Noah Gordon, o xamã



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altura, os olhos de Peter Finn estavam vidrados e só se ouvia sua respiração áspera e difícil.

Rob lavou a perna, envolta numa toalha fina e ensangüentada, para ser estudada mais tarde na sala de dissecação. Estava exausto, mais pelo martírio de Peter Finn

do que pelo trabalho pesado. Não podia fazer nada com o sangue nas suas roupas, mas numa torneira pública, em Broad Street, lavou as mãos e os braços antes de atender

outro paciente, uma mulher de vinte e dois anos que, Rob sabia, estava morrendo de consumpção.

No seu bairro, em suas casas, os irlandeses viviam miseravelmente. Fora dali, eram rejeitados e ofendidos. Rob J. viu cartazes nas ruas que diziam: “Todos os católicos

e todos os que defendem a Igreja Católica são impostores vis, mentirosos, vilãos e assassinos covardes. UM VERDADEIRO AMERICANO.”

Uma vez por semana ele assistia às conferências sobre medicina realizadas no anfiteatro do segundo andar, no Ateneu, um prédio espaçoso formado pela junção de duas

mansões em Pearl Street. Às vezes, depois da conferência, ele se dirigia à biblioteca e lia o Boston Evening Transcript, que refletia o ódio que deformava a sociedade.

Clérigos ilustres, como o reverendo Lyman Beecher, ministro da Igreja Congregacional de Hanover Street, escreviam artigos e mais artigos sobre o “bordel da Babilónia”

e a “besta imunda do catolicismo romano”. Partidos políticos glorificavam os nativos da terra e falavam de “imigrantes irlandeses e alemães sujos e ignorantes”.

Quando lia as notícias nacionais para aprender mais sobre a América, constatava que era um país aquisitivo, que agarrava a terra com as duas mãos. Recentemente tinha

anexado o Texas, adquirido o território do Oregon, por meio de um tratado com a Grã-Bretanha, e lutado contra o México pela conquista da Califórnia e do sudoeste

do continente americano. A fronteira era o rio Mississipi, que separava a civilização das terras selvagens, para onde tinham segregado os índios das planícies. Rob

J., quando menino, devorava os livros de James Fenimore Cooper e os índios o fascinavam. Leu tudo que o Ateneu tinha sobre índios e depois passou para a poesia de

Oliver Wendell Holmes. Rob gostou, especialmente da descrição do velho sobrevivente em “A Última Folha”,

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mas Harry Loomis tinha razão, Holmes era melhor médico do que poeta. Era um médico excelente.



Harry e Rob agora encerravam os longos dias de trabalho com um copo de cerveja na taverna Essex e muitas vezes Holmes os acompanhava. Era evidente que Harry era

o aluno preferido do professor e Rob esforçava-se para não invejá-lo. A família Loomis era bem relacionada e, quando chegasse o momento, Harry conseguiria as melhores

colocações nos hospitais, garantindo o sucesso da sua carreira em Boston. Certa noite, na taverna, Holmes disse que, numa das suas pesquisas na biblioteca, encontrara

referências ao Bócio de Cole e à Cólera Maligna de Cole. Curioso, pesquisou a literatura a respeito e encontrou amplas provas da grande contribuição dos Cole para

a medicina, incluindo a Gota de Cole e a Síndrome de Cole e Palmer, uma doença na qual o edema era acompanhado de sudação profusa e respiração estertórica.

- Além disso - observou Holmes -, descobri que mais de uma dezena de Coles foram professores de medicina em Edimburgo ou Glasgow. Todos parentes seus?

Rob J. sorriu, embaraçado, mas satisfeito.

- Todos parentes. Porém, a maior parte dos Cole, através dos séculos, era de simples médicos rurais nas colinas das terras baixas, como meu pai. - Não comentou nada

sobre o Dom dos Cole, não era assunto para ser discutido com outros médicos, que certamente não acreditariam.

- Seu pai ainda está na Escócia? - perguntou Holmes.

- Não, não. Morreu durante o estouro de uma manada de cavalos, quando eu tinha doze anos.

