Noah Gordon, o xamã



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Francisco de Assis, depois das visitas do dia. A cada ano que passava, mais se convencia de que a madre Miriam era mais corajosa do que feroz, mais valiosa do que

ameaçadora.

- Tenho uma coisa para você - disse ela, certa tarde, entregando a ele um maço de papéis marrons, cobertos por uma escrita pequena e apertada, com tinta preta aguada.

Sentado na poltrona de couro e tomando café, Rob leu a descrição das atividades secretas da Suprema Ordem da Bandeira de Estrelas e Listras, que só podia ter sido

escrita por um dos seus membros.

Começava com um resumo da estrutura nacional da sociedade política secreta. Baseava-se em conselhos distritais, que escolhiam seus próprios membros, criavam as próprias

leis e suas regras de iniciação na sociedade. Acima deles estavam os conselhos dos condados, formados por um único representante de cada conselho de distrito. Os

conselhos dos

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condados supervisionavam as atividades políticas dos conselhos distritais e escolhiam os candidatos políticos locais dignos do apoio da ordem.

Todas as unidades de um estado eram controladas por um grande conselho, composto por três delegados de cada conselho distrital, e governado por um grande presidente

e outros membros eleitos. No topo da complexa estrutura ficava o conselho nacional que decidia todos os assuntos políticos nacionais, incluindo a seleção dos candidatos

da ordem para a presidência e vice-presidência dos Estados Unidos. O conselho nacional decidia a punição dos membros que faltassem com o dever para com a instituição

e determinava os extensos rituais da ordem.

Havia dois graus necessários para a inclusão na ordem. Para chegar ao primeiro grau, o candidato devia ser adulto, ser do sexo masculino, nascido nos Estados Unidos,

de pais protestantes e não ser casado com mulher católica.

A cada candidato era feita a pergunta: “Está disposto a usar sua, influência para eleger e votar somente em cidadãos nascidos na Améri-‘ ca para todos os postos

de honra, confiança, ou vantajosos ao bem do povo, excluindo todos os estrangeiros e católicos romanos em particular, independente de preferências partidárias?”

Depois desse juramento, exigiam que o candidato renunciasse a todas as outras fidelidades partidárias para apoiar a vontade política da ordem, e trabalhar para modificar

as leis da naturalização. Então confiavam a ele os segredos, descritos minuciosamente no relatório - o sinal de reconhecimento, o aperto de mão, os desafios e as

advertências.

Para chegar ao segundo grau dentro da ordem, o candidato devia ser um veterano confiável. Só os membros do segundo grau podiam ser eleitos para postos de liderança

dentro da ordem, tomar parte em atividades clandestinas e contar com o apoio para cargos políticos a nível nacional e local. Quando eleitos ou designados para um

cargo de poder, eram obrigados a remover todos os estrangeiros, estranhos ou católicos que trabalhavam para eles, e em nenhuma hipótese “designar uma dessas pessoas

para qualquer cargo público sob sua jurisdição”.

Rob J. olhou para Miriam Ferocia.

- Quantos são? Ela deu de ombros.

- Não acreditamos que haja muitos na ordem secreta. Uns mil, talvez. Mas são a força e o esteio do partido americano.

- Estou entregando esse relatório porque sei que se opõe a esse grupo que procura fazer mal à Madre Igreja, e porque você precisa conhecer a natureza dos que nos

fazem mal e por cujas almas oramos a Deus. - Olhou para ele com ar severo. - Mas vai me prometer que não fará uso dessa informação para interpelar qualquer suspeito

de pertencer à ordem, em Illinois, porque isso significaria perigo de vida para quem escreveu esse relatório.

Rob J. balançou a cabeça, assentindo. Dobrou as páginas escritas e as estendeu para ela, mas a madre superiora fez um gesto negativo.

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- São suas - disse ela. - Junto com minhas preces.

- Não deve rezar por mim! - Rob sentia-se embaraçado quando falava com ela sobre religião.

- Não pode me impedir. Você merece orações e eu falo freqüentemente a seu respeito com o Senhor.

- Reze apenas por meus inimigos - disse ele, com mau humor, mas madre Míriam Ferocia não se abalou.

Mais tarde, em casa, Rob releu o relatório, estudando atentamente a letra miúda e apertada. Fora escrito por alguém (talvez um padre?) que estava vivendo uma mentira,

fingindo ser o que não era, arriscando a própria segurança, talvez a vida. Rob J. gostaria de conhecer aquele homem e conversar com ele.

Nick Holden conseguiu facilmente ser reeleito duas vezes, devido a sua fama de inimigo dos índios, mas agora fazia campanha para o quarto mandato e seu oponente

era John Kurland, o advogado de Rock Island. Kurland era muito conceituado entre os democratas e outros, e o apoio dos Não Sabem de Nada a Nick Holden parecia ter

enfraquecido. Muitos eram de opinião que o senador devia deixar o cargo e Rob J. esperava que Nick apelasse para algum gesto espetacular para ganhar votos. Assim,

foi com pouca surpresa que, ao chegar em casa, certa tarde, soube que o senador Holden e o xerife Graham estavam organizando outro grupo de voluntários para caçar

os fora-da-lei.

- O xerife diz que Frank Mosby, aquele fora-da-lei, está escondido no norte do condado - informou Alden. - Nick pôs todo mundo em pé de guerra e, para mim, estão

mais dispostos a linchar do que a prender. Graham está nomeando assistentes a torto e a direito. Alex saiu daqui todo excitado. Levou a espingarda de caça e Vicky

- Alden franziu a testa, procurando se desculpar. - Eu tentei fazer com que ele desistisse, mas... - Deu de ombros.

Trude não teve tempo de esfriar da longa jornada das visitas. Rob a arreou de novo e foi para a cidade.

Grupos de homens enchiam a rua. Rob ouviu gargalhadas na varanda do armazém, onde Nick e o xerife presidiam o movimento, mas ele os ignorou. Alex estava com Mal

Howard e dois outros jovens, todos armados, com os olhos brilhando de importância. Seu entusiasmo gelou quando viu Rob J.

- Quero falar com você, Alex - disse Rob, levando-o para longe dos outros.

- Quero que volte para casa - disse, quando não podiam ser ouvidos.

- Não, pai.

Alex tinha dezoito anos e era imprevisível. Se fosse pressionado, podia mandar tudo para o inferno e sair de casa para sempre.

- Não quero que você vá. Por uma boa razão.

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- Tenho ouvido suas boas razões durante toda a vida - disse Alex, com amargura. - Uma vez perguntei para minha mãe se Frank Mosby é meu tio. E ela disse que não.



- Você é um tolo, sujeitando sua mãe a isso. Tanto faz que você vá até lá e mate Frank Mosby com suas próprias mãos. Muita gente vai continuar falando. O que eles

dizem não tem a menor importância. Eu podia dizer que quero que volte para casa porque essa arma me pertence e porque está com o meu cavalo cego, mas o verdadeiro

motivo é que você é meu filho e não vou deixar que faça uma coisa da qual vai se arrepender pelo resto da vida.

Alex lançou um olhar de desespero para Mal e os outros que o esperavam, curiosos.

- Diga a eles que tem muito que fazer na fazenda. Depois, apanhe Vicky onde a deixou e volte para casa.

Rob montou em Trude e seguiu pela rua Principal. Um grupo de homens ria e falava alto na frente da igreja e ele percebeu que já haviam bebido bastante.

Rob cavalgou mais de quinhentos metros sem olhar para trás, e quando se virou na sela, viu Vicky com seu trote curto e cuidadoso, resultado da quase cegueira, e

o homem inclinado sobre seu pescoço como se estivesse cavalgando contra o vento forte, a pequena espingarda de caçar pássaros segura com o cano para cima, como ele

havia ensinado aos seus filhos.

