? perguntou ele a si mesmo, retirando a tinta da tigela com as pontas de dois dedos, como se estivesse comendo mingau de aveia com uma colher. Passou

a mistura áspera na testa e no rosto. Tirou a camisa e deixou-a cair no chão, uma borboleta-macho nervosa saindo da crisálida, e pintou o peito. Chega Cantando olhou

para os pesados sapatos escoceses de Rob e desapareceu. Voltou logo depois, com um par de sapatos de pele de gamo, igual aos de todos os sauks, mas embora Rob tivesse

experimentado vários pares, nenhum serviu. Seu pé era muito grande, maior até que o de Chega Cantando. Riram juntos do tamanho dos pés de Rob e o índio grande desistiu,

deixando-o com os sapatos escoceses.

Chega Cantando entregou a Rob um bastão com rede e cabo grosso e forte e fez sinal para que ele o acompanhasse. Os dois times reuniram-se num espaço aberto no meio

das grandes cabanas. Makwaikwa fez um pequeno discurso na sua língua, aparentemente abençoando os competidores, e então, antes que Rob J. tivesse tempo de saber

o que estava acontecendo, ela lançou o braço para trás e atirou a bola, que navegou na direção dos jogadores, numa parábola preguiçosa, que terminou com o estrépito

selvagem das batidas com os bastões e gritos e rosnados de dor. Para desapontamento de Rob J. os Homens Bravos ganharam a bola que foi carregada na rede de um jovem,

com calça comprida e justa, pouco mais que um menino, mas com as pernas musculosas de um adulto. Ele se afastou rapidamente e os outros o seguiram como cães atrás

de uma lebre. Era sem dúvida o momento dos mais velozes, pois a bola foi passada várias vezes de um para outro e logo estava muito longe de Rob.

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Chega Cantando ficou ao lado dele. Algumas vezes eles alcançaram os mais rápidos e o combate atrasava o movimento para a frente. Chega Cantando rosnou satisfeito



quando a bola foi apanhada pela rede de um dos Cabelos Longos, mas não se surpreendeu quando foi recapturada, logo depois, pelos Homens Bravos. Quando os dois times

corriam, acompanhando as árvores na margem do rio, Chega Cantando fez um sinal para Rob e os dois afastaram-se dos outros, na direção da pradaria aberta, seus passos

pesados fazendo subir o orvalho da relva nova, como um enxame de insetos prateados nos seus calcanhares.

Para onde o índio grande o estava levando? Era tarde demais para se preocupar com isso, pois sua confiança já estava empenhada. Concentrou toda a energia para acompanhar

Chega Cantando, que se movimentava muito bem para um homem tão grande. Logo ele compreendeu o objetivo do companheiro; corriam numa linha reta, um caminho muito

mais curto do que o seguido pelos outros, ao longo da margem do rio. Quando Chega Cantando parou finalmente, os pés de Rob J. pesavam como chumbo, ele mal podia

respirar e sentia uma pontada no lado do corpo. Mas tinham chegado antes dos outros.

Na verdade, a maior parte dos homens fora deixada para trás pelos mais velozes. Chega Cantando e Rob J. esperaram, escondidos entre as árvores, procurando recuperar

o ritmo da respiração, e logo apareceram três homens pintados de branco. O que vinha na frente não estava com a bola e carregava o bastão com a rede como quem carrega

uma lança. Estava descalço e com uma calça esfarrapada que já havia sido um dia uma calça marrom de tecido feito em casa. Era menor do que os dois homens escondidos

entre as árvores, mas musculoso e possuía uma enorme cicatriz no lado do rosto, de onde a orelha fora arrancada há muito tempo, conferindo-lhe uma aparência ameaçadora.

Rob J. retesou os músculos, pronto para o ataque, mas Chega Cantando tocou de leve no braço dele, e deixaram o homem passar. A bola estava com o Homem Bravo que

a apanhara primeiro no começo da corrida e que surgiu logo depois do índio sem orelha. Ao lado dele corria um sauk pequeno e entroncado, com uma calça da farda da

cavalaria dos Estados Unidos, cortada na altura dos joelhos, azul, com listras amarelas e sujas de cada lado.

Chega Cantando apontou para Rob e depois para o jovem com a bola e Rob fez um gesto afirmativo. O homem era sua responsabilidade. Sabia que tinham de atacar de surpresa,

porque se aquele Homem Bravo fugisse, ele e Chega Cantando nunca mais o alcançariam.

Assim, atacaram como relâmpago e trovão, e Rob compreendeu a utilidade das tiras de couro amarradas nos seus braços, pois com a rapidez com que um bom pastor segura

um carneiro e amarra suas pernas, Chega Cantando derrubou o homem e amarrou seus pulsos e tornozelos. Foi bem na hora, pois o que ia na frente estava voltando. Rob

foi mais lento no processo de amarrar o jovem com a bola, por isso Chega Cantando partiu sozinho para cima do homem sem orelha. O Homem

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Bravo brandiu o bastão como uma arma, mas Chega Cantando desviou-se do golpe quase com desdém. Duas vezes maior que o oponente e mais decidido, ele o derrubou e




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