- Ah. - Foi nesse momento que Holmes, a despeito da pequena diferença de idade, resolveu fazer o papel de pai, introduzindo Rob ao círculo encantado das famílias

de Boston por meio do casamento.

Logo depois disso, duas vezes Rob aceitou convites para a casa dos Holmes, em Montgomery Street, onde encontrou o estilo de vida que, no passado, julgara ser possível

para ele, em Edimburgo. Na primeira ocasião, Amélia, a jovial e casamenteira mulher de Holmes, o apresentou a Paula Storrow, de família tradicional e muito rica,

mas uma mulher sem nenhuma inteligência ou graça. Porém, na segunda vez ele conheceu Lydia Parkman. Ela era magra demais, sem nenhum sinal de busto, mas o rosto

emoldurado pelo cabelo castanho irradiava um humor irônico e inteligente e os dois passaram a noite entretidos numa conversa variada e estimulante. Ela sabia alguma

coisa sobre índios, mas como sabia também tocar cravo, falaram especialmente de música.

Naquela noite, quando Rob voltou para casa em Spring Street, sentou na cama, sob as cavernas do sótão, e ficou imaginando como seria passar o resto da vida em Boston,

colega de profissão e amigo de Harry e de Oliver Wendell Holmes, casado com uma anfitriã inteligente.

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Logo ouviu a batida discreta tão conhecida e Meg Holland entrou no quarto. Ela não era magra demais, notou ele, cumprimentando-a com um sorriso e desabotoando a



camisa. Mas Meg sentou na beirada da cama e ficou imóvel.

Meg falou então, com um murmúrio rouco, e o tom, mais do que as palavras, penetrou profundamente em Rob. Havia na sua voz uma tensão, a sonoridade fúnebre de folhas

secas arrastadas pelo vento sobre o solo áspero e frio.

- Grávida - disse ela.

- Sem nenhuma dúvida - disse Meggy.

Rob não sabia o que dizer. Meg tinha experiência quando se conheceram, pensou, cautelosamente. Como podia saber que o filho era seu? Eu sempre usei a bainha, protestou,

para si mesmo. Mas sabia que não tinha usado nada nas primeiras vezes e nem na noite em que experimentaram o gás hilariante.

Condicionado contra o aborto, por profissão, não o sugeriu, reconhecendo a importância da religião na vida de Meggy.

Finalmente ele disse que ficaria ao lado dela. Não era nenhum Stanley Finch.

Meggy não demonstrou muito entusiasmo por essa declaração. Com certa relutância Rob a tomou nos braços. Queria ser terno e reconfortante. Era o pior momento para

perceber que o rostinho de gata, dentro de poucos anos, seria bovino. Não era o rosto dos seus sonhos.

- Você é protestante. - Não era uma pergunta, pois ela sabia a resposta.

- Fui criado nessa religião.

Meggy era uma mulher corajosa. As lágrimas só apareceram nos seus olhos quando ele disse que não tinha certeza da existência de Deus.

- Você é um grande conquistador! Lydia Parkman gostou muito da sua companhia - disse Holmes, na noite seguinte, na escola de medicina, e sorriu quando Rob J. disse

que achava Lydia muito agradável. Holmes mencionou casualmente que Stephen Parkman, o pai dela, era juiz da

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Suprema Corte e conselheiro da Universidade de Harvard. A família tinha começado no ramo do comércio de peixe defumado, depois passaram a vender farinha e agora



controlavam o vasto e lucrativo comércio de alimentos embarrilados.

- Quando pretende vê-la outra vez? - perguntou Holmes.

- Muito em breve, pode ter certeza - disse Rob J. sentindo-se culpado, procurando não pensar no seu problema.

