Noah Gordon, o xamã



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- Por que o sargento-ajudante Korff veio a esta casa?

- Não tenho idéia. - Tinha resolvido não mencionar o assassinato de uma mulher índia, em Illinois, há mais de dez anos, e o fato de que três homens e uma sociedade

política secreta estavam implicados no estupro e morte dessa mulher. Era tudo muito remoto, muito misterioso. Xamã sabia que falar no assunto significaria despertar

a incredulidade daquele oficial desagradável e se expor a vários perigos.

- Quer que aceitemos o fato de que um sargento-ajudante do exército dos Estados Unidos foi morto quando tentava assaltar e roubar?

- Não. Não quero que aceitem coisa alguma. Major Poole, acredita que eu convidei este homem para quebrar a janela da casa que aluguei, entrar ilegalmente, às duas

horas da manhã, e invadir o quarto do meu irmão doente disparando uma arma?

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- Então, por que ele fez isso?

- Eu não sei - disse Xamã, e o major olhou carrancudo para ele.

Enquanto Poole interrogava Xamã, na sala o tenente interrogava Alex. Ao mesmo tempo, os dois soldados e os assistentes do xerife revistavam o celeiro e a casa, a

bagagem de Xamã, esvaziando gavetas e armários. De tempo em tempo, os oficiais interrompiam os interrogatórios e conversavam em particular.

- Por que não me disse que sua mãe é sulista? - O major Poole perguntou a Xamã, depois de uma dessas pausas.

- Minha mãe nasceu na Virgínia, mas viveu em Illinois a maior parte da sua vida. Eu não disse por que o senhor não perguntou.

- Isto foi encontrado na sua maleta de médico. O que significa, Dr. Cole? - Poole pôs sobre a cama três pedaços de papel. - Cada um tem um nome e um endereço. De

quatro sulistas.

- São os endereços de pessoas da família dos companheiros do meu irmão no campo de prisioneiros. Esses homens tomaram conta do meu irmão e o mantiveram vivo. Quando

a guerra terminar, pretendo escrever para saber se estão bem. E se estiverem, agradecer tudo que fizeram.

O interrogatório prosseguiu. Às vezes Poole repetia uma pergunta e Xamã repetia a resposta.

Ao meio-dia, os homens saíram para comprar comida no armazém de Barnard, deixando dois soldados e um dos sargentos na casa. Xamã foi para a cozinha e fez um mingau

para Alex, que parecia perigosamente exausto.

Alex disse que não podia comer.

- Precisa comer, é o único modo de continuar sua luta - disse Xamã, e Alex começou a comer devagar o mingau pastoso.

Depois do almoço, os interrogadores trocaram de lugar, o major com Alex e o tenente com Xamã. No meio da tarde, para irritação dos oficiais, Xamã determinou um intervalo

para mudar o curativo na perna de Alex, observado por todos.

Para espanto de Xamã, o major Poole pediu a ele para acompanhar três soldados ao local no bosque onde tinha queimado o pedaço da perna de Alex. Xamã indicou o lugar

e eles cavaram a neve e examinaram os restos do fogo, até encontrarem pequenos pedaços da tíbia e do perónio, que enrolaram num lenço. Os homens foram embora no

fim do dia. A casa parecia agora abençoadamente vazia, mas insegura e violada. Tinham pregado um cobertor na janela quebrada, o assoalho estava cheio de lama e o

ar guardava o cheiro dos cachimbos e dos corpos.

Xamã esquentou a sopa de caldo de carne. Com satisfação viu Alex comer com apetite grandes porções de carne e legumes, além de tomar

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todo o caldo. Isso estimulou o apetite de Xamã e depois da sopa eles comeram pão com geléia e tomaram café fresco.



Xamã carregou Alex para cima e o deitou na cama da Sra. Clay. Preparou o irmão para dormir e sentou ao lado dele, até tarde. Depois, foi para o quarto de hóspedes

e deitou exausto, procurando esquecer as manchas de sangue no chão. Naquela noite, eles dormiram pouco.

Na manhã seguinte, o xerife e seus assistentes não apareceram, mas os militares chegaram antes de Xamã terminar de lavar a louça do café.

