Noah Gordon, o xamã



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Rob recebeu uma intimação oficial para se apresentar no tribunal de Rock Island “no dia vinte e um de junho, do ano de Nosso Senhor de mil oitocentos e cinqüenta

e sete, para fins de naturalização”.

O dia estava claro e abafado, mas as janelas do tribunal estavam fechadas porque o meritíssimo Daniel P. Allan não gostava de moscas. Havia pouco movimento e Rob

J. teve certeza de que não ia demorar, até o juiz Allan começar com o juramento.

- Muito bem, vejamos. Jura que, a partir de agora, renuncia a todos os títulos e fidelidade a qualquer outro país?

- Eu juro - respondeu Rob J.

- E jura apoiar e defender a Constituição e empunhar armas a favor dos Estados Unidos da América?

- Bem, não, senhor, não juro - disse Rob J. com firmeza. Sobressaltado, o juiz saiu do torpor e olhou para ele.

- Não acredito em violência, meritíssimo, por isso não lutarei na guerra.

O juiz Allan ficou aborrecido. Sentado à mesa do meirinho, ao lado do juiz, Roger Murray pigarreou.

- A lei diz, juiz, que em casos como este, o candidato tem de provar que faz bbjeção consciente, porque suas crenças o impedem de empunhar armas. Significa que ele

deve pertencer a algum grupo como os quacres, que declaram publicamente que não lutarão.

- Conheço a lei e sei o que significa - replicou o juiz, secamente, furioso porque Murray sempre dava um jeito de instruí-lo publicamente. Olhou por cima dos óculos:

- O senhor é quacre, Dr. Cole?

- Não, meritíssimo.

- Bem, então que diabo o senhor é?

- Não sou filiado a nenhuma religião - disse Rob J. e percebeu que o juiz parecia ter sido insultado.

- Meritíssimo, posso me aproximar da mesa? - disse alguém no fundo da sala. Rob J. viu Stephen Hume, que era advogado da estrada de ferro desde que Nick Holden tinha

ganho sua cadeira no Congresso. O juiz Allan fez sinal para ele se aproximar. - Senador.

- Juiz - disse Hume, com um sorriso -, eu gostaria de me responsabilizar pessoalmente pelo Dr. Cole. Um dos cavalheiros mais distintos de Illinois, serve o povo

noite e dia como médico. Todos sabem

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que sua palavra vale ouro. Se ele diz que não pode tomar parte numa guerra por causa das suas crenças, essa é a prova razoável de que precisamos.



O juiz Allan franziu a testa, sem saber ao certo se um advogado com conexões políticas o estava chamando, perante o tribunal, de irracional e resolveu que o mais

seguro seria olhar com ferocidade para Roger Murray. - Vamos prosseguir com a naturalização. - E assim, sem maiores obstáculos, Rob J. tornou-se cidadão dos Estados

Unidos da América.

Voltando para Holden’s Crossing, lembranças estranhas e saudosas o assaltaram, lembranças da terra dos escoceses à qual acabava de renunciar. Era bom ser americano.

Só que o país estava sobrecarregado de problemas. A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu definitivamente que Dred Scott era um escravo porque o Congresso não

tinha força legal para proibir a escravidão nos territórios. A princípio, os sulistas se alegraram, mas logo estavam furiosos outra vez porque os líderes do partido

republicano disseram que não aceitariam a decisão da corte como definitiva.

Rob J. também não aceitava, embora sua mulher e seu filho mais velho fossem ardentes simpatizantes dos sulistas. Ele havia enviado dezenas de fugitivos para o Canadá,

com passagem por seu esconderijo no barracão, e no processo várias vezes esteve a ponto de ser apanhado. Certa vez Alex disse que, na noite anterior, tinha encontrado

George Cliburne a uns dois quilómetros da fazenda.

- Lá estava ele, sentado no alto da carroça cheia de feno, às três horas da manhã! Agora diga, o que acha disso?

- Acho que você tem de trabalhar duro para levantar mais cedo do que um quacre industrioso. Mas o que você estava fazendo fora de casa a essa hora da manhã? - perguntou

Rob J. e Alex se esforçou para mudar de assunto, para não ter de revelar a farra com bebida e mulheres, na companhia de Mal Howard. Assim, o estranho horário de

trabalho de George Cliburne foi completamente esquecido.

No meio de outra noite Rob estava fechando o cadeado do barracão quando Alden apareceu.

- Não consigo dormir. Acabou meu suco e lembrei que tinha um pouco guardado no celeiro. - Ergueu o garrafão, oferecendo um gole. Rob J. raramente bebia, pois o álcool

enfraquecia o Dom, mas naquele momento quis partilhar alguma coisa com Alden. Tirou a rolha do garrafão, tomou um gole e tossiu. Alden abriu um enorme sorriso.

Rob queria afastar Alden do barracão. No esconderijo estava um negro de meia-idade com um chiado asmático. Rob J. suspeitava que o chiado às vezes aumentava e, se

isso acontecesse, Alden poderia ouvir. Mas Alden não parecia querer ir a lugar algum. Agachou, sentando nos calcanhares, e mostrou como um campeão bebe uísque, o

dedo passado na asa do garrafão apoiado no cotovelo, o cotovelo erguido o suficiente para enviar a quantidade certa de bebida à boca.

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- Tem tido dificuldade para dormir ultimamente? Alden deu de ombros.



- Quase sempre eu apago logo, cansado do trabalho. Quando isso não acontece, a bebida ajuda.

Desde a morte de Chega Cantando, Alden parecia mais cansado e abatido.

- Preciso arranjar alguém para ajudar a tomar conta da fazenda - Rob disse, pela vigésima vez.

- Difícil achar um homem branco que queira trabalhar para os outros. Eu não trabalharia com um negro - disse Alden e Rob imaginou se o som das suas vozes chegava

até onde estava o fugitivo. - Além disso, Alex está trabalhando comigo agora e ele vai muito bem.

- Vai mesmo?

Alden ficou de pé, e cambaleou um pouco. Devia ter tomado um bocado de suco antes de sair para apanhar mais.

- Que diabo, doutor - disse ele, deliberadamente. - Nunca dá valor aos dois meninos. - Segurando o garrafão com cuidado, ele voltou para casa.

No fim daquele verão, um chinês de meia-idade, nome desconhecido, apareceu em Holden’s Crossing. Recusou o emprego oferecido no bar do Nelson e pagou uma prostituta

chamada Penny Davis para comprar uma garrafa de uísque e o levar para seu quarto, onde, na manhã seguinte, ele morreu na cama. O xerife Graham disse que não queria

na sua cidade nenhuma prostituta que tinha dormido com um chink e depois ia dormir com homens brancos, e providenciou pessoalmente a saída de Penny Davis de Holden’s

Crossing. Então pôs o corpo numa carroça e mandou-o para o legista mais próximo.

Naquela tarde, quando Rob J. chegou perto do barracão, Xamã estava à sua espera.

- Nunca vi um oriental.

- Acontece que este está morto. Você sabe disso, não sabe, Xamã?

- Sei, pai.

Rob J. fez um gesto afirmativo e abriu a porta.

O corpo estava coberto com um lençol que Rob dobrou e pôs na cadeira. Xamã estava pálido, mas controlado, observando o homem morto. O chinês era pequeno, magro,

mas musculoso. Os olhos estavam fechados. O tom da pele era algo entre o branco pálido dos brancos e o avermelhado dos índios. As unhas dos pés, duras e amarelas,

precisavam ser cortadas. Rob procurou ver o homem com os olhos do filho e ficou comovido.

- Agora preciso fazer meu trabalho, Xamã.

- Posso ver?

- Tem certeza?

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- Tenho, pai.

Rob apanhou o bisturi e abriu o peito do chinês. Oliver Wendell Holmes tinha um estilo bombástico para apresentar a morte. O de Rob era mais simples. Avisou que

as entranhas de um homem fediam mais do que qualquer animal que Xamã já tinha limpado e mandou que ele respirasse pela boca. Então notou que o tecido frio não era

mais uma pessoa.

- Fosse o que fosse que dava vida a este homem - alguns chamam de alma - já deixou o corpo.

Xamã estava pálido, mas alerta.

- É essa parte que vai para o céu?

- Não sei para onde vai - disse Rob. Começou a pesar os órgãos e deixou que Xamã o ajudasse, anotando o peso de cada um.

- William Fergusson, que foi meu mentor, costumava dizer que o espírito deixa o corpo para trás como uma casa vazia, por isso temos de tratá-lo com cuidado e dignidade,

como prova de respeito pelo homem que morava aqui. Este é o coração e foi o que o matou.

Tirou o coração e o pôs na mão de Xamã para que ele pudesse observar o músculo arredondado, de tecido escuro, morto e estufado.

- Por que isso aconteceu, pai?

- Eu não sei, Xamã.

Rob repôs os órgãos no lugar e fechou a incisão e quando os dois terminaram de se lavar, a cor já tinha voltado ao rosto de Xamã.

- Você gostaria de estudar comigo aqui, uma vez ou outra?

- Sim, gostaria! - disse Xamã, feliz.

- Ocorreu-me que você pode querer se formar em ciências. Pode ganhar a vida dando aulas, talvez até mesmo numa faculdade. Acha que gostaria disso, filho?

Xamã olhou para ele muito sério, franzindo a testa enquanto pensava. Depois deu de ombros.

- Talvez - disse ele.

39 PROFESSORES

Naquele mês de janeiro, Rob J. levou alguns cobertores a mais para o esconderijo porque os fugitivos do extremo sul do país sofriam muito com o frio. Caiu menos

neve do que de costume, mas o bastante para cobrir os campos cultivados fazendo-os parecer a pradaria no inverno.

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Às vezes, ao voltar de um chamado, no meio da noite, imaginava que a qualquer momento avistaria uma longa fila de peles-vermelhas montados em bons cavalos, atravessando



o brilho ofuscante da vasta planície, seguindo seus Xamãs e seus chefes, ou de criaturas enormes e corcundas saindo da escuridão e caminhando até ele, com o pêlo

coberto de geada e o luar brilhando no chifres curvos de pontas cortantes. Mas nunca viu coisa alguma porque acreditava em fantasmas menos do que acreditava em Deus.

Quando chegou a primavera, diminuiu o número de fugitivos e os rios e regatos não passaram acima das margens. Talvez tivesse algo a ver com o fato de ele ter tratado

de um menor número de casos de febre naquela estação. Porém, por algum motivo, foi maior o número de mortes entre os que adoeceram. Uma das pacientes que Rob perdeu

foi Matilda Cowan, cujo marido, Simeon, cultivava milho na região norte do condado, numa terra boa, embora um tanto seca. Tinham três filhas pequenas. Se uma mulher

jovem morria, deixando filhos, todos esperavam que o viúvo voltasse a se casar imediatamente, mas quando Cowan pediu Dorothy Burnham, a professora, em casamento,

muita gente ficou surpresa. Ele foi aceito na hora.

Tomando o café da manhã, certo dia, Rob J. disse para Sarah, com um sorriso divertido, que a diretoria da escola estava preocupada.

- Pensamos que Dorothy seria uma solteirona pelo resto da vida. Cowan é esperto. Ela vai ser uma boa esposa.

- Ela é uma mulher de sorte - disse Sarah, secamente. - Muito mais velha do que ele.

- Oh, Simeon Cowan é só uns dois ou três anos mais moço que Dorothy - disse Rob J., passando manteiga num biscoito. - Não é uma diferença muito grande. - E sorriu

vendo Xamã balançar a cabeça concordando, atento à conversa sobre sua professora.

No último dia da senhorita Burnham na academia, Xamã esperou que todos saíssem e foi se despedir.

- Acho que vamos nos ver na cidade. Estou contente porque a senhora não foi se casar em outro lugar longe daqui.

- Eu também estou feliz por continuar em Holden’s Crossing, Robert.

- Eu quero agradecer - disse ele, um pouco embaraçado. Xamã sabia o que aquela mulher feia e carinhosa tinha significado em sua vida.

- Não precisa agradecer, meu querido. - Dorothy Burnham tinha informado os pais dele que não ia mais trabalhar com Xamã, agora que precisava cuidar da fazenda e

de três crianças. - Estou certa de que você e Rachel podem fazer maravilhas sem a minha ajuda. Além disso, você chegou ao ponto em que pode dispensar os exercícios

de voz.

- Acha que minha voz é igual às dos outros?



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- Bem... - Ela pensou na pergunta com seriedade. - Não exatamente. Quando você está cansado, sua voz fica gutural. Você está sempre atento ao som da sua voz, por

isso não arrasta tanto a fala como muitas pessoas. Logo, há uma pequena diferença. - Percebeu que isso o preocupava e segurou a mão dele. - É uma diferença muito

charmosa - disse ela, e ficou feliz vendo a satisfação nos olhos dele.

Xamã tinha comprado em Rock Island um pequeno presente para ela, com seu dinheiro. Lenços com bainha de renda azul-clara.

- Também tenho uma coisa para você - disse ela, estendendo um livro com sonetos de Shakespeare. - Quando ler os sonetos, tem de lembrar de mim - ordenou ela. - Menos

os amorosos, é claro! - acrescentou e depois riu com ele, com a liberdade de saber que como Sra. Cowan podia fazer e dizer coisas que a pobre senhorita Burnham,

a professora, nem sonharia.

Com o intenso movimento no rio naquela primavera, houve vários afogamentos em toda a extensão do Mississipi. Um jovem marinheiro caiu da barcaça, desapareceu rio

abaixo, levado pela correnteza, e só foi aparecer na jurisdição de Holden’s Crossing. Os homens da barcaça não sabiam de onde ele era, sabiam apenas que se chamava

Billy e o xerife Graham o entregou a Rob J.

Xamã assistiu à sua segunda autópsia e outra vez anotou os pesos dos órgãos no caderno do seu pai. Aprendeu também o que acontece com os pulmões quando a pessoa

se afoga. Dessa vez foi mais difícil para ele. Não se identificara com o chinês devido à diferença de idade e à sua origem exótica, mas Billy era pouco mais velho

do que seu irmão, Maior, e sua morte lembrava a Xamã sua condição de mortal. Conseguiu afastar tudo isso da mente, no entanto, o bastante para observar e aprender.

Quando terminaram a autópsia, Rob J. começou a dissecar logo abaixo do pulso direito de Billy.

- A maioria dos cirurgiões tem horror a mãos - disse para Xamã. - Isso porque nunca passaram um bom tempo estudando essa parte do corpo. Se você vier a ser professor

de anatomia ou fisiologia, precisa conhecer bem a mão.

Xamã compreendeu por que os cirurgiões tinham medo de operar a mão. Era só músculo, tendões e juntas móveis e ficou apavorado quando terminaram de dissecar a mão

direita e seu pai o mandou dissecar a esquerda sozinho.

Rob J. sorriu, como se soubesse exatamente o que ele estava sentindo.

- Não se preocupe. Nada do que fizer pode machucá-lo. Assim, Xamã passou grande parte do dia cortando e examinando

e observando, memorizando os nomes de todos os ossículos, aprendendo como as juntas se movem nas mãos dos vivos.

Algumas semanas mais tarde, o xerife levou o corpo de uma mulher

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velha que tinha morrido no asilo dos pobres do condado. Xamã preparouse imediatamente para a nova lição, mas seu pai não o deixou entrar no barracão.

- Xamã, você já viu uma mulher nua?

- ... Vi Makwa uma vez. Ela me levou na tenda do suor e cantou canções para curar minha surdez.

O pai olhou atônito para ele e achou que devia explicar.

- Achei que sua primeira vez não deveria ser o corpo de uma mulher que fosse velha e estivesse morta.

Xamã assentiu com a cabeça e corou.

- Não é a primeira vez, papai. Makwa não era velha nem feia.

- Não, não era - disse o pai. Bateu de leve no ombro de Xamã e os dois entraram no barracão e fecharam a porta.

Em julho o comité da escola ofereceu a Rachel Geiger a posição de professora da academia. Não era raro um dos alunos mais velhos ter oportunidade de ensinar na escola

quando havia uma vaga e Rachel foi entusiasticamente recomendada por Dorothy Burnham na sua carta de demissão. Além disso, como fez notar Carroll Wilkenson, podiam

pagar um salário de principiante e, como ela morava com os pais, não precisaria se hospedar nas casas dos alunos.

A oferta provocou angústia e incerteza na casa dos Geiger e conversas tensas e em voz baixa entre Lillian e Jay.

- Nós já adiamos as coisas por muito tempo - disse Jay.

- Mas um ano como professora, vai ser muito vantajoso para ela, pode ajudar a arranjar um bom casamento. Ser professora é tão americano

Jay suspirou. Ele amava os três filhos, Davey, Herm e Cubby. Bons meninos, amorosos. Os três tocavam piano como a mãe, com graus variados de perfeição, e Davey e

Herm queriam aprender instrumentos de sopro, se algum dia encontrassem um professor. Rachel era sua única filha e a primeira, a filha a quem ele tinha ensinado a

tocar violino. Ela ia sair de casa um dia, talvez para longe, passando a viver para ele em cartas talvez raras, com visitas pouco freqüentes.

Jay resolveu ser egoísta e mante-la no seio da família por mais um tempo.

- Está bem, deixe que ela seja professora - disse para Lillian.

Fazia alguns anos que a enchente tinha levado a tenda de suor de Makwa. Tudo o que dela restava eram duas paredes de madeira, com um metro e oitenta e três de comprimento,

quase um metro de altura e separadas uma da outra por trinta e cinco centímetros. Em agosto, Xamã começou a construir uma cúpula de galhos novos e curvos sobre as

paredes.


248 Ele trabalhava lenta e laboriosamente, entrelaçando junco verde com os galhos finos. Quando Rob viu o que ele estava fazendo, perguntou se podia ajudar, e os

dois, trabalhando durante quase duas semanas, no seu tempo livre, construíram uma cabana quase igual à que existia antes, a que fora construída por Makwa em poucas

horas, com ajuda de Lua e Chega Cantando.

Usando mais junco e galhos de salgueiro, fizeram um cesto raso de palha, do tamanho de um homem, e o levaram para dentro da cabana.

Rob J. tinha um manto rasgado de pele de búfalo e uma única pele de gamo. Estenderam as peles sobre a nova construção, mas metade da cabana ficou descoberta.

- Talvez uma manta? - sugeriu Xamã.

- É melhor duas, uma camada dupla, do contrário não vai evitar a saída do vapor.

Eles experimentaram a tenda de suor no primeiro dia de geada em setembro. As pedras de Makwa para o banho a vapor estavam onde ela as havia deixado e eles acenderam

o fogo e puseram as pedras em cima. Xamã chegou enrolado apenas numa manta que deixou do lado de fora e deitou, tremendo de frio, no cesto de palha. Usando duas

forquilhas, Rob J. levou as pedras quentes para dentro, derramou sobre elas vários baldes de água e fechou hermeticamente a cabana. Xamã, deitado no cesto de vime,

no meio do vapor, sentia a umidade quente e lembrou o medo que sentiu na primeira vez, como tinha se aninhado nos braços de Makwa, assustado com o calor e o escuro.

Lembrou das marcas estranhas nos seios dela, cicatrizes ásperas contra seu rosto. Rachel era mais magra e mais alta do que Makwa e tinha seios maiores. Pensando

em Rachel, sentiu uma ereção e ficou preocupado, pensando que o pai podia voltar para ver como ia seu banho a vapor. Obrigou-se a pensar em Makwa outra vez, lembrando

a afeição tranqüila que dela emanava, tão reconfortante quanto a primeira onda de vapor que subia das pedras. Era estranho estar na cabana em que estivera com ela

tantas vezes. A cada ano que passava, a lembrança ficava mais vaga e Xamã se perguntou por que alguém iria querer matar Makwa, por que existia gente tão cruel. Quase

sem perceber, começou a cantar uma das canções que ela lhe ensinou, Wi-a-ya-ni, Ni-na ne-gi-seke-wi-to-seme-ne ni-na... Onde quer que você vá, eu caminho com você,

meu filho.

Depois de algum tempo, Rob levou mais pedras, derramou água outra vez e o vapor encheu completamente a cabana. Xamã agüentou o maior tempo possível, e então, com

o corpo molhado de suor e quase sufocado, saltou do cesto de vime, correu para fora, para o ar gelado, e mergulhou na água fria do rio. Por um momento pensou que

tinha morrido, uma morte muito limpa, mas quando começou a se agitar e nadar, o sangue circulou vivo por todo o seu corpo e ele gritou de prazer, como um sauk, ao

sair da água e correr para o celeiro, onde se enxugou vigorosamente e vestiu roupas quentes.

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Evidentemente Xamã tinha demonstrado muita alegria porque quando ele saiu do celeiro, seu pai o esperava para experimentar a cabana e foi a vez de Xamã levar as

pedras quentes para dentro e jogar água sobre elas para fazer vapor.

Os dois voltaram para casa rindo felizes e descobriram que tinham suado durante toda a hora do jantar. A mãe de Xamã, aborrecida, tinha deixado os dois pratos na

mesa, e a comida ficara fria. Xamã e o pai não tomaram a sopa e tiveram de raspar a gordura da carne de carneiro, mas acharam que valeu a pena. Makwa sabia realmente

como tomar banho.

Rachel não teve nenhuma dificuldade em se tornar professora. A rotina era tão familiar, as lições, o trabalho na classe, as canções, os deveres de casa. Xamã era

melhor do que ela em matemática, por isso pediu a ele que ministrasse as aulas de aritmética. Ele não recebia nada pelas aulas, mas Rachel elogiou o seu trabalho

para os seus pais e para a diretoria da escola. Xamã gostava de planejar as aulas com ela.

Nenhum dos dois mencionou a opinião da senhorita Burnham sobre o fato de Xamã não precisar mais dos exercícios vocais. Agora que Rachel era professora, eles faziam

os exercícios na academia, depois das aulas, menos os que necessitassem do piano. Xamã gostava de sentar perto dela na banqueta do piano, mas apreciava mais ficar

sozinho com ela na escola.

Os alunos costumavam comentar com risadas e brincadeiras o fato de a senhorita Burnham nunca ir ao banheiro e agora Rachel fazia o mesmo, mas, assim que todos saíam,

tinha de correr para a privada. Enquanto esperava, Xamã imaginava o que ela devia usar debaixo da saia. Maior tinha dito que, quando ele fizera tudo com Pattie Drucker,

teve de ajudá-la a tirar uma ceroula velha e rasgada que fora do pai dela, mas Xamã sabia que a maioria das mulheres usava saias armadas com barbatanas ou roupas

de baixo de crina de cavalo, que eram um pouco ásperas, mas bem quentes. Rachel não gostava de frio. Quando ela voltava, pendurava o casaco no gancho de madeira

na parede e corria para o aquecedor a lenha no meio da sala, oferecendo ao calor primeiro a frente, depois as costas.

Ela estava lecionando há um mês quando teve de ir a Peoria com a família, para os feriados judaicos, e Xamã a substituiu durante duas semanas de outubro e dessa

vez foi pago. Os alunos já estavam acostumados com suas aulas de aritmética. Sabiam que ele precisava ver seus lábios para compreender o que diziam e na primeira

aula, Randy Williams, o filho mais novo do ferreiro, disse uma gracinha quando estava de costas para Xamã. As crianças riram e o professor balançou a cabeça, compreensivo.

Depois perguntou a Randy Williams se queria ficar dependurado pelos tornozelos durante algum tempo. Xamã era maior do que a

l

maioria dos homens que conhecia e os sorrisos desapareceram quando Randy timidamente fez que não com a cabeça, não queria que aquilo acontecesse. A partir desse



dia, tudo ficou fácil para Xamã.

No primeiro dia de aula, depois da volta de Peoria, Rachel estava tristonha. Naquela tarde, quando terminaram as aulas, ela voltou da privada tremendo de frio e

chorando.

Xamã a abraçou. Rachel não esboçou nenhum protesto e ficou entre ele e o aquecedor com os olhos fechados.

- Eu odeio Peoria - disse ela, em voz baixa. - É horrível conhecer tanta gente. Minha mãe e meu pai... eles me puseram em exposição.

Parecia razoável que se orgulhassem dela, pensou Xamã. Além disso, ela não teria de ir a Peoria por um ano inteiro. Mas ficou calado. Nem sonhou em beijar Rachel,

contente com o contato do corpo macio, certo de que nada do que um homem e uma mulher fazem juntos podia ser melhor do que aquilo. Então, ela se afastou um pouco




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