As idéias de Holmes sobre higiene revolucionaram a prática da medicina para Rob. Holmes contou duas histórias que reforçavam sua teoria. Uma sobre escrófula, a tuberculose

dos gânglios linfáticos e das juntas; nos círculos médicos da Europa acreditava-se que a escrófula podia ser curada com o toque de mãos reais. A outra história era

sobre a antiga prática supersticiosa de lavar os ferimentos dos soldados, antes de pôr as ataduras, e depois aplicar unguentos - preparados terríveis que continham

coisas como carne podre, sangue humano, e bolor do crânio de um homem executado - na arma que havia infligido o ferimento. Os dois métodos eram comprovadamente eficientes

e famosos, disse Holmes, porque, sem querer, eles implicavam a limpeza do paciente. No primeiro caso, o doente de escrófula era lavado cuidadosa e completamente

para não ofender os “curandeiros reais” quando os tocassem. No segundo caso, a arma era lambuzada com uma pasta imunda, mas os ferimentos dos soldados, lavados e

não mais tocados, podiam cicatrizar, sem infecção. O mágico “ingrediente secreto” era a higiene.

Era difícil manter a assepsia clínica no Oitavo Distrito. Rob J. começou a levar toalhas e sabão na maleta e lavava as mãos e os instrumentos várias vezes por dia,

mas as condições de pobreza se encarregavam de fazer do distrito um lugar em que era fácil adoecer e morrer. Rob procurava preencher a vida e a mente com os deveres

da profissão, porém, quando pensava nos seus problemas, perguntava a si mesmo se estava caminhando para a própria destruição. Na Escócia, abandonara a carreira e

as raízes devido ao envolvimento com a política e, agora, na América continuava o processo destruidor, envolvendo-se com uma gravidez desastrosa. Margaret Holland

estava enfrentando a situação com espírito prático, fazendo perguntas sobre quanto ele ganhava. Sua renda anual de 350 dólares, longe de desapontá-la, parecia bastante

adequada. Ela perguntou sobre a família dele.

- Meu pai morreu. Minha mãe estava muito doente quando deixei a Escócia e tenho quase certeza de que a esta altura... Tenho um irmão, Herbert. Ele toma conta dos

bens da família em Kilmarnock, cria ovelhas. A propriedade é dele.

Ela fez um gesto afirmativo.

- Eu tenho um irmão, Timothy, mora em Belfast. Pertence ao Irlanda Jovem, e está sempre metido em encrenca. - Sua mãe estava morta. O pai e quatro irmãos viviam

na Irlanda, mas o quinto irmão, Samuel, morava em Boston, no bairro de Fort Hill. Perguntou timidamente se

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devia contar ao irmão sobre Rob e pedir a ele para procurar moradia para os dois, talvez perto do seu apartamento.



- Ainda não. É muito cedo para isso - disse ele, tocando de leve o rosto dela para tranqüilizá-la.

A idéia de morar no distrito o apavorava. Mas sabia que se continuasse a tratar dos imigrantes pobres, só num lugar como aquele poderia manter mulher e filho. Na

manhã seguinte, Rob olhou para o distrito com medo e com raiva e sentiu crescer dentro dele o desespero que via por toda a parte, nas ruas e nas vielas imundas.

O sono de Rob era agora agitado, atormentado por pesadelos. Dois deles repetiam-se incessantemente. Nas piores noites, era visitado por ambos. Quando não podia dormir,

ficava deitado no escuro, examinandc e reexaminando os detalhes dos fatos, até não saber se estava dormindc ou acordado.

Madrugada. Céu cinzento, mas com um sol otimista. Ele encontrase entre milhares de homens no lado de fora da Carron Iron Works, onde eram fabricados canhões de grosso

calibre para a marinha inglesa. Tudo começa bem. Um homem, de pé num caixote, faz um discurso inflamado, lendo um panfleto mal escrito e sem assinatura, para incitar

os homens ao protesto. “Amigos e compatriotas. Erguendo-nos do estado em que nos mantiveram durante tantos anos, somos compelidos, por nossa

situação extrema e pelo desprezo com qut foram recebidas nossas reivindicações, a garantir nossos direitos, con, risco de nossas vidas.” A voz do homem é estridente

e às vezes entrecortada pelo medo. Quando termina a leitura, é aplaudido ruidosamente. Ao som de três gaitas de fole, os homens cantam com entusiasmo “Scoti Wha’

