Noah Gordon, o xamã



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Alex não falou muito sobre os eventos do dia.

- Demos umas voltas, conversamos - sorriu. - Isto é, ele falou e eu ouvi. Jantamos muito bem na casa de Anna Wiley. - Deu de ombros. Mas parecia pensativo e foi

cedo para a cama, cansado com a atividade do dia.

Na manhã seguinte, Nick e a carruagem voltaram. Dessa vez, Nick levou Alex a Rock Island e à noite Alex descreveu o ótimo almoço e o jantar no hotel.

No terceiro dia, foram a Davenport. Alex chegou em casa mais cedo do que nas vezes anteriores e Xamã o ouviu desejar a Nick uma boa viagem de volta a Washington.

- Farei contato com você, se puder - disse Nick.

- Será um prazer, senhor.

Naquela noite, quando Xamã subiu para seu quarto, Alex o chamou.

- Nick quer me reconhecer como filho - disse ele.

- Reconhecer você?

- Sim. No primeiro dia ele disse que o presidente Lincoln pediu sua demissão para nomear outra pessoa. Nick diz que quer voltar a viver em Holden’s Crossing. Não

quer casar, mas quer um filho. Disse que sempre soube que era meu pai. Passamos três dias visitando as propriedades dele. É dono também de uma próspera fábrica de

lápis na região oeste da Pensilvânia, e quem sabe o que mais. Quer que eu seja seu herdeiro e que mude meu nome para Holden.

Xamã sentiu primeiro tristeza, depois raiva.

- Bem, você disse que não queria dirigir uma fazenda.

- Eu disse a Nick que não tinha dúvida sobre quem era meu pai. Meu pai foi aquele que agüentou todas as minhas diabruras e loucuras da juventude e que me deu disciplina

e amor. Eu disse a ele que meu nome é Cole.

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Xamã tocou o ombro do irmão. Não podia falar, mas inclinou a cabeça. Depois, beijou Alex no rosto e foi para a cama.

No dia em que a perna artificial devia estar pronta, eles voltaram à pequena oficina. Wallace tinha esculpido o pé com perfeição, para usar meia e sapato. O que

restava da perna de Alex encaixou na perna artifi ciai, presa com tiras de couro, abaixo e acima do joelho.

Desde o primeiro instante, Alex detestou aquela perna. A dor era quase insuportável.

- Isso é porque sua perna ainda está sensível - disse Wallace. - Quanto mais usar a perna artificial, mais depressa vai criar calos na extremidade e logo não vai

mais sentir dor.

Pagaram a perna e a levaram para casa. Mas Alex a deixou no armário do hall e andava se arrastando com a muleta feita por Jimmie-Joe no campo de prisioneiros.

Certa manhã, em meados de março, Billy Edwards estava manobrando uma carroça cheia de toras de madeira no pátio do celeiro, tentando virar para o lado a parelha

de bois emprestada pelo jovem Mueller. Alden estava atrás da carroça, apoiado na bengala, gritando instruções para o atrapalhado Edwards.

- Faça eles virem para trás, rapaz! Para trás!

Billy obedeceu. Era lógico supor que, se Alden estava mandando ir para trás, ele ia sair de onde estava. Um ano antes, Alden teria feito isso facilmente, sem problemas,

mas agora, embora o cérebro o mandasse se mexer, ele não conseguiu fazer com que a mensagem chegasse até as pernas. A ponta de uma tora atingiu o lado direito do

seu peito com a força de um aríete, ele foi atirado para longe e ficou deitado imóvel na neve enlameada.

Billy entrou correndo no dispensário, onde Xamã atendia uma cliente nova chamada Molly Thornwell, cuja gravidez tinha sobrevivido à longa viagem do Maine a Holden’s

Crossing.

- É Alden. Acho que eu o matei - disse Billy.

Levaram Alden para dentro e o puseram na mesa da cozinha. Xamã cortou a roupa e o examinou cuidadosamente.

Alex, muito pálido, desceu a escada pulando numa perna só e chegou na cozinha. Olhou para Xamã.

- Ele tem várias costelas quebradas. Não pode ser tratado na casa dele. Vou levá-lo para o quarto de hóspedes, Alex, e vou dormir no seu quarto.

