Noah Gordon, o xamã



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e tavernas eram muito caras. Rob estava na floresta do Planalto Alegani, na Pensilvânia, quando seu dinheiro acabou e por sorte arranjou trabalho no campo madeireiro

de Jacob Starr, para tratar dos lenhadores. Quase todos os acidentes eram sérios, mas nos intervalos não tinha muito que fazer e juntavase aos homens para serrar

os pinheiros brancos e as árvores de cicuta que tinham mais de duzentos e cinqüenta anos. Geralmente ele manejava uma extremidade do “chicote da miséria”, ou serra

para dois homens. Seus músculos cresceram e ficaram mais fortes. A maioria dos acampamentos não tinha médico e os lenhadores sabiam o quanto ele era valioso, por

isso o protegiam quando ele juntava-se a eles naquele trabalho perigoso. Ensinaram Rob a mergulhar na água salgada as palmas das mãos que sangravam, até a pele endurecer.

À noite ele exercitava os dedos no alojamento rústico para mantê-los ágeis e tocava sua viola de gambá para os homens, alternando acompanhamentos das canções maliciosas,

cantadas em altas vozes, com seleções de J. S. Bach e Marais, que eles ouviam encantados.

Durante todo o inverno empilharam troncos enormes na margem de um regato. No cabo de cada machado de lâmina única havia uma enorme estrela saliente, de aço, com

cinco pontas. Cada vez que uma árvore era derrubada e desgalhada, os homens viravam os machados e batiam com a estrela saliente no tronco, gravando a marca desta.

Com o degelo da primavera, o regato subiu quase vinte centímetros, levando os troncos para o rio Clarion. Fizeram então enormes jangadas de troncos sobre as quais

foram construídos alojamentos, cozinhas e barracões para armazenagem. Rob desceu o rio na jangada, como um príncipe, numa viagem lenta de sonho só interrompida quando

os troncos enroscavam

em alguma coisa, empilhavam-se e eram libertados pelos pacientes homens que os conduziam. Ele viu todo o tipo de aves e animais, descendo o sinuoso Clarion até onde

o rio desaguava no Alegani, e descendo depois o Alegani até Pittsburgh.

Em Pittsburgh despediu-se de Starr e dos seus lenhadores. Num bar conseguiu emprego como médico de uma turma que trabalhava na colocação de trilhos para a Estrada

de Ferro Washington & Ohio, uma linha que começava a concorrer com os dois canais muito movimentados do estado. Foi para Ohio com os trabalhadores, para a margem

de uma grande planície cortada por duas linhas brilhantes de estrada de ferro. Ficou instalado num dos quatro vagões que serviam de alojamento para os chefes da

turma. A primavera na grande planície era belíssima, mas o mundo da Estrada de Ferro Washington & Ohio nada tinha de belo. Os assentadores de trilhos, niveladores

e encarregados das carroças e dos animais eram imigrantes irlandeses e alemães cujas vidas eram consideradas mercadoria barata. Era responsabilidade de Rob garantir

a preservação da força daqueles homens para o assentamento dos trilhos. Ele precisava do dinheiro, mas seu trabalho estava fadado ao insucesso, desde o começo, pois

o superintendente, um homem carrancudo chamado Cotting, era extremamente mesquinho e se recusava a gastar dinheiro com comida. Os caçadores empregados pela companhia

forneciam muita carne e havia uma bebida de chicória que passava por café. Mas, a não ser na mesa onde comiam Cotting, Rob e os capatazes, não havia verduras, repolho,

cenoura, batata, nada para provê-los de ácido ascórbico, exceto, muito raramente, uma panela de feijão. Os homens tinham béribéri. Anêmicos, não tinham apetite.

Suas juntas doíam, as gengivas sangravam, os dentes caíam, e os ferimentos não cicatrizavam. Estavam sendo literalmente assassinados pela subnutrição e pelo trabalho

pesado. Finalmente, Rob J. arrombou o vagão de suprimentos, com um pé-de-cabra, e tirou todos os engradados com batatas e repolhos. Felizmente Cotting não sabia

que o jovem médico fizera um juramento de não-violência. Considerando o tamanho e as condições físicas de Rob, além do seu olhar desdenhoso, o superintendente achou

melhor pagar o que devia e livrarse dele do que entrar numa briga.

O dinheiro ganho na estrada de ferro deu para comprar uma égua velha e morosa, um rifle calibre 12, de carregar pela boca, e uma espingarda leve, para caça pequena,

agulhas e linha, uma linha de pesca e livros, uma frigideira de ferro enferrujada e uma faca de caça. Batizou a égua com o nome de Monica Grenville, em homenagem

a uma bela mulher mais velha, amiga de sua mãe, que, nas fantasias febris da sua adolescência, ele sonhara cavalgar. Monica Grenville, o cavalo, permitiu a Rob viajar

para o oeste nos seus próprios termos. Depois de descobrir que o rifle puxava para a direita, passou a caçar com facilidade e apanhava peixe sempre que tinha oportunidade,

além de ganhar dinheiro ou comida em todo lugar que alguém precisava de médico.

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O tamanho de tudo que via o deixava maravilhado, montanha, vale e planície. Após algumas semanas, estava convencido de que podia continuar assim pelo resto da vida,



montado em Monica Grenville, viajando lenta e eternamente em direção ao pôr-do-sol.

Os remédios da sua caixa terminaram. Já era difícil operar sem a ajuda dos poucos e inadequados paliativos existentes, mas não tinha mais láudano nem morfina ou

qualquer outro medicamento e era obrigado a confiar na sua habilidade de cirurgião e em qualquer tipo de bebida que encontrasse pelo caminho. Lembrava de alguns

expedientes úteis ensinados por Fergusson. Na falta de tintura de nicotina, dada por via oral para relaxar os músculos e o esfíncter anal durante uma operação de

fístula, comprou os charutos mais caros que encontrou e inseriu um no reto do paciente, até a nicotina ser absorvida, relaxando o músculo. Certa vez em Titusville,

Ohio, um homem idoso aproximou-se dele e do paciente que estava com o corpo dobrado sobre um varal de carroça com o charuto enfiado no traseiro.

- Tem um fósforo, senhor? - perguntou Rob.

Mais tarde, no armazém-geral da cidade, ouviu o homem contar solenemente para os amigos “Vocês não iam acreditar se eu dissesse como ele estava fumando.”

Numa taverna, em Zanesville, Rob avistou seu primeiro índio. Ficou desapontado. Ao contrário dos selvagens esplêndidos de James Fenimore Cooper, o homem era um bêbado

tristonho, de carne flácida, com o rosto sujo de ranho, uma criatura digna de pena, alvo de desaforos quando implorava uma bebida.

- Delaware, eu suponho - disse o dono do bar, quando Rob perguntou sobre a tribo daquele índio. - Miami, talvez. Ou Shawnee. - Ergueu os ombros com desprezo. - Quem

se importa? Esses bastardos miseráveis são todos iguais para mim.

Alguns dias mais tarde, em Columbus, Rob descobriu um jovem judeu forte, de barba negra, chamado Jason Maxwell Geiger, farmacêutico, dono de uma farmácia bem sortida.

- Tem láudano? Tem tintura de nicotina? lodeto de potássio? Não importava o que ele pedisse, Geiger respondia com um sorriso

e um gesto afirmativo e Rob começou a passear, feliz, entre os vidros e as retortas. Os preços eram menores do que tinha imaginado e temido pois o pai e os irmãos

de Geiger eram fabricantes de produtos farmacêuticos em Charleston e ele explicou que os remédios que não podia preparar comprava da família por preços módicos.

Desse modo, Rob J. fez um bom estoque de medicamentos. Quando o farmacêutico o ajudou a levar as compras até onde estava o cavalo, viu o enorme volume do instrumento

musical embrulhado e voltou-se imediatamente para o visitante.

- Suponho que é uma viola?

- Viola de gambá - disse Rob e percebeu um brilho novo nos olhos

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do homem, não exatamente cupidez, mas um desejo intenso e inconfundível. - Gostaria de ver?



- Deve levá-la à minha casa, mostrar à minha mulher - disse Geiger, entusiasmado.

Dirigiram-se para a casa que ficava nos fundos da farmácia. Lillian Geiger rapidamente cobriu os seios com um pano de pratos, mas não antes de Rob perceber as manchas

de leite no seu vestido. Num berço dormia a filha do casal, de dois meses, Rachel. A casa cheirava a leite humano e a hallah assado. A sala escura tinha um sofá

de crina, uma cadeira e um piano tipo armário. A Sra. Geiger foi para o quarto e trocou de roupa enquanto Rob J. desembrulhava a viola. Quando voltou, ela e o marido

examinaram o instrumento, passando os dedos nas sete cordas e nos dez trastos, como se estivessem acariciando um objeto sagrado. Ela mostrou o piano de nogueira

negra muito polida.

- Fabricado por Alpheus Babcock, da Filadélfia - disse ela. Jason Geiger tirou outro instrumento de trás do piano.

- Foi feito por um fabricante de cerveja, chamado Isaac Schwartz, que mora em Richmond, Virgínia. É só uma rabeca, não merece ser chamado de violino. Tenho esperança

de possuir um violino, algum dia. - Mas quando começaram a afinar os instrumentos, Geiger tirou sons muito doces da pequena rabeca.

Entreolharam-se ressabiados, temendo alguma incompatibilidade musical.

- O que vai ser? - perguntou Geiger, cedendo cortesmente a escolha ao visitante.

- Bach? Conhecem este prelúdio do Cravo bem temperado? É do Livro II, não me lembro o número. - Tocou os primeiros acordes e imediatamente Lillian o acompanhou,

balançando afirmativamente a cabeça, logo seguida pela rabeca do marido. Décimo segundo, disse ela apenas com um movimento dos lábios. A preocupação de Rob J. não

era identificar a peça, pois esse tipo de execução não era para entreter lenhadores. Era evidente que o casal conhecia música e estava acostumado a tocar em dueto

e Rob tinha certeza de que ia fazer um péssimo papel. Eles tocavam e Rob os acompanhava, atrasado e hesitante. Seus dedos, ao invés de acompanharem a fluidez da

trilha musical, pareciam se mover em saltos espasmódicos, como salmões subindo uma cachoeira. Porém, na metade do prelúdio, ele esqueceu o medo, pois o hábito de

muitos e longos anos suplantou a falta de prática. Então pôde observar que Geiger tocava com os olhos fechados e a expressão de Lillian era de intenso prazer, a

um só tempo partilhado e muito particular.

A satisfação era quase dolorosa. Até então, Rob J. não havia percebido o quanto sentia falta da música. Quando terminaram, entreolharamse sorrindo e Geiger saiu

para pôr a tabuleta “fechado” na porta da farmácia. Lillian foi ver a filha e depois pôr o assado no forno. Rob tirou os arreios da pobre e paciente Monica. Quando

voltaram, descobriu-se

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que os Geiger não tocavam nada de Marin Marais, e que Rob não tocava de cor nada daquele músico polonês, Chopin. Mas os três conheciam as sonatas de Beethoven.



Durante toda a tarde eles criaram um ambiente especial e cintilante. Quando o choro de fome do bebê os interrompeu, os três estavam embriagados com a beleza da música

que acabavam de executar.

O farmacêutico não permitiu que Rob se despedisse. O jantar era carneiro rosado com um leve tempero de alecrim e alho, assado com cenouras, batatas novas e, para

sobremesa, uma compota de cereja.

- Vai dormir no nosso quarto de hóspedes - disse Geiger. Simpatizando com eles, Rob perguntou quais eram as oportunidades para um médico naquela região.

- Tem muitos habitantes, pois Columbus é a capital, e muitos médicos também. É um bom lugar para uma farmácia, mas vamos deixar Columbus logo que nossa filha tenha

idade suficiente para a viagem. Quero ser fazendeiro e farmacêutico, e quero deixar terras para meus filhos. A terra boa para o plantio, em Ohio, está muito cara.

Estive me informando sobre lugares onde é possível comprar terra fértil por um preço que posso pagar.

Geiger abriu seus mapas sobre a mesa.

- Illinois - disse ele, apontando a região do estado mais indicada segundo suas investigações, entre o rio Rocky e o Mississipi. - Um bom suprimento de água. Belos

bosques nas margens dos rios. O resto é pradaria, terra negra nunca tocada pelo arado.

Rob J. estudou o mapa.

- Acho que vou até lá - disse ele, finalmente. - Para ver se me agrada.

Geiger sorriu, satisfeito. Passaram um longo tempo inclinados sobre os mapas, marcando os melhores caminhos, discutindo amigavelmente. Depois que Rob foi para o

quarto, Jay Geiger ficou acordado até tarde, copiando à luz da vela a partitura de uma mazurca de Chopin. Eles a tocaram na manhã seguinte, depois do café. Os homens

consultaram os mapas mais uma vez e ficou combinado que, se Illinois fosse tão bom quanto Geiger imaginava, depois de se instalar, Rob escreveria para o novo amigo

e Geiger levaria a família para a fronteira do oeste.

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DOIS PEDAÇOS DE TERRA



Rob achou Illinois interessante desde o começo. Entrou no estado no fim do verão, quando a relva verde e densa da pradaria estava seca e queimada pelo sol. Em Danville

viu homens fervendo água de fontes salinas em grandes caldeirões negros e quando saiu da cidade, levava um pacote de sal puro. A pradaria era imensa com algumas

colinas baixas. O estado era abençoado com muita água doce. Rob passou por poucos lagos mas viu numerosos pântanos alimentando regatos que iam até os rios. Ficou

sabendo que, quando o povo de Illinois falava da terra entre os rios, estava se referindo à extremidade sul do estado, que ficava entre o Mississipi e o Ohio. Nessa

região o solo era aluvial e fértil, beneficiado pela proximidade dos dois rios. Os moradores chamavam a região de Egito, porque a consideravam tão fértil quanto

o grande delta do Nilo. No mapa de Jay Geiger, Rob viu uma porção de “pequenos Egitos” entre rios, no estado de Illinois. No breve encontro, Geiger ganhara o respeito

de Rob e ele continuou a viagem para a região sugerida pelo novo amigo.

Levou duas semanas para atravessar o Illinois. No décimo quarto dia, a trilha entrou num bosque, onde o ar era abençoadamente mais refrescante e repleto do cheiro

úmido da mata crescendo. Seguindo o caminho estreito, ouviu o som de água e chegou a um rio extenso que ele supôs ser o Rocky.

Embora estivessem na estação seca, a corrente era forte e as rochas que davam o nome ao rio garantiam água clara e limpa. Conduziu Monica ao longo da margem, procurando

um vau para atravessar, e chegou a uma parte profunda, onde a água corria com maior lentidão. Uma corda grossa atravessava o rio, suspensa a dois troncos enormes,

um em cada margem. De um galho pendia um triângulo de ferro e um pedaço de aço ao lado da tabuleta onde estava escrito:

HoLDEN’S CROSSING Toque para chamar a balsa

Rob tocou o triângulo vigorosamente e, ao que lhe pareceu, por um longo tempo, até ver um homem caminhando devagar para a balsa ancorada

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na margem do rio. Na extremidade superior de dois fortes postes de madeira havia dois anéis de ferro pelos quais passava o cabo de reboque que permitia à balsa



deslizar sobre a água, impelida pela vara manejada pelo homem. Quando a balsa chegou no meio do rio, a corrente tinha puxado o cabo rio abaixo, de modo que o homem

fez uma curva, ao invés de seguir em linha reta de uma margem à outra. No meio do rio, onde a água era escura e oleosa, a profundidade não permitia mais o uso da

vara e o homem passou a puxar o cabo lentamente. A voz de barítono do barqueiro chegava até Rob J., cantando.

Um dia eu ia andando, ouvi um lamento,

E vi uma mulher, a imagem da tristeza.

Olhando para a lama na frente da sua porta (chovia)

E esta era sua canção, enquanto manejava a vassoura.

Oh, a vida é trabalho e o amor um problema,

A beleza desaparece e a riqueza acaba.

Os prazeres diminuem e os preços aumentam.

E nada é como eu desejaria que fosse...

Havia muitas estrofes e muito antes de todas serem cantadas, o homem começou a manejar a vara outra vez. Quando chegou mais perto, Rob viu um homem mais baixo do

que ele, musculoso, de uns trinta anos, que parecia nativo da região, com botas pesadas, calças de lã e algodão, grossas demais para a estação, chapéu de couro com

aba larga, manchado de suor. O cabelo e a barba eram negros, longos e espessos, as maçãs do rosto proeminentes e o nariz, fino e curvo, emprestaria uma expressão

cruel ao rosto se não fosse pelos olhos azuis, joviais e amistosos. À medida que diminuía a distância entre eles, Rob pressentiu uma reserva, uma atitude defensiva

de quem se vê à frente de uma mulher ou de um homem belo demais. Mas não parecia haver nenhuma reserva no barqueiro.

- Como vai - exclamou ele. - Com um impulso final da vara, a balsa deslizou na areia grossa da margem. O homem estendeu a mão. - Nicholas Holden, às suas ordens.

Rob apertou a mão oferecida e se apresentou. Holden tirou um rolo de fumo de mascar do bolso da camisa e cortou um pedaço com a faca. Depois, ofereceu a Rob, que

recusou, balançando a cabeça.

- Quanto, para atravessar o rio?

- Três centavos você. Dez centavos pelo cavalo.

Rob pagou os treze centavos adiantados. Amarrou Monica nos anéis de ferro no chão da balsa. Holden deu a ele uma vara e com esforço os dois afastaram a balsa da

margem.

- Vai se instalar por estes lados?



- Talvez - disse Rob, com cautela.

- Por acaso, não é ferreiro? - Holden tinha os olhos mais azuis que Rob já vira, que pareceriam femininos se não fosse pela expressão

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de humor. - É uma pena - disse ele, sem parecer surpreso com o gesto negativo de Rob. - Eu gostaria de encontrar um bom ferreiro. Então é fazendeiro?



Animou-se imediatamente quando Rob disse que era médico.

- Três vezes bem-vindo, e seja bem-vindo mais uma vez! Precisamos de médico em Holden’s Crossing. Qualquer médico pode usar esta balsa de graça - disse ele, parando

de manejar a vara o tempo suficiente para contar os três centavos que devolveu solenemente para Rob.

Rob olhou para as moedas.

- E os outros dez centavos?

- Ora, suponho que o cavalo não é médico também? - Comparado ao sorriso, seu rosto chegava a ser feio.

A cabana de Holden era de troncos de madeira calafetados com argila branca, perto de uma horta e de uma fonte, numa elevação com vista para o rio.

- Bem na hora do jantar - disse ele.

Jantaram um cozido cheiroso no qual Rob identificou nabo, repolho e cebola, mas não a carne.

- Apanhei uma velha lebre e um filhote de tinamu esta manhã e os dois estão no cozido - disse Holden.

Repetindo o cozido nos pratos fundos de madeira, falaram sobre si mesmos o bastante para criar um ambiente agradável. Holden era advogado municipal do estado de

Connecticut. Tinha grandes planos.

- Como foi que eles deram seu nome à cidade?

- Eles não deram, eu dei - disse ele, afavelmente. - Cheguei primeiro e instalei a balsa. Sempre que alguém vem morar aqui, eu digo o nome da cidade. Ninguém reclamou

até agora.

Na opinião de Rob, a casa de madeira de Holden não se comparava às acolhedoras casas de campo da Escócia. Era escura e abafada. A cama, muito próxima da lareira

fumacenta, estava coberta de fuligem. Holden disse, bem-humorado, que a única coisa boa da casa era a localização. Dentro de um ano, disse ele, derrubaria a cabana

de madeira para construir uma verdadeira casa.

- Sim, senhor, grandes planos. - Falou das coisas que viriam em breve - uma estalagem, um armazém, depois um banco. Disse francamente que estava tentando convencer

Rob a se instalar em Holden’s Crossing.

- Quantas famílias vivem aqui agora? - perguntou Rob J. e sorriu tristemente ao ouvir a resposta. - Um médico não pode viver cuidando só de dezesseis famílias.

- É claro que não. Mas os colonos virão para cá, mais ansiosos do que um homem por uma mulher. E essas dezesseis famílias moram dentro da cidade. Além do limite

da cidade, não há nenhum médico até

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Rock Island e uma porção de fazendas espalhadas na planície. Só precisa arranjar um cavalo melhor e estar disposto a viajar um pouco para os chamados a domicílio.



Rob lembrou da sua frustração por não ter podido praticar boa medicina no populoso Oitavo Distrito. Mas isto era o outro lado da moeda. Disse a Nick Holden que ia

pensar.


Dormiu na cabana de Holden, no chão, enrolado num acolchoado, enquanto o senhor da “mansão” roncava na cama. Mas isso não era nada para quem tinha passado o inverno

num alojamento com dezenove lenhadores que tossiam e expeliam gases a noite inteira. De manhã, Holden preparou o café e deixou a louça e a frigideira para Rob lavar,

dizendo que precisava fazer algo, mas voltava logo.

A manhã estava clara e fresca, com o sol já bem quente. Rob desembrulhou a viola e sentou numa rocha, na sombra, entre a parte de trás da casa e o começo do bosque.

Abriu sobre a pedra a mazurca de Chopin, copiada por Geiger, e começou a tocar atentamente.

Trabalhou com o tema e a melodia durante quase uma hora até começar a parecer música. Ergueu os olhos da partitura e viu, na entrada do bosque, dois índios a cavalo

que o observavam em silêncio.

Surpreso, Rob percebeu que os dois homens restauravam sua confiança em James Fenimore Cooper. Faces encovadas, peitos nus, que pareciam firmes e musculosos, cobertos

com óleo brilhante. O que estava mais próximo vestia calça de pele de gamo e tinha o nariz grande e curvo. No centro da cabeça raspada tinha um tufo de pêlo de animal

áspero e rígido. Trazia um rifle na mão. O outro era grande, da altura de Rob J. porém mais encorpado. O cabelo longo e negro era preso por uma tira de couro passada

na testa e vestia uma tanga e perneiras de couro. Trazia um arco e Rob J. percebeu com nitidez a aljava com as setas dependuradas no pescoço do cavalo, como a gravura

de um dos livros sobre índios da biblioteca do Ateneu, em Boston.

Rob não sabia se havia outros no bosque. Se fossem hostis, estava perdido, porque a viola de gambá era uma arma bastante inadequada. Rob tomou uma decisão. Levou

o arco às cordas e recomeçou a tocar, não mais Chopin porque não queria tirar os olhos dos índios e olhar para a música. Quase sem pensar, tocou uma peça do século

dezessete que conhecia bem, Cara La Vita Mia, de Oratio Bassani. Tocou a música toda uma vez e repetiu até a metade. Então parou porque não podia ficar ali sentado,

tocando, para sempre.

Ouviu um ruído às suas costas e voltou-se rapidamente. Um esquilo fugiu para o bosque. Quando olhou para a frente outra vez, com um misto de alívio e pena, viu que

os índios haviam desaparecido. Por um momento ouviu o tropel dos cavalos, depois, só o vento nas folhas das árvores.

Nick Holden procurou disfarçar a preocupação quando Rob contou a visita dos índios. Fez uma inspeção rápida e verificou que não faltava nada.

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- Os índios desta região eram os sauks. Há nove ou dez anos, durante a luta que nós chamamos de Guerra do Falcão Negro, atravessaram o Mississipi, instalando-se



em lowa. Alguns anos atrás, todos os sauks foram levados para a reserva no Kansas. No mês passado soubemos que cerca de quarenta bravos, com mulheres e filhos, tinham

fugido da reserva. Ao que parecia, rumavam para Illinois. Duvido que um grupo tão pequeno cometa a tolice de nos criar problemas. Acho que esperam apenas que os

deixemos em paz.

Rob concordou.

- Se quisessem me causar problemas, não teriam nenhuma dificuldade.

Nick estava ansioso para mudar de assunto. Não queria, de modo algum, dar muita importância a qualquer coisa que desmerecesse Holden’s Crossing. Passara a manhã

examinando quatro lotes de terra, disse ele. Cedendo à sua insistência, Rob selou Monica e foram ver os terrenos.




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