Noah Gordon, o xamã



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para que tivesse força para perdoar.

Ela sentou-se e outra se levantou, numa das extremidades do banco, onde Xamã não podia ver seus lábios. Depois de pouco tempo ela também se sentou e voltaram ao

silêncio, até um homem se levantar perto da janela. Era um jovem de vinte e poucos anos, com expressão decidida. Disse que precisava tomar uma decisão importante

que afetaria o resto da sua vida.

- Preciso da ajuda do Senhor e das preces de todos - disse ele, tornando a se sentar.

Depois disso, ninguém mais falou. O tempo passou suavemente. Então Xamã viu George Cliburne trocar um aperto de mão com o homem ao lado dele. Era o sinal para terminar

a reunião. Algumas pessoas, perto de Xamã, despediram-se com apertos de mão e todos se dirigiram para as portas.

Era a cerimônia religiosa mais estranha que ele já vira. De volta à casa de Cliburne, Xamã disse, pensativo.

- Então um quacre deve perdoar sempre todos os crimes? O que me diz da satisfação quando a justiça prevalece sobre o mal?

- Oh, nós acreditamos na justiça - disse Cliburne. - Só não acreditamos na vingança e na violência.

Xamã sabia que seu pai desejava vingar a morte de Makwa-ikwa e ele também.

- Usaria de violência se alguém ameaçasse matar sua mãe? - perguntou Xamã e ficou surpreso com a risada de Cliburne.

- Mais cedo ou mais tarde, todos que começam a pensar em pacifismo fazem essa pergunta. Minha mãe já morreu há muito tempo, mas se eu me encontrasse nessa situação,

tenho certeza de que o Senhor me diria o que fazer.

- Escute aqui, Xamã. Você não vai rejeitar a violência por causa do que eu possa dizer. A fonte não vai ser esta - disse ele, apontando para a própria boca. - Nem

esta - tocou a testa de Xamã.

- Se acontecer, terá de vir daqui. - Tocou o peito de Xamã. - Assim, até acontecer, continue a usar sua espada - disse Cliburne, como se Xamã fosse um romano ou

um visigodo, ao invés de um homem surdo, recusado para o serviço militar. - Quando e se tirar a espada do cinto e a atirar para longe, será porque não teve outra

escolha - disse Cliburne, estalando a língua e batendo a rédea para apressar o cavalo.

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O FIM DO DIÁRIO

- Fomos convidados para o chá esta tarde na casa dos Geiger - disse a mãe de Xamã. - Rachel insiste na nossa presença. Alguma coisa a ver com as crianças e avelãs.

Assim, naquela tarde, atravessaram o Caminho Longo e sentaram na sala de jantar dos Geiger. Rachel mostrou a Sarah seu novo casaco para o outono, de lã verde-clara.

- Lã dos Cole! - Feito por Lillian porque o luto de Rachel tinha terminado. Todos elogiaram o trabalho de Lillian.

Rachel disse que ia usá-lo na próxima segunda-feira na sua viagem a Chicago.

- Vai ficar muito tempo? - perguntou Sarah e ela disse que não, apenas alguns dias.

- Negócios - disse Lillian, num tom carregado de desaprovação. Sarah então elogiou o sabor do chá inglês que estavam tomando e

Lillian, com um suspiro, disse que tinham muita sorte por conseguir aquele chá.

- Quase não há mais café no sul inteiro, e nenhum chá decente. Jay diz que, na Virgínia, o chá e o café estão custando cem dólares o quilo. - Então teve notícias

dele outra vez? - perguntou Sarah.

Lillian fez um gesto afirmativo.

- Ele diz que está bem, graças a Deus.

O rosto de Hattie se iluminou quando Rachel entrou na sala com o bolo, quente ainda do forno.

- Fomos nós que fizemos! - anunciou ela. - Mamãe pôs as coisas e misturou e Joshua e mim pusemos as avelãs!

- Joshua e eu - corrigiu a avó.

- Vovó, você nem estava na cozinha!

- As avelãs estão simplesmente deliciosas - Sarah disse para Hattie.

- Mim e Hattie pegamos - disse Joshua, com orgulho.

- Hattie e eu - disse Lillian.

- Não, vovó, você não estava lá, foi no Caminho Longo e mim e Hattie pegamos as avelãs, enquanto mamãe e Xamã sentavam na manta de mãos dadas.

