Noah Gordon, o xamã



Baixar 2.32 Mb.
Página44/51
Encontro18.09.2019
Tamanho2.32 Mb.
1   ...   40   41   42   43   44   45   46   47   ...   51

Alden pensou e disse.

- Seria ótimo. Xamã hesitou.

- Alden... Como está sua memória?

- Tão boa quanto a de todo mundo, eu acho.

- Tanto quanto puder lembrar, pode me dizer onde estava todo mundo no dia da morte de Makwa?

Com um suspiro profundo, Alden olhou para o teto.

- Ainda pensando nisso, não é?

Mas com alguma persuasão, resolveu cooperar.

- Bem, para começar, você. Segundo me disseram, você estava dormindo no bosque. Seu pai estava visitando os doentes. Eu estava na fazenda de Hans Grueber, ajudando

no abate, em troca da parelha de bois para puxar o espalhador de esterco nos nossos pastos.. ..Deixe ver, quem mais?

- Alex. Minha mãe. Lua e Chega Cantando.

- Bom. Alex estava em algum lugar, pescando ou brincando, eu não sei. Sua mãe e Lua... eu me lembro, estavam limpando o depósito de primavera para guardar a carne

depois de nosso abate. O índio grande estava trabalhando com as ovelhas, e depois, no bosque. - Olhou para Xamã, com um largo sorriso - Que tal a memória?

- Foi Jason quem encontrou Makwa. O que Jay tinha feito naquele dia?

Alden ficou indignado.

- Como eu vou saber? Se quer saber do Geiger, pergunte para a mulher dele.

Xamã concordou.

- Acho que vou fazer isso - disse ele.

Mas quando chegou em casa, tudo desapareceu da sua mente porque Sarah disse que Carroll Wilkenson tinha deixado uma mensagem para ele. Tinha chegado no telégrafo

de Rock Island.

Os dedos dele tremiam tanto quanto os de Alden quando abriu o envelope.

A mensagem era concisa e clara:

Cabo Alexander Bledsoe, 38? Rifles Montados da Louisiana, atualmente encarcerado como prisioneiro de guerra, Campo de Prisioneiros Elmira, Nova York. Por favor comunique-se

comigo se eu puder ajudar

413

em mais alguma coisa. Boa sorte. Nicholas Holden, U.S. Cmsr., Assuntos Indígenas.



66

O CAMPO ELMIRA

No escritório do presidente do banco, Charlie Andreson olhou para a quantia pedida no formulário de retiradas e franziu os lábios.

Embora o dinheiro fosse seu, Xamã não hesitou em dizer para que o precisava, porque sabia que podia confiar na discrição do banqueiro.

- Não tenho idéia do que Alex vai precisar. Seja o que for, preciso de dinheiro para ajudá-lo.

Andreson fez que sim com a cabeça e saiu do escritório. Voltou com um maço de notas num pequeno cesto de pano e um cinto para guardar o dinheiro, que entregou para

Xamã.

- Um pequeno presente do banco a um cliente valioso. Com os votos sinceros de boa sorte e um pequeno conselho, se me permite. Ponha o dinheiro no cinto e fique com



ele sempre junto ao corpo, debaixo da roupa. Você tem uma arma?

- Não.


- Bem, devia comprar uma. Vai fazer uma longa viagem e há homens perigosos, capazes de matar sem pensar duas vezes para ficar com esse dinheiro.

Xamã agradeceu e pôs o dinheiro e o cinto numa pequena sacola de tapeçaria. Estava passando pela rua Principal quando lembrou-se de que tinha uma arma, o Colt 44

que seu pai havia tirado de um confederado morto, para matar um cavalo, e que levara para casa. Nas circunstâncias normais, jamais teria ocorrido a ele viajar armado,

mas não podia deixar que nada o impedisse de encontrar e ajudar Alex. Virou o cavalo e voltou para o armazém de Haskins, onde comprou uma caixa de munição. As balas

e o revólver pesavam bastante e ocupavam muito espaço na pequena valise que levava, além da sua maleta de médico, quando saiu de Holden’s Crossing.

Tomou o barco a vapor e desceu o rio até Cairo, depois seguiu de trem para o leste. Três vezes seu trem ficou parado um longo tempo, esperando a passagem dos trens

com soldados. Foram quatro dias e quatro noites

414


de viagem por terra. A neve tinha desaparecido quando ele saiu de Illinois, mas não o inverno, e o frio intenso dos vagões penetrava os ossos de Xamã. Quando

finalmente chegou a Elmira, estava exausto, mas nem pensou em tomar banho e mudar de roupa antes de tentar ver Alex, porque precisava se certificar de que o irmão

estava vivo.

Saiu da estação, passou por um carro de aluguel e tomou um carro leve de quatro rodas, onde podia sentar ao lado do cocheiro e ver o que ele dizia. O cocheiro disse

com orgulho que a cidade já tinha quinze mil habitantes. Passaram por uma bonita cidade de casas pequenas para um bairro mais afastado, pela rua Water que, segundo

o homem, acompanhava o rio Chemung. Logo chegaram à cerca de madeira da prisão.

O cocheiro orgulhava-se da beleza da cidade e da sua prática em dar todas as informações. Disse a Xamã que a cerca do campo de prisioneiros tinha 3,60 metros de

altura, feita com tábuas de “madeira nativa” e circundava vinte e oito acres onde viviam mais de dez mil prisioneiros confederados.

- Às vezes tinha mais de doze mil rebeldes aí dentro - disse ele. Notou também que a um metro e vinte do topo da cerca, do lado

de fora, havia uma passarela patrulhada por guardas armados.

Seguiram pela rua West Water, onde os aproveitadores tinham feito do campo um zoológico humano. De uma torre de madeira com três andares, completa com escadas que

levavam a uma plataforma elevada, por quinze centavos podia-se ver os homens entre os muros da prisão.

- Antes eram duas torres. E uma porção de barracas de comida e bebida. Vendiam bolos, biscoitos, amendoim, limonada e cerveja para os que vinham ver os prisioneiros.

Mas o maldito exército acabou com tudo isso.

- Uma pena.

- É mesmo. Quer subir e dar uma olhada? Xamã balançou a cabeça.

- Deixe-me no portão principal do campo, por favor.

Um sentinela negro, de porte militar, guardava o portão. Ao que parecia, todos os sentinelas eram negros. Xamã acompanhou um soldado à sala do ordenança, onde se

identificou para um sargento e pediu permissão para ver o prisioneiro chamado Alex Bledsoe.

O sargemo, depois de conferenciar com um tenente sentado a uma mesa num pequeno escritório, voltou e disse que tinham recebido uma mensagem de Washington recomendando

o Dr. Cole, o que fez Xamã pensar um pouco melhor de Nicholas Holden.

- As visitas são de noventa minutos.

Foi informado de que o soldado o levaria ao seu irmão na barraca Oito-C e Xamã acompanhou o negro pelas valetas de terra gelada, para o centro do campo. Por todo

lado havia prisioneiros, desanimados,

415

miseráveis, mal vestidos. Compreendeu imediatamente que passavam fome. Viu dois homens de pé ao lado de um barril, tirando a pele de um rato.



Passaram por inúmeras barracas baixas de madeira. Atrás delas havia uma fila de barracas de lona e mais além um lago pequeno e estreito que, sem dúvida, era usado

como esgoto aberto, porque quanto mais perto chegavam, mais forte ficava o fedor.

Finalmente o soldado negro parou na frente de uma das barracas de lona.

- Esta é a Oito-C, senhor - disse ele, e Xamã agradeceu. Dentro, estavam quatro homens com os rostos encovados de frio.

Xamã não reconheceu nenhum e seu primeiro pensamento foi de que um deles era um homem com o mesmo nome de Alex e que tinha vindo de tão longe por uma confusão de

identidades.

- Estou procurando o cabo Alexander Bledsoe.

Um dos prisioneiros, um rapaz com um bigode grande demais para o rosto magro, apontou para o que parecia uma pilha de trapos. Xamã aproximou-se devagar, como se

tivesse um animal feroz sob aqueles farrapos sujos - dois sacos de aniagem, um pedaço de tapete, uma coisa que podia ter sido um casaco.

- Nós cobrimos o rosto dele por causa do frio - disse o homem de bigode, estendendo a mão e tirando um dos sacos de aniagem.

