Noah Gordon, o xamã



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A chuva continuou. Uma chuva persistente. Na primeira pancada forte, alguns pequenos regatos subiram acima das margens e afogaram muitos homens gravemente feridos.

Agora, estava mais fraca e Rob voltou ao campo de batalha e procurou homens feridos até o começo da noite. Então, parou, porque homens mais jovens e mais fortes

apareceram com lampiões e tochas e porque ele estava exausto.

A Comissão Sanitária instalou uma cozinha no armazém perto do centro de Gettysburg e Rob J. foi até lá para tomar uma sopa com o primeiro pedaço de carne de boi

que comia em meses. Tomou três tigelas cje sopa e comeu seis fatias de pão branco.

Depois, entrou na igreja presbiteriana e caminhou entre os bancos, parando em cada leito improvisado para alguma ajuda simples - um pouco d’água, limpar o suor do

rosto. Quando encontrava um confederado, perguntava.

- Filho, por acaso você conheceu no seu exército um homem de vinte e três anos, cabelos amarelos, de Holden’s Crossing, Illinois, chamado Alex Cole?

Mas ninguém conhecia.

54 ESCARAMUÇAS

Quando a chuva recomeçou, caindo como uma cortina pesada, o general Robert E. Lee reuniu seu exército ensangüentado e claudicou lentamente de volta a Maryland. Meade

não precisava deixá-lo escapar. O exército do Potomac estava também bastante ferido, com mais de vinte e três mil baixas, incluindo os oito mil mortos ou desaparecidos,

mas inebriado com a vitória e muito mais forte do que os homens de Lee, cuja marcha via-se di1 ficultada e retardada pela fila de carroças com feridos, por uma extensão

de 20 quilômetros. Porém, exatamente como Hooker tinha falhado na Virgínia, Meade falhou na Pensilvânia e não perseguiu os sulistas.

- Onde é que Lincoln arranja seus generais? - resmungou Symonds para Rob J.

Porém, se a demora frustrava os coronéis, os soldados estavam contentes por poder descansar e recuperar as forças, e talvez escrever para casa com a notícia extraordinária

de que ainda estavam vivos.

Ordway encontrou Lewis Robinson em um dos hospitais-fazenda. O

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pé direito fora amputado dez centímetros acima do tornozelo. Ele estava magro e pálido, mas seu estado geral parecia bom. Rob J. examinou o local da amputação e



disse a Robinson que estava cicatrizando bem e que o homem que tinha feito a operação conhecia bem seu trabalho. Evidentemente, Robinson estava satisfeito por estar

fora da guerra. O alívio nos seus olhos era intenso, quase palpável. Rob J. pensou que Robinson seria ferido de qualquer modo porque ele pensava nessa possibilidade.

Levou para ele o clarim sopranino, lápis e papel e teve certeza de que ele ia ficar bem, porque ninguém precisa de dois pés para compor música nem para tocar o clarim.

Ordway e Wilcox foram promovidos a sargento. Muitos homens foram promovidos. Symonds estava preenchendo os vazios com os sobreviventes, concedendo postos deixados

livres pelos que tinham morrido. O Indiana 131? teve uma média de dezoito por cento de vítimas, o que era pouco comparado aos outros regimentos. Um regimento de

Minnesota perdeu oitenta e seis por cento dos seus homens. Esse regimento e alguns outros desapareceram por completo. Symonds e seus oficiais passaram vários dias

recrutando sobreviventes dos regimentos desaparecidos, com sucesso, aumentando o número de homens do 131? para 771. Um pouco embaraçado, o coronel disse a Rob J.

que tinha encontrado um cirurgião para o regimento. O Dr. Gardner Coppersmith era capitãomédico de um dos regimentos da Pensilvânia desaparecidos e Symonds o atraiu

com uma promoção. Formado por uma faculdade de medicina da Filadélfia, o Dr. Coppersmith tinha dois anos de experiência de combate.

- Se você não fosse um civil, eu o faria cirurgião do regimento agora mesmo, Dr. Cole - disse Symonds. - Mas o posto exige um oficial. Compreende que o major Coopersmith

vai ser seu superior? Que ele vai dirigir tudo?

