Noah Gordon, o xamã



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Quando Rob J. passou pela porta da casa da fazenda, Sarah estava sentando para seu café de ovos e biscoito da véspera, e olhou para ele, sem dizer uma palavra, e

começou a chorar. Apenas se abraçaram por um longo tempo.

- Você está muito ferido? Ele garantiu que não estava.

- Você está magro. - Disse que ia preparar o café para ele, mas Rob preferiu comer mais tarde. Começou a beijá-la com a urgência de um garoto. Queria fazer amor

na mesa ou no chão da cozinha, mas Sarah disse que estava mais do que na hora dele voltar para a cama e Rob subiu a escada, muito junto dela. No quarto, Sarah o

fez esperar até tirarem toda a roupa.

- Preciso de um bom banho - disse ele, nervosamente, mas ela murmurou que ele podia também tomar banho mais tarde. Todos os anos, toda a fadiga, toda a dor do ferimento

deixaram seu corpo junto com a roupa. Beijaram-se e se exploraram mutuamente com mais avidez do que no celeiro do fazendeiro depois do casamento no Grande Despertar,

porque agora sabiam o que tinham perdido. A mão boa a encontrou e os dedos falaram. Depois de algum tempo, as pernas dela não podiam

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mais agüentar o peso do corpo e Rob fez uma careta de dor quando Sarah deitou sobre ele. Ela olhou para o ferimento sem empalidecer, mas o ajudou a pôr o braço na



tipóia outra vez e o fez ficar deitado enquanto ela se encarregava de tudo e, quando fizeram amor, Rob J. gritou alto várias vezes, de dor no braço.

Era uma alegria, não só voltar para a mulher, como também ir ao celeiro para dar maçãs secas aos cavalos, ver que lembravam dele e, depois, encontrar Alden, que

estava consertando cercas, e ver a tremenda alegria no rosto do homem. Era uma alegria caminhar pelo Caminho Curto, atravessando o bosque, até o rio e parar para

tirar o mato da sepultura de Makwa e sentar encostado no tronco de uma árvore perto de onde ficava antes o hedonoso-te e ver a água tranqüila deslizar à sua frente,

sem ninguém aparecer na outra margem, para atirar nele, gritando como um animal.

No fim do dia, ele e Sarah foram, pelo Caminho Longo, até a casa dos Geiger. Lillian também chorou quando o viu e o beijou na boca. Jason estava vivo e bem na última

vez que tivera notícias, disse ela, e era diretor de um grande hospital no rio James.

- Eu estive muito perto dele - disse Rob J. - A umas duas horas de distância.

Lillian fez um gesto afirmativo.

- Se Deus quiser, logo ele estará em casa também - disse ela secamente, sem tirar os olhos do braço de Rob J.

Sarah não quis ficar para o jantar. Queria Rob só para ela.

Conseguiu isso durante dois dias, porque na manhã do terceiro, todos sabiam que Rob estava de volta e as pessoas começaram a aparecer, algumas só para dar as boas-vindas,

mas muitas mais para levar a conversa para uma bolha na perna, uma tosse forte ou uma dor no estômago que não queria ir embora. No terceiro dia Sarah entregou os

pontos. Alden arreou Boss e Rob J. visitou uma meia dúzia de casas, para ver antigos pacientes.

Tobias Barr ia quase todas as quartas-feiras a Holden’s Crossing para atender os doentes no dispensário, mas as pessoas só o consultavam em último caso. Por isso

Rob J. encontrou os mesmos problemas de quando chegou pela primeira vez à cidade. Hérnias não tratadas, dentes estragados, tosses crónicas. Quando visitou os Schroeder,

disse que estava aliviado por ver que Gustav não tinha perdido mais nenhum dedo em acidentes na fazenda, o que era verdade, embora ele tivesse falado em tom de brincadeira.

Alma serviu café de chicória e mandelbrot e o pôs em dia com as fofocas locais, algumas das quais o entristeceram. Hans Grueber tinha caído morto no seu campo de

trigo, em agosto.

- O coração, eu acho - disse Gus.

E Suzy Gilbert, que sempre insistia para Rob comer suas pesadas panquecas de batata, tinha morrido de parto há um mês.

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Havia gente nova na cidade, famílias de New England e do Estado de Nova York. E três famílias católicas, há pouco chegadas da Irlanda.

- Não sabem nem falar der langvich - disse Gus e Rob teve de rir. À tarde, ele foi ao Convento de São Francisco Xavier de Assis e passou pelo que agora era um respeitável

rebanho de cabras.

Miriam, a Feroz, o recebeu com um largo sorriso. Rob sentou-se na poltrona do bispo e contou tudo o que havia acontecido com ele. Ela ouviu com grande interesse

a história de Ordway e da carta para o reverendo David Goodnow, de Chicago.

Pediu permissão para copiar o nome e o endereço de Goodnow.

- Certas pessoas estão ansiosas por essa informação - disse ela.

Então ela falou do seu mundo. O convento prosperava. Tinha quatro novas freiras e duas noviças. Agora as pessoas iam ao convento para a missa de domingo. Se os fazendeiros

continuarem a vir, logo teremos uma igreja católica.

Rob achou que ela esperava sua visita, porque logo depois da sua chegada, a irmã Mary Peter Celestine serviu um prato de biscoitos saídos do forno e um bom queijo

de leite de cabra. E café de verdade, o primeiro que ele tomava em mais de um ano, com leite de cabra cremoso.

- Festas de boas-vindas, reverenda madre?

- É bom tê-lo de volta ao lar - disse ela.

A cada dia Rob sentia-se mais forte. Não exagerou. Dormia até tarde, alimentava-se bem, passeava pela fazenda com prazer. Visitava alguns pacientes todas as tardes.

Mesmo assim, precisava se acostumar novamente à boa vida. No sétimo dia da sua chegada, sentiu dores nas pernas, nos braços e nas costas. Rob J. riu e disse a Sarah

que não estava mais acostumado a dormir numa cama.

Estava na cama no começo do dia quando sentiu um mal-estar no estômago, mas procurou ignorar, porque não queria se levantar ainda. Finalmente foi obrigado a sair

da cama e no meio da escada ele curvou o corpo e correu. Sarah acordou.

Rob J. não chegou a tempo na privada. Saiu do caminho, agachou entre os arbustos, como um soldado bêbado, rosnando e soluçando de dor, com impressão de que seu intestino

estava explodindo.

Sarah saiu de casa, e Rob não queria que ela o visse naquele estado.

- O que foi? - perguntou ela.

- A água... do trem - disse Rob, com voz fraca.

Rob teve mais três acessos de diarréia durante a noite. De manhã já tinha tomado óleo de rícino para limpar a doença do organismo e, à noitinha, vendo que a doença

estava ainda nele, tomou sais de Epsom. No

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dia seguinte estava ardendo em febre e com uma terrível dor de cabeça. Então, Rob soube qual era sua doença, mesmo antes de Sarah tirar sua roupa para o banho e

descobrirem as manchas vermelhas no abdome. Quando Rob disse o que era, Sarah falou com voz firme.

- Muito bem, nós tratamos de muita gente com tifo e todos, se salvaram. Diga qual é a dieta.

Só de pensar em comida o deixava nauseado, mas ele disse.

- Caldos leves de carne, com legumes, se puder conseguir algum. Sucos de frutas. Mas nesta época do ano...

Tinham ainda algumas maçãs num barril, no porão, disse ela, e Alden podia amassá-las para fazer suco.

Sarah manteve-se ocupada, para não pensar, mas depois de vinte e quatro horas, reconheceu que precisava de ajuda, porque tinha dormido muito pouco, cuidando das

comadres, mudando a todo momento a roupa dele e os lençóis da cama e fervendo a roupa suja. Mandou Alden ao convento católico pedir a ajuda das freiras enfermeiras.

Duas chegaram - tinha ouvido dizer que sempre trabalhavam aos pares - uma jovem com cara de bebé, chamada irmã Mary Benedicta, e a outra mais velha, alta e nariguda,

que disse se chamar madre Miriam Ferocia. Rob J. abriu os olhos, viu as freiras e sorriu e Sarah foi para o quarto dos filhos e dormiu durante seis horas.

