Noah Gordon, o xamã



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mãos.

Quando carregou Alex para baixo outra vez e o deitou na mesa, ele parecia tão vulnerável, que por um momento Xamã ficou perturbado. Tinha certeza do que estava fazendo,



exceto por uma coisa. Não sabia exatamente quanto clorofórmio devia dar, por causa do estado de desnutrição e trauma de Alex.

- O que há? - perguntou Alex, sonolento, confuso com todo aquele negócio de ser carregado para lá e para cá.

- Respire profundamente, Maior.

Aplicou umas gotas de clorofórmio e segurou o cone sobre o rosto de Alex tanto quanto teve coragem. Por favor, Deus, pensou ele.

- Alex! Está me ouvindo? - Xamã beliscou o braço de Alex, bateu de leve no rosto dele, mas o irmão Maior dormia profundamente.

Xamã não precisou pensar nem planejar. Já tinha pensado muito e planejado cuidadosamente. Pôs de lado toda emoção e começou a fazer o que era preciso.

Queria conservar a maior parte da perna que fosse possível e ao mesmo tempo tirar o suficiente para garantir que não ia ficar nem um pedaço de osso ou tecido infeccionado.

Fez a primeira incisão circular doze centímetros abaixo do tendão do jarrete e preparou um bom pedaço de pele para fechar o local depois, parando apenas para amarrar

a pequena e a grande safena, as veias tibiais e a peroneal. Serrou a tíbia com o mesmo movimento de um homem serrando madeira. Começou a serrar o perónio e a parte

infectada da perna estava livre - um trabalho limpo e bem-feito.

Xamã enrolou a perna com ataduras limpas e bem apertadas, para fazer um coto com boa aparência. Então, beijou o rosto do irmão ainda inconsciente e o levou de volta

para a cama.

Durante algum tempo, ficou sentado, vigiando o irmão, mas não havia nenhum sinal de problema. Nenhuma náusea, nem vômito, nenhum grito de dor. Alex dormia como um

trabalhador que merecia um descanso.

Finalmente, Xamã levou o pedaço amputado para fora, enrolado numa toalha e apanhou uma pá no porão. Entrou no bosque, atrás da casa, e tentou enterrar o pedaço de

osso e tecido, mas o solo estava profundamente congelado, e a pá escorregava na superfície. Então ele juntou lenha e fez uma pira para dar ao pedaço de perna um

funeral viking. Pôs o pedaço em cima da lenha e cobriu com mais lenha e derramou óleo do lampião sobre a pira. Quando acendeu o fósforo, as chamas

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saltaram imediatamente. Xamã ficou olhando, encostado numa árvore, com os olhos secos mas extremamente emocionado, certo de que, no melhor dos mundos, um homem não

devia precisar cortar e queimar um pedaço da perna do irmão.

O sargento no escritório do ordenança do campo de prisioneiros estava acostumado com a hierarquia não-convencional naquela região e sabia que seu sargento-ajudante

não estava baseado em Elmira. Normalmente, ele pediria a qualquer soldado vindo de qualquer lugar, como aquele, para identificar sua unidade, mas a atitude do homem

e especialmente seus olhos diziam claramente que ele não estava ali para dar informações, mas para ser informado.

O sargento sabia que sargentos-ajudantes não eram deuses, mas sabia perfeitamente que eles dirigiam o exército. Os poucos homens que ocupavam o posto mais alto no

exército, não-comissionado, abaixo de tenente, podiam premiar um homem com um bom posto, ou castigar, com um posto no fim do mundo. Podiam envolver um homem em sérios

problemas ou livrá-lo dos que ele arranjava, e podiam fazer e destruir carreiras. No mundo real do sargento, um sargento-ajudante era mais intimidador do que qualquer

oficial de patente, e ele se apressou a cooperar.

- Sim, senhor, sargento-ajudante - disse, depois de examinar os arquivos. - Ele saiu há pouco mais de um dia. O homem está muito doente. Tem só um pé, o senhor compreende.

O irmão é médico, chamado Cole. Levou ele numa carroça ontem de manhã.

- Em que direção eles foram?

O sargento olhou para ele e balançou a cabeça.