Nas semanas seguintes, Alex evitou Rob J., não tanto por estar zangado, quanto para fugir à sua autoridade. O grupo do xerife ficou fora dois dias. Encontraram a

presa nas ruínas de um barracão de barro, tomaram todas as precauções para o ataque, mas ele estava dormindo, morto para o mundo. E não era Frank Mosby. Era um homem

chamado Buren Harrison que tinha assaltado um lojista em Geneseo e roubado quatorze dólares, e Nick Holden e seus homens da lei o escoltaram triunfantes e embriagados

para as mãos da justiça. Souberam depois que Frank Mosby estava morto há dois anos, tendo se afogado em lowa quando tentava atravessar a cavalo o rio Cedar na época

da enchente.

Em novembro, Rob J. votou em John Kurland para o Congresso e em Steven A. Douglas para seu segundo mandato no Senado. Na noite seguinte estava com os homens que

esperavam o resultado das eleições no armazém de Haskins e viu na vitrina um par de maravilhosos canivetes. Cada um tinha uma lâmina grande, duas menores, e uma

pequena tesoura, tudo de aço temperado, numa caixa de tartaruga polida e capas de prata brilhante nas duas extremidades. Eram canivetes para homens que não tinham

medo de tirar grandes aparas da vida, e Rob os comprou para dar de presente no Natal.

Logo depois que escureceu, Harold Ames chegou de Rock Island

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com o resultado das eleições. Foi o dia dos titulares. Nick Holden, caçador de índios e guardião da lei, venceu John Kurland por pequena margem de votos e o senador

Douglas foi reeleito para sua cadeira em Washington.

- Isso vai ensinar Abraham Lincoln a não dizer ao povo que não pode ter escravos - disse Julian Howard, rindo, erguendo o punho fechado em triunfo. - Nunca mais

vamos ouvir falar naquele filho da mãe!

42

O ESTUDANTE



Uma vez que a estrada de ferro não passava por Holden’s Crossing, o pai de Xamã o levou de charrete, com sua mala atrás, e percorreram os cinqüenta quilômetros até

Galesburg. A cidade e o colégio, fundados há um quarto de século por presbiterianos e congregacionistas, ficava no estado de Nova York. Era uma cidade planejada

com as ruas formando um perfeito tabuleiro de damas em volta da praça. No colégio, o diretor, Charles Hammond, disse que, por ser mais novo do que os outros alunos,

Xamã não poderia morar no dormitório. O diretor e a mulher aceitavam pensionistas na sua casa branca em Cherry Street e foi lá que Xamã ficou, num quarto do segundo

andar.

Uma porta, no fim da escada no lado de fora do quarto, levava à bomba-d’água no pátio e à privada. No quarto à direita do seu moravam dois pálidos congregacionistas,



estudantes de religião, que não falavam com ninguém. Nos dois quartos do outro lado do corredor estavam hospedados o pequeno e empertigado bibliotecário da universidade

e um aluno do último ano chamado Ralph Brooke, sardento e simpático, com olhos que pareciam sempre maravilhados. Brooke estudava latim. Na primeira manhã, quando

tomavam café, Brooke estava com um livro de Cícero. Xamã, que tinha aprendido latim com o pai, disse.

- lucundi acti labores. O trabalho feito é agradável. O rosto de Brooke iluminou-se como um lampião.

- Ita vivam, ut seio. Enquanto vivo, eu aprendo.

Brooke era a única pessoa da casa com quem Xamã conversava regularmente, com exceção do diretor e da sua mulher magra e de cabelos brancos, que diariamente tentava

murmurar algumas palavras agradáveis.

Ave! - Brooke o cumprimentava assim todos os dias. - Quomodo te habes hodie, uvenis? - Como vai hoje, jovem?

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Tam bene quamflerípossit talibus in rebus, Caesar. - Tão bem quanto se pode esperar, dadas as circunstâncias, ó César, respondia Xamã. Todas as manhãs. O pequeno



código particular dos dois.

No café da manhã Brooke roubava biscoitos e bocejava sem parar. Só Xamã sabia por quê. Brooke tinha uma mulher na cidade e quase sempre ficava acordado até tarde.

Dois dias depois da chegada de Xamã, o latinista o convenceu a descer a escada às escondidas e abrir a porta do quintal, depois que todos estivessem deitados, para

que ele pudesse sair sem ser visto. Era um serviço muito requisitado por Brooke.

As aulas começavam às oito horas da manhã. Xamã estudava fisiologia, redação e literatura inglesas e astronomia. Para espanto de Brooke, ele passou no exame de latim.

Obrigado a estudar outra língua, Xamã preferiu hebraico ao grego, por razões que ele se negava a aprofundar. No seu primeiro domingo em Galesburg, o diretor e a

Sra. Hammond o levaram à igreja presbiteriana, mas depois disso Xamã disse a eles que era congregacionista e, aos estudantes de religião, dizia que era presbiteriano,

assim, todas as manhãs de domingo, ele podia passear livremente pela cidade.

A estrada de ferro chegara a Galesburg seis anos antes de Xamã, levando prosperidade e uma grande variedade de pessoas. Além disso, uma colônia de suecos, fracassada

em Mission Hill, tinha se mudado para Galesburg. Xamã gostava de ver as mulheres e as meninas suecas com seus cabelos amarelos e pele clara e bonita. Quando começou

a tomar precauções para não manchar os lençóis da Sra. Hammond, as mulheres de suas fantasias eram todas suecas. Certo dia ele parou de repente na rua Principal

quando viu uma cabeça de cabelos castanhos, certo de que a conhecia e, por um momento, deixou de respirar. Mas era uma estranha, que sorriu quando percebeu que ele

a observava. Xamã abaixou a cabeça e se afastou rapidamente. A jovem devia ter pelo menos vinte anos. Ele não queria conhecer nenhuma mulher mais velha.

Xamã estava doente de saudades de casa e doente de amor, mas as duas doenças diminuíram de intensidade, tornando-se apenas dores suportáveis, como uma dor de dente

não muito violenta. Não fez amigos, talvez por ser muito jovem e por ser surdo, o que lhe valeu um ótimo aproveitamento, pois passava quase o tempo todo estudando.

Suas matérias preferidas eram astronomia e fisiologia, embora esta última não passasse de uma listagem das partes do corpo e dos seus componentes. O mais próximo

que o Sr. Rowells, o instrutor, chegou da discussão dos processos era uma aula sobre digestão e a importância da regularidade. Mas na classe de fisiologia havia

um esqueleto com os ossos presos com arame, dependurado por um parafuso no alto do crânio, e Xamã passava horas sozinho com ele, memorizando o nome, a forma e a

função de cada um dos ossos descorados.

Galesburg era uma bela cidade de ruas arborizadas, com álamos, bordos e nogueiras plantados pelos primeiros colonos. Os habitantes tinham

265 orgulho de três coisas. Harvey Henry May tinha inventado o arado de aço autolimpante, em Galesburg. Um cidadão de Galesburg, chamado Olmsted Ferris, descobrira

uma qualidade especial de milho para pipoca. Ele foi à Inglaterra e fez pipoca na frente da rainha Vitória. E o senador Douglas e seu oponente, Lincoln, haviam feito

um debate na universidade, no dia 7 de outubro de 1858.

Xamã foi ao debate, mas quando chegou ao salão de conferências estava quase lotado e nem do melhor lugar vago ele poderia ler os lábios dos candidatos. Saiu do salão

e subiu a escada até a porta de acesso ao telhado, onde o professor Gardner, seu mestre de astronomia, tinha um pequeno observatório, no qual todos os alunos eram

obrigados a estudar várias horas por mês. Naquela noite Xamã estava sozinho e encostou o olho no telescópio refrator Alvan Clark, de cinco polegadas, orgulho e paixão

do professor Gardner. Ajustou o foco, diminuindo a distância entre seus olhos e as lentes convexas frontais, e as estrelas correram para ele, duas vezes maiores

do que antes. Noite fria, bastante clara para ver dois dos anéis de Saturno. Estudou a nébula de Órion e a de Andrômeda, depois começou a girar o telescópio no tripé,

pesquisando o céu. O professor Gardner chamava isso de “varrer o céu”, e disse que uma mulher chamada Maria Mitchell costumava varrer o céu e conquistou fama mundial

com a descoberta de um cometa.

Xamã não descobriu nenhum cometa. Observou até parecer que as estrelas estavam rodando, enormes e brilhantes. O que as teria formado lá em cima, lá longe? E as estrelas

além daquelas? E além?

Sentia que cada estrela e cada planeta era parte de um sistema complexo, como um osso no esqueleto ou uma gota de sangue no corpo. Tanta coisa na natureza parecia

organizada, planejada - com tanta ordem, mas bastante complexa. O que as tinha feito assim? O Sr. Gardner observara que para ser um bom astrônomo bastava ter bons

olhos e saber matemática. Durante alguns dias ele pensou em escolher a astronomia como profissão para o resto da vida, mas depois mudou de idéia. As estrelas eram

mágicas, mas tudo que se podia fazer era observá-las. Se um corpo celeste se desorganizasse, não podíamos nem ter esperança de consertá-lo.

Quando voltou para casa, no Natal, Holden’s Crossing parecia diferente, mais solitária do que seu quarto na casa do diretor, e, no fim da semana de festas, estava

quase ansioso para voltar ao colégio.

Gostou imensamente do canivete dado por seu pai e comprou uma pequena pedra de amolar e um vidrinho de óleo para afiar as lâminas até que pudessem cortar um fio

de cabelo.

No segundo semestre Xamã escolheu química ao invés de astronomia. Tinha dificuldade nas aulas de redação. Você me disse ANTES, escrevia o mal-humorado professor

de inglês, que Beethoven escreveu a

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maior parte da sua música quando já estava surdo. O professor Gardner o encorajava a usar o telescópio sempre que quisesse, mas na noite anterior ao exame de química,



em fevereiro, Xamã sentou no telhado e chorou, ao invés de estudar a tabela dos pesos atômicos de Berzelius, e no dia seguinte foi mal na prova. Depois disso, diminuiu

suas visitas às estrelas, mas foi muito bem em química. Quando voltou para Holden’s Crossing, na Páscoa, os Geiger convidaram os Cole para jantar e o interesse de

Jason pela química e suas perguntas sobre seus estudos amenizaram o mal-estar de Xamã.

Suas respostas deviam ter sido satisfatórias porque, depois de algum tempo, Jay perguntou.

- O que pretende fazer na vida, Xamã?

- Ainda não sei. Eu pensei... talvez possa trabalhar em alguma das ciências.

- Se escolher farmácia, terei prazer em ensinar.

Xamã percebeu que a oferta era do agrado dos seus pais, e agradeceu a Jay, um pouco constrangido, dizendo que ia pensar, mas sabia que não queria ser farmacêutico.

Abaixou os olhos para o prato por alguns minutos e perdeu parte da conversa, mas quando ergueu a cabeça, viu tristeza no rosto de Lillian. Ela estava contando para

Sarah que o filho de Rachel teria nascido dentro de cinco meses e daí em diante só falaram em perder filhos antes do nascimento.

Naquele verão Xamã trabalhou com as ovelhas e leu livros de filosofia da biblioteca de George Cliburne. Quando voltou ao colégio, o diretor Hammond permitiu que

ele deixasse o hebraico, e Xamã começou a estudar as peças de Shakespeare, além de fazer os cursos de matemática avançada, botânica e zoologia. Só um dos estudantes

de religião voltou para Knox para mais um ano. Brooke também voltou e Xamã continuou a conversar com ele como se fosse um romano, mantendo em dia o seu latim. Seu

professor favorito, o Sr. Gardner, lecionava zoologia, mas era melhor astrônomo do que biólogo. Eles dissecavam apenas rãs, ratos e pequenos peixes, fazendo uma

porção de diagramas. Xamã não tinha o talento artístico do pai, mas devido à convivência com Makwa, quando pequeno, sabia alguma coisa de botânica. Seu primeiro

trabalho foi sobre a anatomia das flores.

Naquele ano o debate sobre a escravidão tomou conta do colégio. Com outros estudantes e professores, Xamã entrou para a Sociedade para Abolição da Escravatura, mas

havia muitos no colégio e em Galesburg que se identificavam com os estados do sul e às vezes as discussões eram acaloradas.

De um modo geral, eles o deixavam em paz. Os habitantes da cidade e os estudantes estavam acostumados à sua presença, mas para os ignorantes e supersticiosos, Xamã

era um mistério, uma lenda local. Não

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sabiam nada sobre surdez, nem como os surdos podiam desenvolver os outros sentidos para compensar a deficiência. Logo se convenceram de que ele era completamente



surdo, mas alguns pensavam que tinha poderes ocultos, porque quando estava estudando sozinho e alguém se aproximava por trás, em silêncio, ele sempre percebia sua

presença. Diziam que tinha “olhos na nuca”. Não compreendiam que ele sentia a vibração dos passos, que podia sentir o ar mais frio quando abriam uma porta, ou que

percebia o movimento do papel que tinha nas mãos, agitado pela deslocação do ar. Xamã dava graças por nenhum deles conhecer sua capacidade de identificar as notas

do piano.

Sabiam que às vezes se referiam a ele como “o estranho menino surdo”.

Numa agradável tarde de maio, Xamã estava passeando pela cidade, observando o crescimento das flores nos jardins, quando um bonde puxado por cavalos entrou velozmente

na esquina de South Street com Cedar. Embora sem ouvir o tropel das patas e os relinchos dos animais, Xamã viu o cãozinho escapar da frente do veículo e ser atingido

pela roda traseira que o arrastou por algum tempo antes de atirá-lo para longe. O bonde seguiu seu caminho, deixando o animal no meio da rua. Xamã correu para ele.

Era uma cadela vira-lata amarela com pernas fortes e um chumaço de pêlo na ponta da cauda. Xamã achou que devia ser mestiça de terrier. Estava de costas no chão,

contorcendo-se, com um filete de sangue escorrendo do canto da boca.

Um casal que passava aproximou-se para olhar.

- Uma vergonha - disse o homem. - Condutores malucos. Podia muito bem ter sido qualquer um de nós. - Ergueu a mão num gesto de advertência quando viu que Xamã ia

se ajoelhar ao lado do animal. - Eu não faria isso. Ela está sentindo muita dor e pode morder.

- O senhor conhece o dono? - perguntou Xamã.

- Não - disse a mulher.

- É apenas um vira-lata - disse o homem e os dois se afastaram. Xamã ajoelhou e tocou cautelosamente no animal ferido, mas a ca-

delinha apenas lambeu sua mão.

- Pobre cão - disse ele. Examinou as quatro patas. Nenhuma parecia estar quebrada, mas ele sabia que o sangue era um mau sinal. Mesmo assim, depois de um momento,

tirou o paletó e enrolou nele o animal ferido. Carregando-o nos braços como se fosse uma criança ou um embrulho de roupa suja, ele o levou para casa. Ninguém o viu

entrar pelo portão do quintal. Não encontrou ninguém na escada dos fundos. No quarto, pôs o animal no chão e esvaziou a última gaveta da cómoda, onde guardava meias

e roupas de baixo. Apanhou no armário do corredor alguns pedaços de pano que a Sra. Hammond usava para fazer a

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limpeza e fez com eles um pequeno ninho para o cão ferido. Examinou seu paletó. Tinha apenas alguns pingos de sangue na parte interna.

A cadela ficou deitada na gaveta, respirando pesadamente, com os olhos pregados nele.

Na hora do jantar, Xamã saiu do quarto. No corredor, Brooke se admirou quando o viu trancar a porta, uma coisa que ninguém fazia quando ia ficar em casa.

- Quid vis? - perguntou Brooke.

- Condo parvam catulam in meo cubículo. Brooke ergueu as sobrancelhas, atónito.

- Você tem... - Não confiou no próprio latim - ... uma cadelinha escondida no seu quarto?

- Sic est.

- Puxa! - disse Brooke incrédulo, batendo nas costas de Xamã.

Como era segunda-feira, o jantar era o que tinha sobrado do assado de domingo. Xamã guardou alguns pedaços de carne no bolso. Brooke observou com interesse. Quando

a Sra. Hammond foi apanhar a sobremesa, ele apanhou meio copo de leite e saiu da mesa, enquanto o diretor conversava sobre orçamento com o bibliotecário.




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