Alex concordou. Afastou-se para o lado e Xamã e Billy levaram Al den para cima e o puseram na cama.

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Um pouco depois, Alex teve oportunidade de ser os ouvidos de Xamã, afinal. Escutou atentamente o peito de Alden e descreveu o que tinha ouvido.



- Ele vai ficar bom?

- Eu não sei - disse Xamã. - Os pulmões aparentemente não foram atingidos. Costelas quebradas podem ser suportadas por uma pessoa jovem e saudável. Mas na idade

dele, e com a doença...

- Eu fico aqui e tomo conta dele.

- Tem certeza? Posso pedir enfermeiras à madre Míriam.

- Por favor, eu quero fazer isso - disse Alex. - Tenho tempo de sobra.

Assim, além dos clientes que confiavam nele, Xamã tinha duas pessoas da sua casa que precisavam dos seus cuidados. Embora fosse um médico paciente, descobriu que

tratar de pessoas queridas não era o mesmo que tratar de outros clientes. Havia uma inquietação especial, uma urgência diferente no senso de responsabilidade e no

sentimento. A cada dia, quando voltava para casa, as sombras pareciam maiores e mais escuras.

Porém, havia momentos de luminosidade. Certa tarde, para sua imensa satisfação, Joshua e Hattie foram visitá-lo, só os dois. Era sua primeira viagem sem a companhia

de um adulto pelo Caminho Longo e, muito sérios, perguntaram se Xamã tinha tempo para brincar com eles. Xamã sentiu-se feliz e honrado em passar uma hora no bosque

com as duas crianças, para ver as primeiras centáureas azuis e as claras pegadas de um veado.

Alden estava sofrendo. Xamã deu a ele morfina, mas, para Alden, o melhor remédio para a dor era o destilado de cereal.

- Está bem, dê o uísque a ele - Xamã disse para Alex. - Mas com moderação, entendeu?

Alex fez que sim com a cabeça e obedeceu. O quarto de hóspedes tinha agora o cheiro característico de Alden, mas ele só podia tomar duas doses ao meio-dia e duas

doses à noite.

Às vezes, Sarah e Lillian substituíam Alex. Uma noite, Xamã ficou com o doente, sentado ao lado da cama, lendo uma revista de medicina que tinha chegado de Cincinnati.

Alden estava inquieto, cochilando e acordando a todo momento. Meio adormecido, resmungava e falava com pessoas invisíveis, revivendo conversas com Doug Penfield,

praguejando contra os predadores das ovelhas. Xamã estudou o rosto velho e enrugado, os olhos cansados, o nariz grande e vermelho com pêlos grandes nas narinas,

pensando em Alden, como o tinha conhecido, forte e capaz, o antigo lutador do parque de diversões que ensinara os meninos Cole a usar os punhos.

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Alden aquietou e dormiu profundamente por algum tempo. Xamã terminou o artigo sobre fraturas e começou a ler sobre catarata, quando ergueu os olhos e viu Alden olhando



para ele, muito calmo, com uma expressão dura e tranqüila, num breve momento de lucidez.

- Eu não queria que ele tentasse matar você - disse Alden. - Só pensei que ele ia lhe pregar um susto.

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UMA VIAGEM A NAUVOO



Dormindo no mesmo quarto, às vezes Xamã e Alex tinham a impressão de serem garotos outra vez. Ao nascer de um dia, os dois acordados, Alex acendeu a luz e descreveu

para o irmão os sons do começo da primavera - o luxuriante canto dos pássaros, o tilintar impaciente dos regatos começando sua corrida anual para o mar, o rugido

violento do rio, o estalo e o impacto ocasional da colisão dos grandes pedaços de gelo. Mas Xamã não estava pensando nas características da natureza, pensava na

natureza do homem, e lembrando coisas e somando fatos que, de repente, se ligavam em muitos sentidos. Mais de uma vez, no meio da noite, ele levantou da cama e,

caminhando pelo chão gelado da casa, desceu para consultar o diário do pai.

E vigiava Alden com cuidado especial e uma estranha espécie de ternura fascinada, uma vigilância nova e fria. Às vezes olhava para o velho empregado como se o estivesse

vendo pela primeira vez.

