Noah Gordon, o xamã



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Eram propriedade do governo. No caminho, Nick explicou que a terra fora dividida pelos topógrafos do governo em lotes de oitenta acres. Os terrenos de propriedade

particular estavam sendo vendidos a oito dólares o acre, ou mais, porém as terras do governo custavam $ 1.25 o acre, um love de oitenta acres, cem dólares. A entrada

era de 1/20 do preço total e 25% deviam ser pagos em quarenta dias. O resto em três prestações iguais, no fim de dois, três e quatro anos da data da compra. Nick

disse que era a melhor terra que se podia encontrar e, quando chegaram ao local, Rob concordou com ele. Os lotes estendiam-se por quase dois quilômetros do rio,

com um faixa de floresta com fontes de água pura e madeira para construção. Além dos bosques ficava a promessa fértil da terra virgem.

- Este é o meu conselho - disse Holden. - Eu não consideraria esta terra como quatro lotes de oitenta acres, mas como dois lotes de cento e sessenta acres. Atualmente,

o governo está permitindo a compra de duas partes e era o que eu faria, se fosse você.

Rob J. fez uma careta e balançou a cabeça.

- É uma bela terra. Mas não tenho os cinqüenta dólares necessários. Nick Holden olhou pensativamente para ele.

- Meu futuro depende do futuro desta cidade. Se eu puder atrair compradores, terei meu armazém, o moinho, a estalagem. Os colonos preferem um lugar que tenha médico.

Para mim, você significa dinheiro em caixa. Os bancos estão emprestando dinheiro com juros de 2,5% ao ano. Eu empresto os cinqüenta dólares a 1,5%, para serem pagos

em oito anos.

Rob J. olhou em volta e conteve a respiração. Era uma bela terra. Exatamente o que ele queria e teve de controlar a emoção quando aceitou a oferta. Nick apertou

a mão dele calorosamente e não quis ouvir falar em gratidão.

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- é Apenas um bom negócio.



Cavalgaram lentamente pela propriedade. Na extremidade sul a terra era quase completamente plana. A parte norte tinha várias elevações médias, quase pequenas montanhas.

- Eu ficaria com a parte sul - disse Holden. - O solo é melhor e mais fácil para cultivar.

Mas Rob J. já tinha resolvido comprar a parte norte.

- Deixo a maior parte com a relva para criar ovelhas. É o tipo de agricultura que eu conheço. Mas sei de uma pessoa que quer plantar e vai querer a parte sul.

Ele falou sobre Jason Geiger e o advogado sorriu satisfeito.

- Uma farmácia em Holden’s Crossing? É leite no mel. Vou fazer um depósito para reservar a parte sul para Geiger. Se ele desistir, não vai ser difícil vender uma

terra tão boa.

Na manhã seguinte, eles foram a Rock Island e quando saíram do Departamento de Terras dos Estados Unidos, Rob J. era proprietário de terra e devedor de um empréstimo.

Naquela tarde ele foi ver a propriedade sozinho. Amarrou Monica e explorou a pé o bosque e o prado, estudando e planejando. Como um sonho, caminhou pela margem do

rio, atirando pedras na água, sem acreditar que era dono de tudo aquilo. Na Escócia era muito difícil comprar terra. A fazenda de criação de ovelhas pertencia à

sua família há muitos séculos, passando de geração para geração.

À noite escreveu para Jason Geiger, descrevendo os 160 acres reservados para ele ao lado da sua propriedade, pedindo uma confirmação imediata da sua concordância

em assumir a posse da terra. Pediu também a Geiger que enviasse um grande suprimento de enxofre, porque Nick, embora com relutância, tinha dito que, na primavera,

havia sempre surtos do que o povo chamava de sarna de Illinois, que só cedia com grandes doses de enxofre.

