Noah Gordon, o xamã


parte que estava enfiada na pele fazia o mesmo estrago que o inseto inteiro. No terceiro dia, todos os soldados estavam se coçando e praguejando



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muito fina, e a parte que estava enfiada na pele fazia o mesmo estrago que o inseto inteiro. No terceiro dia, todos os soldados estavam se coçando e praguejando

e algumas das erupções começavam a inflamar no calor úmido. Tudo que Rob J. podia fazer era vaporizar enxofre sobre os insetos enfiados na pele, mas alguns homens

já conheciam os micuins e ensinaram aos outros o truque de encostar um graveto ou um charuto aceso bem perto da pele, até o micuim começar a se soltar, atraído pelo

calor. Então ele podia ser apanhado e puxado lenta e cuidadosamente para não partir. Em todo o acampamento os homens retiravam micuins uns dos outros, e Rob J. lembrou

dos macacos que tinha visto, uns catando os outros, no zoológico de Edimburgo.

O incômodo dos micuins não amenizou o medo. Ficavam mais apreensivos à medida que se aproximavam de Fredericksburg, cena da derrota e carnificina dos ianques em

outra batalha. Mas quando chegaram, viram apenas o azul da União, pois Robert E. Lee e seus homens haviam se retirado silenciosa e discretamente na noite anterior

e seu exército da Virgínia do Norte dirigia-se para o norte. A cavalaria da União acompanhava o progresso dos homens de Lee, mas o exército do Potomac não os perseguia,

por motivos só conhecidos pelo general Hooker.

Acamparam por seis dias em Fredericksburg, para descansar, tratar das bolhas nos pés, retirar micuins, limpar e lubrificar as armas. Quando

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estavam de folga, em pequenos grupos, escalavam a pequena colina onde, há apenas seis meses, quase treze mil homens da União tinham sido mortos ou feridos. Olhando

para baixo e vendo os alvos fáceis que eram os companheiros que subiam atrás deles, ficavam felizes por Lee ter partido antes da sua chegada.

Symonds recebeu novas ordens e eles seguiram para o norte outra vez. Marchavam pela estrada poeirenta quando souberam que Winchester, a cidade onde havia desembarcado,

fora duramente atacada pelos confederados, sob o comando do general Richard S. Ewell. Outra vitória dos rebeldes - noventa homens da União foram mortos, 348 feridos

e mais de quatro mil estavam desaparecidos ou foram feitos prisioneiros.

No banco desconfortável da ambulância, na pequena estrada pacífica que atravessava o campo, Rob J. não se permitiu pensar em combate, do mesmo modo que, quando era

pequeno, não se permitia pensar na morte. Por que as pessoas tinham de morrer? Não fazia sentido, uma vez que viver era mais agradável. E por que as pessoas tinham

de lutar nas guerras? Era mais agradável viajar sonolentamente naquela estrada sinuosa e banhada de sol do que se empenhar em batalhas para matar ou morrer.

Mas, assim como a descrença do pequeno Rob J. terminou com a morte do seu pai, a realidade do presente o dominou quando chegaram a Fairfax Courthouse e ele viu o

que a Bíblia queria dizer quando definia um grande exército como uma hoste.

Acamparam em seis campos, numa fazenda, entre a artilharia e a cavalaria e outro regimento de infantaria. Rob J. via soldados da União por toda a parte. O fluxo

era constante, homens chegavam e partiam. No dia seguinte ao da chegada do 131? souberam que o exército de Lee da Virgínia do Norte invadira o norte, cruzando o

rio Potomac e entrando em Maryland. Assim que Lee fez o primeiro movimento, Hooker movimentou-se também, enviando, com certo atraso, as primeiras unidades do seu

exército para o norte, procurando se posicionar entre Lee e Washington. Quarenta horas depois, o 131? retomou sua marcha para o norte.

