Noah Gordon, o xamã



Baixar 2.32 Mb.
Página32/51
Encontro18.09.2019
Tamanho2.32 Mb.
1   ...   28   29   30   31   32   33   34   35   ...   51

em um ou outro exército. Entre eles estava Ruel Torrington, que deixou duas gavetas vazias com cheiro de roupa suja. Outros falavam em terminar o semestre e depois

se alistar. Em maio, o Dr. Berwyn reuniu todos os alunos da escola e explicou que o corpo docente tinha pensado em fechar a escola durante o tempo que durasse a

emergência militar, mas, após muita reflexão, tinham resolvido prosseguir com as aulas.

- Logo vamos precisar de médicos como nunca antes, tanto no exército como para cuidar dos civis.

Mas o Dr. Berwyn tinha más notícias. Como a faculdade dependia do que os alunos pagavam, com a diminuição das matrículas, eram obrigados a aumentar a anuidade. Para

Xamã isso significava lançar mão de um dinheiro que não esperava gastar agora. Mas se não permitia que a surdez prejudicasse seus planos, não ia deixar que uma coisa

insignificante como o dinheiro o impedisse de ser médico.

Ele e Paul Cooke ficaram amigos. Em assuntos da escola e de medicina, Xamã era o conselheiro e guia e Cooke ficava encarregado de todo o resto. Paul o levou ao primeiro

restaurante e ao primeiro teatro. Encantados, foram à Pike’s Opera House ver Edwin Thomas Booth no papel de Ricardo In. O teatro tinha três fileiras de balcões,

três mil lugares e espaço para mais mil pessoas de pé. Mesmo na oitava fila de cadeiras, dos dois lugares que Cooke havia conseguido, Xamã não compreendeu toda a

peça, mas tinha lido Shakspeare no colégio e leu novamente depois do teatro. Saber a história e as falas era o mais importante e ele gostou imensamente da experiência.

Numa noite de sábado Cooke o levou a um bordel, onde Xamã acompanhou uma mulher taciturna até o quarto para um serviço rápido. O sorriso fixo nem por am momento

desapareceu do rosto da mulher, e ela falou muito pouco. Xamã não teve nenhuma vontade de voltar ao bordel, mas como era jovem e saudável, o desejo sexual era um

299


problema. No dia em que foi designado para dirigir a ambulância do hospital, ele foi à Companhia P. L. Trent de Velas, que empregava mulheres e crianças, para atender

um menino de treze anos com as pernas queimadas por cera quente. Levaram o menino para a enfermaria. Uma jovem com pele cor-de-pêssego e cabelos escuros sacrificou

o pagamento das suas horas de trabalho para acompanhar o garoto, que era seu primo, ao hospital. Xamã a viu outra vez na quinta-feira à noite, durante a visita aos

doentes indigentes. Outros parentes esperavam para ver o menino, por isso a visita da jovem foi breve, e Xamã teve oportunidade de falar com ela. O nome da moça

era Hazel Melville. Embora não estivesse em situação de fazer despesas, Xamã a convidou para jantar no domingo seguinte. Ela tentou fingir que estava chocada, mas

desistiu e aceitou com um grande sorriso.

Hazel Melville morava perto do hospital, no terceiro andar de um prédio de apartamentos muito parecido com o dormitório da escola. Sua mãe tinha morrido. Xamã teve

consciência, como nunca antes, do tom gutural da própria voz quando o pai de Hazel, um homem corado, meirinho do Tribunal Municipal de Cincinnati, olhou para ele

desconfiado, sem saber ao certo o que havia de estranho no novo conhecido de Hazel.

Se fosse um dia quente, ele a teria levado para um passeio de barco no rio. Os dois estavam agasalhados e, apesar do vento que vinha do rio, a temperatura estava

agradável para andar, olhar as vitrines à luz do fim do dia. Hazel era muito bonitinha, decidiu Xamã, a não ser pelos lábios, finos e severos, que desenhavam rugas

de permanente descontentamento nos cantos da boca. Ficou chocada quando soube que ele era surdo. Ouviu a explicação sobre leitura dos lábios com um sorriso incerto.

