Noah Gordon, o xamã



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estradas, chegou a Rock Island, onde guardou o cavalo num estábulo e no fim da tarde embarcou numa balsa de toras de madeira que descia o Mississipi. Durante toda

a noite, ele flutuou rio abaixo, no conforto razoável da pequena cabine da balsa, dormindo sobre as toras de madeira, perto do fogão. Quando desembarcou em Cairo,

na manhã seguinte, estava com o corpo dolorido e a chuva continuava.

Cairo estava horrível, com os campos e as ruas completamente alagados. Numa estalagem, Rob fez uma toalete cuidadosa e tomou café. Depois, seguiu até o hospital.

O Dr. Akerson era um homenzinho moreno, de óculos, com bigodes que iam até as orelhas, segundo a moda lamentável criada por Ambrose Burnside, cuja brigada fizera

o primeiro ataque contra os confederados em Buli Run.

O Dr. Akerson recebeu Rob J. cortesmente, demonstrando satisfação por saber que seu trabalho merecera a atenção dos médicos de Boston. Enchia o ar das enfermarias

o cheiro acre do ácido clorídrico, o agente que o Dr. Akerson acreditava poder debelar as infecções mortais dos ferimentos. Rob J. notou que o cheiro do que o Dr.

Akerson chamava de “desinfetante” disfarçava alguns dos cheiros desagradáveis da enfermaria, mas irritava o nariz e os olhos.

Rob J. percebeu imediatamente que o cirurgião de Cairo não tinha nenhuma cura miraculosa.

- Algumas vezes, o ácido clorídrico parece impedir eficazmente a infecção. Outras vezes... - o Dr. Akerson deu de ombros - nada parece dar resultado.

Experimentara borrifar ácido clorídrico na sala de cirurgia e nas enfermarias, contou ele, mas desistiu porque prejudicava os olhos e a respiração. Agora, contentava-se

em embeber no ácido os curativos que eram aplicados diretamente nos ferimentos. Acreditava que a gangrena e outras infecções seriam causadas por corpúsculos de pus

que flutuavam no ar, como poeira, e que os curativos embebidos no ácido evitavam que esses corpúsculos contaminassem os ferimentos ou incisões.

Um atendente chegou com uma bandeja cheia de curativos embebidos em ácido e um deles caiu da bandeja no chão. O Dr. Akerson o apanhou, limpou a poeira com a mão

e mostrou a Rob J. Era um curativo comum, feito de pano de algodão embebido em ácido clorídrico. Quando Rob o devolveu, o Dr. Akerson pôs o curativo de volta na

bandeja,

para ser usado.

- É uma pena não sabermos por que às vezes funciona e outras não - disse o Dr. Akerson.

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Foram interrompidos por um jovem cirurgião. O Sr. Robert Francis, representante da Comissão Sanitária dos Estados Unidos, precisava falar com o Dr. Akerson sobre

“um assunto de grande urgência”.

O Dr. Akerson acompanhou Rob J. até a porta e encontraram o Sr. Francis no corredor. Rob J. aprovava a Comissão Sanitária, uma organização civil, criada para levantar

fundos e recrutar pessoal para cuidar dos feridos. Agitado e falando rapidamente, o Sr. Francis contou que houvera uma terrível batalha de dois dias, em Pittsburgh

Landing, Tennessee, cinqüenta quilômetros ao norte de Corinth, Mississipi.

- Temos muitas baixas, em maior número e mais terríveis do que em Buli Run. Recrutamos voluntários para tratar dos feridos, mas precisamos urgentemente de médicos.

O Dr. Akerson lamentou.

- A guerra levou quase todos os nossos médicos. Não podemos dispensar nenhum mais.

Rob J. disse imediatamente.

- Eu sou médico, Sr. Francis. Posso ir.

Com outros três médicos das cidades vizinhas e quinze civis, que nunca tinham cuidado de doentes, Rob J. embarcou no barco a vapor City of Louisiana ao meio-dia

e navegaram na água lamacenta do rio Ohio. Às cinco horas da tarde chegaram a Paducah, Kentucky, e entraram no rio Tennessee. Foi uma longa viagem de 340 quilômetros,

descendo o Tennessee. Na escuridão da noite passaram, sem ver e sem serem vistos, por Fort Henry, capturado há um mês por Ulysses Grant. Durante todo o dia seguinte

navegaram, passando por cidades, portos movimentados, campos alagados. Era quase noite outra vez quando chegaram a Pittsburgh Landing, às cinco horas da tarde.

Rob J. contou vinte e quatro barcos a vapor, incluindo dois armados com canhões. Desembarcaram com lama até os joelhos, resultado da retirada dos ianques, no domingo

anterior. Rob J. foi designado para o War Hawk, um navio com 406 soldados feridos. Estavam terminando de carregar o navio, quando ele embarcou, e seguiram viagem

imediatamente. Um oficial muito abatido disse em voz baixa que o enorme número de feridos tinha lotado todos os hospitais do Tennessee. O War Hawk ia percorrer mil

quilômetros, subindo o rio Tennessee, até o Ohio, depois subir o rio Ohio, até Cincinnati.

Havia feridos por toda a parte - no convés inferior, nas cabines dos oficiais e de passageiros e no convés superior, aberto, sob a chuva incessante. Rob J. e um

oficial-médico do exército, da Pensilvânia, chamado Jim Sprague, eram os únicos médicos. Todos os suprimentos estavam amontoados em uma das cabines, e não tinham

viajado duas horas, quando

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Rob J. percebeu que estavam roubando o vinho medicinal. O comandante militar do navio era um jovem primeiro-tenente, chamado Crittendon, atordoado ainda pelo

combate. Rob o convenceu a designar uma guarda armada para os suprimentos.

Rob J. deixara sua maleta em Holden’s Crossing. Havia um kit cirúrgico entre os suprimentos e ele pediu ao oficial-engenheiro que afiasse alguns dos instrumentos.

Não queria usar nenhum deles.

- A viagem é um choque muito grande para os feridos - ele disse a Sprague. - Acho que, sempre que for possível, devemos deixar a cirurgia para quando chegarmos ao

hospital.

Sprague concordou.

- Não sou muito de operar - disse ele, deixando claro que preferia que Rob J. tomasse as decisões.

Rob concluiu que ele também não era muito de medicina, mas encarregou-o de fazer curativos e providenciar para que os feridos recebessem sopa e pão.

Rob verificou que ia precisar fazer algumas amputações imediatamente.

Os enfermeiros voluntários tinham boa vontade mas nenhuma experiência - contadores, professores, cavalariços - todos enfrentando sangue, dor e todo tipo de tragédias

que nunca tinham imaginado. Rob reuniu alguns para ajudá-lo nas amputações e mandou o resto trabalhar com o Dr. Sprague, tratando ferimentos, aplicando ataduras,

dando água aos que tinham sede e protegendo da chuva, com cobertores e casacos, os que se encontravam no convés aberto.

Rob J. gostaria de falar com todos os feridos, mas não havia tempo para isso. Atendia o paciente quando um dos ajudantes dizia que o homem estava “mal”. Teoricamente,

nenhum dos homens embarcados no War Hawk devia estar tão “mal” a ponto de não sobreviver à viagem, mas muitos morreram em pouco tempo.

Rob mandou retirar todos da cabine do imediato e começou a amputar à luz de quatro lampiões. Naquela noite ele amputou quatorze membros. Muitos tinham sofrido amputações

antes de serem embarcados e ele os examinou, verificando com tristeza a péssima qualidade de algumas das cirurgias. Um homem chamado Peters, de dezenove anos, tivera

a perna direita amputada na altura do joelho, a esquerda na altura do quadril e todo o braço direito. No meio da noite, o que restava da perna esquerda começou a

sangrar, ou talvez já estivesse sangrando quando foi levado para bordo. Foi o primeiro a ser encontrado morto.

- Papai, eu tentei - chorava um soldado com longos cabelos louros e um buraco nas costas, pelo qual se via a coluna vertebral como uma espinha de peixe. - Eu tentei

bastante.

- Sim, você tentou. Você é um bom filho - disse Rob J., passando a mão na cabeça dele.

Alguns gritavam, outros envolviam-se no silêncio como se fosse uma

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i

armadura, outros ainda choravam e diziam coisas desconexas. Aos poucos, Rob ouviu a história da batalha, juntando as pequenas peças de sofrimento individual. Grant

estava em Pittsburgh Landing com quarenta e dois mil homens, esperando as forças do general Don Carlos Buell. Beauregard e Albert Johnston resolveram atacar Grant

antes da chegada de Buell, e quarenta mil confederados lançaram-se sobre o acampamento dos soldados da União. A linha de frente de Grant foi repelida na esquerda

e na direita, mas o centro, formado por soldados de lowa e Illinois, resistiu, numa das mais selvagens batalhas da guerra.

No domingo, os rebeldes haviam feito muitos prisioneiros. O grosso do exército da União recuou até o rio, entrou na água, de costas para os rochedos que impediam

a continuação da retirada. Mas na segundafeira de manhã, quando os confederados preparavam-se para completar sua vitória, da neblina do rio surgiram barcos com vinte

mil homens de Buell, e a batalha tomou outro rumo. No fim de um dia inteiro de luta renhida, os sulistas recuaram para Corinth. Ao cair da noite, até onde se podia

avistar de Shiloh, o campo de batalha estava coberto de corpos. Então alguns dos feridos foram apanhados e levados para os barcos.

De manhã, o War Hawk passou por florestas cheias de folhas novas e azevinho, por campos verdes e, uma vez ou outra, por pessegueiros cobertos de flores, mas Rob

não viu.

O capitão do barco pretendia parar de manhã e à noite numa cidade costeira para se abastecer de lenha. Nessas paradas, os voluntários desembarcariam para procurar

comida e água para os feridos. Mas Rob J. e o Dr. Sprague convenceram o capitão a parar também ao meio-dia e, às vezes, no meio da tarde, porque a água acabava muito

depressa e não estava dando para satisfazer a sede dos feridos.

Para desespero de Rob J., os voluntários não tinham a menor noção de higiene. Muitos soldados estavam com disenteria, muito antes de serem feridos. Os homens urinavam

e defecavam onde estivessem e era impossível limpar todos. Não tinham roupas limpas para trocar e a sujeira secava grudada no corpo, sob a chuva fria. Os enfermeiros

passavam a maior parte do tempo distribuindo a sopa. Na segunda tarde, a chuva parou e o sol apareceu quente e forte, para grande alívio de Rob J. Mas, com o vapor

que se erguia do convés, o cheiro dos homens feridos e sujos invadiu completamente o War Hawk. Era um fedor quase palpável. Às vezes, quando o navio parava, civis

subiam a bordo com cobertores, água e comida. Seus olhos se enchiam de água e tratavam de deixar o navio o mais depressa possível. Rob J. desejou ter um pouco do

ácido clorídrico do Dr. Akerson.

Os homens morriam e eram envoltos em lençóis imundos. Rob J. fez mais meia dúzia de amputações, os casos mais graves, e quando chegaram ao destino, entre os trinta

e oito mortos havia vinte amputados.

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Chegaram a Cincinnati na manhã de terça-feira. Há três dias e meio Rob praticamente não dormia e não comia. De repente, livre da responsabilidade, ficou parado



no cais vendo os pacientes divididos em grupos com destino a vários hospitais. Quando lotaram uma carreta com os feridos que iam para o Southwestern Ohio Hospital,

Rob J. subiu também e sentou no chão entre duas macas.

Ao retirarem os pacientes da carreta, Rob deu uma volta pelo hospital, andando devagar porque o ar de Cincinnati era espesso como pudim. Os funcionários olhavam

desconfiados para o gigante de meia-idade, com a barba por fazer, que fedia de longe. Um atendente perguntou o que ele queria e Rob disse o nome de Xamã.

Finalmente o levaram a um pequeno balcão acima do anfiteatro cirúrgico. Já estavam operando os feridos do War Hawk. Havia quatro homens em volta da mesa e um deles

era Xamã. Rob observou por algum tempo, mas logo o sono se ergueu como uma onda, acima da sua cabeça, e Rob mergulhou nele ávida e facilmente.

Não se lembrava de ter sido levado para o quarto de Xamã, nem de terem tirado sua roupa. Dormiu todo o resto do dia e a noite inteira sem saber que estava na cama

do filho. Acordou na quarta-feira de manhã com o sol brilhando lá fora. Enquanto fazia a barba e tomava banho, o amigo de Xamã, um jovem agradável chamado Cooke,

apanhou a roupa dele na lavanderia do hospital, onde tinha sido fervida e passada, e foi chamar Xamã.

Xamã estava mais magro mas parecia bem de saúde.

- Alguma notícia de Alex? - ele perguntou.

- Não.


Xamã fez um gesto afirmativo. Levou Rob J. a um restaurante longe do hospital, para não serem interrompidos. Comeram ovos, batatas e carne de porco salgada e tomaram

um café horrível, quase todo só de chicória seca. Xamã esperou que o pai tomasse o primeiro gole de café quente e só então começou as perguntas. Durante um tempo

ouviu, absorto na história da viagem do War Hawk.

Rob J. perguntou sobre a escola, e disse que estava muito orgulhoso

de Xamã.

- Você lembra daquele velho bisturi de aço azul que eu tenho em

casa?

- Aquela antiguidade que você chama de bisturi de Rob J.? Que você diz que está há séculos na família?



- Isso mesmo. Está na família há séculos. Vai sempre para o primeiro filho que se forma em medicina. É seu.

Xamã sorriu.

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- Não acha melhor esperar até dezembro, quando eu me formar?



- Não sei se poderei vir para a formatura. Vou ser médico do exército.

Xamã arregalou os olhos.

- Mas você é pacifista. Você odeia a guerra.

- Sou e odeio - disse ele, com voz mais amarga do que o café de chicória. - Mas você está vendo o que estão fazendo uns aos outros.

Ficaram ali sentados por muito tempo, tomando xícaras do café que não queriam, dois homens grandes, olhando-se atentamente nos olhos, falando pausada e tranqüilamente,

como se tivessem muito tempo para estar juntos.

Mas às onze horas da manhã estavam de volta à sala de cirurgia. Os feridos do War Hawk tinham sobrecarregado o hospital e os médicos. Alguns cirurgiões haviam trabalhado

durante toda a noite e parte da manhã e, agora, Robert Jefferson Cole estava operando um jovem do Ohio com estilhaços dos confederados nos ombros, nas costas, nas

nádegas e nas pernas. Era um trabalho demorado e difícil, porque cada pedaço de metal precisava ser retirado com um mínimo de dano para os tecidos e a sutura dos

músculos era tarefa delicada. A pequena galeria do anfiteatro estava repleta de estudantes e alguns professores, observando os casos que podiam encontrar numa guerra.

Sentado na primeira fila, o Dr. Meigs encostou o cotovelo no Dr. Barney McGowan e, com um movimento da cabeça, indicou o homem que estava na sala de cirurgia, a

uma certa distância da mesa, para não atrapalhar, mas observando tudo atentamente. Era um homem grande, com um pouco de barriga e cabelo grisalho. Com os braços

cruzados, ele estava completamente absorto na operação. Observando a competência, a firmeza e a confiança do cirurgião, ele balançou a cabeça aprovadoramente e os

dois médicos entreolharam-se e sorriram.

Rob J. voltou de trem e chegou à estação de Rock Island nove dias depois de ter saído de Holden’s Crossing. Na rua, encontrou Paul e Rober ta Williams, que faziam

compras em Rock Island.

- Olá, doutor. Acaba de descer do trem? - perguntou Williams. - Ouvi dizer que tirou umas férias.

- Sim - disse Rob J.

- Muito bem, divertiu-se bastante?

Rob J. abriu a boca, depois fechou e abriu de novo.

- Foi muito agradável, Paul - disse, com voz calma. Então foi ao estábulo, apanhou Bess e voltou para casa.

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O CIRURGIÃO CONTRATADO

Rob levou quase todo o verão planejando o que ia fazer. Sua primeira idéia foi convencer outro médico das vantagens financeiras de ficar com sua clientela de Holden’s

Crossing, mas depois de um tempo, concluiu que isso era impossível devido à escassez de médicos criada pela guerra. O melhor que conseguiu foi combinar com Tobias

Barr para atender os doentes no seu dispensário às quartas-feiras e os casos de emergência. Os casos sem gravidade podiam ir ao consultório do Dr. Barr, em Rock

Island, ou consultar as freiras enfermeiras.

Sarah ficou furiosa - e Rob tinha a impressão de que era tanto por ele pretender se alistar no “lado errado”, quanto por estar se afastando de casa. Ela rezava e

procurava o conselho do Sr. Blackmer. Ia ficar completamente indefesa, insistia ela.

- Antes de ir, você deve escrever para o exército da União para saber se Alex foi feito prisioneiro ou se está ferido.

Rob J. já havia feito isso há alguns meses, mas concordou que estava na hora de escrever outra vez.

Sarah e Lillian estavam mais unidas do que nunca. Jay tinha inventado um meio de mandar cartas e notícias dos confederados através das linhas inimigas, talvez por

meio dos contrabandistas do rio. Antes dos jornais de Illinois publicarem a notícia, Lillian contou que Judah P. Benjamin fora promovido pelos confederados, de secretário

de guerra a secretário de estado. Certa vez, Rob J. e Sarah tinham jantado com os Geiger e Benjamin quando o primo de Lillian foi a Rock Island para conversar com

Hume sobre um processo da estrada de ferro. Benjamin parecia um homem inteligente e modesto, não um homem à espera da oportunidade para dirigir uma nova nação.

Quanto a Jay, Lillian dizia que ele estava em lugar seguro. Com o posto de intendente, foi encarregado de administrar um hospital em algum lugar da Virgínia.

Quando Lillian soube que Rob J. ia se alistar no exército do norte, disse sensatamente.

- Rezo para que você e Jay não se encontrem enquanto estivermos em guerra.

- Acho pouco provável - disse Rob, batendo de leve na mão dela.

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Rob se despediu com a maior discrição possível. A madre Míriam Ferocia ouviu a notícia com resignação quase gelada. Fazia parte da disciplina de uma freira, pensou



ele, despedir-se dos que saem das suas vidas. Elas iam onde o Senhor mandava. A esse respeito eram muito semelhantes aos soldados.

No dia 12 de agosto de 1862, com seu Mee-shome e uma pequena mala, Rob J. despediu-se de Sarah no cais do barco a vapor, em Rock Island. Ela chorou e o beijou na

boca várias vezes, quase selvagemente, ignorando os olhares das pessoas que estavam no cais.

- Você é a minha menina querida - disse ele, carinhosamente.

Rob J. detestava deixá-la daquele modo, mas foi com alívio que embarcou e acenou um adeus quando o barco, com dois apitos breves e um longo, se afastou da terra

e seguiu rio abaixo.

Rob permaneceu no convés durante quase toda a viagem. Gostava do Mississipi e de ver o movimento naquela estação do ano. Até então, o sul contava com os soldados

mais destemidos e arrojados e os generais mais competentes. Mas quando os federais tomaram Nova Orleans, naquela primavera, estabeleceram a supremacia da União nas

áreas do baixo e do alto Mississipi. Com a disponibilidade do Tennessee e de outros rios menores, as forças da União dispunham agora de uma via fluvial que os levaria

até o centro vulnerável do sul.

Um dos postos avançados da União era Cairo, onde Rob tinha começado a viagem no War Hawk, e foi ali que ele desembarcou dessa vez. Era o fim de agosto e não havia

mais enchentes, porém milhares de soldados estavam acampados nas proximidades e os detritos daquela concentração de seres humanos espalhavam-se pela cidade sob a

forma de lixo, cães mortos, restos podres que enchiam as ruas enlameadas e acumulavam-se na frente de belas casas. Rob J. seguiu o tráfego militar até o acampamento,

onde foi interpelado pelo sentinela. Depois de se identificar, pediu para ser levado ao oficial-comandante, o coronel Sibley, do 176? de Voluntários da Pensilvânia.

O coronel disse que o 176? já tinha os dois cirurgiões permitidos pela organização do exército. Mas havia mais três regimentos no acampamento, o 42? Kansas, o 106?

Kansas e o 201? Ohio. Informou que o 106? Kansas tinha uma vaga para cirurgião assistente e foi para onde Rob se dirigiu.

O oficial-comandante do 106? era o coronel Frederick Hilton. Rob o encontrou na frente da barraca, mascando tabaco e escrevendo, sentado a uma pequena mesa. Hilton

o aceitou imediatamente. Falou no posto de tenente (capitão, o mais depressa possível) e alistamento de um ano como oficial-médico assistente, mas Rob J. tinha pensado

muito e feito algumas investigações antes de sair de casa. Se fizesse o exame para cirurgião geral, teria o posto de major, um pagamento generoso e um lugar num

hospital geral como oficial-médico ou cirurgião. Mas ele sabia o que queria.

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- Nada de alistamento. Nada de comissão. O exército aceita médicos civis por algum tempo e eu quero fazer um contrato de três meses.



Hilton deu de ombros.

- Vou mandar preparar os papéis para cirurgião assistente. Volte depois do jantar para assinar. Oito dólares por mês, usa seu próprio cavalo. Posso indicar um alfaiate

na cidade, para fazer a farda.

- Não vou usar farda.

O coronel olhou para ele por algum tempo.

- Acho melhor usar. Esses homens são soldados. Não vão obedecer ordens de um civil.

- Não importa.

O coronel Hilton balançou a cabeça e cuspiu tabaco. Chamou um sargento e mandou mostrar ao Dr. Cole a barraca do oficial-médico.

Antes de chegarem, soou o toque para o arriamento da bandeira. No silêncio total que se fez, todos os homens, em posição de sentido, saudaram a bandeira.

O espetáculo, novo para ele, o comoveu, pois era como um ato religioso, uma comunhão que unia todos aqueles homens que, em silêncio e em posição de sentido, fizeram

continência até desaparecerem na distância as últimas notas do clarim. Então, o campo voltou à atividade normal.

Os abrigos em sua maioria eram barracas de campanha, mas o sargento o levou a um grupo de barracas cónicas, que lembravam os tipis dos sauks, e pararam na frente

de uma delas.

- Chegamos em casa, senhor.

- Muito obrigado.

Dentro da barraca havia duas camas, no chão, cobertas com um pano cada uma. Um homem, sem dúvida o cirurgião do regimento, dormia profundamente numa delas, exalando

um forte cheiro de suor e de rum.

Rob pôs a mochila no chão e sentou ao lado dela. Tinha cometido muitos erros e feito papel de tolo, menos vezes do que alguns e mais do que outros, pensou. E perguntou

a si mesmo se não estaria cometendo a maior asneira de sua vida.

O cirurgião era o major G. H. Woffenden. Rob J. logo ficou sabendo que o major nunca tinha freqüentado uma escola de medicina, tendo aprendido e praticado por algum

tempo “com o Dr. Cowan”, antes de passar a clinicar e operar por conta própria. Que fora comissionado pelo coronel Hilton, em Topeka. Que o soldo de major era o

melhor salário regular que já tinha recebido na vida. E que ficaria satisfeito em se devotar à bebida, deixando o trabalho a cargo do cirurgião assistente. O trabalho

durava quase o dia todo, todos os dias, porque a fila de pacientes parecia interminável. O regimento tinha dois batalhões. O primeiro, com cinco companhias. O segundo,

com apenas três. O regimento

316 tinha menos de quatro meses e foi formado quando os melhores homens já haviam se alistado no exército. O 106? ficou com as sobras e o segundo batalhão com

o que havia de pior em Kansas. Muitos dos homens que esperavam na fila eram velhos demais para serem soldados, e outros, jovens demais, incluindo uma meia dúzia

que mal parecia ter passado dos doze anos. Todos em péssimas condições. As doenças mais comuns eram diarréia e disenteria, mas Rob constatou vários tipos de febres,

resfriados com comprometimento dos pulmões e das vias respiratórias, casos de sífilis e gonorréia, delirium tremens e outros sinais de alcoolismo, hérnias e muito




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