Alden continuava na semi-inconsciência agitada. Porém, uma noite, quando Alex ouviu o estetoscópio, disse, com olhos tristonhos.

- Tem um novo som... como duas mechas de cabelo esfregadas entre os dedos.

Xamã fez um gesto afirmativo.

- Chama-se estertor.

- O que significa?

- Alguma coisa errada com os pulmões - disse Xamã.

No dia 9 de abril, Sarah Cole e Lucian Blackmer casaram na Primeira Igreja Batista de Holden’s Crossing. A cerimônia foi oficiada pelo reverendo Gregory Bushman,

cujo púlpito Lucian ia ocupar em Davenport.

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Sarah estava com seu melhor vestido cinzento, alegrado por Lillian com gola e punhos de renda branca terminados por Rachel no dia anterior.

O Sr. Bushman falava bem, obviamente satisfeito por casar um pastor, seu companheiro em Cristo. Alex disse para Xamã que Lucian fez os votos com a voz confiante

do pregador e Sarah com voz suave e trêmula. Quando terminou a cerimônia e os noivos se voltaram, Xamã viu que a mãe sorria por trás do véu curto.

Depois da cerimônia, a congregação foi toda para a casa dos Cole. Quase todos chegavam com um prato de comida coberto, mas Sarah e Alma Schroeder tinham cozinhado

e Lillian tinha feito doces e bolos durante uma semana inteira. Todos comeram e comeram, e Sarah exibia sua felicidade.

- Nós acabamos com os presuntos e as salsichas do depósito de primavera. Este ano vocês vão precisar abater ovelhas na primavera - ela disse para Doug Penfield.

- O prazer será todo meu, Sra. Blackmer - disse Doug galantemente, a primeira pessoa a chamá-la pelo novo nome.

Quando o último convidado partiu. Sarah apanhou sua valise e beijou os filhos. Lucian a levou no seu pequeno carro de quatro rodas ate a casa da paróquia, onde ficariam

alguns dias antes de mudarem para Davenport.

Um pouco depois, Alex foi até o armário do hall, apanhou a perna feita por Wallace e a amarrou sem pedir ajuda. Xamã sentou no escritório para ler revistas de medicina.

De minuto em minuto, Alex passava pela porta aberta, atravessando o hall com passos hesitantes, para lá e para cá. Xamã sentia o impacto da perna artificial erguida

muito alto e depois abaixada e sabia a dor que cada passo significava para o irmão.

Quando ele entrou no quarto, Alex já estava dormindo. A meia e o sapato estavam na perna artificial, perto do pé direito do sapato de Alex, parecendo estar no lugar

certo.


Na manhã seguinte, Alex foi à igreja com a perna artificial, um presente de casamento para Sarah. Os irmãos não costumavam ir à igreja, mas Sarah tinha pedido para

irem naquele domingo, como parte da cerimônia de casamento e ela não tirou os olhos do filho mais velho quando ele caminhou para o primeiro banco que pertencia ao

pastor e à sua família. Alex apoiava-se numa bengala de freixo que Rob J. costumava emprestar para os pacientes. Às vezes ele arrastava o pé artificial e outras

vezes o levantava demais do chão. Mas ele não perdeu o equilíbrio nem caiu e caminhou com perfeição até onde Sarah estava.

Sentada entre os dois filhos, ela viu o marido conduzir a congregação em suas devoções. O reverendo Blackmer começou o sermão agradecendo a todos que tinham comparecido

ao casamento. Disse que Deus o havia conduzido a Holden’s Crossing e agora o estava conduzindo para

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outro lugar, mas agradecia a todos que tinham dado tanto significado ao seu trabalho.



Ele preparava-se para citar os nomes de alguns dos que haviam ajudado o trabalho do Senhor de forma especial quando sons altos e estranhos entraram pela janela semi-aberta

da igreja. Primeiro soaram gritos fracos de alegria, que logo cresceram intensamente de volume. Uma mulher gritou e ouviram-se outros gritos roucos. Alguém na rua

Principal disparou uma arma e logo depois ouviram um tremendo tiroteio.

A porta da igreja foi aberta bruscamente e Paul Williams entrou. Correu até onde estava o pastor e murmurou urgentemente no ouvido dele.