O homem gordo rosnou e cuspiu no chão limpo. Saiu da sala do ordenanças, montou na bela égua marrom da cavalaria e saiu pelo portão do campo de prisioneiros. Um

dia de vantagem não era nada, carregando um inválido. Só havia uma estrada, só podiam ter ido por ela, para um lado ou para outro. Ele resolveu ir para noroeste.

Sempre que passava por uma loja, uma fazenda ou por outro viajante, parava e perguntava. Assim, passou pela cidadezinha de Horseheads e depois por Big Flats. Ninguém

com quem falou tinha visto os homens que ele procurava.

O sargento-ajudante era um rastreador experiente. Sabia que quando a pista era tão invisível certamente estava seguindo o caminho errado. Deu meia-volta e seguiu

na outra direção. Passou pelo campo de prisioneiros e pela cidade de Elmira. Três quilómetros adiante, um fazendeiro lembrou-se de ter visto a carroça. Três quilómetros

depois da divisa da cidade de Wellington, ele chegou a um armazém.

O proprietário sorriu quando o soldado gordo chegou bem perto do seu fogão.

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- Está frio de verdade, não está?

O sargento-ajudante pediu café forte e quente. Quando o soldado perguntou, ele fez um gesto afirmativo.

- Oh, é claro. Estão na casa da Sra. Pauline Clay. Vou dizer como chegar lá. Um homem muito educado, o Dr. Cole. Comprou comida e uma porção de coisas aqui. Amigos

seus?


Ò sargento-ajudante sorriu.

- Vai ser bom ver os dois - disse ele.

A primeira noite depois da operação, Xamã passou sentado ao lado da cama do irmão, com a luz acesa. Alex dormiu, mas inquieto e gemendo de dor.

Ao nascer do dia, Xamã cochilou por algum tempo. Quando abriu os olhos para a luz acinzentada, Alex estava olhando para ele.

- Alô, Maior.

Alex passou a língua nos lábios e Xamã foi apanhar água e segurou a cabeça dele, permitindo apenas alguns pequenos goles.

- Estava imaginando - disse Alex finalmente.

- O quê?


- Como é que eu... Vou chutar seu traseiro outra vez... sem cair de cara no chão.

Como era bom ver outra vez aquele sorriso torto de Alex!

- Você aparou mais um pedaço da minha perna, não foi? - O olhar acusador ofendeu o exausto Xamã.

- É, mas salvei outra coisa, eu acho.

- O que foi?

- Sua vida.

Alex pensou no assunto, e depois concordou. Logo depois adormeceu outra vez.

No primeiro dia depois da operação, Xamã trocou o curativo duas vezes, cheirando e examinando, com medo de sentir cheiro ou ver os sinais de podridão, porque tinha

visto muita gente morrer por causa do processo infeccioso, dias após a operação. Mas não havia cheiro e o tecido rosado parecia estar perfeito.

Alex estava quase sem febre, mas muito fraco ainda e Xamã achava difícil que pudesse se recuperar completamente. Começou a passar grande parte do tempo na cozinha

da Sra. Clay. No meio da manhã deu a Alex um mingau e, ao meio-dia, ovos cozidos.

No começo da tarde, a neve começou a cair em grandes flocos e logo cobriu todo o solo. Xamã fez um inventário do que tinha em estoque e resolveu sair para comprar

mais alguma coisa antes que ficassem isolados pela neve. Num dos momentos em que Alex estava acordado, explicou o que ia fazer, certificando-se de que o irmão tinha

compreendido.

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Era bom sair para o mundo silencioso e coberto de neve. Xamã pretendia comprar os ingredientes para uma canja, mas Barnard não tinha galinha, ou outra ave, e Xamã



comprou um pedaço de carne de boi com o qual podia fazer uma sopa bastante nutritiva.

- Seu amigo o encontrou? - perguntou Barnard, aparando a gordura da carne.

- Amigo?

- Aquele soldado. Eu disse a ele como chegar à casa da Sra. Clay.

- E quando foi isso?

- Ontem, umas duas horas antes de fechar o armazém. Um homem gordo, forte. Barba negra. Uma porção de divisas - disse, tocando o próprio braço. - Ele não apareceu?

- Entrecerrou os olhos. - Não fiz mal em dizer a ele onde podia encontrá-lo, fiz?