No começo parecia que iam repetir a rotina da véspera, mas a manha ainda não tinha chegado ao meio quando um homem bateu na porta e se apresentou como George Hamilton

Crockett, comissário assistente dos Estados Unidos do Departamento de Assuntos Indígenas, com sede em Albany. Ele e o major Poole conversaram durante um longo tempo.

O Sr. Crockett entregou ao major alguns papéis que ambos consultaram várias vezes durante a conversa.

Então, os soldados apanharam suas coisas e vestiram os casacos. Seguindo o major Poole, visivelmente desapontado, eles foram embora.

O Sr. Crockett ficou mais algum tempo, conversando com os irmãos Cole. Disse que tinha recebido várias mensagens de Washington no seu escritório.

- Foi um infeliz incidente. O exército não quer aceitar o fato de ter perdido um dos seus homens na casa de um soldado confederado. Estão acostumados a matar confederados

que matam unionistas.

- Deixaram isso bem claro, com as perguntas e a insistência - disse Xamã.

- Vocês não têm nada a temer. As provas são óbvias. O cavalo do sargento-ajudante Korff estava escondido, amarrado no bosque. As pegadas do sargento, na neve, iam

do cavalo à janela dos fundos da casa. O vidro estava quebrado e a janela aberta. Quando examinaram o corpo, ele ainda segurava a arma que tinha disparado dois tiros.

No calor dos tempos de guerra, uma investigação inescrupulosa podia ignorar a forte evidência deste caso, mas não quando pessoas poderosas interessadas a estão acompanhando

de perto.

Crockett sorriu e transmitiu as calorosas lembranças do Sr. Nicholas Holden.

- O comissário pediu-me para dizer que, se fosse necessário, ele viria em pessoa a Elmira. Sinto-me feliz por poder dizer a ele que não precisa fazer essa viagem.

Na manhã seguinte o major Poole mandou um dos seus sargentos com o recado de que os irmãos Cole não deviam sair de Elmira enquanto a investigação não estivesse oficialmente

concluída. Perguntaram ao sargento quando ia ser isso e ele disse, delicadamente, que não sabia. Assim, eles ficaram na pequena casa. A Sra. Clay soube o que tinha

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acontecido e apareceu muito pálida, olhando em silêncio para a janela quebrada e com horror para os buracos de bala e as manchas de sangue no chão. Seus olhos se

encheram de lágrimas quando viu a gaveta destruída da cômoda.

- Era da minha mãe.

- Vou mandar consertar a cômoda e todo o resto - disse Xamã. - Pode me indicar um carpinteiro?

Ela mandou o carpinteiro naquela mesma tarde, um homem idoso, magro e alto, chamado Bert Clay, primo do falecido marido da Sra. Clay. Ele balançou a cabeça, fez

tsk, tsk, mas começou a trabalhar imediatamente, consertando primeiro a janela. O quarto era mais complicado. As tábuas lascadas do assoalho tinham de ser substituídas

e as manchas de sangue raspadas e a madeira acertada. Bert disse que ia tampar os buracos na parede com massa e pintar o quarto. Mas olhou para a gaveta da cômoda

e balançou a cabeça.

- Eu não sei. Isso é bordo olho-de-pássaro. Talvez eu encontre um pedaço em algum lugar, mas vai custar caro.

- Pode comprar - disse Xamã.

O trabalho todo levou uma semana. Quando Bert terminou, a Sra. Clay inspecionou tudo cuidadosamente. Agradeceu a Bert e disse que estava tudo muito bom, inclusive

a gaveta da cômoda. Mas tratou Xamã com frieza e ele compreendeu que a casa nunca mais seria a mesma para ela.

Todos o tratavam com frieza. O Sr. Barnard não sorria mais, nem tagarelava quando Xamã ia ao armazém e ele via as pessoas, na rua, olhando para ele e cochichando.

Essa animosidade geral começava a dar nos seus nervos. O major Poole tinha confiscado o Colt e Xamã e Alex sentiam-se desprotegidos. Xamã dormia com o atiçador de

fogo e uma faca de cozinha ao lado da cama e ficava muito tempo acordado, sentindo a casa estremecer com a força do vento e procurando sentir a vibração de passos

intrusos.