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O DESPERTAR



Correu logo a notícia de que havia um médico no lugar. Três dias depois de chegar em Holden’s Crossing, Rob J. cavalgou vinte e cinco quilómetros para atender seu

primeiro paciente e depois disso não parou de trabalhar. Ao contrário dos colonos do sul e do centro de Illinois, vindos

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em sua maioria dos estados do sul, os fazendeiros do norte vinham dos estados de Nova York e da Nova Inglaterra. Mais chegavam a cada mês, a pé, a cavalo, em carroças



cobertas, às vezes trazendo uma vaca, alguns porcos ou ovelhas. Sua clientela ia cobrir uma vasta extensão de território - a pradaria entre os grandes rios, cruzada

por pequenos regatos, pontilhada de bosques e marcada por profundos pântanos lamacentos. Dos pacientes que iam a ele, Rob J. cobrava setenta e cinco centavos a consulta.

A domicílio, cobrava um dólar e quando a visita era à noite, um dólar e meio. Passava grande parte do dia a cavalo. Pois naquela vasta região, as casas eram muito

distanciadas umas das outras. Muitas vezes, quando chegava a noite, estava tão cansado que tudo que podia fazer era deitar no chão e dormir.

Rob J. disse a Holden que poderia pagar parte da sua dívida no fim do mês, mas Nick sorriu e balançou a cabeça.

- Não tenha pressa. Na verdade, acho melhor eu emprestar um pouco mais. Os invernos são rigorosos e vai precisar de um cavalo mais forte. Além disso, com todo esse

trabalho, você não tem tempo para construir sua casa antes da primeira neve. Vou procurar alguém para fazer isso, por um bom preço.

Nick encontrou um construtor de cabanas de madeira chamado Alden Kimball, um homem ativo e magro como um espeto, com dentes amarelos por causa do cachimbo de sabugo

de milho que não tirava da boca. Possuía uma fazenda em Hubbardton, Vermont, e recentemente havia abandonado a comunidade mórmon da cidade de Nauvoo, Illinois, cujos

habitantes eram chamados de Santos dos Últimos Dias e os homens podiam ter tantas mulheres quantas quisessem. Quando Rob J. o conheceu, Kimball disse que tivera

um desentendimento com os chefes da igreja e simplesmente foi embora. Rob J. não tinha intenção de fazer muitas perguntas. Para ele bastava o fato de Kimball usar

o machado e o enxó como se fossem partes do seu corpo. Ele derrubava árvores e desgalhava os troncos e aplainava os dois lados, no lugar em que tinham caído, e certo

dia Rob alugou um boi de um fazendeiro chamado Grueber. Rob sabia que Grueber não teria confiado o animal a ele se Kimball não estivesse por perto. O santo apóstata,

pacientemente, conseguiu que o boi o obedecesse e juntos, homem e animal, num único dia levaram os troncos de árvore até o local escolhido por Rob para fazer sua

casa, na margem do rio. Quando Kimball preparava os alicerces, unindo os troncos com pregos de madeira, Rob viu que o tronco maior, que serviria de apoio à parede

do lado norte, era torto, mais ou menos a um terço da extremidade, e chamou a atenção de Kimball para o fato.

- Vai dar certo - disse Kimball e Rob foi embora, deixando-o com seu trabalho.

Em outra visita, alguns dias mais tarde, Rob encontrou as paredes já erguidas. Alden tinha calafetado os troncos com argila de um determinado lugar na margem do

rio e estava pintando as linhas brancas do

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revestimento. No lado norte, todos os troncos entortavam a uma certa altura, quase exatamente como o tronco de apoio, o que dava uma leve curvatura à parede. Alden



devia ter levado muito tempo procurando troncos de árvores com o mesmo defeito e em dois deles a curva fora feita com a ajuda do enxó.

Foi Alden quem falou sobre o cavalo quarto-de-milha que Grueber queria vender. Quando Rob J. confessou que não entendia muito de cavalos, Kimball deu de ombros.

- Quatro anos, ainda crescendo e engordando. Boa saúde, nada de errado com o animal.

Assim, Rob comprou a égua quarto-de-milha. Era o que Grueber chamava de baio cor-de-sangue, mais vermelho do que marrom, com pernas, crina e cauda negras e manchas

negras na testa, quinze palmos de altura, com um corpo forte e um olhar inteligente. Por que as sardas na testa o faziam lembrar de uma moça que conhecera em Boston,

deu à égua o nome de Margaret Holland, ou Meg, para abreviar.

