Noah Gordon, o xamã



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- Alden sempre soube como odiar. Era cheio de amargura sobre uma porção de coisas. Ele me disse várias vezes que o pai tinha nascido na América e morrido como empregado,

em Vermont, e que ele ia também morrer como um empregado. Ficava revoltado quando via estrangeiros donos de fazendas.

- O que o impediu de comprar terras também? Papai o teria ajudado.

- Era alguma coisa dentro dele. Durante todos esses anos, nós demos mais valor a ele do que ele achava que merecia - disse Alex. - Não admira que gostasse de bebida.

Pense no inferno que havia dentro dele.

Xamã balançou a cabeça.

- Quando penso nele, eu o vejo rindo da ingenuidade de papai. E dizendo a um assassino onde eu estava.

- Mas isso não impediu que você continuasse a tratar dele - observou Alex.

- Sim, bem... - disse Xamã, com amargura. - A verdade é que, pela segunda vez em minha vida, tive vontade de matar alguém.

- Mas não matou. Tentou salvar a vida dele - disse Alex. Olhou para Xamã - ... No campo, em Elmira, eu cuidei dos homens da minha barraca. Quando ficavam doentes,

eu procurava pensar no que papai faria e fazia para eles. Sentia-me feliz com isso.

Xamã balançou a cabeça, assentindo.

- Você acha que eu poderia ser médico?

Xamã ficou atônito. Pensou por um momento, antes de responder. Então disse.

- Sim, acho que sim, Alex.

- Não sou tão bom para estudar quanto você.

- Você é mais inteligente do que jamais vai admitir. Não se interessou muito pelo estudo na escola. Mas se se dedicar agora, acho que consegue. Pode aprender a prática

comigo.

- Eu gostaria de trabalhar com você o tempo necessário para aprender química e anatomia e qualquer outra coisa. Mas prefiro entrar na escola de medicina, como você



e papai fizeram. Gostaria de ir para o leste. Talvez estudar com o amigo do papai, o Dr. Holmes.

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- Já planejou tudo. Está pensando nisso há muito tempo.

- Sim. E nunca tive tanto medo - disse Alex, e os dois sorriram pela primeira vez em muitos dias.

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DOAÇÕES DE FAMÍLIA



Voltando de Nauvoo, eles pararam em Davenport e encontraram a mãe desanimada no meio de caixas e engradados na pequena casa de tijolos ao lado da igreja batista.

Lucian tinha saído para suas visitas pastorais. Xamã viu que os olhos de Sarah estavam vermelhos.

- Alguma coisa errada, mamãe?

- Não. Lucian é o melhor dos homens e somos dedicados um ao outro. É aqui que quero estar, mas... é uma mudança muito grande. É tudo novo e assustador e eu me descontrolei.

Mas estava feliz por ver os filhos.

Ela chorou outra vez quando eles contaram tudo sobre Alden. Parecia não conseguir parar de chorar.

- Estou chorando tanto por um sentimento de culpa, quanto por Alden - disse ela. - Eu jamais gostei de Makwa-ikwa, e nunca fui boa para ela. Mas...

- Acho que sei de uma coisa que vai acabar com essa tristeza - disse Alex. Começou a abrir as caixas, ajudado por Xamã. Em poucos minutos ela enxugou os olhos e

começou a trabalhar com eles.

- Vocês não sabem onde devem pôr as coisas.

Enquanto trabalhavam, Alex contou a ela sua decisão de estudar medicina e Sarah respondeu com prazer encantado.

- Rob J. ficaria tão feliz!

Mostrou a eles a pequena casa. Os móveis estavam em péssimo estado e eram poucos.

- Vou pedir a Lucian para levar algumas peças para o celeiro e trazer alguma coisa de Holden’s Crossing.

Sarah fez café e serviu fatias de bolo de maçã, feito por uma das “suas” paroquianas.

Enquanto comiam, Xamã fez algumas notas nas costas de uma conta antiga.

- O que está fazendo? - perguntou Sarah.

- Tive uma idéia - Olhou para os dois, sem saber como começar

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e, finalmente, apenas perguntou. - O que vocês acham de doarmos um quarto de milha quadrada das nossas terras para o novo hospital?