Houve um momento de silêncio.

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- Xamã está com alguma dificuldade de dicção - disse Rachel. - Precisa de exercício. Estou ajudando outra vez, como fazíamos antes. Nós nos encontramos no caminho



do bosque para que as crianças pudessem brincar por perto, mas ele vai começar a vir aqui em casa, para os exercícios com o piano. Sarah concordou.

- Vai ser bom para Robert trabalhar um pouco na sua fala. Lillian também fez um gesto afirmativo, mas um tanto rígido.

- Sim, que sorte que você está em casa, Rachel - disse ela, apanhando a xícara de Xamã para servir mais chá inglês.

No dia seguinte, embora não tivessem combinado nada, quando Xamã voltou das visitas aos doentes, foi até o Caminho Longo e a encontrou, vindo do outro lado.

- Onde estão os meus amigos?

- Estão ajudando na faxina de outono e não dormiram de tarde, por isso foram dormir agora.

Xamã fez meia-volta e seguiu ao lado dela. O bosque estava repleto de pássaros, e Xamã viu um cardeal cantando um imperioso desafio silencioso.

- Tive uma discussão com minha mãe. Ela quer ir a Peoria nos Grandes Dias Santos, e eu me recuso a ir para ser exibida aos solteiros e viúvos. Assim, vamos passar

os feriados em casa.

- Ótimo - disse ele e Rachel sorriu.

A outra discussão, contou ela, foi porque o primo de Joe Regensberg vai se casar com outra pessoa e quer comprar a Regensberg Tinware Company, uma vez que não a

conseguiu por meio do casamento. Por isso ela ia a Chicago, para vender a companhia.

- Sua mãe vai se acalmar. Ela a ama.

- Eu sei disso. Quer fazer um pouco de exercício?

- Por que não? - Xamã estendeu a mão.

Dessa vez ele sentiu um ligeiro tremor na mão de Rachel. Talvez o cansaço da faxina daquele dia, ou as discussões. Mas ele queria acreditar que era mais do que isso.

Era como um mútuo reconhecimento de emoções e os dedos dele moveram-se nos dela.

Estavam trabalhando no controle da respiração para a pronúncia vocal correta da letra P e Xamã, muito sério, repetia a frase sem sentido que dizia uma paca perfeita

perseguindo um pombo perturbado, quando Rachel balançou a cabeça.

- Não, sinta como eu faço - disse ela, pondo a mão dele no seu pescoço.

Mas tudo que ele sentiu foi a carne morna de Rachel.

Não foi planejado. Se tivesse pensado antes, Xamã não teria feito. Sua mão subiu para segurar o rosto delicado e Xamã inclinou-se para ela. Foi um beijo infinitamente

doce, o beijo sonhado e desejado por

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um garoto de quinze anos na garota que ele amava desesperadamente. Mas logo se transformou no beijo de um homem e de uma mulher e Xamã mal podia acreditar na avidez

com que ela respondeu, tão diferente do frio controle com que Rachel havia proposto uma amizade eterna, há poucos dias.

- Rachel... - disse ele, quando seus lábios se separaram.

- Não. Oh, Deus.

Mas Xamã cobriu o rosto dela com beijos leves e ardentes como chuva quente. Beijou os olhos, os cantos da boca e o nariz. Sentia o corpo dela tenso contra o seu.

Rachel lutava com a surpresa e o choque da própria reação. Encostou a mão no rosto dele e Xamã, virando a cabeça, beijou a palma macia.

Ele a viu dizer as palavras tão conhecidas no passado, as palavras com que Dorothy Burnham terminava os exercícios.

- Acho que por hoje chega - disse Rachel, afastando-se dele. Xamã ficou olhando até ela desaparecer na curva do Caminho Longo.

Naquela noite ele começou a ler a última parte do diário do pai, sentindo, com medo e uma grande tristeza, o lento apagar da existência de Robert Judson Cole e vivendo

a experiência da guerra terrível ao longo do Rappahannock na descrição feita com a letra grande e clara do pai.

Quando Xamã chegou à descoberta de Lanning Ordway por Rob J., parou de ler por algum tempo. Era difícil para ele aceitar o fato de que, depois da procura de tantos

anos, seu pai tivesse feito contato com um dos assassinos de Makwa-ikwa.