- Meus irmãos - disse Lucian. Parecia estar com dificuldade para falar. - Uma mensagem telegráfica acaba de chegar a Rock Island. ... Ontem Robert E. Lee rendeu-se

ao general Grant.

Um vozerio discreto percorreu a igreja. Alguns ficaram de pé. Xamã viu Alex inclinado para trás, com os olhos fechados.

- O que significa isso, Xamã? - perguntou Sarah.

- Significa que está tudo acabado, mamãe - disse Xamã.

Nos quatro dias seguintes Xamã teve a impressão de que, por toda a parte, todos estavam embriagados de paz e de esperança. Até os doentes graves sorriam e diziam

que os dias melhores haviam chegado e havia entusiasmo e risos, bem como lágrimas, porque cada pessoa conhecia alguém que não tinha voltado.

Naquela quarta-feira, quando voltou para casa, depois das visitas, encontrou Alex, num misto de esperança e ansiedade porque havia cer tas mudanças em Alden que

ele não compreendia. Disse também que o estertor no peito parecia mais forte.

- E acho que ele está muito quente.

- Está com fome, Alden? - perguntou Alex.

Alden olhou para ele mas não respondeu. Xamã mandou Alex levantá-lo na cama e conseguiram fazer com que tomasse um pouco de caldo, o que foi difícil porque o tremor

estava muito pior. Há dias ele só tomava sopa ou mingau, porque Xamã temia que ele aspirasse comida para os pulmões.

Na verdade, Xamã não podia fazer muita coisa por ele. Derramou turpentina numa vasilha com água fervendo e fez uma tenda com o cobertor, envolvendo a vasilha e o

rosto de Alden. Alden respirou o vapor por um longo tempo e depois teve um acesso de tosse tão forte e demorado, que Xamã removeu a tenda e a vasilha e não tentou

mais aquele tratamento.

A alegria daquela semana transformou-se em horror na tarde de sexta feira, quando Xamã passava pela rua Principal. Ele percebeu imediatamente

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que havia acontecido uma enorme catástrofe. O povo falava baixo, reunido em pequenos grupos. Viu Anna Wiley, encostada numa trave da varanda da pensão, chorando.

Simeon Cowan, marido de Dorothy Burnham Cowan, estava sentado na charrete com os olhos semicerrados, segurando o lábio inferior com o indicador e o polegar chato.

- O que aconteceu? - Xamã perguntou para Simeon. Estava certo de que a paz fora anulada.

- Abraham Lincoln está morto. Assassinado com um tiro num teatro em Washington, por um maldito ator.

Xamã não podia acreditar, mas desmontou e recebeu a confirmação de todos os lados. Ninguém conhecia os detalhes, mas aparentemente era verdade, e ele voltou para

casa para contar a notícia terrível a Alex.

- O vice-presidente vai ficar no lugar dele - disse Alex.

- Sem dúvida, Andrew Johnson já foi empossado. Sentaram na sala por um longo tempo, em silêncio.

- Nosso pobre país - disse Xamã, finalmente.

Era como se a América fosse um paciente, que depois de uma luta árdua e dolorosa para sobreviver à mais terrível doença, fosse agora atirado do alto de um rochedo.

Um tempo de tristeza. Os pacientes que ele visitava estavam sombrios. Todas as noites, o sino da igreja tocava. Xamã ajudou Alex a montar em Trude. Pela primeira

vez ele montou depois da sua captura. Quando voltou, disse para Xamã que o som do sino ecoava longe, na planície, triste e solitário.

Sentado sozinho ao lado da cama de Alden, depois da meia-noite, Xamã ergueu os olhos da leitura e viu o doente olhando para ele.

- Quer alguma coisa, Alden?

Ele balançou a cabeça quase imperceptivelmente. Xamã inclinou-se para ele.

- Alden. Lembra daquela vez em que meu pai ia saindo do celeiro e alguém atirou na altura da cabeça dele. E você procurou nos bosques e não encontrou ninguém?

Os olhos de Alden nem piscaram.

- Foi você quem atirou no meu pai. Alden passou a língua nos lábios.

- ... Atirei para errar... para assustar, para ele ficar quieto.

- Você quer água?

Alden não respondeu, depois disse.

- Como é que você sabe?