Era seu irmão, mas não seu irmão. Xamã teria passado por ele na rua sem reconhecer, porque Alex estava extremamente mudado. Estava muito magro e envelhecido por

experiências que Xamã não queria nem imaginar. Xamã segurou a mão dele. Finalmente Alex abriu os olhos, olhou para ele e não o reconheceu.

- Maior - disse Xamã, mas não pôde continuar.

Alex piscou os olhos, atônito. Então a compreensão penetrou em sua mente como uma maré que lentamente toma posse de uma praia quase destruída e Alex começou a chorar.

- Mamãe e papai?

Foram as primeiras palavras de Alex e Xamã mentiu imediata e instintivamente.

- Estão bem.

Os irmãos sentaram, e Xamã segurou as mãos de Alex. Tinham tanto para dizer, e tantas perguntas, e tanta coisa para contar, que, a princípio, ficaram em silêncio.

Logo as palavras chegaram para Xamã, mas Alex não o acompanhou. Apesar da excitação do encontro, ele voltou a dormir, o que fez com que Xamã compreendesse o quanto

o irmão estava doente.

Xamã apresentou-se aos outros quatro homens e ficou sabendo seus nomes. Berry Womack, de Spartanburg, Carolina do Sul, pequeno e intenso, com cabelo longo e louro.

Fox J. Byrd, de Charlottesville, Virgínia

416 com olhos sonolentos e pele flácida, como se tivesse sido gordo. James Joseph Waldron, de Van Buren, Arkansas, entroncado, moreno, e o mais novo de todos, não

devia ter mais de dezessete anos, calculou Xamã. E Barton O. Westmoreland, de Richmond, Virgínia, o garoto de bigode, que tinha um firme aperto de mãos e disse a

Xamã para chamá-lo de Buttons.

Enquanto Alex dormia, Xamã o examinou.

Alex não tinha mais o pé esquerdo.

- ... Ferimento de tiro?

- Não, senhor - disse Buttons. - Eu estava com ele. Muitos dos nossos estavam sendo transferidos para cá, de trem, do campo de prisioneiros de Point Lookout, Maryland,

no dia 16 de julho último... Bem, houve um horrível desastre de trem na Pensilvânia... Sholola, Pensilvânia. Quarenta e oito prisioneiros de guerra e dezessete guardas

morreram. Eles os enterraram no campo, ao lado dos trilhos, como faziam depois de uma batalha.

- Oitenta e cinco dos nossos ficaram feridos. O pé de Alex estava tão amassado que eles cortaram. Eu tive sorte, só uma torção no ombro.

- Seu irmão passou bem durante algum tempo - disse Berry Womack. - Jimmie-Joe fez uma muleta e ele andava muito bem com ela. Ele era o sargento encarregado dos doentes

na nossa barraca e tomava conta de nós todos. Disse que tinha aprendido um pouco de medicina observando seu pai.

- Nós o chamamos de Doutor - disse Jimmie-Joe Waldron. Xamã ergueu a perna de Alex e encontrou a causa dos problemas

do irmão. Fora uma amputação malfeita. A perna não estava ainda gangrenada, mas metade do coto não estava cicatrizada e debaixo do tecido cicatricial, na outra parte,

havia pus.

- Você é um médico de verdade? - perguntou Waldron, quando viu o estetoscópio.

Xamã disse que era. Encostou o estetoscópio no peito de Alex e a outra extremidade deu para Jimmie-Joe escutar e ficou satisfeito quando, pelo relatório de Waldron,

concluiu que os pulmões estavam abençoadamente limpos. Mas Alex estava febril e seu pulso fraco e filiforme.

- Há pestilência, senhor, no campo inteiro - disse Buttons. - Varíola. E muitas febres. Malária, muitas variedades. O que o senhor acha que há com ele?

- A perna está inflamada - disse Xamã, soturnamente.

Era evidente que Alex estava também subnutrido e sofrendo os efeitos da exposição ao frio, como os outros homens na barraca. Disseram a Xamã que algumas barracas

tinham pequenos aquecedores a lenha e alguns cobertores, mas a maioria não tinha.

- O que vocês comem?

- De manhã cada homem recebe um pedaço de pão e um pedacinho de carne estragada. À noite, cada um recebe um pedaço de pão

417

e uma xícara do que eles chamam de sopa, a água onde cozinharam a carne estragada - disse Buttons Westmoreland.



- Nada de legumes?

