Noah Gordon, o xamã



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Cole e Sarah ficaram agradecidos e os Geiger satisfeitos com o que consideravam um gesto generoso.

Mas Rachel sabia que, pelo menos em parte, ela queria ajudá-lo porque era seu amigo fiel, porque uma vez, com toda seriedade, um garotinho havia se oferecido para

matar o homem que estava abusando dela.

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A base do trabalho de recuperação de Xamã consistia em longas horas de prática, sem tempo para o descanso, e ele não demorou em pôr à prova a autoridade de Rachel



de um modo que jamais teria feito com a senhorita Burnham.

- Por hoje chega. Estou cansado - disse ele, no segundo dia que ficaram sozinhos, depois da senhorita Burnham fazer Rachel repetir mais de dez vezes todo o processo.

- Não, Xamã - disse Rachel, com firmeza. - Estamos quase terminando.

Mas ele conseguiu escapar.

A segunda vez que isso aconteceu, ela ficou zangada, Xamã sorriu e Rachel voltou aos dias em que eram pequenos, chamando-o de todos os nomes que sabia. Mas na terceira

vez, no dia seguinte, os olhos dela encheram-se de lágrimas e Xamã ficou desarmado.

- Vamos tentar outra vez, então - disse ele, com relutância. Rachel ficou agradecida, mas nunca cedeu à tentação de controlar

Xamã com suas lágrimas, percebendo instintivamente que seria melhor para ele uma atitude mais rigorosa. Depois de algum tempo, as longas horas se tornaram rotina

para ambos. Com a passagem dos meses e o progresso de Xamã, Rachel adaptou novas modalidades ao método da senhorita Burnham.

Passavam um longo tempo praticando o modo como a entonação de vooz pgdia mudar OQsentido de uma palavra na mesma sentença.

- criança está doente.

A criança está doente.

A criança está doente.

Às vezes, Rachel apertava a mão dele para mostrar a palavra enfatizada e Xamã gostava disso. Já não gostava do exercício com o piano, quando identificava cada nota

pela vibração, porque para sua mãe o processo era um truque de salão e ela vivia pedindo para ele fazer demonstrações. Mas Rachel continuou a trabalhar com ele no

piano, e ficava fascinada quando tocava a escala em outro tom e ele identificava as notas com a mesma facilidade.

Aos poucos ele passou das notas do piano para as outras vibrações que o rodeavam. Sabia quando alguém batia na porta, embora não pudesse ouvir. Percebia os passos

subindo a escada, embora as outras pessoas não ouvissem.

Um dia, como Dorothy Burnham tinha feito, Rachel segurou a mão dele e a encostou no seu pescoço. No começo ela falou alto. Depois, moderou a sonoridade da voz e

foi até o sussurro.

- Você sente a diferença?

A mão de Xamã sentia o calor e a maciez delicada, mas forte, da pele de Rachel, sentia os músculos e os tendões. Ele pensou num cisne,

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depois num passarinho, quando sentiu a pulsação de um modo que não tinha sentido no pescoço mais grosso e mais curto da senhorita Burnham.



Xamã sorriu.

- Sim, eu sinto - disse ele.

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MARCAS D’ÁGUA



Ninguém mais atirou em Rob J. Se o incidente no celeiro foi uma mensagem para que desistisse da investigação da morte de Makwa, quem puxou o gatilho devia estar

certo de ter atingido seu objetivo. Rob não fez nada mais porque não sabia mais o que fazer. Finalmente recebeu cartas corteses do congressista Nick Holden e do

governador de Illinois. Foram os únicos que responderam e eram apenas negativas delicadas. Rob J. não gostou, mas concentrou-se nos problemas mais imediatos.

No começo, raramente exigiam a hospitalidade do seu esconderijo sob o barracão, mas depois de ter ajudado escravos fugitivos durante anos, o número de hóspedes cresceu

e havia ocasiões em que nem bem um saía, outro já estava entrando.