- Você disse algo, quando estava passando mal, que me fez compreender uma porção de coisas. Você me deu a idéia de ir a Chicago para procurar David Goodnow. Você

sabia que ele estava completamente louco e mudo. Que eu não ia descobrir nada.

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- ... O que mais você sabe?



- Sei que você está envolvido nessa coisa até o seu maldito pescoço. Outra vez o pequeno movimento de cabeça, assentindo.

- Eu não matei a mulher. Eu... - Alden foi tomado por um acesso de tosse e Xamã segurou uma bacia debaixo do rosto dele para que pudesse cuspir a enorme quantidade

de catarro sanguinolento. Quando o acesso passou, ele estava pálido e exausto e fechou os olhos.

- Alden, por que você contou a Korff onde eu estava?

- Você não desistia. Ficaram assustados em Chicago. Korff mandou umas pessoas para falar comigo, um dia depois de você partir. Eu disse para onde você ia. Pensei

que ele ia só falar com você. Só assustar. Como você me assustou.

Ele respirava com dificuldade. As perguntas cresciam em sua mente, mas Alden estava muito mal. Xamã ficou imóvel, a fúria lutando contra seu juramento. No fim, ele

apenas ficou olhando sem dizer nada. Alden, de olhos fechados, tossia uma vez ou outra, cuspindo um pouco de sangue ou contorcendo o corpo num espasmo.

Quase uma hora depois. Alden começou a falar.

- Eu liderava o partido americano aqui... Naquela manhã ajudei Grueber... no abate. Saí cedo para me encontrar com os três. No nosso bosque. Cheguei, eles já ...

tinham usado a mulher. Ela estava lá deitada, ouviu quando eles falaram comigo. Eu comecei a gritar. Disse, como posso continuar aqui agora? Disse para irem embora,

mas que a índia ia me pôr numa encrenca... Korff não disse nada. Só pegou a faca e matou a mulher.

Xamã não podia perguntar nada naquele momento. Todo seu corpo tremia de raiva. Queria gritar eomo uma criança.

- Eles só me avisaram para não falar e foram embora. Eu fui para casa e arrumei algumas coisas numa caixa. Achei que tinha de fugir... não sabia para onde. Mas ninguém

se importou comigo nem fez nenhuma pergunta depois que a encontraram.

- Você até ajudou a enterrá-la, seu miserável - disse Xamã. Não podia se controlar. Talvez seu tom de voz tivesse atingido Alden mais do que suas palavras. Os olhos

dele se fecharam e ele começou a tossir. Dessa vez, a tosse não parou.

Xamã foi apanhar quinino e fazer um pouco de chá de raiz negra, mas quando tomou o primeiro gole, Alden engasgou e cuspiu, molhando a camisola que precisou ser trocada.

Algumas horas depois Xamã lembrou o empregado que ele tinha conhecido durante toda sua vida. O artesão que fazia varas de pescar e patins de gelo, o homem que os

ensinava a caçar e pescar. O bêbado rabugento.

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O mentiroso. O cúmplice de estupro e assassinato.



Xamã levantou da cadeira, apanhou o lampião e o ergueu acima do rosto de Alden.

- Alden, escute. Que tipo de faca Korff usou? Qual foi a arma, Alden?

Mas os olhos continuaram Techados. Alden Kimball não deu sinal de ter ouvido a voz de Xamã.

Quase de manhã, cada vez que ele tocava em Alden, sentia a febre alta. Alden estava inconsciente. Quando tossia, o catarro cheirava mal e saía misturado com sangue

muito vivo. Xamã tomou o pulso. Cento e oitenta por minuto.

Ele despiu Alden e passou uma esponja com álcool no corpo dele. Quando ergueu os olhos, o dia tinha nascido e Alex espiava na porta.

- Meu Deus. Ele está horrível. Está sentindo dor?

- Acho que não pode sentir mais nada.

Foi duro contar para Alex e foi duro para Alex acreditar no que ouvia, mas Xamã não escondeu nada.

Alex tinha trabalhado com Alden durante muito tempo, partilhando o trabalho cruel e árduo da fazenda, aprendendo a fazer uma porção de coisas e dependendo do homem

mais velho para sua estabilidade, quando se sentia um bastardo sem pai e se revoltou contra a autoridade paterna de Rob J. Xamã sabia que Alex amava Alden.