O quarto do doente estava sempre limpo e cheiroso. As freiras eram boas enfermeiras. Depois de três dias, a temperatura de Rob caiu. A princípio, as três mulheres

ficaram satisfeitas, mas foi a mais velha quem mostrou a Sarah as fezes sanguinolentas e ela mandou Alden a Rock Island para chamar o Dr. Barr.

Quando o Dr. Barr chegou, as fezes eram quase só sangue e Rob J. estava muito pálido. Fazia oito dias que a doença tinha se mani festado.

- A doença evoluiu muito rapidamente - o Dr. Barr disse para ele, como se estivessem numa reunião da Sociedade de Medicina.

- Isso acontece às vezes - respondeu Rob J.

- Talvez quinino, ou calomelano? - perguntou o Dr. Barr. - Muitos acreditam que é uma forma de malária.

Rob J. disse que o quinino e calomelano não adiantavam.

- Tifo não é malária - disse ele, com esforço.

Tobias Barr não tinha trabalhado em anatomia tanto quanto Rob J., mas ambos sabiam que hemorragia grave significava que os intestinos estavam completamente perfurados

pelo tifo, e as úlceras tendiam a ficar mais pronunciadas, e não menores. Não seria preciso muitas hemorragias mais.

- Posso deixar um pouco de pó de Dover - disse o Dr. Barr.

O pó de Dover era uma mistura de ipecacuanha e ópio. Rob J. balançou a cabeça e o Dr. Barr compreendeu que ele queria ficar consciente o maior tempo possível, no

seu quarto, na sua casa.

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Era mais fácil para o Dr. Barr quando o paciente não sabia nada sobre a doença e ele podia deixar esperança num vidro de remédio, com instruções sobre o modo de

tomar. Pôs a mão no ombro de Rob J. e a deixou ali por um momento.

- Eu volto amanhã - disse ele, com o rosto inexpressivo. Passara por isso tantas vezes! Mas os olhos estavam pesados de pena.

- Não podemos ajudá-la de nenhum outro modo? - Madre Míriam Ferocia perguntou a Sarah. Sarah disse que era batista, mas as três mulheres ajoelharam por algum tempo

no corredor e rezaram juntas. Naquela noite, Sarah agradeceu às freiras e as mandou embora.

Rob J. descansou tranqüilamente até pouco antes da meia-noite, quando teve um pequeno fluxo sangüíneo. Ele tinha proibido Sarah de levar o pastor para visitá-lo,

mas ela perguntou outra vez se ele gostaria de falar com o reverendo Blackmer.

- Não. Posso fazer isso tão bem quanto Ordway - disse Rob J.

- Quem é Ordway? - Sarah perguntou, mas ele parecia cansado demais para responder.

Ela sentou-se ao lado da cama. Rob segurou a mão dela e os dois cochilaram. Um pouco antes das duas horas da manhã, Sarah acordou e imediatamente sentiu o frio da

mão do marido.

Sarah ficou sentada perto dele por algum tempo. Depois, com esforço, levantou da cadeira. Aumentou a luz dos lampiões e depois o lavou pela última vez, limpando

com água a última hemorragia que levara sua vida. Fez a barba do marido e fez tudo que o vira fazer para os outros durante tantos anos. Depois o vestiu com o melhor

terno. Agora estava largo, mas ela sabia que não tinha mais importância.

Como uma boa mulher de médico, apanhou as roupas de cama sujas demais para serem fervidas, e fez uma trouxa para queimar. Depois, aqueceu água e preparou um banho.

Sarah esfregou muito bem todo seu corpo com sabão escuro, chorando o tempo todo. Quando o dia nasceu, ela estava vestida com sua melhor roupa e sentada numa cadeira

ao lado da porta da cozinha. Assim que ouviu Alden abrir a porta do celeiro, foi até ele e contou que seu marido estava morto e deu a ele a mensagem para levar ao

escritório do telégrafo, pedindo ao filho que voltasse para casa.

Parte 6

O MÉDICO RURAL



2 de maio, 1864

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58 CONSELHEIROS

Xamã acordoy dominado por duas emoções contraditórias: o fluxo total e envolvente da realidade da morte do pai e a sensação de segurança e tranquilidade do lar,

como se o objetivo de seu corpo e de sua mente sempre tivesso sido aquele lugar e agora se encaixavam nele natural e facilmente. A vibração da casa anunciando os

ventos bruscos da planície era uma sensação que ele conhecia, a carícia do travesseiro e dos lençóis na pele, o aroma do café da manhã que subia a escada, chamando-o

para baixo, até o brilho familiar do sol quente e amarelo no orvalho da relva dos fundos da casa. Quando saiu do banheiro, sentiu-se tentado pela trilha que levava

ao rio, mas só dentro de algumas semanas a água estaria com temperatura boa para nadar.

Voltou para casa e encontrou Alden que saía do celeiro.

- Quanto tempo vai ficar, Xamã?

- Não sei ainda, Alden.

- Bem, o negócio é o seguinte. Tem uma porção de cercas-vivas para plantar nas pastagens. Penfield já arou as faixas de terra, mas tudo isso que aconteceu atrasou

nosso trabalho com as crias da primavera e outras coisas. Você bem que podia me ajudar a plantar as laranjas osage. Não vai precisar de mais de quatro dias.

Xamã balançou a cabeça.

- Não, Alden. Não posso.

Vendo a expressão de desaponto no rosto de Alden, Xamã sentiu uma ponta de culpa, mas preferiu não dar mais explicações. Alden o via ainda como filho mais novo do

patrão, ao qual podia dar ordens, o menino surdo que não era tão bom no trabalho da fazenda quanto Alex. A recusa constituía uma mudança no relacionamento entre

os dois, e Xamã tentou amenizar o fato.

- Talvez eu possa ajudar na fazenda por uns dois dias. Mas, se não puder, você e Doug terão de se arranjar sozinhos - disse ele e Alden voltou para o celeiro com

a cara fechada.

Xamã e a mãe trocaram sorrisos discretos quando ele sentou para o café.

Tinham aprendido a falar sobre coisas sem importância. Era mais seguro. Xamã elogiou a salsicha da fazenda e os ovos, preparados com perfeição, um café da manhã

que ele não via desde que saíra de casa.

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Sarah disse que tinha visto três garças no dia anterior quando ia para a cidade.

- Acho que este ano elas estão mais numerosas do que nunca, talvez fugindo de outros lugares, assustadas pela guerra - disse Sarah.

Na noite anterior Xamã ficara acordado até tarde, lendo o diário do pai. Gostaria de perguntar uma porção de coisas a ela, mas infelizmente não podia.

Depois do café, Xamã leu os relatórios do pai sobre os pacientes. Ninguém mantinha um fichário tão minucioso quanto Robert Judson Cole. Exausto ou não, seu pai sempre

completava seus relatórios antes de ir para a cama e agora Xamã podia fazer uma lista cuidadosa de todas as pessoas que o pai havia tratado nos poucos dias depois

da sua volta.

Perguntou à mãe se podia usar Boss e a charrete.

- Quero visitar as pessoas que papai atendeu. O tifo é uma doença muito contagiosa.

Sarah fez um gesto afirmativo.

- É uma boa idéia levar a charrete. E seu almoço? - perguntou ela.

- Vou embrulhar alguns dos seus biscoitos e levar no bolso.

- Ele sempre fazia isso - disse Sarah, em voz baixa.

- Sim, eu sei.

- Vou preparar um lanche.

- Se quiser fazer isso, mamãe, será ótimo.

Xamã beijou a testa da mãe. Sarah não disse nada e apertou com força as mãos do filho. Quando finalmente as soltou, Xamã mais uma vez sentiu-se maravilhado com a

beleza dela.

Sua primeira parada foi na fazenda de William Bemis, que tinha machucado as costas quando fazia o parto de um novilho. Bemis estava mancando e com um pequeno torcicolo

mas disse que estava melhor.

- Mas o linimento fedido que seu pai me deixou está quase no fim.

- Tem tido febre, Sr. Bemis?

- Diabo, não. Só dor nas costas. Por que ia ter febre? - Olhou para Xamã com a testa franzida. - Vai me cobrar esta visita? Eu não chamei médico nenhum.

- Não, senhor, não vou cobrar nada. Fico satisfeito por ver que está melhor - disse Xamã, e deixou mais um pouco do linimento receitado pelo pai.

Procurou visitar pessoas que, ele sabia, Rob J. teria visitado apenas para rever velhos amigos. Chegou à fazenda dos Schroeder um pouco depois do meio-dia.

- Bem na hora do almoço - disse Alma, alegremente, franzindo os lábios com desprezo quando ele disse que tinha levado um lanche.

- Muito bem, pois então traga seu lanche, e coma enquanto almoçamos - disse ela, e Xamã obedeceu, satisfeito com a companhia.

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Sarah tinha preparado carne de carneiro fria, em fatias, uma batatadoce assada e três biscoitos com mel. Alma serviu codorna frita e tortinhas de pêssego.



- Não vai deixar passar estas tortinhas que eu fiz com minhas últimas conservas - disse ela, e Xamã comeu duas e um pouco de codorna.

- Seu pai nunca trazia lanche quando vinha à minha casa na hora do almoço - disse ela, olhando para ele. - Vai ficar em Holden’s Cros sing agora, tratando da gente?

Xamã hesitou. Era uma pergunta natural, a pergunta que devia ter feito a si mesmo, a pergunta que estava evitando.

- Bem, Alma... ainda hão pensei nisso - disse, com voz incerta. Gus Schroeder inclinou-se para a frente e murmurou, como quem

revela um segredo.

- Então por que não pensa agora?

No meio da tarde, Xamã estava na casa dos Snow. Edwin Snow cultivava trigo na parte norte do município, o mais distante possível da fazendo dos Cole, sem sair de

Holden’s Crossing. Era uma das pessoas que tinham chamado o Dr. Cole logo que souberam da sua volta, pois estava com um dedo do pé inflamado. Xamã o encontrou andando,

sem mancar nem um pouco.

- Oh, o pé está ótimo - disse ele, alegremente. - Seu pai mandou Tilda segurar minha perna e abriu-a no lugar inflamado com a mão boa, firme como uma rocha. Eu mergulhei

o pé nos sais, como ele mandou, para tirar a inflamação. Mas hoje aconteceu uma coisa estranha. Tilda não está muito bem.

A Sra. Snow estava alimentando as galinhas e parecia não ter forças nem para jogar um punhado de milho. Era uma mulher grande e gorda. Seu rosto estava corado e

ela admitiu que se sentia “um pouco quente”. Xamã percebeu imediatamente que ela estava com febre alta e viu o alívio da mulher quando a mandou para a cama, apesar

dos protestos, dizendo que não era preciso.

Ela disse que há mais ou menos dois dias estava com uma dor surda nas costas e completamente sem apetite.

Xamã ficou preocupado, mas procurou se manter calmo. Disse a ela para descansar um pouco, que o Sr. Snow cuidaria das galinhas e dos outros animais. Deixou um vidro

de tônico e disse que voltaria no dia seguinte. Snow insistiu em pagar, mas Xamã recusou com firmeza.

- Não me deve nada. Não é como se eu fosse o seu médico. Estou só de passagem - disse ele, pensando que não ia aceitar pagamento para tratar de uma doença talvez

contraída do seu pai.

Sua última parada do dia foi no Convento de São Francisco Xavier de Assis.

A madre Míriam o recebeu com alegria genuína. Quando o convidou

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a sentar, Xamã foi direto para a cadeira de espaldar reto, a que tinha ocupado na sua primeira visita ao convento, com o pai.

- Então - disse ela. - Está revisitando seu antigo lar?

- Estou fazendo mais do que isso hoje. Estou verificando se meu pai contagiou alguém em Holden’s Crossing. A senhora ou a irmã Benedicta apresentaram algum sintoma?

Madre Míriam balançou a cabeça.

- Não. Nem espero que isso aconteça. Estamos acostumadas a cuidar de todos os tipos de doenças, e seu pai também estava. Provavelmente você agora também está. Já?

- Sim, acho que estou.

- Acredito que o Senhor protege pessoas como nós. Xamã sorriu.

- Espero que tenha razão.

- Tratou muitos casos de tifo no seu hospital?

- Sim, muitos. Temos uma área de isolamento para as doenças contagiosas, um prédio separado, longe dos outros.

- Já, é uma boa medida - disse ela. - Fale do seu hospital. Então ele falou sobre o Southwestern Ohio Hospital, começando

pela equipe de enfermagem, porque interessava mais a ela, depois descreveu a equipe médica e cirúrgica e de patologia. Madre Míriam fez perguntas inteligentes que

o estimularam a falar mais. Contou o seu trabalho na cirurgia com o Dr. Berwyn e na patologia, com o Dr. Barney McGowan.

- Então você tem um bom conhecimento e bastante experiência. E agora? Vai ficar em Cincinnati?

Xamã contou então a pergunta de Alma Schroeder, dizendo que não estava preparado para dar a resposta.

Madre Míriam o observou com interesse.

- E por que acha difícil responder?

- Quando eu morava aqui, sempre me senti incompleto, um garoto surdo entre pessoas que podiam ouvir. Eu amava e admirava meu pai e queria ser igual a ele. Queria

ser médico, e para isso trabalhei e lutei, embora todos - inclusive meu pai - dissessem que era impossível. Meu sonho sempre foi ser médico. Agora, consegui chegar

muito além do fim do sonho. Não sou mais incompleto, e estou de volta ao lugar que eu amo. Para mim, este lugar sempre pertencerá ao verdadeiro médico, meu pai.

Madre Míriam assentiu com um gesto.

- Mas ele se foi, Xamã.

Xamã ficou calado. Sentia o coração batendo forte no peito, como se só agora estivesse recebendo a notícia da morte do pai.

- Quero que faça uma coisa para mim - disse ela, apontando para a poltrona de couro. - Sente ali, onde ele sempre sentava.

Com relutância, com o corpo rígido, ele se levantou da cadeira e sentou na poltrona. Depois de um momento, madre Míriam disse.

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- Não é tão desconfortável, eu acho?

- É bastante confortável - respondeu Xamã, com voz firme.

- E você fica muito bem nela. - Com um leve sorriso, madre Miriam disse quase a mesma coisa que Gus Schroeder dissera: - Precisa pensar nisso.

A caminho de casa, parou na casa de Howard e comprou um garrafão de uísque.

- Sinto muito sobre seu pai - murmurou Julian Howard, constrangido, e Xamã inclinou a cabeça, num jesto de assentimento, sabendo que o pai e Howard não eram amigos.

Mbllie Howard disse que achava que Mal e Alex tinham conseguido entrar para o exército confederado porque não tinha nenhuma notícia do íüm, desde que eles partiram.

- Acho que se estivessem em algum lugar, deste lado da linha de combate, um ou outro teria mandado notícias - disse ela, e Xamã disse que ela devia estar certa.

Depois do jantar, ele levou o garrafão para a casa de Alden, uma oferta de paz. Chegou até a pôr um pouco num copo de geléia para acompanhá-lo, sabendo que Alden

não gostava de beber sozinho na frente de outras pessoas. Depois que Alden tomou várias doses, Xamã começou a falar sobre a fazenda.

- Por que você e Doug Penfield estão tendo tanta dificuldade em manter o trabalho em dia, este ano?

As palavras jorraram imediatamente.

- E o resultado do que vem acontecendo há muitos anos. Raramente vendemos um animal, a não ser uma ou duas crias da primavera, para o almoço de Páscoa de um vizinho.

Assim, o rebanho cresce a cada ano e temos mais animais para tratar, tosquiar e temos de preparar e cercar mais pastagens. Antes do seu pai ir para o exército, eu

tentei fazer com que ele compreendesse isso, mas nunca consegui.

- Muito bem, vamos falar do assunto agora, então. Qual é o preço do quilo de lã tosquiada? - perguntou Xamã, tirando do bolso um livro de notas e um lápis.

Durante quase uma hora falaram sobre qualidade de peles e preços, como seria o mercado depois da guerra, calcularam a área que precisavam por cabeça, dias de trabalho,

e custo por dia. Quando terminaram, o livro de Xamã estava cheio de anotações.

Alden não estava mais zangado.

- Agora, se me disser que Alex vai voltar logo, a coisa muda, porque aquele menino é um bom trabalhador. Mas a verdade é que ele pode estar morto em algum lugar

naquela região quente, e você sabe que tenho razão, Xamã.

- Sim, é verdade. Mas, enquanto não ouvir nada diferente, continuo a pensar que ele está vivo.

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