Noah Gordon, o xamã



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notas. Todos os relatórios eram sobre a morte, porque o Dr. McGowan raramente tratava de pessoas vivas. Como a maioria das pessoas considera a morte como algo sinistro

e triste, estava acostumado a trabalhar em lugares isolados, longe do público. No hospital, onde o Dr. McGowan era chefe do serviço de patologia, a sala de dissecação

ficava no porão do prédio principal. Embora ligada convenientemente à escola por um túnel de tijolos que passava sob a rua, era um lugar sombrio, com canos de metal

cruzando o teto baixo.

O laboratório de anatomia ficava nos fundos do prédio, no segundo andar. Uma janela alta, sem cortina, permitia a entrada da luz cinzenta de inverno na sala comprida

e estreita. Numa extremidade do assoalho irregular e áspero, de frente para a mesa do professor, estava o pequeno anfiteatro, com cadeiras próximas demais umas das

outras, confortáveis, mas que não facilitavam a concentração. Na outra extremidade ficavam as três fileiras de mesas para dissecação. O tanque grande com solução

salina, cheio de partes destacadas do corpo humano, ficava no centro da sala, ao lado da mesa com os instrumentos. Sobre uma tábua larga apoiada em dois cavaletes

estava o corpo coberto por um pano branco de uma mulher jovem. Era sobre a autópsia desse corpo o relatório que o professor escrevia naquele momento.

Quando faltavam vinte minutos para a aula, um estudante entrou no laboratório. O professor McGowan não ergueu os olhos nem cumprimentou o jovem grande e alto. Molhou

a pena no tinteiro e continuou a escrever. O estudante foi até a cadeira no centro da primeira fila do anfiteatro e pôs sobre ela seu caderno de anotações para reservar

o lugar. Depois deu uma volta pelo laboratório examinando tudo com atenção.

Parou na frente do tanque e, para espanto do Dr. McGowan, apanhou a vara de madeira com o gancho de ferro na ponta e começou a puxar as peças mergulhadas na solução

salina, como um garotinho brincando num pequeno lago. Nos seus dezoito anos de profissão, o Dr. McGowan jamais vira um aluno agir daquele modo na aula inaugural

de anatomia. Os novos alunos sempre entravam pela primeira vez no laboratório com um ar de importante dignidade, geralmente com passos lentos, um tanto temerosos.

- Você! Pare com isso. Largue esse gancho! - ordenou McGowan.

O jovem não deu nenhuma atenção, nem mesmo quando o Dr.

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McGowan bateu palmas com força e o professor compreendeu imediatamente de quem se tratava. Começou a se levantar, mas depois sentou de novo, curioso para ver até



onde o aluno ia chegar.

O jovem movia o gancho, escolhendo cuidadosamente dentro do tanque. A maior parte das peças era antiga e muitas já usadas nas aulas. A condição geral de mutilação

e decomposição era o principal elemento de choque da primeira aula de anatomia. McGowan viu a mão que o rapaz puxou para a superfície, depois uma perna bastante

recortada. Depois, um antebraço, evidentemente em melhor estado do que o resto. McGowan observou o modo com que ele usou o gancho para levar a peça até a parte superior

direita do tanque, cobrindo-a depois com várias outras menos perfeitas. Ele a estava escondendo!

O jovem alto pôs o gancho no lugar, foi até a mesa e começou a examinar os vários instrumentos, verificando o corte das lâminas dos bisturis. Quando encontrou um

em melhor estado, ele o afastou um pouco dos outros e então voltou para o anfiteatro e sentou no lugar marcado com seu caderno de anotações.

O Dr. McGowan preferiu ignorá-lo e durante os dez minutos seguintes concentrou-se no seu relatório. Logo os outros alunos começaram a chegar. Todos sentavam imediatamente.

Muitos já entravam pálidos porque o cheiro da sala estimulava suas fantasias e seus temores.

Exatamente na hora marcada, o Dr. McGowan largou a pena e ficou de pé na frente da mesa.

- Senhores - disse ele.

Fez-se silêncio e ele se apresentou.

- Neste curso vamos estudar os mortos para aprender a tratar dos vivos. Os primeiros relatórios desse tipo de estudo foram feitos pelos antigos egípcios, que dissecavam

os corpos das pobres vítimas dos seus sacrifícios humanos. Os antigos gregos são os verdadeiros pais da investigação fisiológica. Havia uma grande escola de medicina

em Alexandria, onde Herófilo da Calcedônia estudava os órgãos e as vísceras do corpo humano. Ele deu os nomes ao calamus scriptorius e ao duodeno.

O Dr. McGowan percebia que os olhos do aluno alto na primeira fila estavam fixos nos seus lábios, literalmente presos a cada palavra.

Falou então do desaparecimento dos estudos de anatomia durante o vazio supersticioso da Idade das Trevas, ou Idade Média, e do seu reaparecimento depois do ano 1300

d.C.


A parte final da exposição foi a advertência de que, depois que o espírito vivo deixa o corpo, este deve ser tratado sem medo, mas com respeito.

- No meu tempo de estudante, na Escócia, o professor de anatomia comparava o corpo depois da morte a uma casa deixada pelo dono. Ele dizia que o corpo devia ser

tratado com cuidadosa dignidade, por respeito à alma que viveu nele - disse o Dr. McGowan, e não gostou do sorriso que viu nos lábios do estudante na primeira fila.

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Mandou que cada um escolhesse uma peça no tanque e um bisturi e começasse a dissecar, fazendo desenhos do que fossem encontrando, para entregar no fim da aula.

No primeiro dia, os alunos sempre hesitavam um momento, antes de obedecer a essa ordem. O aluno da primeira fila mais uma vez foi o primeiro a se adiantar. Foi até

o tanque e apanhou a peça que tinha escondido, e depois o bisturi separado. Enquanto os outros se aproximavam do tanque, ele já estava começando a trabalhar na mesa

mais bem iluminada da sala.

O Dr. McGowan conhecia de sobra a pressão da primeira aula de anatomia. Estava acostumado ao cheiro adocicado que saía do tanque com solução salina, mas sabia o

efeito do mesmo sobre os principiantes. A tarefa que acabava de determinar não era justa, porque o estado da maioria das peças não permitia uma dissecação adequada

nem um desenho preciso, mas o Dr. McGowan levava isso em consideração para o julgamento dos trabalhos. Era mais um exercício disciplinar, o primeiro contato do exército

de novatos com o sangue da batalha. Era um desafio à habilidade de cada um, uma mensagem dura mas necessária dizendo que a prática da medicina era mais do que ganhar

dinheiro e desfrutar uma posição respeitável na comunidade.

Após alguns minutos, muitos já haviam se retirado da sala, um deles, um jovem, quase correndo. Para satisfação do Dr. McGowan, depois de algum tempo quase todos

voltaram. Durante quase uma hora ele andou lentamente entre as mesas, verificando o trabalho dos alunos. Havia vários homens mais velhos que já praticavam a medicina

sob orientação de um médico. O Dr. McGowan observou um deles, Ruel Torrington, e suspirou resignado, pensando na carnificina que devia ser a cirurgia praticada por

aquele homem.

Parou por uma fração de segundo a mais na última mesa, onde um jovem gordo, com o rosto molhado de suor, lutava para dissecar uma cabeça que era quase só ossos.

O rapaz surdo trabalhava de frente para o aluno gordo e suado. Tinha experiência e usava bem o bisturi, abrindo o braço em camadas regulares. Essa prova de um conhecimento

prévio de anatomia agradou e ao mesmo tempo surpreendeu o professor. Notou que as juntas, os músculos, os nervos e os vasos sangüíneos estavam claramente reproduzidos

nos desenhos e devidamente identificados. Enquanto observava, o jovem assinou o desenho e o entregou ao professor. Robert J. Cole.

- Sim. Ah. Cole, no futuro deve escrever com letras maiores.

- Sim, senhor - disse Cole, com voz clara e normal. - Mais alguma coisa?

- Não. Ponha a peça de volta no tanque e faça a limpeza. Depois, pode sair.

Ouvindo isso, uma meia dúzia de alunos apressou-se a entregar seus desenhos, mas o professor os mandou voltar ao trabalho, sugerindo uma revisão dos desenhos ou

alguns modos para melhorar sua técnica.

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Enquanto falava com os alunos, observou Cole levar a peça para o tanque. Viu o rapaz lavar e enxugar o bisturi antes de deixá-lo na mesa. Depois, lavou a parte da



mesa de dissecação que tinha usado, e em seguida esfregou cuidadosamente as mãos e os braços com sabão escuro e água limpa antes de abaixar as mangas.

Antes de sair, Cole parou ao lado do aluno gordo, examinou o desenho dele e murmurou alguma coisa no seu ouvido. O rapaz pareceu se acalmar e com um gesto afirmativo

bateu de leve no ombro de Cole. Então o aluno gordo voltou ao trabalho e o aluno surdo saiu da sala.

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OS SONS DO CORAÇÃO



A escola de medicina era como uma terra distante e estranha na qual Xamã uma vez ou outra ouvia os ecos amedrontadores da iminência da guerra nos Estados Unidos.

Ouviu falar da Convenção de Paz em Washington, com cento e trinta e um delegados de vinte e um estados. Mas na manhã da abertura da Convenção, o Congresso Provisório

dos Estados Confederados da América reuniu-se em Montgomery, Alabama. Alguns dias mais tarde, a Confederação votou a favor da secessão dos Estados Unidos e todos

compreenderam com tristeza que não ia haver paz.

Xamã contudo dedicava apenas parte da sua atenção aos problemas da nação. Estava empenhado na luta pela sobrevivência. Felizmente era um bom aluno. Estudava até

tarde da noite, só parando quando seus olhos cansados não viam mais as letras, e muitas vezes conseguia algumas horas de estudo antes do café da manhã. Tinha aulas

de segunda a sábado, das dez à uma e das duas às cinco da tarde. Geralmente as aulas eram dadas antes ou depois da prática em uma das seis clínicas que davam o nome

à escola. Terça-feira à tarde, doenças do peito; quintafeita à noite, doenças femininas; sábado de manhã, clínica cirúrgica e, à tarde, os alunos observavam o trabalho

dos médicos nas enfermarias do hospital.

No sexto sábado de Xamã na policlínica, o Dr. Meigs deu uma aula sobre o estetoscópio. Meigs estudara na França com professores que tinham aprendido com o próprio

inventor a usar o instrumento. Contou que, certo dia, em 1816, um médico chamado René Laènnec, relutando em encostar o ouvido no seio avantajado de uma paciente

embaraçada,

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enrolou uma folha de papel em forma de tubo e amarrou nela um barbante. Quando Laènnec encostou o tubo no peito da paciente e seu ouvido na outra extremidade, notou



com surpresa, que, ao invés de diminuir, o tubo amplificava os sons.

Meigs disse que, até pouco tempo, os estetoscópios eram tubos simples de madeira através dos quais os médicos ouviam com apenas um ouvido. Mostrou então a versão

mais moderna do instrumento, o tubo era feito de seda e tinha duas peças de marfim, uma para cada ouvido. Durante a ronda nas enfermarias, depois da aula, o Dr.

Meigs usou um estetoscópio com uma segunda saída com um tubo extra, para que o aluno pudesse ouvir junto com o professor. Cada aluno teve a oportunidade de ouvir

uma vez, mas quando chegou a vez de Xamã, ele disse ao professor que não adiantava.

- Eu não poderia ouvir nada. O Dr. Meigs franziu os lábios.

- Deve pelo menos tentar. - Mostrou a Xamã como devia aplicar o instrumento no ouvido. Mas Xamã apenas balançou a cabeça.

- Desculpe-me - disse o professor Meigs.

Foi marcado um exame de clínica médica. Cada aluno devia examinar um paciente, usando o estetoscópio e fazer um relatório. Xamã sabia que ia ser reprovado.

Numa fria manhã ele vestiu o casaco, calçou as luvas, enrolou o cachecol no pescoço e saiu a pé da escola. Um pequeno vendedor de jornais numa esquina anunciava

a posse de Lincoln. Xamã foi até o rio e caminhou durante algum tempo ao longo do cais, pensando.