Os dois exércitos eram numerosos e achavam-se espalhados demais para se deslocarem rápida e completamente. Uma parte das forças de Lee encontrava-se ainda na Virgínia,

marchando para atravessar o rio e juntar-se ao seu comandante. Os dois exércitos eram como monstros pulsantes e informes, que dilatavam-se e se contraíam, sempre

em movimento, às vezes um ao lado do outro. Quando as bordas das grandes massas se tocavam, havia escaramuças, como uma explosão de fagulhas - em Upperville, Haymarket,

Aldie e em mais uma dezena de lugares. O Indiana 131, não teve nenhuma prova concreta de luta, a não ser certa noite, quando os piquetes trocaram alguns tiros ineficientes

com homens a cavalo, que fugiram rapidamente.

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Os homens do 131? cruzaram o Potomac à noite, em pequenos botes, no dia 27 de junho. Na manhã seguinte, retomaram a marcha para o norte e a banda de Fitts marcou

o passo, tocando “Maryland, my Maryland”. Às vezes, quando eles passavam, uma ou outra pessoa acenava, mas em Maryland os civis não se impressionavam, pois há dias

viam soldados em marcha para o norte. Rob J. e os soldados logo ficaram fartos do hino do Estado de Maryland, mas a banda continuava a tocar quando passaram por

belos campos cultivados e entraram na cidade seguinte.

- Que parte de Maryland é esta? - Ordway perguntou a Rob J.

- Não sei. - Passavam por um velho que, sentado num banco, observava os soldados. - Senhor - gritou Rob J. - como se chama este belo lugar?

O elogio aparentemente deixou o velho surpreso.

- Nossa cidade? Esta cidade é Gettysburg, Pensilvânia.

Os homens do 131? Indiana não sabiam, mas no dia em que entraram na Pensilvânia, há vinte e quatro horas portanto, estavam sob o comando de um novo general. O general

George Meade fora designado para substituir o General Joe Hooker, que pagou o preço da sua demora em sair em perseguição dos confederados.

Atravessaram a pequena cidade e marcharam pela estrada de Taneytown. O exército da União estava reunido ao sul de Gettysburg e Symonds deu ordem de parada num prado

imenso, onde podiam acampar. O ar estava pesado e quente, repleto de umidade e temerosa coragem. Os homens do 131? falavam sobre o grito de guerra dos rebeldes.

Não o ouviram quando estavam no Tennessee, mas ouviram muitas histórias e muitas imitações. Imaginavam se iam ouvi-lo nos próximos dias.

O coronel Symonds sabia que o trabalho era a melhor coisa para os nervos, por isso organizou equipes e mandou cavar trincheiras rasas atrás das grandes pedras que

podiam ser usadas como escudos. Naquela noite dormiram ao som do canto dos pássaros e o cricrilar dos grilos e, na manhã seguinte, acordaram para mais um pouco de

ar quente e pesado e o som de tiroteios repetidos alguns quilômetros a noroeste, na direção de Chambersburg Pike.

Às onze horas da manhã, o coronel Symonds recebeu novas ordens e o 131? marchou quinhentos metros numa colina arborizada até um prado a leste da estrada de Emmitsburg.

A prova de que a nova posição estava mais próxima do inimigo foi a descoberta sinistra de seis soldados da União que pareciam dormir no meio do campo. Os seis observadores

avançados mortos estavam descalços. Os sulistas, mal calçados, haviam roubado suas botas.

Symonds deu ordem para cavarem trincheiras da altura do peito dos homens e designou outros observadores avançados. A pedido de Rob J. uma pequena cabana de troncos

de árvore foi erguida na entrada do bosque

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e coberta com galhos para fazer sombra, e do lado de fora desse abrigo rústico, Rob instalou sua mesa de cirurgia.

Mensageiros chegaram com a notícia do primeiro confronto entre as duas cavalarias. Com o passar das horas, o ruído da batalha crescia ao norte da posição do 131?,

um pipocar constante e rouco de mosquetes, como o latido de milhares de cães furiosos, acompanhado pelo infindável e trovejante som do canhão. Cada leve movimento

do ar pesado parecia agredir os rostos dos homens. No começo da tarde, o 131? mudou de posição pela terceira vez naquele dia e marchou para a cidade e para o som da luta, para o relâmpago do canhão e as nuvens

de fumaça cinzenta. Rob J. conhecia quase todos os homens e sabia que muitos ansiavam por um ferimento leve, um arranhão, que deixasse uma cicatriz para que o pessoal

em casa visse o quanto tinham sofrido pela valorosa vitória. Mas agora moviam-se para onde homens estavam sendo mortos. Atravessaram a cidade e, quando começaram

a subir uma colina, foram envolvidos pelos sons que até então pareciam distantes. Vários obuses de artilharia assobiaram acima das suas cabeças e eles passaram pela

infantaria nas trincheiras e por quatro baterias de canhões atirando. No topo, receberam ordem para tomar suas posições. Estavam no meio de um cemitério que dava

o nome à colina, Cemetery Hill.

Rob J. estava instalando seu posto médico atrás de um imponente mausoléu que oferecia proteção e um pouco de sombra, quando um coronel chegou ofegante, procurando

o oficial-médico. Identificou-se como coronel Martin Nichols, do Departamento de Medicina, e disse que era encarregado da organização dos serviços médicos.

- Tem experiência em cirurgia? - perguntou ele. Não era hora para modéstia.

- Sim, tenho. Muita experiência - disse Rob J.

- Então, preciso de você no hospital, onde feridos graves estão sendo encaminhados para a cirurgia.

- Se não se importa, coronel, quero ficar com este regimento.

- Eu me importo, doutor. Eu me importo. Tenho alguns bons cirurgiões, mas também alguns jovens médicos inexperientes fazendo cirurgia vital e do pior modo possível.

Estão amputando membros sem deixar pele suficiente para fechar a parte restante e muitos deles estão deixando uma boa porção do osso descoberto. Estão fazendo experiências

que bons cirurgiões jamais fariam - ressecção da cabeça do úmero, desarticulação da junta do quadril, desarticulação do ombro. Criando aleijados sem necessidade

e pacientes que vão acordar todas as manhãs gritando de dor, pelo resto da vida. Você substitui um desses supostos cirurgiões e eu o mando aqui para cima para fazer

curativos nos feridos.

Rob J. assentiu com um gesto. Deixou Ordway encarregado do posto até o outro médico chegar e desceu a colina com o coronel Nichols.

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O hospital ficava na cidade, na igreja católica dedicada a São Francisco. Precisava não esquecer de dizer isso a Míriam Feroz. Havia uma mesa de cirurgia na entrada,

com as portas duplas completamente abertas para dar ao cirurgião o máximo de luz. Os bancos da igreja estavam cobertos por tábuas com esteiras e cobertores para

os feridos. Num quartinho úmido do porão, iluminado pela luz amarela de lampiões, havia mais duas mesas, e Rob J. escolheu uma delas. Tirou o casaco, arregaçou as

mangas ao máximo, enquanto um cabo da Primeira Divisão de Cavalaria administrava o clorofórmio a um soldado que tivera a mão arrancada por uma bala de canhão. Assim

que a anestesia fez efeito, Rob J. amputou o braço um pouco acima do pulso, deixando um bom pedaço de pele para rematar a incisão.

- O seguinte! - gritou ele.

Outro ferido foi levado para a mesa e Rob J. entregou-se completamente ao trabalho.

O porão tinha mais ou menos 6 por 12 metros. Outro cirurgião trabalhava na segunda mesa, mas ele e Rob J. raramente erguiam os olhos e tinham pouco para dizer. Durante

a tarde, cada um dos cirurgiões teve oportunidade de notar que o outro estava fazendo um bom trabalho. Rob J. retirou balas e pedaços de metal, pôs no lugar intestinos

eviscerados, suturou ferimentos e amputou. E amputou. A bala minié era um projétil de movimento lento, com alto poder destrutivo, especialmente quando atingia um

osso. Nos casos de destruição de grandes partes do osso, tudo que o cirurgião podia fazer era amputar o membro atingido. No chão de terra entre Rob J. e o outro

cirurgião erguia-se uma pilha de braços e pernas. De tempos em tempos, soldados entravam e levavam embora os membros amputados.

Depois de quatro ou cinco horas, outro coronel, com farda cinzenta, entrou na pequena sala do porão e disse aos dois médicos que eles eram seus prisioneiros.

- Somos melhores soldados do que vocês, tomamos toda a cidade. Seus homens recuaram para o norte, e capturamos quatro mil soldados.

Não havia muito o que dizer. O outro cirurgião olhou para Rob J. e deu de ombros. Rob estava operando e disse ao coronel que ele estava na frente da luz.

Sempre que havia um pequeno intervalo, ele tentava cochilar por alguns minutos, de pé. Mas os intervalos eram raros. Os exércitos combatentes dormiram durante a

noite, mas os médicos trabalharam sem parar, tentando salvar homens que os exércitos tinham despedaçado. A sala não possuía janelas e os lampiões ficavam no máximo.

Logo Rob J. perdeu a noção do tempo.

- O seguinte - disse ele.

- O seguinte! O seguinte! O seguinte!

Era como limpar as estrebarias de Augias, porque, assim que terminava com um ferido, outro entrava. Alguns vestiam fardas azuis cheias

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de sangue, outros, fardas cinzentas, cheias de sangue, logo Rob compreendeu que o suprimento era enorme e inesgotável.

Porém, havia coisas que não eram inesgotáveis. Terminaram os curativos e a comida do hospital na igreja. O coronel que dissera que os sulistas eram melhores soldados

voltou para comunicar que o sul não tinha clorofórmio nem éter.

- Vocês não podem pôr sapatos nos pés deles, nem dar anestesia para a dor. É por isso que, no fim, vão perder esta guerra - disse Rob J., aborrecido, e mandou o

oficial requisitar toda a bebida que pudesse encontrar. O coronel saiu e mandou um soldado com uísque para os feridos e sopa quente de pombo para os médicos, que

Rob J. tomou quase de um gole, sem sentir o sabor.

Sem anestesia, Rob mandou chamar alguns homens fortes para segurar os feridos e passou a operar como quando era jovem, cortando, serrando, suturando rápida e habilmente,

como William Fergusson havia ensinado. Suas vítimas gritavam e se debatiam. Rob J. não bocejou nem uma vez e, embora piscasse muito os olhos, eles permaneceram abertos.

Sentia os pés e os tornozelos doloridos e inchados e, às vezes, quando estavam levando um ferido para trazer outro, ele esfregava a mão direita com a esquerda. Cada

caso era diferente, mas era limitado o número de modos para destruir um ser humano, assim, logo se tornaram iguais, um duplicata do outro, mesmo os que chegavam

com a boca destruída, sem os órgãos genitais ou sem os olhos.

As horas passavam, uma a uma.

Rob tinha a impressão de ter passado a maior parte da sua vida naquele quartinho úmido cortando seres humanos, e que estava condenado a ficar ali para sempre. Mas,

finalmente, ouviram ruídos diferentes. As pessoas na igreja-hospital estavam acostumadas a gritos e gemidos, ao troar dos canhões e ao pipocar dos mosquetes, ao

silvo dos obuses e até com o tremor e o abalo dos tiros que quase acertavam o hospital. Mas o tiroteio e o canhoneio chegaram a um crescendo, a uma frenética e incessante

explosão de fogo que durou várias horas, e de repente um silêncio, e todos na igreja conseguiam ouvir o que estavam dizendo. Então o novo som, um rugido que se ergueu

e rolou como um oceano inteiro. Rob J. mandou um ajudante confederado subir para ver o que era e o homem voltou e disse com voz entrecortada que eram os malditos

miseráveis bandidos dos ianques comemorando, isso é que era.

Lanning Ordway apareceu algumas horas mais tarde e o encontrou ainda no quartinho do porão.

- Doutor, meu Deus, doutor, venha comigo.

Ordway disse que Rob estava ali há quase dois dias, e informou aonde o 131? estava acampado. E Rob J. deixou que Meu Bom Camarada e Meu Terrível Inimigo o levasse

para um quarto de depósito onde lhe arrumariam uma cama limpa e macia no feno para deitar e dormir.

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Quase no fim da tarde do dia seguinte, Rob J. acordou com os gemidos e os gritos dos feridos que tinham posto em volta dele, no chão do quarto de depósito. Outros



cirurgiões estavam trabalhando nas mesas, e iam muito bem sem a sua ajuda. Não adiantava tentar a privada da igreja, há muito tempo sobrecarregada. Saiu para a chuva

forte e para o vento e aliviou a bexiga na terra molhada, atrás dos arbustos de lilás que pertenciam outra vez à União.

A União era outra vez dona de toda Gettysburg. Rob J. caminhou na chuva, olhando em volta. Esqueceu onde Ordway tinha dito que estava o 131? e começou a perguntar

a todos que encontrava. Finalmente os encontrou, espalhados por vários campos cultivados, ao sul da cidade, dentro das barracas.

Wilcox e Ordway o receberam com um calor que o emocionou. Eles tinham ovos! Enquanto Lanning Ordway amassava as bolachas duras e fritava as migalhas com ovos, em

gordura de porco, para o café do doutor, os dois contaram o que tinha acontecido. Primeiro a parte ruim. O melhor clarinete da banda, Thad Bushman, estava morto.

- Um buraquinho no peito, doutor - disse Wilcox. - Deve ter acertado bem no lugar.

Dos padioleiros, Lew Robinson foi o primeiro a ser ferido.

- Levou um tiro no pé, logo depois que o senhor foi embora - disse Ordway. - Oscar Lawrence foi quase cortado em dois pela artilharia, ontem.

Ordway terminou de fazer os ovos e pôs a frigideira na frente de Rob J., que estava pensando, com piedade genuína, no desajeitado e jovem tambor. Mas não resistiu

à comida e começou a comer com sofreguidão.

- Oscar era tão jovem. Devia estar em casa com a mãe - disse Wilcox, com amargura.

Rob J. queimou a boca com o café muito preto, que era horrível mas caiu bem.

- Nós todos devíamos estar em casa com nossas mães - disse ele com um arroto. Terminou de comer os ovos mais devagar e tomou outra xícara de café, enquanto eles

contavam o que mais tinha acontecido quando ele estava no porão da igreja.

- Naquele primeiro dia, eles nos fizeram recuar para as montanhas, ao norte da cidade - disse Ordway. - Foi a melhor coisa que nos aconteceu.

- No dia seguinte, estávamos em Cemetery Ridge, numa longa linha de escaramuças entre as montanhas, Cemetery Hill e Culp’s Hill ao norte, mais perto da cidade, e

Round Top e Little Round Top, alguns quilômetros ao sul. A luta foi terrível, terrível. Muitos foram mortos. Ficamos ocupados o tempo todo, carregando os feridos.

- E trabalhamos muito bem - disse Wilcox. - Exatamente como o senhor ensinou.

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- Aposto que sim.

- No dia seguinte, o 131? foi para Cemetery Ridge, para reforçar o grupo de Howard. Mais ou menos ao meio-dia, levamos uma bruta surra de um canhão confederado -

disse Ordway. - Nossos batedores viam que, enquanto atiravam em nós, o grosso do exército dos confederados se movia bem abaixo de onde estávamos, entrando no bosque,

no outro lado da estrada de Emmitsburg. Nós víamos o brilho de metal entre as árvores. Eles continuaram a atirar com o canhão durante uma hora ou mais, e acertaram

muitos tiros, mas durante todo o tempo, nós estávamos nos preparando, porque sabíamos que iam atacar.

- No meio da tarde, o canhoneio deles parou e o nosso também. Então, alguém gritou Eles estão vindo! e quinze mil bastardos rebeldes com fardas cinzentas saíram

daqueles bosques. Aqueles garotos de Lee avançaram para nós, ombro a ombro, linha após linha. As baionetas eram como uma cerca longa e curva de postes de aço acima

das suas cabeças, e com o sol brilhando nelas. Eles não gritaram, não disseram uma palavra, só avançaram num passo rápido e ritmado.

- Vou dizer uma coisa, doutor - disse Ordway. - Robert E. Lee limpou nossos traseiros uma porção de vezes e eu sei que ele é um filho da mãe esperto e malvado, mas

ele não foi esperto aqui, em Gettysburg. Nós nem podíamos acreditar. Aqueles rebeldes avançando em campo aberto, a gente lá em cima, em lugar protegido. Sabíamos

que eles eram homens mortos e acho que eles também sabiam. Ficamos olhando e eles andaram mais de um quilómetro. O coronel Symonds e os outros oficiais andavam de

um lado para o outro nas nossas linhas, gritando ‘Não atirem! Esperem que cheguem mais perto. Não atirem!’ Acho que eles podiam ouvir isso também.

- Quando estavam tão perto que podíamos ver as caras deles, nossas artilharias de Little Round Top e de Cemetery Ridge abriram fogo e uma porção deles simplesmente

desapareceu. Os que sobraram continuaram avançando no meio da fumaça e finalmente Symonds berrou Togo! e cada um matou um rebelde. Alguém gritou Fredericksburg!

e então todo mundo estava gritando Fredericksburg! Fredericksburg! Fredericksburg! e atirando e recarregando, e atirando e recarregando, e atirando...

- Eles atingiram o muro de pedra no sopé da nossa colina só em um lugar. Aqueles homens lutaram como condenados, mas foram todos mortos ou capturados - disse Ordway

e Rob balançou a cabeça.

Agora sabia. Foi quando ouviu os gritos de triunfo.

Wilcox e Ordway tinham trabalhado a noite toda, carregando feridos e agora iam voltar. Rob J. saiu com eles para a chuva. Quando se aproximaram do campo de batalha,

ele percebeu que a chuva era uma bênção pois amenizava o cheiro da morte, que assim mesmo já era terrível. Havia

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corpos inchados por toda parte. No meio das ruínas e da carnificina da guerra, os salva-vidas procuravam as centelhas de vida.



Durante todo o resto da manhã, Rob J. trabalhou sob a chuva, fazendo curativos e carregando um canto da padiola. Quando chegou com os feridos no hospital, ficou

sabendo por que seus homens tinham conseguido ovos. Carroças estavam sendo descarregadas por toda parte. Havia grande quantidade de medicamentos e anestésico, grande

quantidade de curativos, muita comida. Três cirurgiões trabalhavam em cada mesa. Finalmente os Estados Unidos, agradecidos, tinham notícia de uma vitória, conseguida

a um preço terrível e resolveram que nada devia faltar aos que restaram.

Próximo à estação da estrada de ferro, um civil, mais ou menos da sua idade, aproximou-se de Rob J. e perguntou cortesmente se sabia onde podia mandar embalsamar

um soldado, como se estivesse perguntando as horas ou onde ficava a prefeitura. O homem disse que se chamava Winfield S. Walker, Jr., e era fazendeiro em Havre de

Grace, Maryland. Quando ouviu falar na batalha, alguma coisa disse a ele que devia procurar seu filho Peter, e o encontrou entre os mortos.

- Agora eu queria embalsamar o corpo para levar para casa, o senhor compreende.

Sim, Rob compreendia.

- Ouvi dizer que estão embalsamando no Washington House Hotel, senhor.

- Sim, senhor. Mas me disseram que têm uma lista muito grande, muitos na minha frente. Então pensei em procurar outro lugar. - O corpo do filho estava na fazenda

Harold, uma fazenda-hospital numa travessa da estrada de Emmitsburg.

- Eu sou médico. Posso fazer para o senhor - disse Rob J. Rob tinha o que precisava no almoxarifado médico do 131?. Foi até

o acampamento, apanhou tudo e encontrou o Sr. Winfield na fazenda. Disse ao homem, delicadamente, que ele precisava pedir ao exército um caixão forrado de zinco

por causa do vazamento. Enquanto o pai saiu para fazer a triste encomenda, ele cuidou do filho, numa sala onde estavam guardados outros seis corpos. Peter Walker

era um belo jovem, de vinte anos, mais ou menos, com os traços fortes do pai e cabelo escuro e espesso. Não tinha nenhuma marca, apenas o ferimento de bala que destruiu

uma das coxas. Morreu de hemorragia, e o corpo tinha a brancura de uma estátua.

Rob J. misturou 12 gramas de sal de cloreto de zinco em dois quartos de álcool e água. Amarrou a artéria da perna ferida para que o fluido não escapasse do corpo,

depois abriu a artéria femoral da perna boa e injetou o líquido embalsamador com uma seringa.

O Sr. Walker não teve dificuldade em conseguir o caixão de zinco com o exército. Quis pagar o trabalho de Rob, mas o médico balançou a cabeça.

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- Um pai ajudando outro - disse ele.




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