Noah Gordon, o xamã



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e para cá”.

Perguntei se alguma vez tinha conhecido um homem chamado Hank Cough e ele piscou os olhos. “É claro que conheço. E você também conhece esse homem? Imagine só! Sim.

Hank!”


Perguntei onde Hank estava e ele olhou para mim, desconfiado.

- Ora, no exército.

Mas quando perguntei que trabalho eles tinham feito juntos, ele encostou o dedo indicador debaixo do olho e desceu com ele até a base do nariz. Levantou e foi embora,

cambaleando. A entrevista terminou aí.

Na manhã seguinte, Ordway parecia não se lembrar do interrogatório e Rob J. teve o cuidado de ficar longe dele durante alguns dias. Na verdade, várias semanas se

passaram antes que surgisse outra oportunidade, porque o suprimento de uísque do vendedor autorizado tinha acabado durante as festas e os comerciantes do norte,

que viajavam com as forças da União, não ousavam comprar uísque na Virgínia, temendo que estivesse envenenado.

Mas o cirurgião assistente tinha um estoque de uísque fornecido pelo governo para fins medicinais. Rob J. deu o garrafão para Wilcox, sabendo que ele o dividiria

com Ordway. Naquela noite ele vigiou e esperou e quando finalmente os dois chegaram, Wilcox alegre, Ordway tristonho, Rob J. disse boa noite para Wilcox e se encarregou

de Ordway, como da outra vez. Foram para o mesmo lugar, entre as pedras, atrás das barracas.

- Muito bem, Lanny - disse Rob J. - Vamos ter outra conversa.

- Sobre o quê, doutor?

- Quando foi que você conheceu Ellwood Patterson? Os olhos do homem eram dois alfinetes de gelo.

- Quem é você? - disse Ordway, completamente sóbrio.

Rob J. estava preparado para a dura verdade. Tinha esperado muito tempo.

- Quem você pensa que eu sou?

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- Acho que é um maldito espião católico, fazendo todas essas perguntas.



- Tenho mais perguntas. Tenho perguntas sobre a mulher índia que vocês mataram.

- Que mulher índia? - perguntou Ordway, com horror genuíno.

- Quantas mulheres índias você matou? Sabe de onde eu sou, Lanny?

- De Boston - disse Ordway, carrancudo.

- Isso foi antes. Há anos eu moro em Illinois. Numa cidadezinha chamada Holden’s Crossing.

Ordway olhou para ele e não disse nada.

- A mulher índia que foi morta, Lanny. Ela era minha amiga, trabalhava para mim. Seu nome era Makwa-ikwa, caso você não saiba ainda. Ela foi violentada e assassinada

no meu bosque, na minha fazenda.

- A mulher índia? Meu Deus, fique longe de mim, seu miserável maluco. Não sei do que está falando. E vou avisar. Se for um homem esperto, se sabe o que é bom para

sua saúde e tudo o mais, seu espião filho da mãe, vai esquecer qualquer coisa que pensa que sabe sobre Ellwood Patterson - disse Ordway. Passou por Rob J. manquitolando,

mas depressa, como se estivesse sob fogo cerrado, e desapareceu na noite.

Rob J. disfarçadamente ficou de olho nele durante todo o dia seguinte. Viu quando ele treinou a equipe de padioleiros, quando inspecionou as mochilas, ouviu quando

ele avisou que deviam ter muito cuidado no uso dos comprimidos de morfina até receberem mais, porque o estoque do regimento estava quase no fim. Lanning Ordway,

Rob J. tinha de admitir, tinha se tornado um bom e eficiente sargento do Corpo de Ambulância.

De tarde, ele viu Ordway na barraca, trabalhando com lápis e papel. O trabalho escrito levou horas para ficar pronto.

Depois da descida da bandeira, Ordway levou o envelope fechado para a barraca do correio.

Rob J. esperou algum tempo e foi para a barraca do correio.

- Eu encontrei um vendedor esta manhã com queijo muito bom - disse para Amasa Decker. - Deixei um pedaço na sua barraca.

- Ora, doutor, é muita bondade sua - disse Decker, satisfeito.