Xamã leu durante toda a noite, inclinado para a luz.

Releu várias vezes a carta de Ordway para Goodnow.

Um pouco antes do nascer do dia chegou ao fim do diário - e ao fim do seu pai. Ficou deitado na cama, vestido, pensando durante mais de uma hora. Quando ouviu a

mãe na cozinha, foi até o celeiro e pediu para Alden entrar com ele na casa. Mostrou aos dois a carta de Ordway e disse como a tinha encontrado.

- No diário dele? Você leu o diário dele? - perguntou Sarah.

- Sim. Você quer ler? Ela balançou a cabeça.

- Eu não preciso disso. Eu era sua mulher. Eu o conhecia.

Os dois perceberam que Alden parecia não se sentir bem e Sarah serviu café.

- Eu não sei o que fazer com essa carta. Xamã deixou que eles lessem com vagar.

- Bem, o que você pode fazer agora? - perguntou Alden, irritado. Alden estava envelhecendo rapidamente, pensou Xamã. Bebendo

mais, talvez, ou com menor resistência para a bebida. Suas mãos trêmulas deixaram cair um pouco de açúcar da colher.

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- Seu pai fez de tudo para que a lei investigasse o que aconteceu com a mulher sauk. Acha que vão se interessar mais agora, só porque você tem o nome de um homem

na carta de um homem morto?

- Robert, quando isso vai acabar? - perguntou Sarah, com amargura. - Os ossos daquela mulher estão há anos em nossas terras e vocês dois, seu pai e você, nunca permitiram

que ela descansasse em paz, e nem nenhum de nós. Não pode apenas rasgar a carta e esquecer essa dor antiga, deixar que os mortos descansem em paz?

Mas Alden balançou a cabeça.

- Com todo o respeito, Sra. Cole, mas este homem não está disposto a ouvir o bom senso ou a razão quando se fala daqueles índios, como o pai dele tampouco ouvia.

- Assoprou o café, ergueu a xícara com as duas mãos e tomou um gole que devia ter queimado sua boca. - Não, ele vai se preocupar até a morte, como um cão engasgado

com um osso, como seu pai costumava fazer. - Olhou para Xamã. - Se meu conselho vale alguma coisa, o que eu não acredito, você devia ir a Chicago, quando puder,

e procurar esse Goodnow, ver se ele pode dizer alguma coisa. Se não fizer isso, vai se acabar de preocupação e acabar com a gente também.

Madre Miriam Ferocia não concordou. Quando, naquela tarde, Xamã mostrou-lhe a carta, ela disse.

- Seu pai me falou acerca de David Goodnow - sua voz estava calma.

- Se o reverendo Goodnow é o reverendo Patterson, ele devia ser responsabilizado pela morte de Makwa-ikwa.

Madre Miriam suspirou.

- Xamã, você é médico, não policial. Não pode deixar para Deus o julgamento deste homem? Precisamos desesperadamente de você como médico. - Inclinou-se para a frente,

com os olhos nos dele. - Eu tenho ótimas notícias. Nosso bispo informou que vai enviar fundos para a construção de um hospital aqui.

- Reverenda madre, isso é maravilhoso!

- Sim, maravilhoso.

O sorriso iluminava o rosto dela, pensou Xamã. Lembrou da herança que seu pai citava no diário e que ela doara para a igreja e imaginou se o que o bispo estava mandando

não seria uma parte dessa herança. Mas a alegria de madre Miriam não dava lugar a esse tipo de pensamento.

- O povo desta região vai ter um hospital - disse ela, sorrindo, feliz. - As irmãs enfermeiras deste convento vão trabalhar no Hospital de São Francisco de Assis.

- E eu terei um hospital para os meus pacientes.

- Na verdade, esperamos que tenha mais do que isso. As irmãs concordaram. Queremos que seja o diretor clínico do hospital.

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Xamã ficou em silêncio por um momento.



- É uma honra, reverenda madre - ele disse, então. - Mas eu sugiro um diretor clínico com mais experiência, com mais idade. E a senhora sabe que não sou católico.

