Noah Gordon, o xamã



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assolavam os outros regimentos, mas não o Indiana 131?. Os homens do 131? tiveram resfriados por causa da terra molhada e desarranjos intestinais, por causa da comida,

mas as filas de doentes de Rob J. eram as menores desde que ele começou a trabalhar no exército. O coronel Symonds sabia que três regimentos estavam com vários casos

de febre e calafrios e que o seu estava relativamente bem. Alguns dos homens mais velhos, que, na verdade, não deviam estar no exército, foram mandados para casa.

A maior parte dos outros tinham piolhos, pés e pescoços imundos, coceira nas virilhas e bebiam uísque demais. Mas estavam magros e com os músculos firmes devido

às longas marchas, preparados e alertas pelos exercícios constantes, com olhos claros

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e brilhantes e ótima disposição, porque o cirurgião assistente Cole conseguiu fazer com que passassem o inverno preparados para lutar, conforme havia prometido.



Dos seiscentos homens do regimento, sete tinham morrido durante o inverno, um índice de mortalidade de doze por mil. Nos outros três regimentos, cinqüenta e oito

tinham morrido e agora, com a chegada da febre, essa porcentagem sem dúvida ia crescer. Assim, o coronel procurou seu médico, preparado para ser razoável, e Rob

J. assinou o contrato para mais três meses, sem hesitar. Sabia reconhecer quando estava numa boa posição.

O que precisavam fazer agora, ele disse para Symonds, era preparar uma ambulância para servir o regimento no campo de batalha.

A Comissão Sanitária civil, depois de um intenso lobby junto ao secretário de Guerra, conseguira ambulâncias e padiolas para o exército do Potomac, mas o movimento

de reformas parou aí, sem que essa providência se estendesse aos feridos das unidades do setor oeste.

- Vamos ter de cuidar de nós mesmos - disse Rob J.

Ele e Symonds estavam sentados na frente do dispensário, fumando charuto, e a fumaça espiralava no ar quente da primavera. Rob J. falou da sua viagem a Cincinnati

no War Hawk.

- Falei com homens que ficaram no campo de batalha dois dias, depois de terem sido feridos. A chuva foi uma sorte porque não tinham água nenhuma. Um deles contou

que durante a noite alguns porcos chegaram até onde ele estava e começaram a comer corpos dos soldados. Alguns ainda vivos.

Symonds balançou a cabeça. Ele conhecia esses detalhes terríveis.

- Do que você precisa?

- Quatro homens de cada companhia.

- Quer uma patrulha inteira para carregar padiolas - disse Symonds, chocado. - Este regimento está com o número exato de homens. Para vencer batalhas, preciso de

guerreiros, não de padioleiros.

- Examinou a ponta do charuto. - Temos velhos demais e incapacitados que nunca deviam ter se alistado. Fique com alguns deles.

- Não. Precisamos de homens com força suficiente para recolher os feridos sob o fogo e levá-los a um lugar seguro. Não pode ser feito por homens velhos e doentes.

- Rob J. observou o rosto preocupado daquele jovem que ele admirava e do qual tinha pena. Symonds amava seus homens e queria protegê-los, porém seu dever, nada invejável,

consistia em dispor de vidas humanas como se fossem munição, ração ou achas de lenha. - E se eu usasse os homens da banda do regimento?

- sugeriu Rob J. - Eles podem tocar a maior parte do tempo e, depois de uma batalha, podem carregar as padiolas.

O coronel Symonds fez um gesto afirmativo, aliviado.

- Ótimo. Verifique se o chefe da banda pode ceder alguns homens.

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O chefe da banda, Warren Fitts, era sapateiro há dezesseis anos quando foi recrutado em Fort Wayne. Conhecia música a fundo e quando jovem havia tentado durante

muitos anos criar uma escola de música em South Bend. Quando deixou a cidade e muitas dívidas, resolveu se dedicar à profissão do pai, de sapateiro. Levava vida

modesta e dava aulas de piano e de instrumentos de sopro. A guerra trouxe a realização de um sonho que ele considerava morto para sempre. Aos quarenta anos foi comissionado

para recrutar uma banda militar e organizá-la à sua vontade. Selecionou cuidadosamente os talentos musicais da área de Fort Wayne para formar sua banda e agora,

atônito, ouvia o médico dizer que ia usar alguns dos seus homens para carregar padiolas.