- É claro que não, Sr. Barnard. Seja quem for, provavelmente desistiu da visita.

O que o exército quer agora?, pensou Xamã, quando saiu do armazém.

No caminho, teve a sensação desagradável de estar sendo observado. Resistiu ao impulso de olhar para trás, mas logo depois parou a carroça, desceu e fingiu que estava

apertando os arreios, aproveitando para olhar em volta.

Era difícil ver alguma coisa através da neve que caía, mas então o vento abriu um espaço na cortina branca e ele viu que um cavaleiro o seguia à distância.

Xamã chegou em casa. Alex estava bem. Desatrelou o cavalo e o levou para o celeiro. Depois entrou e pôs a carne com água no fogo para cozinhar lentamente, com batata,

cenoura, cebola e nabo.

Xamã estava preocupado. Depois de alguma hesitação, resolveu contar a Alex sobre o soldado.

- Portanto, podemos ter uma visita do exército - disse ele. Mas Alex balançou a cabeça.

- Se fosse o exército, o homem já teria batido na nossa porta há muito tempo... Uma pessoa como você, que vem tirar o irmão da prisão, deve ter muito dinheiro. O

mais provável é que ele esteja atrás disso... Imagino que você não tenha uma arma...

- Sim, eu tenho. - Xamã tirou o Colt da mala. Por insistência de Alex, limpou a arma e carregou, sob o olhar atento do irmão. Quando a pôs sobre a mesa-de-cabeceira,

estava mais preocupado ainda. - Por que esse homem está só esperando e nos vigiando?

- Para ter certeza de que estamos sozinhos. Para observar as luzes da casa e saber em que quarto estamos dormindo... coisas assim.

- Acho que estamos dando muita importância a isso tudo - disse Xamã, pensativo. - Provavelmente o homem é do serviço de inteligência

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do exército e quer ter certeza de que não vamos ajudar a fuga de algum prisioneiro. O mais certo é que nunca mais tenhamos notícia dele. Alex deu de ombros,



concordando. Mas Xamã não acreditava nas próprias palavras. Não podia haver situação pior para arranjar uma encrenca, preso naquela casa com o irmão fraco e recuperando-se

de uma amputação.

Naquela tarde Alex tomou leite quente com mel. Xamã queria poder dar a ele refeições reforçadas, para fazer a carne voltar ao seu corpo, mas sabia que isso ia levar

tempo. Alex dormiu outra vez e acordou, algumas horas mais tarde, disposto a conversar.

Aos poucos Xamã ficou sabendo o que tinha acontecido com ele depois que saiu de casa.

- Mal Howard e eu fomos até New Orleans numa barcaça. Brigamos por causa de uma mulher e ele seguiu sozinho para o Tennessee, para se alistar. - Alex parou e olhou

para o irmão. - Você sabe o que aconteceu com Mal?

- A família dele não recebeu nenhuma notícia. Alex não ficou surpreso.

- Naquele momento, eu quase voltei para casa. Antes tivesse voltado. Mas os recrutadores dos confederados estavam por toda a parte e me alistei. Achei que sabia

montar e atirar, por isso fui para a cavalaria.

- Viu muito combate?

Alex balançou a cabeça afirmativamente.

- Durante dois anos. Fiquei furioso comigo mesmo quando fui capturado em Kentucky! Eles nos prenderam numa paliçada de onde até uma criança podia fugir. Esperei

a oportunidade e dei no pé. Fiquei fora três dias, roubando comida das hortas e coisas assim. Então, parei numa fazenda e pedi comida. A mulher me deu o café da

manhã, eu agradeci, como um cavalheiro, não fiz nada impróprio, e esse talvez tenha sido meu erro! Meia hora depois, ouvi os cães atrás de mim. Corri para um milharal

enorme, o milho verde e alto era plantado muito junto e eu não podia passar pelo meio. Tinha de quebrar os pés de milho enquanto corria, deixando uma trilha como

se um urso tivesse passado por ali. Passei quase toda a manhã naquele milharal, fugindo dos cães. Comecei a pensar que nunca mais iria sair dali. Então, cheguei

ao fim da plantação e lá estavam dois soldados ianques apontando suas armas e sorrindo para mim.

