Noah Gordon, o xamã



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escorbuto.

Depois das suas primeiras refeições no acampamento, Rob J. compreendeu o motivo de tantos problemas digestivos. Procurou o oficial intendente, um segundo-tenente

afobado, chamado Zearing, e ficou sabendo que o exército dava ao regimento dezoito centavos por dia para alimentar cada homem. O resultado era uma ração diária de

300 gramas de carne de porco salgada, 70 gramas de feijão ou ervilhas e 500 gramas de farinha ou 300 gramas de bolacha dura. A carne era quase sempre preta por fora

e amarela e podre por dentro e os soldados chamavam as bolachas de “castelos de vermes”, porque eram grandes e grossas, quase sempre emboloradas e freqüentemente

habitadas por larvas e carunchos.

Cada soldado recebia a ração crua e a preparava numa pequena fogueira ao ar livre, geralmente fervendo o feijão e fritando a carne com as bolachas esfareladas -

fritavam até a farinha - em banha de porco. Combinada com as doenças, a dieta significava um desastre total para milhares de estômagos, e não havia latrinas. Os

homens defecavam em qualquer lugar, geralmente atrás das barracas, embora alguns, com diarréia, se afastassem um pouco, fazendo o que tinham de fazer no meio do

espaço entre duas barracas. Pairava sobre o campo um cheiro que lembrava o War Hawk e Rob J. chegou à conclusão de que o exército inteiro fedia a fezes humanas.

Compreendeu que não podia fazer nada com a dieta, pelo menos não imediatamente, mas estava resolvido a melhorar as condições gerais de higiene. Na tarde seguinte,

depois de atender a fila de doentes, ele foi procurar o sargento da Companhia C, Primeiro Batalhão, que estava ensinando meia dúzia de homens a usar a baioneta.

- Sargento, sabe onde posso encontrar algumas pás?

- Pás? Ora, é claro que sei - disse o sargento com voz cansada.

- Bem, quero que dê uma a cada um destes homens e quero que eles cavem uma vala - disse Rob.

- Uma vala, senhor? - O sargento olhou espantado para o homem de terno preto folgado, camisa amarrotada, gravata fina e chapéu preto de aba larga.

- Sim, uma vala - disse Rob J. - Bem aqui. Com três metros de comprimento, noventa centímetros de largura e um metro e oitenta de profundidade.

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O médico civil era um homem grande. Parecia muito decidido. E o sargento sabia que tinha a autoridade de primeiro-tenente.

Pouco depois, quando os seis homens cavavam vigorosamente, observados por Rob J. e pelo sargento, o coronel Hilton e o capitão Irvine, da Companhia C, Primeiro Batalhão,

aproximaram-se deles.

- Que diabo é isso? - O coronel Hilton perguntou ao sargento, que abriu a boca e olhou para Rob J.

- Estão cavando uma fossa, coronel - disse Rob J.

- Uma fossa

- Sim, senhor, uma privada.

- Eu sei o que é uma fossa. Acho que eles aproveitam melhor o tempo aprendendo a usar a baioneta. Logo esses homens estarão combatendo. Estamos mostrando a eles

como matar rebeldes. Este regimento vai atirar nos confederados, enfiar as baionetas e as facas neles e, se for necessário, fazer com que urinem e defequem até morrer.

Mas não vamos cavar privadas.

Um dos homens com a pá riu alto. O sargento olhou para Rob J. com um largo sorriso.

- Ficou bem claro, cirurgião assistente? Rob J. não sorriu.

- Sim, coronel.

Isso aconteceu no seu quarto dia no 106?. Faltavam ainda oitenta e seis dias que passaram muito lentamente e foram contados com muita precisão.

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A CARTA DE UM FILHO



Cincinnati, Ohio

12 de janeiro, 1863

Querido papai,

Muito bem, agora quero o bisturi Rob J.!