Certamente Alden tinha bom olho para animais e certa manhã Rob perguntou se ele gostaria de ficar trabalhando para ele quando acabasse a construção da casa.

- Bem, que tipo de fazenda vai ser a sua?

- Criação de ovelhas. Alden fez uma careta.

- Não sei nada sobre ovelhas. Sempre trabalhei bem com vacas leiteiras.

- Eu fui criado numa fazenda de ovelhas - disse Rob. - Não é difícil cuidar delas. Gostam de andar em rebanho, podem ser facilmente guardadas no pasto por um homem

e um cão. Quanto aos outros serviços, castrar, tosquiar e coisas assim, eu posso ensinar.

Alden fingiu que estava pensando no assunto, mas só por delicadeza.

- Para falar a verdade, não gosto muito de ovelhas. Não - disse, finalmente. - Eu agradeço muito, mas acho que não. - Talvez para mudar de assunto, perguntou o que

Rob pretendia fazer com a velha égua. Monica Grenville o tinha levado para o oeste, mas agora era um animal cansado. - Acho que não vai conseguir muita coisa por

ela se não a tratar bem. Tem muito pasto no prado, mas vai ter de comprar feno para alimentar os animais no inverno.

O problema foi resolvido alguns dias depois, quando um fazendeiro em má situação financeira pagou um parto com uma carroça de feno. Depois de estudar o caso, Alden

concordou em fazer, no lado sul da casa, um estábulo aberto para os cavalos, um telhado sobre postes de madeira. Terminou a construção em dois dias. Nick apareceu

para ver como iam os trabalhos. Olhou para o estábulo aberto e com um largo sorriso, sem olhar para Alden, disse.

- Tem de admitir que é uma construção bem esquisita. - Olhou para a parede do lado norte e ergueu a sobrancelha. - Aquela maldita parede está torta.

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Rob J. passou as pontas dos dedos na curva de um dos troncos.



- Não, foi construída assim de propósito, é assim que nós gostamos. Isso a fez diferente de todas as outras que se vê por aí.

Alden trabalhou em silêncio durante uma hora, depois que Nick foi embora, então, parou de martelar os pregos de madeira e foi até onde Rob estava escovando Meg.

Bateu o forno do cachimbo no calcanhar.

- Acho que posso aprender a criar ovelhas.

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O RECLUSO



Rob resolveu começar seu rebanho com merinos espanhóis por causa da lã boa e curta e pelo fato de poder cruzá-los com uma raça inglesa de lã longa, como sua família

tinha feito na Escócia. Disse a Alden que só compraria os animais na primavera, para economizar a despesa e o esforço de mantê-los durante o inverno. Enquanto isso,

Alden preparou uma pilha de mourões de cerca, construiu dois celeiros fechados e uma cabana no bosque para morar. Felizmente ele não precisava de supervisão porque

Rob J. estava sempre ocupado. Os moradores da região tinham passado muito tempo sem assistência médica e ele procurou corrigir os efeitos da falta de cuidado e dos

remédios caseiros. Atendia pacientes com gota, câncer, hidropisia e escrófula e muitas crianças com vermes, além de pessoas de todas as idades com consumpção. Estava

cansado de extrair dentes. Para ele, extrair dentes era o mesmo que fazer uma amputação, pois detestava tirar uma coisa que nunca mais poderia repor.

- Espere até a primavera. É quando todo mundo apanhava uma febre ou outra. Vai ficar rico - disse Nick Holden, com um largo sorriso.

Rob percorria trilhas remotas, quase inexistentes, para atender chamados. Nick ofereceu um revólver emprestado, até ele poder comprar um.

- Viajar é perigoso, há bandidos como piratas de terra e agora esses malditos hostis.

- Hostis?

- índios.

- Alguém os viu?

Nick franziu a testa. Foram vistos muitas vezes, disse ele, mas admitiu, embora a contragosto, que nunca fizeram mal a ninguém.

- Por enquanto - acrescentou sombriamente.