Ao cabo de três semanas Alex estava mais gordo e com melhor aparência, mas ansioso para ir embora e foi com alívio que receberam a permissão de Poole para sair da

cidade. Xamã ajudou Alex a vestir as roupas civis que havia comprado para ele, prendendo a bainha da perna esquerda da calça com um alfinete. Alex tentou andar com

a muleta, mas era difícil.

- Eu me sinto adernado sem toda aquela parte da perna - ele disse e Xamã garantiu que ele ia se acostumar.

Xamã comprou um queijo inteiro redondo no armazém de Barnard e o deixou na mesa, para a Sra. Clay. Um pedido de desculpas. Combinou com o dono do estábulo deixar

o cavalo e a carroça na estação e Alex mais uma vez viajou no meio da palha, como quando saiu do campo. Quando o trem chegou, Xamã o carregou para o vagão e o sentou

perto da janela. Alguns olhavam com curiosidade, outros viravam o rosto.

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Os dois falaram pouco, mas quando o trem saiu, com um tranco, da estação de Elmira, Alex pôs a mão no braço do irmão, num gesto que valia mais do que todas

as palavras.

Voltaram para casa fazendo um caminho mais para o norte do que fizera Xamã para chegar a Elmira. Ele preferiu ir direto a Chicago, ao invés de Cairo, porque não

acreditava que o Mississipi estivesse descongelado quando chegassem a Dês Moines. Foi uma viagem difícil. O balanço do trem provocava dores fortes e contínuas na

perna de Alex. Fizeram várias baldeações e, em cada uma, Alex tinha de ser carregado de um trem para outro. Os trens raramente chegavam e partiam no horário. Várias

vezes o trem em que viajavam parava numa linha auxiliar para dar passagem aos vagões cheios de soldados. Certa vez, por quase oitenta quilômetros, Xamã conseguiu

duas poltronas estofadas num vagão especial, mas a maior parte do tempo viajavam nos bancos duros de madeira. Quando chegaram a Erie, Pensilvânia, Xamã viu manchas

brancas nos cantos da boca de Alex e compreendeu que o irmão não podia mais viajar.

Foram para um hotel, para Alex descansar numa cama macia. Naquela noite, enquanto trocava o curativo, contou para Alex algumas coisas do diário do pai.

Contou o que tinha acontecido aos três homens que violentaram e assassinaram Makwa-ikwa.

- Acho que foi por minha culpa que Henry Korff foi atrás de nós. No asilo, em Chicago, quando visitei David Goodnow, falei demais sobre os assassinos. Perguntei

sobre a Ordem da Bandeira de Estrelas e Listras e sobre Hank Cough, deixando a impressão de que pretendia me vingar, se pudesse. Alguém do asilo provavelmente é

um membro da ordem - talvez todos que dirigem o asilo! Certamente informaram Korff e ele resolveu nos matar.

Alex ficou calado por um momento, depois olhou preocupado para o irmão.

- Mas, Xamã... Korff sabia onde estávamos. Isso significa que alguém em Holden’s Crossing disse a ele que você ia para Elmira.

Xamã concordou.

- Tenho pensado muito nisso - disse, finalmente.

Chegaram a Chicago uma semana depois de saírem de Elmira. Xamã mandou uma mensagem telegráfica para a mãe, avisando que estava levando Alex para casa. Disse que

Alex tinha perdido parte da perna e pediu a ela para esperá-los na estação.

Quando o trem chegou em Rock Island, com uma hora de atraso, Sarah estava na plataforma com Doug Penfield. Xamã carregou Alex

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para fora do trem e Sarah envolveu o filho nos braços e chorou sem dizer nada.



- Deixe-me largar Alex em algum lugar, está muito pesado - disse Xamã, pondo Alex no banco do pequeno carro de quatro rodas. Alex chorava também. Finalmente ele

disse.


- Mamãe, você está muito bem.

Sarah sentou ao lado do filho, segurando a mão dele. Xamã tomou as rédeas e Doug montou no cavalo que estava amarrado atrás do carro.

- Onde está Alden? - perguntou Xamã.

- Está de cama. Piorou muito, Xamã, o tremor está muito pior. Algumas semanas atrás ele levou um tombo quando estavam cortando gelo no rio - disse Sarah.

Alex olhava a paisagem com olhos ávidos. Xamã também, e sentiase estranho. Assim como a casa da Sra. Clay nunca mais seria a mesma para ela, sua vida também parecia

diferente. Depois que saiu de Holden’s Crossing tinha matado um homem. O mundo parecia de cabeça para baixo.

Chegaram em casa no fim do dia e puseram Alex na sua cama. Ele ficou deitado, com os olhos fechados, com uma expressão de puro prazer no rosto.

Sarah preparou o jantar para a volta do filho pródigo. Galinha assada e purê de batatas com cenouras. Nem bem tinham acabado de jantar, Lillian chegou correndo pelo

Caminho Longo com uma terrina de assado.

- Seus dias de fome acabaram! - ela disse para Alex, depois de beijá-lo e dar calorosas boas-vindas.

Lillian disse que Rachel ficara com as crianças, mas que o visitaria pela manhã.

Xamã deixou-os conversando, sua mãe e Lillian sentadas muito perto de Alex, e foi para a casa de Alden. Alden estava dormindo e a casa cheirava a uísque. Xamã saiu

silenciosamente e seguiu pelo Caminho Longo. A neve muito pisada estava agora congelada e escorregadia. Quando chegou à casa dos Geiger viu, pela janela, Rachel

lendo ao lado do fogo. Quando ele bateu de leve no vidro, ela deixou cair o livro.

Beijaram-se como se um deles estivesse morrendo. Rachel segurou a mão dele e o levou ao seu quarto. As crianças dormiam no outro lado do corredor e Lionel estava

consertando arreios no celeiro. Lillian podia chegar a qualquer momento, mas fizeram amor na cama de Rachel, vestidos, doce e determinadamente, e com desesperada

gratidão.

Quando Xamã voltou pelo Caminho Longo, o mundo estava outra vez no lugar certo.

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O SOBRENOME DE ALEX



O coração de Xamã se apertava cada vez que via Alden andando pela fazenda. Havia uma rigidez nos ombros e no pescoço que não existia quando Xamã saiu de casa à procura

de Alex, e o rosto parecia uma máscara de paciência, mesmo quando os acessos de tremedeira eram severos. Ele fazia tudo lenta e deliberadamente, como se estivesse

debaixo d’água.

Mas sua mente estava lúcida. Encontrou Xamã no barracão atrás do celeiro e entregou a pequena moldura para o bisturi Rob J. e o novo bisturi encomendado por Xamã.

Fez um relatório completo do que tinha acontecido na fazenda durante o inverno - o número de animais, a quantidade de ração consumida, as perspectivas para as crias

da primavera.

- Estou fazendo Doug passar madeira cortada para a usina de açúcar para começarmos a ferver o xarope assim que a natureza mandar a seiva escorrer dos bordos.

- Ótimo - disse Xamã. Preparou-se para a tarefa desagradável e disse casualmente que tinha mandado Doug procurar um bom trabalhador para ajudar nas tarefas da primavera.

Alden balançou a cabeça afirmativamente. Pigarreou durante longo tempo e depois cuspiu com cuidado.

- Não sou tão forte como era antes - disse, como quem dá uma má notícia procurando não magoar ninguém.

- Bem, deixe outra pessoa arar a terra nesta primavera. O administrador da fazenda não precisa fazer o trabalho pesado, quando podemos usar os músculos de gente

jovem - disse Xamã e Alden balançou a cabeça outra vez, concordando, antes de sair do barracão. Xamã percebeu que ele levou algum tempo para começar a andar, como

se tivesse tentado urinar, sem conseguir. Então, quando andou outra vez, parecia que os pés seguiam por conta própria, com passo miúdo e o resto dele os acompanhava

de carona.

Era bom voltar aos seus pacientes. Por mais cuidadosas que fossem as irmãs enfermeiras, não podiam substituir o médico. Xamã trabalhou

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arduamente durante algumas semanas, pondo em dia as cirurgias adiadas e fazendo mais visitas que de hábito.

Quando parou no convento, madre Míriam Ferocia o recebeu calorosamente e ouviu feliz o relato da volta de Alex. Ela também tinha novidades.