- No passado, quando eu ousava sonhar com isto, esperava que seu pai fosse nosso diretor. Deus enviou seu pai para ser nosso amigo e nosso médico, mas seu pai se

foi. Agora, Deus enviou você. Você tem a habilidade e os conhecimentos necessários e já tem muita experiência. É o médico de Holden’s Crossing e vai dirigir o hospital

da cidade - ela sorriu. - Quanto ao fato de não ter muita idade, acreditamos que você é o jovem mais velho que já conhecemos. Será um pequeno hospital, com apenas

vinte e cinco leitos. E nós cresceremos com ele. - Ela acrescentou: -Eu gostaria de lhe dar um conselho. Não tenha medo de se atribuir um valor muito alto porque

os outros já o fazem. Nem hesite em aspirar a qualquer objetivo maior, porque Deus foi generoso com os dons que lhe concedeu.

Embaraçado, Xamã sorriu com a segurança de um médico a quem acabam de prometer um hospital.

- Será sempre um prazer acreditar na senhora, reverenda madre - disse ele.

64 CHICAGO

Xamã contou apenas para a mãe sua conversa com a superiora do convento. Sarah o surpreendeu com a intensidade do seu orgulho.

- Vai ser ótimo ter um hospital aqui, e você como diretor. Seu pai ficaria tão feliz!

Xamã explicou que a arquidiocese católica só enviaria os fundos necessários depois que fossem aprovados os planos para a construção do hospital.

- Enquanto isso, Míriam Ferocia me pediu para visitar vários hospitais a fim de estudar a organização dos vários departamentos - disse ele.

Xamã sabia exatamente onde ia fazer isso e qual o trem que devia tomar.

Na segunda-feira ele seguiu a cavalo até Moline e pagou a estada de Boss num estábulo por alguns dias. O trem para Chicago parava em

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Moline às 3:20 da tarde, tempo suficiente para embarcar os arados da fábrica John Deere e, às 2:45, Xamã estava esperando na plataforma de madeira.

Quando o trem parou, Xamã embarcou no último vagão e foi andando para’a frente. Sabia que Rachel tinha tomado o trem em Rock Island há poucos minutos e a encontrou

no terceiro vagão, sozinha. Xamã tinha se preparado para cumprimentá-la alegremente, comentando o “acaso” daquele encontro, mas o sangue desapareceu do rosto dela

quando o viu.

- Xamã... aconteceu alguma coisa com as crianças?

- Não, nada disso. Vou a Chicago tratar de negócios - disse ele, censurando-se por não ter previsto essa reação à surpresa. - Posso me sentar com você?

- É claro.

Xamã pôs a mala no bagageiro e sentou, sentindo o constrangimento

como uma barreira entre os dois.

- Xamã, aquele dia, no caminho do bosque...

- Eu gostei muito - disse ele, com voz firme.

- Não posso permitir que você tenha uma idéia errada. Outra vez, pensou ele, com desespero.

- Eu acho que você gostou muito também - disse ele e outra vez

ela ficou muito pálida.

- Não se trata disso. Não devemos nos permitir esse tipo de... prazer que só serve para tornar mais cruel a realidade.

- O que é a realidade?

- Sou uma viúva judia com dois filhos.

- E o que mais?

- Eu jurei que nunca mais vou permitir que meus pais escolham o marido para mim, mas isso não significa que não pretendo fazer uma

escolha sensata.

Isso machucou. Mas dessa vez ele não ia deixar de dizer o que tinha

de ser dito.

- Eu a amei durante quase toda a minha vida. Jamais conheci uma mulher cuja aparência e cuja mente eu achasse mais belas. Preciso da bondade que há em você.

- Xamã, por favor. - Rachel virou o rosto e olhou pela janela,

mas ele continuou.

- Você me fez prometer que jamais seria resignado, nem passivo. Não quero me resignar a perdê-la outra vez. Quero casar com você e ser um pai para Hattie e Joshua.

Rachel continuou olhando pela janela, vendo os campos e as fazendas que passavam.

lendo dito o que precisava dizer, Xamã tirou uma revista médica do bolso e começou a ler sobre a etiologia e o tratamento da coqueluche. Rachel tirou o tricô da

sacola que estava sob o banco. Xamã viu que ela estava fazendo um pequeno suéter de lã azul-escuro.

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- Para Hattie?

- Para Joshua.

Entreolharam-se longamente, depois ele voltou à leitura e ela ao tricô.

Começou a escurecer antes que tivessem percorrido oitenta quilômetros e o condutor acendeu as luzes do trem. Antes das cinco horas sentiram fome. Xamã tinha galinha

frita e torta de maçã e Rachel, pão, queijo, ovos cozidos e quatro pequenas peras doces. Dividiram a torta, os ovos e as frutas. Xamã tinha água da fonte num frasco.

Depois da parada em Juliet, o condutor apagou as luzes e Rachel dormiu durante algum tempo. Acordou com a cabeça no ombro de Xamã e a mão na dele. Tirou a mão,

mas deixou a cabeça onde estava por algum tempo. Quando o trem passou da pradaria escura para o mar de luzes da cidade, Rachel estava arrumando o cabelo, com um

grampo de metal entre os dentes e disse que estavam em Chicago.

Tomaram a diligência na estação, para o Palmer’s Illinois House Hotel, onde o advogado de Rachel reservara um quarto para ela. Xamã ficou no quinto andar, quarto

508. Acompanhou Rachel até o 306 e deu gorjeta ao carregador.

- Quer mais alguma coisa: café, talvez?

- Acho que não, Xamã. Está ficando tarde e tenho muito que fazer amanhã. - Também não aceitou o convite para o café da manhã. - Por que não nos encontramos aqui

às três horas e eu mostro Chicago para você, antes do jantar?

Xamã disse que estava ótimo e foi para seu quarto. Desfez as malas, guardou a roupa nas gavetas da cômoda e no closet, depois desceu os cinco lances de escada para

o banheiro nos fundos do hotel, limpo e bem-cuidado.

Na volta, parou por um momento no terceiro andar e olhou para a porta do quarto dela. Depois subiu os dois lances de escada até o quinto.

De manhã, logo depois do café, ele procurou a rua Bridgeton, que ficava num bairro operário com casas de madeira geminadas. No número

237 uma jovem com ar cansado, com uma criança no colo e um garotinho agarrado na saia, atendeu a porta.

Ela balançou a cabeça quando Xamã perguntou pelo reverendo David Goodnow.

- Há um ano o Sr. Goodnow não mora aqui. Ouvi dizer que ele está muito doente.

- Sabe onde ele está?

- Sim, está numa... espécie de hospital. Nós não o conhecemos. Mandamos o aluguel para o hospital todos os meses. Foi o que combinamos com o advogado dele.

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- Podia me dar o nome do hospital? Eu preciso muito vê-lo. Ela fez um gesto afirmativo.



- Está escrito, na cozinha. - Entrou e voltou num instante com o pedaço de papel.

- É o Asilo Dearborn - disse a mulher. - Na rua Sable.

A placa era modesta e discreta, de bronze, pregada na coluna central que se erguia do baixo muro de tijolos:

Asilo Dearborn Para Alcoólatras E Insanos

Era uma mansão de tijolos vermelhos, com três andares, e as grades de ferro trabalhado, nas janelas, combinavam com a cerca de ferro sobre o muro de tijolos.

A porta pesada era de mogno e o hall, escuro, com duas cadeiras forradas de crina. Num pequeno escritório que dava para o hall, um homem de meia-idade, sentado a

uma mesa, escrevia num grande livro-caixa. Inclinou a cabeça afirmativamente quando Xamã disse o que queria.

- Só Deus sabe há quanto tempo o Sr. Goodnow não recebe uma visita. Nem sei se alguma vez recebeu alguma. Assine o livro de visitas, que vou falar com o Dr. Burgess.

O Dr. Burgess apareceu logo depois, um homem pequeno com cabelo preto e bigode fino e bem-cuidado.

- O senhor é parente ou amigo do Sr. Goodnow, Dr. Cole? Ou é uma visita profissional?

- Conheço pessoas que conhecem o Sr. Goodnow - disse Xamã, cautelosamente. - Estou de passagem por Chicago e pensei em visitá-lo.

- O horário de visitas é à tarde, mas para um médico ocupado, podemos abrir uma exceção. Venha comigo, por favor.

