Noah Gordon, o xamã



Baixar 2.32 Mb.
Página3/51
Encontro18.09.2019
Tamanho2.32 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   51

e os braços vigorosamente quando o último aluno saiu.

- Seu trabalho foi bastante satisfatório.

E por que não, Rob J. teve vontade de dizer, se era uma coisa que qualquer bom estudante pode fazer. Mas ao invés disso, pediu pagamento adiantado, se fosse possível.

- Disseram-me que está trabalhando para o dispensário. Eu também trabalhei. Um trabalho duro e mal recompensado, mas muito instrutivo. - Holmes tirou duas notas

de cinco dólares da carteira. - A metade do salário mensal é suficiente?

Rob J., procurando disfarçar o alívio que sentia, agradeceu. Os dois apagaram as luzes e despediram-se no último degrau da escada. Rob J. não esquecia das duas notas

no seu bolso. Quando passou pela padaria Allen, um homem estava tirando as bandejas de doces da vitrina, preparando-se para fechar, e Rob J. entrou e comprou duas

tortas de amora para comemorar sua boa sorte.

Pretendia comer as tortas no quarto, mas quando chegou a criada estava acabando de lavar os pratos e ele entrou na cozinha e estendeu

para ela as duas tortas.

- Uma é para você, se me ajudar a roubar um pouco de leite.

Ela sorriu.

- Não precisa falar baixo. Ela está dormindo. - Apontou para o quarto da Sra. Burton, no segundo andar. - Depois que ela pega no sono, nada a acorda. - Enxugou as

mãos e apanhou a lata de leite e duas

30
xícaras limpas. Saborearam as tortas e a conspiração do roubo do leite. O nome dela era Margaret Holland, mas todos a chamavam de Meg. Quando terminaram o banquete,

uma gotinha de leite ficou no canto dos lábios polpudos da moça e Rob J. estendendo o braço, a retirou com a ponta do dedo firme de cirurgião.

Não demorou muito para que ele percebesse a falha terrível no sistema do dispensário. Os nomes nos papéis que recebia de manhã não eram das pessoas mais doentes

do bairro de Fort Hill. O plano de assistência médica era discriminativo e antidemocrático; os talões para tratamento eram distribuídos entre os ricos patrocinadores

da caridade, que os dividiam arbitrariamente, muitas vezes como recompensa, aos próprios empregados. Era comum Rob J. perder tempo procurando uma casa para um tratamento

sem importância, enquanto que no outro lado do corredor um desempregado morria por falta de assistência. O juramento médico o proibia de deixar sem tratamento os

doentes graves, mas, para manter o emprego, tinha de devolver um grande número de talões, para confirmar o atendimento aos pacientes indicados.

Certa noite ele discutiu o assunto com o Dr. Holmes.

- Quando eu trabalhava para o dispensário, recolhia os talões de tratamento dos amigos da minha família que patrocinavam a caridade - disse o professor. - Vou fazer

isso outra vez e entregar todos a você.

Rob J. agradeceu, mas não ficou muito animado. Sabia que não ia poder conseguir um número suficiente de talões em branco para tratar de todos os que precisavam de

assistência no Oitavo Distrito. Para isso seria preciso um exército de médicos.

A melhor parte do dia era quando ele voltava para a Spring Street e passava alguns minutos saboreando as sobras do jantar, contrabandeadas por Meg Holland. Passou

a levar pequenos presentes para ela, a título de suborno, um saco de castanhas assadas, um pedaço de açúcar de bordo, maçãs amarelas. A jovem irlandesa contava as

fofocas da pensão - o Sr. Stanley Finch, segundo andar, de frente, vivia se gabando - só se gabando! - dizendo que tinha fugido de Gardner por ter engravidado uma

moça; a Sra. Burton era imprevisível, num momento muito amável, no outro uma peste; o criado, Lemuel Raskin, no quarto pegado ao de Rob J., tinha uma sede danada.

31

Depois de uma semana, ela mencionou casualmente que quando davam a Lem meio litro de conhaque ele tomava tudo de uma só vez e ninguém conseguia acordá-lo.



Rob J. deu a Lemuel meio litro de conhaque na noite seguinte.