Balançaram as cabeças, mas Xamã já sabia a resposta. Vira sinais de escorbuto assim que entrou no campo.

- Quando chegamos aqui, éramos dez mil - disse Buttons. - Eles estão sempre trazendo mais prisioneiros, mas só restam cinco mil dos originais dez mil. A casa dos

mortos funciona o tempo todo, há também um grande cemitério, logo depois do campo. Cerca de vinte e cinco homens morrem diariamente.

Xamã sentou no chão frio e segurou as mãos de Alex, olhando para o rosto dele. Alex dormia, um sono profundo demais.

O guarda enfiou a cabeça na porta da barraca e disse que a visita tinha terminado.

Na sala do ordenança o sargento ouviu, impassível, quando Xamã se identificou como médico e descreveu os sintomas do irmão.

- Eu queria permissão para levá-lo para casa. Sei que se ele continuar aqui, vai morrer.

O sargento procurou num arquivo e tirou uma ficha que leu com atenção.

- Seu irmão não tem direito à condicional. Ele foi engenheiro aqui. É como chamamos os prisioneiros que cavam um túnel para fugir.

- Túnel! - disse Xamã, admirado. - Como podia cavar um túnel? Ele só tem um pé!

- Ele tem duas mãos. E antes de vir para cá, fugiu de outro campo e foi recapturado.

Xamã tentou ser razoável.

- Você não teria feito o mesmo? O que um homem honrado pode fazer?

Mas o sargento balançou a cabeça.

- Temos nossos regulamentos.

- Posso trazer alguma coisa para ele?

- Nada cortante ou de metal.

- Tem alguma pensão por perto?

- Tem um lugar, doze quilômetros a oeste do portão principal. Eles alugam quartos - disse o sargento. Xamã agradeceu e apanhou suas malas.

Assim que se livrou do dono da pensão, Xamã tirou 150 dólares do cinto e guardou no bolso do casaco. Um empregado se ofereceu para leválo à cidade por um preço.

No telégrafo, Xamã enviou uma mensagem para Nick Holden, em Washington. Alex gravemente doente. Preciso conseguir liberdade, do contrário ele morre. Por favor, ajude.

418

Havia um grande estábulo, com veículos, e Xamã alugou um cavalo e uma carroça fechada.



- Por dia ou por semana? - perguntou o dono do estábulo. Xamã alugou por uma semana e pagou adiantado.

O armazém-geral era maior do que o de Haskins e ele encheu a carroça alugada com comida e outros suprimentos, para os homens da barraca de Alex. Lenha, cobertores,

uma galinha limpa e depenada, um pedaço de presunto, seis pães, duas sacas de batatas, um saco de cebolas, uma caixa de repolho.

O sargento arregalou os olhos quando viu as “poucas coisas” que Xamã levou para o irmão.

- Já usou seus noventa minutos de hoje. Descarregue essas coisas e vá embora.

Na barraca, Alex dormia ainda. Mas para os outros foi como o Natal, nos bons tempos. Chamaram os homens das barracas vizinhas e distribuíram lenha e legumes. Xamã

queria que o presente significasse uma diferença real para os homens da barraca Oito-C, mas eles fizeram questão de repartir com os outros.

- Vocês têm uma panela? - perguntou para Buttons.

- Sim, senhor! - Voltou com uma lata muito grande e muito amassada.

- Façam uma sopa com galinha, cebola, repolho, batatas e um pouco do pão. Conto com vocês para fazer com que ele tome tanta sopa quanto for possível.

- Sim, senhor, vamos fazer isso - disse Buttons.

Xamã hesitou. Uma enorme quantidade de comida já havia desaparecido.

- Eu trago mais amanhã. Devem guardar um pouco para esta barraca.

Westmoreland balançou a cabeça, compreendendo. Os dois sabiam da condição tácita, exigida e aceita. Acima de tudo, Alex devia ser alimentado.

Quando Xamã voltou, na manhã seguinte, Alex dormia e Jimmie-Joe tomava conta dele. Jimmie-Joe disse que ele tinha tomado bastante sopa. Quando Xamã arrumou os cobertores,

Alex acordou assustado e Xamã bateu no ombro dele.

- Está tudo bem, Maior. É só seu irmão. Alex fechou os olhos, mas logo depois disse.

- O velho Alden ainda está vivo?

- Sim, está.

- Ótimo... - Alex abriu os olhos e viu o estetoscópio aparecendo na abertura da maleta. - O que está fazendo com a maleta de papai?

- ... Eu pedi emprestada - disse Xamã, com voz rouca. - Agora eu sou médico.

419


- É nada! - disse Alex, como se fossem dois garotos contando vantagem.

- Sim, eu sou. - Trocaram um sorriso antes de Alex voltar a dormir. Xamã tomou o pulso do irmão e não gostou, mas não podia fazer

nada por enquanto. O corpo sujo de Alex fedia, mas quando ele descobriu a perna amputada e cheirou, seu coração se apertou. A longa experiência ao lado do pai e

depois, com Lester Brewyn e Barney McGowan, tinha ensinado que não havia nada de bom naquilo que os leigos chamavam de “pus louvável”. Xamã sabia que pus, numa incisão

ou num ferimento, geralmente significava o começo de envenenamento do sangue, abscesso e gangrena. Sabia o que precisava ser feito, e sabia que não podia fazer num

campo de prisioneiros.

Cobriu o irmão com dois novos cobertores e ficou sentado, segurando a mão de Alex e observando o rosto dele.

Quando o soldado o mandou para fora do campo, depois de uma hora e meia, Xamã conduziu o cavalo e a carroça alugados para a estrada paralela ao rio Chemung. A região

era mais montanhosa do que Illinois e havia mais bosques cerrados. A uns nove quilômetros além do fim da cidade encontrou um armazém com a tabuleta que dizia Barnard’s.

Xamã comprou alguns biscoitos e um pedaço de queijo para seu almoço, depois comeu duas fatias de uma saborosa torta de maçã e tomou duas xícaras de café. Perguntou

ao proprietário sobre acomodações por perto e o homem indicou a casa da Sra. Pauline Clay, a dois quilômetros do armazém, fora da cidadezinha de Wellsburg.

A casa era pequena e sem pintura, cercada por bosques. Quatro roseiras estavam embrulhadas em sacos de farinha por causa do frio e amarradas com corda de fardo de

feno. Uma pequena tabuleta na cerca de madeira dizia QUARTOS.

A Sra. Clay era uma mulher de rosto franco e simpático. Interessou-se com simpatia quando Xamã falou do irmão e mostrou a casa para ele. A tabuleta devia estar no

singular, pensou Xamã, porque na casa só havia dois quartos.

- Seu irmão pode ficar no quarto de hóspedes e o senhor fica com o meu. Em geral eu durmo no sofá - disse ela.

Ficou chocada quando Xamã disse que queria alugar a casa toda.

- Oh, eu acho que... - Mas arregalou os olhos quando ele disse quanto estava disposto a pagar. Disse francamente que uma viúva que há anos lutava para viver não

podia recusar uma oferta tão generosa e que podia ficar na casa da irmã enquanto os irmãos Cole estivessem na sua.

Xamã voltou ao armazém de Barnard e carregou a carroça com alimentos e outros suprimentos, e enquanto ele se mudava para a casa, naquela tarde, a Sra. Clay mudou-se

para a casa da irmã.

Na manhã seguinte, o sargento estava carrancudo e tratou Xamã com frieza, mas tudo indicava que o exército recebera a mensagem de Nick Holden e talvez de mais alguns

dos seus amigos.

420


O sargento entregou a Xamã um formulário impresso que era uma condicional formal, prometendo que, em troca da liberdade, Alex, “o abaixo-assinado nunca mais empunharia

armas contra os Estados Unidos da América”.

- Faça seu irmão assinar isto e pode levá-lo embora. Xamã ficou preocupado.

- Ele pode não estar muito bem para assinar.

- Bem, é o regulamento, ou ele dá a sua palavra, ou não é libertado. Não quero saber o quanto está doente, se não assinar, não sai.

Xamã levou tinta e uma pena para a barraca Oito-C e conversou com Buttons do lado de fora.

- Acha que Alex vai assinar isto se tiver forças? Westmoreland coçou o queixo.

- Bem, alguns estão dispostos a assinar para sair daqui, e outros acham que é uma vergonha. Não sei o que seu irmão pensa disso.

