Noah Gordon, o xamã



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A Confederação ia se dividir em pequenos grupos regionais que, com o tempo, se transformariam em pequenos estados. Eu penso que todos os estados, um a um, embaraçados

e humilhados, pediriam para voltar à União.

- A União está mudando - disse Xamã. - O partido americano teve pouca influência nas últimas eleições. Soldados nascidos na América viram companheiros irlandeses,

alemães e escandinavos morrerem em batalha e não querem mais dar ouvidos a políticos preconceituosos. O Daily Tríbune de Chicago diz que os Não Sabem de Nada estão

liquidados.

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- E já vão tarde - disse Alex.



- Era apenas mais um partido político - disse Nick, suavizando.

- Um partido político que deu origem a outros grupos muito mais sinistros - disse Jay. - Mas podem estar certos. Três milhões e meio de antigos escravos estão espalhados

por todo o país, à procura de emprego. Vão aparecer novas sociedades de terror contra eles, com os mesmos nomes na lista de membros.

Nick Holden levantou para se despedir.

- A propósito, Geiger, sua mulher tem alguma notícia do seu célebre primo?

- Se soubéssemos onde Judah Benjamin está, comissário, acha que

eu ia dizer? - perguntou Jay em voz baixa.

Holden sorriu, com aquele sorriso típico.

Era verdade que tinha salvo a vida de Alex e Xamã lhe era grato. Mas a gratidão nunca o fez gostar de Nick. No fundo do coração ele desejava ardentemente que Alex

fosse filho do jovem fora-da-lei chamado Will Mosby.

Nem passou por sua cabeça convidar Holden para o casamento.

Xamã e Rachel casaram-se no dia 22 de maio de 1865, na sala da casa dos Geiger, só com a presença da família. Não era o casamento que os pais teriam desejado. Sarah

sugeriu que, uma vez que seu marido era pastor, seria um gesto no sentido da união das duas famílias convidá-lo para oficiar a cerimônia. Jay disse à filha que uma

mulher judia só podia ser casada por um rabino. Xamã e Rachel não discutiram, mas foram casados pelo juiz Stephen Hume. Hume precisava de um atril e Xamã pediu emprestado

o da igreja, o que não foi difícil porque o novo pastor não tinha chegado ainda. Ficaram na frente do juiz, com as crianças, Joshua segurando com a mãozinha suada

o dedo indicador de Xamã. Rachel, com um vestido de noiva de brocado azul, de gola larga de renda creme, segurava a mão de Hattie. Hume, como o bom homem que era,

desejou tudo de bom aos dois. Quando ele os declarou marido e mulher e disse “Vão em paz”, Xamã interpretou as palavras literalmente. O mundo girou mais devagar

e ele experimentou a sensação maravilhosa só sentida uma vez antes, quando atravessou o túnel que ligava a Escola de Medicina Policlínica ao Southwestern Ohio Hospital,

como médico.

Xamã esperava que Rachel quisesse ir a Chicago ou a outro lugar para a lua-de-mel, mas ela o ouvira falar dos sauks e mesquakies de lowa e para alegria de Xamã perguntou

se podiam visitar os índios.

Eles precisavam de um animal para carregar os suprimentos e outros objetos. Paul Williams tinha um cavalo cinzento grande e de bom temperamento no seu estábulo e

Xamã o alugou por onze dias. Tama, a cidade dos índios, ficava a uns cento e sessenta quilômetros. Xamã calculou quatro dias para ir e quatro para voltar e um ou

dois para a visita.

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Partiram algumas horas após o casamento, Rachel montando Trude, Xamã em Boss, puxando o animal com a carga que, Williams disse, chamava-se Ulysses, “sem nenhum desrespeito



ao general Grant”.

Xamã teria parado em Rock Island no primeiro dia, mas estavam com roupas de viagem, impróprias para se hospedar num hotel e Rachel queria passar a noite na pradaria.

Atravessaram o rio na balsa e viajaram até vinte quilômetros além de Davenport.

Seguiram uma estrada estreita e empoeirada por entre imensos campos arados de terra negra, com algumas nesgas da pradaria no meio deles. Quando chegaram a uma extensão

de relva natural, ao lado de um regato, Rachel aproximou Trude de Boss e com um aceno chamou a atenção de Xamã.