Subiram um lance de escada e o Dr. Burgess bateu numa porta trancada que foi aberta por um enorme atendente. O homenzarrão os conduziu por um longo corredor onde

mulheres muito pálidas, sentadas nos bancos encostados na parede, falavam sozinhas ou olhavam para o espaço, imóveis. Passaram ao lado de uma poça de urina e Xamã

viu fezes esfregadas na parede. Em alguns quartos do corredor, as mulheres estavam acorrentadas à parede. Xamã tinha passado quatro tristes semanas trabalhando no

Asilo para os Insanos do Estado de Ohio, quando estava na escola de medicina, e nem o que via, nem o cheiro foram surpresa para ele. Ficou satisfeito por não ouvir

os sons.

O atendente abriu outra porta trancada e entraram no longo corredor da enfermaria dos homens, nada melhor do que a das mulheres. Finalmente o conduziram a um quarto

pequeno, com uma mesa e algumas cadeiras., e pediram que aguardasse.

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O médico e o atendente voltaram, trazendo um homem velho, com calça de trabalho sem botões na braguilha e um paletó muito sujo sobre a camisa. O cabelo precisava

ser cortado e a barba grisalha estava despenteada e mal aparada. Havia um leve sorriso nos seus lábios, mas os olhos estavam fixos em outro lugar qualquer.

- Aqui está o Sr. Goodnow - disse o Dr. Burgess.

- Sr. Goodnow, eu sou o Dr. Robert Cole.

O sorriso não se alterou. Os olhos não o viam.

- Ele não consegue falar - disse o Dr. Burgess.

Mesmo assim, Xamã levantou da cadeira e aproximou-se do homem.

- Sr. Goodnow, o senhor era Ellwood Patterson?

- Há mais de um ano que ele não fala - disse o Dr. Burgess, pacientemente.

- Sr. Goodnow, o senhor matou a mulher índia que o senhor estuprou, em Holden’s Crossing quando foi mandado pela Ordem da Bandeira de Estrelas e Listras?

O Dr. Burgess e o atendente olharam espantados para Xamã.

- Sabe onde posso encontrar Hank Cough? Nenhuma resposta.

Xamã repetiu, com voz forte.

- Onde posso encontrar Hank Cough?

- Ele é sifilítico. Uma parte do cérebro foi destruída pela paresia - disse o Dr. Burgess.

- Como sabe que ele não está fingindo?

- Nós o vemos o tempo todo e sabemos. Por que alguém ia fingir para viver deste modo?

- Anos atrás, este homem tomou parte num crime desumano e terrível. Não me agrada pensar que possa escapar ao castigo - disse Xamã, com amargura.

David Goodnow começou a babar. O Dr. Burgess olhou para ele e balançou a cabeça.

- Não acredito que ele tenha escapado ao castigo.

Xamã e os dois homens voltaram, passando pelos dois corredores. Na porta, o Dr. Burgess despediu-se dele cortesmente, dizendo que o Asilo agradeceria recomendações

dos médicos do oeste de Illinois. Xamã saiu para a luz brilhante do sol. O mau cheiro da cidade era perfume, comparado ao cheiro do asilo. Xamã caminhou por um longo

tempo, absorto em pensamentos.

Parecia o fim da trilha. Um dos homens que tinham destruído Makwa-ikwa estava morto. Outro, ele acabava de ver, estava preso num inferno e ninguém sabia do terceiro.

Miriam Ferocia tinha razão, pensou ele. Estava na hora de deixar os assassinos de Makwa-ikwa para a justiça de Deus e se concentrar na medicina e na sua vida.

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Xamã tomou o bonde puxado por cavalos, para o centro de Chicago, depois outro, para o Chicago Hospital, que lembrava seu hospital em Cincinnati. Era bom e grande,

com quase quinhentos leitos. Quando pediu para ver o diretor e explicou a que vinha, foi tratado com muita cortesia.

O diretor o levou a um cirurgião e os dois deram suas opiniões sobre o equipamento e suprimentos de que ia precisar para um pequeno hospital. O encarregado das compras

recomendou fornecedores especializados com preços razoáveis e boa regularidade nas entregas. Xamã falou com a administradora sobre a quantidade de roupa de cama

necessária para manter todos os leitos sempre limpos. Anotou tudo no seu caderninho de bolso.

Um pouco antes das três horas, voltou ao Palmer’s Illinois House Hotel e encontrou Rachel sentada no saguão, à sua espera. Percebeu pela expressão do rosto dela




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