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Rob J. não comprou uma arma, nem usava a de Nick. Sentia-se seguro com o novo cavalo. Meg era muito resistente e ele gostava da firmeza do seu passo quando subia



e descia as margens íngremes dos rios e atravessava regatos. Ele a ensinou a aceitar ser montada de qualquer lado e a trotar quando ele assobiava. Quartos-de-milha

eram usados para reunir o gado e ela aprendera com Grueber a andar, parar e dar meiavolta imediatamente, respondendo à menor mudança do peso de Rob na sela ou a

um pequeno movimento das rédeas.

Certo dia em outubro, foi chamado à fazenda de Gustav Schroeder, que tinha amassado dois dedos entre duas rochas pesadas. Rob se perdeu e parou para pedir informação

num barraco miserável perto de um campo muito bem cuidado. A porta se abriu muito pouco, mas o suficiente para ele sentir o fedor de excreções de um velho corpo,

ar viciado, podridão. No rosto que espiou pela fresta, ele viu olhos vermelhos e inchados e cabelos sujos e despenteados de bruxa.

- Vá embora - ordenou uma rouca voz feminina. Uma coisa do tamanho de um filhote de cão passou correndo e se escondeu atrás da porta. Não podia ser uma criança,

não naquele lugar. A porta foi fechada com uma batida violenta.

Os campos cultivados pertenciam a Schroeder. Quando chegou à fazenda, Rob teve de amputar o dedo mínimo e a primeira falange do médio, uma verdadeira agonia para

o paciente. Quando terminou, perguntou à mulher de Schroeder quem era a mulher do barraco e Alma Schroeder disse, visivelmente envergonhada.

- É só a pobre Sarah.

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O ÍNDIO GRANDE



As noites eram agora geladas e claras como cristal, com estrelas enormes. Então, durante uma semana o céu ficou mais baixo. A neve chegou, bela e terrível, muito

antes do fim de novembro, seguida pelo vento que estendeu o branco e espesso lençol, e os montes de neve que desafiavam mas não conseguiam deter a égua. Foi quando

verificou a coragem e determinação com que o animal enfrentava a neve que Rob começou a amá-lo.

O frio cortante dominou a planície durante todo o mês de dezembro e parte de janeiro. Voltando para casa, de madrugada, depois de passar

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a noite numa casa de barro enfumaçada com cinco crianças, três delas com crupe, Rob encontrou dois índios numa situação muito difícil. Eram os mesmos que tinham



parado para ouvir sua música perto da casa de Nick Holden. As carcaças de três lebres da neve provavam que estiveram caçando. Um dos seus pôneis tinha tropeçado

e quebrado a perna da frente, caindo sobre o cavaleiro, o sauk com nariz grande e curvo. O seu companheiro matou o animal imediatamente a abriu sua barriga, conseguindo

livrar o homem ferido e colocando-o dentro da carcaça para evitar que morresse congelado.

- Eu sou médico. Talvez possa ajudar.

Eles não entendiam inglês, mas o índio maior não fez nenhum gesto para evitar que ele examinasse o homem ferido. Assim que Rob se abaixou ao lado da carcaça quente,

percebeu que era um caso de deslocamento do quadril direito e que o homem estava sentindo muita dor. O pé dependurado, como se estivesse separado da perna, indicava

lesão do nervo ciático e quando Rob tirou-lhe o sapato de pele e espetou a sola com a ponta da faca, o índio não conseguiu mover os dedos. Os músculos protetores

estavam tensos e imobilizados por causa da dor e do frio e não era possível corrigir-lhe o quadril naquele lugar.

O outro índio montou no seu pônei e cavalgou na direção do bosque, talvez para trazer socorro. Rob vestia um casaco de pele de carneiro, roído por traças, ganho

de um lenhador num jogo de pôquer no inverno anterior. Cobriu com ele o índio ferido. Depois, tirou da maleta algumas ataduras e amarrou com elas as pernas do homem,

para imobilizar o quadril. O índio grande voltou então arrastando dois galhos de árvore fortes, mas flexíveis. Amarrou as extremidades dos galhos nas laterais do

seu cavalo, como varais traseiros, e prendeu entre os dois uma pele, formando uma maça, onde deitaram o homem ferido. Não foi uma viagem fácil, mas era melhor arrastar-se

pela neve do que pelo chão duro. Rob acompanhou a maça sob uma leve chuva de granizo. Cavalgaram seguindo a borda da floresta que acompanhava o rio. Finalmente,

o índio entrou numa trilha entre as árvores e chegaram ao acampamento dos sauks.