A caixa de repolhos vazia estava no chão, perto da barraca. Xamã a virou de cabeça para baixo e pôs o papel e o tinteiro em cima. Molhou a pena e escreveu rapidamente,

no fim da folha, Alexander Bledsoe.

Buttons balançou a cabeça aprovando.

- O senhor está certo, Dr. Cole. Tire o traseiro dele deste inferno.

Xamã pediu aos quatro homens que escrevessem os nomes e endereços de pessoas queridas num pedaço de papel e prometeu escrever e dizer que eles ainda estavam vivos.

- Acha que consegue fazer as cartas passarem pelas linhas? - perguntou Buttons Westmoreland.

- Acho que sim, quando voltar para casa.

Xamã trabalhou rapidamente. Deixou o papel assinado com o sargento e foi até a pensão apanhar sua mala. Pagou o criado para encher a carroça de lenha e voltou para

o campo. Um sargento negro e um soldado vigiaram os prisioneiros enquanto eles punham Alex na carroça e o cobriam com cobertores.

Os homens da barraca Oito-C apertaram a mão de Xamã e se despediram.

- Até logo, doutor!

- Adeus, velho Bledsoe!

- Dê duro neles!

- Trate de ficar bom!

Alex, sempre de olhos fechados, não respondeu.

O sargento acenou, dando ordem de partida, e o soldado subiu na carroça e segurou as rédeas, para levá-la até o portão principal. Xamã olhou atentamente para o rosto

negro e muito sério e sorriu, lembrando do diário do pai.

- Dia do Jubileu - disse ele.

421

O soldado sobressaltou-se, mas depois sorriu, mostrando os belos dentes brancos.



- Acho que está certo, senhor - disse e entregou as rédeas para Xamã.

As molas da carroça não eram grande coisa e Alex, deitado na palha, sacudia de um lado para o outro. Ele gritava de dor, depois gemeu quando Xamã passou pelos portões

e entrou na estrada.

O cavalo passou com a carroça pela torre de observação, pelo fim do muro que cercava a prisão. Da passarela, um soldado, armado de rifle, observou atentamente o

progresso dos dois irmãos.

Xamã manteve as rédeas curtas. Não podia correr sem torturar Alex, mas ia devagar também porque não queria despertar atenção para os dois. Por mais absurdo que parecesse,

tinha a impressão de que, a qualquer momento, o longo braço do exército dos Estados Unidos poderia apanhar de novo seu irmão e só começou a respirar normalmente

quando os muros da prisão ficaram muito para trás e eles atravessaram a divisa da cidade, saindo de Elmira.

67

A CASA EM WELLSBURG



A casa da Sra. Clay era acolhedora. Tão pequena que não tinha muito para se ver, e logo Xamã teve a impressão de que sempre havia morado ali.

Acendeu uma chama enorme e o ferro do fogão logo ficou vermelho vivo. Depois aqueceu água nas maiores panelas da Sra. Clay, levou a banheira para perto do fogão

e a encheu de água.

Quando Xamã o sentou na banheira com água quente, como uma criança, Alex arregalou os olhos de puro prazer.

- Quando foi a última vez que você tomou um banho de verdade?

Alex balançou a cabeça devagar. Xamã sabia que fazia tanto tempo, que ele nem podia lembrar. Não o deixou muito na água para não se resfriar. Lavou-o com um pano

molhado e com sabão, tomando muito cuidado com a perna inflamada.

Pôs o irmão sobre um cobertor, ao lado do fogão, e o enxugou. Depois vestiu nele uma camisola limpa de algodão. Alguns anos antes, carregar Alex escada acima teria

sido um desafio às suas forças, mas Alex estava tão magro que não teve dificuldade.

422


Quando Alex estava acomodado na cama do quarto de hóspedes, Xamã começou a trabalhar. Sabia exatamente o que precisava ser feito. Não adiantava esperar e qualquer

atraso podia ser muito perigoso.

Tirou tudo da cozinha, deixando apenas a mesa e uma cadeira, empilhando as outras e a pia seca na sala. Então lavou as paredes, o chão, o teto, a mesa e a cadeira

com água quente e sabão forte. Lavou os instrumentos cirúrgicos e os arrumou na cadeira, perto da mesa. Finalmente cortou as próprias unhas bem rentes e lavou as




1   ...   40   41   42   43   44   45   46   47   ...   51


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal