Noah Gordon, o xamã



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que tudo tinha corrido bem.

- Está acabado, a companhia não é mais minha responsabilidade - disse ela. Contou que o advogado tinha preparado os papéis com perfeição e eficiência e quase todo

o produto da venda estava depositado em nome de Hattie e Joshua.

- Muito bem, precisamos comemorar - disse ele, livrando-se por completo do humor sombrio da manhã.

Tomaram a primeira carruagem da fila, na frente do hotel. Xamã não queria ver teatros, nem currais de gado. Uma única coisa o interessava em Chicago.

- Mostre os lugares que você conhecia quando morava aqui.

- Mas não têm nada de interessante!

- Por favor.

Rachel inclinou-se para a frente e disse ao cocheiro onde queriam ir.

Primeiro ela apontou, um pouco embaraçada, para a loja onde tinha mandado consertar as cravelhas do violino e comprado cordas e um arco novo, mas começou a se divertir

quando mostrou onde comprava sapatos e chapéus e a camisaria onde tinha encomendado camisas sociais para o aniversário do pai. Percorreram vinte quarteirões e então

ela mostrou o edifício imponente da Congregação Sinai.

- Era aqui que eu tocava com meu quarteto, às terças-feiras, e onde assistíamos ao serviço das noites de sexta-feira. Não foi aqui que nos casamos. O casamento foi

na sinagoga Kehilath Anshe Maarib, da qual a tia de Joe, Harriet Ferber, era um membro importante.

- Há quatro anos, Joe e alguns outros deixaram a sinagoga e fundaram o Sinai, uma congregação de Reforma do Judaísmo. Libertaram-se de muitos rituais e tradições,

provocando um enorme escândalo. A tia Harriet ficou furiosa, mas o desentendimento durou pouco e continuamos boas amigas. Um ano depois, quando ela morreu, demos

seu nome à nossa primeira filha.

Chegaram então a um bairro de casas pequenas, mas confortáveis, e na rua Tyler ela apontou para uma casa com beirais marrons.

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- Nós morávamos aqui.



Xamã lembrou de como ela era então e inclinou-se para a frente, imaginando a jovem da sua lembrança naquela casa.

Cinco quarteirões adiante havia um conjunto de lojas.

- Oh, vamos parar - disse Rachel.

Desceram da carruagem e entraram num armazém que cheirava a sal e especiarias, onde um velho, corado, com barba branca, tão grande quanto Xamã, caminhou para eles

com um largo sorriso, limpando as mãos no avental.

- Sra. Regensberg, é um prazer vê-la outra vez!

- Obrigada, Sr. Freudenthal. É um prazer vê-lo também. Quero comprar algumas coisas para minha mãe.

Rachel comprou vários tipos de peixe defumado, azeitonas pretas e um pedaço grande de pasta de amêndoa. O Sr. Freudenthal olhou para Xamã.

- Ehr is nit a yid - observou ele.

- Nein - disse Rachel. E depois, como se devesse uma explicação. - Ehr is ein guteh freind.

Xamã não precisava conhecer a língua para saber o que tinham dito. Sentiu uma ponta de ressentimento, mas imediatamente compreendeu que a pergunta do homem fazia

parte da realidade que vinha com ela, como Hattie e Joshua. Quando os dois eram pequenos, num mundo mais inocente, poucas eram as diferenças e podiam ser contornadas,

mas agora eram adultos e as diferenças deviam ser enfrentadas.

Assim, quando apanhou os pacotes das mãos do dono do armazém, Xamã sorriu.

- Um bom dia para o senhor Sr. Freudenthal - e saiu atrás de Rachel.

Levaram as compras para o hotel. Estava na hora do jantar e Xamã teria escolhido o restaurante do hotel, mas Rachel disse que conhecia um lugar melhor. Foram a pé

a um pequeno restaurante, o Parkman Café. Não era luxuoso e tinha preços módicos, mas a comida e o serviço eram bons. Depois do jantar, ele perguntou o que ela queria

fazer e Rachel disse que queria andar em volta do lago.

A brisa soprava da água, mas havia um quê de verão no ar. As estrelas brilhavam no céu ao lado da lua do equinócio do outono em sua última fase, mas estava muito

escuro para Xamã ver os lábios dela e caminharam em silêncio. Com outra mulher, ele teria ficado ansioso, mas sabia que Rachel esperava seu silêncio quando não havia

luz.