- Nunca!


- Eles só ficarão comigo uma parte do tempo - disse Rob J. - O resto do tempo ficam com você.

Fitts tentou disfarçar o desprezo.

- Cada músico tem de se dedicar inteiramente à banda. Quando não está tocando, precisa estudar e ensaiar.

Por sua experiência com a viola de gambá, Rob J. sabia que era verdade.

- Você tem executantes extras para algum instrumento? - perguntou, pacientemente.

A pergunta tocou num ponto sensível de Fitts. A posição de chefe da banda era o mais próximo que jamais chegaria da condição de regente, e cuidava para que sua aparência

e a de todos da banda fosse digna do papel de artistas. Seu cabelo era grisalho e farto. O rosto era bem barbeado com um bigode sempre aparado e as pontas bem engraxadas

e viradas para cima. Seu uniforme estava sempre limpo e em ordem e os músicos sabiam que tinham de manter os instrumentos polidos, as fardas limpas e as botas engraxadas

e brilhantes. E tinham de marchar com garbo, porque quando o chefe da banda desfilava na frente, todo empertigado, queria ser seguido por uma banda que refletisse

seus padrões de perfeição. Mas havia alguns que prejudicavam essa imagem...

- Wilcox, Abner - disse ele. - Clarinetista.

Wilcox era decididamente vesgo. Fitts gostava de músicos fisicamente belos, tanto quanto talentosos. Não gostava de ver qualquer tipo de defeito estragando a perfeição

do seu conjunto e Wilcox era reserva de clarinetista da banda.

- Lawrence, Oscar. Tambor.

Um garoto desajeitado de dezesseis anos que, por sua falta de coordenação, além de ser um péssimo tambor, geralmente errava o passo durante as marchas e sua cabeça

balançava para cima e para baixo, fora do ritmo das outras.

- Ordway, Lanning - disse Fitts e o cirurgião inclinou a cabeça levemente assentindo. - Trompetista, baixo mi-bemol.

Urn músico medíocre e cocheiro de uma das carroças da banda, que

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às vezes fazia serviços braçais. Servia para tocar a trompa quando tocavam para os homens nas noites de quarta-feira ou quando ensaiavam, sentados no campo de manobras,



mas o defeito na perna o impedia de marchar com os outros.

- Perry, Addison. Flauta e flautim.

Um péssimo músico, desleixado com a própria pessoa e com a roupa. Seria um prazer livrar-se desse peso morto.

- Robinson, Lewis, cornetim sopranino lá-bemol.

Um bom músico, Fitts tinha de admitir, mas de constante irritação, um sabe-tudo com aspirações grandiosas. Inúmeras vezes Robinson pedira a Fitts para ensaiar com

a banda peças que, segundo ele, eram composições originais. Afirmava ter experiência como condutor da filarmônica de uma comunidade em Columbus, Ohio. Fitts não

queria ninguém espiando por cima do seu ombro nem fungando no seu pescoço.

- ... E quem mais? - perguntou o médico.

- Mais ninguém - disse o chefe da banda, satisfeito.

Durante todo o inverno Rob J. vigiou Ordway, discretamente. Embora faltasse ainda muito tempo para terminar o prazo de alistamento de Ordway, não era difícil desertar

e desaparecer. Porém, o motivo que mantinha a maioria dos homens no exército parecia funcionar também para Ordway e ele estava entre os cinco soldados que se apresentaram

a Rob J. Sua aparência não era desagradável, para um homem suspeito de assassinato, a não ser pelos olhos ansiosos e lacrimejantes.

Nenhum dos cinco gostou da nova função. Lewis Robinson entrou em pânico.

- Tenho de tocar a minha música! Sou músico, não médico. Rob J. corrigiu.