O interesse pelos negros era generalizado e controvertido. Dred Scott venceu, na primeira instância do tribunal do Missouri, sua causa pela liberdade, mas a Suprema

Corte do Estado determinou que ele continuasse a ser escravo e seus advogados abolicionistas apelaram para a Suprema Corte dos Estados Unidos. Enquanto isso, escritores

e pregadores, jornalistas e políticos, defensores do abolicionismo ou da escravidão, se digladiavam nos jornais, nos livros e nos púlpitos. A primeira coisa que

Fritz Graham fez no dia seguinte à sua eleição para o mandato de cinco anos como xerife foi comprar um bando de cães “caçadores de negros”, pois tal atividade tornara-se

um esporte muito lucrativo. As recompensas pelos negros fugidos eram bem maiores e as penalidades para quem os ajudava a fugir, mais severas. Rob J. tinha medo ainda

quando imaginava o que aconteceria se fosse apanhado, mas evitava pensar nisso.

George Cliburne o cumprimentava com polidez sonolenta sempre que se encontravam por acaso, como se nunca tivessem se encontrado no meio da noite, em circunstâncias

bem diferentes. Um subproduto dessa associação foi o acesso à vasta biblioteca de Cliburne. Rob levava livros para Xamã e às vezes também lia alguns. O forte da

coleção eram os

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livros de filosofia e religião, mas era fraca em ciência, exatamente como Rob definia Cliburne.



Quando completou um ano que Rob vinha protegendo negros fugidos, Cliburne o convidou para uma reunião dos quacres e, diante da recusa, disse, com certo constrangimento.

- Achei que isso podia ajudá-lo, uma vez que faz o trabalho do Senhor.

Rob ia corrigir, dizendo que fazia o trabalho dos homens e não de Deus, mas achou que era uma frase pomposa demais e limitou-se a sorrir, balançando a cabeça.

Sabia que seu esconderijo era apenas um dos elos de uma grande cadeia, mas não conhecia nada sobre o resto do sistema. Ele e o Dr. Barr nunca se referiram ao fato

de que a recomendação do médico o tinha levado a se tornar um violador da lei. Seus únicos contatos clandestinos eram com Cliburne e com Carroll Wilkenson, que o

avisava sempre que o quacre tinha recebido “um livro novo e interessante”. Rob J. tinha certeza de que quando os fugitivos deixavam sua fazenda eram levados para

o norte, atravessando o Wisconsin e entrando no Canadá. Provavelmente cruzavam de barco o Lago Superior. Essa seria a rota de fuga que ele teria traçado se fosse

o mentor do projeto.

Uma vez ou outra Cliburne levava uma mulher, mas a maioria dos fugitivos era formada por homens. A variedade era enorme, sempre andrajosos, com roupas de estopa.

Alguns tinham a pele de uma negritude tão intensa que para Rob era a verdadeira definição de negror completo, o roxo escuro e brilhante de ameixas maduras, o negro

opaco de ossos queimados, o negro profundo das asas do corvo. Outros eram produto da diluição da cor original com a dos seus opressores, com tonalidades que iam

desde o café com leite até o marrom-claro do pão torrado. Muitos eram homens grandes, com corpos fortes e musculosos, mas um era jovem e magro, quase branco e usava

óculos com aros de metal. Disse que era filho de uma criada doméstica negra e do dono da plantação de um lugar chamado Shreve’s Landing, na Louisiana. Ele sabia

ler e ficou muito grato quando Rob forneceu velas, fósforos e números antigos de jornais de Rock Island.

Rob J. sentia-se frustrado como médico porque os fugitivos não se demoravam o suficiente para que pudesse tratar dos seus problemas físicos. Percebeu que as lentes

do negro de pele clara eram fortes demais para ele. Semanas depois de o jovem ter ido embora, Rob encontrou óculos com lentes mais adequadas. Na sua primeira visita

a Rock Island, procurou Cliburne e perguntou se ele poderia enviar os óculos para o jovem fugitivo, mas Cliburne balançou a cabeça.

- O senhor devia ser mais sensato, Dr. Cole - e afastou-se sem se despedir.

Em outra ocasião, um homem grande, de pele muito escura, ficou três dias no esconderijo, mais do que suficiente para Rob ver que ele

235 estava nervoso e com problemas intestinais. Às vezes seu rosto tinha uma cor acinzentada e doentia e seu apetite era irregular. Rob estava certo de que o homem

tinha

uma solitária. Deu a ele um vidro de medicamento específico, com a recomendação de só tomar quando chegasse ao seu



destino.