Foi difícil esperar e mais de uma vez ele disse a si mesmo que era um tolo e que a jovem tinha falado por falar. A velha casa era cheia de ruídos noturnos, tábuas

do assoalho que rangiam, o ronco gutural de Lem, estalos misteriosos nos painéis de madeira das paredes. Finalmente ouviu um ruído leve na porta, não mais do que

a sugestão de uma batida e, quando a abriu, Margaret Holland entrou rapidamente no seu pequeno quarto, levando com ela o fraco odor de mulher e de água de lavar

pratos, murmurou que a noite ia ser fria e ergueu a desculpa para sua visita, um cobertor extra - fino e muito usado.

Menos de três semanas após a dissecação do primeiro cadáver, a Escola de Medicina de Tremont mandou outro presente, o corpo de uma jovem, vítima de febre puerperal

na prisão, depois de dar à luz. Naquela noite o Dr. Holmes ficara retido no Massachusetts General e foi substituído pelo Dr. David Storer, do Lying-In. Antes de

Rob J. começar a dissecação, o Dr. Storer fez questão de examinar cuidadosamente as mãos do novo docente.

- Nenhuma cutícula solta, nenhum corte?

- Não, senhor - disse ele, um pouco ofendido, sem compreender aquele interesse pelo estado das suas mãos.

Terminada a aula de anatomia, Storer mandou os alunos passarem para o outro lado da sala, onde ele ia demonstrar o procedimento de exame interno em pacientes grávidas

ou com problemas ginecológicos.

- Vocês vão descobrir que as mulheres humildes de New England ficam chocadas com esse exame e podem até mesmo proibi-lo - disse ele. - Porém, compete a vocês conquistar

sua confiança para poder ajudá-las.

O Dr. Storer passou a examinar uma mulher em adiantado estado de gravidez, talvez uma prostituta, paga para a demonstração. O professor Holmes chegou quando Rob

J. limpava e arrumava a área da dissecação. Quando terminou, dirigiu-se para onde estavam os estudantes, mas o Dr. Holmes, muito agitado, o deteve.

- Não, não! - disse o professor. - Você deve lavar suas mãos e sair daqui. Imediatamente, Dr. Cole! Vá para a Taverna Essex e espere por mim. Vou apanhar algumas

notas e relatórios.

Rob obedeceu, intrigado e aborrecido. A taverna ficava na esquina, perto da escola. Pediu cerveja porque estava nervoso, embora pensando que talvez estivesse para

ser despedido e que não seria prudente gastar o dinheiro. Tinha tomado apenas meio copo de cerveja quando um aluno do segundo ano, Harry Loomis, apareceu com dois

cadernos de notas e várias cópias de artigos sobre medicina.

32

- O poeta mandou isto.



- Quem?

- Não sabia? Ele é o poeta laureado de Boston. Quando Dickens visitou a América, pediram a Oliver Wendell Holmes para escrever o discurso de boas-vindas. Mas não

precisa se preocupar, ele é melhor médico do que poeta. Um professor e tanto, não é mesmo? - Jovialmente, Loomis pediu um copo de cerveja. - Embora um pouco maníaco

com esse negócio de lavar as mãos. Pensa que a sujeira provoca infecção dos ferimentos!

Loomis trazia também um bilhete escrito nas costas de uma nota antiga de compra de láudano, na farmácia de Weeks & Potter: Dr. Cole, leia estas notas e artigos antes

de voltar à Escola de Medicina Tremont amanhã à noite. Sem falta, por favor. Sinceramente, Holmes.

Rob J. começou a ler assim que chegou ao seu quarto na pensão da Sra. Burton. A princípio um pouco aborrecido, depois com interesse crescente. Os fatos eram descritos

por Holmes num artigo publicado no New England Quarterly Journal of Medicine e resumido no American Journal of the Medicai Sciences. No começo o assunto era familiar

pois descrevia o que estava acontecendo também na Escócia - uma grande porcentagem de mulheres grávidas adoecia com febre muito alta, que progredia para infecção

generalizada e terminava com a morte.

No entanto, o artigo do Dr. Holmes relatava que um médico de Newton, Massachusetts, chamado Whitney, assistido por dois estudantes de medicina, fizera a autópsia

de uma mulher, vítima de febre puerperal. O Dr. Whitney tinha uma cutícula solta na unha e um dos estudantes, uma pequena marca de queimadura recente na mão. Nada

que os incomodasse muito, mas, depois de alguns dias, o médico começou a sentir comichão no braço e descobriu uma mancha no antebraço, do tamanho de uma ervilha,

ligada à unha com a cutícula solta por uma linha fina e vermelha. O braço inchou rapidamente, até ficar duas vezes maior do que o tamanho normal, instalou-se uma

febre muito alta e acessos incontroláveis de vómito. Ao mesmo tempo, o estudante com a queimadura ficou também febril e em poucos dias sua condição deteriorou rapidamente.

O jovem ficou roxo, a barriga inchou desmesuradamente e ele morreu. O Dr. Whitney esteve muito perto da morte, mas melhorou lentamente e ficou bom. O outro estudante,

que não apresentava cortes nem ferimentos de nenhum tipo nas mãos quando fizeram a autópsia, não apresentou nenhum sintoma grave.

O caso foi relatado e os médicos de Boston examinaram a possível conexão entre feridas abertas e infecção por febre puerperal, mas não chegaram a nenhum resultado

prático. Entretanto, alguns meses depois, um médico, na cidade de Lynn, com algumas feridas abertas nas mãos, examinou um caso de febre puerperal e em poucos dias

morreu de infecção

33 generalizada. Numa reunião da Sociedade de Boston para o Progresso da Medicina, foi levantada uma questão interessante. E se o médico morto não tivesse ferimentos

nas mãos? Mesmo que não fosse infectado, poderia ser portador de material infeccioso, disseminando-o sempre que tocasse ferimentos ou feridas abertas de outros pacientes

ou o útero de uma mulher que acabava de dar à luz?

A pergunta não saía da cabeça de Oliver Wendell Holmes. Durante semanas ele pesquisou o assunto, visitando bibliotecas, consultando os próprios arquivos e requisitando

anamneses de médicos especialistas em obstetrícia. Como se estivesse armando um complexo quebra-cabeças, relacionou um número de evidências conclusivas que cobriam

um século de prática médica em dois continentes. Os casos eram esporádicos e pouco notados na literatura médica. Só quando pesquisados e reunidos, encaixavam-se

uns nos outros, dando origem a um espantoso e terrível argumento: a febre puerperal era provocada por médicos, enfermeiras, parteiras e atendentes de hospital que,

após lidarem com um paciente contagioso, examinaram mulheres não-contaminadas, condenando-as à morte pela febre.

A febre puerperal era uma pestilência, causada pela profissão médica, escrevia Holmes. Uma vez que um médico soubesse disso, devia ser considerado crime - assassinato

-, da parte dele, infeccionar outra paciente.

Rob leu os artigos duas vezes e ficou deitado na cama, perplexo.

Gostaria de poder escarnecer de tudo aquilo, mas os históricos dos casos e as estatísticas não eram vulneráveis à dúvida de qualquer mente aberta. Como esse modesto

médico do Novo Mundo podia saber mais do que Sir William Fergusson? Algumas vezes Rob assistira o Dr. Fergusson em autópsias de vítimas de febre puerperal. Logo

em seguida, tinham examinado mulheres grávidas. Agora, procurava lembrar-se de todas as mulheres que haviam morrido logo após esses exames.

Afinal, ao que parecia, aqueles provincianos podiam ensinar muita coisa a respeito da arte da ciência médica.

Levantou-se para aumentar a luz do lampião e reler o material, mas ouviu alguém arranhar a porta e Margaret entrou no quarto. Ela ficava um pouco embaraçada por

ter de se despir na frente de Rob, mas não tinham espaço para privacidade e, de qualquer modo, ele já estava se despindo também. Margaret dobrou sua roupa e tirou

do pescoço o cordão com o crucifixo. Seu corpo era gorducho porém firme e musculoso. Rob acariciou as marcas deixadas pelas barbatanas do espartilho e partia para

carícias mais ousadas, quando parou de repente, tomado de assalto por um terrível pensamento.

