Noah Gordon, o xamã



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quando se despediu de Xamã.

Naquela tarde, quando, montado em Boss, Xamã voltava para casa, viu uma mulher andando sozinha. Ao chegar perto, reconheceu o vestido azul. Rachel estava com sapatos

confortáveis para caminhar e uma velha touca para proteger o rosto do sol. Xamã a chamou e, voltando-se, ela o cumprimentou, tranquila.

- Posso acompanhá-la?

- Por favor.

Xamã desmontou e segurou o cavalo pela rédea.

- Não sei o que deu em minha mãe para dizer que eu ia me casar. O primo de Joe demonstrou algum interesse, mas não vamos nos casar. Acho que minha mãe está me empurrando

para ele porque quer que as crianças tenham um pai.

- Parece que é uma conspiração das mães. A minha, propositada mente, não me contou que você tinha voltado.

- Acho isso um insulto - disse Rachel e ele viu lágrimas nos olhos

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dela. - Elas pensam que somos bobos. Eu sei que tenho uma filha e um filho que precisam de um pai judeu. E, certamente, a última coisa na qual você podia estar



interessado é numa mulher judia com dois filhos e que está de luto do marido. Xamã sorriu.

- São crianças muito interessantes. E têm uma mãe muito interessante. Mas é verdade. Não sou mais um garoto apaixonado de quinze anos.

- Pensei tanto em você, depois que me casei. No quanto o tinha magoado.

- Eu me refiz depressa.

- Éramos crianças, convivendo em tempos difíceis. Eu tinha medo do casamento e você era um grande amigo - Rachel sorriu. - Quando você era pequeno, disse que mataria

para me proteger. E agora que somos adultos, você salvou meu filho. - Pôs a mão no braço dele. - Espero que continuemos amigos fiéis para sempre. Por toda nossa

vida, Xamã.

Xamã pigarreou.

- Oh. Eu sei que seremos - disse, um tanto embaraçado. Andaram por algum tempo em silêncio e, então, ele perguntou se Rachel queria montar seu cavalo.

- Não, prefiro continuar andando.

- Pois então, eu vou montar, porque tenho muita coisa para fazer antes do almoço. Boa tarde, Rachel.

- Boa tarde, Xamã - disse ela e ele montou e foi embora, deixando-a na estrada.

Xamã disse a si mesmo que Rachel era uma mulher forte e de espírito prático, com coragem para enfrentar as coisas como elas eram, e resolveu aprender com ela. Ele

precisava da companhia de uma mulher. Foi atender um chamado de Roberta Williams, que estava com “problemas de mulher”, e tinha começado a beber demais. Procurando

não olhar para o manequim de arame com nádegas de marfim, ele perguntou sobre a filha dela e Roberta disse que Lucille estava casada há três anos com um funcionário

dos correios e morava em Davenport.

- Tem um filho por ano. Nunca vem me ver, só quando precisa de dinheiro - disse Roberta.

Xamã deixou uma garrafa de tônico para ela.

Exatamente quando seu desencanto era mais profundo, encontrou Tobias Barr, na rua Principal, na charrete com duas mulheres. Uma delas era a pequenina e loura Francês,

sua mulher, e a outra, a sobrinha dela, de St. Louis. Evelyn Flagg tinha dezoito anos, era mais alta do que Francês Barr, mas loura como a tia, e possuía o perfil

feminino mais perfeito que Xamã jamais vira antes.

- Estamos mostrando a cidade a Evie, e achamos que ela gostaria

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de ver Holden’s Crossing - disse o Dr. Barr. - Xamã, você já leu Romeu e Julieta



- Ora, sim, já li.

- Muito bem, você disse que quando conhece uma peça, gosta de ir ao teatro. Uma companhia está em Rock Island esta semana e vamos reunir uns amigos para assistir

à representação. Aceitaria nos fazer companhia?

- Sim, eu gostaria - disse Xamã e sorriu para Evelyn que respondeu com um sorriso encantador.

- Um leve jantar na nossa casa, primeiro, então, às cinco horas - disse Francês Barr.

Ele comprou uma camisa e uma gravata preta estreita e depois releu a peça. Os Barr tinham convidado também Julius Barton e a mulher, Rose. Evelyn estava com um vestido

azul de noite que combinava com os cabelos louros e a pele muito branca. Xamã perguntou a si mesmo onde vira aquele tom de azul recentemente e, então, lembrou: o

vestido de Rachel.

- A idéia que Francês Barr fazia de um jantar leve eram seis pratos. Xamã achou difícil manter uma conversa com Evelyn. Quando ele perguntava alguma coisa, ela respondia

com um sorriso rápido e nervoso, fazendo um gesto afirmativo ou negativo com a cabeça. Duas vezes ela tomou a iniciativa de falar, a primeira para dizer à tia que

o assado estava excelente, e a segunda quando estavam na sobremesa, para revelar a Xamã que gostava de pêssego e de pêra e achava ótimo serem frutas de estações

diferentes porque assim não precisava escolher entre as duas.

O teatro estava lotado, e a noite quente, como só as noites de fim de verão conseguem ser. Eles chegaram um pouco antes da cortina levantar, por causa dos seis pratos

de jantar. Tobias Barr tinha comprado as entradas pensando em Xamã. Mal acabaram de sentar no centro, na terceira fila, e a peça começou. Xamã, com binóculo de ópera,

lia perfeitamente os lábios dos atores e achou ótimo. No primeiro intervalo, saiu com o Dr. Barr e o Dr. Barton e enquanto esperava na fila do banheiro dos homens,

atrás do teatro, comentaram a peça, os três concordando que a produção era interessante. O Dr. Barton achava que a atriz que fazia o papel de Julieta estava grávida.

O Dr. Barr comentou que Romeu usava uma funda para hérnia entre as pernas.

No segundo ato, Xamã desviou um pouco a atenção dos lábios dos artistas para observar Julieta e não viu nenhuma razão para a suposição do Dr. Barr. Entretanto, não

havia dúvida quanto à funda entre as pernas de Romeu.

No fim do segundo ato, as portas foram abertas para uma brisa agradável entrar e as lâmpadas acesas. Xamã e Evelyn ficaram sentados e tentaram conversar. Ela disse

que ia freqüentemente ao teatro em St. Louis.

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- Acho muito bom ir ao teatro, você não acha?

- Acho, mas vou raramente - disse ele, distraído.

Xamã tinha a estranha sensação de estar sendo observado. Com o binóculo examinou o público nos camarotes, à esquerda do palco e depois à direita. No segundo balcão,

à direita, ele viu Lillian Geiger e Rachel. Lillian estava com um vestido marrom de linho com mangas de renda em forma de sino. Rachel, sentada bem debaixo de uma

lâmpada, a todo momento afastava com as mãos os insetos atraídos pela luz. Assim iluminada, Xamã pôde observá-la atentamente. Seu cabelo estava cuidadosamente penteado,

escovado para cima e preso com um nó no alto da cabeça. O vestido preto parecia de seda e Xamã imaginou quando ela ia deixar de usar luto em público. Era um vestido

sem gola, com mangas curtas e bufantes. Xamã observou os braços roliços e o busto, mas o binóculo sempre voltava para o rosto. De repente, ela olhou diretamente

para onde ele estava. Rachel observou Xamã por algum tempo e depois desviou os olhos quando as luzes foram apagadas.

O terceiro ato parecia nunca mais acabar. No momento em que Romeu disse para Mercutio, Coragem, homem. A dor não pode ser muito grande, Xamã percebeu que Evelyn

Flagg tentava falar com ele. Sentiu o hálito quente na orelha quando ela murmurou qualquer coisa, no momento exato em que Mercutio disse “Não. Não tem a profundeza

de um poço, nem a largura da porta de uma igreja, mas é suficiente, é o bastante.”

Xamã tirou o binóculo dos olhos e voltou-se para a jovem no escuro, pensando que crianças como Joshua e Hattie Regensberg eram capazes de lembrar as normas da leitura

dos lábios e Evelyn não podia.

- Não posso ouvir o que está dizendo.

Xamã não estava acostumado a falar baixo. O homem, sentado na segunda fila, na frente dele, virou para trás, zangado.

- Desculpe-me - murmurou Xamã. Esperando ter falado baixo dessa vez, ele levou o binóculo aos olhos, novamente.

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A PESCARIA



Xamã gostaria de compreender o que fazia com que homens como seu pai e George Cliburne dessem as costas a todo tipo de violência, quando outros homens não o conseguiam.

Alguns dias depois da ida ao teatro,

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ele foi a Rock Island outra vez para falar com George Cliburne sobre pacifismo. Era difícil acreditar no diário do seu pai quando descrevia Cliburne como uma pessoa



calma e corajosa, que levava os escravos fugidos para seu pai e depois os apanhava para levá-los ao próximo esconderijo. O comerciante de rações, calvo e gorducho,

não tinha nada de heróico nem parecia o tipo de pessoa capaz de arriscar tudo por um princípio, desafiando a lei. Xamã admirava extremamente o homem de aço que habitava

o corpo gorducho de Cliburne.

Cliburne fez um gesto afirmativo quando Xamã tocou no assunto, na loja de rações.

- Bem, você pode fazer perguntas sobre pacifismo e nós podemos conversar, mas seria melhor você começar a ler sobre o assunto - disse ele. Informou o empregado da

loja que iria sair mas que voltaria logo.

Foram juntos à casa do comerciante e ele selecionou alguns livros e um panfleto da sua biblioteca.

- Você talvez queira comparecer a algumas reuniões dos Amigos. Xamã duvidava, mas agradeceu e voltou para casa com os livros.

Ficou desapontado. Eram quase todos sobre a doutrina dos quacres. Aparentemente, a Sociedade dos Amigos fora fundada na Inglaterra, na década de 1600, por George

Fox, o qual acreditava que “a Luz Interior do Senhor” morava nos corações dos homens comuns. Segundo os livros de Cliburne, os quacres ajudavam uns aos outros, levando

uma vida de amor e amizade. Não tinham credos nem dogmas. Para eles toda a vida era sacramental e não possuíam uma liturgia especial. Não tinham clérigos, mas acreditavam

que os leigos podiam receber o Espírito Santo e sua religião baseava-se na rejeição da guerra e no trabalho a favor da paz.

Os Amigos foram perseguidos na Inglaterra e a palavra “quacre” era, originalmente, um insulto. Levado à presença de um juiz, Fox disse a ele que devia “tremer ante

a palavra do Senhor”, e o juiz o chamou de “quacre”. William Penn fundou sua colônia na Pensilvânia para servir de refúgio aos Amigos perseguidos na Inglaterra e

durante três quartos de século a Pensilvânia nunca teve milícia, apenas uns poucos policiais.

Xamã perguntou a si mesmo o que eles faziam com os bêbados. Quando terminou de ler os livros de Cliburne, não tinha aprendido nada sobre pacifismo, nem havia sido

tocado pela Luz Interior.

Setembro chegou quente, mas claro e limpo, e Xamã percorria as estradas à margem do rio sempre que podia quando fazia suas visitas, vendo o brilho do sol na água

corrente e a beleza elegante das aves pernaltas, em menor número agora porque já começavam a voar para o sul.

Seguia lentamente a cavalo certa tarde, de volta para casa, quando viu Rachel e os filhos, sentados à sombra de uma árvore, na margem do rio. Rachel estava tirando

o anzol da boca de um peixe, enquanto o filho segurava a vara. Quando ela atirou o peixe de volta ao rio, Xamã perce-

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beu que Hattie estava zangada com alguma coisa. Fez Boss sair da estrada na direção dos três.

- Alô, vocês aí.

- Alô - disse Hattie.

- Ela não deixa a gente ficar com nenhum peixe - disse Joshua.

- Aposto que eram todos bagres - disse Xamã, com um largo sorriso. Quando era pequena, Rachel não podia levar bagres para casa, pois tinham escamas e, portanto,

não eram kosher. Ele sabia que, para uma criança, a melhor parte era ver todos comendo o peixe pescado por ela. - Tenho ido todos os dias à casa de Jack Damon, porque

ele não está bem. Você sabe aquele lugar onde o rio faz uma curva fechada, na fazenda dele?

Rachel sorriu.

- Aquela curva com uma porção de pedras?

- Isso mesmo. Eu vi uns garotos pescando umas belas percas entre as pedras, no outro dia.

- Muito obrigada. Vou levar os dois lá amanhã.

Xamã percebeu que o sorriso de Hattie era igual ao da mãe.

- Bem, foi um prazer ver vocês.

- Foi um prazer ver você! - disse Hattie.

Xamã levou a mão à aba do chapéu e virou Boss para a estrada.

- Xamã - Rachel deu um passo para o cavalo e ergueu o rosto para Xamã. - Se for à casa de Jack Damon amanhã, mais ou menos ao meio-dia, venha fazer um piquenique

conosco.

- Bem, sou capaz de fazer isso, se der - disse ele.

No dia seguinte, quando se livrou da respiração difícil de Jack Damon e foi para a curva do rio, viu a charrete marrom de Lillian parada na sombra, com a égua cinzenta

amarrada e mastigando a relva alta.

Rachel e as crianças estavam pescando entre as pedras e Joshua, segurando a mão de Xamã, levou-o até onde estavam seis percas negras, do tamanho certo para serem

comidas, nadando, de lado, na água rasa, com uma linha de pesca passada pelas guelras e amarrada a um galho de árvore.

Assim que o viu, Rachel apanhou uma barra de sabão e começou a lavar vigorosamente as mãos.

- O almoço pode ficar com gosto de peixe - disse ela.

- Eu não me importo - respondeu Xamã.

Comeram ovos à Ia diable, picles de pepinos, limonada com melado e biscoitos. Depois do almoço, Hattie anunciou solenemente que era hora da sesta e ela e o irmão

deitaram na manta e dormiram quase imediatamente.

Rachel limpou tudo, guardando o lixo numa sacola.

- Se quiser, pode usar uma das varas para pescar um pouco.

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- Não - disse Xamã, preferindo ver o que ela dizia a prestar atenção à linha de pesca.

Rachel olhou para o rio. Um bando de andorinhas, provavelmente vindas do norte e a caminho do sul, voavam em ritmo harmonioso, como se fossem um único pássaro, e

beijaram a água antes de seguirem caminho.

- Não é extraordinário, Xamã? Não é bom estar em casa?

- Sim, é, Rachel.

Falaram por algum tempo sobre a vida nas cidades. Xamã falou sobre Cincinnati e respondeu às perguntas de Rachel sobre a escola de medicina e o hospital.

- E você, gostou de Chicago?

- Eu gostava da proximidade dos teatros, e dos concertos. Tocava violino num quarteto, todas as quintas-feiras. Joe não era musical, mas fazia a minha vontade. Ele

era um homem muito bom - disse ela. - Foi muito carinhoso comigo quando perdi um filho, no primeiro ano do casamento.

Xamã balançou a cabeça.

- Bem, mas então Hattie chegou e a guerra também. A guerra tomava quase todo o nosso tempo. Havia menos de mil judeus em Chicago. Quarenta e quatro jovens formaram

uma companhia judaica e nós levantamos dinheiro e compramos todo o equipamento para eles. Era a Companhia C do Oitenta e Dois de Infantaria de Illinois. Serviram

com distinção em Gettysburg e em outros lugares e eu fazia parte deles.

- Mas você é prima de Judah P. Benjamin e seu pai é um sulista fanático.

- Eu sei. Mas Joe não era e nem eu. No dia em que recebi a carta de minha mãe dizendo que ele tinha se alistado no exército dos confederados, minha cozinha estava

cheia de senhoras da Sociedade de Ajuda aos Soldados Hebreus, fazendo ataduras para a União - disse ela, dando de ombros.

- Então veio Joshua. E depois Joe morreu. E essa é a minha

história.

- Até agora - disse Xamã e Rachel olhou para ele. Xamã tinha esquecido a curva suave sob as maçãs acentuadas do rosto, os lábios macios e cheios e as luzes e sombras

nos olhos castanhos. Não pretendia fazer essa pergunta, mas saiu quase sem que percebesse. - Então, você foi feliz no casamento?

Rachel olhou para o rio. Por um momento Xamã pensou que não tinha percebido a resposta, mas então ela voltou-se para ele.

- Eu diria satisfeita. Na verdade, eu estava resignada.

- Nunca me senti satisfeito nem resignado - disse ele, pensativo.

- Você não cede, continua lutando, por isso você é Xamã. Vai me prometer que jamais ficará resignado.

Hattie acordou e levantou da manta. Sentou no colo da mãe.

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- Prometa - disse Rachel. Xamã sorriu.

- Eu prometo.

- Por que você fala engraçado? - perguntou Hattie.

- Eu falo engraçado? - perguntou ele, mais para Rachel do que para a menina.

- Fala sim! - disse Hattie.

- Sua voz está mais gutural do que quando eu saí de Holden’s Crossing - Rachel disse, cautelosamente. - E você parece menos concentrado em sua voz.

Xamã fez um gesto afirmativo e contou a sua dificuldade para falar baixo no teatro.

- Tem continuado com os exercícios? - perguntou Rachel. Ficou chocada quando ele admitiu que, desde que saiu de Holden’s

Crossing, não tinha pensado nos exercícios.

- Eu não tinha tempo para treinar a fala. Estava muito ocupado tentando ser médico.

- Mas agora não está mais folgado? Deve voltar aos exercícios. Se não fizer, de tempos em tempos, vai esquecer como se fala. Se quiser, posso trabalhar nisso com

você, como fazíamos antes. - Olhou para ele, ansiosa, com a brisa leve do rio fazendo dançar os cabelos soltos e a menininha com seus olhos e seu sorriso aconchegada

no colo. O pescoço longo e bem-feito fez Xamã pensar numa leoa.

- Eu sei que posso fazer isso, senhorita Burnham.

Xamã lembrou da menina que tinha se oferecido para ajudar o pequeno surdo a aprender a falar e lembrou do quanto a tinha amado.

- Eu agradeceria muito, Rachel - disse Xamã, procurando dar a entonação correta à frase.

Combinaram de se encontrar no meio do Caminho Longo, entre as duas casas. Xamã tinha certeza de que Rachel não comentara com Lillian que iam trabalhar juntos outra

vez e ele não viu razão para dizer a Sarah. No primeiro dia, Rachel apareceu na hora marcada, três em ponto, e mandou os filhos apanharem avelãs no caminho.

Rachel sentou-se numa pequena manta, encostada no tronco de um carvalho, e Xamã sentou-se de frente para ela. Ela dizia uma frase, Xamã lia seus lábios e repetia

com a entonação e acentuação corretas. Para ajudar, ela segurou a mão dele e a apertava quando a sílaba devia ser acentuada ou dita com uma leve elevação da voz.

A mão de Rachel era morna e seca e tão impessoal como se estivesse segurando o ferro de passar ou outro instrumento. Xamã sentia a própria mão muito quente e suada,

mas esqueceu tudo isso quando se concentrou no exercício. Sua fala tinha agora mais problemas do que ele imaginava e o esforço para resolvê-los não era agradável.

Ficou aliviado quando as crianças voltaram,

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com o cesto quase cheio de avelãs. Rachel disse que as quebrariam com o martelo quando chegassem em casa e depois fariam um bolo para eles e para Xamã.

Combinaram de encontrar no dia seguinte para continuarem os exercícios, mas pela manhã, quando ele terminou o trabalho no dispensário e saiu para as visitas, encontrou

Jack Damon nas últimas. Ficou ao lado do homem agonizante, procurando aliviar um pouco seu sofrimento. Quando ele morreu, era tarde demais para se encontrar com

Rachel e as crianças e Xamã voltou para casa, cabisbaixo.

O dia seguinte era sábado. Na casa dos Geiger observavam estritamente o Sabbath e por isso não podiam se encontrar também. Porém, quando terminou o trabalho no dispensário,

ele fez os exercícios sozinho.

Xamã sentia-se sem raízes e de certa forma, de um modo que nada tinha a ver com seu trabalho, insatisfeito com a própria vida.

Naquela tarde, voltou aos livros de Cliburne e leu mais sobre o pacifismo como um movimento quacre, e no domingo de manhã, levantou cedo e foi a Rock Island. O comerciante

de rações estava acabando de tomar café quando Xamã chegou e devolveu os livros. George ofereceu uma xícara de café e não pareceu surpreso quando Xamã perguntou

se poderia assistir a uma reunião dos quacres.