Alex, que levava um pedaço de bolo à boca, parou com o garfo no ar e disse alguma coisa. Xamã empurrou a mão dele para baixo para poder ver seus lábios.

- Um dezesseis avôs de toda a fazenda? - repetiu Alex.

- Pelos meus cálculos, se doarmos a terra, o hospital pode ter trinta leitos, ao invés de vinte e cinco.

- Mas, Xamã... vinte acres?

- Nós já diminuímos o rebanho. E vai sobrar muita terra para a fazenda, mesmo se resolvermos aumentar, outra vez, mais tarde.

Sarah franziu a testa.

- Precisa ter cuidado para não construir o hospital muito perto da casa.

Xamã respirou fundo.

- A casa está na parte que eu daria ao hospital. Poderia ter cais próprio no rio, e uso exclusivo da estrada.

Os dois apenas olharam para ele.

- Você vai morar aqui, agora - Xamã disse para a mãe. - Eu vou construir uma nova casa para Rachel e os filhos. E você - voltou-se para Alex - vai ficar fora durante

anos, estudando e praticando. Eu transformaria nossa casa numa clínica, para pacientes que não precisam de hospitalização. Teríamos salas de exame, salas de espera.

Talvez o escritório e a farmácia do hospital. Podemos chamar de Clínica Robert Judson Cole.

- Oh, gosto disso - disse Sarah e Xamã viu nos olhos dela que a tinha convencido.

Alex fez um gesto afirmativo.

- Tem certeza?

- Sim - disse Alex.

Deixaram a casa paroquial no fim do dia e tomaram a balsa para atravessar o Mississipi. Era noite quando apanharam o cavalo e a charrete no estábulo em Rock Island,

mas os dois conheciam bem a estrada. Quando chegaram a Holden’s Crossing era muito tarde para ir ao Convento São Francisco. Xamã resolveu que iria bem cedo, na manhã

seguinte. Mal podia esperar para dar a notícia a madre Miriam Ferocia.

Cinco dias depois, quatro agrimensores estavam trabalhando numa parte da fazenda dos Cole com seus trânsitos e fitas medidoras de aço. Não havia nenhum arquiteto

naquela região entre os rios, apenas um empreiteiro muito conceituado, Oscar Ericsson, de Rock Island. Xamã e madre Miriam Ferocia conversaram longamente com Ericsson.

O empreiteiro já havia construído uma prefeitura e algumas igrejas, e um grande número de residências e lojas. Era sua primeira oportunidade de construir

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um hospital e ouviu atentamente as instruções. Quando Xamã e a superiora do convento examinaram os primeiros desenhos de Ericsson, tiveram certeza de ter encontrado

o construtor que queriam.

Ericsson começou por mapear o local e sugeriu as passagens e outras vias de acesso. Uma rua calçada ligando a clínica ao cais passaria pela casa de Alden.

- Você e Billy podem desmontar a casa e empilhar as toras para lenha - Xamã disse a Doug Penfield. Quando Ericsson chegou com seu pessoal para limpar o terreno da

construção, era como se a casa de toras de madeira de Alden nunca tivesse existido.

Naquela tarde, Xamã fazia as visitas de charrete puxada por Boss quando cruzou com o carro de aluguel dos estábulos de Rock Island. Um homem estava sentado ao lado

do cocheiro e Xamã acenou quando passou por eles. Em poucos segundos sua mente registrou a identidade do homem e Xamã fez Boss dar meia-volta e seguir apressadamente

atrás do outro carro.

Quando o alcançou, fez o cocheiro parar e desceu da charrete em movimento.

- Jay - disse ele.

Jason Geiger desceu do carro. Estava mais magro, por isso Xamã não o tinha reconhecido imediatamente.

- Xamã? - disse ele. - Meu Deus, é você.

Geiger trazia apenas uma sacola de pano amarrada com barbante, que Xamã passou para sua charrete.

Jay sentou ao lado dele e parecia estar respirando a paisagem.

- Senti falta disto. - Olhou para a maleta de médico. - Lilian escreveu contando que você é médico. Não posso nem dizer como fiquei orgulhoso,. Seu pai deve ter

se sentido... - Não continuou.