O coronel Peter Brandon, o primeiro assistente do cirurgião general William A. Hammond, foi o paraninfo da turma. Alguns acharam que foi um bom discurso, mas eu

fiquei desapontado. O Dr. Brandon disse que, segundo a história, os médicos sempre trataram dos soldados dos

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seus países. Citou uma porção de exemplos, os hebreus da Bíblia, os gregos, os romanos, etc. etc. Então falou das esplêndidas oportunidades que o exército dos Estados



Unidos, em tempo de guerra, oferece aos médicos, os salários, a gratificação por servir ao país. Nós queríamos ouvir falar das glórias da nossa profissão - Platão

e Galeno, Hipócrates e Andreas Vesalius - e ele fez um discurso de recrutamento. Além disso, não era necessário. Dezessete novos médicos, da minha classe de trinta

e seis, já tinham providenciado para se alistar no Departamento Médico do Exército.

Eu sei que você vai entender quando eu disser que, embora esteja ansioso para ver a mamãe, fiquei aliviado quando ela desistiu da viagem a Cincinnati. Trens, hotéis,

etc. estão tão cheios e tão sujos atualmente que uma mulher viajando sozinha teria de se sujeitar a muito desconforto, ou coisa pior. Senti muita falta da sua presença,

outro motivo para que eu odeie a guerra. O pai de Paul Cooke, que vende ração e cereais em Xenia, veio à formatura e depois nos levou para um grande almoço, onde

fomos brindados com vinho e muito cumprimentados. Paul é um dos que vai diretamente para o exército. Ele engana muito porque está sempre brincando, mas é o mais

brilhante da classe e recebeu o diploma summa cum lande. Eu o ajudei no trabalho do laboratório, e ele me ajudou a ganhar meu summa cum laude, porque, sempre que

acabávamos de estudar, ele me fazia perguntas mais difíceis do que as do professor.

Depois do jantar, ele e o pai foram à Pike’s Opera House, para o concerto de Adelina Patti e eu voltei para a policlínica. Eu sabia exatamente o que queria fazer.

Um túnel de tijolos passa sob a rua Nova, ligando a escola de medicina ao hospital. É para uso exclusivo dos médicos. Para estar sempre livre em caso de emergência,

é proibido aos alunos, que precisam atravessar a rua, por mais inclemente que esteja o tempo. Fui até o porão da escola de medicina, sentindo-me um aluno ainda e

entrei no túnel. Eu o atravessei e, quando cheguei ao hospital, no outro lado, pela primeira vez me senti como um médico!

Papai, aceitei o contrato de dois anos como residente no Southwestern Ohio Hospital. Pagam apenas trezentos dólares por ano, mas o Dr. Berwyn disse que é o caminho

para um bom salário como cirurgião. “Nunca subestime a importância do dinheiro”, disse ele. “Lembre-se de que a pessoa que reclama amargamente do pouco que ganha

um médico, geralmente não é médico.”

Sinto-me embaraçado e reconheço minha sorte quando o Dr. Berwyn e o Dr. McGowan disputam o papel de meu protetor. No outro dia, Barney McGowan descreveu seu plano

para o meu futuro. Vou trabalhar com ele durante alguns anos como assistente e depois ele me arranja a nomeação de professor assistente de anatomia. Assim, diz ele,

quando se aposentar, eu estarei pronto para assumir a cátedra de professor de patologia.

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Foi demais para mim, eles me deixaram atordoado porque meus planos sempre foram simplesmente ser médico. No fim, eles elaboraram um programa vantajoso para mim.

Como eu fiz no verão, vou passar as manhãs operando com Berwyn e as tardes na patologia, com McGowan, só que ao invés de fazer o trabalho sujo de estudante, vou

funcionar como médico. A despeito de toda essa bondade, não sei se quero ficar definitivamente em Cincinnati. Sinto falta de um lugar pequeno, onde conheça todo

mundo.