- A Arquidiocese informou que nosso primeiro orçamento foi autorizado e pediu para iniciarmos a construção do hospital.

O bispo tinha examinado e aprovado pessoalmente as plantas, mas aconselhava a não construírem o hospital no terreno do convento.

- Ele diz que o convento é muito inacessível, muito longe do rio e das estradas principais. Assim, precisamos procurar um lugar.

Ela apanhou atrás da cadeira dois tijolos de cor creme e estendeu para Xamã.

- O que acha disto?

Eram duros e quase cantaram quando ele bateu um no outro.

- Não entendo muito de tijolo, mas me parecem maravilhosos.

- Com eles, as paredes serão como as de uma fortaleza - disse a superiora. - O hospital será ventilado no verão, quente no inverno. Isto é tijolo vitrificado, tão

denso que não absorve a água. E é fabricado aqui perto por um homem chamado Rosswell que construiu um forno perto dos seus depósitos de argila. Ele já tem o suficiente

para começarmos a construção e está ansioso para fabricar mais. Diz que se quisermos uma cor mais escura, ele pode queimar o tijolo.

Xamã sopesou os tijolos, que pareciam sólidos e reais, como se estivesse sopesando as paredes do hospital.

- Acho que a cor é perfeita.

- Eu também acho - disse madre Míriam Ferocia e os dois sorriram satisfeitos, como crianças olhando para um doce.

Tarde da noite, Xamã sentou na cozinha com a mãe e tomaram café.

- Eu contei para Alex sobre Nick Holden - disse ela.

- ... E qual a reação dele? Sarah deu de ombros.

- Ele apenas... aceitou - Sorriu tristemente. - Disse que preferia ser filho de Nick Holden do que um bandido morto. - Ficou calada por um momento, depois olhou

para Xamã outra vez e ele percebeu que ela estava nervosa.

- O reverendo Sr. Blackmer vai deixar Holden’s Crossing. O pastor da igreja batista de Davenport foi transferido para Chicago e a congregação ofereceu o púlpito

a Lucian.

- Eu sinto muito, sei o quanto você gosta dele. Agora a igreja daqui tem de procurar outro pastor.

- Xamã - disse ela. - Lucian me pediu para ir com ele. Para casar com ele.

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Xamã segurou a mão dela, que estava fria.



- ... E o que você quer, mamãe?

- Nós nos... aproximamos muito depois da morte da mulher dele. Quando fiquei viúva, ele me ajudou a ter forças. - Apertou a mão de Xamã. - Amei seu pai completamente.

Sempre o amarei.

- Eu sei.

- Dentro de algumas semanas vai fazer um ano que ele morreu. Você ficaria sentido se eu me casasse outra vez?

Xamã levantou da cadeira e foi até ela.

- Sou uma mulher que precisa de marido.

- Eu só desejo a sua felicidade - disse ele, abraçando-a. Com dificuldade ela se livrou do abraço para que ele pudesse ver

seus lábios.

- Eu disse a Lucian que não podemos casar enquanto Alex precisar de mim.

- Mamãe, ele vai ficar melhor sem você para fazer tudo que ele já pode fazer.

- Verdade?

- Verdade.

Sarah ficou radiante. O coração de Xamã quase parou, tentando imaginar como sua mãe devia ser quando era jovem.

- Muito obrigada, Xamã querido. Vou contar a Lucian - disse ela.

A perna de Alex estava cicatrizando muito bem. Sarah e as senhoras da igreja cuidavam dele com carinho. Alex ganhou peso e sua aparência melhorava a cada dia, mas

ele raramente sorria e havia sombras de tristeza nos seus olhos.

Um homem chamado Wallace estava ganhando fama e dinheiro em Rock Island, fabricando pernas e braços e depois de muita insistência de todos, Alex concordou em deixar

que Xamã o levasse até lá. O fabricante de membros artificiais era redondo e pequeno, o tipo geralmente ligado à idéia de jovialidade, mas levava muito a sério seu

negócio. Passou mais de uma hora tirando medidas de Alex sentado, de pé, com o corpo esticado, andando, dobrando o joelho, dobrando os dois joelhos e deitado para

dormir. Então Wallace disse que podiam apanhar a perna postiça dentro de seis semanas.