Depois de um silêncio, Jay disse.

- Eu era mais chegado ao seu pai do que aos meus irmãos.

- Ele sempre se considerou um homem de sorte por ser seu amigo. Geiger fez um gesto afirmativo.

- Eles o esperam?

- Não. Eu fiquei sabendo há poucos dias. Soldados da União foram ao meu hospital com sua equipe médica e disseram que eu podia ir embora. Vesti roupas civis e tomei

o trem. Quando cheguei a Washington, me disseram que Lincoln estava na rotunda do Capitólio e eu fui até lá. Nunca vi tanta gente. Fiquei um dia inteiro na fila.

- Viu o corpo dele?

- Por alguns momentos. Tinha muita dignidade. Dava vontade de ficar ali e conversar com ele, mas não deixavam a fila parar. Pensei que, se algumas daquelas pessoas

pudessem ver a farda cinzenta na minha sacola, me fariam em pedaços. - Suspirou. - Lincoln teria curado os males da nação. Agora temo que os que estão no poder façam

uso do seu assassinato para oprimir o sul.

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Geiger calou-se porque estavam entrando no caminho que levava à sua casa. Xamã conduziu Boss para a porta lateral usada pela família.



- Quer entrar? - perguntou Jay.

Xamã sorriu e balançou a cabeça. Esperou Jay tirar a sacola da charrete e caminhar muito empertigado para a porta. Era a sua casa e ele entrou sem bater. Xamã estalou

a língua para Boss e foi embora.

No dia seguinte, quando terminou de atender os pacientes no dispensário, Xamã seguiu pelo Caminho Longo para a casa dos Geiger. Bateu à porta e Jason atendeu. Bastou

um olhar para saber que Rachel tinha contado tudo ao pai.

- Entre.


- Muito obrigado, Jay.

As crianças reconheceram a voz de Xamã e correram para ele, o que não contribuiu para melhorar as coisas. Joshua abraçou uma perna de Xamã e Hattie a outra. Lillian

apareceu correndo da cozinha e os levou com ela, cumprimentando Xamã com uma breve inclinação da cabeça. As crianças a acompanharam protestando.

Jay levou Xamã para a sala e apontou para uma cadeira.

Xamã sentou, obedientemente.

- Meus netos têm medo de mim.

- Eles ainda não o conhecem. Lillian e Rachel falavam de você o tempo todo. Vovô isto e zaydeh aquilo. Assim que eles o identificarem com o bom vovô, deixarão de

ter medo. - Ocorreu a Xamã que Geiger podia não gostar da sua atitude um tanto condescendente em relação aos próprios netos e mudou de assunto. - Onde está Rachel?

- Saiu para andar um pouco. Ela está... aborrecida. Xamã fez um gesto afirmativo.

- Ela falou a meu respeito. Jason confirmou com um gesto.

- Eu a amei toda a minha vida. Graças a Deus não sou mais um garoto... Jay, sei do que você tem medo.

- Não, Xamã. Com todo respeito, você jamais saberá. Aquelas duas crianças têm o sangue de altos sacerdotes. Devem ser criadas como judeus.

- Pois serão. Conversamos muito sobre isso. Rachel não vai abandonar suas crenças. Joshua e Hattie podem ser instruídos por você, o homem que instruiu a mãe deles.

Eu gostaria de aprender hebraico com eles. Estudei um pouco no colégio.

- Você vai se converter?

- Não... na verdade, estou pensando em me tornar quacre. Geiger ficou em silêncio.

- Se sua família vivesse isolada numa cidade com pessoas do seu povo, você podia prever com quem seus filhos se casariam. Mas você os trouxe para o grande mundo.

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- Sim, eu sou responsável. Agora, devo conduzi-los de volta. Xamã balançou a cabeça.

- Eles não irão. Não podem. Jay ficou impassível.

- Rachel e eu vamos nos casar. E se vocês a ferirem mortalmente cobrindo os espelhos de preto e cantando a oração dos mortos, eu pedirei a ela para ir comigo e com

os filhos para bem longe daqui.

Por um momento, Xamã temeu o lendário génio explosivo de Geiger, mas ele apenas balançou a cabeça.

- Esta manhã ela me disse que iria.

- Ontem, você disse que meu pai estava mais perto do seu coração do que seus irmãos. Eu sei que você ama a família dele. Sei que me ama. Não podemos nos querer bem

por aquilo que somos?

Jason empalideceu.

- Parece que temos de tentar - disse, com voz pesada. Levantou e estendeu a mão.

Xamã ignorou a mão estendida e o envolveu num grande abraço. Logo sentiu a mão de Geiger batendo de leve nas suas costas.

Na terceira semana de abril, o inverno voltou a Illinois. A temperatura caiu e nevou. Xamã preocupou-se com os pequenos botões nos pessegueiros. O trabalho de construção

parou, mas ele e Ericsson percorreram a casa dos Cole escolhendo os lugares para as prateleiras e armários de instrumentos. Concluíram satisfeitos que não precisariam

fazer muitas alterações na estrutura para converter a casa numa clínica.

Quando parou de nevar, Doug Penfield aproveitou o frio para fazer parte do abate da primavera, como tinha prometido a Sarah. Xamã passou pelo barracão do abatedouro

e viu três porcos amarrados, dependurados pelas pernas traseiras numa viga alta. Achou que três era demais. Rachel não ia usar presunto nem carne de porco defumada

em sua casa e ele sorriu, pensando nas complexidades interessantes da vida que ia começar. Os porcos já tinham sido dessangrados, limpos, mergulhados em água fervendo

e raspados. A carne era rosada e de repente Xamã parou. Viu três pequenos orifícios iguais nas grandes veias dos pescoços dos animais, por onde o sangue fora retirado.

Ferimentos triangulares, como as marcas de bastões de esqui na neve.

Não precisava medi-los para saber que eram do tamanho certo.

Estava parado, petrificado quando Doug saiu do barracão com a serra de carne.

- Aqueles buracos. Com o que são feitos?

- Com o furador de porcos de Alden. - Doug sorriu. - O mais engraçado é que desde que comecei a trabalhar no abate, pedi a Alden para fazer um furador para mim.

Eu vivia pedindo. Ele sempre dizia que ia fazer. Dizia que furar os porcos era melhor do que cortar a garganta.

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Disse que tinha um, mas perdeu. Mas nunca fez um para mim. Então derrubamos a casa dele e lá estava o furador, debaixo do assoalho. Ele deve ter largado o furador



para consertar o assoalho e pôs a tábua por cima, sem perceber. Nem precisei amolar muito.

Xamã segurou o furador. Era o instrumento que Barney McGowan não tinha conseguido identificar, quando Xamã descreveu os ferimentos no corpo de Makwa-ikwa. Não estava

entre os que eram usados no laboratório de patologia do hospital de Cincinnati. Tinha cerca de 50 centímetros de comprimento. O cabo era redondo e liso, fácil de

segurar. Como o pai de Xamã tinha suposto durante a autópsia, os doze últimos centímetros da lâmina triangular eram denteados, de modo que, quanto mais se aprofundava

no tecido, maior era o ferimento. As três lâminas brilhavam ameaçadoramente, obviamente muito afiadas. Alden sempre gostou de usar bom aço.

Xamã podia ver o braço levantando e abaixando. Levantando e abaixando.

Onze vezes.

Ela não devia ter gritado nem chorado. Xamã imaginou que devia estar escondida bem dentro dela mesma, no lugar onde não existia dor. Desejou fervorosamente que fosse

verdade.

Xamã deixou Doug e caminhou pelo Caminho Curto segurando o instrumento com o braço estendido para a frente, como se as lâminas de aço pudessem se transformar em

serpentes venenosas. Passou pelas árvores, pelo túmulo de Makwa e pela ruínas do hedonoso-te. Chegando na margem do rio, ergueu o braço para trás e atirou com força.

O objeto girou e girou, deslizando no ar da primavera, refletindo o tempo todo a luz do sol, como uma espada. Mas não era Excalibur. Nenhum braço enviado por Deus

ergueu-se da água para apanhá-lo e brandi-lo. Ao invés disso, cortou a água e desapareceu nas profundezas do rio quase sem perturbar a superfície. Xamã sabia que

o rio não o devolveria, e um peso que carregava há anos - há tanto tempo que quase não o percebia mais - saiu dos seus ombros e voou como um pássaro.

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A PEDRA FUNDAMENTAL



No fim de abril não havia mais neve, nem mesmo nos esconderijos secretos do rio, onde a sombra das árvores era mais densa. Os brotos dos

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pessegueiros estavam queimados pela geada, mas nova vida começava a surgir sob o tecido escuro, empurrando os botões verdes que se transformariam em flores. No dia

13 de maio, dia da grande cerimónia da pedra fundamental, na fazenda Cole, o tempo estava bom. Logo depois do meiodia, o reverendíssimo James Duggan, bispo da diocese

de Chicago, desceu do trem em Rock Island, acompanhado por três monsenhores.

Foram recebidos pela madre Míriam Ferocia e duas carruagens de aluguel, que os levaram para a fazenda, onde os convidados os esperavam. Lá estavam quase todos os

médicos da região, as freiras enfermeiras e o padre confessor do convento, os fundadores da cidade, vários políticos, incluindo Nick Holden e o congressista John

Kurland, além de vários cidadãos. Míriam Ferocia os recebeu com voz firme, mas com o sotaque mais acentuado do que nunca, o que acontecia sempre que ficava nervosa.

Apresentou os prelados e pediu ao bispo Duggan para abrir a cerimónia.

Então ela apresentou Xamã, que os conduziu a um passeio pelas terras. O bispo, um homem grande, rosto corado e cabelos fartos e grisalhos, evidentemente ficou satisfeito

com o que viu. Quando chegaram ao local da construção, o congressista Kurland fez um discurso breve, descrevendo o que o hospital ia significar para seus eleitores.

Míriam Ferocia entregou uma pá ao bispo Duggan, que cavou a terra como se já tivesse feito aquilo antes. Foi a vez da superiora, depois a de Xamã, seguido pelos

políticos e várias outras pessoas que queriam poder contar aos filhos que tinham ajudado a fazer a primeira escavação para o Hospital de São Francisco.

Em seguida, todos se encaminharam para a recepção no convento. Houve mais passeios - para conhecer o jardim, os rebanhos de ovelhas e de cabras, no campo, o celeiro,

e finalmente o convento.

Míriam Ferocia precisava agir com cuidado para receber o bispo condignamente sem parecer extravagante nos seus gastos. Conseguiu isso admiravelmente, usando produtos

do convento para fazer queijo e pastelaria, servida quente, acompanhando o chá e o café. Tudo parecia correr muito bem, mas Xamã tinha a impressão de que Míriam

Ferocia ficava cada vez mais ansiosa. Ele a surpreendeu olhando pensativamente para Nick Holden, que estava sentado na poltrona de couro perto da mesa de trabalho

da superiora.

Quando Holden se levantou, ela parecia esperar alguma coisa, olhando continuamente para o bispo Duggan.

Xamã conhecera o bispo na fazenda e havia conversado com ele. Agora, aproximou-se e, logo que teve oportunidade, disse:

- Excelência, está vendo a grande poltrona de couro com braços de madeira entalhada, atrás de mim?

O bispo ficou intrigado.

- Sim, estou.

- Excelência, essa poltrona foi transportada numa carroça,

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através da planície, pelas primeiras freiras que vieram para cá. Elas a chamam de poltrona do bispo. Seu sonho sempre foi que, um dia, quando o bispo as visitasse,

haveria uma boa cadeira para ele descansar.

O bispo Duggan balançou a cabeça afiimativamente, muito sério, mas o riso brilhava nos seus olhos.

- Dr. Cole, acredito que o senhor vai longe - disse ele. Era um homem circunspecto. Aproximou-se do congressista e falaram sobre o futuro dos capelães do exército,

agora que a guerra tinha terminado. Depois de alguns minutos, dirigiu-se a Miriam Ferocia.

- Venha, madre - disse ele. - Vamos conversar um pouco. - Puxou uma cadeira para perto dele e sentou-se rta poltrona de couro, com

um suspiro de prazer.

Logo estavam entretidos, falando sobre assuntos do convento. A madre Miriam Ferocia, na cadeira de espaldar reto, observava que o bispo parecia confortavelmente

sentado, quase regiamente - as costas bem apoiadas, as mãos descansadas nas extremidades dos braços entalhados. A irmã Mary Peter Celestine, servindo os doces, viu

a expressão radiante da superiora. Olhou para a irmã Mary Benedicta, que servia o café, e trocaram um sorriso.

Na manhã seguinte, o xerife e um assistente apareceram de charrete na fazenda Cole, com o corpo de uma mulher gorda de meia-idade, com cabelos longos, castanhos

e sujos. O xerife não sabia quem ela era. O corpo fora descoberto na parte de trás de uma carroça fechada, de carga, que acabava de trazer sacas de açúcar e de farinha

para o armazém

de Haskins.

- Achamos que ela entrou no vagão em Rock Island, mas lá ninguém sabe nada sobre ela - disse o xerife.

Eles a levaram para o barracão e a puseram sobre a mesa.

- Lição de anatomia - Xamã disse para Alex.

Eles a despiram. A mulher não estava limpa e Alex viu Xamã tirar piolhos é palha do cabelo, com um pente fino. Xamã usou o bisturi feito por Alden para a incisão

em Y que abria o peito. Cortou as costelas e retirou o esterno explicando o que era cada coisa e o que estava fazendo, e, quando ergueu os olhos, viu que Alex controlava-se

para continuar ali.

- Por mais sujo que esteja, o corpo humano é um milagre para ser admirado e respeitado. Quando a pessoa morre, a alma, ou o espírito - o que os gregos chamam de

anemos -, o abandona. Os homens sempre têm discutido se o espírito também morre ou se vai para outro lugar qualquer. Xamã sorriu, lembrando a mensagem ouvida do

pai e de Barney, e extremamente satisfeito por estar passando esse legado ao irmão. - Quando papai estudou medicina, um dos seus professores dizia que o espírito

deixa o corpo como um homem deixa a casa onde sempre viveu. Papai dizia que devemos tratar o corpo com dignidade como prova de respeito à pessoa que morava na casa.

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Alex fez um gesto afirmativo. Xamã percebeu que ele se inclinava para a mesa com interesse genuíno e que a cor começava a voltar ao seu rosto enquanto observava



as mãos de Xamã.

Jay ofereceu-se para ensinar química e farmacologia a Alex. Naquela tarde, sentados na varanda da casa dos Cole, estudavam a tabela dos elementos enquanto Xamã lia,

e ocasionalmente cochilava. Jay e Alex foram obrigados a deixar os livros e Xamã a sesta, com a chegada de Nick Holden. Xamã percebeu que Alex cumprimentou Nick

cortesmente mas sem efusividade.

Nick estava ali para se despedir. Ainda era comissário para Assuntos Indígenas e ia voltar para Washington.

- Então o presidente Johnson pediu ao senhor para ficar? - perguntou Xamã.

- Só por algum tempo. Ele vai usar seus próprios homens, não tenha dúvida - disse Nick, com uma careta. Disse que toda Washington estava agitada com o rumor de uma

ligação do ex-vice-presidente com o assassino de Lincoln. - Dizem que foi descoberto um bilhete para Johnson assinado por John Wilkes Booth. E que na tarde do crime,

Booth foi ao hotel de Johnson e perguntou por ele, na portaria, onde informaram que ele não estava no hotel naquele momento.

Xamã ficou pensando se em Washington assassinavam tanto presidentes quanto reputações.

- Já perguntaram alguma coisa a Johnson sobre essas histórias?

- Ele prefere ignorar. Limita-se a agir como presidente e falar sobre como reduzir o déficit causado pela guerra.

- O maior déficit provocado pela guerra não pode ser reduzido - disse Jay. - Um milhão de homens foram feridos ou mortos. E mais vão morrer, porque existem ainda

focos de resistência dos confederados.

Eles remoeram a terrível idéia.

- O que teria acontecido a este país se não tivesse havido guerra? - perguntou Alex, de repente. - Se Lincoln tivesse deixado o sul separarse em paz?

- A Confederação teria durado pouco - disse Jay. - Os sulistas acreditam no próprio estado e não confiam no governo central. As divergências iam surgir de imediato.




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