Noah Gordon, o xamã



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- Você é xamã?

- Não - disse Sonâmbulo, olhando para ele. - Você conhece os testes de conhecimento?

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- Makwa me falou das sete tendas.

- Sim, sete. Para algumas coisas, estou na quarta Tenda. Para muitas outras, estou na primeira.

- Vai ser xamã algum dia?

- Quem vai me ensinar? Wabokieshiek está morto. Makwa está morta. As tribos estão espalhadas, o Mide’wiwin não existe mais. Quando eu era jovem e sabia que queria

ser um guardião dos espíritos, ouvi falar de um velho sauk, quase um xamã, no Missouri. Eu o encontrei, passei dois anos lá. Mas ele morreu da febre pintada, cedo

demais. Agora, procuro os velhos, para aprender com eles, mas são poucos, e em geral não sabem. Nossos filhos aprendem o inglês da reserva e as Sete Tendas da Sabedoria

desapareceram.

Ele estava dizendo que não havia escolas de medicina para mandar cartas pedindo matrícula, pensou Xamã. Os sauks e mesquakies eram o resto, roubado da sua religião,

da sua medicina, do seu passado.

Xamã teve a visão horrível de uma horda de seres verdes descendo sobre a raça branca da terra e deixando só uns poucos sobreviventes apavorados, sem nada além de

vagas lembranças de uma antiga civilização e os fracos ecos de Hipócrates e Galeno, Aviceno e Jeová e Apoio e Jesus.

Era como se toda a aldeia soubesse imediatamente do nascimento. Não era um povo dado a demonstrações, mas Xamã sentia a aprovação andando no meio deles. Charles

Keyser disse que o caso de Esquilo Voador era igual ao que tinha matado sua mulher no ano anterior.

- O médico não chegou a tempo. A única mulher presente era minha mãe e ela não sabia mais do que eu.

- Não devia se culpar por isso. Às vezes não podemos salvar uma pessoa. A criança morreu também?

Keyser fez que sim com a cabeça.

- Você tem outros filhos?

- Dois meninos e uma menina.

Xamã pensou que um dos motivos que levava Keyser a Tama era a procura de uma mulher. Ao que parecia os índios de Tama o conheciam e gostavam dele. Todos o cumprimentavam,

chamando-o de Charlie Fazendeiro.

- Por que eles o chamam assim? Não são fazendeiros também? Keyser sorriu.

- Não como eu. Meu pai me deixou quarenta acres do solo mais negro de lowa. Eu cultivo dezoito acres e planto quase todo com trigo do inverno. Quando cheguei aqui,

tentei ensinar a eles como deviam plantar. Levei algum tempo para compreender que eles não querem uma fazenda igual à dos brancos. O homem que vendeu estas terras

deve ter pensado que estava enganando os índios, porque o solo é pobre. Mas eles empilham mato e arbustos e lixo em pequenas áreas e deixam

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apodrecer, às vezes durante anos. Então eles plantam as sementes, usando varetas ao invés de arados. Essas pequenas áreas produzem muito alimento. A terra está cheia



de caça e o rio lowa tem muito peixe bom.

- Eles levam realmente a vida dos velhos tempos que vieram procurar - disse Xamã.

- Sonâmbulo diz que pediu a você para fazer mais um pouco de medicina. Terei prazer em ajudar, Dr. Cole.

Xamã já tinha a ajuda de Sonâmbulo e de Rachel. Mas lembrou que, embora Keyser parecesse igual aos outros habitantes de Tama, ele não estava completamente à vontade

e talvez precisasse da companhia de alguém de fora. Então ele disse ao fazendeiro que agradeceria muito sua ajuda.

Os quatro formavam uma estranha e pequena caravana, que ia de casa em casa, mas logo ficou comprovado que se completavam perfeitamente. O curandeiro os convencia

a aceitá-los e cantava suas preces. Rachel levava um saco com doces e era especialista em conquistar a confiança das crianças, e as mãos grandes de Charlie Keyser

tinham a força e a delicadeza para segurar o paciente quando era preciso.

Xamã extraiu uma porção de dentes podres e os pacientes, cuspindo filetes de sangue, sorriam porque estavam livres, de repente, da fonte de uma dor atroz.

Ele lancetou furúnculos, removeu um dedo do pé, negro e infeccionado, e Rachel ouvia os ruídos dos peitos no estetoscópio. Para alguns ele deu xaropes, mas outros

estavam com consumpção e era obrigado a dizer a Sonâmbulo que não podia fazer nada por eles. Viram também uma meia dúzia de homens e algumas mulheres completamente

alcoolizados e Sonâmbulo disse que muitos outros estariam também embriagados se pudessem arranjar uísque.

Xamã sabia que era muito maior o número de peles-vermelhas dizimados pelas doenças dos brancos do que por suas balas. A varíola, especialmente, exterminara as tribos

das planícies e das florestas, por isso tinha levado para Tama uma caixa de madeira cheia de cascas de varíola bovina.

Sonâmbulo ficou muito interessado quando Xamã disse que tinha um remédio para evitar a varíola. Mas Xamã fez questão de explicar detalhadamente o que precisava ser

feito. Ele arranhava o braço da pessoa e inseria pedacinhos da casca da varíola bovina no arranhão. Formavase uma bolha vermelha do tamanho de uma ervilha, que coçava

muito. Transformava-se então numa ferida cinzenta que parecia um umbigo, com um círculo vermelho em volta, duro e quente. Depois da inoculação, a pessoa ficava três

dias doente com varíola bovina, uma forma muito mais branda e benigna da doença mortal. Podiam ter dor de cabeça e febre. Depois dessa breve doença, a ferida ficava

maior e mais escura e secava,

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até a casca cair, mais ou menos no vigésimo primeiro dia, deixando uma cicatriz rosada e funda.

Xamã mandou Sonâmbulo explicar isso ao seu povo e verificar se queriam o tratamento. O curandeiro não demorou a voltar. Todos queriam se proteger contra a varíola,

disse ele, e então eles lançaram-se ao trabalho de inocular toda a comunidade.

Sonâmbulo se encarregou de controlar a fila e certificar-se de que eles sabiam o que ia ser feito. Rachel sentou num tronco de árvore e com dois bisturis raspava

as cascas da varíola bovina. Quando o paciente chegava a Xamã, Charlie Keyser erguia a mão esquerda dele, expondo a parte interna do braço, o lugar menos sujeito

a batidas. Xamã usava um bisturi pontudo para fazer incisões rasas na pele e depois aplicava os pedacinhos do material nos cortes.

Não era complicado, mas tinha de ser feito com cuidado e a fila se movia lentamente. Quando o sol começou a descer para o horizonte, Xamã parou. Faltava um quarto

do povo de Tama para ser inoculado, mas ele disse que o consultório do médico estava fechado e só ia abrir na manhã seguinte.

Sonâmbulo, com o instinto de um bem-sucedido pregador batista, naquela noite reuniu o povo para homenagear os honrados visitantes. Acenderam uma fogueira na clareira

e todos sentaram em volta, no chão.

Xamã sentou-se à direita de Sonâmbulo. Cão Pequeno entre Xamã e Rachel, para servir de intérprete. Xamã viu Charlie ao lado de uma mulher pequena e sorridente e

Cão Pequeno informou que ela era viúva e tinha dois filhos pequenos.

Sonâmbulo pediu ao Dr. Cole para falar sobre a mulher que tinha sido xamã do seu povo, Makwa-ikwa.

Xamã tinha certeza de que todos sabiam muito mais do que ele sobre o massacre de Bad Ax. O que aconteceu no lugar em que o Bad Ax encontra o Mississipi devia ter

sido contado em volta de milhares de fogueiras e continuava a ser contado. Mas ele contou que, entre os que foram mortos pelos Facas Longas, estava um homem chamado

Búfalo Verde, cujo nome Sonâmbulo traduziu para Ashtibugwa-gupichee, e uma mulher chamada União-de-Rios, Matapya. Ele contou como a filha de dez anos, Nishwri Kekawi,

Dois Céus, levou o irmãozinho para longe do fogo dos rifles e dos canhões do exército dos Estados Unidos e desceu o rio Masesibowi a nado, segurando o irmão com

os dentes para que ele não se afogasse.

Xamã contou como a menina Dois Céus encontrou a irmã Mulher Alta e como as três crianças se esconderam entre os arbustos como lebres até serem descobertas pelos

soldados. E como um soldado tinha levado embora o bebê, com o sangue escorrendo da nuca, ferido pelos dentes de Dois Céus, e elas nunca mais o viram.

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E ele contou que as duas meninas sauks foram levadas para uma escola cristã no Wisconsin e que um missionário engravidou Mulher Alta que foi vista pela última vez



em 1832, quando a levaram para trabalhar na fazenda de brancos além de Fort Crawford. E que a menina chamada Dois Céus tinha fugido da escola e conseguiu chegar

a Prophetstown, onde o xamã Nuvem Branca, Wabokieshiek, a levou para sua tenda e a guiou através das Sete Tendas da Sabedoria e deu a ela um novo nome, Makwa-ikwa,

Mulher Urso.

E que Makwa-ikwa foi a xamã do seu povo até ser violentada e assassinada por três homens brancos, em Illinois, em 1851.

Todos ouviram tristemente, mas ninguém chorou. Estavam acostumados com as histórias de horror sobre as pessoas que amavam.

Passaram um tambor de água de mão em mão até chegar a Sonâmbulo. Não era o tambor de Makwa-ikwa, que tinha desaparecido quando os sauks saíram de Illinois, mas era

parecido. Tinham passado uma vareta junto com o tambor e Sonâmbulo ajoelhou e começou a bater, quatro batidas rápidas de cada vez, e a cantar.

Ne-nye-ma- wa- wa,

Ne-nye-ma-wa-wa,

Ne-nye-ma- wa- wa,

Ke-ta-ko-ko-na-na.

Eu bato quatro vezes,

Eu bato quatro vezes,

Eu bato quatro vezes,

Eu bato nosso tambor quatro vezes.

Xamã olhou em volta e viu que todos estavam cantando com o curandeiro, alguns acompanhando o ritmo com duas cabaças de madeira, uma em cada mão, como ele sacudia

a caixa de charutos cheia de bolas de gude na aula de música, quando era pequeno.

Ke-te-ma-ga-yo-se lye-ya-ya-ni, Ke-te-ma-ga-yo-se lye-ya-ya-ni, Me-to-se-ne-ni-o lye-ya-ya-ni, Ke-te-ma-ga-yo-se lye-ya-ya-ni. Abençoe a todos quando você vier,

Abençoe a todos quando você vier, O povo, quando você vier, Abençoe a todos quando você vier.

Xamã inclinou-se e pôs a mão no tambor de água, logo abaixo da pele esticada. Quando Sonâmbulo batia, era como segurar um trovão. Observou os lábios de Sonâmbulo

e viu com prazer que o canto era agora um que ele conhecia, uma das canções de Makwa, e Xamã cantou com eles.

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...Wi-a-ya-ni

Ni-ma ne-gi-se ke-te-wi-to-se-me-ne ni-na

...Onde quer que você vá

Eu caminho com você, meu filho.

Jogaram outra tora na fogueira e colunas de fagulhas amarelas subiram para o céu escuro. O brilho do fogo aliado ao calor da noite o deixaram um pouco tonto, como

se fosse desmaiar, pronto para ter visões. Olhou para Rachel, preocupado com ela, e pensou que Lillian ficaria furiosa se a visse agora. Com a cabeça descoberta,

o cabelo despenteado, o rosto brilhando de suor e os olhos cintilando de prazer, Rachel nunca parecera mais feminina para Xamã, mais humana, mais desejável. Ela

percebeu que o marido a observava e sorriu, inclinando-se para a frente para falar, porque Cão Pequeno estava entre ela e Xamã. Uma pessoa com audição normal teria

perdido suas palavras entre o canto e as batidas do tambor, mas Xamã leu facilmente os lábios dela. É tão bom quanto ver um búfalo!

Na manhã seguinte, Xamã saiu cedo, sem acordar Rachel e foi tomar banho no rio lowa entre as andorinhas que mergulhavam à procura de alimento e peixinhos minúsculos

dourados e opacos que passavam na água entre seus pés.

O sol tinha nascido há pouco. Crianças chamavam umas às outras na aldeia e mulheres descalças e alguns homens plantavam as pequenas hortas no ar fresco da manhã.

Quase no fim da aldeia Xamã encontrou Sonâmbulo e os dois pararam para conversar tranqüilamente, como um par de fazendeiros que se encontram durante a caminhada

matinal.


Sonâmbulo perguntou sobre o enterro e o túmulo de Makwa. Xamã respondeu, um pouco constrangido.

- Eu era muito pequeno quando ela morreu. Não lembro de muita coisa - disse. Mas pelo que tinha lido no diário, sabia que o túmulo de Makwa fora cavado de manhã

e ela fora enterrada à tarde, na sua melhor manta. Os pés estavam voltados para oeste. A cauda de uma fêmea de búfalo fora enterrada com ela.

Sonâmbulo aprovou. 1

- O que há a dez passos do túmulo? Xamã ficou surpreso.

- Não me lembro. Não sei.

O curandeiro olhava para ele com atenção. O velho em Missouri, o que era quase xamã, tinha ensinado tudo sobre a morte dos xamãs, disse ele. Explicou que onde quer

que um xamã seja enterrado, quatro watawinonas, os espíritos maus, instalam-se dez passos a noroeste do túmulo. Os watawinonas revezam-se para dormir - um deles

está sempre acordado, enquanto os outros dormem. Não podem fazer mal ao xamã,

475 disse Sonâmbulo, mas enquanto estiverem ali, o xamã não pode usar seus poderes para ajudar os vivos que pedem sua ajuda.

Xamã conteve um suspiro. Talvez se tivesse crescido acreditando nessas coisas, teria sido mais tolerante. Mas naquela noite, tinha passado muito tempo acordado,

pensando no que estaria acontecendo com seus pacientes. E agora queria terminar o trabalho em Tama e partir a tempo de acampar na enseada do rio onde tinham acampado

na ida.

- Para expulsar os \vatawinonas - disse Sonâmbulo - você tem de descobrir o lugar onde eles dormem e queimar.



- Sim, vou fazer isso - disse Xamã, com a maior seriedade, e Sonâmbulo ficou aliviado.

Cão Pequeno aproximou-se deles e perguntou se podia tomar o lugar de Charlie Fazendeiro quando recomeçassem a arranhar os braços. Disse que Keyser tinha saído de

Tama na noite anterior, logo depois que

o fogo apagou.

Xamã ficou desapontado por Keyser não ter se despedido. Mas disse a Cão Pequeno que estava bem.

Começaram as inoculações bem cedo. Foi um pouco mais rápido do que na véspera, porque Xamã estava com mais prática. Estavam quase terminando quando uma carroça puxada

por dois baios entrou na clareira. Keyser estava segurando as rédeas e havia três crianças dentro da carroça, olhando com muito interesse para os sauks e os mesquakies.

- Eu agradeceria se você os arranhasse também contra a varíola - disse Charlie e Xamã respondeu que teria o maior prazer.

Quando todos na aldeia e as três crianças estavam inoculados, Charlie ajudou Xamã e Rachel a arrumar sua bagagem.

- Eu gostaria de levar meus filhos para visitar o túmulo da xamã, algum dia - disse ele. Xamã disse que seriam bem-vindos.

Levaram pouco tempo para carregar Ulysses. Receberam um presente do marido de Esquilo Voador, Shemago, a Lança, três garrafões de xarope de bordo que eles receberam

com prazer. Os garrafões estavam amarrados com o mesmo tipo de cipó da cobra de Sonâmbulo. Quando Xamã os arrumou nas costas de Ulysses, parecia que ele e Rachel

partiam para uma grande festa.

Xamã apertou a mão de Sonâmbulo e disse que voltariam na próxima primavera. Depois apertou as mãos de Charlie, Tartaruga Mordedora e Cão Pequeno,

- Agora você é Cawso wabeskiou - disse Cão Pequeno. Cawso wabeskiou, Xamã Branco. Xamã ficou satisfeito porque sabia que Cão Pequeno não estava apenas usando seu

apelido.


Muitos ergueram as mãos, Xamã e Rachel fizeram o mesmo e os três cavalos seguiram a estrada ao longo do rio, para fora de Tama.

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O MADRUGADOR

Durante quatro dias, depois que chegaram em casa, Xamã pagou o preço de todo médico que tira férias. O dispensário estava sempre cheio de pacientes e ele visitava

os que não podiam sair de casa, de tarde e à noitinha, voltando sempre para a casa dos Geiger tarde da noite e exausto.

No quinto dia, um sábado, o número de pacientes diminuiu, até ficar quase normal, e na manhã de domingo ele acordou no quarto de Rachel com a deliciosa certeza de

que podia respirar. Como sempre, Xamã levantou antes de todos, apanhou sua roupa e levou para a sala, onde se vestiu silenciosamente antes de sair de casa.

Caminhou pelo Caminho Longo, parando no bosque onde os homens de Oscar Ericsson tinham limpado o terreno para a construção da nova casa e do celeiro. Infelizmente

não era o lugar que Rachel havia sonhado quando pequena pois os sonhos de menina não levavam em consideração problemas de drenagem. Ericsson, quando inspecionou

o local, balançou a cabeça. Escolheram um local mais apropriado, a cem metros de distância, e Rachel declarou que estava bem perto do seu sonho. Xamã pediu permissão

para comprar o terreno e Jay disse que era presente de casamento. Mas ele e Jay nos últimos dias estavam se tratando com calor e consideração cautelosa e o assunto

tinha de ser resolvido com cuidado.

Quando chegou no terreno do hospital, viu que já tinham quase terminado a escavação do porão. Em volta dela, pilhas de terra criavam uma paisagem de formigueiros

gigantescos. A escavação parecia menor do que ele imaginava, mas Ericsson tinha dito que era sempre assim. Os alicerces seriam de pedra cinzenta de uma pedreira

além de Nauvoo, transportada por chatas pelo Mississipi e de Rock Island por carros de bois, uma perspectiva que preocupava Xamã, mas que o construtor encarava com

tranqüilidade.

Xamã foi até a casa dos Cole que Alex logo ia deixar. Depois, tomou o Caminho Curto, tentando imaginar esse caminho usado apenas por pacientes que fossem à clínica

de barco. Teriam de fazer algumas mudanças. Ele olhou para a tenda do suor que, de repente, parecia fora do lugar. Resolveu fazer um desenho minucioso da posição

de cada pedra e depois construir outra tenda do suor atrás do celeiro, para que

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Joshua e Hattie pudessem saber o que era sentar no calor até não poder mais respirar e depois correr para a água do rio.



Chegou ao túmulo de Makwa e viu que a madeira estava tão rachada e manchada que os sinais cabalísticos não apareciam mais. A inscrição estava preservada num dos

diários de Rob J. e ele resolveu mandar fazer um marco mais permanente e uma espécie de proteção em volta

do túmulo.

O mato começava a invadir a sepultura. Enquanto arrancava o capim do campo que nascia entre os lírios, Xamã surpreendeu-se contando para Makwa que seu povo estava

feliz em Tama.

A fúria gelada que sempre sentia ali, quer viesse dele mesmo ou não, havia desaparecido. Tudo que ele sentia agora era quietude. Mas...

Por algum tempo, Xamã procurou dominar o impulso. Depois, localizou o verdadeiro noroeste e começou a andar contando os passos. Quando chegou no décimo passo, estava

bem no meio das ruínas do hedonoso-te. A casa comprida era agora uma pilha baixa e desigual de toras estreitas e pedaços de casca de árvore embolorados, com pequenas

flores silvestres.

Não fazia sentido, pensou Xamã, arrumar o túmulo, mudar a tenda do suor e deixar aquele feio monte de ruínas. Foi até o celeiro, apanhou uma lata de óleo de lampião

e o derramou sobre as ruínas. A madeira estava molhada de orvalho, mas a chama do fósforo a acendeu na primeira tentativa e as chamas se ergueram rapidamente.

Em questão de segundos, todo o hedonoso-te estava sendo consumido por chamas azuis e amarelas, e uma coluna de fumaça cinzenta se erguia em linha reta para o céu,

depois era desmanchada pela brisa e levada para o rio.

Uma erupção de fumaça negra com cheiro acre estalou como uma bolha e o primeiro demônio, o que estava acordado, subiu e desapareceu. Xamã imaginou um berro furioso

e demoníaco, um grito sibilante. Uma a uma as outras três criaturas do mal, acordadas tão rudemente, voaram como aves de rapina, abanando um banquete de carne deliciosa,

watawinonas voando para outro lugar nas asas da fúria.

Xamã teve a impressão de ouvir um suspiro que vinha do túmulo. Ficou bem perto, sentindo o calor do fogo, como numa festa dos sauks e imaginou como seria aquele

lugar quando Rob J. Cole o viu pela primeira vez, a pradaria intocada estendendo-se até os bosques e até o rio. E pensou nos outros que tinham vivido ali. Makwa,

Lua e Chega Cantando. E Alden. Enquanto o fogo diminuía, ele cantava mentalmente, Tti-la-ye ke-wi-ta-mo-ne i-no-ki-i-i, ke-te-ma-ga-yo-se. Espíritos, eu falo com

vocês agora, mandem suas bênçãos para mim.

Logo tudo que sobrava era uma pilha de resíduos de onde subiam filetes de fumaça. Xamã sabia que o mato ia cobrir tudo, e não ficaria nenhum sinal do hedonoso-te.

Quando teve certeza de que não tinha mais perigo do fogo se alastrar, ele levou a lata de óleo de volta ao celeiro e foi para casa. No Caminho

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Longo encontrou uma figurinha zangada procurando por ele. Ela fugia de um menininho que tinha caído e esfolado o joelho. O menino a perseguia teimosamente, mancando.



Ele chorava e seu nariz estava escorrendo.

Xamã limpou o nariz de Joshua com seu lenço e beijou o joelho ao lado do pequeno ferimento. Prometeu que ia fazer passar a dor quando chegassem em casa. Pôs Hattie

montada no seu pescoço, com as pernas longas dependuradas, carregou Joshua e começou a andar. Aqueles eram os únicos espíritos irreverentes que o interessavam no

mundo, os dois bons espíritos, que possuíam sua alma. Hattie puxava sua orelha para fazê-lo andar mais depressa e ele trotou como Trude. Quando ela puxou com muita

força, Xamã apertou Joshua contra as pernas da menina para ela não cair e começou a galopar, como Boss. E então ele seguiu galopando, galopando, acompanhando o ritmo

de uma música gloriosa que só ele podia ouvir.

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AGRADECIMENTOS E NOTAS



Os sauks e mesquakies vivem ainda em Tama, lowa, em terras de sua propriedade. Hoje, essas terras constituem muito mais do que os oitenta acres da primeira compra.

Cerca de 575 americanos nativos vivem agora em 3.500 acres ao longo do rio lowa. No verão de 1987, minha mulher Lorraine e eu visitamos a comunidade de Tama. Don

Wanatee, naquela época diretor-executivo do Conselho Tribal, e Leonard Bear, conhecido artista americano nativo, responderam pacientemente às minhas perguntas, bem

como Muriel Racehill, atual diretora-executiva, e Charlie Velho Urso.

Tentei apresentar os fatos da Guerra de Falcão Negro com a maior veracidade histórica possível. O guerreiro chefe conhecido como Falcão Negro - a tradução literal

do seu nome sauk, Makataime-shekiakiak, é Falcão Andorinha Negra - é uma figura histórica. O xamã Wabokieshiek, Nuvem Branca, existiu também. Neste livro ele passa

a ser um personagem de ficção depois que conhece a menina que mais tarde vem a ser Makwa-ikwa, a Mulher Urso.

Grande parte do vocabulário sauk e mesquakie utilizado neste livro baseia-se numa leitura exaustiva de várias publicações do Departamento de Etnologia Americana

do Smithsonian Institute.

Nos seus primeiros tempos, a organização de caridade conhecida como Dispensário de Boston era exatamente como descrevo neste livro. Fiz uso de licença de autor literário

na descrição dos salários dos médicos visitantes. Embora a escala de pagamento seja autêntica, a compensação só começou em 1842, alguns anos depois de Rob J. aparecer

no livro como assalariado para atender os pobres. Até 1842, os médicos do Dispensário de Boston não recebiam salário algum. Entretanto, as condições dos pobres eram

tão difíceis, que os jovens médicos se revoltaram. Primeiro, exigiram pagamento, depois recusaram-se a continuar as visitas. O Dispensário de Boston porém, preferiu

mudar o local da sua sede, transformando-se numa clínica, onde os pacientes procuravam os médicos. Na época em que fiz a cobertura do Dispensário de Boston, fins

da década de 1950 e começo de 1960, como editor de ciência do antigo Herald de Boston, já era uma clínica-hospital, trabalhando em conjunto com a Clínica de Diagnóstico




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