Alex era apenas um dos muitos homens aleijados pela guerra. Xamã os via sempre que ia à cidade, ex-soldados sem alguma parte do corpo e muitos com o espírito mutilado

também. O velho amigo de seu pai, Stephen Hume, voltou como general de uma estrela, tendo sido promovido a brigadeiro por mérito em combate, em Vicksburg, três dias

antes de ser atingido por uma bala logo abaixo do cotovelo. Ele não perdeu o braço, mas o ferimento destruiu-lhe os nervos, inutilizando-o, e Hume usava permanentemente

uma tipóia preta como se tivesse uma fratura.

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Dois meses antes de Hume voltar para casa, Daniel P. Allan, juiz da Corte da Comarca de Illinois, falecera e o governador nomeou o general herói para substituí-lo.

O juiz Hume já estava em atividade. Xamã observou que alguns ex-soldados conseguiam voltar à vida civil sem dificuldade, ao passo que outros viviam atormentados

por problemas que os tornavam inúteis para a vida normal.

Procurava ouvir a opinião de Alex sempre que precisava resolver alguma coisa na fazenda. A mão-de-obra continuava escassa, mas Doug Penfield encontrou um homem chamado

Billy Edwards que havia trabalhado com ovelhas, em lowa. Xamã falou com ele e o achou forte e bemdisposto e, além disso, fora recomendado por George Cliburne. Xamã

perguntou a Alex se ele queria falar com Edwards.

- Não, não quero.

- Não acha que seria uma boa idéia? Afinal, o homem vai trabalhar para você quando ficar bom.

- Acho que não vou mais cuidar da fazenda.

- É mesmo?

- Talvez eu vá trabalhar com você. Posso ser seus ouvidos, como aquele que você me contou, em Cincinnati.

Xamã sorriu.

- Não preciso de ouvidos em tempo integral. Posso pedir emprestado um par a qualquer hora. Falando sério, tem idéia do que quer fazer?

- ... Não sei ao certo.

- Muito bem, tem muito tempo para resolver - disse Xamã, feliz por não ter de falar mais no assunto.

Billy Edwards era um bom trabalhador, mas quando parava de trabalhar, era um grande tagarela. Falava da qualidade do solo e da criação de ovelhas, e dos preços e

da diferença que fazia ter uma estrada de ferro. Mas quando começou a falar sobre a volta dos índios para lowa, conseguiu chamar a atenção de Xamã.

- Está dizendo que eles voltaram?

- Um grupo misto de sauks e mesquakies. Deixaram a reserva em Kansas e voltaram para lowa.

Como o grupo de Makwa-ikwa, pensou Xamã.

- ... Estão tendo problemas? Com as pessoas da região? Edwards coçou a cabeça.

- Não. Na verdade ninguém pode causar problemas para eles. São uns índios espertos, que compraram a terra, tudo muito legal. Pagaram com bom dinheiro americano.

- Ele sorriu. - É claro que a terra que compraram é quase a pior do estado, muita terra amarela. Mas eles construíram casas de troncos de árvores e plantaram alguns

campos em volta. Eles têm uma verdadeira cidadezinha, que chamam de Tama, o nome de um dos chefes, me disseram.

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- Onde fica a cidade dos índios?



- Uns cento e sessenta quilômetros a oeste de Davenport. Xamã sabia que precisava ir até lá.

Alguns dias depois, Xamã evitou falar nos índios sauks e mesquakies que haviam comprado terras em lowa com o comissário dos Estados Unidos para Assuntos Indígenas.

Nick Holden foi à fazenda dos Cole numa carruagem nova e esplêndida, com cocheiro. Quando Sarah e Xamã agradeceram sua ajuda, ele se mostrou cortês e amistoso, mas

era claro que estava ali só para ver Alex.

Holden passou a manhã no quarto de Alex, sentado perto da cama. Ao meio-dia, quando Xamã terminou o atendimento no dispensário, fi cou surpreso ao ver Nick Holden

e o cocheiro carregando Alex para a carruagem.

Voltaram à noite, Nick e o cocheiro levaram Alex para dentro, desejaram uma boa noite a todos e foram embora.




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