- Dessa vez, os federais me mandaram para Point Lookout. O pior campo de prisioneiros do mundo! Comida horrível, ou nenhuma, água suja, e eles atiravam para matar

em quem chegasse a quatro passos da cerca. Fiquei satisfeito quando me tiraram de lá. Mas então aconteceu o desastre de trem. - Balançou a cabeça. - Só lembro de

um barulho de ferragens amassadas e da dor no meu pé. Fiquei inconsciente por

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algum tempo e quando acordei já tinham tirado meu pé e eu estava em outro trem, a caminho de Elmira.

- Como conseguiu cavar o túnel, depois da amputação?

- Foi fácil - disse Alex com um largo sorriso. - Ouvi dizer que alguns homens estavam fazendo um túnel. Eu estava me sentindo muito bem naqueles dias e me ofereci

para ajudar. Cavamos sessenta metros, bem debaixo do muro. Minha perna não tinha cicatrizado e ficava sempre suja de terra, no túnel. Talvez por isso comecei a ter

problemas. É claro que eu não podia ir com eles, mas dez homens escaparam e nunca ouvi dizer que tenham sido apanhados. Eu ia dormir feliz, pensando naqueles homens.

Xamã respirou fundo.

- Maior - disse ele. - Papai morreu.

Alex ficou em silêncio por algum tempo, depois balançou a cabeça.

- Acho que eu soube disso quando vi a maleta dele. Se papai estivesse vivo e bem, teria vindo me buscar, ao invés de mandar você.

Xamã sorriu.

- Sim, tem razão. - Contou o que tinha acontecido a Rob J. Enquanto ele contava, Alex começou a chorar e segurou a mão de Xamã. Quando ele terminou a história, ficaram

em silêncio, por algum tempo, de mãos dadas. Muito depois de Alex ter adormecido, Xamã ainda estava ali, segurando a mão do irmão.

Nevou até o fim da tarde. Quando a noite chegou, Xamã olhou para fora primeiro por uma janela, depois pela outra, dos dois lados da casa. O luar brilhava na neve

lisa, nenhuma pegada. A essa altura Xamã já tinha imaginado uma explicação. O soldado gordo fora atrás dele porque alguém precisava de médico. Talvez o paciente

tivesse morrido, ou se recuperado. Ou talvez o soldado tinha encontrado outro médico e não precisava mais do Dr. Cole.

Era plausível e ele ficou mais calmo.

No jantar deu um bom prato de sopa para Alex, com uma bolacha. O sono de Alex não era mais tão profundo e ele acordava várias vezes. Xamã tinha pensado em dormir

no outro quarto, mas acabou cochilando na cadeira ao lado da cama do irmão.

De madrugada - Xamã viu no relógio, ao lado da arma, que eram

2:43 da manhã - foi acordado por Alex. Com os olhos muito abertos e apavorados, ele tentou sair da cama.

Alguém está quebrando a janela lá embaixo - disse Alex, apenas movendo os lábios.

Xamã levantou da cadeira e apanhou a arma com a mão esquerda, um instrumento desconhecido.

Esperou, sem tirar os olhos de Alex.

Alex teria imaginado? Sonhado, talvez? A porta do quarto estava

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fechada. Talvez tivesse ouvido o som do gelo quebrando no beiral do telhado?



Mas Xamã ficou imóvel. Todo seu corpo era como a mão apoiada no piano, e sentiu a vibração dos passos furtivos.

- Está dentro da casa - ele murmurou.

Agora sentia a vibração na escada, como as notas de uma escala ascendente.

- Está subindo a escada. Vou apagar a luz.

Alex compreendeu. Eles conheciam o quarto e o intruso não, o que era uma vantagem para os dois, no escuro. Mas para Xamã era uma agonia, porque não podia ler os

lábios de Alex.

Segurou a mão de Alex e a pôs na sua perna.

- Quando ele entrar no quarto, aperte a minha perna - disse ele. O único pé de bota de Alex estava no chão. Xamã passou a arma

para a mão direita, apanhou a bota com a esquerda e apagou o lampião.

A espera pareceu durar uma eternidade. Nada mais tinham a fazer senão esperar, imóveis, no escuro.