As barracas cónicas e pontudas - quando Rob teve oportunidade de contar, verificou que eram dezessete - erguiam-se entre as árvores, protegidas do vento. Os sauks

possuíam bons agasalhos. Por toda a parte viam-se os sinais da reserva, pois vestiam roupas que tinham sido usadas por brancos bem como peles de animais, e havia

caixas antigas de munição do exército em várias tendas. Tinham muita lenha seca empilhada e fumaça cinzenta saía pelas aberturas superiores das barracas cônicas.

Mas Rob percebeu a avidez com que as mãos se estenderam para as três lebres magras caçadas pelos dois índios, bem como as faces encovadas, pois conhecia os sinais

da fome nos seres humanos.

O homem ferido foi levado para uma das barracas e Rob o acompanhou.

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- Alguém fala inglês?



- Eu falo a sua língua. - Era difícil determinar a idade de quem respondeu, pois estava envolto, como todos os outros, numa porção de peles informes, com a cabeça

coberta por um capuz de peles de esquilos cinzentos costuradas, mas a voz era de mulher.

- Eu sei como curar este homem. Sou médico. Sabe o que é um

médico?


- Eu sei. - Os olhos castanhos da mulher exibiam tranqüilidade.

Ela falou alguma coisa na própria língua e os outros, na barraca, esperaram, olhando para ele.

Rob J. reforçou o fogo com algumas achas secas da pilha de lenha.” Tirou a roupa do índio e verificou que o quadril estava virado para dentro. Ergueu os joelhos

do homem até dobrá-los completamente e então, usando a mulher como intérprete, mandou que segurassem o paciente com mãos firmes. Abaixando-se, pôs o ombro direito

debaixo do joelho do lado lesado. Então ergueu o corpo num gesto com toda a força e ouviuse um estalido, a cabeça do fémur encaixou no osso do quadril.

O índio ficou imóvel, como se estivesse morto. Durante todo o processo mal deixara escapar alguns fracos gemidos e Rob J. achou que merecia um gole de uísque com

láudano. Mas a bebida e o medicamento estavam na maleta em sua sela, e antes que tivesse tempo de apanhá-los, a mulher pôs água numa cabaça, dissolveu nela o pó

tirado de um saquinho de couro e deu a mistura para o ferido que a tomou avidamente. Então, apoiou as mãos, uma de cada lado do quadril do homem e, olhando nos olhos

dele, disse alguma coisa na sua língua com voz cantada. Rob sentiu um arrepio na espinha. Compreendeu que ela era a curandeira da tribo. Ou, talvez, uma espécie

de sacerdotisa.

Naquele momento, a noite em claro e a luta contra a neve das últimas vinte quatro horas fizeram-se sentir e num atordoamento de cansaço ele saiu do tipi escuro para

o grupo de sauks que, com as roupas cobertas de neve, esperavam do lado de fora. Um velho com olhos reme-

lentos tocou nele, curioso.

- Cawso wabeskiou! - disse ele, e os outros repetiram, Cawso wa-

beskiou, Cawso wabeskiou.

A médica-sacerdotisa saiu do tipi. O vento afastou o capuz do seu

rosto e Rob viu que ela não era velha.

- O que eles estão dizendo? - perguntou.

- Eles chamam você de Xamã Branco - disse ela.

A curandeira disse que, por razões que Rob compreendeu imediatamente, o nome do homem ferido era Waucau-che, Nariz de Águia. O nome do índio grande era Pyawanegawa,

Chega Cantando. De volta à sua cabana, Rob encontrou Chega Cantando e outros sauks que tinham saído apressadamente para chegar à carcaça do pónei antes dos lobos.

Conduziam

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dois póneis que carregavam os pedaços de carne. Passaram por ele em fila indiana, como se estivessem passando por uma árvore.