George Cliburne era viúvo. Tinha uma governanta, mas ela não trabalhava aos domingos e, como era um homem limpo e ordeiro, lavou a louça do café e permitiu que Xamã

enxugasse. Deixaram Boss no celeiro e saíram com a charrete. No caminho, George falou um pouco sobre a reunião.

- Nós entramos na sala de reuniões em silêncio e nos sentamos, homens de um lado, mulheres do outro. Para não nos distrairmos, eu acho. Todos sentam em silêncio,

até o Senhor escolher alguém para suportar o peso dos sofrimentos do mundo e então essa pessoa fica de pé

e fala.

Diplomaticamente, Cliburne aconselhou Xamã a sentar-se na parte de trás da sala. Não iam ficar juntos.



- Os membros mais antigos, que há muitos anos trabalham para a sociedade, sentam na frente. - Cliburne inclinou-se para Xamã e disse em tom confidencial. - Alguns

quacres nos chamam de Amigos de Peso - ele disse, com um largo sorriso.

O lugar da reunião era pequeno e simples, uma estrutura de madeira, pintada de branco, sem campanário. As paredes internas eram brancas, o assoalho cinzento. Bancos

escuros, encostados em três paredes, formavam um U quadrado e raso, o que permitia que ficassem uns de frente para os outros. Quatro homens já estavam sentados.

Xamã sentou-se num dos bancos de trás, perto da porta, como quem põe a ponta do dedo do pé na água para ver se está fria ou se é muito profunda. Todos os antigos

membros eram velhos. George e cinco Amigos de Peso sentaram no banco sobre uma plataforma de trinta centímetros de altura, na frente da sala.

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Uma calma repousante juntou-se ao silêncio do mundo de Xamã.



Os outros foram entrando aos poucos e sentando, em silêncio. Finalmente, não chegou mais ninguém. Xamã contou onze homens, quatorze mulheres e doze crianças.

Em silêncio.

Era repousante.

Ele pensou no pai, desejando que estivesse em paz.

Pensou em Alex.

Por favor, disse ele, no silêncio perfeito, agora partilhado com os outros. Entre as centenas de milhares de mortos, por favor, poupe meu irmão. Por favor, traga

meu irmão fujão, maluco e adorável para casa.

Pensou em Rachel, mas não ousou pedir nada.

Pensou em Hattie, que tinha o sorriso e os olhos da mãe e que falava pelos cotovelos.

Pensou em Joshua, que falava pouco, mas parecia estar sempre olhando para ele.

Um homem de meia-idade levantou-se do banco, não muito longe de Xamã. Era magro e frágil e começou a falar.

- Esta guerra terrível finalmente está chegando ao fim. Está acontecendo lentamente, muito lentamente, mas agora percebemos que não pode durar para sempre. Muitos

dos nossos jornais apoiam a candidatura do general Frémont para a presidência. Dizem que o presidente Lincoln vai ser muito leniente com o sul quando vier a paz.

Dizem que não é hora de perdoar, mas a hora da vingança contra o povo dos estados do sul.

- Jesus disse Pai, perdoai-os porque não sabem o que fazem. E Ele disse Se teu inimigo tem fome, dá de comer a ele e se ele tem sede, dá de beber.’

- Devemos perdoar os pecados cometidos pelos dois lados nesta guerra terrível e rezar para que em breve as palavras do salmo sejam verdade, que a misericórdia e

a verdade se encontrem e que a virtude e a paz se beijem.

- Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.

- Bem-aventurados os mansos de coração, porque herdarão a terra.

- Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

- Bem-aventurados os misericordiosos, porque receberão misericórdia.

- Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.

O homem sentou-se e o silêncio branco os envolveu novamente.

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Uma mulher levantou-se, quase diretamente na frente de Xamã. Disse que estava procurando perdoar uma pessoa que tinha feito grande mal à sua família. Queria que

seu coração se livrasse do ódio e queria mostrar perdão e amor, mas lutava contra os próprios sentimentos, pois não desejava perdoar. Pediu as orações dos amigos




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