- Preciso tratar bem meus padioleiros, não é mesmo? Acho melhor você ir comer o queijo antes que alguém o encontre. Fico tomando conta do correio para você.

Não precisou mais do que isso. Assim que Decker saiu apressadamente, Rob J. foi até a caixa de saída de correspondência. Em poucos minutos encontrou o envelope e

o guardou no Mee-shome.

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Só quando chegou na barraca tirou a carta da sacola e abriu. Era endereçada ao: Rev. David Goodnow, 237, Bridgeton Street, Chicago, Illinois.



Caro Sr. Goodnow, Lanning Ordway. Estou no Indiana 131?, o senhor sabe. Tem um homem aqui fazendo perguntas. Um gordo de nome Rob Col. Ele quer saber do Henry. Ele

fala engraçado, eu estive vigiando ele. Ele quer saber do L. wood Padson. Disse pra mim que nós estupramos e matamos aquela mulher injun, aquela vez em Illinois.

Posso tomar conta dele, de muitos jeitos. Mas eu uso minha cabeça e conto pró senhor pró senhor descobrir como ele ficou sabendo de nós. Sou sargento. Quando a guerra

acabar, vou trabalhar pra Ordem outra vês. Lanning Ordway.

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ATRAVESSANDO O RAPPAHANNOCK



Rob J. tinha perfeita consciência de que, no meio da guerra, com todo mundo armado, e com o assassinato em massa legalizado, havia muitos meios e muitas oportunidades

para um matador experiente que estava resolvido a “tomar conta” dele.

Durante quatro dias ele procurou sempre saber o que estava acontecendo às suas costas, e por cinco noites, dormiu levemente ou quase nada,

Ficava acordado, pensando em como Ordway ia acabar com ele. Resolveu que, se estivesse no lugar de Ordway e tivesse seu temperamento, esperaria que ambos estivessem

procurando feridos durante uma barulhenta escaramuça, com muitos tiros. Por outro lado, não sabia se Ordway preferia a faca. Se Rob J. fosse encontrado esfaqueado,

ou com a garganta cortada, depois de uma noite longa e escura, quando todos os sapadores pensavam que a menor sombra era um confederado infiltrado entre os soldados

da União, ninguém ficaria surpreso nem se daria ao trabalho de investigar sua morte.

A situação mudou no dia 19 de janeiro, quando a Companhia B da Segunda Brigada foi enviada para a outra margem do Rappahannock para uma rápida inspeção, com ordem

de voltar rapidamente. Mas as coisas não funcionaram assim. A pequena companhia de infantaria encontrou as posições reforçadas dos confederados onde não esperavam

encontrar confederado nenhum e os homens da União ficaram encurralados num lugar desprotegido, sob o fogo cerrado do inimigo.

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Era uma cópia da situação em que tinha ficado todo o regimento algumas semanas antes, mas agora, ao invés de uns setecentos homens com baionetas caladas atravessando



o rio para salvar a situação, não contaram com nenhum apoio do exército do Potomac. Os 107 homens ficaram onde estavam, o dia inteiro respondendo como podiam ao

fogo do inimigo. Quando a noite chegou, fugiram e atravessaram o rio levando com eles quatro mortos e sete feridos.

O primeiro homem que levaram para o hospital foi Lanning Ordway.

Os homens da equipe de Ordway disseram que ele foi ferido um pouco antes do anoitecer. Ele acabava de enfiar a mão no bolso para apanhar os biscoitos enrolados em

papel e um pedaço de carne de porco frita, quando duas balas minié o atingiram em rápida sucessão. Uma tirou um bom pedaço da parede do abdome, e um pedaço do intestino

estava para fora. Rob J. começou a empurrar o intestino para dentro, pensando em fechar o ferimento, mas percebeu várias outras coisas, rapidamente, e soube que

não podia fazer nada para salvar a vida de Ordway.

O segundo ferimento perfurante tinha destruído uma boa parte dos órgãos internos. Rob J. sabia que, se abrisse a barriga, ia encontrar todo o sangue do corpo na

cavidade abdominal. O rosto de Ordway estava branco como leite.

- Você quer alguma coisa, Lanny? - perguntou Rob J. gentilmente. Os lábios de Ordway se moveram. Ergueu os olhos e a calma que

o médico já vira antes nos olhos dos que iam morrer dizia que Ordway estava consciente.

- Água.


Era a pior coisa que se podia dar a um homem com um tiro na barriga, mas Rob J. sabia que ele ia morrer. Tirou dois comprimidos de ópio do Mee-shome e deu para Ordway

com um longo gole de água. Quase imediatamente Ordway vomitou vermelho.

- Talvez você queira me dizer o que aconteceu exatamente com Makwa-ikwa naquele dia no bosque. Ou contar outra coisa, qualquer coisa.

- Vá... inferno - Ordway conseguiu dizer.

Rob não acreditava que pudesse ir para o inferno. Não acreditava que Ordway ou qualquer outra pessoa pudesse ir, mas não era hora para debate.

- Pensei que isso podia ajudar você agora. Se tiver alguma coisa pesando em sua mente.

Ordway fechou os olhos e Rob J. compreendeu que devia deixá-lo em paz.

Rob detestava perder alguém para a morte, mas detestou especialmente a perda daquele homem que ia matá-lo porque, arquivada na cabeça de Ordway, estava a informação

que ele procurava há anos, e quando o cérebro do homem morresse, apagando como um lampião, a informação iria com ele.

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Sabia também que, a despeito de tudo, algo dentro dele havia respondido ao jovem estranho e complicado apanhado na engrenagem do crime. Como teria sido conhecer

Ordway nascido sem defeito, que tivesse estudado um pouco, que não tivesse passado fome e com uma herança diferente de um pai bêbado?

Rob J. sabia a futilidade desse exercício mental e quando olhou para a figura imóvel viu que Ordway estava além de qualquer consideração.

Durante algum tempo ele aplicou o cone de éter enquanto o Dr. Coppersmith retirava uma bala minié, com bastante habilidade, da parte mais carnuda da nádega de um

garoto. Depois voltou para Ordway, amarrou o queixo dele, fechou as pálpebras com duas moedas e os homens o puseram no chão ao lado dos outros quatro trazidos pela

Companhia B.

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O CÍRCULO SE FECHA



No dia 12 de fevereiro de 1864, Rob J. escreveu no diário.

Dois rios de Illinois, o Mississipi e o Rock, deixaram marcas em minha vida e agora, na Virgínia, conheci muito bem outros dois rios desiguais, assistindo à carnificina

nas margens do Rappahannock e do Rapidan. Tanto o exército do Potomac quanto o exército da Virgínia do Norte enviaram pequenos grupos de infantaria e de cavalaria

ao outro lado do Rapidan para se defrontarem, durante todo o fim do inverno e o começo da primavera. Com a mesma calma com que eu atravessava o Rock, no passado,

para visitar um vizinho doente ou fazer um parto de última hora, agora acompanho soldados na travessia do Rapidan em vários lugares, sentado na sela de Pretty Boy

ou a pé, chapinhando na água nos baixios, ou ainda navegando nas águas profundas em botes ou balsas. Nesse inverno não houve grandes batalhas, daquelas que matam

milhares, mas acabei me acostumando a ver dezenas de mortos, ou apenas um. Há algo de infinitamente trágico num único homem morto, mais do que num campo coberto

de cadáveres. De certa forma aprendi a não ver os sãos e os mortos, apenas os feridos, entrando no campo de batalha para apanhar jovens tolos, quase sempre sob o

fogo de outros jovens tolos...

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Os soldados dos dois lados passaram a pregar na farda pedaços de papel com seus nomes e endereços, na esperança de que seus entes queridos fossem notificados em

caso de morte. Rob J. e os três homens da sua equipe de padioleiros não se deram ao trabalho de fazer isso. Saíam agora sem pensar e sem sentir medo, porque Amasa

Decker, Alan Johnson e Lucius Wagner estavam convencidos de que a medicina de Makwa-ikwa os estava protegendo de verdade e Rob J. deixou-se contagiar por tal crença.

Era com se o Mee-shome criasse uma força que desviava todas as balas, tornando seus corpos invioláveis.

