Noah Gordon, o xamã



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- Bem, meu Deus, é claro. Mas acho melhor não contar com ele quando fizer seus planos.

Xamã levantou-se com um suspiro.

- Vamos fazer uma coisa, Alden. Amanhã à tarde tenho de fazer algumas visitas, mas vou passar a manhã plantando a cerca-viva dos pastos.

Bem cedo na manhã seguinte ele estava no pasto, com roupa de trabalho. Era um bom dia para estar fora de casa, seco e fresco, com o céu imenso cheio de nuvens leves

e brancas. Há muito tempo não se dedicava ao trabalho braçal e, antes de terminar a primeira escavação, seus músculos pareciam cheios de nós.

Tinha plantado apenas três arbustos quando Sarah atravessou a pradaria montada em Boss, acompanhada por um fazendeiro sueco que cultivava beterrabas, chamado Par

Swanson, que Xamã conhecia de vista.

- É a minha filha - gritou o homem, antes de chegar perto de Xamã. - Acho que ela quebrou o pescoço.

Sarah entregou a ele Boss e a maleta de médico e Xamã acompanhou o homem. Levaram cerca de doze minutos para chegar à fazenda dos Swanson. A julgar pela breve descrição,

Xamã teve medo do que ia encontrar, mas quando chegaram, verificou que a menina estava viva e sentindo muita dor.

Selma Swanson era uma garotinha loura, com menos de três anos, que gostava de andar com o pai no espalhador de esterco. Naquela manhã, tinham passado por um enorme

gavião que comia um rato, no campo. O gavião levantou vôo de repente, assustando os cavalos, e Selma foi atirada para fora do espalhador. Procurando controlar os

animais, Par viu a filha ser atingida por um lado do espalhador quando caiu.

- Tive a impressão de que bateu no pescoço dela - disse ele. A menina segurava o braço esquerdo contra o peito com a mão direita e o ombro esquerdo estava deslocado

para a frente.

- Não - disse Xamã, depois de examiná-la. - É a clavícula.

- Quebrada? - perguntou a mãe.

- Bem, um pouco entortada, e talvez lascada. Não se preocupe. Seria grave se fosse a senhora ou seu marido. Mas na idade dela os ossos se curvam como galhos verdes

e voltam ao normal rapidamente.

A clavícula estava contundida próximo à junção com a omoplata e o esterno. Xamã fez uma pequena tipóia de pano e com outra tira prendeu o braço junto ao corpo, para

evitar movimento da clavícula.

Quando ele terminou o café oferecido pela Sra. Swanson, a menina estava quieta. Xamã estava perto de diversas casas que pretendia visitar naquela tarde e seria absurdo

voltar para casa agora, por isso começou suas visitas.

A mulher de um dos novos fazendeiros, chamada Royce, serviu a

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ele um pastelão de carne no almoço. Só no fim da tarde Xamã voltou à fazenda dos Cole. Quando passou pelo campo onde começara a trabalhar naquela manhã, viu que



Alden tinha mandado Doug Penfield plantar a cerca-viva do pasto e uma longa fileira de laranjas osage muito verdes estendia-se pradaria afora.

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O PAI SECRETO



- Deus nos livre - murmurou Lillian.

Nenhum dos Geiger tinha qualquer sintoma de tifo, disse ela. Xamã viu no rosto dela a tensão e a fadiga de dirigir a fazenda e a casa sem o marido. Embora o comércio

da farmácia tivesse sofrido, ela conseguiu continuar uma parte, importando medicamentos para Tobias Barr e Julius Barton.

- O problema é que Jay recebia muito material da sua família, em Charleston. E, naturalmente, a Carolina do Sul está fechada para nós por causa da guerra - ela disse,

servindo Xamã de chá.

- Tem notícias recentes de Jason?

- Recentes não.

Lillian parecia constrangida sempre que ele perguntava por Jason, mas Xamã compreendia que ela tinha medo de revelar alguma coisa que pudesse prejudicar o marido,

ou alguma informação militar que prejudicasse sua família. Era difícil para uma mulher viver num estado da União quando o marido trabalhava na Virgínia, para os

confederados.

Ficava mais à vontade quando falavam da carreira de Xamã. Ela sabia dos progressos dele no hospital e das suas perspectivas. Evidentemente, a mãe de Xamã partilhava

com ela as boas novas das cartas do filho.

- Cincinnati é uma cidade tão cosmopolita - disse Lillian. - Seria maravilhoso para você se estabelecer, lecionar na escola de medicina e ter uma boa clientela.

Jay e eu nos orgulhamos muito de você. - Cortou fatias finas de bolo de café, não permitindo que o prato dele ficasse vazio. - Tem alguma idéia de quando vai voltar?

- Não tenho certeza ainda.

- Xamã. - Pôs a mão sobre a dele e inclinou-se para a frente. - Você voltou quando seu pai morreu, e está cuidando de tudo muito bem. Agora, precisa começar a pensar

em você e na sua carreira. Sabe o que seu pai gostaria que você fizesse?

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- O quê, tia Lillian?

- Seu pai gostaria que você voltasse para Cincinnati para continuar sua carreira. Deve voltar o mais breve possível - disse ela, solenemente.

Xamã sabia que Lillian estava certa. Se ia voltar, seria melhor voltar logo. Cada dia era chamado a uma casa, todos satisfeitos por saber que havia um médico em

Holden’s Crossing. Cada vez que tratava de um paciente, era como se mais um fio de linha o prendesse ao lugar. Sem dúvida, esses fios podiam ser partidos quando

ele fosse embora. O Dr. Barr podia se encarregar dos que ainda precisavam de tratamento. Mas seu interesse nos pacientes juntava-se à sensação de que precisava terminar

muitas coisas em Holden’s Crossing.

Rob J. tinha uma lista de nomes e endereços que Xamã examinou atentamente. Escreveu para Oliver Wendell Holmes, em Boston, comunicando a morte do pai e para o tio

Herbert, que ele não conhecia, e que não precisava mais temer que o irmão aparecesse para reclamar sua terra.

As horas livres ele passava lendo os diários, fascinado com o que descobria, coisas das quais jamais suspeitara. Rob J. Cole escrevia sobre a surdez do filho com

angústia e ternura e Xamã sentia o calor do carinho do pai enquanto lia. A dor com que ele descrevia a morte de Makwaikwa e, depois, de Chega Cantando e de Lua,

despertou antigos sentimentos profundamente guardados. Xamã leu novamente o relatório da autópsia de Makwa-ikwa, perguntando a si mesmo se teria deixado passar alguma

coisa na primeira vez e, depois, tentando descobrir se o pai deixara passar alguma coisa durante o exame, e se teria feito algo diferente, no lugar dele.

Quando chegou ao volume do ano de 1853, Xamã ficou atônito. Na gaveta do pai encontrou a chave do barracão atrás do celeiro e foi até lá, abriu o grande cadeado

e entrou. Era apenas o barracão, onde tinha estado tantas vezes antes. As estantes nas paredes estavam cheias de medicamentos, tônicos e maços de ervas secas pendiam

do teto, o legado de Makwa. Lá estava o velho fogão a lenha, perto da mesa de madeira, onde tinha ajudado o pai em tantas autópsias. Os baldes e bacias de drenagem

pendiam dos pregos, na parede. Num cabide feito de tronco de árvore, estava dependurado o suéter de lã marrom do pai.

O barracão não era varrido nem limpo há anos. As teias de aranha estavam por toda a parte, mas Xamã as ignorou. Foi até o lugar indicado no diário, mas, ao puxar

a tábua do chão, ela resistiu. Tinham uma alavanca no celeiro, mas Xamã não precisou dela porque a segunda tábua que tentou soltou-se facilmente, bem como as outras

depois dela.

Era como a entrada de uma caverna. Estava escuro no barracão. A única luz natural entrava por uma janelinha empoeirada. Xamã abriu completamente a porta mas a luz

ainda era insuficiente, então tirou o lampião do gancho e acendeu o pouco óleo que restava.

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Ergueu a luz na entrada do buraco e as sombras dançaram no quarto secreto.

Xamã entrou de quatro. O pai mantinha o esconderijo limpo. Lá estavam uma tigela, uma xícara e um velho cobertor dobrado que Xamã reconheceu. O espaço era pequeno

e Xamã, um homem grande, tanto quanto o pai.

Certamente alguns dos escravos fugidos também eram grandes.

Apagou o lampião e tudo ficou escuro no esconderijo. Tentou imaginar a entrada fechada com as tábuas e um cão de caça, lá fora, à sua procura. Pensou na escolha.

Trabalhar, ser tratado como um animal, ou ser caçado como um animal.

Xamã saiu do esconderijo, apanhou o velho suéter do gancho e o vestiu, embora o dia estivesse ainda quente. Tinha o cheiro do seu pai.

Durante todo aquele tempo, pensou ele, todos aqueles anos, quando ele e Alex moravam em casa e brigavam e faziam travessuras, pensando apenas nos próprios desejos

e necessidades, seu pai vivia um segredo enorme, completamente sozinho. Agora, Xamã sentia uma necessidade premente de conversar com Rob J., partilhar a experiência,

fazer perguntas, demonstrar seu amor e sua admiração. No seu quarto no hospital, tinha chorado um pouco quando recebeu o telegrama. Mas no trem e durante e depois

da cerimônia portara-se com estoicismo, por causa da mãe. Agora, encostou-se na parede do celeiro ao lado do quarto secreto e escorregou o corpo até sentar no chão,

e, como criança chamando pelo pai, entregou-se à dor imensa, sabendo que seu silêncio seria para sempre muito mais solitário do que antes.

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UMA CRIANÇA COM CRUPE



Holden’s Crossing teve sorte. Não houve nenhum outro caso de tifo. Duas semanas se passaram e nenhuma mancha vermelha apareceu no corpo de Tilda Snow. A febre baixou

logo, sem hemorragia nem sinal de fluxo sanguinolento, e certa tarde Xamã chegou à fazenda dos Snow e ela estava alimentando os porcos.

- Foi uma gripe forte, mas já passou - Xamã disse para o marido.

Se Snow quisesse pagar em dinheiro, ele teria aceito, mas o fazendeiro deu a ele uma fieira de belos gansos que tinha abatido, limpado e depenado, especialmente

para Xamã.

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- Tenho um hérnia que me incomoda - disse Snow.

- Muito bem, vamos examinar.

- Não quero fazer nada antes de acabar a colheita do feno, que comecei agora.

- Quando vai acabar? Daqui a umas seis semanas?

- Mais ou menos.

- Vá me procurar então, no dispensário.

- Quer dizer que ainda vai estar aqui?

- Sim - disse Xamã, com um largo sorriso. E foi assim que ele resolveu que ia ficar para sempre, tranqüilo e sem angústia, sem mesmo saber que tinha decidido.

Deu os gansos para a mãe e sugeriu que ela convidasse Lillian Geiger e os filhos para jantar. Mas Sarah disse que não seria conveniente para Lillian, naquele momento,

e sugeriu que eles dois e os dois empregados deviam comer os gansos.

Naquela noite, Xamã escreveu duas cartas, uma para Barney McGowan e outra para Lester Berwyn, agradecendo o que tinham feito por ele na escola de medicina e no hospital

e explicando que pedia demissão do seu posto no hospital para se encarregar da clientela do pai em Holden’s Crossing. Escreveu também para Tobias Barr, em Rock Island,

agradecendo seu trabalho nas quartas-feiras, em Holden’s Crossing. Xamã disse que, de agora em diante, iria clinicar em Holden’s Crossing em tempo integral e pediu

ao Dr. Barr que recomendasse sua inscrição na Sociedade de Medicina de Rock Island.

Assim que terminou de escrever as cartas, contou para a mãe o que tinha resolvido e viu o prazer e o alívio nos olhos dela. Sarah o beijou rapidamente no rosto.

- Vou avisar as mulheres da igreja - disse ela, e Xamã sorriu, sabendo que então não seria preciso avisar a mais ninguém.

Os dois conversaram e planejaram. Ele usaria o dispensário e o barracão atrás do celeiro exatamente como o pai usava, atendendo de manhã no dispensário e fazendo

as visitas de tarde. Manteria alguns dos preços das consultas determinados pelo pai, porque não eram altos, mas o suficiente para manter muito bem a família.

Xamã tinha pensado no problema da fazenda. Depois de ouvir atentamente as sugestões do filho, Sarah balançou a cabeça afirmativamente.

Na manhã seguinte, sentado na pequena casa de Alden, tomando o café horrível, Xamã explicou que tinham resolvido reduzir o tamanho do rebanho.

Alden também ouviu com atenção, sem tirar os olhos de Xamã, enquanto acendia o cachimbo.

- Você sabe o que está dizendo? Sabe que o preço da lã vai continuar alto enquanto durar a guerra? E que um rebanho menor vai diminuir sua renda?

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Xamã fez um gesto afirmativo.



- Minha mãe e eu achamos que nossa única alternativa é ter um grande negócio, que exigiria mais mão-de-obra e administração mais complicada, e nenhum de nós quer

isso. Meu negócio é a medicina, não criação de ovelhas. Mas não quero jamais ver a fazenda dos Cole sem ovelhas. Assim, gostaríamos que você separasse os melhores

produtores de lã que ficarão conosco também para reprodução. Todos os anos, faremos uma seleção no rebanho, para produzir a melhor lã e conseguir os melhores preços

do mercado. Conservaremos somente um número de ovelhas que você e Doug possam criar bem.

Os olhos de Alden brilharam.

- Ora, é isso que eu chamo de uma decisão maravilhosa - disse ele, tornando a encher a caneca de Xamã com o café horrível.

Às vezes era difícil para Xamã ler o diário, doloroso demais invadir o cérebro e os sentimentos do pai. Chegava a passar uma semana sem ler, mas sempre voltava,

sentindo que precisava continuar porque aquele seria seu último contato com o pai. Quando terminasse a leitura, não teria mais nenhuma informação sobre Rob J. Cole,

apenas lembranças.

O mês de junho foi chuvoso, anunciando um verão estranho, tudo começando cedo demais, tanto as colheitas quanto as árvores frutíferas e as plantas silvestres. A

população de coelhos e lebres explodiu e os ubíquos animais mordiscavam a grama perto da casa e comiam a alface e as flores do jardim e da horta de Sarah Cole. A

chuva dificultou a colheita do feno e campos inteiros apodreceram, sem sol para secar, produzindo uma bela criação de insetos que picavam Xamã e sugavam seu sangue

quando saía a cavalo para fazer suas visitas. Apesar de tudo, ele achava maravilhoso ser médico em Holden’s Crossing. Foi producente ser médico de um hospital em

Cincinnati, sempre que precisasse poderia recorrer à experiência de um médico mais velho e toda a equipe estaria por perto, à sua disposição. Em Holden’s Crossing

estava sozinho e nunca sabia o que teria de enfrentar a cada dia. Era a essência da prática da medicina, e Xamã adorava isso.

Tobias Barr disse que a sociedade de medicina não existia mais pois todos os seus integrantes estavam na guerra. Sugeriu que, na falta dela, ele, Xamã e Julius Barton

se encontrassem uma noite por mês para jantar e discutir assuntos relacionados à medicina e a primeira dessas reuniões foi realizada, com grande satisfação. O tema

principal foi o sarampo, que começava a aparecer em Rock Island, mas não em Holden’s Crossing. Concordaram que seria importante convencer os pacientes a não coçarem

as feridas, por pior que fosse a comichão, e que o tratamento devia consistir de pomadas para aliviar a coceira, bebidas frias e pós de Seidlitz. Os dois médicos

ouviram interessados quando Xamã relatou que, no hospital de Cincinnati, o tratamento incluía gargarejes com alume quando houvesse comprometimento das vias respiratórias.

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Durante a sobremesa falaram de política. O Dr. Barr era um dos muitos republicanos para quem o tratamento que Lincoln estava dispensando ao sul era suave demais.



Ele era a favor da Lei de Reconstrução Wade-Davis, que determinava medidas severas contra o sul quando a guerra terminasse e que fora aprovada pela Câmara, a despeito

das objeções de Lincoln. Encorajados por Horace Greeley, os republicanos dissidentes tinham se reunido em Cleveland e concordaram em escolher outro candidato à

presidência, o general John Charles Frémont.

- Acredita que o general possa derrotar o Sr. Lincoln? - perguntou Xamã.

O Dr. Barr balançou a cabeça, tristemente.

- Não, se ainda estivermos em guerra. Não há nada melhor do que uma guerra para reeleger um presidente.

Em julho a chuva parou mas o sol parecia feito de bronze e a pradaria torrou e ficou marrom. O sarampo chegou finalmente a Holden’s Crossing e Xamã começou a ser

tirado da cama para atender algumas das suas vítimas, embora não fosse uma epidemia tão violenta quanto a de Rock Island. Sua mãe disse que o sarampo tinha assolado

Holden’s Crossing no ano anterior, matando uma meia dúzia de pessoas, incluindo crianças. Xamã pensou que uma epidemia severa podia contribuir para a imunidade parcial

nos anos seguintes. Pensou em escrever para o Dr. Harold Meigs, seu ex-professor de medicina em Cincinnati, perguntando se podia haver alguma verdade nessa teoria.

Numa noite de ar parado e úmido, que acabou em tempestade, Xamã foi para a cama sentindo as vibrações de trovões, ocasionais mas violentos, e ele abria os olhos

sempre que o quarto era iluminado pela luz branca dos relâmpagos. Finalmente, o cansaço venceu a fúria da natureza e ele mergulhou num sono tão profundo que, quando

a mãe sacudiu seu ombro, levou vários segundos para entender o que estava acontecendo.

Sarah ergueu o lampião para que Xamã pudesse ver seus lábios.

- Você precisa se levantar.

- Alguém com sarampo? - perguntou ele, começando a se vestir.

- Não. Lionel Geiger está aqui, à sua espera.

Quando ela acabou de falar, Xamã já tinha calçado os sapatos e estava lá fora.

- O que aconteceu, Cubby?

- O filho da minha irmã. Está sufocando. Tenta respirar, faz um barulho feio, como uma bomba entupida.

Se fosse a pé, pelo Caminho Longo, através do bosque, se atrelasse a charrete ou selasse um cavalo, ia demorar muito.

- Vou levar seu cavalo - ele disse para Lionel e saiu a galope, percorreu os quinhentos metros de estrada e entrou no caminho que levava à casa dos Geiger, segurando

com força a maleta de médico.

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Lillian Geiger esperava na porta da frente.

- Estou aqui.

Rachel. Sentada na cama, no seu antigo quarto, com o filho no colo. O menino estava azul. Tentava ainda respirar, muito fracamente.

- Faça alguma coisa. Ele vai morrer.

Na verdade, Xamã achou que o menino estava muito perto da morte. Abriu a boca da criança e enfiou o indicador e o dedo médio até a pequena garganta. Um membrana

mucosa fechava toda a parte posterior da boca e a abertura da laringe, uma membrana mortal, espessa e cinzenta. Xamã a rasgou com os dedos.

Imediatamente o menino começou a respirar trêmula e profundamente.

Rachel o abraçou, chorando.

- Oh, meu Deus. Joshua, você está bem? - O hálito dela tinha o cheiro forte do sono, o cabelo estava despenteado.

Mas, por incrível que fosse, era Rachel. Uma Rachel mais velha, mais mulher. Que só tinha olhos para o filho.

O menino já parecia melhor, menos azul, a cor normal voltando aos poucos, à medida que o oxigénio chegava aos pulmões. Xamã pôs a mão no peito dele para sentir as

batidas do coração, depois tomou o pulso e por alguns momentos segurou as duas mãozinhas nas suas. O menino começou a tossir.

Lillian entrou no quarto e foi para ela que Xamã perguntou.

- Como é essa tosse?

- Cavernosa e rouca, como um... um latido.

- Algum chiado?

- Sim, no fim de cada tosse, quase um assobio. Xamã fez um gesto afirmativo.

- Ele está com crupe catarral. Devem começar a ferver água e dar banhos quentes no menino durante toda a noite, para relaxar os músculos respiratórios. E ele deve

respirar vapor d’água. - Tirou um dos remédios de Makwa da maleta, folhas secas de serpentária e de cravo-dedefunto. - Fervam estas folhas e façam o menino tomar

com açúcar e o mais quente possível. Vai manter a laringe aberta e aliviar a tosse.

- Muito obrigada, Xamã - disse Lillian, apertando a mão dele. Rachel não parecia ver Xamã. Seus olhos congestionados eram os

de uma mulher enlouquecida. O robe estava lambuzado de catarro e ranho do menino.

Xamã saiu e Lillian e Lionel o acompanharam pelo Caminho Longo, Lionel levando o lampião que atraía mariposas e mosquitos. Os lábios dele se moveram e Xamã adivinhou

o que ele estava perguntando.

- Acho que ele vai ficar bom - disse ele. - Apague o lampião e verifique se todos os insetos já se foram antes de entrar em casa.

Xamã seguiu sozinho pelo Caminho Longo, por onde tinha passado tantas vezes. A escuridão não era problema. Uma vez ou outra, os

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últimos relâmpagos riscavam o céu e os bosques escuros, nos dois lados do caminho, pareciam saltar sobre ele, cheios de luz.



De volta ao seu quarto, despiu-se como um sonâmbulo. Deitou e não conseguiu dormir. Confuso, atordoado, ele olhava para o teto escuro ou para as paredes e para onde

quer que olhasse via o mesmo rosto.

61

UMA CONVERSA FRANCA



Quando ele chegou à casa dos Geiger, na manhã seguinte, Rachel abriu a porta. Ela estava com um vestido de andar em casa que parecia novo. O cabelo estava penteado.

Xamã sentiu o perfume leve e picante quando ela segurou suas mãos.

- Alô, Rachel.

- ... Obrigada, Xamã.

Os olhos eram os mesmos, maravilhosos e profundos, mas ele notou que estavam vermelhos de fadiga.

- Como vai o meu paciente?

- Parece que está melhor. A tosse não e tão assustadora quanto antes.

Ele a acompanhou na escada. Lillian estava sentada ao lado da cama com um lápis e algumas folhas de papel pardo, desenhando e contando histórias para o neto. O paciente,

que Xamã tinha visto apenas como um ser humano aflito, era um garotinho de olhos escuros, cabelos castanhos e sardas no rosto pálido. Parecia ter dois anos. Uma

menina, alguns anos mais velha, mas muito parecida com o irmão, estava sentada nos pés da cama.

- Esses são os meus filhos - disse Rachel. - Joshua e Hattie Regensberg. E este é o Dr. Cole.

- Como vai? - disse Xamã.

- Como vai? - disse o menino, olhando para ele, desconfiado.

- Como vai? - disse Hattie Regensberg. - Mamãe disse que você não ouve a gente e que devemos olhar para você quando falamos, e pronunciar as palavras distintamente.

- Sim, é verdade.

- Por que você não escuta a gente?

- Sou surdo porque fiquei doente quando era pequeno - disse Xamã, com naturalidade.

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- Joshua vai ficar surdo?

- Não. Joshua não vai ficar surdo.

Depois de alguns minutos ele garantiu que Joshua estava muito melhor. Os banhos e o vapor tinham acabado com a febre, o pulso estava forte e regular e quando Xamã

encostou o estetoscópio no peito dele e mandou Rachel escutar, ela não ouviu nada de anormal. Xamã pôs o estetoscópio no ouvido de Joshua e deixou que ele ouvisse

o próprio coração, depois foi a vez de Hattie e ela encostou o aparelho na barriga do irmão, anunciando que estava ouvindo “gorgolejos”.

- Isso é porque ele está com fome - disse Xamã e aconselhou Rachel a dar a ele uma dieta leve durante um ou dois dias.

Disse a Joshua e a Hattie que a mãe deles conhecia uns lugares muito bons para pescar no rio e os convidou a visitar a fazenda Cole e brincar com os carneirinhos.

Então despediu-se das crianças e da avó e Rachel o acompanhou até a porta.

- Seus filhos são muito bonitos.

- São mesmo, não são?

- Sinto muito pelo seu marido, Rachel.

- Obrigada, Xamã.

- E desejo que seja feliz no no\o casamento. Rachel sobressaltou-se.

- Que casamento? - perguntou, no momento em que Lillian descia a escada.

Lillian passou em silêncio pelo hall, mas o rubor no seu rosto era como um anúncio luminoso.

- Você foi mal informado, não estou pensando em casar outra vez - disse Rachel, secamente e em voz alta para que a mãe pudesse escutar. Seu rosto estava muito pálido




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