- Podemos parar aqui?

- Vamos procurar a casa da fazenda.

Andaram mais uns dois quilômetros. Perto da casa, a relva se transformava em campos arados, preparados, sem dúvida, para o plantio de milho. Na frente do celeiro,

um cão amarelo correu para os cavalos, latindo. O fazendeiro estava pondo um novo parafuso no relho do arado e franziu a testa desconfiado quando Xamã pediu permissão

para acampar perto do regato. Mas quando Xamã ofereceu dinheiro, ele sacudiu a mão, recusando.

- Vão fazer fogueira?

- Eu tinha pensado em fazer. Tudo parece estar tão verde.

- Oh, sim, o fogo não vai se espalhar. A água do regato é potável. Sigam um pouco a margem que encontrarão madeira para o fogo.

Eles agradeceram e voltaram ao local escolhido. Tiraram as selas dos cavalos e a carga de Ulysses. Depois Xamã fez quatro viagens para apanhar lenha, enquanto Rachel

armava o acampamento. Ela estendeu no chão uma velha manta de pele de búfalo que Geiger comprara de Cão de Pedra, há muito tempo. O couro marrom aparecia nas falhas

do pêlo, mas era a melhor coisa para ter entre seus corpos e a terra. Estendeu sobre a pele dois cobertores feitos com lã Cole, porque faltava ainda um mês para

o verão.

Xamã empilhou a madeira entre duas pedras e acendeu o fogo e sobre ele pôs um bule com água do regato e café. Sentados nas selas, comeram as sobras da festa de casamento

- carneiro rosado em fatias, batatas assadas, cenoura candilada. Como sobremesa, bolo branco do casamento, com cobertura de uísque, depois café puro. As estrelas

apareceram e a lua em quarto crescente ergueu-se acima da terra plana.

Depois, Rachel apanhou sua caneca, uma barra de sabão, um esfregão e uma toalha e desapareceu na escuridão.

Não ia ser a primeira vez que faziam amor e Xamã perguntou a si mesmo por que se sentia tão nervoso. Tirou a roupa e foi para outro ponto do regato onde se lavou

rapidamente e quando ela voltou ele a esperava, deitado entre os cobertores e a pele de búfalo. Seus corpos tinham ainda

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o frio do regato, mas logo se aqueceram. Xamã compreendeu que Rachel escolhera aquele lugar para a cama improvisada porque ficava fora da luz do fogo, mas não se

importou. Tinha ainda Rachel, suas mãos e seus corpos. Fizeram amor pela primeira vez como marido e mulher e depois ficaram deitados, de mãos dadas.

- Eu te amo, Rachel Cole - disse ele.

Viam todo o céu como uma cúpula sobre a terra plana. As estrelas baixas eram enormes e brancas.

Um pouco depois, fizeram amor outra vez e, quando terminaram, Rachel levantou e correu para o fogo. Apanhou um galho com a ponta em brasa e o girou no ar até pegar

fogo. Então voltou, ajoelhou tão perto que ele podia ver a pele arrepiada de frio entre os seios dela e os olhos, como duas pedras preciosas refletindo a luz do

graveto aceso, e a boca.

- Eu também te amo, Xamã - disse ela.

No dia seguinte, à medida que avançavam para o interior de lowa, aumentava a distância entre uma fazenda e outra. A estrada atravessou uma criação de porcos por

quase três quilômetros, com um odor forte, quase palpável, mas depois chegaram outra vez ao campo relvado e ao ar doce

e puro.

Num dado momento Rachel se empertigou na sela e levantou a mão.



- O que foi?

- Uivos. Pode ser um lobo?

Xamã disse que devia ser um cachorro.

- Os fazendeiros devem ter acabado com os lobos, como fizeram em Holden’s Crossing. Os lobos se foram, como os búfalos e os índios.

- Talvez se possa ver por aqui um milagre da pradaria - disse ela. - Um búfalo, um gato selvagem ou o último lobo de lowa.

Passaram por pequenas cidades. Ao meio-dia chegaram a um armazém onde comeram biscoitos, queijo e pêssegos em lata.

- Ontem ouvimos dizer que os soldados prenderam Jefferson Davis. Está preso no Fort Monroe, Virgínia, acorrentado - disse o dono do armazém. Cuspiu no chão coberto

de serragem.

- Espero que eles enforquem o filho da mãe. Com perdão da palavra, madame.

Rachel balançou a cabeça. Era difícil parecer uma dama tomando

o resto da calda de pêssego na lata.

- Eles capturaram também seu secretário de estado, Judah P.

Benjamin?

- O judeu? Não, não pegaram esse pelo que eu sei.

- Ótimo - disse Rachel.

Levaram as latas vazias para usar na viagem e montaram. O dono do armazém ficou na porta até desaparecerem na poeira da estrada.

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Naquela tarde, atravessaram um baixio do rio Cedar, tomando muito cuidado para não se molharem mas logo depois foram encharcados pela chuva de primavera. Era quase



noite quando chegaram a uma fazenda e se abrigaram no celeiro. Xamã sentia uma estranha satisfação, lembrando a descrição da noite de núpcias dos pais no diário

de Rob J. Enfrentou a chuva para pedir a permissão de usar o celeiro, que o fazendeiro concedeu imediatamente. O homem chamava-se Williams mas não era parente do

dono do estábulo de Holden’s Crossing. Quando Xamã voltou para o celeiro, a Sra. Williams estava chegando com uma sopa de leite quente, com cenoura, batata e cevada,

mais pão fresco. Ela os deixou com tanta pressa que tiveram certeza de que sabia que eram recém-casados. O dia seguinte amanheceu claro e bem mais quente. No começo

da tarde chegaram ao rio lowa. Billy Edwards tinha dito que, seguindo para noroeste, iam encontrar os índios. Aquela parte do rio estava deserta e depois de um tempo

chegaram a uma enseada com água clara e fundo de areia. Pararam, amarraram os cavalos e Xamã imediatamente tirou a roupa e entrou na água.

- Venha! - chamou ele.

Mas Rachel hesitou. Porém, o sol estava quente e o rio parecia nunca ter visto outro ser humano. Depois de um tempo, ela tirou a roupa atrás de uns arbustos, ficando

só com a combinação-calça de algodão. Quando entrou na água, gritou de frio e os dois brincaram como crianças. A combinação molhada grudava no corpo e Xamã estendeu

os braços para ela, mas Rachel ficou com medo.

- Pode aparecer alguém! - disse ela e saiu correndo da água. Rachel dependurou a combinação num galho de árvore para secar

e se vestiu. Depois de vestido, Xamã apanhou anzóis e linha na mochila. Encontrou alguns vermes debaixo de um tronco caído e quebrou um galho para servir de vara.

Andou um pouco pela margem, rio acima, encontrou um lugar bom e em pouco tempo pegou duas percas pintadas, de duzentos gramas cada uma.

Ao meio-dia tinham comido ovos cozidos do copioso suprimento de Rachel, mas naquela noite iam comer peixe. Xamã os limpou imediatamente.

- Acho melhor cozinhar agora para não estragar, e enrolar num pano - disse ele, fazendo uma pequena fogueira.

Enquanto o peixe estava no fogo, Xamã a procurou outra vez. Rachel esqueceu todo o cuidado. Não importava que, mesmo depois de esfregar com areia e lavar no rio,

suas mãos estivessem ainda cheirando a peixe, nem que fosse dia claro. Xamã levantou o vestido dela e fizeram amor vestidos, na relva quente e cheia de sol da margem

do rio, com o som da água corrente nos ouvidos dela.

Alguns minutos depois, Rachel estava virando o peixe no fogo quando uma barcaça apareceu na curva do rio. Nela estavam três homens

465bar


bados, descalços, vestindo apenas calças rasgadas. Um deles ergueu a mão num aceno preguiçoso e Xamã respondeu.

Assim que o barco passou, Rachel correu para onde tinha deixado a combinação como uma bandeira branca anunciando o que tinham feito. Quando Xamã se aproximou, ela

virou para ele.

- O que há conosco? - perguntou. - O que há comigo! Quem

sou eu?

- Você é Rachel- disse ele, abraçando-a. Disse isso com tamanha satisfação que, quando se beijaram, ela estava sorrindo.



73 TAMA

Bem cedo, na manhã do quinto dia, encontraram um cavaleiro na estrada. Pararam para pedir informação e Xamã notou que o homem estava modestamente vestido mas tinha

uma sela cara e um bom cavalo. O cabelo era longo e negro e a pele possuía a cor de argila cozida.

- Pode nos dizer o caminho para Tama? - perguntou Xamã.

- Melhor do que isso. Eu vou para lá. Venham comigo se quiserem.

- Muito obrigado.

O índio inclinou-se para a frente e disse mais alguma coisa, mas Xamã balançou a cabeça.

- É difícil para mim falar, com os cavalos em movimento. Preciso

ver seus lábios. Eu sou surdo.

- Oh.


- Minha mulher ouve muito bem - disse Xamã. Ele sorriu e o índio, sorrindo também, virou para Rachel e encostou o dedo no chapéu. Trocaram algumas palavras, mas

a maior parte do tempo, cavalgaram em silêncio na manhã quente.

Apearam perto de um pequeno lago e enquanto os cavalos bebiam e comiam a relva, os três descansaram as pernas e se apresentaram formalmente. O homem apertou as mãos

dos dois e disse que se chamava Charles P. Keyser.

- Mora em Tama?

- Não. Tenho uma fazenda a dez quilômetros de Tama. Eu nasci em Potawatomi, mas fui criado por brancos, depois que minha família morreu com a febre. Eu nem falo

a língua dos índios, a não ser algumas palavras de kickapoo. Eu me casei com uma mulher meio kickapoo e meio francesa.

Disse que passava alguns dias em Tama a cada dois ou três anos.

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- Na verdade, não sei por quê. - Sorriu e deu de ombros. - Pelevermelha chamando pele-vermelha, eu acho.



Xamã fez um gesto afirmativo.

- Acha que nossos cavalos já pastaram bastante?

- Oh, sim. Não queremos que estourem debaixo de nós, queremos? - disse Keyser e montaram outra vez e seguiram viagem.

Antes do meio-dia chegaram a Tama. Muito antes de alcançarem o grupo de casas de madeira que formavam um largo círculo, foram seguidos por crianças de olhos escuros

e por cães.

Keyser ergueu o braço e eles desmontaram.

- Vou avisar o chefe que estamos aqui - disse ele, entrando numa casa próxima. Quando reapareceu, com um homem grande, de meia-idade e pele-vermelha, Xamã e Rachel

estavam no meio de uma pequena multidão.

O homem grande disse alguma coisa que Xamã não conseguiu ler. Não era inglês, mas o homem apertou a mão que Xamã estendeu.

- Sou o Dr. Robert J. Cole, de Holden’s Crossing, Illinois. Esta é minha mulher, Rachel Cole.

- Dr. Cole? - Um jovem se adiantou e examinou Xamã atentamente. - Não. É muito moço.

- ... Talvez tenha conhecido meu pai? Os olhos do homen não deixaram o rosto dele.

- Você é o garoto surdo?... É você, Xamã?

- Sim.


- Eu sou Cão Pequeno, Filho de Lua e Chega Cantando. Xamã apertou a mão dele com prazer, lembrando de quando brincavam juntos.

O homem grande disse alguma coisa.

Ele é Me-di-ke, Tartaruga Mordedora, chefe da cidade de Tama - disse Cão Pequeno. - Ele quer que vocês três venham à sua casa.

Tartaruga Mordedora fez sinal a Cão Pequeno para entrar também e mandou os outros embora. A casa era pequena e cheirava a carne recentemente tostada. Mantas dobradas

indicavam onde dormiam e uma rede de lona estava dependurada num canto. O chão de terra era duro e varrido e foi onde sentaram, enquanto a mulher de Tartaruga Mordedora

- Wapansee, Luz Pequena - servia café preto, muito adoçado com açúcar de bordo, com o gosto alterado por vários outros ingredientes. Tinha gosto do café que Makwa

fazia. Depois que Luz Pequena acabou de servir, Tartaruga Mordedora disse alguma coisa e ela saiu da casa.

- Você tinha uma irmã chamada Mulher Pássaro - Xamã disse para Cão Pequeno. - Ela está aqui?

- Morreu, há muito tempo. Tenho outra irmã, Salgueiro Verde, a mais nova. Está com o marido na reserva de Kansas. - Ninguém em Tama tinha estado com o grupo de Holden’s

Crossing, disse ele.

467

Tartaruga Mordedora disse, por intermédio de Cão Pequeno, que ele era mesquakie e que havia cerca de duzentos mesquakies e sauks em Tama. Depois, despejou uma torrente



de palavras e olhou outra vez para Cão Pequeno.

- Ele diz que as reservas são péssimas, como grandes jaulas. Nós não podíamos esquecer os velhos tempos. Apanhávamos cavalos selvagens, domávamos e vendíamos pelo

melhor preço possível. Guardávamos todo o dinheiro.

- Então, uns cem de nós vieram para cá. Tivemos de esquecer que Rock Island era antes Sauk-e-nuk, a grande cidade dos sauks e que Davenport era mesquak-e-nuk, a

grande cidade dos mesquakies. O mundo mudou. Nós pagamos com dinheiro do homem branco estes oitenta acres de terra e o governador de lowa assinou a escritura como

testemunha.

- Isso foi bom - disse Xamã e Tartaruga Mordedora sorriu. Evidentemente ele entendia um pouco de inglês, mas continuou a falar a sua língua, agora com expressão

severa.


- Ele diz que o governo sempre afirma que comprou nossas vastas terras. O Pai Branco tira nossa terra e oferece às tribos pequenas moedas, ao invés de papel-moeda.

Ele até nos engana com as moedas, dando coisas baratas e enfeites e dizendo que mesquakies e sauks recebem uma anuidade. Muitos dos nossos povos deixam os objetos

sem valor para apodrecer na terra. Dizemos para eles para dizerem em voz alta que aceitam só dinheiro e para vir aqui e comprar mais terra.

- Vocês têm tido problemas com os vizinhos brancos? - perguntou Xamã.

- Nenhum problema - disse Cão Pequeno e ouviu o que Tartaruga Mordedora dizia. - Ele diz que não somos ameaça. Sempre que nosso povo vai negociar, os homens brancos

põem moedas nos troncos das árvores e dizem que podemos ficar com elas se acertarmos nelas com flechas. Alguns do nosso povo acham que é um insulto, mas Tartaruga

Mordedora permite. - Tartaruga Mordedora falou outra vez e Cão Pequeno sorriu. - Ele diz que assim nossos homens estão sempre bons com as flechas.

Luz Pequena voltou, acompanhada por um homem com camisa de algodão puída, calça de lã marrom manchada e com um lenço vermelho amarrado na testa. Ele disse que era

Nepepaqua, Sonâmbulo, sauk e curandeiro. Sonâmbulo não era homem de perder tempo.

- Ela disse que você é médico.

- Sim.

- Ótimo. Quer vir comigo?



Xamã fez um gesto afirmativo. Ele e Rachel deixaram Charles Keyser tomando café com Tartaruga Mordedora. Pararam só para apanhar a maleta de Xamã. Depois, acompanharam

o curandeiro.

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Passando pela cidade, Xamã procurava cenas familiares que combinassem com suas lembranças. Não viu tipis, mas havia alguns hedonoso-tes além das casas de toras de



madeira. A maioria das pessoas usava roupas velhas dos brancos. Os mocassins eram iguais, embora muitos dos índios estivessem com botas de trabalho ou do exército.

Sonâmbulo os levou a uma casa na outra extremidade da cidade, onde uma mulher jovem se contorcia com as mãos na enorme barriga.

Ela estava com os olhos vidrados e parecia louca. Não respondeu às perguntas de Xamã. O pulso estava rápido e forte. Xamã ficou apreensivo, mas quando segurou as

mãos dela, sentiu mais vitalidade do que tinha imaginado.

Ela era Watwaweiska, Esquilo Voador, disse Sonâmbulo. Mulher do seu irmão. A hora do seu primeiro parto tinha chegado na manhã do dia anterior. Um pouco antes ela

foi para um lugar tranqüilo no bosque. Quando as águas desceram, suas pernas e seu vestido ficaram molhados, mas não aconteceu nada. A agonia não passava, a criança

não vinha. No cair da noite, outras mulheres a encontraram e a levaram para casa.

Sonâmbulo não podia fazer nada para ajudar.

Xamã tirou o vestido molhado de suor e examinou o corpo da mulher. Ela era muito jovem, os seios, embora cheios de leite, eram pequenos e a pélvis muito estreita.