Por vezes parecia que sempre tinham vivido na guerra, e que ela nunca mais ia acabar. Porém, Rob J. via as mudanças. Certo dia leu no American de Baltimore, todo

rasgado, que todos os homens brancos do sul entre dezessete e cinqüenta anos tinham sido recrutados pelo exército confederado. Queria dizer que, a partir desse dia,

um confederado morto ou ferido não tinha quem o substituísse e que o exército ia ficar cada vez menor. Rob J. teve inúmeras oportunidades de ver os confederados

mortos ou aprisionados com fardas rasgadas e botas em péssimo estado. Imaginava desesperadamente se Alex estaria vivo, alimentado, vestido e calçado. O coronel Symonds

anunciou que muito em breve o 131? Indiana iria receber uma leva de carabinas Sharps equipadas com pentes de bala aperfeiçoados para tiro rápido. E isso era um resumo

de para onde a guerra se encaminhava, com o norte fabricando melhores canhões, armas, munições, navios, e o sul com falta de recrutas para o exército e de tudo que

pudesse ser feito em fábricas.

O problema era que os confederados não pareciam compreender que enfrentavam a realidade de uma enorme desvantagem industrial e, não compreendendo, continuavam a

lutar com uma ferocidade que prometia fazer a guerra durar muito tempo ainda.

Certo dia, no fim de fevereiro, os quatro padioleiros foram chamados para socorrer o capitão Taney, comandante da Companhia A, da Primeira Brigada que, deitado no

chão, fumava estoicamente um charuto, com o osso da canela destruído por uma bala. Rob J. viu que não adiantava pôr uma tala pois várias partes da tíbia e do perónio

estavam destruídas e a perna teria de ser amputada entre o tornozelo e o joelho. Quando se voltou para apanhar o curativo, seu Mee-shome não estava lá.

Com um aperto no estômago, lembrou-se exatamente de onde o havia deixado, na relva, do lado de fora da barraca hospital.

Os outros sabiam também.

Rob tirou o cinto de couro de Alan Johnson para fazer o torniquete, depois puseram o capitão na padiola e o levaram de volta, atordoados.

- Meu Deus do céu - disse Lucius Wagner. Ele sempre dizia isso com voz acusadora, quando estava com muito medo. Agora, murmurou a frase várias vezes, até incomodar,

mas ninguém o mandou calar a boca,

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todos muito ocupados em antecipar o impacto de uma bala nos próprios corpos, de repente despidos, desprovidos de mágica.

A volta foi mais lenta e mais apavorante do que a primeira vez. Houve disparos isolados mas nada aconteceu aos padioleiros. Finalmente estavam de volta ao hospital

de campanha e depois de entregarem o paciente ao Dr. Coppersmith, Amasa Decker apanhou o Mee-shome e o pôs nas mãos de Rob J.

- Ponha no ombro, depressa - disse ele. E Rob J. obedeceu.

Os três padioleiros conversaram em voz baixa, fracos ainda de alívio, e resolveram tomar a responsabilidade de providenciar para que o cirurgião assistente pusesse

no ombro a sacola com a medicina, assim que levantasse da cama.

Dois dias depois, Rob J. ficou satisfeito por estar com o Mee-shome quando o 131? Indiana, a seiscentos metros do ponto em que o Rapidan encontrava o grande rio,

saiu de uma curva da estrada e deu literalmente de cara com uma brigada de homens com fardas cinzentas.

Os dois lados começaram a atirar imediatamente, alguns de muito perto. O ar se encheu de pragas e gritos, dos estampidos dos mosquetes, dos berros dos feridos, e

então as fileiras da frente se encontraram, num corpo a corpo, os oficiais brandindo as espadas ou atirando com pequenas armas, os soldados girando os rifles como

bastões ou usando punhos, unhas e dentes, porque ninguém tinha tempo para recarregar as armas.

Num lado da estrada havia um bosque de carvalhos e no outro, um campo adubado que parecia macio como veludo, arado e pronto para a semeadura. Alguns homens, dos

dois lados, refugiaram-se atrás das árvores, mas a maior parte se espalhou, maculando a perfeição do solo. As duas linhas em desordem começaram a trocar tiros.

Geralmente Rob ficava atrás quando havia escaramuças, esperando ser chamado para apanhar algum ferido, mas na confusão da briga foi parar bem no centro da desordem,

esforçando-se para segurar seu cavalo. O animal se assustou, empinou e pareceu se dobrar debaixo dele. Rob J. conseguiu saltar para o lado quando o cavalo caiu de

lado no chão e ficou se debatendo e esperneando. Rob viu um buraco sem sangue, do tamanho de uma moeda, no pescoço cor de lama de Pretty Boy e os dois filetes vermelhos

que escorriam das narinas cada vez que ele tentava respirar, escoiceando espasmodicamente na sua agonia.

Rob tinha na bolsa uma seringa com agulha e morfina, mas os opiatos estavam racionados e não podiam ser usados num cavalo. A uns dez metros estava o corpo de um

tenente confederado. Rob foi até ele e tirou o revólver pesado e negro do coldre do jovem. Aproximou-se do feio cavalo, encostou o cano da arma sob a orelha do animal

e puxou o gatilho.

Não dera nem meia dúzia de passos quando sentiu uma dor aguda

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na parte superior do braço esquerdo, como se tivesse sido picado por uma abelha. Deu mais três passos e, então, a terra adubada e escura pareceu se levantar para



recebê-lo. Sua mente estava lúcida. Sabia que tinha desmaiado e que logo ia recuperar as forças, e ficou deitado, admirando com olhos de pintor o sol amarelo-escuro

no céu incrivelmente azul, enquanto os sons à sua volta diminuíam como se tivessem estendido um cobertor sobre o resto do mundo. Por quanto tempo ficou deitado ali,

Rob não sabia. Percebeu que estava perdendo sangue do ferimento no braço e estendeu a mão para apanhar uma compressa e estancar o sangue. Olhou para o lado e viu

sangue no Mee-shome. Rob não resistiu à ironia e começou a rir do ateu que tentara transformar num deus uma sacola de pele de porco com duas alças de couro curtido.

Finalmente, lá estava a equipe de Wilcox. O sargento - feio como Pretty Boy, com os olhos vesgos cheios de afeto e preocupação - disse todas as coisas sem sentido

que Rob J. costumava dizer aos pacientes, numa vã tentativa de confortá-los. Os sulistas, vendo que eram em menor número, já haviam recuado. Havia uma porção de

homens e cavalos mortos, carroças destruídas e equipamento perdido e Wilcox disse a Rob J., com uma cara muito triste, que o fazendeiro ia ter um trabalho dos diabos

para arar de novo um campo tão bonito.

Rob sabia que tivera sorte, que o ferimento não era grave, mas era mais do que um arranhão. A bala não atingiu o osso, mas levou carne e músculo. Coppersmith suturou

parcialmente o ferimento e fez um curativo cuidadoso, aparentemente com grande satisfação.

Rob J. e outros trinta e seis feridos foram levados para um hospital de setor em Fredericksburg, onde permaneceu por dez dias. O hospital estava instalado num armazém

e não era tão limpo quanto devia, mas o oficial-médico encarregado, um major chamado Sparrow, que praticava medicina em Hartford, Connecticut, antes da guerra, era

um homem decente. Rob J. lembrou-se da experiência do Dr. Milton Akerson com ácido clorídrico, em Illinois, e o Dr. Sparrow deixou que ele lavasse o ferimento com

uma solução fraca do ácido, uma vez ou outra. O ácido clorídrico ardia, mas o ferimento começou a cicatrizar muito bem e sem infecção e eles acharam que talvez fosse

bom experimentar em outros pacientes. Rob J. era capaz de flexionar os dedos e mover a mão esquerda, embora sentisse dor. Ele e o Dr. Sparrow concordaram que era

muito cedo ainda para dizer o quanto ele ia recuperar da força e do uso do braço.

O coronel Symonds foi visitá-lo quando Rob estava há uma semana no hospital.

-- Vá para casa, Dr. Cole. Quando ficar bom, se quiser voltar, será bem-vindo - disse ele, mas ambos sabiam que ele não voltaria. Symonds agradeceu um pouco constrangido.

- Se eu sobreviver, e se algum dia

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você passar por Fort Wayne, Indiana, vá me visitar na Fábrica Symonds, vamos comer muita comida boa e beber bastante e conversar sobre os velhos tempos. - Trocaram

um forte aperto de mão e o coronel foi embora.

Rob J. levou três dias e meio para chegar em casa, viajando por cinco diferentes companhias de estrada de ferro, começando com a Baltimore & Ohio Railway. Todos

os trens estavam atrasados, sujos e cheios de passageiros de todos os tipos. Rob estava com o braço na tipóia, mas ele era apenas outro civil de meia-idade e várias

vezes viajou de pé, no meio do vagão balouçante, por mais de oitenta quilômetros. Em Canton, Ohio, esperou meio dia para fazer a baldeação e depois sentou-se ao

lado de um caixeiro-viajante, chamado Harrison, que trabalhava para uma grande firma que vendia pó de tinta para o exército. O homem contou que várias vezes chegara

a ouvir os tiros das batalhas. O homem era uma fonte inesgotável de histórias improváveis, condimentadas com os nomes de militares e políticos importantes, mas Rob

J. não se importou, pois as histórias faziam a viagem passar mais depressa.

A água acabou nos vagões quentes e lotados. Como os outros, Rob J. tomou o que tinha no cantil, e depois agüentou a sede. Finalmente o trem parou numa estação próxima

de um acampamento do exército, fora da cidade de Marion, Ohio, para reabastecer de combustível e apanhar água num regato. Os passageiros desceram para encher as

garrafas e outras vasilhas.

Rob desceu também, mas quando ajoelhou para encher o cantil, alguma coisa chamou sua atenção no outro lado do regato e, enojado, reconheceu logo o que era. Aproximou-se

para certificar-se de que alguém havia jogado curativos usados, ataduras cheias de sangue e todo tipo de lixo de hospital na água limpa do regato. Andou pela margem

e descobriu outros depósitos de lixo. Pôs a tampa no cantil e aconselhou os outros passageiros a fazer o mesmo.

O condutor disse que iam encontrar água limpa em Lima, um pouco adiante, e Rob voltou para seu lugar. Quando o trem partiu, ele estava dormindo.

Ao acordar, soube que já tinham passado por Lima.

- Eu queria apanhar água - disse ele, irritado.

- Não se preocupe - disse Harrison. - Tenho bastante agora - e passou a garrafa. Rob bebeu avidamente, agradecido.

- Tinha muita gente esperando pela água, em Lima? - perguntou, devolvendo a garrafa.

- Oh, eu não apanhei em Lima. Eu enchi a garrafa em Marion, quando paramos para reabastecer - disse o caixeiro-viajante.

O homem empalideceu quando Rob contou o que tinha visto no regato em Marion.

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- Então vamos ficar doentes?

- Não sei. - Certa ocasião, próximo a Gettysburg, ele vira uma companhia inteira beber durante quatro dias água de um poço onde, depois, descobriram os corpos de

dois confederados. Não houve grandes conseqüências ou desconforto. Deu de ombros. - Eu não ficaria surpreso se nós dois tivéssemos diarréia e febre dentro de alguns

dias.


- Não podemos tomar nada?

- Uísque poderia ajudar, se tivéssemos algum.

- Deixa comigo - disse Harrison e saiu apressadamente à procura do condutor. Voltou, sem dúvida com a carteira mais leve e com uma garrafa com mais da metade de

uísque. Depois de experimentar, Rob J. disse que a bebida era bastante forte para fazer o trabalho. Quando se despediram, meio tontos, em South Bend, Indiana, cada

um estava convencido de que o outro era um bom homem e trocaram um caloroso aperto de mãos. Rob estava em Gary quando lembrou-se de que não sabia o primeiro nome

de Harrison.

Ele chegou a Rock Island no frescor do nascer do dia, com o vento soprando do rio. Desceu do trem e caminhou pela cidade, carregando a mala na mão boa. Pretendia

alugar um cavalo e uma charrete, mas encontrou George Cliburne na rua e o comerciante de rações apertou demoradamente a sua mão, bateu nas costas e insistiu em levá-lo

a Holden’s Crossing na sua charrete.




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