Deixando-a na cama, ele levantou-se e encheu de água a bacia sobre a mesa. Enquanto a jovem olhava como se ele tivesse enlouquecido,

34

Rob ensaboou e enxaguou as mãos. Uma vez, duas vezes, três. Então as enxugou e voltou para a cama, recomeçando o jogo do amor. Logo, Margaret Holland estava rindo



como uma colegial.

Você é o jovem mais estranho que eu já vi - murmurou ela no

seu ouvido.

O DISTRITO AMALDIÇOADO POR DEUS

Rob J. voltava para seu quarto, à noite, tão cansado que raramente tinha disposição para tocar sua viola de gambá. O arco estava enferrujado, mas a música era um

bálsamo, infelizmente negado, pois Lem Raskin logo começava a bater na parede, reclamando do barulho. Rob não tinha condições de comprar bebida para Lem sempre que

quisesse tocar ou fazer sexo, assim a música via-se prejudicada. Uma revista médica, da biblioteca da escola de medicina, recomendava para a mulher que não quisesse

engravidar uma lavagem com solução de alume e casca de carvalho branco, mas Rob tinha certeza de que não podia confiar em Meggy para regularidade dessas lavagens.

Harry Loomis levou muito a sério o pedido de aconselhamento de Rob e indicou uma casa na parte sul de Cornhill. A Sra. Cynthia Worth era uma matrona de cabelos brancos.

Sorriu e fez um gesto afirmativo quando Rob citou o nome de Harry.

- Eu faço um bom preço para os médicos.

Seu produto era feito com ceco de ovelha, uma cavidade natural, ou tripa, aberto numa das extremidades, perfeito portanto para a arte da Sra. Worth. Orgulhava-se

da sua mercadoria como uma vendedora de peixes oferecendo criaturas do mar, com olhos brilhantes que atestavam seu frescor. Rob J. conteve a respiração quando ela

disse o preço, mas a Sra. Worth permaneceu imperturbável.

- O trabalho é enorme - disse ela. Descreveu o processo de deixar os cecos mergulhados em água durante horas; depois eram virados do avesso, amolecidos novamente

numa solução salina, trocada de doze em doze horas, raspados cuidadosamente para retirar toda a membrana mucosa, expondo depois os revestimentos peritoneal e muscular

ao vapor de enxofre queimado, lavados em água e sabão e deixados para secar; em seguida a extremidade aberta era aparada, ficando com o comprimento de oito polegadas,

fitas azuis ou vermelhas eram presas nas pontas para fechar a parte de cima, oferecendo completa proteção. Muitos cavaleiros compravam de três em três, disse ela,

porque saía mais barato.

35

Rob J. comprou um. Não expressou preferência por nenhuma cor, mas as fitas eram azuis.



- Com cuidado, um só pode servir por muito tempo - disse ela, explicando que duravam muito quando lavados após cada uso, inflados e empoados. Quando Rob se despediu,

ela lhe desejou um dia muito bom e feliz e pediu que a recomendasse aos seus colegas e pacientes.

Meggy detestou aquela bainha. Gostou mais do presente que Loomis deu a Rob, com os votos de bom divertimento. Era um vidro com um líquido incolor, óxido nitroso,

chamado de gás hilariante pelos estudantes de medicina e jovens médicos que o usavam para se divertir. Rob molhou um pano com o líquido e ele e Meggy aspiraram um

pouco antes de fazer amor. A experiência foi um sucesso absoluto - nunca seus corpos pareceram tão engraçados nem o ato sexual tão absurdo.

Não existia nada entre eles além do ato sexual. Quando era lento, havia alguma ternura, e quando era furiosamente físico, havia mais desespero do que paixão. Quando

conversavam, ela geralmente falava sobre os pensionistas, um assunto que o entediava, fazendo com que se lembrasse de sua terra natal, o que ele evitava, porque

era doloroso. Não havia contato entre suas mentes ou suas almas. A hilaridade química que compartilharam uma única vez, com o uso de gás, jamais foi repetida, pois

o resultado foi uma alegria sexual barulhenta demais para não ser ouvida. Embora Lem não tivesse acordado, eles sabiam que foi apenas sorte. Eles ririam juntos só

mais uma vez, quando Meggy observou maliciosamente que a bainha devia ser de um bode, e a batizou de Velho Tesão. Rob preocupava-se com o fato de estar usando a

jovem. Vendo que a combinação de Meggy estava muito remendada, comprou outra, uma oferenda à culpa que sentia. Meggy ficou feliz com o presente e Rob a desenhou

no seu diário, reclinada sob a estreita cama, uma jovem gorducha com carinha de gata sorridente.