Estava com bastante dilatação, mas não se via nenhuma cabecinha na abertura. Ele apertou delicadamente a barriga dela, depois apanhou o estetoscópio e deu a outra

ponta para Rachel. Encostou o aparelho em diversos pontos da barriga distendida e o que tinha concluído com seus olhos foi confirmado pela descrição de Rachel do

que estava ouvindo.

- A criança está em má posição.

Xamã saiu da casa e pediu água limpa e Sonâmbulo o levou a um regato no bosque. O curandeiro viu com curiosidade Xamã lavar e esfregar as mãos e os braços com sabão

e depois lavar com água limpa.

- Faz parte da medicina - disse Xamã e Sonâmbulo aceitou o sabão e fez o mesmo.

De volta à casa, Xamã lubrificou as mãos com gordura limpa. Inseriu um dedo na vagina da mulher, depois outro. Moveu os dedos lentamente para cima. A princípio não

sentiu nada, mas então a mulher teve uma contração e o canal se alargou mais um pouco. Um pezinho encostou nos seus dedos e em volta dele Xamã sentiu o cordão. O

cordão umbilical estava forte mas muito esticado, e ele não tentou livrar o pé da criança enquanto não passou a contração. Então, trabalhando cuidadosamente só com

dois dedos, desenrolou o cordão e puxou o pé para baixo.

O outro pé estava mais acima, encostado na parede do canal, e Xamã o alcançou durante a contração seguinte e o puxou para baixo até os dois pezinhos aparecerem na

entrada da vagina. Depois dos pés vieram as pernas e logo viram que era um menino. Apareceu a barriga, lo-

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go atrás do cordão. Mas o movimento cessou quando os ombros e a cabeça encalharam no canal como uma rolha no gargalo de uma garrafa. Xamã não podia mais puxar a



criança, nem podia alcançar a parede do canal para evitar que a criança ficasse sufocada. Ajoelhou, com a mão no canal e a mente procurando uma solução, mas sentindo

que a criança ia sufocar.

Sonâmbulo foi até o canto da casa e tirou da sua sacola um pedaço de cipó com uma das extremidades achatada como uma cabeça de cobra, com olhos de contas pretas

e presas de fibra. Sonâmbulo manipulou a “serpente” de modo que ela parecia estar se arrastando pelo corpo de Esquilo Voador até a cabeça chegar bem perto do rosto

dela. O curandeiro cantava na sua língua, mas Xamã não estava tentando ler os lábios dele. Estava olhando para Esquilo Voador.

Xamã viu a mulher olhar para a cobra e arregalar os olhos. O curandeiro fez a cobra se arrastar pelo corpo dela até chegar ao lugar em que estava a criança.

Xamã sentiu um estremecimento no canal. Viu Rachel abrir a boca para protestar, mas com um olhar a advertiu para ficar calada.

As presas da cobra tocaram a barriga de Esquilo Voador. De repente, Xamã sentiu que o canal se alargava. A mulher empurrou com força e a criança desceu facilmente.

Xamã a tirou sem nenhum esforço. O rosto e os lábios do bebê estavam azuis, mas logo ficaram vermelhos. Com um dedo trêmulo, Xamã limpou o muco da boca. O rostinho

se franziu indignado, a boca se abriu. Xamã sentiu a contração dos músculos do abdome da criança, para inspirar, e sabia que os outros estavam ouvindo o choro alto

e fino. Talvez fosse em ré bemol porque a barriguinha vibrava exatamente como o piano de Lillian quando Rachel tocava a quinta nota preta a partir da direita.

Xamã e o curandeiro voltaram ao regato para se lavar. Sonâmbulo estava satisfeito. Xamã muito pensativo. Antes de sair da casa, ele tinha examinado o cipó para ter

certeza de que era apenas um cipó.

- Ela pensou que a cobra ia devorar a criança, por isso fez força para salvá-la?

- Minha canção dizia que a cobra era um mau manitou. O bom manitou a ajudou.

Xamã concluiu que a lição era de que a ciência pode levar a medicina até certo ponto. A partir daí, a fé ou a crença em alguma coisa pode ajudar muito. Era uma vantagem

que o curandeiro tinha sobre o médico, porque Sonâmbulo era sacerdote além de médico.




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