Rob J. garantiu que compreendia.

Para Rob J. era uma guerra complicada, num país complicado. Leu no jornal a notícia de uma manifestação de protesto contra o racismo em Nova York, por causa da lista

de nomes dos primeiros convocados para o exército. Uma multidão de cinqüenta mil pessoas, a maioria de trabalhadores irlandeses católicos, pôs fogo no centro de

recrutamento, nos escritórios da Tribune de Nova York e num orfanato negro, felizmente vazio. Aparentemente culpando os negros pela guerra, eles saíram para as ruas,

espancando e roubando todos os negros que encontravam, assassinando e linchando negros durante vários dias, antes de serem contidos pelo exército, recém-chegado

da vitória sobre os sulistas, em Gettysburg.

A reportagem agrediu a mente de Rob J. Protestantes nascidos no país odiavam e oprimiam os católicos e imigrantes e os católicos e

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imigrantes desprezavam e assassinavam negros, como se cada grupo se alimentasse só de ódio, precisando devorar a medula dos mais fracos para sobreviver.



Quando estava se preparando para a cidadania, Rob J. estudou a Constituição e ficou maravilhado com o que ela determinava. Agora compreendia que o génio dos que

a tinham idealizado e escrito consistia na previsão das fraquezas de caráter dos homens e da contínua presença do mal no mundo, e por isso tinham procurado fazer

da liberdade individual a realidade legal para onde o país teria de voltar constantemente.

O mistério que levava os homens a se odiarem o fascinava e ele observava Lennie Ordway atentamente, como se o sargento manco fosse um inseto no seu microscópio.

Se Ordway não desse vazão ao seu ódio uma vez ou outra, como uma chaleira deixando escapar vapor, e se Rob J. não soubesse que um crime terrível e impune fora cometido

há dez anos nos seus próprios bosques, em Illinois, ele acharia que Ordway era um dos homens mais agradáveis do regimento. Agora ele via o pequeno padioleiro crescer

e desabrochar, provavelmente porque as experiências da guerra representavam o sucesso que jamais havia alcançado antes.

Uma aura de sucesso pairava sobre o regimento. A Banda do Regimento 131?, com muito garbo e entusiasmo, ia de hospital em hospital, dando concertos para os feridos.

O novo tocador de tuba não era tão bom quanto Thad Bushman, mas os músicos tocavam com orgulho, porque tinham demonstrado seu valor na batalha.

- Passamos juntos pelo pior - anunciou Wilcox, solenemente certa noite, depois de beber demais, olhando para Rob J. com ferocidade nos olhos vesgos. - Entramos nas

mandíbulas da morte e saímos, e dançamos por todo o Vale das Sombras. Olhamos bem dentro dos olhos da terrível criatura. Ouvimos o grito dos rebeldes e gritamos

em resposta.

Os homens tratavam uns aos outros com muito carinho. O sargento Ordway e o sargento Wilcox e até mesmo o desleixado cabo Perry eram homenageados porque conduziram

seus companheiros músicos na tarefa de apanhar os soldados feridos sob o fogo cerrado e levá-los para lugar seguro. A história da maratona de dois dias de Rob J.

com o bisturi era repetida em todas as barracas, e os homens sabiam que ele era o responsável pelo serviço de ambulância do regimento. Agora sorriam calorosamente

para ele e ninguém mais falava nas privadas.

Essa nova popularidade o agradava extremamente. Um dos soldados da Companhia B, Segunda Brigada, um homem chamado Lyon, chegou até a levar um cavalo para ele.

- Encontrei o animal andando sem cavaleiro, no lado da estrada. Pensei logo no senhor, doutor - disse Lyon, entregando as rédeas para Rob.

Embora embaraçado, Rob ficou feliz com essa prova de afeição. Na verdade, o cavalo cor-de-barro não era grande coisa, magro e com as costas curvas. Provavelmente

pertencia a um soldado rebelde ferido ou morto,

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porque tanto o animal quanto a sela manchada de sangue tinham gravada a marca CSA. A cabeça e a cauda pendiam sempre para baixo, os olhos eram opacos, e a crina



e os pêlos da cauda estavam cheios de carrapichos. Parecia um cavalo com vermes intestinais.