- Você vai informar às autoridades? - Alex parecia calmo. Só o irmão sabia o quanto estava perturbado.

- Não adianta. Ele está com pneumonia e piorando rapidamente.

- Ele está morrendo?

Xamã fez um gesto afirmativo.

- Para o bem dele, fico satisfeito - disse Alex.

Xamã e Alex conversaram sobre as possibilidades de notificar os parentes. Nenhum dos dois sabia o paradeiro da mulher mórmon e dos filhos abandonados por Alden quando

começou a trabalhar para Rob J.

A pedido de Xamã, Alex revistou a casa de Alden, e voltou com o que tinha encontrado.

- Três garrafões de uísque, duas varas de pescar, um rifle. Ferramentas. Uns arreios que ele estava consertando. Roupa suja. E isto. - Estendeu uma folha de papel.

- Uma lista de nomes de pessoas da região. Acho que devem ser dos membros do partido americano nesta cidade.

Xamã não apanhou a lista.

- Acho melhor queimar.

- Tem certeza?

Xamã fez um gesto afirmativo.

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- Vou passar o resto da minha vida aqui, tratando deles. Quando vou às suas casas como médico, não quero saber qual deles é um Não Sabe de Nada - disse, e Alex compreendeu.

Xamã mandou Billy Edwards ao convento com os nomes de vários pacientes, pedindo a Míriam Ferocia para visitá-los em seu lugar.

Ele estava dormindo quando Alden morreu naquela manhã. Ao acordar, Alex já havia fechado os olhos de Alden, lavado e vestido o corpo.

Doug e Billy ficaram algum tempo ao lado da cama, depois foram para o celeiro e começaram a fazer um caixão.

- Não quero que ele seja enterrado na fazenda - disse Xamã. Alex ficou em silêncio por alguns momentos, depois fez um gesto

afirmativo.

- Podemos levá-lo para Nauvoo. Acho que ele ainda tem amigos entre os mórmons de lá - disse ele.

O caixão foi levado até Rock Island na charrete dos Cole e embarcado no convés de um barco de carga. Os irmãos Cole sentaram num engradado de relhas de arado. Naquele

dia, quando o trem começava a longa viagem para oeste, levando o corpo de Abraham Lincoln, o corpo do criado dos Cole descia o Mississipi.

Em Nauvoo, o caixão foi desembarcado no cais e Alex ficou ao lado dele enquanto Xamã entrava num armazém para explicar sua missão a um funcionário chamado Perley

Robinson.

- Alden Kimball? Não conheço. Precisa permissão da Sra. Bidamon para enterrá-lo aqui. Espere. Vou falar com ela.

Voltou em pouco tempo. A viúva do profeta Joseph Smith conhecia Alden Kimball como um mórmon e ex-habitante de Nauvoo e dava permissão para que ele fosse enterrado

no cemitério local.

O pequeno cemitério ficava no interior. Não se avistava o rio, mas era arborizado e a relva aparada por alguém que sabia usar a foice. Dois jovens fortes cavaram

a sepultura e Perley Robinson, que era um dos membros importantes da seita, leu uma oração interminável do Livro dos Mórmons, enquanto as sombras da tarde se alongavam.

Depois, Xamã cuidou das despesas. O funeral custou sete dólares, incluindo 4,50 dólares pelo terreno.

- Com mais vinte dólares posso providenciar uma bela laje - disse Robinson.

- Está bem - disse Alex, rapidamente.

- Em que ano ele nasceu? Alex balançou a cabeça.

- Não sabemos. Mande gravar apenas. “Alden Kimball. Falecido em 1865.”

- Posso também acrescentar, “Santo”.

Mas Xamã olhou para ele e balançou a cabeça

- Apenas o nome e a data - disse ele.

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Perley Robinson disse que estava na hora da passagem de um barco a vapor. Levantou a bandeira vermelha para indicar que tinha passageiros e logo os Cole estavam



sentados nas cadeiras do convés de bombordo, vendo o sol mergulhar na direção de lowa no céu vermelho como sangue.

- O que o fez entrar para o partido dos Não Sabem de Nada? - disse Xamã.

Alex respondeu que para ele não era surpresa.




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