- Do contrário, ficará muito fraco para viajar e vai deixar um rastro de fezes que qualquer xerife poderá seguir!

Enquanto vivesse, Rob jamais esqueceria nenhum deles. Identificava-se com seus temores e seus sentimentos e não era só pelo fato de ter sido também um fugitivo;

compreendia

que o fato de identificar-se com a dor daqueles homens vinha da experiência de haver testemunhado o sofrimento dos sauks.

Há muito tempo vinha ignorando a advertência de Cliburne para não fazer perguntas. Alguns eram falantes, outros calados. Na pior das hipóteses, ele conseguia sempre

saber seus nomes. O jovem de óculos chamava-se Nero, mas a maioria era de nomes judaico-cristãos: Moisés, Abraão, Isaac, Aarão, Pedro, Paulo, José. Ele ouvia os

mesmos nomes repetidamente e lembrava das histórias que Makwa contava sobre os nomes bíblicos na Escola Cristã para Meninas índias.

Passava com os mais falantes tanto tempo quanto a segurança dele e dos fugitivos permitia. Um homem do Kentucky tinha fugido antes e fora apanhado. Mostrou a Rob

J. as cicatrizes nas costas. Outro, do Tennessee, disse que não era maltratado pelo dono. Rob perguntou por que estava fugindo. O homem franziu os lábios e entrecerrou

os olhos, como que procurando uma resposta.

- Não podia esperar o Jubileu - disse finalmente.

Rob perguntou a Jay o que era o Jubileu. Na antiga Palestina, de sete em sete anos, os campos não eram cultivados para o solo recuperar as forças, de acordo com

os mandamentos da Bíblia. Depois de sete anos sabáticos, o qüinquagésimo ano era declarado ano do jubileu e os escravos recebiam um presente e eram libertados.

Rob J. afirmou que o jubileu era melhor do que manter seres humanos em perpétua servidão, mas não era de modo nenhum um ato de verdadeira bondade, uma vez que, na

maioria dos casos, cinqüenta anos de escravidão eram mais do que uma vida.

Ele e Jay discutiram o assunto com muita cautela pois conheciam há muito tempo a profundidade das diferenças entre ambos.

- Você sabe quantos escravos existem nos estados do sul? Quatro milhões. Um negro para dois brancos. Liberte esses homens e as plantações que alimentam uma porção

de abolicionistas no norte desaparecerão. E depois, o que vamos fazer com esses quatro milhões de negros? Onde eles vão viver? O que vão ser?

- Vão viver como qualquer outra pessoa. Se tiverem alguma

236 educação, podem ser qualquer coisa. Farmacêuticos, por exemplo - disse ele, sem resistir ao humor. Jay balançou a cabeça.

- Você simplesmente não compreende. A existência do sul depende da escravidão. Por isso mesmo nos estados onde não há escravidão é crime ajudar os negros fugitivos.

Jay acertou em cheio.

- Não me venha falar de crime! O tráfico de escravos africanos é proibido por lei desde 1808, mas o povo africano ainda é dominado e amontoado como animais nos navios

que os transportam para os estados do sul onde são vendidos em leilão.

- Bem, você está falando numa lei nacional. Cada estado tem suas leis. E são essas que contam.

Rob J. fungou com desprezo e a conversa terminou aí.

Ele e Jay continuavam amigos e companheiros em tudo, mas a questão da escravatura era uma barreira que ambos lamentavam. Rob era um homem que dava valor a uma conversa

tranqüila com um amigo e, assim, começou a virar Trude para a entrada do convento das franciscanas sempre que passava por perto.

Era difícil determinar com exatidão o momento em que se tornou amigo da madre Miriam Ferocia. Sarah dava a ele a satisfação física fiel e constante, tão necessária

quanto a comida e a bebida, mas passava mais tempo conversando com o pastor da igreja do que com o marido. Rob tinha descoberto no seu relacionamento com Makwa que

era possível ser amigo de uma mulher sem pensar em sexo. Agora provava isso outra vez com essa irmã da Ordem de São Francisco, uma mulher quinze anos mais velha

do que ele, com olhos severos no rosto forte emoldurado pelo cabelo de religiosa.

Tinham se encontrado poucas vezes até aquela primavera. O inverno fora brando e com chuvas pesadas. A superfície das águas subiu imperceptivelmente até ficar quase

impossível a travessia dos regatos e pequenos rios e em março a cidade pagou o preço de estar situada entre dois rios, porque, de repente, estavam no meio do que

se chamou a Enchente de 1857. Rob viu o rio subir acima das margens altas, em sua fazenda. A água entrou terra adentro arrasando a tenda do suor e a casa das mulheres

de Makwa. Seu hedonoso-te foi poupado porque ela o havia construído no alto de uma colina. A casa dos Cole não foi alcançada também. Mas logo depois que as águas

retrocederam, Rob foi chamado para tratar o primeiro caso de febre virulenta. Depois, o segundo. E o terceiro.

Sarah foi obrigada a servir de enfermeira, mas ela, Rob e Tom Beckermann logo ficaram assoberbados de trabalho. Então, certo dia, Rob foi à fazenda dos Haskell e

encontrou Ben Haskell com febre, confortado

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pelos cuidados e por um banho de esponja ministrado pelas irmãs franciscanas. Todos os “besouros marrons” estavam fora do convento, tratando os doentes. Rob



viu imediatamente, com profunda gratidão, que elas eram excelentes enfermeiras. Andavam sempre aos pares. Até a superiora trabalhava com uma companheira. Quando

Rob protestou, dizendo que era uma bobagem dos seus regulamentos, a madre superiora respondeu com uma veemência gelada, deixando bem claro que suas objeções eram

inúteis.

Rob pensou então que sempre trabalhavam aos pares para se preservarem mutuamente dos lapsos da fé ou da carne. Alguns dias depois, quando ele terminava seu dia com

uma xícara de café, no convento, sugeriu que a superiora tinha medo de deixar uma das suas irmãs sozinha na casa de um protestante. Confessou que isso o intrigava.

- Isso quer dizer que a sua fé é fraca?

- Nossa fé é forte! Mas gostamos de calor e conforto como qualquer outra pessoa. A vida que escolhemos é árida. E bastante cruel para que não acrescentemos a praga

da tentação.

Ele compreendeu. Aceitou as irmãs sob os termos de Miriam Ferocia e a eficiência delas era o que contava afinal.

A superiora perguntou certa vez com frio desprezo na voz.

- Dr. Cole, não tem outra maleta, além dessa horrível coisa de couro, enfeitada com cerdas de porco?

- É o meu Mee-shome, minha bolsa de medicina. As alças são de pano izze. Quando estou com ela, nenhuma bala pode me atingir.

Ela arregalou os olhos.

- O senhor não tem a fé do nosso Salvador mas aceita a proteção da feitiçaria dos índios sauks?

- Ah, mas funciona. - Contou do tiro na porta do celeiro.

- Deve ter muito cuidado - disse ela, servindo o café.

A cabra dada por ele dera cria duas vezes, dois cabritos machos. Miriam Ferocia trocou um deles e conseguiu de algum modo mais três fêmeas, sonhando com uma indústria

de queijo, mas até então, sempre que Rob J. ia ao convento, não tinha leite no seu café, porque as cabras aparentemente estavam sempre prenhes ou amamentando. Rob

passava sem o leite, como as freiras, e aprendeu a gostar do café puro.

Começaram a falar de coisas mais sérias. Era uma pena que a investigação da igreja não tivesse conseguido lançar nenhuma luz sobre o paradeiro de Patterson. Então

contou a ela que tinha um plano.

- O que acha de instalarmos um espião dentro da Suprema Ordem da Bandeira de Estrelas e Listras? Podíamos saber o que estão planejando, a tempo de impedir suas maldades.

- Como ia fazer isso?

Rob tinha pensado bastante no assunto. Precisava ser um americano nativo, de toda confiança e amigo de Rob J. Jay Geiger não servia, porque a SOBEL provavelmente

não aceitaria um judeu.

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- Tem o meu empregado, Alden Kimball. Nascido em Vermont. Uma ótima pessoa.

Ela balançou a cabeça, preocupada.

- Se é uma boa pessoa, pior ainda, porque pode estar sacrificando um bom homem e a você mesmo com esse plano. Estamos falando de gente muito perigosa.

Rob tinha de aceitar a sensatez dessas palavras. E pensar no fato de que Alden começava a demonstrar a idade. Não velho ou inútil ainda, mas mostrando a idade.

E ele bebia um bocado.

- Precisa ter paciência - disse ela suavemente. - Vou fazer novas investigações. Enquanto isso, deve esperar.

Madre Ferocia apanhou a xícara dele e Rob sabia que estava na hora de levantar da cadeira do bispo e ir embora, porque a madre superiora ia se preparar para as preces

noturnas. Ele apanhou seu escudo contra balas e sorriu para o olhar de desafio com que ela brindou seu Meeshome,

- Muito obrigado, reverenda madre - disse ele.

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OUVINDO MÚSICA



O padrão educacional de Holden’s Crossing determinava que uma família devia mandar os filhos à academia por um ou dois semestres, para aprender a ler, fazer contas

e escrever com certa dificuldade. Então terminava o programa de ensino e as crianças começavam a trabalhar nas fazendas em tempo integral. Quando Alex completou

dezesseis anos, resolveu que estava farto da escola. Embora Rob J. tivesse se oferecido para pagar os seus estudos, Alex preferiu trabalhar com Alden na fazenda,

e Xamã e Rachel eram agora os alunos mais antigos da academia.

Xamã queria continuar a estudar e Rachel estava satisfeita em se deixar levar pelo correr dos seus dias, agarrada a uma existência sempre igual como se fosse sua

tábua de salvação. Dorothy Burnham reconhecia que tinha sorte a professora que encontrava pelo menos um aluno como aqueles dois em toda sua vida. Ela os tratava

como tesouros, passando para eles tudo que sabia e procurando aprender mais para mantêlos motivados. Rachel era três anos mais velha do que Xamã e tinha mais instrução

do que ele, mas logo a senhorita Burnham estava lecionando

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para uma classe de dois alunos. Era natural para eles passar muito tempo estudando juntos.



Sempre que terminavam os deveres da escola, Rachel começava o treinamento de Xamã. Duas vezes por mês Dorothy Burnham fazia uma avaliação de tudo que tinham feito,

às vezes sugerindo alguma mudança ou novos exercícios. Estava encantada com o progresso de Xamã e feliz porque Rachel tinha conseguido tanto dele.

À medida que a amizade se consolidava, Rachel e Xamã começaram a trocar pequenas confidências. Rachel contou o quanto temia ir a Peoria todos os anos para os Grandes

Dias Santos judaicos. Xamã despertou a ternura dela revelando, sem falar claramente, a angústia que sentia com a frieza de Sarah. (“Makwa foi mais mãe para mim,

do que ela é, e ela sabe disso. É uma coisa que a deixa furiosa, mas é a verdade.”) Rachel tinha notado que a Sra. Cole nunca se referia ao filho como Xamã, como

todo mundo. Sarah o chamava de Robert - quase formalmente, como a senhorita Burnham o chamava na escola. Rachel imaginava se seria porque a Sra. Cole não gostava

de palavras indígenas. Certa vez ouviu Sarah dizer à sua mãe que estava satisfeita porque os sauks tinham ido embora para sempre.

Xamã e Rachel trabalhavam nos exercícios vocais em qualquer lugar, navegando no barco de fundo chato de Alden ou sentados na margem alta do rio enquanto pescavam,

apanhando agrião, caminhando na pradaria ou descascando frutas e legumes para Lillian, na varanda estilo sulista dos Geiger. Vários dias por semana, trabalhavam

no piano de Lillian. Xamã sentia a tonalidade vocal de Rachel, tocando a cabeça ou as costas dela, mas do que mais gostava era sentir as vibrações de sua garganta

macia. Ele sabia que Rachel podia fazer tremer seus dedos.

- Eu gostaria de poder lembrar o tom da sua voz.

- Você lembra da música?

- Não lembro realmente... Ouvi música um dia depois do Natal no ano passado.

Rachel olhou para ele, intrigada.

- Eu sonhei.

- E no sonho, você ouviu a música? Ele fez um gesto afirmativo.

- Tudo que eu via eram os pés e as pernas de um homem. Acho que eram do meu pai. Lembra quando éramos pequenos e eles nos punham para dormir no chão, enquanto tocavam?

Não vi sua mãe nem seu pai, mas ouvi o violino e o piano. Não lembro o que estavam tocando. Só lembro da... música.

Rachel mal podia falar.

- Eles gostam de Mozart, talvez fosse isso - disse ela e começou a tocar.

Depois de algum tempo, ele balançou a cabeça.

- Para mim é só uma vibração. A outra era música de verdade. Tenho tentado sonhar outra vez mas não consigo.

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Os olhos de Rachel cintilavam e para espanto de Xamã ela se inclinou para a frente e o beijou na boca. Ele retribuiu o beijo, algo novo, como uma música diferente,

pensou. Quase sem perceber, Xamã pôs a mão no seio dela e quando o beijo acabou, a mão ficou. Talvez tudo ficasse naquilo se ele tivesse retirado a mão imediatamente.

Mas, como a vibração de uma nota musical, ele podia sentir o pequeno mamilo enrijecer sob seus dedos. Xamã apertou e Rachel levou o braço para trás e depois para

a frente, acertando-o em cheio na boca.

O segundo golpe estalou logo abaixo do olho direito. Xamã ficou imóvel, atordoado, e não fez nem um gesto para se defender. Rachel podia matá-lo se quisesse, mas

limitou-se a um terceiro golpe violento. Acostumada ao trabalho na fazenda, Rachel era forte, além disso, bateu com o punho fechado. O lábio superior de Xamã estava

amassado e um filete de sangue saía do nariz. Viu Rachel sair da sala correndo e chorando.

Correu atrás dela até o hall de entrada. Felizmente não havia ninguém em casa.

- Rachel - chamou uma vez, mas não podia saber se ela tinha respondido ou não e não teve coragem de subir a escada.

Xamã saiu e caminhou para casa, fungando para não manchar o lenço de sangue. Quando estava perto da casa, viu Alden saindo do celeiro.

- Cristo santíssimo. O que aconteceu com você?

- ... numa briga.

- Bom, isso estou vendo. Que alívio. Estava começando a pensar que Alex era o único Cole com coragem. Como está a cara do outro safado?

- Horrível. Muito pior do que isto.

- Oh. Isso é bom, então - disse Alden, satisfeito, e foi embora. Na hora do jantar, Xamã teve de agüentar vários sermões a respeito

de se meter em brigas.

De manhã, as crianças menores examinaram seus ferimentos de batalha com respeito, mas a senhorita Burnham os ignorou completamente. Ele e Rachel mal trocaram palavras

durante todo o dia, mas para surpresa de Xamã, depois das aulas, ela estava à sua espera, fora da escola, como sempre, e voltaram juntos e em silêncio, para a casa

dela.

- Contou para seu pai que eu toquei em você?



- Não! - disse ela, secamente.

- Isso é bom. Não quero que ele me dê uma sova de chicote - disse Xamã com sinceridade. Precisava olhar para ela para conversar, por isso viu Rachel corar e, com

surpresa e confusão, viu que ela estava rindo também.

- Oh, Xamã! Seu pobre rosto. Eu sinto muito, de verdade - disse ela, apertando a mão dele.

- Eu também - disse Xamã, embora sem saber ao certo por que ela sentia.

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Quando chegaram, Lillian deu a eles um pedaço de bolo de gengibre. Quando terminaram de comer, um de cada lado da mesa, fizeram o dever de casa. Depois foram para

a sala. Sentaram juntos na banqueta do piano, mas Xamã teve cuidado para não encostar nela. O que acontecera na véspera fez com que tudo mudasse, como ele temia,

mas verificou, surpreso, que não era uma sensação desagradável. Era algo de quente entre os dois, um segredo só deles, como uma xícara partilhada.




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