O sentimento geral em Cincinnati é mais sulista do que em Holden’s Crossing. Billy Henried contou para alguns poucos amigos que, quando se formar, vai se alistar

no exército confederado como cirurgião. Duas noites atrás fui a um jantar de despedida com Henried e Cooke. Foi estranho e triste, cada um deles sabendo para onde

o outro estava indo. A notícia de que o presidente Lincoln assinou a proclamação que dá liberdade aos escravos provocou muita indignação. Eu sei que você não gosta

do presidente por causa do seu papel na destruição dos sauks, mas eu o admiro por libertar os escravos, sejam quais forem seus motivos políticos. Os nortistas parecem

capazes dos maiores sacrifícios quando se convencem que é para salvar a União, mas não querem que o objetivo da guerra seja a abolição dos escravos. A maioria deles

parece não estar preparada para pagar este terrível preço de sangue se o objetivo único for a libertação dos negros. As perdas foram terríveis em batalhas como a

Segunda de Buli Run e a de Antietam. Agora, temos notícias da carnificina em Fredericksburg, onde quase trezentos mil soldados da União foram dizimados quando tentavam

tomar uma colina dos sulistas. Isso provocou um grande desespero na maioria das pessoas com quem tenho

conversado.

Eu me preocupo constantemente com você e com Alex. Talvez não goste de saber que comecei a rezar, embora não saiba para quem ou para quê. Apenas peço que vocês dois

voltem para casa.

Por favor, cuide o melhor possível da sua saúde, como cuida da saúde dos outros, e lembre-se de que existem pessoas que ancoram suas vidas na sua força e na sua

bondade.

Do filho que o ama,

Xamã

(Dr. Robert Jefferson Cole)



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O TROMPETISTA



Viver numa barraca não era tão difícil quanto Rob J. imaginara, nem dormir outra vez no chão. O mais difícil era viver com as perguntas que o atormentavam. Por que

estava ali, e qual seria o resultado daquela guerra terrível. As coisas continuavam péssimas para o norte. “Perdendo desse jeito nunca vamos ganhar”, disse o major

G. H. Woffenden, num dos seus momentos de semi-sobriedade.

A maioria dos homens bebia demais quando não estava de serviço, especialmente logo depois do pagamento. Bebiam para esquecer, para lembrar, para comemorar, para

lamentar. Os jovens sujos e quase sempre bêbados eram como cãezinhos aprisionados, aparentemente esquecidos da proximidade da morte, esforçando-se para vencer o

inimigo natural, outros americanos que sem dúvida estariam igualmente sujos e com a mesma freqüência embriagados.

Por que estavam tão ansiosos para matar os confederados? Poucos deles o sabiam realmente. Rob J. achava que, para eles, a guerra assumia um significado e uma motivação

muito além de razões e causas. Estavam ávidos para lutar porque a guerra existia, e porque matar fora oficialmente definido como um ato admirável e patriótico. Isso

bastava.

Rob queria gritar com todos eles, trancar os generais e os políticos num quarto escuro como crianças tolas e malcomportadas, segurar todos pelas nucas e sacudir

e perguntar: o que há com vocês? Que diabo está acontecendo com vocês?

Mas ao invés disso ele atendia a fila de doentes todas as manhãs e distribuía ipecacuanha, quinino e elixir paregórico e tinha cuidado de olhar para o chão para

ver onde pisava, como um homem que fez sua casa num canil gigantesco.

No seu último dia com o 106? Kansas, Rob J. procurou o oficialtesoureiro, recebeu seus oitenta dólares, foi à sua barraca cónica, pôs o Mee-shome a tiracolo e apanhou

a mala. O major G. H. Woffenden, enrolado na sua manta de borracha, não abriu os olhos nem murmurou um adeus.

Cinco dias antes, os homens do 176? Pensilvânia foram amontoados nos barcos a vapor e carregados para o sul, para a frente de combate, no Mississipi, segundo os

boatos. Agora, de outros barcos

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desembarcava o 131? Indiana, que começava a erguer suas barracas onde antes estavam as do Pensilvânia. Rob J. saiu à procura do oficial-comandante e encontrou um coronel

com cara de bebê, de vinte e poucos anos, Alonzo Symonds. O coronel Symonds estava à procura de um médico. Seu cirurgião, que nunca teve um assistente, havia terminado

o alistamento de três meses e voltara para Indiana. Interrogou atentamente o Dr. Cole e ficou bem impressionado com o que ouviu, mas quando Rob J. disse que só renovaria

o contrato sob certas condições, o coronel Symonds ficou na dúvida.