Quando chegou em casa, Rob escreveu no seu diário e tentou desenhar a mulher índia, porém, por mais que tentasse, tudo o que conseguiu foi um rosto que podia ser

de qualquer índio, de qualquer sexo, e marcado pela fome. Precisava dormir, mas o colchão de palha não parecia convidativo. Sabia que Gus Schroeder tinha espigas

de milho secas para vender e Alden dissera que Paul Grueber tinha algum grão sobrando. Naquela tarde, montado em Meg e puxando Monica, ele voltou para o acampamento

dos sauks e deixou dois sacos de milho, um de nabo sueco e outro de trigo.

A curandeira não agradeceu. Apenas olhou para as sacas de mantimento, deu algumas ordens e mãos ansiosas as tiraram imediatamente do frio e da neve, levando-as para

dentro dos tipis. O vento mais uma vez abriu o capuz. Era uma legítima pele-vermelha. Sua pele era de um marrom-avermelhado, o nariz curvo, as narinas quase negróides.

Os olhos castanhos eram enormes e o olhar direto. Rob perguntou como se chamava e ela disse Makwa-ikwa.

- O que significa, na minha língua?

- Mulher Urso - respondeu ela.

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ATRAVESSANDO O INVERNO



Os tocos dos dedos amputados de Gus Schroeder cicatrizaram sem infecção. Rob J. o visitou talvez com excessiva freqüência porque estava intrigado com a mulher no

barraco. Alma Schroeder a princípio não deu nenhuma informação, mas quando compreendeu que Rob J. queria ajudar, de forma maternal contou-lhe tudo sobre a jovem

mulher. Sarah era uma viúva de vinte e dois anos que havia chegado a Illinois, proveniente da Virgínia, há cinco anos, em companhia do jovem marido, Alexander Bledsoe.

Durante dois anos, na primavera, Bledsoe preparou o solo coberto de relva com raízes profundas, trabalhando com o arado e uma parelha de bois para arar a maior parte

possível antes que a relva do prado crescesse acima da sua cabeça. Em maio do seu segundo ano no oeste, ele apanhou a sarna de Illinois, seguida por uma febre que

o matou. - Na primavera seguinte, ela tenta arar e plantar, sózinha - disse Alma. - Compra semente de kleine, limpa mais uma área de terra, mas

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não consegue. Não pode cultivar nada. Naquele verão nós viemos de Ohio, Gus e eu. Fizemos, como vocês chamam? Um acordo? Ela entrega os campos para Gustav, nós



damos a ela farinha de milho e vegetais. Lenha para o fogo.

- Que idade tem a criança?

- Dois anos - disse Alma Schroeder. - Ela nunca diz nada, mas achamos que o pai é Will Mosby. Will e Frank Mosby viviam por aqui. Will costumava passar muito tempo

com ela. Ficamos satisfeitos. Neste lugar, a mulher precisa de um homem. - Alma suspirou com desprezo. - Aqueles irmãos. Nada bons, nada bons. Frank Mosby está fugindo

da lei. Will foi morto numa briga de bar, um pouco depois da criança nascer. Uns dois meses. Sarah fica doente.

- Não teve muita sorte.

- Nenhuma sorte. Está muito doente, diz que está morrendo de câncer. Tem dor na barriga, tão forte que não pode... você sabe... controlar a água.

- Perdeu o controle dos intestinos também?

Alma Schroeder corou. Um bebê ilegítimo era apenas um dos fatos da vida, mas não estava acostumada a falar sobre as funções do corpo com nenhum homem a não ser Gus,

nem mesmo um médico.

- Não. Só a água... Ela quer que eu fique com o menino quando ela morrer. Já estamos alimentando cinco... - Olhou para ele, desafiadoramente. - Você tem algum remédio

para a dor dela?

O doente de câncer podia escolher entre o uísque e o ópio. Não havia nada que pudesse tomar e ao mesmo tempo cuidar do filho. Mas, quando saiu da casa dos Schroeder,

Rob J. parou no barraco, fechado e aparentemente vazio.

- Sra. Bledsoe - chamou ele, batendo na porta. Nada.

- Sra. Bledsoe. Sou Rob J. Cole. Sou médico. - Bateu outra vez.

- Vá embora!

- Eu disse que sou médico. Talvez possa fazer alguma coisa.

- Vá embora. Vá embora. Vá embora.




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