Rob J. via muitas coisas que teria desenhado se a medicina deixasse alguma energia de sobra. Tinha começado como estudante de arte, em Edimburgo, numa atitude rebelde

contra a tradição médica dos Cole, sonhando em ser pintor, a família pensou que tinha enlouquecido. No terceiro ano da Universidade de Edimburgo foi informado de

que tinha algum talento artístico, mas não o suficiente. Ele era muito literal. Não possuía a imaginação vital, a visão mística. “Você tem a chama, mas não o calor”,

disse o professor de pintura, sem maldade, mas com convicção. Rob ficou arrasado, até acontecerem duas coisas. Nos empoeirados arquivos da biblioteca da universidade

ele encontrou um desenho anatômico. Era muito antigo, talvez pré-Leonardo, a figura de um homem nu desenhado de forma a exibir os órgãos internos e os vasos sangüíneos.

Chamava-se “O Segundo Homem Transparente”, e, com uma sensação maravilhosa de espanto, verificou que fora desenhada por um

36

dos seus ancestrais, cuja assinatura era bem legível, “Robert Jeffrey Cole, segundo modelo de Robert Jeremy Cole”. Era uma prova de que pelo menos alguns dos seus



ancestrais eram artistas, além de médicos. Dois dias depois, ele entrou numa sala de cirurgia e viu William Fergusson, um gênio que operava com extrema precisão

e a uma velocidade incrível, para poupar ao paciente o choque provocado pelo excesso de dor. Pela primeira vez Rob J. compreendeu a longa linhagem de médicos Cole,

pois descobriu que a tela mais gloriosa jamais teria o valor de uma simples vida humana. Naquele momento, a medicina o conquistou.

Desde o começo dos estudos, Rob J. tinha o que seu tio Randall, clínico geral perto de Glasgow, chamava de o “dom dos Cole” - poder dizer, segurando as mãos do paciente,

se ele ia viver ou morrer. Era um diagnóstico de sexto sentido, parte instinto, parte a ação de detetores herdados, que ninguém podia identificar ou compreender,

mas que funcionavam desde que não fossem enfraquecidos pelo excesso de bebida. Para um médico tratava-se de um verdadeiro dom, mas agora, numa terra distante esse

dom o deprimia, pois o Oitavo Distrito possuía uma enorme quantidade de pessoas que estavam morrendo.

O distrito amaldiçoado por Deus, como ele o chamava, dominou sua existência. Os irlandeses tinham chegado com as maiores expectativas. Na Irlanda, o homem que trabalhava

na terra ganhava meio xelim por dia, quando tinha trabalho. Em Boston havia menos desemprego e os trabalhadores ganhavam mais, porém, trabalhavam quinze horas por

dia, sete dias por semana. Pagavam aluguéis caros por moradias miseráveis, pagavam mais para comer e não tinham uma pequena horta, nenhum pedacinho de terra para

plantar as pálidas maçãs dos pântanos, nenhuma vaca para dar leite, nenhum porco para o toucinho. O distrito o atormentava com a pobreza, a sujeira, a falta de tudo,

o que, ao invés de paralisá-lo, o estimulava a trabalhar como um escaravelho tentando mover uma montanha de esterco de ovelhas. O domingo devia ser o dia de se refazer

do trabalho insano e terrível da semana. Nas manhãs de domingo, até Meggy tinha algumas horas livres para ir à missa. Mas cada domingo encontrava Rob J. de volta

ao distrito, livre da obrigação de obedecer às ordens dos pequenos pedaços de papel, livre para doar horas que lhe pertenciam, horas que não precisava roubar. Em

pouco tempo formou no distrito uma clientela dominical extensa e quase toda de graça, pois para todo lado que olhasse via doenças e ferimentos. A notícia do médico

que falava o erse, a antiga língua gaélica dos escoceses e dos irlandeses, espalhou-se rapidamente. Quando o ouviam falando a língua da terra natal, os rostos mais

amargurados, mais revoltados iluminavam-se com sorrisos. Beannacht De ort, dochtuir oig - Deus o abençoe, jovem médico! - diziam, passando por ele na rua. Uma pessoa

contava para outra sobre o jovem doutor que “tinha a língua” e logo Rob J. estava falando irlandês todos os dias. Mas, se era adorado em Fort Hill, não era nem um

pouco popular no escritório do Dispensário de

37

Boston, pois começaram a aparecer todos os tipos de pacientes com receitas do Dr. Robert J. Cole, indicações para remédios e muletas e até comida para os casos



de desnutrição.

- O que está acontecendo? O quê? Não estão na lista dos patrocinadores - reclamava o Sr. Wilson.

- São os que mais precisam de ajuda no Oitavo Distrito.

- Mesmo assim. A cauda não deve ter permissão para abanar o cão. Se quiser continuar com o dispensário, Dr. Cole, deve obedecer às regras - disse o Sr. Wilson severamente.

Um dos pacientes de domingo era Peter Finn, de Half Moon Place, com um feio corte na perna, provocado por um engradado que caiu do vagão quando ele fazia seu meio

dia de trabalho nas docas. O corte, envolto num pedaço de pano sujo, estava inchado e muito dolorido ao toque quando ele procurou o médico. Rob lavou e costurou

as bordas do ferimento, mas a gangrena começou imediatamente e, no dia seguinte, foi obrigado a retirar os pontos e pôr um dreno. A infecção progrediu com uma rapidez

alarmante e, depois de alguns dias, o Dom disse a Rob que, para salvar a vida de Peter Finn, a perna teria de ser amputada.

Era uma terça-feira e o caso não podia esperar até domingo. Assim ele voltou a roubar tempo do dispensário. Além de ser obrigado a usar um dos papéis em branco dados

por Holmes, teve de dar seu pouco e suado dinheiro para Rose Finn comprar a bebida, tão necessária para a operação quanto o bisturi.

Joseph Finn, irmão de Peter, e Michael Bodie, seu cunhado, relutantemente concordaram em ajudar. Rob J. esperou que Peter estivesse quase insensível com a mistura

de uísque e morfina e deitou-o sobre a mesa da cozinha como a vítima de um sacrifício. Mas, ao primeiro corte, os olhos do estivador quase saíram das órbitas, os

tendões do pescoço saltaram e seu berro soou como uma acusação que empalideceu Joseph Finn e provocou uma tremedeira em Bodie que o inutilizou como ajudante. Rob

tinha amarrado a perna doente na mesa, mas quando Peter começou a se debater e berrar como um animal agonizante, ele gritou para os dois homens.

- Segurem ele! Segurem ele agora!

Ele fez a incisão como tinha aprendido com Fergusson, rápida e profunda. Os gritos cessaram quando ele começou a cortar carne e músculo, mas o rilhar dos dentes

de Peter era pior do que os gritos. Quando ele cortou a artéria femoral, o sangue muito vermelho esguichou e Rob tentou segurar a mão de Bodie mostrando o que devia

fazer para estancar a fonte arterial. Mas o cunhado recuou para longe da mesa.

- Volte aqui. Oh, seu filho da mãe.

Mas Bodie estava correndo abaixo, chorando. Rob tentou trabalhar como se tivesse seis mãos. Seu tamanho e sua força permitiram que aju-

38

dasse Joseph a manter o irmão deitado na mesa, e ao mesmo tempo conseguiu pinçar a extremidade escorregadia da artéria seccionada, fazendo parar o sangue. Mas quando



soltou, para continuar o trabalho, a hemorragia recomeçou.

- Mostre o que devo fazer - disse Rose Finn, aproximando-se dele. Rose estava pálida como pasta de farinha, mas conseguiu pinçar a artéria e controlar o sangue.

Rob J. serrou o osso, deu mais alguns cortes rápidos e a perna se soltou do corpo. Então ele amarrou a artéria e recortou e costurou a pele no toco de perna. A essa




1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   51


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal