Noah Gordon, o xamã



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e olhou solenemente nos olhos dele.

- Meu amigo fiel - disse ela.

- Sim - disse Xamã.

Dois incidentes funcionaram como verdadeiras revelações para Rob J. Numa fria manhã de novembro, Xamã o fez parar quando se dirigia para o celeiro.

- Eu visitei a senhorita Burnham, quero dizer, a Sra. Cowan ontem. Ela mandou lembranças para você e mamãe.

Rob J. sorriu.

- Oh? Isso é ótimo. Espero que ela esteja se acostumando com a vida na fazenda de Cowan.

- Sim. Parece que as meninas gostam dela. É claro que tem muito trabalho, só os dois para fazer tudo. - Olhou para o pai. - Papai? Existem muitos casamentos como

o deles? Quero dizer, a mulher mais velha do que o homem?

- Ora, Xamã, geralmente é o contrário, mas nem sempre. Suponho que sejam tão bons quanto qualquer outro. - Esperou a continuação da conversa, mas o filho apenas

balançou a cabeça e foi para a academia. Rob foi até o celeiro e arreou o cavalo.

Alguns dias mais tarde ele e Xamã estavam trabalhando juntos em casa. Sarah tinha visto coberturas para assoalhos em várias casas de Rock Island e insistiu tanto

com Rob J. que ele concordou em fazer coberturas de assoalho para ela. Eram feitas de lona, cortada no tamanho do cómodo que iam cobrir, tratadas com resina e depois

com cinco camadas de tinta. O resultado era à prova de lama, de água e muito decorativo. Sarah tinha contratado Alden e Alex para aplicar a resina e as primeiras

quatro camadas de tinta, mas requisitou o marido para o acabamento.

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Rob J. tinha preparado a tinta para as cinco camadas, usando nata de leite, óleo comprado na loja e cascas de ovo bem moídas para fazer a tinta da cor do trigo

novo. Ele e Xamã tinham acabado de aplicar a última camada e agora, na manhã ensolarada de domingo, estavam acrescentando as faixas negras em volta de cada cobertura,

tentando acabar o serviço antes que Sarah voltasse da igreja.

Xamã estava sendo paciente. Rob J. sabia que Rachel o esperava na cozinha, mas percebeu que ele não procurava apressar o trabalho e agora estavam fazendo a borda

decorativa no último tapete.

- Papai? - perguntou Xamã. - A gente precisa de muito dinheiro para casar?

- Hum. Uma quantia considerável. - Limpou o pincel no pano. - Bem, varia, é claro. Alguns casais vivem com os pais dela ou dele, até conseguirem manter a própria

casa. - Rob tinha feito uma régua de madeira fina para facilitar e agora Xamã protegia com ela a superfície pintada e aplicava a tinta negra, concluindo o trabalho.

Limparam os pincéis, guardaram as ferramentas no celeiro e voltaram para casa. Xamã balançou a cabeça afirmativamente.

- Sim, eu compreendo que deve variar.

- O que deve variar? - perguntou Rob J. distraído, pensando em como ia drenar o fluido do joelho inchado de Harold Hayse.

- O dinheiro que a gente precisa para casar. Depende do quanto se ganha, do tempo que o primeiro filho leva para chegar, coisas assim.

- Exatamente - disse Rob J. Estava intrigado, certo de ter perdido a parte essencial da conversa.

Porém, alguns minutos mais tarde, Xamã e Rachel Geiger passaram pelo celeiro, na direção da estrada. Xamã olhava para Rachel para ver o que ela dizia, mas observando

o rosto do filho, Rob J. compreendeu imediatamente o que significava sua expressão.

Muita coisa se encaixava, pensou Rob J. e fez uma careta.

Antes de tratar do joelho de Harold Hayse, ele foi até a fazenda dos Geiger. Jay estava no barracão das ferramentas, amolando duas foices, e o recebeu com um sorriso,

sem parar o movimento raspante da pedra na lâmina.

- Rob J.

- Jason.


Rob J. apanhou a outra pedra de amolar e começou a trabalhar na segunda foice.

- Preciso conversar com você sobre um problema - disse ele.

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40 CRESCENDO

A última e obstinada camada de neve do inverno cobria ainda os campos como uma geada fina quando Rob J. deu início às atividades da primavera na fazenda de criação

de ovelhas, e Xamã, surpreso e feliz, viuse incluído nos planos pela primeira vez. Até então ele fazia trabalhos ocasionais, dedicando-se aos estudos e à terapia

da voz.


- Este ano precisamos muito da sua ajuda - disse o pai. - Alden e Alex não querem admitir, mas três homens não fazem o que Lua fazia sozinha. Além disso, o rebanho

cresce a cada ano e eles cercaram outros pastos. Falei com Dorothy Cowan e com Rachel. Elas acham que você já aprendeu tudo que podia aprender na academia. Disseram

também que não precisa mais dos exercícios vocais e - sorriu para Xamã - devo dizer que concordo com elas. Acho que você está falando muito bem.

Rob J. teve o cuidado de dizer a Xamã que aquilo não era permanente.

- Eu sei que você não quer ser fazendeiro. Mas você nos ajuda agora e enquanto isso pensamos no que vai querer fazer.

Alden e Alex se encarregaram de abater as ovelhas. Xamã devia plantar as cercas-vivas, assim que o solo descongelasse. As cercas de vigas de madeira não serviam

porque as ovelhas passavam por elas e os predadores também. Para marcar um novo pasto, Xamã fazia uma vala em todo o perímetro e depois plantava pés de maclura,

um bem junto do outro para formar uma barreira espessa. Distribuía as sementes com cuidado porque custavam 10 dólares o quilo. As árvores cresciam fortes e com folhagem

cerrada e longos espinhos que contribuíam para manter longe delas as ovelhas e os lobos. A laranja osage, ou maclura, levava três anos para formar uma cerca protetora,

mas Rob J. plantava barreiras de espinhos desde o começo e quando Xamã acabava de plantar as novas cercas, passava os dias numa escada podando as antigas. Além disso

ele desenterrava pedras do solo, rachava lenha, fazia postes de madeira e retirava os tocos de árvores da entrada dos bosques.

Suas mãos e braços ficaram arranhados pelos espinhos, as palmas ficaram calejadas, os músculos, doloridos a princípio, ficaram mais rijos em seguida. Seu corpo se

desenvolvia, a voz ficava mais grossa. À noite tinha sonhos eróticos. Geralmente não lembrava dos sonhos nem das

253mulheres que apareciam neles, mas às vezes sabia que sonhara com Rachel. Pelo menos uma vez teve certeza de que a mulher era Makwa, o que o deixou confuso e assustado.

Fazia o possível para remover as provas nos lençóis antes que fossem levados para a fervura na lavanderia.

Durante anos Xamã viu Rachel todos os dias, e agora raramente se encontravam. Numa tarde de domingo foi à casa dela e Lillian atendeu à porta.

- Rachel está ocupada e não pode falar com você agora. Eu digo que você mandou lembranças, Rob J. - disse Lillian, suavemente. Uma vez ou outra, aos sábados, quando

os pais se reuniam para tocar música, ele se sentava ao lado de Rachel e conversavam sobre a escola. Xamã sentia falta das aulas de aritmética e de ajudar Rachel

no planejamento de algumas outras quando tinham oportunidade. Mas ela parecia estranhamente constrangida. Uma das coisas que ele amava em Rachel, uma espécie de

calor e brilho, parecia abafada, como um fogo com excesso de lenha. Quando ele sugeriu um passeio, foi como se os adultos na sala estivessem esperando a resposta

e a tensão só diminuiu quando ela disse muito obrigada, Xamã, mas não estou com vontade de andar agora.

Lillian e Jay conversaram tranqüilamente com Rachel, falaram do entusiasmo quase infantil de Xamã e deixaram bem claro que competia a ela não encorajar de modo algum

esse sentimento. Não foi fácil. Xamã era seu amigo e Rachel sentia falta da sua companhia. Preocupava-se com o futuro dele, mas estava na beira de um abismo e o

esforço para desvendar o que havia no fundo escuro a enchia de ansiedade e de medo.

Rachel devia ter compreendido que a paixão de Xamã teria sido a força catalisadora da mudança, mas era tão intensa sua negação do próprio futuro que, quando Johann

C. Regensberg passou um fim de semana na casa dos Geiger, ela o viu apenas como um amigo do pai. Regensberg era um homem amável de trinta e poucos anos, um pouco

gordo, que chamava Jay respeitosamente de Sr. Geiger, mas insistia para ser chamado de Joe. De estatura mediana, ele tinha olhos azuis muito vivos que olhavam o

mundo através dos óculos com aros de metal. O rosto agradável aparecia entre a barba curta e o cabelo castanho logo atrás da calva incipiente. Mais tarde, Lillian

o descrevia para as amigas dizendo que Joe “tinha testa alta”.

Joe Regensberg apareceu na fazenda na sexta-feira, em tempo para o jantar do Shabbat. Aquela noite e o dia seguinte ele passou tranqüilamente com a família Geiger.

No sábado de manhã ele e Jason leram as Escrituras e estudaram o Livro do Levítico. Depois do almoço de pratos frios, ele visitou o celeiro e a farmácia e depois,

agasalhado contra o frio do dia cinzento, foi com toda a família ver os campos preparados para o plantio da primavera.

Os Geiger encerraram o Shabbat com um jantar de cholent, um prato

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feito com vagens, carne, cevada e ameixas, que estava cozinhando lentamente sobre o carvão em brasa desde a tarde do dia anterior porque a religião judaica proíbe

que se acenda fogo durante o Shabbat. Depois tocaram um pouco de música. Jason tocou parte de uma sonata de Beethoven para violino e depois passou o instrumento

para Rachel que, com prazer, terminou a sonata, enquanto o estranho a observava com evidente admiração. No fim da noite, Joe Regensberg tirou da sua bolsa de tapeçaria

presentes para todos. Uma cesta de pão para Lillian, feita na sua fábrica de artigos de folha-de-flandres, em Chicago, uma garrafa de conhaque envelhecido para Jay,

e para Rachel um livro, The Pickwick Paper s, de Charles Dickens.

Quando viu que não havia presentes para seus irmãos, Rachel, cheia de terror e confusão, compreendeu o significado da visita. Agradeceu mecanicamente dizendo que

gostava do Sr. Dickens mas que só tinha lido até então Nicholas Nickleby.

- The Pickwick Papers é um dos meus favoritos - disse ele. - Comentaremos o livro depois que você tiver lido.

Joe Regensberg não podia ser descrito como um homem bonito, mas tinha um rosto inteligente. Um livro, pensou Rachel, era o presente que só um homem excepcional daria

a uma mulher naquelas circunstâncias.

- Achei que seria adequado para uma jovem professora - disse ele, como se pudesse ler os pensamentos dela.

Ele se vestia melhor do que os outros homens que Rachel conhecia, provavelmente suas roupas eram feitas por melhores alfaiates. Quando ele sorria, pequenas rugas

surgiam em volta dos olhos.

Jason tinha escrito para Benjamin Schoenberg, o shadchen de Peoria, e, por segurança, enviou outra carta a um agente matrimonial chamado Solomon Rosen, de Chicago,

onde era grande a colônia judaica. Schoenberg respondeu com uma carta rebuscada, dizendo que tinha vários jovens candidatos que seriam maridos maravilhosos, e que

os Geiger podiam conhecê-los quando fossem a Peoria para os Grandes Dias Santos. Mas Solomon Rosen agiu imediatamente. Um dos seus melhores candidatos era Johann

Regensberg. Quando Regensberg disse que precisava ir ao oeste de Illinois para visitar alguns dos seus fregueses, incluindo várias lojas em Rock Island e em Davenport,

Solomon providenciou sua apresentação aos Geiger.

Algumas semanas depois da visita, chegou outra carta do Sr. Rosen. Johann Regensberg ficara favoravelmente impressionado com Rachel. O Sr. Rosen informava então

que a família Regensberg tinha yiches, a verdadeira distinção concedida a uma família que por várias gerações vinha prestando serviços à comunidade. A carta dizia

que entre os ancestrais do Sr. Regensberg havia professores e estudiosos da Bíblia e que a família remontava ao século XIV.

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Mas continuando a leitura, Jay franziu a testa, insultado. Os pais de Johann, Leon e Golda Regensberg, estavam mortos e eram representados para o contrato de casamento

pela Sra. Harriet Ferber, irmã do falecido Leon Regensberg. Procurando seguir a tradição da família, a Sra. Ferber exigia que fossem apresentadas testemunhas ou

outra prova da virgindade da futura noiva.

- Isto não é a Europa. E eles não estão comprando uma vaca -

disse Jason, furioso.

A breve e fria nota de recusa de Geiger foi respondida imediatamente com uma carta conciliatória do Sr. Rosen, retirando a exigência e perguntando se a tia de Johann

podia visitar os Geiger. Assim, algumas semanas depois, a Sra. Ferber chegou a Holden’s Crossing. Era uma mulher pequena de cabelos brancos e brilhantes penteados

para trás e presos por um coque na nuca. Com uma cesta cheia de frutas cristalizadas, bolos, e uma dúzia de garrafas de vinho kosher, ela também chegou a tempo para

o Shabbat. Elogiou a comida feita por Lillian e a arte musical da família, mas sua atenção estava toda concentrada em Rachel, com quem conversou sobre educação de

filhos e de quem evidentemente gostou desde o começo.

Ela não era tão amedrontadora quanto tinham imaginado. Depois do jantar, enquanto Rachel arrumava a cozinha, a Sra. Ferber e os Geiger falaram sobre suas famílias.

Os antepassados de Lillian eram judeus espanhóis fugidos da Inquisição, primeiro para a Holanda, depois para a Inglaterra. Na América tinham antecedentes notáveis

na política. Por parte de pai, Lillian era parente de Francis Salvador, eleito por seus vizinhos cristãos para o Congresso da Província da Carolina do Sul e que,

servindo na milícia patriótica, algumas semanas depois de entrar em vigor a Declaração da Independência, foi o primeiro judeu a dar a vida pelos Estados Unidos,

vítima de uma cilada, e escalpelado pelos tóris e pelos índios. Por parte de mãe ela era uma Mendes, prima de Judah Benjamin, senador representante da Louisiana

no Senado dos Estados Unidos. A família de Jason, fabricantes de produtos farmacêuticos na Alemanha, chegara a Charleston em 1819, quando, na Alemanha, grupos exaltados

percorriam as ruas à procura de judeus, gritando “Hep! Hep! Hep!” como no tempo das cruzadas, a sigla de Hierosolyma est perdita, Jerusalém está perdida. Os Regensberg

saíram da Alemanha dez anos antes dos distúrbios dos Heps, contou a Sra. Ferber. A família possuía vinhedos na Renânia. Não eram ricos, mas gozavam de uma confortável

situação financeira e a fábrica de artigos de folha-de-flandres de Johann ia muito bem. Ele era membro da tribo de Kohane, o sangue dos sumos sacerdotes do Templo

de Salomão corria em suas veias. Se o casamento se realizasse, disse ela delicadamente para Lillian e Jay, seus netos seriam descendentes

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de dois rabinos importantes de Jerusalém. Os três conversaram, com simpatia evidente dos dois lados, tomando o bom chá inglês, um dos artigos do opulento cesto



da Sra. Ferber.

- A irmã da minha mãe chamava-se Harriet - disse Lillian. - Nós a chamávamos de Hattie.

- Todos me chamam só de Harriet - disse a Sra. Ferber, com um bom humor tão caloroso que os Geiger não tiveram dificuldade em aceitar o convite para visitá-la em

Chicago.


Algumas semanas mais tarde, numa quarta-feira, toda a família Geiger embarcou no trem em Rock Island para uma viagem de cinco horas, direta, sem baldeação. Chicago

era grande, espalhada, suja, superpopulosa, feia, barulhenta e, para Rachel, extremamente excitante. Os Geiger hospedaram-se no Palmer’s Illinois House Hotel. Na

quinta e na sextafeira, durante os dois jantares na casa de Harriet, na Avenida South Wabash, conheceram os outros membros da família e no sábado de manhã foram

até a sinagoga da família dos Regensberg para os serviços religiosos. A Congregação Kehilath Anshe Maarib concedeu a Jason a honra de ser chamado à Tora para entoar

uma bênção. À noite foram ao teatro, onde uma companhia itinerante apresentava Der Freischútz, de Carl Maria von Weber. Rachel nunca assistira a uma ópera antes

e ficou encantada com a música leve e romântica das árias. No primeiro intervalo, Joe Regensberg a levou para fora do teatro e a pediu em casamento e ela aceitou.

Tudo se processou quase sem trauma, pois o verdadeiro pedido já fora feito pela Sra. Ferber e aceito pelos pais de Rachel. Ele tirou do bolso o anel que fora da

sua mãe. Era um brilhante, o primeiro que Rachel via, modesto, mas finamente engastado. O anel era um pouco largo para seu dedo e Rachel manteve a mão fechada para

não perdê-lo. Quando voltaram a seus lugares, o segundo ato estava começando. Sentada no escuro, ao lado de Lillian, Rachel segurou a mão da mãe e a pôs sobre o

anel, sorrindo ao ouvir a exclamação abafada. Deixando que a música a transportasse para a floresta da Alemanha, ela compreendeu que aquilo que temia há tanto tempo

poderia na verdade ser a porta para a liberdade e uma agradável espécie de poder.

Na quente manhã de maio em que ela foi à fazenda dos Cole, Xamã, coberto de suor, poeira e mato seco, depois de trabalhar horas com a foice, estava juntando a palha

com o ancinho. Rachel estava com um vestido velho, que ele conhecia muito bem, com manchas de suor começando a aparecer nas axilas, uma touca de pano cinzenta de

abas largas, que Xamã nunca tinha visto, e luvas brancas de algodão. Quando ela perguntou se ele podia acompanhá-la até a casa, Xamã largou o ancinho alegremente.

Durante algum tempo falaram sobre a academia, mas logo ela começou a falar do que estava acontecendo na sua vida.

Com um sorriso, Rachel tirou a luva da mão esquerda e mostrou o anel e Xamã compreendeu que ela ia casar-se.

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- Então vai embora de Holden’s Crossing?



Rachel segurou a mão dele. Anos depois, lembrando aquela cena vezes sem conta, Xamã envergonhava-se por não ter dito nada. De não ter desejado a ela uma vida feliz,

de não ter dito o que ela significava para ele, de não ter agradecido.

De não ter se despedido.

Mas não conseguiu olhar para ela, por isso não viu o que Rachel estava dizendo. Era como se estivesse se transformando em pedra e as palavras escorriam por ele como

chuva.

Quando chegaram na entrada da fazenda dos Geiger, Xamã fez meiavolta e se afastou, com a mão dolorida da força com que Rachel a tinha apertado o tempo todo.



No dia seguinte ao da partida dos Geiger para Chicago, onde Rachel ia se casar na sinagoga, sob um dossel, Rob J. chegou em casa e foi recebido por Alex, que se

ofereceu para levar o cavalo para a estrebaria no celeiro.

- Acho melhor você ir ver. Tem alguma coisa errada com Xamã.

Rob J. parou ao lado da porta do quarto de Xamã e ouviu os soluços roucos e guturais. Quando tinha a idade de Xamã, Rob lembrava-se de ter chorado assim porque sua

cadela tinha começado a atacar e a morder todo mundo e sua mãe a deu para um pequeno fazendeiro que vivia sozinho nas colinas. Mas sabia que o filho chorava por

um ser humano e não por um animal.

Entrou e sentou na beirada da cama.

- Você precisa saber de algumas coisas. Existem poucos judeus e, em quase toda parte, vivem no meio de um grande número de nós. Por isso, eles acham que devem casar

entre eles para sobreviver.

- Mas isso não se aplica a você. Você nunca teve sequer uma chance. - Afastou o cabelo molhado de lágrimas do rosto do filho e depois apoiou a mão na cabeça dele.

- Porque ela é uma mulher - disse ele. - E você é um garoto.

No verão o comité da escola, à procura de um bom professor a quem pudessem pagar pouco devido à pouca idade, ofereceu o lugar a Xamã, mas ele recusou.

- Então, o que você quei fazer? - perguntou o pai.

- Eu não sei.

- Há um colégio em Galesburg, o Colégio Knox - disse Rob J. - Dizem que é muito bom. Gostaria de estudar mais? E mudar um pouco de cenário?

Xamã fez que sim com a cabeça.

- Acho que sim.

Dois meses depois de completar quinze anos, Xamã saiu de casa.

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VENCEDORES E PERDEDORES



Em setembro de 1858, o reverendo Joseph Hills Perkins foi chamado para o púlpito da maior igreja batista de Springfield. Faziam parte do seu próspero e novo rebanho

o governador e vários membros do Legislativo estadual e o Sr. Perkins ficou apenas um pouco mais maravilhado com sua boa sorte do que os membros da sua igreja em

Holden’s Crossing, que viam no seu sucesso a prova da inteligência com que o tinham escolhido. Durante algum tempo Sarah se ocupou com a organização de jantares

e reuniões de despedida. Depois da partida de Perkins, recomeçou a procura de um novo pastor e a série de candidatos que se hospedavam nas casas dos paroquianos,

além das discussões e debates acerca das qualidades dos mesmos.

A princípio, a preferência da maioria voltou-se para um pastor do norte de Illinois, um fervoroso inimigo do pecado, mas para alívio dos que, como Sarah, não gostavam

do seu estilo, tiveram de levar em consideração o fato de o pastor ter seis filhos, com outro a caminho, demais para a pequena casa oferecida pela cidade. Finalmente

escolheram o Sr. Lucian Blackmer, um homem de rosto corado e peito largo, recentemente chegado do oeste. “Do Estado de Rhode Island, para o Estado de Graça’ ‘, assim

Carroll Wilkenson apresentou a Rob J. o novo pastor. O Sr. Blackmer parecia um homem agradável, mas Rob J. ficou deprimido quando conheceu a mulher dele, pois Julia

Blackmer era magra e ansiosa, com a palidez e a tosse de uma longa e avançada doença dos pulmões. Ao cumprimentá-la, dando as boas-vindas, Rob sentiu que Blackmer

o observava como que esperando que o médico pudesse lhes oferecer uma renovada esperança e uma cura certa.

Holden’s Crossing, Illinois

12 de outubro de 1858

Querido Xamã

Fiquei satisfeito por saber, através de sua carta, que já se instalou em Galesburg, que está gostando dos estudos e que goza de boa saúde. Aqui todos estão bem.

Alden e Alex terminaram o abate dos porcos e estamos nos deliciando com toucinho fresco, costeletas, sobrecoxas,

259presuntos (cozidos, defumados e salgados), carne de porco em conserva, geléia de mocotó e banha.

Todos dizem que o novo ministro é um homem interessante quando sobe ao púlpito. Para lhe fazer justiça, devo dizer que é um homem de coragem, pois seu primeiro sermão

versou sobre uma certa questão moral a respeito da escravidão e, embora pareça ter recebido a aprovação da maioria dos ouvintes, uma vigorosa minoria vocal (incluindo

sua mãe!) discordou dele depois do serviço religioso.

Gostei de saber que Abraham Lincoln, de Springfield, e o senador Douglas farão um debate no Colégio Knox no dia 7 de outubro, e espero que você tenha oportunidade

de assistir. Os dois são candidatos ao Senado. Pela primeira vez vou votar como cidadão e não sei qual dos candidatos é o pior. Douglas combate a intolerância ignorante

dos Não Sabem de Nada, mas é a favor dos donos de escravos. Lincoln ataca fulminantemente a escravidão, mas aceita - na verdade aplaude - os Não Sabem de Nada. Ambos

me deixam furioso! Políticos!

Os seus estudos parecem interessantes. Lembre-se de que, além de botânica, astronomia e fisiologia, podemos aprender muitos segredos com a poesia.

Talvez o que esteja anexando a esta carta o ajude a comprar os presentes de Natal. Espero ansiosamente sua visita por ocasião das festas.

Com amor, seu pai.

Rob J. sentia falta de Xamã. Seu relacionamento com Alex era mais cauteloso do que caloroso. Sarah estava sempre ocupada com o trabalho da igreja. Uma vez ou outra

tocava música com os Geiger, mas quando terminavam de tocar, enfrentavam suas divergências políticas. Eram mais freqüentes agora suas visitas ao Convento de São




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