Rob J. tinha anotado todos os casos de doenças do 106?.

- Quase todos os dias, trinta e seis por cento dos homens estavam de cama. Em poucos dias essa porcentagem aumentava. Quais as porcentagens entre seus homens?

- Tivemos muitos doentes - admitiu Symonds.

- Eu posso lhe dar homens mais saudáveis, coronel, se quiser me ajudar.

Symonds era coronel há poucos meses. Sua família era dona de uma fábrica de mangas de vidro para lampiões a gás em Fort Wayne e ele sabia como podia ser prejudicial

a mão-de-obra doente. O 131? Indiana tinha quatro meses de existência, homens inexperientes, e logo nos primeiros dias foram designados como batedores, no Tennessee.

Ele se considerava um homem de sorte por terem tomado parte apenas em duas pequenas escaramuças que podiam ser consideradas contato com o inimigo. Dois dos seus

homens foram mortos e um ferido, mas foram tantos os casos diários de febre que, se os confederados soubessem, podiam entrar e tomar seu regimento inteiro, sem nenhuma

dificuldade.

- O que eu tenho de fazer?

- Seus homens estão armando as barracas sobre as pilhas de fezes do 176? Pensilvânia. E a água daqui é péssima. Eles bebem água do rio, contaminada com suas próprias

fezes e urina. A menos de um quilômetro há um lugar limpo e nunca usado, no outro lado do acampamento, com fontes que devem dar boa água no inverno, se vocês a encanarem

para chegar até o acampamento.

- Deus Todo-Poderoso. Um quilômetro é muito longe para nos comunicarmos com os outros regimentos. Os oficiais nunca iriam me procurar para nada.

Os dois homens se estudaram mutuamente e o coronel Symonds resolveu. Encaminhou-se até onde estava seu primeiro-sargento.

- Mande desarmar as barracas, Douglass. O regimento vai se mudar. Então ele voltou e tratou de coisas sérias com aquele médico difícil. Mais uma vez Rob recusou

uma comissão. Pediu para ser contado

como médico assistente, por três meses.

- Desse modo, se não conseguir o que quer, você pode ir embora - observou o inteligente coronel. O médico de meia-idade não negou nem afirmou e o coronel olhou para

ele atentamente. - O que mais você quer?

- Privadas - disse Rob J.

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O solo estava firme, mas não gelado ainda. Numa única manhã foram feitas as fossas e toras de madeira presas a postes nas bordas das valas. Quando foi lida a ordem

para todas as companhias, avisando que o ato de urinar ou defecar em qualquer outro lugar que não fosse na fossa era passível de punição severa, os homens reclamaram.

Eles precisavam de alguma coisa para odiar e ridicularizar e Rob J. compreendeu que ele era agora essa coisa. Quando passava entre os soldados, eles se cutucavam,

riam, e zombavam da figura ridícula com o terno surrado de civil.

O coronel Symonds era um bom comandante e cercava-se de bons oficiais. O intendente do regimento era um capitão chamado Mason, e Rob J. não teve dificuldade para

explicar a ele as causas do escorbuto, porque podia apontar os exemplos entre os homens do acampamento. Mason e Rob J. foram a Cairo com a carroça do regimento e

compraram barris de repolhos e cenouras, que passaram a fazer parte da ração diária dos homens. O escorbuto era mais comum ainda em algumas outras unidades do acampamento

mas Rob J. não conseguiu a atenção dos médicos dos outros regimentos para o problema. Eles pareciam mais preocupados com seu papel de oficiais do exército do que

de médicos. Todos estavam fardados, dois usavam espadas como oficiais de carreira e o cirurgião do regimento Ohio usava dragonas franjadas como as que Rob J. vira

certa vez numa gravura, nos ombros de um imponente general francês.

Rob, ao contrário, preservava com carinho sua condição de civil. O oficial encarregado das compras, agradecido por ter sido curado de terríveis eólicas abdominais,

deu a Rob um casaco de lã azul. Rob agradeceu e levou o casaco à cidade para ser tingido de preto e mandou trocar os botões dourados. Rob J. gostava de sentir que

era ainda um médico rural, provisoriamente trabalhando em outra cidade.

Sob muitos aspectos, o acampamento era uma pequena cidade, embora só de homens. O regimento tinha correio, e o cabo Amasa Decker era o único funcionário e carteiro.

Todas as quartas-feiras, à noite, a banda dava concertos no campo de exercícios e, às vezes, quando tocava uma canção popular, como “Listen to the Mockingbird”,

“Come Where My Love Lies Dreaming”, ou “The Girls I Left Behind Me”, os homens cantavam .-Fornecedores autorizados entravam no acampamento com mercadorias variadas.

Com treze dólares por mês, o soldado não podia comprar muito queijo a cinqüenta centavos meio quilo, ou leite condensado a setenta e cinco centavos a lata, mas eles

compravam bebida. Rob J. várias vezes por semana comia doces com melado, seis por um quarto de dólar. Um fotógrafo instalou-se numa grande barraca onde, certo dia,

Rob J. pagou um dólar por uma fotografia ferrótipo, rígido e sério, que mandou para Sarah, como prova de que seu marido ainda estava vivo e bem e que a amava ternamente.

323


Tendo uma vez comandado soldados inexperientes em território disputado, o coronel Symonds prometeu a si mesmo que eles não estariam despreparados no próximo combate.

Durante todo o inverno, ele trabalhou arduamente com seus homens. Faziam caminhadas de cinqüenta quilômetros que aumentava a clientela de Rob J. com casos de distensões

musculares nas costas por causa do peso do equipamento e dos pesados mosquetes. Outros ficavam com hérnias por causa dos cintos carregados com pesadas caixas de

munição. Treinavam constantemente com a baioneta e Symonds os obrigava a repetir vezes sem conta o processo de carregar a arma. “Mordam a ponta do papel que envolve

a pólvora, como se estivessem com raiva. Ponham a pólvora no cano da arma, enfiem a bala explosiva minié, depois o papel, como tampão, e apertem toda a maldita coisa

bem para dentro. Tirem duas cápsulas de percussão das bolsas e ponham sobre a ponta da culatra. Apontem essa bela coisa e atirem]”

Eles repetiam e repetiam, ad infinitum. Symonds disse a Rob J. que queria que eles fossem capazes de carregar e atirar mesmo acordando de um sono profundo, mesmo

quando estivessem paralisados de medo, quando as mãos tremiam de excitação ou de pavor.

Do mesmo modo, tinham de aprender a obedecer ordens sem hesitar, sem reclamar, sem desafiar os oficiais e para isso o coronel os fazia marchar constantemente nos

exercícios de ordem unida. De manhã, quando a paisagem estava coberta de neve, Symonds às vezes pedia emprestados os pesados rolos de madeira do departamento de

estradas do Cairo e os cavalos do exército os puxavam no campo de manobras até o solo ficar firme e plano para continuarem os exercícios, enquanto a banda do regimento

tocava marchas e outras músicas rápidas e animadas.

Num claro dia de inverno, quando passava pelo campo de manobras, onde os homens faziam ordem unida, Rob J. olhou para a banda, sentada num canto e viu que o trompetista

tinha uma mancha cor-devinho no rosto. O homem apoiava o pesado instrumento no ombro, com o longo tubo cónico e o bocal em forma de sino refletindo o sol atrás dele,

e cada vez que assoprava - estavam tocando “Hail, Columbia” - suas bochechas inflavam enormemente, depois esvaziavam. Cada vez que o rosto do homem se enchia de

ar, a marca arroxeada sob o olho direito escurecia, como um sinal.

Durante nove longos anos, Rob J. sempre ficava tenso quando via um homem com aquela mancha no rosto, mas nesse dia, ele apenas continuou a andar, acompanhando com

o passo, automaticamente, o ritmo da música até o dispensário.

Na manhã seguinte, quando viu a banda marchando no campo de manobras para tocar durante a revista do Primeiro Batalhão, procurou o trompetista com a mancha cor-de-vinho,

mas o homem não estava lá.

Rob J. foi para a fileira de barracas dos homens da banda e viu o homem tirando a roupa congelada do varal.

324


- Mais dura do que o pinto de um homem morto - disse o homem, carrancudo. - Não faz sentido inspeção no meio do inverno.

Hipocritamente, Rob J. concordou com ele, embora a inspeção fosse idéia sua, para obrigar os homens a lavar pelo menos parte da roupa.

- Está de folga hoje?

O homem olhou para ele de mau humor.

- Eu não marcho. Sou aleijado.

O homem se afastou e Rob viu que realmente ele era. O trompetista ia destruir a simetria da formação militar. Sua perna direita parecia um pouco mais curta do que

a esquerda e ele mancava visivelmente.

Rob J. foi até a barraca e sentou na sua manta gelada com o cobertor nos ombros.

Onze anos. Lembrava exatamente do dia. Lembrava de cada doente que tinha visitado enquanto Makwa-ikwa estava sendo violentada e assassinada.

Pensou nos três homens que chegaram a Holden’s Crossing um pouco antes do crime e desapareceram logo depois. Em onze anos não tinha conseguido saber nada a respeito

deles, a não ser que eram “maus bebedores”.

Um falso pregador, o reverendo Ellwood Patterson, que tinha procurado Rob por causa da sífilis.

Um homem gordo e forte chamado Hank Cough.

Um jovem magro que eles chamavam de Len. Às vezes de Lenny. Com uma mancha cor-de-vinho sob o olho direito e uma perna manca.

Não tão magro agora, se esse era o homem. Mas, também, não tão jovem.

Provavelmente não era o homem que ele procurava. Devia haver mais de um homem na América com a mancha e a perna mais curta.

Rob compreendeu então que não queria que fosse ele. Na verdade, não queria mais encontrar aqueles homens. O que ia fazer se o trompetista fosse Lenny? Cortar a garganta

dele?


Sentiu-se completamente incapaz de qualquer coisa.

A morte de Makwa era algo guardado num compartimento separado de sua mente. Agora, esse compartimento abria-se de novo, como a caixa de Pandora e o frio estranho

e quase esquecido crescia dentro dele, um frio que nada tinha a ver com a temperatura na barraca.

Rob J. saiu e seguiu até a barraca que servia de escritório geral do regimento. O nome do sargento era Stephen Douglass, com mais um S que o do senador. Douglass

estava acostumado a ver Rob examinar os arquivos. Tinha dito a Rob que nunca vira um médico tão minucioso nos seus relatórios.

- Mais trabalho burocrático, doutor?

- Um pouco.

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- Fique à vontade. O ajudante foi apanhar café quente. Tome algum, quando ele voltar. Mas não deixe pingar nos meus papéis, por favor.

Rob J. prometeu que teria cuidado.

A banda estava com a Companhia do Quartel-General. O sargento Douglass guardava os relatórios de cada companhia em separado e em ordem, em caixas cinzentas. Rob

J. encontrou a caixa da Companhia do Quartel-General e um maço de fichas amarradas com barbante e uma etiqueta que dizia “Banda do Regimento 131? Indiana”.

Rob examinou as fichas, uma a uma. Não havia nenhum Leonard, mas então encontrou e teve certeza de que era o homem que procurava, como tinha certeza às vezes de

que um paciente ia viver ou morrer.

ORDWAY, LANNING A., soldado. Residência, Vincennes, Indiana. Alistado por um ano, 28 de julho, 1862. Créditos de alistamento, Fort Wayne. Nascido, Vincennes, Indiana,

11 de novembro, 1836. Altura, l,77m. Cor, branca. Olhos cinzentos. Cabelos castanhos. Alistado por tempo limitado como músico (trompete baixo mibemol) e trabalhos

gerais, devido a defeito físico.

52

MOVIMENTOS DAS TROPAS



Só depois de algumas semanas do vencimento do contrato de Rob J. o coronel Symonds o procurou para tratar da renovação. A essa altura, as febres da primavera já




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