- Ora, soldado, ele é uma beleza! - disse Rob J. - Eu nem sei como agradecer.

- Acho que quarenta e dois dólares é um preço justo - disse Lyon. Rob J. riu, mais divertido com sua própria carência de afeto do que

com a situação. Depois de muita pechincha, ficou com o cavalo por 4,85 dólares e a promessa de que não ia acusar Lyon de saqueador de campo de batalha.

Rob alimentou bem o animal, tirou pacientemente os carrapichos da cauda e da crina, lavou o sangue da sela e passou óleo onde o couro da sela havia irritado as costas

do cavalo, depois escovou o pêlo escuro. Depois disso tudo, ele continuava a ser um cavalo de triste figura, por isso Rob J. o chamou de Pretty Boy, com esperança

de que o nome desse a ele um pouco de prazer e auto-estima.

Estava montado em Pretty Boy, quando o Indiana 131? marchou para fora da Pensilvânia, no dia 17 de agosto. A cabeça e a cauda de Pretty Boy continuavam caídas, mas

ele se movia com o passo fácil e regular do animal acostumado a longas viagens. Se alguém no regimento não sabia ao certo para onde estavam indo, a dúvida desapareceu

quando o chefe da banda, Warren Fitts, tocou o apito, ergueu o queixo e a banda começou a tocar “Maryland, my Maryland”.

O 131? voltou a cruzar o Potomac seis semanas depois das tropas de Lee e um mês depois das primeiras unidades do exército da União. Eles pegaram o final do verão

do sul e o outono suave e sedutor só os alcançou quando já haviam entrado na Virgínia. Eram todos veteranos, formados em micuim e com batismo de fogo, mas quase

toda a ação da guerra desenrolava-se agora no teatro do oeste, e para o 131? Indiana, tudo parecia calmo. O exército de Lee seguiu pelo Vale do Shenandoah, onde

os batedores da União o observaram e relataram que se encontravam em boas condições, exceto pela evidente falta de suprimentos, especialmente de sapatos decentes.

O céu da Virgínia estava escuro com as chuvas de outono quando entraram em Rappahannock e encontraram sinais de que os confederados tinham acampado ali há relativamente

pouco tempo. Ignorando as objeções de Rob J., armaram suas barracas exatamente onde os rebeldes haviam acampado. O major Coppersmith era um médico educado e competente,

mas achou que não precisavam se preocupar com um pouco de fezes e não obrigou ninguém a cavar fossas para as privadas. Sem se preocupar em ser delicado, informou

Rob J. de que estava longe o tempo em que o cirurgião assistente podia determinar as providências de ordem

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médica do regimento. O major gostava de atender a fila de doentes sozinho, sem assistentes, exceto nos dias em que não se sentia bem, o que era raro. E ele disse



que a não ser que tivessem outra batalha igual à de Gettysburg, ele e um soldado podiam tratar dos curativos no posto médico. Rob disse com um sorriso.

- O que sobra então para mim?

O major Coppersmith franziu a testa e alisou o bigode com o dedo indicador.

- Bem, eu gostaria que cuidasse dos padioleiros, Dr. Cole - disse ele.

Assim, Rob J. viu-se nas garras do monstro que havia criado, preso na teia tecida por ele próprio. Não tinha nenhuma vontade de se juntar aos padioleiros, mas uma

vez que eles eram agora sua tarefa principal, parecia tolice pensar que ia simplesmente mandar os homens apanhar os feridos e ficar olhando o que acontecia com eles.

Recrutou sua equipe particular de dois músicos - o novo tocador de tuba, Alan Johnson, e um flautista chamado Lucius Wagner - para completar, requisitou o cabo Amasa

Decker, o carteiro do regimento. As equipes de padioleiros revezavam-se nas saídas. Ele disse aos novos, como tinha dito aos cinco primeiros (um morto e o outro

sem o pé), que apanhar feridos no campo de batalha não era mais perigoso do que qualquer outra coisa ligada à guerra. Garantiu a si mesmo que tudo ia dar certo e

incluiu sua pequena equipe no rodízio.

O 131? primeiro e depois muitas unidades do exército do Potomac seguiram o rastro dos confederados ao longo do rio Rappahannock até seu maior tributário, o Rapidan,

marchando ao lado das águas que refletiam o céu cinzento, dia após dia. Lee tinha a desvantagem do número de homens e da falta de suprimentos e mantinha-se à frente

dos federais. As coisas continuavam nesse pé na Virgínia até que a guerra na frente do oeste começou a ir mal para a União. Os confederados do general Braxton Bragg

infligiram uma terrível derrota às forças da União do general William S. Rosecrans em Chicamauga Creek, perto de Chatanooga, com mais de dezesseis mil baixas entre

os federais. Lincoln convocou seu ministério para uma reunião de emergência e resolveram transferir as divisões do general Hooker, do exército do Potomac, para o

Alabama, por estrada de ferro, para dar apoio a Rosecrans.

Com o exército de Meade privado de duas divisões, Lee parou de fugir. Dividiu seu exército em duas partes e tentou atacar os flancos de Meade, movendo-se para oeste

e para o norte, na direção de Manassas e Washington. Assim começou a guerra de escaramuças.

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Meade teve o cuidado de se manter entre Lee e Washington, e o exército da União recuava dois ou três quilômetros de cada vez, até chegar a 60 quilômetros do ataque



dos sulistas, com escaramuças esporádicas.

Rob J. observou que cada um dos padioleiros encarava aquela tarefa de modo diferente. Wilcox ia para o homem ferido com obstinada determinação, ao passo que Ordway

demonstrava uma bravura quase inconsciente, adiantando-se como um grande e rápido caranguejo, com seu andar claudicante, e carregando a vítima com cuidado, segurando

sua ponta da padiola bem alto e com mão firme, compensando com a força dos músculos do braço o defeito da perna. Rob J. teve várias semanas para pensar na sua primeira

incursão, antes de chegar a sua vez. O problema era que tinha tanta imaginação quanto Robinson, talvez até mais. Era capaz de pensar em ser ferido das formas mais

variadas e em circunstâncias as mais diversas. Na barraca, à luz do lampião, fez uma porção de desenhos no diário, mostrando a equipe de Wilcox correndo para os

feridos, três homens inclinados para se proteger de uma rajada de balas, o quarto carregando a padiola na frente dele, enquanto corria, como um escudo precário.

Desenhou Ordway voltando, carregando o canto traseiro direito da padiola, os outros três com os rostos tensos e olhos assustados e os lábios de Ordway recurvados

num rito que era um misto de sorriso e de arreganho, um homem sem nenhum valor que, de repente, descobriu uma coisa que podia fazer bem. O que Ordway ia fazer, pensou

Rob J., quando a guerra terminasse e ele não pudesse mais apanhar feridos sob o fogo do inimigo?

Rob J. desenhou a sua equipe. Ainda não tinham saído nem uma vez.

Saíram finalmente no dia 7 de novembro. O Indiana 131? foi enviado para a outra margem do Rappahannock, para perto de um lugar chamado Kelly’s Ford. O regimento

atravessou o rio no meio da manhã e logo foi detido por intenso fogo inimigo, e em dez minutos, os homens da ambulância foram avisados de que alguém estava ferido.

Rob J. e seus três padioleiros seguiram para um campo de feno na margem do rio onde uma meia dúzia de homens, abrigados atrás de um muro de pedra coberto de hera,

atiravam na direção do bosque. Durante todo o tempo que levaram para chegar até o muro, Rob J. esperava o impacto de uma bala no seu corpo. O ar parecia espesso

demais para passar por suas narinas. Era como se ele tivesse de forçar a passagem para os pulmões por meio da força bruta e suas pernas pareciam se movimentar lentamente.

O soldado fora ferido no ombro. A bala precisava ser retirada, mas não sob fogo. Rob J. retirou um curativo do seu Mee-shome e o prendeu com as ataduras sobre o

ferimento, certificando-se de que a hemorragia estava sob controle. Então, puseram o soldado na padiola e começaram a voltar rapidamente. Rob J. tinha consciência

do enorme alvo que eram suas costas carregando a parte de trás da padiola. Ouvia cada tiro e o som das balas que passavam assobiando através do mato alto, enfiando-se

na terra com um baque surdo bem perto deles.

Amasa Decker rosnou, no outro lado da padiola.

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- Você foi ferido? - perguntou Rob J., ansioso.

- Não.


Eles continuaram quase correndo com sua carga e depois de uma eternidade chegaram ao pequeno desfiladeiro onde o Dr. Coppersmith havia instalado o posto médico.

Depois de entregar o ferido para o cirurgião, os quatro padioleiros deitaram na relva macia como peixes recém-pescados.

- Aquelas miniés pareciam abelhas - disse Lucius Wagner.

- Pensei que a gente ia morrer - disse Amasa Decker. - O senhor não pensou, doutor?

- Eu estava com medo, mas achei que tinha alguma proteção - Rob J. mostrou o Mee-shome e disse que as tiras que o prendiam, os izze, o protegiam de balas, de acordo

com a promessa dos sauks. Decker e Wagner ouviram muito sérios, Johnson com um leve sorriso.

Naquela tarde o tiroteio quase cessou. Os dois lados estavam empatados até o fim do dia, quando duas brigadas da União atravessaram o rio e passaram rapidamente

pelo 131 ? no único ataque de baioneta que Rob presenciou durante toda a guerra. A infantaria do 131? calou baioneta e reforçou o ataque feroz e de surpresa. A União

saiu vitoriosa e matou e capturou milhares de confederados. As perdas dos nortistas foram pequenas, mas Rob J. e seus padioleiros saíram mais umas seis vezes para

apanhar feridos quase ao cair da noite. Os três soldados estavam convencidos de que o Dr. Cole e sua sacola de medicina Injun fazia deles um grupo de sorte, e quando

voltaram a salvo pela sétima vez, Rob J. acreditava no poder do Mee-shome tanto quanto eles.

Naquela noite, na barraca, depois de tratar dos feridos, Gardner Coppersmith olhou para Rob com os olhos brilhantes.

- Um glorioso ataque de baioneta, não foi, Cole? Rob J. pensou por um momento.

- Mais uma carnificina do que uma glória - disse ele, muito cansado.

O cirurgião do regimento olhou para ele com desprezo.

- Se pensa assim, por que diabo está aqui?

- Porque é aqui que estão os feridos - disse Rob J.

Porém, já pelo final do ano, ele estava resolvido a deixar o 131? Indiana. Era ali que estavam os feridos; ele procurou o exército para proporcionar bons cuidados

médicos aos homens e o major Coppersmith não o deixava fazer isso. Percebeu que era um desperdício um cirurgião experiente fazer um pouco mais do que carregar padiolas

e não fazia sentido um ateu viver como se estivesse procurando o martírio ou a santidade. Pretendia voltar para casa quando expirasse seu contrato, na primeira semana

de 1864.

A véspera de Natal foi um dia estranho, triste e comovente. Foram

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realizados serviços religiosos na frente das barracas. De um lado do Rappahannock, os músicos do 131? Indiana tocavam o “Adeste Fidelis”. Quando terminaram, uma



banda dos confederados, na outra margem, tocou “God Rest Ye, Merry Gentlemen”. A música flutuou sobre as águas escuras do rio e logo em seguida começaram a tocar

“Silent Night”. O chefe da banda, Fitts, ergueu sua batuta e os músicos da União e os confederados tocaram juntos, os homens, nos dois lados do rio, cantando em

coro. Podiam avistar as fogueiras do inimigo.

E foi na verdade uma noite silenciosa, sem nenhum tiroteio. Não tiveram o peru festivo do Natal para jantar mas o exército forneceu uma sopa muito aceitável com

alguma coisa dentro que podia ser carne de boi, e cada soldado do regimento recebeu uma porção de uísque. Podia ter sido um erro, porque despertou a sede de muitos.

Depois do concerto, Rob J. encontrou Wilcox e Ordway cambaleando, de volta da margem do rio onde tinham acabado com um garrafão de bebida. Wilcox segurava Ordway,

mas não parecia mais sóbrio.

- Vá dormir, Abner - disse Rob J. - Eu levo este para a barraca.

Wilcox obedeceu e se afastou, mas Rob não fez o que tinha prometido. Levou Ordway para longe das barracas e o fez sentar encostado numa pedra.

- Lanny - disse ele - Lan, garoto. Vamos conversar, só nós dois. Ordway o examinou com os olhos semicerrados de bêbado.

- ... Feliz Natal, doutor.

- Feliz Natal, Lanny. Vamos falar sobre a Ordem da Bandeira de Estrelas e Listras - disse Rob J.

Assim, ele resolveu que o uísque era a chave de tudo que Lanning Ordway sabia.

No dia 3 de janeiro, quando o coronel Symonds chegou com outro contrato, Rob J. observava Ordway que estava arrumando a mochila com ataduras limpas e comprimidos

de morfina. Rob J. hesitou apenas um momento, sem tirar os olhos de Ordway. Então assinou o contrato para mais três meses com o exército.

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‘QUANDO FOI QUE VOCÊ CONHECEU ELLWOOD R. PATTERSON?”

Rob J. achou que fora muito sutil, muito discreto no interrogatório do embriagado Ordway, na véspera de Natal. O interrogatório confirmou sua idéia do homem e da

SOBEL.


Sentado, com as costas apoiadas no poste da barraca, e o diário sobre os joelhos dobrados, ele escreveu o seguinte.

Lanning Ordway começou a freqüentar as reuniões do partido americano em Vincennes, Indiana, “cinco anos antes de ter idade para votar”.

(Ele me perguntou onde eu tinha entrado para o partido e eu disse Boston.)

Foi levado à primeira reunião pelo pai, “porque ele queria que eu fosse um bom americano”. O pai, Nathanael Ordway, trabalhava numa fábrica de vassouras. As reuniões

se realizavam no segundo andar, em cima de uma taverna. Eles entravam pela porta da frente da taverna, saíam pelos fundos, subiam uma escada. Seu pai batia o sinal

da porta. Ele lembra que o pai sempre ficava orgulhoso quando “o Guardião do Portão” olhava pela portinhola e os deixava entrar “porque nós éramos boa gente”.

Depois de um ano mais ou menos, quando o pai estava bêbado ou doente, Lanning às vezes ia sozinho às reuniões. Quando Nathanael Ordway morreu (“de bebida e pleurisia”).

Lanning foi para Chicago trabalhar num bar ao lado do pátio da estrada de ferro, na rua Galena, onde um primo do seu pai vendia uísque. Ele limpava a sujeira dos

bêbados, trocava a serragem do chão todas as manhãs, lavava os grandes espelhos, dava polimento ao corrimão de cobre - tudo que precisava ser feito no bar.

Era natural que ele procurasse uma filial dos Não Sabem de Nada em Chicago. Era o mesmo que fazer contato com a família, porque tinha mais em comum com o pessoal

do partido americano do que com o primo do pai. O partido trabalhava para eleger somente homens públicos que dessem emprego aos nativos da América, em detrimento

dos imigrantes. A despeito do seu defeito na perna (falando com ele e observando-o, concluí que ele nasceu com uma das cavidades ósseas do

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quadril muito rasa), os membros do partido começaram a chamá-lo quando precisavam de alguém bastante jovem para uma tarefa importante mas com idade suficiente para



manter a boca fechada.

Foi com grande orgulho que, depois de uns dois anos, ao completar dezessete anos foi admitido na Suprema Ordem da Bandeira de Estrelas e Listras. Deixou transparecer

que ficou também esperançoso, porque achava que um pobre e aleijado jovem americano nato precisava estar ligado a uma organização poderosa para ser alguma coisa

na vida, “pois os estrangeiros católicos romanos estão dispostos a tomar todos os empregos dos americanos para ganhar uma ninharia”.

A ordem “fazia coisas que o partido não podia fazer”. Quando perguntei a Ordway o que ele fazia para a ordem, ele respondeu, “uma coisa e outra. Viajava, para lá




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