Hae Wi’ Wallace Bled”. As autoridades leram o panfleto e prepararam-se. Havia policiais armados, a milícia, o Primeiro Batalhão da Brigada de Rifles, e cavalarianos

bem-treinados do Sétimo e do Décimo dos Hussardos, veteranos das guerras na Europa. As fardas dos soldados são magníficas. As botas dos hussardos brilham como

espelhos negros. Os militares são mais jovens do que os policiais, mas trazem no rosto a mesma expressão de desprezo. Tudo começa quando o amigo de Robi, Andrew

Gerould de Lanark, faz um discurso sobre a destruição das fazendas, demonstrando que é impossível aos trabalhadores viver con o salário irrisório que recebem pelo

trabalho que enriquece a Inglaterra e faz a Escócia cada vez mais pobre. O entusiasmo cresce na voz de An drew e os homens começam a rugir sua fúria, gritando, “liberdade

ou morte!”. Os dragões aproximam seus cavalos da multidão, empurrando os homens para longe da cerca que circunda a fábrica. Alguém atira uma pedra, que atinge um

hussardo, derrubando-o do cavalo. Imediatamente os outros cavaleiros desembainham as espadas com um som metálico e uma chuva de pedras cai sobre os soldados, tingindo

de sangue o azul

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vermelho e dourado das belas fardas. A milícia começa a atirar contra a multidão. Os cavalarianos recuam. Homens gritam e choram. Rob está imprensado entre o povo.



Não pode fugir. Deixa-se levar para longe do alcance dos soldados lutando para se manter em pé, certo de que se cair será pisoteado pela multidão apavorada.

O segundo sonho é pior.

Outra vez no meio da multidão. Tão numerosa quanto a do primeiro sonho, mas desta vez, homens e mulheres estão na frente de oito cadafalsos erguidos em Stirling

Castle, contidos pela milícia formada em redor de toda a praça. Um pastor, o Dr. Edward Bruce de Renfrew, sentado, lê em silêncio. Na frente dele está um homem vestido

de negro. Rob J. o reconhece antes de o homem esconder o rosto com a máscara negra. É Bruce qualquer-coisa, um estudante pobre de medicina, que vai receber quinze

libras para executar os condenados. O Dr. Bruce conduz o povo na leitura do Salmo 130: “Das profundezas clamo a Ti, Senhor.” Segundo o costume, dão a cada condenado

um copo de vinho e depois o conduzem para a plataforma, onde os oito caixões esperam. Seis prisioneiros preferem não falar. Um homem chamado Hardie olha para o oceano

de rostos e diz, com voz abafada, “Morro como mártir da causa da justiça.” Andrew Gerould fala com voz clara. Parece cansado e muito mais velho do que seus vinte

e três anos. “Meus amigos, espero que nenhum de vocês esteja ferido. Quando isto terminar, por favor, voltem em silêncio para suas casas e leiam a Bíblia.” Os capuzes

são colocados nas cabeças. Dois deles gritam um adeus quando as cordas são passadas nos seus pescoços. Andrew não diz mais nada, nunca mais. A um sinal, tudo está

acabado e cinco deles morrem sem luta. Três esperneiam por algum tempo. O Novo Testamento cai dos dedos inertes de Andrew no meio da multidão silenciosa. Os corpos

são retirados da forca e o carrasco decepa as cabeças com o machado, erguendo pelos cabelos uma a uma, dizendo a cada vez o que manda a lei, “esta é a cabeça de

um traidor”.

Às vezes, quando Rob J. conseguia escapar dos sonhos, deitado na cama estreita, apalpava seus braços e pernas, aliviado por estar vivo. Com os olhos abertos, no

escuro, imaginava quantas outras pessoas teriam morrido por causa do seu panfleto. Quantos destinos teriam mudado, quantas vidas terminadas porque ele havia projetado

suas crenças em tantas pessoas? A moralidade tradicional dizia que devemos lutar por nossos princípios, morrer por eles. Porém, considerando todo o resto, não era

a vida o bem mais precioso do ser humano? E, como médico, não era seu dever proteger e preservar a vida acima de tudo? Jurou para si mesmo e para Esculápio, o deus

da medicina, que nunca mais seria responsável pela morte de um ser humano por causa de diferenças de opiniões, nunca mais incitaria outra pessoa à revolta e pela

milésima vez imaginou o quanto fora difícil para Bruce qualquer-coisa ganhar aquelas quinze libras.

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- Não é seu dinheiro que está gastando! - disse o Sr. Wilson naquela manhã, entregando os papéis com os nomes dos doentes. - É dinheiro doado ao dispensário por

cidadãos ilustres. O dinheiro da caridade não deve ser gasto a critério do médico que trabalha para nós.

- Eu jamais gastei o dinheiro da caridade. Nunca tratei um paciente que não estivesse realmente doente e precisando da nossa ajuda. Seu sistema é falho. Muitas vezes

me mandam atender uma simples distensão muscular, enquanto outros morrem por falta de tratamento.

- Está se excedendo, senhor. - O olhar e a voz do Sr. Wilson estavam calmos, mas a mão que segurava os papéis tremia. - Compreende que de agora em diante deve limitar

suas visitas aos nomes que lhe são entregues todas as manhãs?

Rob desejava desesperadamente dizer ao Sr. Wilson que ele compreendia, e que também sabia qual a melhor coisa que o Sr. Wilson podia fazer com seus pedacinhos de

papel. Mas considerando as complicações da sua vida, ficou calado, obrigando-se a inclinar a cabeça, assentindo antes de dar meia-volta e sair. Enfiando os papeizinhos

no bolso, foi para o distrito.

Naquela noite tudo mudou. Margaret Holland foi ao quarto dele e sentou na beirada da cama, o seu posto para dar as notícias importantes.

- Estou sangrando.

Rob obrigou-se a pensar primeiro como médico.

- Está com hemorragia? Perdendo muito sangue? Ela balançou a cabeça.

- No começo, um pouco mais que de costume. Depois, como minha menstruação normal. Está quase acabando agora.

- Quando começou?

- Há quatro dias.

- Quatro dias? - Por que esperou tanto tempo para contar a ele. Meggy desviou os olhos. Ficou completamente imóvel, como preparando-se para enfrentar a fúria dele,

e Rob compreendeu que tinham sido quatro dias de luta e indecisão para ela. - Quase resolveu não me dizer nada, não é verdade?

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Ela não respondeu, mas Rob sabia a resposta. Apesar de ser um estranho, um protestante que vivia lavando as mãos, ele era uma oportunidade para fugir da prisão



da pobreza. Depois de ter sido obrigado a encarar de perto aquela prisão, Rob admirava-se dela ter resolvido dizer a verdade, assim, ao invés de ficar zangado com

a demora, o que sentiu foi admiração e uma enorme gratidão. Aproximou-se, fez Meggy ficar de pé e beijou-lhe os olhos vermelhos. Depois abraçou-a por um longo tempo,

batendo nas costas dela de leve, como quem consola uma criança assustada.

Na manhã seguinte Rob caminhou pela rua eufórico, às vezes com os joelhos fracos de alívio. Homens e mulheres respondiam sorridentes ao seu cumprimento. Era um mundo

novo, com sol mais brilhante e ar mais benevolente para seus pulmões.

Tratou os pacientes com a atenção habitual, mas entre um e outro, sua mente voava. Finalmente, sentou num degrau de madeira de Broad Street e pensou no passado,

no presente e no seu futuro.

Pela segunda vez escapara de um destino terrível. Era um aviso para ter mais cuidado com a própria vida, para usá-la com maior respeito.

Via sua existência como um enorme quadro feito aos poucos. Não importava o que acontecesse, a obra final seria sobre medicina, mas tinha o pressentimento de que,

se ficasse em Boston, toda a tela teria tonalidades cinzentas.

Amélia Holmes podia arranjar o que ela chamava de “um brilhante casamento” para ele, mas tendo escapado de outro, sem amor e que o levaria a uma vida de pobreza,

não queria procurar a sangue-frio uma união também sem amor, nem permitir ser vendido no mercado do casamento da sociedade de Boston, como carne de médico a tanto

por quilo.

Queria que sua vida fosse pintada com as cores mais vivas que pudesse encontrar.

Quando terminou o trabalho naquela tarde, foi ao Ateneu e releu os livros que tinham despertado seu interesse. Muito antes de terminar a leitura, sabia para onde

queria ir e o que queria fazer.

Naquela noite, quando já estava deitado, ouviu o sinal conhecido na porta. Rob ficou imóvel, no escuro. A batida leve soou outra vez, e depois outra. Por vários

motivos ele queria levantar e abrir a porta. Mas continuou imóvel, paralisado num momento quase tão desagradável quanto os dos pesadelos, e finalmente Margaret Holland

foi embora.

Rob levou mais de um mês para fazer os preparativos e pedir demissão do Dispensário de Boston. Ao invés de uma festa de despedida, numa noite brutalmente fria de

dezembro, ele, Holmes e Harry Loomis dissecaram o corpo de uma escrava negra chamada Delia. A mulher havia

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trabalhado durante toda a vida e seus músculos eram bem desenvolvidos. Harry tinha demonstrado interesse e talento para a anatomia e ia substituir Rob como docente



na escola de medicina. Holmes dava uma aula enquanto dissecavam, mostrando que a extremidade fimbriada da trompa de Falópio parecia a “franja do xale de uma mulher

pobre”. Cada órgão e cada músculo os fazia pensar numa história, num poema, numa piada anatômica ou escatológica. Era um sério trabalho científico, eles eram meticulosos

com cada detalhe, porém, enquanto trabalhavam, davam gargalhadas e sentiam-se bem juntos. Terminada a dissecação, foram para a taverna Essex e beberam vinho com

especiarias até a hora de fechar. Rob prometeu manter contato com Holmes e com Harry quando chegasse ao seu destino e procurar sua ajuda se tivesse algum problema.

Separaram-se tão amistosamente que Rob quase se arrependeu da sua decisão.

Na manhã seguinte ele comprou castanhas assadas na Washington Street e as levou para a pensão da Spring Street, embrulhadas numa folha do Transcript de Boston. Entrou

no quarto de Meggy Holland, sem ser visto, e deixou as castanhas debaixo do travesseiro dela.

Logo depois do meio-dia, Rob embarcou no vagão que acabava de ser retirado pela locomotiva do pátio da estação. O condutor que recolheu sua passagem olhou de soslaio

para o que ele carregava, pois Rob recusara-se a pôr a viola de gambá e sua mala no vagão bagageiro. Além dos seus instrumentos cirúrgicos e suas roupas, a mala

continha agora o Velho Tesão e meia dúzia de barras de um sabão forte, do tipo que Holmes usava. Assim, embora com pouco dinheiro, estava saindo de Boston muito

mais rico do que quando chegou.

Faltavam quatro dias para o Natal. O trem passava pelas casas com coroas de azevinho nas portas e Rob via as árvores de Natal através das janelas. Logo a cidade

ficou para trás. Apesar da neve que caía, em menos de três horas chegaram a Worcester, o fim da linha da Estrada de Ferro de Boston. Os passageiros fizeram baldeação

para a Estrada de Ferro do Oeste, e, no trem, Rob sentou-se ao lado de um homem pobremente vestido que imediatamente lhe ofereceu uma garrafa.

- Não, muito obrigado - disse ele, mas permitiu que a conversa amenizasse a recusa. O homem era vendedor de pregos de ferro - ganchos, grampos, duas cabeças, rebites,

diamantes e rosas, em tamanhos que iam desde preguinhos minúsculos e finos como agulhas até os enormes rebites de navios - e exibiu para Rob suas amostras durante

um bom tempo da viagem.

- Viajando para oeste! Viajando para oeste! - disse o vendedor. - O senhor também?

Rob fez um gesto afirmativo.

- Até onde vai?

- Quase até o fim do estado! Pittsfield. E o senhor?

Sentiu um prazer tão grande em dizer para onde ia, que respondeu

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com um largo sorriso, contendo-se para não gritar, suas palavras soando como música e iluminando romanticamente cada canto do vagão. - Para a terra dos índios -



disse Rob.
Atravessou os estados de Massachusetts e Nova York viajando numa série de estradas de ferro interligadas por linhas de diligências. Era uma viagem árdua no inverno.

Às vezes, a diligência tinha de esperar que os removedores de neve, puxados por uma dúzia de bois, abrissem caminho com seus grandes rolos de madeira. As estalagens




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