Finalmente as frestas na porta do quarto passaram do amarelo para o negro. O intruso tinha apagado o lampião a óleo do corredor para não aparecer em silhueta na

porta.


Encurralado no seu mundo de silêncio completo, Xamã sentiu a corrente de ar frio da janela aberta quando o homem abriu a porta.

E a mão de Alex apertou sua perna.

Xamã atirou a bota para a outra extremidade do quarto.

Viu os dois clarões amarelos, um depois do outro, e tentou apontar o Colt pesado para aquela direção. Quando apertou o gatilho, o revólver recuou com um salto violento

na sua mão e ele o segurou com as duas para atirar outra e ainda mais outra vez, sentindo os estampidos, piscando a cada clarão, sentindo o bafo do demônio. Com

a arma descarregada, sentindo-se mais vulnerável do que nunca, Xamã ficou imóvel, esperando o impacto da resposta.

- Você está bem, Maior? - perguntou, depois de algum tempo, como um idiota, sabendo que não podia ouvir a resposta. Procurou os fósforos na mesa e acendeu o lampião

com mãos trémulas.

- Está bem? - perguntou outra vez, mas Alex apontava para o homem no chão. Xamã era mau atirador. E o homem, se fosse bom, teria acertado os dois facilmente. Mas

não era. Xamã aproximou-se lentamente, como se o homem fosse um urso de cuja morte ele não tinha certeza. Os buracos na parede e as tábuas lascadas no assoalho eram

provas da inexperiência de Xamã. O primeiro tiro do intruso não acertou a bota mas destruiu a gaveta superior da cómoda de madeira de bordo da Sra. Clay. O homem

parecia dormir, deitado de lado, um soldado gordo, com a barba preta e uma expressão de surpresa no rosto sem vida. Um dos tiros passou de raspão na sua perna esquerda,

exatamente na altura que Xamã tinha amputado a perna de Alex. O outro acertou o

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peito, bem no coração. Xamã apalpou a carótida do soldado. A pele ainda estava quente, mas não tinha pulso.

Alex, sem nenhuma resistência, descontrolou-se completamente. Xamã sentou na cama e abraçou o irmão, que chorava e tremia, acalentando-o como se fosse uma criança.

Alex tinha certeza de que se descobrissem a morte do soldado ele voltaria para a prisão. Queria que Xamã levasse o homem gordo para o bosque e o cremasse, como tinha

cremado sua perna.

Xamã procurou acalmá-lo, batendo de leve nas costas dele, enquanto pensava clara e friamente.

- Fui eu que matei o homem, não você. Se alguém está encrencado não é você. Mas vão dar pela falta deste homem. O dono do armazém sabe que ele veio para cá e talvez

outros também saibam. O quarto está danificado e precisa de um carpinteiro, que não vai ficar calado. Se eu esconder ou destruir o corpo, posso ser enforcado. Não

vamos tocar mais no homem.

Alex acalmou-se. Conversaram até a luz cinzenta do dia invadir o quarto. Xamã apagou o lampião, carregou o irmão para baixo e o deitou no sofá da sala sob alguns

cobertores. Pôs lenha no fogão, recarregou o Colt e o pôs na cadeira, ao lado de Alex.

- Vou voltar com o exército. Pelo amor de Deus, não atire em ninguém antes de ter certeza de que não sou eu e quem estiver comigo.

Olhou para o irmão.

- Eles vão nos interrogar, uma porção de vezes, juntos e separados. É importante que você diga toda a verdade. Desse modo, não podem distorcer o que eu disser. Compreendeu?

Alex fez um gesto afirmativo, Xamã bateu de leve no rosto dele e saiu.

A neve estava muito alta e ele preferiu não usar a carroça. Encontrou um cabresto no celeiro, enfiou na cabeça do cavalo e montou em pêlo. Passou pelo armazém de

Barnard, devagar por causa da neve, mas depois da divisa de Elmira, a estrada fora desimpedida e ele aumentou a velocidade.

Seu corpo parecia dormente e não era só por causa do frio. Já tinha perdido pacientes que achava que devia ter salvo, e isso sempre o preocupava. Mas nunca matara

um homem.

Chegou cedo, esperou abrir a agência do telégrafo, às sete horas, e mandou uma mensagem para Nick Holden.

Matei soldado em legítima defesa. Por favor mande para as autoridades civis e militares de Elmira atestando minha idoneidade e a de Alex Bledson Cole. Muito grato,

Robert J. Cole.

Foi então ao escritório do xerife de Steuben e comunicou o homicídio.

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DEBATENDO-SE NA TEIA



Em pouco tempo a casa da Sra. Clay encheu-se de gente. O xerife, um homem atarracado e grisalho chamado Jesse Moore, sofria de dispepsia matinal, franzia a testa

ocasionalmente e arrotava quase sempre. Estava acompanhado por dois assistentes e, atendendo à sua mensagem, o exército enviou cinco militares: um primeiro-tenente,

dois sargentos e dois soldados rasos. Depois de meia hora chegou o major Oliver P. Poole, um oficial moreno de óculos e um bigode fino e negro. Era o encarregado

do caso e todos o tratavam com deferência.

A princípio, os civis e os militares examinaram o corpo, depois começaram a entrar e sair, subindo e descendo a escada com suas botas pesadas, conversando em voz

baixa, com as cabeças muito juntas. Gastaram todo o calor da casa e a neve e o gelo destruíram o brilho e a limpeza do assoalho encerado da Sra. Clay.

O xerife e seus homens eram atentos, os militares, muito sérios, e o major, friamente cortês.

No quarto, o major Poole examinou os orifícios de balas no chão, na parede, na gaveta da cômoda e depois o corpo do soldado.

- Pode identificá-lo, Dr. Cole?

- Nunca o vi antes.

- Supõe que ele pretendia roubar?

- Não tenho a mínima idéia. Tudo que sei é que atirei aquela bota para o canto do quarto e ele atirou quando ouviu o barulho, e eu atirei nele.

- Examinou os bolsos do homem?

- Não, senhor.

O major começou a examinar, pondo o conteúdo do bolso do morto no cobertor nos pés da cama. Não havia muita coisa. Uma lata de rapé Clock-Time, um lenço amassado

e sujo, dezessete dólares e trinta e oito centavos e uma licença do exército que Poole leu e passou para Xamã.

- O nome significa alguma coisa para o senhor?

A licença era em nome do sargento-ajudante Henry Bowman Korff, Serviço de Intendência do Exército dos Estados Unidos, Comando Leste, Elizabeth, Nova Jersey.

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Xamã balançou a cabeça.



- Nunca vi nem ouvi esse nome antes - disse, com sinceridade.

Mas alguns minutos depois, quando descia a escada, percebeu que o nome soava estranhamente. No meio da descida já sabia por quê.

Nunca mais precisaria tentar imaginar, como seu pai havia feito até morrer, o paradeiro do terceiro homem que fugira de Holden’s Crossing na manhã em que Makwa-ikwa

foi violentada e morta. Não precisava mais procurar o homem gordo chamado “Hank Cough”. Hank Cough o tinha encontrado.

O médico-legista chegou e declarou o soldado legalmente morto. Cumprimentou Xamã secamente. Todos os homens demonstravam um antagonismo aberto ou disfarçado e Xamã

compreendeu por quê. Alex era um inimigo. Lutara contra eles, provavelmente matara nortistas, e até pouco tempo era prisioneiro de guerra. Agora, o irmão de Alex

acabava de matar um soldado com a farda da União.

Xamã ficou aliviado quando puseram o homenzarrão na padiola e o levaram para fora da casa.

Foi quando começou o verdadeiro interrogatório. O major sentou no quarto do tiroteio. Ao lado dele, em outra cadeira da cozinha, um dos sargentos anotava perguntas

e respostas. Xamã sentou-se na beirada da cama.

O major Poole perguntou a quais associações ele pertencia e Xamã disse que durante toda sua vida pertencera apenas à Sociedade para Abolição da Escravatura, quando

estava no colégio, e à Sociedade de Medicina de Rock Island.

- O senhor é um Copperhead, Dr. Cole?

- Não, não sou.

- Não tem nem um pouco de simpatia pelo sul?

- Não acredito em escravidão. Quero que a guerra termine sem mais sofrimento para todos, mas não sou a favor da causa do sul.




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