Mesmo assim, era agradável conversar com uma mulher que não estava doente nem ferida. Ela disse que trabalhava na fábrica há um ano, que detestava o trabalho, mas

não havia muitos empregos para mulheres. Contou também que dois primos seus ganhavam muito bem na Wells & Companhia.

- A Wells & Companhia recebeu um pedido de dez mil pentes de balas minié para mosquete, da Milícia do Estado de Indiana. Eu gostaria que eles empregassem mulheres.

Jantaram num pequeno restaurante, escolhido com a ajuda de Cooke porque era barato e bem iluminado, para que Xamã pudesse ver o que ela dizia. Hazel aparentemente

gostou, devolveu os pãezinhos, porque não estavam quentes, falando asperamente com o garçom. Quando voltaram, o pai dela não estava em casa. Xamã a beijou e a resposta

foi tão intensa e completa que a coisa progrediu naturalmente, passando pela fase de tocar o corpo dela por cima da roupa, até o ato final, no desconforto do sofá

da sala. Como o pai podia chegar a qualquer momento, ela deixou a luz acesa e não tirou toda a roupa, apenas levantando a saia

300


e abaixando a roupa de baixo. O cheiro da parafina na qual ela mergulhava os pavios seis dias por semana era mais forte do que o cheiro natural feminino. Xamã a

possuiu rápida e bruscamente, sem nenhum prazer real, pensando na possível chegada de um meirinho furioso, partilhando mais o contato humano do que era possível

com a mulher do bordel.

Não voltou a pensar nela durante sete semanas.

Porém, uma tarde, levado pelo desejo natural, foi até a fábrica de velas. O ar no interior da fábrica era quente e oleoso, pesado com o cheiro concentrado de loureiro

da parafina. Hazel Melville ficou aborrecida quando o viu.

- Não podemos receber visitas. Quer que me despeçam?

Mas antes dele sair, ela disse apressadamente que não podia mais vê-lo, porque durante aquelas semanas ficara noiva de um homem que conhecia há muito tempo. Era

um profissional, um guarda-livros, disse ela, sem disfarçar a satisfação.

Na verdade, Xamã tinha menos distração física do que gostaria de ter. Canalizava tudo - todo desejo, cada esperança e expectativa de prazer, sua energia e sua imaginação

- para o estudo. Cooke dizia, com franca inveja, que Robert J. Cole nascera para estudar medicina e Xamã concordava. Durante toda sua vida tinha esperado por aquilo

que estava encontrando em Cincinnati.

No meio do semestre, ele começou a ir à sala de dissecação sempre que tinha uma hora livre, às vezes sozinho, mas geralmente com Cooke e Billy Henried, para aperfeiçoar

a técnica com os instrumentos, ou para verificar alguma coisa encontrada nos livros ou ouvida numa aula. No começo do curso de A&F, o Dr. McGowan começou a pedir

a Xamã que ajudasse os alunos que apresentassem alguma dificuldade. Xamã estava com notas excelentes nas outras matérias e até o Dr. Meigs o cumprimentava amavelmente

quando se encontravam no corredor. Todos estavam acostumados à sua surdez. Às vezes, muito concentrado durante a aula, na classe ou no laboratório, Xamã voltava

ao antigo hábito de murmurar baixinho, sem perceber. Certa vez o Dr. Berwyn interrompeu a aula e disse.

- Pare de zumbir, Sr. Cole.

No começo do curso alguns alunos riam, mas logo aprenderam a tocar no braço dele, indicando com um olhar que ele devia ficar quieto. Xamã não se importava. Tinha

muita confiança em si mesmo.

Xamã gostava de passear sozinho pelas enfermarias. Certo dia uma paciente reclamou que ele tinha passado por ela sem atender aos seus chamados. Depois disso, para

provar a si mesmo que sua surdez não prejudicava os doentes, adquiriu o hábito de parar ao lado de cada cama, segurar as mãos do paciente e dizer algumas palavras.

301

O espectro do período de experiência há muito tinha desaparecido quando o Dr. McGowan o convidou para trabalhar no hospital durante as férias de julho e agosto.



McGowan disse francamente que ele e o Dr. Berwyn disputavam a ajuda de Xamã, mas resolveram que podiam dividir seus serviços entre os dois.

- Você passa o verão trabalhando para nós dois, fazendo o trabalho sujo para Berwyn todas as manhãs, na sala de operações, e ajudandome na autópsia dos erros dele,

todas as tardes.

Era uma oportunidade maravilhosa e o pequeno salário o ajudaria a compensar o aumento da anuidade.

- Eu gostaria muito - disse ele. - Mas meu pai me espera em casa para ajudar na fazenda, no verão. Tenho de escrever e pedir a permissão dele para ficar aqui.

Barney McGowan sorriu.

- Ah, a fazenda - disse ele. - Posso garantir que você não vai mais trabalhar na fazenda, meu jovem. Seu pai é um médico rural no Illinois, se não me engano? Há

algum tempo estou para perguntar. Alguns anos atrás havia um aluno mais adiantado do que eu na Universidade e no Hospital de Edimburgo. Com o seu nome.

- Sim. Era meu pai. Ele conta a mesma coisa que o senhor contou na primeira aula, sobre Sir William Fergusson dizer que um corpo morto é como uma casa abandonada

pelo dono.

- Lembro-me de que você sorriu quando eu disse isso. Agora compreendo por quê. - McGowan entrecerrou os olhos e disse, pensativamente. - Você sabe por que... bem...

seu pai saiu da Escócia?

Xamã percebeu que McGowan tentava ser discreto.

- Sei. Ele me contou. Problemas políticos. Ele quase foi deportado para a Austrália.

- Eu me lembro - McGowan balançou a cabeça. - Eles usavam o nome dele como uma advertência. Todos na universidade sabiam da história. Ele era protegido de Sir William

Fergusson, com um futuro ilimitado. E agora é um médico rural. Uma pena!

- Não precisa ter pena - Xamã dominou a fúria e finalmente sorriu. - Meu pai é um grande homem - disse, percebendo, com surpresa, que era verdade. Começou a contar

a Barney McGowan uma porção de coisas sobre Rob J. Que tinha trabalhado com Oliver Wendell Holmes, em Boston, contou a penosa viagem através do país, trabalhando

no acampamento de lenhadores e como médico da estrada de ferro. Descreveu o dia em que seu pai teve de atravessar a nado dois rios, com seu cavalo, para chegar à

casa onde ajudou uma mulher a dar à luz gêmeos. Descreveu as cozinhas da pradaria onde seu pai tinha feito operações e falou das vezes em que Rob J. Cole tinha operado

numa mesa tirada da cozinha para fora da casa por causa da luz. Contou do dia em que o pai foi seqüestrado por criminosos que o fizeram remover a bala do braço de

um deles, sob ameaça de uma arma. Falou da noite em que

302

o pai voltava para casa, com uma temperatura de quinze graus abaixo de zero e salvou a própria vida apeando do cavalo e segurando a cauda de Bess deixando que ela



o arrastasse por um bom tempo para fazer voltar a circulação do sangue ao seu corpo”. Barney McGowan sorriu.

- Você tem razão - disse ele. - Seu pai é um grande homem. E um pai com muita sorte.

- Muito obrigado, senhor. - Xamã deu alguns passos para sair da sala, mas parou. - Dr. McGowan, uma das autópsias feitas por meu pai foi de uma mulher assassinada

com onze ferimentos no peito, cada um com aproximadamente 0,95 centímetro de largura. Feitos com um instrumento pontudo, triangular, as três lâminas muito agudas.

O senhor teria idéia do instrumento que poderia ter ocasionado esse tipo de ferimento?

O patologista pensou por alguns momentos, muito interessado.

- Pode ter sido um instrumento cirúrgico. Há o bisturi Beer, com três lados, usado para cirurgia de catarata e para corrigir defeitos da córnea. Mas os ferimentos

que você descreveu eram grandes demais para um bisturi Beer. Talvez tenham sido feitos com algum tipo de bisturi. As bordas dos ferimentos eram de largura uniforme?

- Não. O instrumento, fosse qual fosse, era denteado.

- Nunca ouvi falar de um instrumento desse tipo. Provavelmente não era um instrumento cirúrgico.

Xamã hesitou.

- Podiam ter sido feitos por um objeto usado comumente pelas mulheres?

- Agulha de tricô, ou Coisas assim. É possível, é claro, mas também não conheço nenhum objeto usado pelas mulheres capaz de produzir esse tipo de ferimento - McGowan

sorriu. - Deixe-me pensar no problema por algum tempo, depois falaremos no assunto outra vez.

- Quando escrever para seu pai - disse ele - mande lembranças de alguém que estudou com William Fergusson poucos anos depois dele.

Xamã prometeu que mandaria.

A resposta de Rob J. só chegou a Cincinnati oito dias antes do fim do semestre, mas em tempo para Xamã aceitar o trabalho de verão no hospital.

Seu pai não lembrava do Dr. McGowan mas ficou satisfeito por saber que Xamã estava estudando patologia com outro escocês que tinha aprendido a arte e a ciência da

dissecação com William Fergusson. Pediu ao filho para transmitir seus respeitos ao professor, além da permissão para Xamã trabalhar no hospital.

Era uma carta afetuosa mas breve e Xamã deduziu por ela que seu pai estava triste. Ninguém tinha notícias de Alex e Rob J. dizia que a cada notícia de uma batalha

sua mãe ficava mais amedrontada.

303


48

O PASSEIO DE BARCO

Não passou despercebido a Rob J. que, tanto Jefferson Davis, quanto Abraham Lincoln, conseguiram a liderança no governo ajudando a destruir a nação dos sauks na

guerra com Falcão Negro. Davis, então um jovem tenente, havia descido o Mississipi, levando Falcão Negro e Nuvem Branca, do Forte Crawford para o Quartel Jefferson

onde os dois ficaram presos e agrilhoados. Lincoln lutara contra os sauks com a milícia, como soldado raso e como capitão. Agora, esses dois homens eram chamados

de Sr. Presidente e cada um comandava uma metade da América contra a outra.

Rob J. queria ficar longe desse mundo absurdo e idiota, mas era esperar demais. Na sexta semana de guerra, Stephen Hume foi até Holden’s Crossing para falar com

ele. O ex-senador disse francamente que tinha usado de influência para conseguir o posto de coronel no exército dos Estados Unidos. Tirou licença do lugar de advogado

da estrada de ferro em Rock Island para organizar o 102? Regimento de Voluntários de Illinois e queria oferecer ao Dr. Rob J. o posto de cirurgião do regimento.

- Não é para mim, Stephen.

- Doutor, acho correto ser contra a guerra de modo abstrato. Mas, agora, temos de admitir que há boas razões para esta guerra.

- Não acho que matar uma porção de gente vai mudar a opinião das pessoas sobre a escravidão e o mercado livre. Além disso, vocês precisam de alguém mais jovem. Sou

um homem de quarenta e quatro anos que começa a engordar - Rob estava mais gordo. No passado, quando os escravos fugidos se escondiam no barracão, ele se acostumou

a guardar comida no bolso quando passava pela cozinha - uma batata-doce assada, um pedaço de galinha frita, uns dois pãezinhos doces - para os fugitivos. Agora,

ele continuava a fazer isso, mas comia quando saía para visitar os pacientes.

- Oh, eu quero você mesmo, gordo ou magro, zangado ou de boa paz - disse Hume. - Neste momento temos apenas noventa oficiais médicos em todo o maldito exército.

Vai trabalhar muito. Vai começar como capitão e, antes que dê pela coisa, será major. Médicos como você sobem depressa.

304


Rob balançou a cabeça. Mas gostava de Stephen Hume e estendeu a mão.

- Desejo que volte a salvo, coronel.

Com um sorriso cansado, Hume balançou a cabeça. Alguns dias depois, Rob J. soube que Tom Beckermann fora designado para cirurgião do 102?.

Durante três meses os dois lados brincaram de guerra, mas em julho era evidente que ia haver um grande confronto. Muitos estavam convencidos ainda de que não ia

durar, mas aquela primeira batalha foi uma epifania para a nação. Rob J. lia avidamente os jornais, como qualquer amante da guerra.

Mais de trinta mil soldados da União, comandados pelo general Irvin McDowell, enfrentaram vinte mil confederados, comandados pelo general Pierre G. T. Beauregard,

em Manassas, Virgínia, quarenta e cinco quilômetros ao sul de Washington. Cerca de mais onze mil confederados estavam no vale Shenandoah, comandados pelo general

Joseph E. Johnston, enfrentando outra força da União de quatorze mil homens, comandados pelo general Robert Patterson. Esperando que Patterson mantivesse Johnston

ocupado, no dia 21 de julho, McDowell conduziu seus homens contra os sulistas, perto de Sudley Ford, em Buli Run Creek.

Não chegou a ser um ataque de surpresa.

Imediatamente antes do ataque de McDowell, Johnston livrou-se de Patterson e juntou-se a Beauregard. O plano de batalha dos nortistas era tão conhecido que os senadores

e outros servidores do governo saíram de Washington em charretes, com cestas de piquenique, mulheres e filhos e foram para Manassas, esperar o espetáculo, como se

fosse uma corrida de cavalos. Dezenas de cocheiros tinham sido requisitados pelo exército para cuidar dos cavalos e das carroças que iam servir de ambulâncias, se

houvesse feridos. Muitos desses cocheiros de ambulância levaram suas garrafas de uísque para o piquenique.

Enquanto esses espectadores deliciavam-se com o espetáculo, os soldados de McDowell lançaram-se ao exército reforçado dos confederados. A maioria, nos dois lados,

era de homens inexperientes, que lutavam com mais entusiasmo do que arte. Os cidadãos-soldados do exército confederado recuaram uns poucos quilômetros e pararam

rapidamente, deixando que os nortistas se cansassem em vários assaltos frenéticos. Então Beauregard ordenou o contra-ataque. Os homens da União, exaustos, recuaram

e começaram a retirada. E a retirada se transformou numa debandada geral.

A batalha não foi o que os espectadores esperavam. O ruído dos tiros de rifle e da artilharia e os gritos dos homens eram terríveis, o que se via era muito pior.

Em lugar de um jogo, o que eles viram foi seres

305

humanos transformados em objetos eviscerados, sem cabeça, sem pernas, sem braços. Milhares de mortos. Alguns dos civis desmaiavam. Outros choravam. Todos queriam



fugir, mas uma bala de canhão atingiu uma carroça e matou o cavalo, bloqueando a principal via de fuga. A maior parte dos cocheiros de ambulâncias, alguns bêbados,

outros sóbrios, fugiram com as carroças vazias. Os poucos que tentaram socorrer os feridos foram impedidos pela desordem dos veículos e cavalos dos civis. Os gravemente

feridos ficaram no campo de batalha, onde gritaram até morrer. Os que podiam andar levaram vários dias para chegar a Washington.

Em Holden’s Crossing, a vitória dos confederados renovou o entusiasmo dos simpatizantes do sul. Rob J. ficou mais deprimido com a falta de atendimento aos feridos

do que com a derrota. No começo do outono souberam que o resultado de Buli Run foi de quase cinco mil mortos, feridos e desaparecidos e muitas vidas foram perdidas

por falta de atendimento médico.

Certa noite, na cozinha dos Cole, Rob J. e Jay Geiger evitavam falar sobre a batalha. Comentaram o fato de o primo de Lillian, Judah Benjamin, ter sido designado

para a Secretaria de Guerra, pela Confederação. Mas os dois concordavam com a selvageria idiota dos dois exércitos, que não tomaram nenhuma providência para salvar

seus homens feridos.

- Por mais difícil que seja - disse Jay - não podemos deixar esta guerra destruir nossa amizade.

- Não! É claro que não! - Pode não destruir, pensou Rob J., mas a amizade já andava tensa e prejudicada. Espantou-se quando Geiger, ao partir, o abraçou como se

fossem amantes.

- Para mim, sua família é minha família - disse Jay. - Não existe nada que eu não faria para garantir sua felicidade.

No dia seguinte, Rob J. compreendeu aquela despedida sentimental quando Lillian, na cozinha dos Cole, disse, com os olhos cheios de lágrimas, que o marido partira

para o sul ao nascer do dia para se alistar como voluntário no exército confederado.

Para Rob J. era como se o mundo todo estivesse tão sombrio quanto o cinzento do uniforme dos confederados. Apesar de todos seus esforços, Julia Blackmer, a mulher

do pastor, morreu antes do ar do inverno ficar fino e gelado. No cemitério da igreja, o pastor, chorando, recitou as últimas orações e a primeira pá de terra caiu

com um ruído surdo sobre o caixão de pinho de Julia. Sarah apertou a mão de Rob J. com tanta força que chegou a machucar. O rebanho de Blackmer procurou consolar

o pastor nos dias seguintes ao enterro e Sarah organizou as mulheres para que nunca faltasse ao Sr. Blackmer o conforto de uma companhia e de refeições preparadas

com carinho. Rob J. achava que deviam permitir

306

ao pastor alguma privacidade na dor, mas o Sr. Blackmer parecia muito agradecido por toda aquela atenção.



Antes do Natal, madre Miriam Ferocia disse a Rob que tinha recebido uma carta de uma firma de advocacia de Frankfurt, informando-a da morte de Ernst Brotknecht,

seu pai. Seu testamento determinara a venda da fábrica de carruagens e carroças em Munique e uma considerável quantia esperava sua filha e herdeira, Andréa Brotknecht.

Rob J. apresentou seus sentimentos pela morte do pai que ela não via há anos e depois disse.

- Meu Deus. Madre Miriam, a senhora está rica!

- Não - disse ela, calmamente. Quando tomou o hábito, ela prometera ceder à Santa Madre Igreja todos os seus bens. Já assinara os papéis para doar a herança para

a jurisdição do seu arcebispo.

Rob J. não gostou. Durante todos aqueles anos, testemunhando o sofrimento das freiras, ele fizera uma série de pequenas doações à comunidade. Observou o rigor das

suas vidas, o racionamento e a falta de qualquer coisa que pudesse ser considerada supérflua.

- Um pouco de dinheiro faria muita diferença para as irmãs da sua comunidade. Se não pode aceitar para si mesma, devia pensar em suas freiras.

Mas ela não permitiu que ele a envolvesse na sua revolta.

- A pobreza é parte essencial da vida delas - disse madre Ferocia, inclinando levemente a cabeça, com irritante resignação cristã, quando ele se levantou bruscamente

e foi embora.

Com a ausência de Jay, parte do calor desapareceu da vida de Rob J. Ele teria continuado a tocar com Lillian, mas o piano e a viola de gambá soavam estranhamente

vazios sem o comentário melodioso do violino de Jay e eles sempre encontravam uma desculpa para não tocar sem ele.

Na primeira semana de 1862, num momento de profundo descontentamento, Rob J. teve a satisfação de receber uma carta de Harry Loomis, de Boston, acompanhada da tradução

de um artigo publicado em Viena, há alguns anos, escrito por um médico húngaro, Ignaz Semmelweis. O artigo, intitulado Etiologia, Conceito e Profilaxia da Febre

Puerperal, acentuava a importância do trabalho feito por Oliver Wendell Holmes, na América. No Hospital Geral de Viena, Semmelweis chegara à conclusão de que a febre

puerperal, que vitimava doze parturientes em cem, era contagiosa. Exatamente como Holmes havia feito há algumas décadas, descobriu que os próprios médicos transmitiam

a doença, por não lavarem as mãos.

Harry Loomis dizia que estava muito interessado nos modos de prevenir a infecção de ferimentos e incisões cirúrgicas. Perguntava se Rob J. estava informado sobre

a pesquisa do Dr. Milton Akerson sobre o problema, no Hospital do Vale do Mississipi, em Cairo, Illinois, que Harry acreditava não ficar muito longe de Holden’s

Crossing.

307

Rob J. não tinha ouvido falar do trabalho do Dr. Akerson, mas resolveu imediatamente ir a Cairo. A oportunidade demorou meses para chegar. Ele continuou a enfrentar



a neve para atender os chamados, mas, finalmente, as coisas se acalmaram com a chegada das chuvas da primavera. Madre Míriam garantiu que ela e as suas irmãs tomariam

conta dos pacientes e Rob J. anunciou que ia tirar umas pequenas férias em Cairo. No dia 9 de abril, quarta-feira, montou em Boss, vencendo a lama do degelo nas




1   ...   28   29   30   31   32   33   34   35   ...   51


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal