Noah Gordon, o xamã



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sempre fez na Escócia.

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- Sim. Mas nesse caso o trabalho vai aumentar como o diabo. Vamos precisar de mais um par de braços - disse Alden, embaraçado, e Xamã imaginou se Alex teria contado



a Alden seu plano de fugir de casa. - Doug Penfield está disposto a trabalhar para você por meio período. Foi ele quem me disse.

- Acha que ele é bom?

- Claro que é, ele é de New Hampshire. Não é o mesmo que ser

de Vermont, mas é quase.

Rob J. concordou e Doug Penfield foi contratado.

Naquela primavera, Xamã fez amizade com Lucille Williams, filha de Paul Williams, o ferreiro. Durante alguns anos Lucille freqüentara a academia, e Xamã havia sido

seu professor de matemática. Agora era uma moça. Seu cabelo louro, que ela usava preso num grande coque no alto da cabeça, era mais acinzentado do que os das suecas

dos seus sonhos, mas tinha um sorriso franco e um rosto muito doce. Sempre que a encontrava na cidade, Xamã parava para conversar como se fossem velhos amigos e

perguntar sobre seu trabalho que consistia em ajudar o pai nos estábulos e a mãe na loja Roberta’s de roupas femininas na rua Principal. Essas ocupações lhe permitiam

uma certa flexibilidade de horário e liberdade porque os pais nunca estranhavam sua ausência, o pai, pensando que ela estava na loja, a mãe, que estava nos estábulos.

Assim, quando Lucille perguntou se Xamã podia entregar manteiga da fazenda em sua casa, às duas horas da tarde, ele ficou excitado e nervoso.

Lucille explicou que Xamã devia deixar o cavalo na rua Principal, na frente das lojas, e dar a volta no quarteirão, a pé, até a avenida Illinois, atravessar a propriedade

dos Reimer, atrás da fileira de arbustos altos, para não ser visto, saltar a cerca para o quintal dos Williams e bater na porta dos fundos.

- Assim não vai parecer... você sabe, estranho para os vizinhos -

disse ela, abaixando os olhos.

Não foi surpresa para Xamã, porque Alex já tinha entregue manteiga na casa dela há quase um ano, com relatórios subseqüentes, mas Xamã estava apreensivo temendo

não ser tão bom quanto Alex.

No dia seguinte, os lilases dos Reimer estavam em flor. A cerca era fácil de ser transposta e a porta dos fundos abriu-se na primeira batida. Lucille elogiou efusivamente

o modo como a manteiga estava embrulhada em panos limpos, que ela dobrou e deixou sobre a mesa da cozinha ao lado do prato. Em seguida, levou a manteiga para a despensa

fria. Voltou, segurou a mão de Xamã e o levou para a sala ao lado da cozinha, evidentemente a sala de provas de Roberta Williams. Num canto estava meia peça de fazenda

e havia pedaços de seda e cetim, chita e tecidos de algodão dobrados numa comprida prateleira. Ao lado de um longo sofá de crina estava um manequim de arame e pano,

e Xamã notou, fascinado, que ele tinha nádegas de marfim.

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Ela ofereceu o rosto para um único e longo beijo, e então os dois estavam se despindo com pressa e ordem, arrumando as roupas em duas pilhas perfeitas, as meias



nos sapatos. Ele observou clinicamente que o corpo de Lucille não era bem distribuído. Os ombros eram estreitos e caídos, os seios pareciam panquecas pouco crescidas,

com uma gota de geléia no centro e enfeitadas com cereja marrom-clara. A parte abaixo da cintura era pesada, com quadris largos e pernas grossas. Quando ela se voltou

para cobrir o sofá com um lençol acinzentado (“os arranhões da crina!”), Xamã viu que o manequim da costureira não era para as saias dela, que deviam ser bem maiores.

Ela não soltou o cabelo.

- Demora muito para pentear de novo - disse, desculpando-se, e ele garantiu, quase formalmente, que estava bem.

O ato em si foi fácil. Ela se encarregou disso e Xamã há tanto tempo ouvia as gabolices de Alex e de outros, que não saiu dos trilhos nem uma vez, pois tinha uma

boa idéia dos sinais da estrada. Um dia antes, ele nem teria sonhado em tocar as nádegas de marfim do manequim da costureira, e agora estava tocando carne quente

e viva, lambendo a geléia e comendo as cerejas. Rapidamente e com grande alívio ele se livrou do peso da castidade num clímax estremecedor. Sem poder ouvir o que

ela murmurava ofegante junto a suas orelhas, ele usou ao máximo todos os outros sentidos e ela obedeceu, assumindo todas as posições exigidas para uma cuidadosa

inspeção, até Xamã estar pronto para repetir a experiência, dessa vez mais demorada. Ele estava disposto a continuar e continuar, mas Lucille olhou rapidamente para

o relógio e saltou do sofá, dizendo que o jantar precisava estar pronto quando os pais chegassem em casa. Enquanto se vestiam, planejaram o futuro. Ela (e aquela

casa vazia!) estava disponível durante o dia. Infelizmente era quando Xamã trabalhava. Combinaram que ela tentaria estar em casa às terças e sextas, às duas horas,

para o caso dele poder ir à cidade. Desse modo, explicou ele, com espírito prático, podia apanhar a correspondência.

Com o mesmo espírito prático, quando se despediu com um beijo, ela disse que gostava de açúcar-cande, o cor-de-rosa, não o verde que tinha gosto de hortelã. Ele

garantiu que sabia a diferença. No outro lado da cerca, caminhando com uma leveza nunca antes experimentada, ele passou outra vez por baixo da longa linha de arbustos

de lilases carregados de flores, sentindo o perfume pesado e arroxeado que seria, durante toda sua vida, o cheiro mais erótico do mundo.

Lucille gostava da maciez das mãos dele, sem saber que eram macias porque estavam quase sempre cobertas pela lanolina das peles de carneiro. A tosquia, que seguiu

até meados de maio, foi feita quase toda por Xamã, Alex e Alden, e por um Doug Penfield ansioso para aprender, mas desajeitado ainda com os tosquiadores. A maior

parte do tempo eles o

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faziam catar e raspar as peles. Doug chegava sempre com notícias do mundo lá fora, como o fato de que os republicanos tinham escolhido Abraham Lincoln como seu candidato

à presidência. Quando todas as peles estavam enroladas, atadas e arrumadas em fardos, eles souberam também que os democratas tinham se reunido em Baltimore e escolhido

Douglas como seu candidato, depois de acirrado debate. Em poucas semanas, os democratas do sul convocaram outra reunião e escolheram para candidato à presidência

o vice-presidente John C. Breckinridge, que protegeria o direito à posse de escravos.

Regionalmente, os democratas eram mais unidos e mais uma vez escolheram John Kurland, o advogado de Rock Island, para disputar com Nick Holden sua cadeira no Congresso.

Nick era o candidato do partido republicano e do partido americano e apoiava a candidatura de Lincoln, na esperança de tomar uma carona no trem presidencial. Lincoln

aceitou o apoio dos Não Sabem de Nada e por isso Rob J. decidiu que não poderia votar nele.

Xamã achava difícil se concentrar na política. Em julho recebeu uma carta da Faculdade de Medicina de Cleveland com outra recusa e no fim do verão fora recusado

pelo Colégio de Medicina de Ohio e pela Universidade de Louisville. Disse a si mesmo que precisava só de uma resposta positiva. Na terça-feira da primeira semana

de setembro, quando Lucille o esperou em vão, Rob J. chegou em casa com a correspondência e entregou a Xamã um envelope comprido e marrom cujo remetente era a Escola

de Medicina do Kentucky. Xamã o levou para o celeiro e abriu. Ficou satisfeito por estar sozinho porque era outra recusa e deitou-se no feno, esforçando-se para

não ceder ao pânico.

Ainda estava em tempo de ir a Galesburg e matricular-se no terceiro ano do Colégio Knox. Seria mais seguro, uma volta à rotina na qual tinha sobrevivido antes, e

onde se saíra muito bem. Com o diploma de bacharel a vida podia ser mais interessante, pois poderia então estudar ciência no leste. Talvez até mesmo na Europa.

Se não voltasse para Knox e não fosse aceito em nenhuma faculdade de medicina, o que seria da sua vida?

Mas não saiu imediatamente para dizer ao pai que ia voltar ao colégio. Ficou deitado no feno por um longo tempo, depois levantou-se, apanhou a pá e o carrinho e

começou a limpar o celeiro, um ato que, por si só, era uma espécie de resposta.

Era impossível evitar a política. Em novembro, o pai de Xamã admitiu abertamente que tinha votado em Douglas, mas era o ano de Lincoln, pois os democratas do norte

e do sul dividiram o partido com seus candidatos diferentes e Lincoln venceu facilmente. Como uma espécie de pequeno consolo, Nick Holden finalmente foi vencido

na disputa pelo lugar no Congresso.

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- Pelo menos John Kurland vai ser um bom senador - disse Rob J.



No armazém-geral especulavam se Nick voltaria a Holden’s Crossing para advogar.

A pergunta foi respondida depois de algumas semanas, quando Abraham Lincoln começou a anunciar algumas das nomeações para seu novo governo. O honrado congressista

Nicholas Holden, herói das guerras sauk e ardente defensor da candidatura do Sr. Lincoln, foi nomeado Comissário de Assuntos Indígenas nos Estados Unidos. Sua tarefa

consistia em fazer tratados com as tribos do oeste e providenciar reservas adequadas, em troca da conduta pacífica e desistência de todas as outras terras e territórios

indígenas.

Rob J. ficou rabugento e deprimido durante semanas.

Para Xamã particularmente foi uma época de tensão e infelicidade, e também uma época de tensão e infelicidade para o resto do país, no entanto, muito mais tarde,

Xamã lembrar-se-ia daquele inverno com saudade, vendo-o na memória como uma preciosa cena rural gravada por mãos hábeis e pacientes e congelada numa casa de cristal.

A casa, o celeiro. O rio gelado, campos cobertos de neve. As ovelhas e os cavalos e as vacas leiteiras. Cada pessoa, um indivíduo. Todos seguros e unidos no lugar

que era deles.

Mas o cristal fora derrubado da mesa e começava a cair.

Alguns dias após a eleição de um presidente cuja campanha fora baseada no fim da escravidão, os estados do sul começaram o movimento para a secessão. A Carolina

do Sul tomou a iniciativa e as forças do exército dos Estados Unidos que ocupavam dois fortes no porto de Charleston passaram para o maior dos dois, o Forte Sumter.

Imediatamente o forte foi sitiado. Em rápida sucessão, as milícias dos estados da Geórgia, Alabama, Flórida, Louisiana e Mississipi tomaram as instalações dos Estados

Unidos das forças federais de paz, muito mais numerosas, em alguns casos, depois de luta.

Queridos mamãe e papai,

Vou com Mal Howard me alistar no exército do sul. Não sabemos exatamente em qual estado vamos nos alistar. Mal gostaria de ir para o Tennessee, para servir com seus

parentes. Para mim tanto faz, a não ser que possa ir para a Virgínia dizer alô aos nossos parentes.

O Sr. Howard diz que é importante para o sul organizar um exército de voluntários para mostrar ao Sr. Lincoln que não estamos brincando. Ele diz que não vai haver

guerra, que não passa de uma briga em família. Assim, estarei de volta a tempo para as crias da primavera.

Nesse meio-tempo, papai, talvez eu ganhe um cavalo e uma arma só para mim!

Do filho que os ama, Alexander Bledsoe Cole.

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l

Xamã encontrou outro bilhete no quarto, rabiscado num pedaço de papel pardo de embrulho debaixo do canivete igual ao seu, presente de Rob J.



Irmãozinho,

Tome conta dele para mim. Não quero perdê-lo. Vejo você logo.

Maior.

Rob J. foi imediatamente à casa de Julian Howard, que admitiu com atitude de desafio temeroso ter levado os dois jovens a Rock Island de charrete, na noite anterior,



logo depois que terminaram o trabalho.

- Não precisa ficar todo nervoso, pelo amor de Deus! São homens crescidos e não passa de uma pequena aventura.

Rob J. perguntou em qual porto do rio ele os tinha deixado. Rob estava muito perto dele, com toda sua altura e força e Howard, percebendo o desprezo na voz do médico

orgulhoso, gaguejou que os tinha deixado perto do cais da Companhia de Transporte Três Estrelas.

Rob J. seguiu direto para o cais sabendo que tinha pouca chance de conseguir levá-los de volta. Se estivesse tão frio quanto nos invernos anteriores, talvez tivesse

mais sorte, mas o rio não estava congelado e era grande o movimento. O gerente da companhia de transporte de carga olhou para ele com ar de espanto quando Rob perguntou

se tinha visto dois rapazes procurando trabalho em uma das barcaças ou balsas que desciam o rio.

- Moço, tivemos setenta e duas embarcações carregando e descarregando neste cais ontem, e isso fora da temporada, e somos apenas uma das companhias de transporte

fluvial do Mississipi. A maioria dessas embarcações emprega jovens fugidos da família em toda a parte, portanto eu nem noto mais - disse ele, sem demonstrar má vontade.

Para Xamã, os estados do sul pareciam estar se separando como pipocas no óleo quente. Sua mãe, sempre com os olhos vermelhos de chorar, passava os dias rezando e

seu pai continuava a fazer as visitas aos doentes, mas sem sorrir. Em Rock Island uma das lojas de rações passou parte da mercadoria para um quarto dos fundos e

alugou metade do seu espaço para um recrutador do exército. Xamã entrou na loja certo dia pensando que, se todo o resto falhasse na sua vida, poderia carregar maças

com feridos, porque era grande e forte. Mas o cabo encarregado do alistamento ergueu as sobrancelhas ironicamente quando soube que Xamã era surdo e o mandou voltar

para casa.

Xamã achava que, com o resto do mundo indo para o inferno, não tinha direito de se preocupar com a confusão da sua vida. Na segunda terça-feira de janeiro seu pai

levou para casa uma carta, e outra, na sexta-feira. Rob J. o surpreendeu, mostrando que tinha contado o número de respostas recebidas pelo filho.

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- Esta é a última, não é? - disse Rob J. naquela noite, depois do jantar.



- Sim, da Faculdade de Medicina do Missouri. Uma recusa - disse Xamã e o pai fez um gesto afirmativo, sem nenhuma surpresa.

- Mas esta é a carta que chegou na terça-feira - disse Xamã, tirando o envelope do bolso.

Era do diretor Lester Nash Berwyn, doutor na Escola de Medicina Policlínica de Cincinnati. A escola o aceitava como aluno com a condição dele fazer o primeiro semestre

a título experimental. A escola, filiada ao Hospital de Cincinnati, oferecia um programa de estudo de dois anos para o diploma de doutor em medicina, quatro períodos

a cada ano. O próximo período começaria em 24 de janeiro.

Xamã tinha tudo para sentir a alegria da vitória, mas sabia que o pai estava vendo a palavra “condição” e “experimental” e preparou-se para a discussão. Com a partida

de Alex, precisavam dele na fazenda, mas estava resolvido a não perder essa oportunidade. Por várias razões, algumas egoístas, ficou zangado porque o pai deixara

Alex escapar. E já que tocaram no assunto, estava zangado porque o pai tinha tanta certeza de que Deus não existia e porque não compreendia que a maioria das pessoas

não era suficientemente forte para ser pacifista.

Mas quando Rob J. ergueu os olhos da carta, Xamã viu os olhos e a boca dele. A descoberta de que o Dr. Rob J. Cole não era invulnerável o atingiu como uma flecha.

- Alex não vai ser ferido. Ele vai ficar bem! - exclamou Xamã mas sabia que não era a afirmação honesta de uma pessoa responsável, de um homem. A despeito da existência

da sala com o manequim de arame com nádegas de marfim, e da chegada da carta de Cincinnati, ele compreendeu que era apenas o desejo sem valor de um garoto desesperado.

Parte 5

BRIGA EM FAMÍLIA



24 de janeiro, 1861

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NA POLICLÍNICA

Cincinnati era maior do que Xamã esperava, as ruas com tráfego intenso, o rio Ohio sem gelo e cheio de embarcações. A fumaça intimidadora das fábricas subia das

chaminés altas. Havia gente por toda parte. Ele podia imaginar o barulho que faziam.

Um bonde puxado por cavalos o levou da estação da estrada de ferro do cais diretamente para a terra prometida na rua Nove. O Hospital compunha-se de dois prédios

de tijolos vermelhos, cada um com três andares, e um pavilhão de isolamento, de madeira, com dois andares. No outro lado da rua, em outro prédio de tijolos, encimado

por uma cúpula com laterais de vidro, ficava a Escola de Medicina Policlínica de Cincinnati.

Dentro Xamã viu salas de aula e salões de conferências modestamente mobiliados. Perguntou onde ficava o escritório do diretor e um aluno indicou a escada de carvalho

que levava ao segundo pavimento. O Dr. Berwyn era um homem jovial de meia-idade, com bigode branco e uma calva que brilhava na luz suave das janelas altas e sujas.

- Ah, então você é Cole.

Indicou uma cadeira. Seguiu-se uma preleção sobre a história da escola de medicina, das responsabilidades dos bons médicos e da necessidade de rigorosos hábitos

de estudo. Xamã sabia que era um discurso decorado, feito para todos os novos alunos, mas dessa vez teve um arremate só para ele.

- Não deve se deixar intimidar por sua condição - disse o Dr. Berwyn, cautelosamente. - De certo modo, todos os alunos aqui estão em caráter experimental e devem

provar que podem ser candidatos.

De certo modo. Xamã era capaz de apostar que nem todos os alunos tinham sido avisados dessa condição por carta. Porém, agradeceu cortesmente. O Dr. Berwyn disse

onde ficava o dormitório, uma casa de madeira com três andares, escondida atrás da escola de medicina. Um aviso afixado no corredor dizia que Cole, Robert J. estava

no quarto DoisB, com Cooke, Paul P.; Torrington, Ruel; e Henried, William.

O Dois-B era um quarto pequeno completamente ocupado por duas camas beliche, duas cômodas e uma mesa com quatro cadeiras, numa das quais estava sentado um jovem

gordo, escrevendo.

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- Alôooo! Eu sou P.P. Cooke, de Xenia. Billy Henried foi apanhar os livros. Então, você deve ser Torrington, do Kentucky, ou o cara surdo.

Xamã riu e a tensão desapareceu por completo.

- Eu sou o cara surdo - disse ele - Incomoda-se se o chamar de Paul?

Naquela noite eles se observaram, tirando conclusões. Cooke era filho de um comerciante de rações, bastante próspero, a julgar por suas roupas e outros objetos.

Xamã percebeu que ele estava acostumado a bancar o tolo, talvez por ser gordo, mas havia uma inteligência viva nos olhos castanhos, que não perdiam nada. Billy Henried

era magro e quieto. Disse que crescera numa fazenda perto de Columbus e estudara num seminário durante dois anos antes de decidir que não fora talhado para a vida

religiosa. Ruel Torrington, que só chegou depois do jantar, foi uma surpresa. Tinha o dobro da idade dos outros três, um veterano na prática da medicina. Muito cedo

começou o aprendizado com um médico e tinha resolvido fazer a escola de medicina para legitimar seu título de “doutor”.

Os outros três estudantes do Dois-B ficaram entusiasmados, pensando que seria vantajoso para eles estudar com um médico experiente, mas Torrington chegou mal-humorado

e continuou assim durante todo o tempo que esteve com eles. A única cama vazia quando ele chegou era a de cima de um dos beliches, encostado na parede, e ele não

gostou. Deixou bem claro que desprezava Cooke porque ele era gordo, Xamã porque era surdo e Henried porque era católico. Sua animosidade contribuiu para unir os

outros três, muito mais do que uma aliança antiga, e eles não perdiam tempo com ele.

Cooke tinha chegado há alguns dias e informou os outros de tudo que já sabia. O corpo docente da escola era quase todo formado por nomes muito respeitados na profissão,

mas dois brilhavam mais do que os outros. Um era o professor de cirurgia, Dr. Berwyn, que era também diretor. O outro era o Dr. Barnett A. McGowan, patologista,

que lecionava a matéria mais temida, a A&F - anatomia e fisiologia.

- Eles o chamam de Barney quando ele não está presente - disse Cooke. - Dizem que é responsável por mais reprovações do que todos os outros juntos.

Na manhã seguinte Xamã foi a um banco e depositou numa poupança quase todo o dinheiro que tinha levado. Ele e o pai haviam planejado cuidadosamente suas necessidades

financeiras. A faculdade custava sessenta dólares por ano, cinqüenta, se pago adiantado. Acrescentaram dinheiro para casa e comida, livros, transporte e outras despesas.

Rob J.

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estava disposto a pagar tudo que fosse necessário, mas Xamã teimosamente insistia na idéia de que, como o curso de medicina era invenção sua, ele devia pagar. No

fim, chegaram a uma solução. Xamã assinou uma declaração prometendo pagar ao pai até o último dólar, quando se formasse.

Saiu do banco e foi procurar o tesoureiro da escola para pagar sua anuidade. O tesoureiro explicou que se ele fosse dispensado por motivos de ordem acadêmica ou

de saúde, apenas parte da anuidade seria devolvida, o que não contribuiu para animar o espírito de Xamã.

A sua primeira aula foi uma palestra de uma hora sobre ginecologia. Xamã aprendera no colégio que era importante chegar cedo às aulas para conseguir um lugar de

onde pudesse ler os lábios dos professores. Sentou na primeira fila, o que foi bom pois o professor Harold Meigs falava muito depressa. Xamã tinha aprendido a tomar

notas enquanto olhava para os lábios do professor. Escrevia com clareza, certo de que Rob J. iria pedir para ler suas anotações de aula para saber o que estava acontecendo

na escola de medicina.

Na aula seguinte, de química, constatou que já tinha bastante conhecimento das técnicas de laboratório para a escola de medicina, o que o animou e despertou seu

apetite tanto para a comida quanto para o trabalho. Almoçou rapidamente no refeitório do hospital, sopa e biscoitos salgados, nada de especial. Depois foi à Livraria

Cruishank, que atendia os estudantes de medicina, alugou um microscópio e comprou os livros que constavam da lista. Terapêutica Geral e Matéria Medica, de Dunglison,

Fisiologia Humana, de McGowan, Tábuas Anatômicas, de Quain, Cirurgia Operatória, de Berwyn, Química, de Fowne, e dois livros de Meigs, A Mulher, suas Doenças e Remédios

e Doenças Infantis.

Quando o velho empregado da livraria fazia as contas, Xamã viu o Dr. Berwyn conversando com um homem pequeno e carrancudo com a barba e o cabelo grisalhos e bem

aparados. Era tão cabeludo quanto Berwyn era calvo. Estavam discutindo acaloradamente, mas em voz baixa, pensou Xamã, porque ninguém parecia dar atenção aos dois.

O Dr. Berwyn estava de lado, mas o outro homem bem de frente e Xamã instintivamente leu os lábios dele.

... sei que o país vai entrar em guerra, Estou consciente, senhor, de que esta classe tem quarenta e dois alunos, ao invés de sessenta como de hábito, e sei muito

bem que alguns deles irão para a guerra quando o estudo da medicina ficar pesado demais. Especialmente numa situação como esta devemos nos prevenir contra a baixa

nos nossos padrões. Harold Meigs me disse que o senhor aceitou alguns alunos que foram rejeitados no ano passado. Disseram-me que entre eles há um surdomudo...

Felizmente para Xamã, nesse momento o empregado da livraria tocou no seu ombro e mostrou a conta.

- Quem é aquele senhor que está conversando com o Dr. Berwyn? - perguntou Xamã, o mudo, recuperando a voz.

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- É o Dr. McGowan, senhor - disse o homem.

Xamã fez um gesto afirmativo, apanhou seus livros e saiu.

Algumas horas mais tarde, o professor Barnett Alan McGowan estava à sua mesa, no laboratório de dissecação da escola de medicina, passando para o arquivo algumas




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