Quando voltou, seguiu diretamente até o hospital e andou pelas enfermarias, observando os enfermeiros e atendentes. A maioria era de homens e uma grande parte de

bêbados contumazes, que procuravam aquele tipo de trabalho por ser de padrão mais baixo. Observou os que pareciam sóbrios e inteligentes e finalmente resolveu que

um homem chamado Jim Halleck servia para o que pretendia fazer. Esperou que o atendente tivesse deixado a lenha que carregava ao lado do aquecedor e o interpelou.

- Quero lhe fazer uma proposta, Sr. Halleck - disse Xamã.

No dia do exame, a presença do Dr. McGowan e do Dr. Berwyn na clínica médica aumentou o nervosismo de Xamã. O Dr. Meigs começou o exame chamando os alunos por ordem

alfabética. Xamã foi o terceiro, depois de Allard e Bronson. Israel Allard foi muito bem; sua paciente era uma jovem com torção nas costas e coração forte, regular

e sem complicações. Clark Bronson examinou um asmático não muito jovem. Hesitante, ele descreveu os sons da respiração quase estertorante no peito

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do homem. Meigs precisou fazer várias perguntas para obter a informação desejada, mas, no fim, ficou satisfeito.



- Sr. Cole?

Evidentemente ele esperava que Xamã declinasse a participação no exame. Mas Xamã adiantou-se e apanhou o estetoscópio de madeira monoauricular. Olhou para Jim Halleck

que estava sentado a certa distância e o atendente levantou e se pôs ao lado dele. O paciente era um jovem de dezesseis anos, de constituição forte, que tinha cortado

a mão numa tarefa de carpintaria. Halleck encostou uma extremidade do estetoscópio no peito do rapaz e o ouvido na outra. Xamã segurou o pulso do paciente.

- As pulsações são normais e regulares. Uma média de setenta e oito por minuto - disse ele, depois de algum tempo. Olhou para o atendente, que balançou a cabeça.

- Nenhum sinal de estertor - disse Xamã.

- O que significa este... teatro? - perguntou o Dr. Meigs. - O que Jim Halleck está fazendo aqui?

- O Sr. Halleck está substituindo meus ouvidos, senhor - disse Xamã, e notou, aborrecido, os sorrisos de alguns alunos.

O Dr. Meigs não sorriu.

- Compreendo. Seus ouvidos. O senhor vai casar com o Sr. Halleck, Sr. Cole? E levá-lo para onde quer que pretenda praticar a medicina? Pelo resto da sua vida?

- Não, senhor.

- Então, vai pedir a outras pessoas para serem seus ouvidos?

- Talvez, uma vez ou outra.

- E se for socorrer um paciente e não houver ninguém por perto?

- Posso tomar o pulso dele. - Xamã encostou dois dedos na carótida do paciente. - E saber se está normal, acelerado ou muito fraco.

- Encostou a palma da mão no peito do rapaz. - Posso sentir o ritmo da respiração. Posso ver a pele e tocá-la para ver se está febril ou fria, úmida ou seca. Posso

ver os olhos. Se o paciente estiver acordado, posso falar com ele, e consciente ou não, posso observar a consistência do seu catarro, ver a cor e o cheiro da sua

urina, até o gosto, se for preciso.

- Olhando diretamente para o professor, antecipou a objeção antes que o Dr. Meigs tivesse tempo de falar.

- Mas nunca poderei ouvir o estertor no peito.

- Não, não poderá.

- Para mim, a respiração estertorante não me avisará de um problema. Mas quando observo a respiração de um paciente com crupe, posso saber que a respiração no seu

peito está estalando, áspera e difícil. Se meus pacientes respiram com dificuldade acentuada, eu sei que além do estertor, podem-se ouvir bolhas no seu peito. Se

for um caso de asma ou infecção dos brônquios, sei que o estertor é sibilante. Mas não poderei confirmar nada disso. - Fez uma pausa e olhou diretamente para

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o Dr. Meigs. - Não posso fazer nada pela minha surdez. A natureza me roubou um valioso instrumento de diagnóstico, mas eu tenho outros. E, numa emergência, posso



atender meu paciente, usando meus olhos, meu nariz, minha boca, meus dedos e meu cérebro.

A expressão do Dr. Meigs demonstrava claramente que aquela não era a resposta respeitosa que esperava de um aluno do primeiro ano. O Dr. McGowan inclinou-se ao lado

da cadeira do professor e disse alguma coisa no seu ouvido.

O Dr. Meigs olhou para Xamã.

- Foi sugerido que aceitemos sua palavra e que o senhor examine um paciente sem o estetoscópio. Estou disposto a permitir, se o senhor concordar.

Xamã fez um gesto afirmativo, mas com um nó no estômago.

O professor os levou para outra enfermaria e parou ao lado de um paciente que, segundo a papeleta ao pé da cama, chamava-se Arthur Herrenshaw.

- Pode examinar este paciente, Dr. Cole.

Xamã viu imediatamente, pelos olhos do homem, que Arthur Herrenshaw tinha problemas graves.

Retirou o cobertor e o lençol e ergueu a camisola do doente. Herrenshaw parecia extremamente gordo mas, quando Xamã pôs a mão na barriga dele, era como se tocasse

massa de bolo crescida no forno. Desde o pescoço, onde as veias distendidas pulsavam a olhos vistos, até os tornozelos disformes, os tecidos estavam cheios de fluido.

Ele respirava com dificuldade.

- Como está hoje, Sr. Herrenshaw?

Teve de repetir a pergunta, mais alto, para que o paciente respondesse com um leve balançar da cabeça.

- Que idade tem o senhor?

- ... Eu... cin... quenta e dois. - Arfava dolorosamente entre uma sílaba e outra, como se acabasse de dar uma longa corrida.

- Sente dor, Sr. Herrenshaw?... Senhor? Sente dor?

- Oh... - disse o homem, pondo a mão no peito. Xamã notou que ele parecia estar fazendo força para cima.

- Quer sentar? - Ajudou o doente, ajeitando os travesseiros atrás das costas dele.

O Sr. Herrenshaw suava profusamente, mas estremecia com calafrios. A enfermaria era aquecida por um cano grosso e negro que saía do fogão a lenha e corria pelo centro

do teto, e Xamã cobriu os ombros do Sr. Herrenshaw com o cobertor. Tirou o relógio do bolso. Quando tomou o pulso do doente, foi como se o ponteiro grande tivesse

diminuído de velocidade. O pulso era fraco, filiforme e incrivelmente rápido, como as passadas frenéticas de um pequeno animal fugindo de um predador. Xamã teve

dificuldade para contar as pulsações. O pequeno animal diminuiu o passo, parou, deu dois saltos lentos. Começou a correr outra vez.

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Xamã sabia que aquele era o momento em que o Dr. Meigs teria usado o estetoscópio. Podia imaginar os sons interessantes e trágicos que teria ouvido, os sons de um

homem afogando-se nos fluidos do próprio corpo.

Segurou as mãos do Sr. Herrenshaw e ficou gelado ao receber a mensagem. Sem perceber o que fazia, ele tocou de leve no ombro do homem antes de se afastar da cama.

Voltaram para a sala, para ouvir o relatório de Xamã.

- Eu não sei o que provocou o acúmulo de fluido nos tecidos. Não tenho bastante experiência para entender isso. Mas o pulso do paciente está fraco e filiforme. Irregular.

O coração está falhando, com cento e trinta e duas batidas por minuto, quando acelerado. - Olhou para Meigs.

- Nestes últimos anos ajudei meu pai na autópsia de dois homens e uma mulher que morreram do coração. Nos três casos, uma parte da parede do coração estava morta.

O tecido parecia queimado por uma brasa viva.

- O que faria por ele?

- Eu o manteria aquecido. Daria soporíficos. Ele vai morrer dentro de poucas horas, portanto devemos aliviar sua dor. - Imediatamente percebeu que tinha falado demais,

mas era tarde.

Meigs atacou.

- Como sabe que ele vai morrer?

- Eu senti - disse Xamã, em voz baixa.

- O quê? Fale alto, Sr. Cole, para que toda a classe possa ouvir.

- Eu senti, senhor.

- Não tem experiência suficiente para saber sobre acúmulo de fluidos, mas é capaz de sentir a morte iminente - disse o professor, secamente. Olhou para a classe.

- A lição neste caso é clara, senhores. Enquanto existe vida num paciente, nós nunca - vocês não devem nunca

- devemos condená-lo à morte. Lutamos para transmitir a ele uma fé sempre renovada, até o fim. Compreendeu isso, Sr. Cole?

- Sim, senhor - disse Xamã, contrito.

- Então, pode voltar ao seu lugar.

Xamã levou Jim Halleck para jantar num bar perto do rio com serragem no chão, onde comeram carne de boi cozida com repolho e cada um tomou três canecões de cerveja

escura e amarga. Não era uma comemoração de vitória. Nenhum deles sentia-se bem com o acontecido. Além de concordarem que Meigs era um tormento, pouco tinham a dizer

e, quando terminaram de comer, Xamã agradeceu a Halleck, pagou pelo trabalho e o atendente voltou para a mulher e os filhos alguns dólares mais rico do que quando

saíra de casa naquela manhã.

Xamã ficou no bar e tomou mais cerveja, sem se preocupar com o efeito do álcool sobre seu Dom. Não acreditava que a utilidade do Dom fosse durar muito tempo em sua

vida.

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Voltou para o dormitório cautelosamente, procurando pensar apenas na necessidade de pôr um pé na frente do outro e subiu para seu beliche vestido como estava.

Pela manhã descobriu outra boa razão para evitar a bebida, sua cabeça e os ossos do rosto doíam insuportavelmente. Levou um longo tempo para se lavar e trocar de

roupa e estava tomando café, atrasado, quando um aluno do primeiro ano, chamado Rogers, entrou correndo no refeitório do hospital.

- O Dr. McGowan quer que você vá imediatamente ao laboratório do hospital.

Quando Xamã chegou à sala de teto baixo, no porão, encontrou o Dr. Berwyn e o Dr. McGowan. O corpo de Arthur Herrenshaw estava sobre a mesa.

- Estávamos à sua espera - disse o Dr. McGowan irritado, como se Xamã estivesse atrasado para um encontro.

- Sim, senhor - respondeu ele, sem saber o que dizer.

- Quer começar a abrir? - perguntou o Dr. McGowan. Xamã nunca tinha feito uma autópsia. Mas vira seu pai fazer várias

e fez um gesto afirmativo. O Dr. McGowan estendeu o bisturi para ele. Fez a incisão no peito sob os olhares atentos dos dois médicos. O Dr. McGowan cortou as costelas,

removeu o esterno e, inclinando-se, segurou o coração e o ergueu levemente para que o Dr. Berwyn e Xamã pudessem ver a marca arredondada do que parecia ser uma queimadura

na parede do músculo cardíaco do Sr. Herrenshaw.

- Há uma coisa que você precisa saber - o Dr. Berwyn disse para Xamã. - Às vezes o dano ocorre no interior do coração e não pode ser visto na parede do órgão.

Xamã balançou a cabeça, indicando que tinha compreendido.

McGowan disse alguma coisa para o Dr. Berwyn e Berwyn riu. O Dr. McGowan olhou para Xamã. Seu rosto parecia de couro enrugado e foi a primeira vez que Xamã o viu

sorrir.

- Eu disse a ele “Vá lá fora e traga-me mais alguns surdos” - disse o Dr. McGowan.



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OS DIAS EM CINCINNATI

Diariamente, durante a primavera cinzenta do tormento nacional, multidões ansiosas reuniam-se no lado de fora dos escritórios do Commer-

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ciai de Cincinnati para ler as últimas notícias da guerra, escritas com giz no quadro-negro. O presidente Lincoln ordenou o bloqueio de todos os portos confederados

pelo Departamento Federal da Marinha e conclamava os homens dos estados do Norte para responderem ao chamado da pátria. Por toda a parle só se falava na guerra,

com muitos palpites e sugestões. O general Winfield Scott, chefe do exército da União, era um sulista que apoiava os Estados Unidos, mas era um homem velho e cansado.

Um paciente da enfermaria contou a Xamã que Lincoln oferecera ao coronel Robert E. Lee o comando das forças da União. Mas alguns dias depois os jornais anunciavam

que Lee havia declinado do posto, preferindo lutar pelo Sul.

Antes do fim do semestre, mais de uma dezena de alunos da Escola Policlínica de Medicina, quase todos com dificuldades no curso, abandonaram os estudos para se alistar




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