- Padioleiro. Por enquanto, você é um padioleiro - disse Rob, e os outros compreenderam que isso servia para todos.

Rob procurou tirar o maior proveito possível de um mau negócio, pedindo a Fitts para não fazer nenhuma exigência sobre o tempo dos homens e o chefe concordou com

uma facilidade suspeita. Começou o treino do beabá, ensinando a enrolar ataduras e fazer compressas para curativos, depois simulando vários tipos de ferimentos e

ensinando a aplicar os curativos adequados. Ensinou como deviam mover e carregar os feridos, e deu a cada homem uma pequena sacola com curativos, ataduras, um vidro

com água e ópio e morfina em pó e em comprimidos.

Havia várias talas de madeira entre o material médico do exército, mas Rob não gostou delas e pediu outra madeira com a qual os padioleiros fizeram as talas sob

sua rigososa supervisão. Abner Wilcox revelou-se um carpinteiro hábil e criativo. Fez várias padiolas leves e funcionais com pedaços de lona presos a duas vigas

de madeira. O oficial-intendente ofereceu uma carreta de duas rodas para servir de ambulância, mas Rob

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J. com anos de experiência em péssimas estradas para atender seus pacientes, sabia que para retirar homens feridos em terreno irregular iam precisar de um veículo



de quatro rodas. Encontrou uma boa charrete e Wilcox a fechou dos lados e fez um teto de madeira. Pintaram a ambulância de preto e Ordway reproduziu artisticamente

o caduceu médico de cada lado, pintando-o de prateado. Com um oficial da remonta, Rob J. conseguiu um par de cavalos de tiro, feios, mas fortes, que ninguém queria

mais, como o resto do corpo de salvamento.

Os cinco homens começavam a demonstrar, embora com relutância, um certo orgulho de grupo, mas Robinson falava constante e abertamente dos riscos daquela nova tarefa.

- É claro que vai ser perigoso - disse Rob J. - A infantaria na linha de fogo também corre perigo, bem como a cavalaria, do contrário não seriam necessários padioleiros.

Rob J. há muito tempo sabia que a guerra era um fator de corrupção e percebeu que ela o havia corrompido como a todos os outros. Treinou aqueles cinco homens para

retirar feridos do campo de batalha, como se os treinasse para enfrentar os tiros de mosquete e o fogo da artilharia, e tentava minimizar seus temores normais, demonstrando

que faziam parte da geração da morte. Suas palavras e atitudes tinham por objetivo negar sua responsabilidade, enquanto tentava desesperadamente acreditar, com eles,

que nada seria pior nas suas vidas agora do que quando estavam sujeitos às exigências do complexo temperamento de Fitts e com a preocupação de executar perfeitamente

suas valsas, polcas e marchas.

Ele os dividiu em equipes: Perry e Lawrence. Wilcox e Robinson.

- E eu? - perguntou Ordway.

- Você fica comigo - disse Rob J.

O cabo Amasa Decker, o carteiro, conhecia bem Rob J. porque entregava regularmente as cartas longas e apaixonadas de Sarah. Um dos encantos de Sarah, para Rob, sempre

foi a extrema atração física que exercia sobre ele, e, às vezes, deitado na barraca, ele lia uma carta depois da outra, tão cheio de desejo que tinha a impressão

de sentir o perfume dela. Embora houvesse muitas mulheres em Cairo, prostitutas ou patriotas, Rob não as procurou. Sofria do mal da fidelidade.

Passava grande parte do tempo respondendo à angústia física de Sarah com cartas carinhosas e encorajadoras. Às vezes escrevia para Xamã e constantemente escrevia

no seu diário. Em outros momentos, imaginava como poderia saber, por intermédio de Ordway, o que tinha acontecido no dia do assassinato de Makwa. Precisava conquistar

a confiança do homem.

Pensava no relatório sobre a Suprema Ordem da Bandeira de Estrelas e Listras, conseguido por Madre Ferocia. Fosse quem fosse o autor

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- ele sempre imaginava um padre espião - tinha passado por protestante e anticatólico. Será que essa tática daria resultado agora? O relatório ficara em Holden’s



Crossing junto de seus outros papéis. Mas Rob o lera tantas vezes e com tanta atenção que lembrava as senhas e os sinais e as palavras de código - um manual completo

de comunicação secreta, que parecia ter sido criada por um garoto com espírito dramático e imaginação superativa.

Durante os exercícios em que um dos homens fazia o papel de vítima, Rob J. percebeu que embora dois homens pudessem pôr o ferido na padiola e levá-lo até a ambulância,

eles se cansavam facilmente quando a distância era relativamente grande.

- Precisamos de um padioleiro em cada canto - disse Perry e Rob concordou. Mas isso o deixava com apenas uma padiola em funcionamento, o que não seria suficiente

se o regimento tivesse problemas sérios.

Foi falar com o coronel.

- O que você quer fazer então? - perguntou Symonds.

- Quero usar a banda inteira. Promova meus cinco padioleiros a cabos. Cada um pode dirigir uma padiola no caso de termos muitos feridos, com três outros músicos

sob suas ordens. Se os soldados tiverem de escolher entre músicos que tocam maravilhosamente durante uma luta e músicos que salvem suas vidas se forem feridos, sei

em quem vão votar.

- Ninguém vai votar - disse Symonds, secamente. - O único que vota aqui sou eu.

Mas votou corretamente. Os cinco padioleiros receberam as divisas de cabo e Fitts deixou de cumprimentar Rob J. quando passava por ele.

Em meados de maio a temperatura subiu. O acampamento ficava entre os rios Ohio e Mississipi, ambos sujos com lixo dos regimentos. Mas Rob J. distribuiu meia barra

de sabão escuro para cada homem do regimento e as companhias marchavam uma de cada vez, até um trecho limpo na parte alta do Ohio para tomar banho. A princípio,

eles entravam na água resmungando e praguejando, mas a maioria era de homens do campo, que não resistia à tentação da água limpa e o banho se transformava em brincadeiras

e muita água espirrada. Quando saíam, passavam pela inspeção do sargento, que dava atenção especial às cabeças e aos pés, e sob a zombaria dos companheiros, alguns

recebiam ordem de voltar para a água.

Algumas fardas, feitas com tecido de qualidade inferior, estavam puídas e manchadas. Mas o coronel Symonds mandou distribuir fardas novas e, quando as receberam,

os homens tiveram certeza de que logo entrariam em ação. Estavam certos. Os dois regimentos Kansas desceram o Mississipi no barco a vapor. Segundo os rumores, iam

ajudar o exército de Grant a tomar Vicksburg e o Indiana 131? iria logo em seguida.

Porém, na tarde de vinte e sete de maio, com a banda de Warren

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Fitts cometendo inúmeros erros nervosos e evidentes, mas tocando com vigor, o regimento marchou para a estação de trem e não para o rio. Homens e animais foram



embarcados nos vagões de carga e esperaram duas horas para que os vagões fossem engatados às carretas descobertas. Então, no fim do dia, o 119? se despediu de Cairo,

Illinois.

O médico e os padioleiros viajaram no vagão hospital. Estava vazio quando saíram de Cairo, mas depois de uma hora, um soldado desmaiou num dos vagões de carga

e, quando o levaram para o vagão hospital, Rob J. verificou que ele ardia em febre e delirava. Aplicou banhos de esponja com álcool no rapaz e resolveu deixá-lo

num hospital civil na primeira oportunidade.

Rob J. gostou do vagão hospital, que teria sido extremamente útil se estivessem voltando da batalha e não indo para ela. Nos dois lados da passagem havia três fileiras

superpostas de padiolas. Cada uma das quatro pontas era suspensa por tiras de borracha e presas a quatro ganchos fixados nas paredes e em postes de madeira, de modo

que a elasticidade da borracha absorvia grande parte dos trancos e do balanço do trem. Cada padioleiro escolheu uma padiola suspensa, e se acomodaram com o conforto

de verdadeiros generais. Addison Perry, que cochilava em qualquer lugar, de dia ou de noite, dormiu imediatamente, bem como o mais jovem, Lawrence. Lewis Robinson

escolheu uma padiola longe dos outros, debaixo da lanterna, e estava fazendo pequenas marcas negras num pedaço de papel, compondo música.

Não sabiam para onde estavam indo. Rob foi até a extremidade do

vagão e abriu a porta. O barulho era ensurdecedor, mas ele olhou para



  • cima, entre os carros balouçantes, e encontrou a Ursa Maior. Seguiu as duas estrelas na extremidade da curva e lá estava a Estrela do Norte. - Estamos indo para o leste - disse ele, voltando para dentro.

- Que droga - disse Abner Wilcox. - Estão nos mandando para o exército do Potomac.

Lew Robinson parou de escrever sua música.

- O que tem isso?

- O exército do Potomac não fez nada de bom até agora. Só fica na espera. Quando lutam, o que é raro, aqueles cabeças-de-bagre só fazem é perder para os rebeldes.

Eu queria ir para o exército de Grant. Aquele homem é um general de verdade.

- Enquanto você espera não pode ser morto - disse Robinson.

- Detesto ir para o leste - disse Ordway. - Todo o maldito lugar está cheio de irlandeses e do lixo católico romano. Animais imundos.

- Ninguém lutou melhor em Fredericksburg do que a brigada irlandesa. Quase todos morreram - disse Robinson, secamente.

Rob não precisou pensar muito, apenas seguiu o impulso do momento. Levou a ponta do dedo sob o olho direito e a escorregou lentamente

332 ao lado do nariz, o sinal de um membro da ordem para avisar outro que estava falando demais.

Tinha funcionado, ou foi coincidência? Lanning Ordway olhou para ele por um momento, depois parou de falar e tratou de dormir.

Às três horas da manhã fizeram uma longa parada em Louisville, para o embarque da bateria de artilharia. O ar da noite era mais pesado e mais macio que o de Illinois.

Os que estavam acordados desceram para esticar as pernas e Rob J. providenciou a transferência do soldado doente para o hospital. Depois, caminhou ao longo da linha

e passou por dois homens que estavam urinando.

- Não temos tempo para cavar fossas aqui, senhor - disse um deles e os dois riram. O médico civil ainda era uma piada.

Rob foi até a carreta onde os homens prendiam com correntes os enormes Parrots de cinco quilos e os obuses de seis quilos. Trabalhavam à luz amarela de grandes lâmpadas

de cálcio que estalavam e bruxuleavam, desenhando sombras que pareciam ter vida própria.

- Doutor - disse alguém, em voz baixa.

O homem saiu da noite e segurou a mão dele, fazendo o sinal convencional. Nervoso demais para sentir o absurdo da situação, Rob J. procurou responder precisa e naturalmente,

como se estivesse acostumado.

Ordway olhou para ele.

- Muito bem - disse o homem.

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A LONGA LINHA CINZENTA



Depois de algum tempo, todos passaram a detestar o trem. Ele atravessou lentamente todo o Kentucky e agora arrastava-se cansado entre as montanhas, como uma prisão

serpenteante e tediosa. Quando entraram em Virgínia, a notícia passou de vagão para vagão. Os soldados espiavam pelas janelas, esperando ver o rosto do inimigo,

mas tudo que viram foi uma vasta extensão de montanhas e florestas. Nas pequenas cidades onde paravam para reabastecer de água e combustível, o povo era tão amável

e amistoso quanto no Kentucky, porque a parte oeste da Virgínia era a favor da União. Perceberam a diferença ao chegarem à outra parte da Virgínia. Não havia mulheres

nas estações, oferecendo água fresca

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das montanhas ou limonada e os homens os observavam com rostos inexpressivos e olhos semicerrados.

O 131? Indiana desembarcou num lugar chamado Winchester, uma cidade ocupada, cheia de fardas azuis. Enquanto eram descarregados os cavalos e o equipamento, o coronel

Symonds desapareceu no prédio do quartel-general, ao lado da estação, e quando reapareceu, os homens e as carroças estavam prontos para partir e marcharam para o

sul.


Quando Rob J. se alistou, teve ordens para usar o próprio cavalo, mas em Cairo nunca precisou, pois não usava farda nem tomava parte nas paradas. Além disso, cavalos

eram raros onde quer que estivesse o exército, porque a cavalaria requisitava todas as montarias, fossem cavalos de corrida ou puxadores de arado. Assim, agora,

sem cavalo, ele viajava na ambulância, ao lado do cocheiro, o cabo Ordway. Rob J. ainda ficava tenso na presença de Lanning Ordway, mas a única dúvida do homem era

por que um membro da SOBEL “falava uma língua estrangeira”, referindo-se ao leve e ocasional sotaque escocês de Rob. Rob explicou que tinha nascido em Boston e estudado

em Edimburgo e Ordway ficou satisfeito. Agora tratava Rob jovial e amigavelmente, sem dúvida feliz por trabalhar para um homem que tinha boas razões políticas para

protegê-lo.

O marco, na estrada poeirenta, indicava que estavam indo para Fredericksburg.

- Meu Deus - disse Ordway. - Espero que ninguém tenha a idéia de mandar um segundo grupo de ianques para enfrentar aqueles atiradores rebeldes nas montanhas de Fredericksburg.

Rob J. concordou plenamente.

Algumas horas antes da noite, o 131? chegou às margens altas do rio Rappahannock e Symonds deu ordem para armar acampamento. Reuniu os oficiais na frente da sua

barraca e Rob J., atrás dos homens fardados, ouviu com atenção.

- Senhores, há algumas horas nos tornamos membros do exército do Potomac, sob o comando do general Joseph Hooker - disse Symonds.

Disse que Hooker contava com uma força de 122.000 homens, distribuídos por uma vasta área. Robert E. Lee tinha cerca de noventa mil confederados em Fredericksburg.

A cavalaria de Hooker acompanhava há algum tempo os movimentos do exército de Lee e todos estavam convencidos de que ele se preparava para invadir o norte, a fim

de atrair as forças da União que sitiavam Vicksburg, mas ninguém sabia onde ou quando seria a invasão.

- O povo de Washington tem razão para estar nervoso, com o exército confederado a poucas horas da porta da Casa Branca. O 131? vai se unir a outras unidades perto

de Fredericksburg.

Os oficiais ouviram com atenção. Destacaram várias equipes de observadores, perto e longe do acampamento, e todos se acomodaram para a noite. Depois de comer a carne

de porco com vagens, Rob J. deitou

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e olhou para as estrelas de verão. Era difícil para ele imaginar o confronto de forças tão gigantescas. Cerca de noventa mil confederados! Cerca de 122.000 homens

da União. E todos esforçando-se para matar!

Uma noite cristalina. Os 614 soldados do 131? Indiana dormiam no chão quente sem se dar ao trabalho de armar barracas ou forrar o solo com cobertores. A maioria

trazia ainda resquícios dos resfriados do norte e a tosse no acampamento era suficiente para denunciar sua presença a qualquer inimigo. Rob J. teve um breve pesadelo

de médico, imaginando o som de 122.000 homens tossindo ao mesmo tempo. O cirurgião assistente cruzou os braços, abraçando com força o próprio corpo gelado. Sabia

que quando os dois poderosos exércitos se encontrassem na luta, precisaria mais do que todos os homens da banda para carregar os feridos.

Foram dois dias e meio de marcha até Fredericksburg. No caminho, quase foram derrotados pela arma secreta da Virgínia, o micuim. Os insetos pequeninos caíam sobre

eles quando passavam sob as árvores copadas e grudavam em suas pernas quando andavam no meio do mato. Grudavam na roupa, caminhavam até encontrar a pele e enterravam

o corpo todo na carne humana para se alimentar. Logo apareceram as erupções provocadas pelo micuim, entre os dedos das mãos, dos pés, nas nádegas e no pênis. O corpo

do inseto era formado por duas partes. Quando os soldados os surpreendiam andando na sua pele e tentavam apanhá-los, o micuim partia ao meio, na altura da cintura




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