Caminharam pela margem do lago até Rachel parar sob uma lâmpada Q apontar para um círculo de luz, mais adiante.



- Estou ouvindo uma música maravilhosa, címbalos de orquestra!

No lugar iluminado depararam com uma cena curiosa. Uma plataforma

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redonda, do tamanho da divisão de ordenha num celeiro, com uma porção de animais de madeira pintados. Um homem magro e enrugado girava uma grande manivela.



- É uma caixa de música? - perguntou Rachel.

- Non, est un carrousel. A pessoa escolhe um animal para montar, três drole, trêsplaisant - disse o homem. - Cada volta vinte centavos, mistaire.

Rob escolheu um urso marrom, Rachel, um cavalo pintado de um vermelho improvável. O francês rosnou, girou a manivela e eles começaram a rodar.

No canto do carrousel uma argola de bronze pendia de um poste, sob o cartaz que prometia uma volta de graça a quem conseguisse segurar a argola, montado num dos

animais. Sem dúvida estava bem fora do alcance da maioria das pessoas, mas Xamã esticou bem o corpo longo. O francês, quando viu Xamã tentando apanhar a argola,

girou a manivela mais depressa, aumentando a velocidade do carrousel. Mas Xamã conseguiu, na segunda tentativa.

Ele ganhou uma porção de voltas de graça para Rachel, mas logo o homem disse que precisava descansar o braço e Xamã desceu do urso pardo e começou a girar a manivela.

Girou cada vez mais depressa e o cavalo vermelho passou do meio galope para o galope. Rachel, inclinando a cabeça para trás, ria às gargalhadas, como uma criança,

com os dentes muito brancos brilhando. Não havia nada de infantil na intensa feminilidade dela. Não era só Xamã quem olhava encantado. O francês, fascinado, arriscava

um olhar, uma vez ou outra, enquanto se preparava para fechar.

- Vocês são os últimos fregueses de 1864 - ele disse para Xamã. - É o finis da estação. Logo chega o gelo.

Rachel deu onze voltas. Perceberam que tinham atrasado a hora de fechar do francês. Xamã pagou e acrescentou uma gorjeta e o homem presenteou Rachel com uma caneta

de vidro branco com um ramo de flores pintado.

Voltaram para o hotel despenteados e sorrindo.

- Eu me diverti tanto! - disse ela, na porta do quarto 306.

- Eu também.

Antes que Xamã pudesse fazer ou dizer alguma coisa, ela o tinha beijado no rosto e entrado no quarto, fechando a porta.

Xamã ficou deitado durante uma hora, completamente vestido. Finalmente, levantou e desceu os dois lances de escada. Rachel demorou um pouco para atender. Xamã, perdendo

a coragem, ia voltar, quando a porta se abriu e lá estava ela, com seu roupão.

Entreolharam-se.

- Você entra ou eu saio? - perguntou Rachel. Xamã viu que ela estava nervosa.

Ele entrou e fechou a porta.

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- Rachel... - disse ele, mas Rachel cobriu os lábios dele com a mão.



- Quando eu era pequena, eu costumava andar pelo Caminho Longo e parar num lugar perfeito, onde o bosque desce para o rio, bem ao lado da divisa entre as terras

do meu pai e as suas. Dizia a mim mesma que você ia crescer depressa e construir uma casa naquele lugar para me salvar do casamento com um homem de dentes estragados.

Eu imaginava os nossos filhos, um filho como você e três filhas que você amaria e trataria com paciência, permitindo que fossem à escola e ficassem em casa o tempo

que quisessem.

- Eu a amei toda a minha vida.

- Eu sei - disse ela e, quando se beijaram, Rachel começou a desabotoar a camisa dele.

Deixaram a luz acesa para que Rachel pudesse falar com ele, e para verem um ao outro.

Depois de fazer amor, Rachel adormeceu como uma gatinha e Xamã ficou deitado, ouvindo a respiração dela. Finalmente ela acordou e olhou para ele.

- Mesmo quando eu era mulher de Joe... mesmo depois de ser mãe, eu sonhava com você.

- De certo modo, eu sabia. Era isso que mais me atormentava.

- Estou com medo, Xamã.

- Do quê, Rachel?

- Durante anos sufoquei qualquer esperança disto... Você sabe o que uma família judia ortodoxa faz, quando alguém casa fora da fé? Cobre os espelhos com panos pretos

e ficam de luto. Recitam a oração dos mortos.

- Não tenha medo. Vamos conversar e eles vão entender.

- E se nunca compreenderem?

Xamã sentiu uma ponta de medo, mas tinham de enfrentar a possibilidade.

- Nesse caso, você tem de decidir - disse ele. Entreolharam-se em silêncio.

- Nada mais de resignação, para nenhum de nós - disse Rachel. - Certo?

- Certo.


Compreenderam que tinham selado um compromisso, mais sério do que qualquer promessa, e abraçaram-se como se cada um fosse uma balsa de salvamento.

No dia seguinte, no trem que os levava para o oeste, eles conversaram.

- Preciso de tempo - disse Rachel.

Xamã perguntou quanto e ela disse que queria contar pessoalmente ao pai, não numa carta secreta.

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- Não deve demorar. Todos dizem que a guerra está quase no fim.



- Esperei tanto tempo por você, acho que posso esperar um pouco mais - disse ele. - Porque não vou me encontrar com você às escondidas. Quero ir à sua casa e sair

com você. E quero passar muito tempo com Hattie e Joshua, para nos conhecermos bem.

Rachel sorriu e fez um gesto afirmativo.

- Sim - disse ela, segurando a mão dele.

Lillian ia esperá-la em Rock Island. Xamã deixou o trem em Moline e foi apanhar Boss no estábulo. Percorreu cinqüenta quilômetros rio acima e tomou a balsa que atravessava

o Mississipi, para Clinton, lowa. Naquela noite, ele ficou no Randall Hotel, num bom quarto com lareira com aparador de mármore e água quente e fria corrente. O

hotel tinha um maravilhoso banheiro de tijolos, acessível a todos os andares. Mas no dia seguinte, o objetivo da sua visita, o Hospital Inman, foi um desapontamento.

Era pequeno, como o que pretendiam construir em Holden’s Crossing, mas sujo e mal dirigido, um exemplo do que não devia ser feito. Xamã saiu o mais depressa possível

e pagou o capitão de uma barcaça para levá-lo e a Boss até Rock Island.

Uma chuva fria começou a cair quando estava a caminho de Holden’s Crossing, mas Xamã se aqueceu, pensando em Rachel e no futuro dos dois.

Chegou em casa, levou o cavalo para o estábulo e entrou na cozinha. Sarah estava sentada, rígida na ponta da cadeira. Evidentemente estava à sua espera, porque,

assim que Xamã entrou, ela disse.

- Seu irmão está vivo. É prisioneiro de guerra.

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UMA MENSAGEM PELO TELÉGRAFO



Na véspera, Lillian Geiger tinha recebido uma carta do marido. Jason dizia que vira o nome do cabo Alexander Bledsoe na lista dos prisioneiros de guerra confederados.

Alex fora aprisionado pelas forças da União em 11 de novembro de 1862, em Perrysville, Kentucky.

- Por isso Washington não respondeu nossas cartas perguntando se tinham um prisioneiro chamado Alexander Cole - disse Sarah. - Ele usou o nome do meu primeiro marido.

Xamã ficou feliz.

- Pelo menos ele deve estar vivo! Vou escrever imediatamente para saber onde ele está.

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- Isso vai demorar meses. Se ele ainda está vivo, há três anos é prisioneiro. Jason diz que as condições são terríveis nos campos de prisioneiros dos dois lados.

Diz que devemos tentar retirar Alex de lá imediatamente.

- Então eu vou a Washington. Mas Sarah balançou a cabeça.

- Li no jornal que Nick Holden vem a Rock Island e a Holden’s Crossing para a campanha eleitoral de Lincoln. Fale com ele e peça para ajudar a encontrar seu irmão.

Xamã disse, intrigado.

- Por que recorrer a Nick Holden e não ao nosso congressista ou senador? Papai desprezava Holden por ajudar a destruir os sauks.

- Nick Holden é provavelmente o pai de Alex - disse ela, em voz baixa.

Por um momento, Xamã ficou paralisado.

- ... eu sempre pensei... isto é, Alex pensa que seu pai natural é um tal de Will Mosby.

Sarah olhou para ele. Estava muito pálida, mas com os olhos secos.

- Eu tinha dezessete anos quando meu primeiro marido morreu. Estava sozinha na casa de madeira, no meio da pradaria, onde hoje é a fazenda dos Schroeder. Procurei

cuidar da fazenda sozinha, mas não consegui. A terra me venceu rapidamente. Eu não tinha dinheiro. Não havia empregos, e pouca gente morava por perto. Primeiro Will

Mosby me encontrou. Era um criminoso, ficava fora de casa por longos períodos, mas quando voltava, tinha sempre muito dinheiro. Então Nick começou a me visitar.

- Os dois eram bonitos e encantadores. A princípio, pensei que um não sabia do outro, mas quando fiquei grávida, descobri que os dois sabiam e cada um disse que

o outro era o pai.

Xamã mal podia falar.

- E eles não a ajudaram de modo algum? Sarah disse, com um sorriso amargo.

- Não que desse para notar. Acho que Will Mosby me amava e teria casado comigo, mas ele levava uma vida perigosa e escolheu exatamente aquele momento para ser morto.

Nick se afastou, embora eu sempre achasse que ele era o pai de Alex. Então Alma e Gus chegaram e compraram a terra, e acho que ele sabia que os Schroeder iam me

alimentar.

- Quando Alex nasceu, Alma estava comigo, mas a pobre mulher se descontrola numa emergência e eu tive de dizer a ela o que devia fazer. Depois que Alex nasceu, durante

alguns anos minha vida foi a pior possível. Primeiro, foram meus nervos, depois minha barriga, e isso provocou a formação de pedras nos rins. - Ela balançou a cabeça.

- Seu pai salvou minha vida. Até ele chegar, eu não acreditava que podia existir um homem bom e gentil no mundo todo.

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- A verdade é que eu tinha pecado. Quando você perdeu a audição, eu sabia que era castigo e que a culpa era minha, e mal podia chegar perto de você. Eu o amava demais

e minha consciência me atormentava. - Estendeu a mão e tocou o rosto dele.

- Eu sinto muito que você tenha uma mãe tão fraca e pecadora. Xamã segurou a mão dela.

- Não, você não é fraca, nem pecadora. É uma mulher forte que precisou de muita coragem para sobreviver. Por falar nisso, foi preciso muita coragem para me contar

essa história. Minha surdez não é culpa sua, mamãe. Deus não quer castigá-la. Nunca tive tanto orgulho de você, e nunca a amei mais do que agora.

-.Obrigada, Xamã - disse ela e, quando ele a beijou, sentiu as lágrimas no rosto dela.

Cinco dias antes do comício de Nick Holden em Rock Island, Xamã deixou um bilhete para ele com o presidente do comitê republicano do condado, dizendo que o Dr. Robert

Jefferson Cole agradeceria a oportunidade de falar com o comissário Holden sobre um assunto de grande importância.

No dia do primeiro comício, Xamã foi à grande casa de madeira de Nick, em Holden’s Crossing, onde um secretário o admitiu quando ele disse seu nome.

- O comissário o espera - disse o homem, conduzindo Xamã ao escritório.

Xamã notou que Nick tinha mudado. Estava mais gordo, com cabelo grisalho e ralo e uma rede de veias nos cantos do nariz mas era ainda um homem bonito e usava a autoconfiança

tão bem quanto as roupas elegantes.

- Ora, por Deus, você é o menorzinho, o mais novo, não é? E agora é médico? Estou muito contente por vê-lo. Vamos fazer uma coisa, preciso de uma boa refeição do

campo, venha comigo ao restaurante de Anna Willey que eu lhe pago um bom almoço típico de Holden’s Crossing.

Xamã lera há pouco tempo o diário do pai e ainda via Nick Holden pelos olhos e a pena de Rob J. e a última coisa que queria era comer com ele. Mas sabia por que

estava ali, por isso deixou que Nick o levasse na sua carruagem ao restaurante da pensão, na rua Principal. É claro que tiveram de parar primeiro no armazém-geral,

para Nick apertar as mãos dos homens que estavam na varanda, como um bom político, e ter certeza de que todos conheciam “meu bom amigo, nosso doutor”.

No restaurante, Anna Willey dispensou um tratamento especial aos dois e Xamã comeu o assado de carne de porco, que estava bom, e a torta de maçã, que não tinha nada

de especial. Finalmente, ele falou de Alex.

Holden ouviu sem interromper, depois balançou a cabeça afirmativamente.

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- Prisioneiro há três anos, é isso?



- Sim, senhor. Se ainda estiver vivo.

Nick tirou um charuto do bolso interno do paletó e ofereceu a Xamã, que recusou. Mordeu a ponta do charuto e acendeu, soltando baforadas de fumaça, olhando pensativamente

para Xamã.

- Por que veio me procurar?

- Minha mãe achou que o senhor ia se interessar - disse Xamã. Holden balançou a cabeça, assentindo. Depois sorriu.

- Seu pai e eu... Você sabe, quando éramos jovens, fomos grandes amigos. Passamos bons tempos juntos.

- Eu sei - disse Xamã.

Alguma coisa na sua voz avisou Holden que era melhor mudar de assunto. Balançou a cabeça outra vez.

- Muito bem, transmita à sua mãe minhas lembranças. E diga que vou me interessar pessoalmente pelo caso.

Rob agradeceu. Mesmo assim, quando chegou em casa, escreveu para seu congressista e seu senador, pedindo para ajudá-lo a localizar Alex.

Alguns dias depois da sua volta de Chicago, Xamã e Rachel comunicaram às mães que estavam namorando.

Sarah contraiu os lábios, mas fez um gesto afirmativo, sem nenhuma surpresa.

- É claro que você vai ser bom para os filhos dela, como seu pai foi com Alex. Se tiverem filhos, vão ser batizados?

- Não sei, mamãe. Ainda não chegamos lá.

- Se eu fosse vocês, conversaria a esse respeito. - Era tudo que Sarah tinha a dizer sobre o assunto.

Rachel não teve tanta sorte. Ela e a mãe brigavam com freqüência. Lillian tratava Xamã delicadamente quando ele ia à sua casa, mas sem nenhum calor. Xamã levava

Rachel e as crianças para passear de charrete, sempre que podia, mas a natureza conspirou contra eles, pois o tempo ficou horrível. Assim como o verão tinha chegado

cedo demais, muito quente, quase sem primavera, o inverno chegou muito cedo na planície, naquele ano. Outubro foi gelado. Xamã encontrou os patins do pai e passou

a patinar na superfície gelada do pasto dos búfalos, mas estava frio demais para se demorar muito. No dia das eleições nevou mais, quando Lincoln foi reeleito facilmente

e, no dia dezoito, uma chuva de granizo abateu-se sobre Holden’s Crossing e a camada branca cobriu o solo até a primavera.

- Você notou o tremor de Alden? - Sarah comentou com Xamã naquela manhã.

Na verdade, Xamã vinha observando Alden há algum tempo.

- Ele está com o mal de Parkinson, mamãe.

- O que é isso?

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- Eu não sei o que provoca o tremor, mas a doença afeta o controle dos músculos.



- Ele vai morrer disso?

- Às vezes pode provocar a morte, mas não é comum. O mais provável é que vá piorando aos poucos. Talvez fique inutilizado.

- Bem, o pobre homem está muito velho e doente para dirigir esta fazenda. Temos de pensar em pôr Doug Penfield no lugar dele e arranjar outra pessoa para ajudar.

Podemos fazer isso?

Estavam pagando vinte e dois dólares por mês para Alden e dez para Doug Penfield. Xamã fez um cálculo rápido e disse que podiam.

- E então o que vai acontecer com Alden?

- Bem, Alden fica na casa e nós tomamos conta dele, é claro. Mas vai ser difícil convencê-lo a deixar o trabalho pesado.

- Talvez seja melhor dar a ele trabalhos mais leves - disse ela, e Xamã concordou.

- Acho que já tenho um - disse Xamã.

Naquela noite ele levou o bisturi “Rob J.” à casa de Alden.

- Precisa ser amolado, certo? - disse Alden, apanhando o bisturi. Xamã sorriu.

- Não, Alden, eu o mantenho amolado. É um instrumento cirúrgico que está na minha família há centenas de anos. Meu pai contava que na casa da mãe dele era guardado

numa moldura, com vidro, dependurada na parede. Será que podia fazer uma para mim?

- Não sei por que não - Alden examinou o bisturi. - Uma boa peça de aço, esta aqui.

- Sim, é. Com um ótimo corte.

- Eu podia fazer uma faca igual a esta, se quiser outra. Xamã ficou intrigado.

- Você tentaria? Poderia fazer uma com a lâmina mais longa e mais estreita?

- Acho que não tem problema - disse Alden e Xamã notou o tremor da mão dele segurando o bisturi.

Era difícil estar tão perto de Rachel e ao mesmo tempo tão longe. Não havia nenhum lugar onde pudessem fazer amor. Caminhavam na alta camada de neve, para os bosques,

onde se abraçavam como ursos e trocavam beijos gelados e carícias enluvadas. Xamã começou a ficar irritado e rabugento, e notou que Rachel tinha olheiras escuras.

Quando a deixava, Xamã fazia longas e vigorosas caminhadas. Um dia, quando descia o Caminho Curto, notou que algumas partes da madeira que marcava o túmulo de Makwa-ikwa

estavam rachadas. O tempo tinha quase apagado as marcas cabalísticas que Rob J. mandara Alden gravar na madeira.

Xamã teve a impressão de que Makwa ia se erguer furiosa da terra e da neve. Quanto era imaginação e quanto era sua consciência?

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Eu fiz tudo que podia. O que mais posso fazer? Há muitas outras coisas na minha vida além do fato de você não poder descansar, disse ele, irritado, e dando meia-volta

foi para casa, com a neve quase até os joelhos.

Naquela tarde, ele foi à casa de Betty Cummings, que estava com forte reumatismo nos dois ombros. Xamã amarrou o cavalo e caminhou para a porta dos fundos, quando

viu, bem atrás do celeiro, umas pegadas duplas e algumas marcas estranhas.

Atravessou uma pilha de neve e ajoelhou para examinar as marcas.

Eram triangulares. Tinham uns doze centímetros de profundidade e variavam em tamanho, de acordo com a profundidade.

Aqueles ferimentos triangulares na neve não tinham sangue e havia mais de onze deles.

Xamã ficou ajoelhado, olhando para a neve.

- Dr. Cole?

A Sra. Cummings tinha saído de casa e estava inclinada ao lado dele, com expressão preocupada.

Ela disse que eram marcas do bastão de esqui do seu filho. Ele tinha feito os esquis e os bastões de nogueira e afiado as pontas com uma faca.

Eram marcas muito grandes.

- Está tudo bem, Dr. Cole? - Ela estremeceu, aconchegando mais o xale e Xamã censurou-se por permitir que a mulher reumática ficasse tanto tempo no frio.

- Está tudo muito bem, Sra. Cummings - disse ele, entrando com ela na cozinha quente.

Alden fez uma bela moldura para o bisturi Rob J. Era de carvalho e forrada com um pedaço de veludo azul-claro, conseguido com Sarah, para montar o bisturi.

- Não encontrei um pedaço de vidro usado. Tive de comprar um no armazém do Haskins. Espero que esteja bom.

- Está mais do que bom - disse Xamã, satisfeito. - Vou pendurar no hall de entrada.

Ficou mais satisfeito ainda com o bisturi feito por Alden, de acordo com sua especificação.

- Eu forjei de um velho marcador de ovelhas, de ferro. Ainda sobrou muito aço bom para mais dois desses, se você quiser.

Xamã desenhou um tenta cirúrgica e uma pinça para amputação.

- Acha que pode fazer isto?

- Não duvido nada.

Xamã olhou para ele, pensativo.

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- Alden, vamos ter um hospital aqui em Holden’s Crossing. Isso significa que vamos precisar de instrumentos, camas, cadeiras, uma porção de coisas. O que acha de

arranjar alguém para ajudá-lo a fazer tudo isso para nós?

- Bem, acho que seria bom, mas... não vou ter tempo.

- Sim, eu compreendo. E se contratarmos alguém para ajudar Doug Penfield na fazenda? Duas vezes por semana você pode dizer a eles o que devem fazer.




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