Noah Gordon, o xamã



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- Tem toda razão. Toda razão, doutor... Ontem eu encontrei George Cliburne. Mandou dizer que tem alguns livros novos e que o senhor podia estar interessado em dar

uma olhada neles.

Era o sinal e apanhou Rob de surpresa.

- Muito obrigado, Carroll. George tem uma ótima biblioteca - disse, procurando falar com voz firme.

- Sim, tem - Wilkenson ergueu a mão, despedindo-se. - Bem, vou espalhar a notícia de que está procurando um cavalo para comprar.

- Eu agradeço - disse Rob J.

Depois do jantar ele observou o céu, até se certificar de que a lua não ia aparecer. Durante toda a tarde, nuvens escuras e pesadas tinham deslizado no céu, levadas

pelo vento. O ar era como uma lavanderia depois de dois dias de trabalho intenso e prometia chuva antes do começo do dia seguinte.

Rob J. foi cedo para a cama e dormiu algumas horas, mas, como médico, estava acostumado a pouco sono e acordou, completamente alerta, à uma hora da manhã. Preparou-se

para sair da cama sem acordar Sarah, afastando-se dela bem antes das duas horas. Tinha deitado com a roupa de baixo. Apanhou o resto da roupa silenciosamente e desceu

a escada. Sarah estava acostumada às saídas dele para atender os doentes a qualquer hora do dia ou da noite, e dormia placidamente.

As botas estavam no chão do hall, debaixo do casaco. No estábulo ele selou a rainha Vitória, porque ia só até a estrada, no fim da entrada para sua casa e Vicky

conhecia o caminho de cor. Nervoso, Rob saiu cedo demais e ficou uns dez minutos parado na estrada, alisando o pescoço de Vicky, sob a chuva fina. Aguçava os ouvidos

para ruídos imaginários, mas finalmente ouviu sons reais, o tilintar e estalar dos arreios, as patas do cavalo. A carroça apareceu, pesada, cheia de feno.

- É o senhor? - perguntou George Cliburne, calmamente. Rob controlou o impulso de dizer que não era. Cliburne afastou uma

porção de feno e o outro homem apareceu. Evidentemente o escravo estava bem orientado, pois, sem dizer palavra, ele segurou a parte traseira da sela de Vicky e saltou

para a garupa de Rob J.

- Que Deus os acompanhe - disse Cliburne jovialmente, estalando as rédeas e partindo com a carroça. Em algum momento do passado - talvez vários - o negro tinha perdido

o controle da bexiga. O nariz

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experiente de Rob J. dizia que era urina seca, provavelmente de vários dias, mas mesmo assim, ele inclinou o corpo para a frente, afastando-se do cheiro forte de



amoníaco. Passaram pela casa que estava ainda escura. Rob tinha pensado em levar o homem rapidamente para o esconderijo, levar o cavalo para o estábulo e voltar

para a cama quente. Mas quando entraram no barracão, o processo se tornou mais complicado.

À luz do lampião, Rob viu um homem negro, que podia ter de trinta a quarenta anos, com os olhos medrosos e desconfiados de um animal acuado, nariz grande, cabelo

despenteado, crespo como a lã de um bode preto. Calçava sapatos fortes, estava com uma camisa passável, mas pouco sobrava da calça esfarrapada.

Rob J. gostaria de perguntar o nome dele e de onde tinha fugido mas lembrou a advertência de Cliburne: nenhuma pergunta, é contra o regulamento. Rob levantou as

tábuas, e identificou tudo que havia no buraco: uma bacia coberta para as necessidades físicas, jornais para se limpar, uma garrafa com água potável, um saco com

bolachas. O negro não disse uma palavra e, abaixando-se, entrou no esconderijo. Rob repôs as tábuas.

No fogão frio estava uma panela com água. Rob J. preparou e acendeu o fogo. Apanhou de um prego, no celeiro, sua mais velha calça de trabalho, muito comprida e muito

larga, e um suspensório, antes vermelho, agora cinzento de poeira, do tipo que Alden chamava de galluses. Calça enrolada na perna podia ser perigosa numa fuga, por

isso cortou vinte centímetros de cada perna com sua tesoura cirúrgica. Quando acabou de acomodar o cavalo, a água estava quente. Rob retirou as tábuas outra vez

e passou para o buraco água, sabão e a calça cortada, depois recolocou as tábuas, apagou o fogão e o lampião.

Depois de uma breve hesitação, disse para as tábuas no chão.

- Boa noite.

Pelo barulho que ouviu, o homem já estava se lavando. Mas a resposta finalmente veio, na voz rouca e baixa, como se estivessem numa igreja.

- Muito obrigado, senhor.

O primeiro hóspede da estalagem, pensou Rob. O homem ficou setenta e três horas no esconderijo. George Cliburne, sempre tranqüilo e jovial, tão delicado que chegava

a ser formal, apanhou o escravo no meio da noite e o levou embora. Embora estivesse tão escuro que era difícil ver os detalhes, Rob teve a impressão de que o cabelo

do quacre estava cuidadosamente penteado para cobrir a calva e o rosto impecavelmente barbeado.

Mais ou menos uma semana depois, Rob J. pensou que ele, Cliburne, o Dr. Barr e Carroll Wilkenson iam ser presos por cumplicidade no roubo de propriedade privada,

pois ouviu dizer que um negro fugido fora

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apanhado por Mort London. Porém, não era o “seu” negro e sim um escravo fugido da Louisiana, escondido, sem que ninguém soubesse ou desse ajuda, numa barcaça no



rio.

Foi uma boa semana para Mort London. Alguns dias mais tarde recebeu o dinheiro da recompensa pela devolução do escravo. Além disso, Nick Holden também recompensou

sua lealdade com o posto de assistente do chefe de polícia dos Estados Unidos, em Rock Island. London renunciou imediatamente ao cargo de xerife e, por sua recomendação,

o prefeito Anderson designou seu único assistente, Fritzie Graham, para substituí-lo até as próximas eleições. Rob J. não gostava de Graham, mas a primeira vez que

se encontraram, o novo xerife apressou-se em deixar bem claro que não pretendia levar adiante as implicâncias de London.

- Espero que volte à atividade de legista, doutor.

- Eu gostaria muito - disse Rob J. Era verdade, porque sentia falta da oportunidade de treinar suas técnicas cirúrgicas com as dissecações.

Encorajado, não resistiu ao impulso de pedir a Graham para reabrir o caso da morte de Makwa, mas o olhar incrédulo do novo xerife o fez adivinhar a resposta, embora

Fritzie prometesse fazer “todo o possível, pode ficar certo disso, senhor”.

A catarata espessa e leitosa cobriu os olhos de Vicky e a velha e mansa égua ficou completamente cega. Se ela fosse mais nova, Rob teria operado, mas sua capacidade

de trabalho estava no fim e ele não via razão para infligir dor desnecessária ao animal. Nem pensou em matá-la porque ela parecia satisfeita no pasto, onde todos,

na fazenda, paravam uma vez ou outra para lhe oferecer uma cenoura ou uma maçã.

A família precisava de um cavalo para os dias em que ele estivesse fora. A outra égua, Bess, era mais velha do que Vicky e teria de ser substituída em breve também,

por isso Rob continuava à procura de um bom cavalo para comprar. Rob era um homem de criar hábitos e detestava a idéia de depender de um novo animal, mas finalmente,

em novembro, comprou dos Schroeder, para todo uso, uma pequena égua baia, nem jovem, nem velha, por um preço tão razoável que não sentiria a perda do dinheiro se

o animal não fosse o que eles queriam. Os Schroeder a chamavam de Trude, e ele e Sarah não viram necessidade de mudar o nome. Rob deu pequenos passeios com ela,

esperando o desapontamento, mas bem no fundo sabia que Jay e Alma nunca lhe venderiam um animal de má qualidade.

Numa tarde fria Rob saiu com Trude para visitar pacientes próximos e distantes. Trude era menor do que Vicky ou Bess e seus ossos pareciam mais salientes sob a sela,

mas obedecia bem e não era nervosa. Quando Rob voltou para casa, no fim da tarde, estava convencido de que ela ia servir e a escovou demoradamente, depois de dar

água e


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ração, Os Schroeder só falavam alemão com Trude. Rob tinha falado inglês o dia inteiro, mas, naquele momento, passou a mão no flanco dela e disse, Gute Nacht, Meine

gnadige Liebchen, usando de uma vez só todo o seu vocabulário de alemão.

Apanhou a lanterna e ia sair do celeiro, mas quando chegou na porta, ouviu um estampido. Hesitou, tentando identificar o som, querendo acreditar que existiam outros

estampidos iguais a um tiro de rifle, mas aquele foi seguido imediatamente por outro estampido surdo e um estalo seco, como se uma lasca de madeira da porta tivesse

sido arrancada pela bala, vinte centímetros acima da sua cabeça.

Rob recuou rapidamente para dentro do estábulo e apagou a lanterna.

A porta dos fundos da casa foi aberta e fechada com uma batida e Rob ouviu passos que corriam para ele.

- Papai? Você está bem? - perguntou Alex.

- Sim. Volte para dentro.

- O que...

- Agora!


Os passos voltaram, a porta foi aberta e fechada. Espiando para o escuro lá fora, Rob percebeu que estava tremendo. As três éguas agitaram-se nas baias e Vicky relinchou.

O tempo parou.

- Dr. Cole? - Era a voz de Alden. - Foi você que atirou?

- Não, alguém atirou no celeiro e quase me acertou.

- Não saia daí - disse Alden, com voz autoritária.

Rob sabia como funcionava a mente de Alden. Levaria muito tempo até que ele apanhasse a espingarda na sua casa, no bosque. A intenção dele era apanhar o rifle de

caça na casa de Cole. Rob ouviu os passos cautelosos e a voz baixa.

- Sou eu - a porta do celeiro foi aberta e logo fechada.

... e aberta outra vez. Os passos de Alden se afastaram e depois, silêncio. Depois de um século, uns sete minutos, mais ou menos, os passos voltaram para o celeiro.

- Ninguém que se possa ver, Dr. Cole, e eu procurei muito bem. Onde foi que acertaram? - Rob mostrou e Alden ficou na ponta dos pés e passou a mão na madeira lascada.

Ninguém acendeu a lanterna.

- Que diabo! - disse Alden, com voz trêmula e o rosto muito pálido.

- Não interessa se ele estava caçando nas nossas terras, mas caçar tão perto da casa e com pouca luz! Se eu pegar o idiota, ele vai se arrepender!

- Não aconteceu nada. Ainda bem que você estava por perto - disse Rob J. tocando no ombro dele.

Entraram juntos na casa para tranquilizar a família e esquecer o quase acidente. Rob J. serviu uísque para Alden e o acompanhou, um fato raro.

Sarah tinha feito o jantar que ele gostava, pimentão verde e abobrinha, recheados com carne moída temperada e assados com batata e cenoura. Rob comeu com apetite

e elogiou a culinária da mulher, mas depois foi sentar sozinho na varanda.

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Não era nenhum caçador furtivo, Rob sabia, tão perto da casa e naquela hora de pouca visibilidade.

Ele considerou a possível conexão do acidente com o esconderijo no barracão mas não parecia haver nenhuma. Se alguém quisesse criar problemas por causa dos negros

fugidos, esperaria a chegada do próximo escravo e, depois, faria prender o tolo Dr. Cole para receber a recompensa.

Mas Rob não conseguia se livrar da idéia de que o tiro era um aviso de alguém.

A lua estava alta; uma escuridão luminosa, não uma noite para o movimento de escravos fugitivos. Ali sentado, olhando para fora, observando o movimento das sombras

das copas das árvores movidas pelo vento, Rob teve certeza de que acabava de receber a resposta às suas cartas.

36

O PRIMEIRO JUDEU



Rachel temia o Dia do Juízo, mas adorava a Páscoa, porque os oito dias do Pesach compensavam o Natal das outras pessoas. Na Páscoa, os Geiger ficavam em casa, o

que, para ela, era como um céu cheio de luz e calor. Eram feriados de música, canto e jogos, de assustadoras histórias bíblicas com final feliz e de comida especial

no seder, pão ázimo vindo de Chicago e vários bolos feitos pela mãe, tão altos e leves que, quando era pequena, acreditava no que o pai dizia: se olhasse para eles

com atenção, ia ver os bolos voando no ar.

No Rosh Hashana e no Yom Kippur, ao contrário, no outono, a família fazia as malas, depois de semanas de preparativos, e viajava na carroça por mais de um dia, até

Galesburg, onde tomava o trem para um porto no rio Illinois e então descia o rio no navio a vapor até Peoria, onde havia uma comunidade judaica e uma sinagoga. Embora

fossem a Peoria apenas para aquelas duas semanas santas, cada ano, pagavam seu dízimo como parte da congregação e tinham lugares reservados no templo. Durante os

Grandes Dias Santos, os Geiger sempre se hospedavam na casa de Morris Goldwasser, um comerciante de tecidos, membro proeminente do shul. Tudo era grande e expansivo

no que se referia ao Sr. Goldwasser, incluindo seu corpo, sua família e sua casa. Não aceitava pagamento de Jason, dizendo que a ocasião era um mitzvah, para que

outro judeu pudesse adorar a Deus e insistindo em dizer que, se os

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Geiger pagassem por sua hospitalidade, o estariam privando da bênção divina. Assim, todo ano Lillian e Jason preocupavam-se, durante semanas, com o presente que



iam levar para o Sr. Goldwasser.

Rachel detestava todos aqueles preparativos que arruinavam seu outono - a preocupação com a escolha do presente, a viagem cansativa, o sacrifício de sobreviver todos

os anos durante duas semanas na casa de estranhos, o tormento e a fraqueza das vinte e quatro horas do jejum do Yom Kippur.

Para seus pais, cada visita a Peoria era uma oportunidade para renovarem seu judaísmo. Eram muito requisitados socialmente porque o primo de Lillian, Judah Benjamin,

fora eleito Senador dos Estados Unidos pelo estado da Louisiana - o primeiro judeu no Senado - e todos queriam falar a respeito dele com os Geiger. Iam à sinagoga

sempre que podiam. Lillian trocava receitas, punha em dia as fofocas, Jay falava de política com os homens, tomava um ou dois schnapps, trocava charutos. Ele sempre

elogiava Holden’s Crossing, admitindo que queria atrair outros judeus para a comunidade, para formar uma minyan de dez homens, que lhes daria acesso à celebração

dos ritos religiosos. Os outros homens o tratavam com compreensão e simpatia. Entre todos eles, só Jay e Ralph Seixas, nascido em Newport, Rhode Island, eram nascidos

na América. Os outros eram estrangeiros e sabiam o que significava ser um pioneiro. Era difícil, concordavam, ser o primeiro judeu a se instalar numa comunidade.

Os Goldwasser tinham duas filhas gorduchas. Rose, quase um ano mais velha do que Rachel, e Clara, três anos mais velha. Quando Rachel era pequena, ela gostava de

brincar com as duas Goldwasser (de casinha, escola, de gente grande), mas quando Rachel completou doze anos, Clara casou com Harold Green, o chapeleiro. O casal

morava com os pais de Clara e naquele ano quando os Geiger chegaram para os Grandes Dias Santos, Rachel encontrou mudanças. Clara não queria mais brincar de “gente

grande” porque era agora gente grande, uma Mulher Casada. Ela conversava com a irmã e Rachel numa voz suave e cheia de condescendência, dava ao marido atenção constante

e amorosa e podia recitar as bênçãos quando acendiam as velas do Sabbath, uma honra reservada à matrona da casa. Mas uma noite, quando as três estavam sozinhas em

casa, tomaram vinho de uva no quarto de Rose, e Clara Goldwasser Green, com seus quinze anos, esqueceu que era uma matrona. Contou para Rachel e para a irmã tudo

sobre o casamento. Revelou os mais sagrados segredos da irmandade dos adultos, descrevendo com deliciosos detalhes a fisiologia e os hábitos do homem judeu.

Rose e Rachel já tinham visto o pênis, mas sempre em miniatura, de irmãos ou primos pequenos, quando tomavam banho - um apêndice macio e rosado que terminava numa

saliência da circuncisão, de carne macia com um único orifício para a saída da urina.

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Mas Clara, tomando vinho, com os olhos fechados, maliciosamente descreveu as diferenças entre um bebê e um homem adulto judeu. E passando a língua nas últimas gotas



de vinho do lado de fora do copo, descreveu a transformação da carne doce e inofensiva quando um homem judeu deitava ao lado da mulher, e o que acontecia depois.

Ninguém gritou de terror, mas Rose apanhou o travesseiro e o apertou contra o rosto com as duas mãos.

- Isso acontece com muita freqüência? - perguntou, com a voz abafada.

Sim, afirmou Clara, e mesmo no Sabbath e nos dias santos, pois Deus dissera ao homem judeu que era uma bênção.

- Exceto, é claro, quando estou menstruada.

Rachel já sabia do sangramento mensal. Era o único segredo que a mãe tinha contado a ela. Não tinha acontecido ainda, um fato que ela não revelou para as duas irmãs.

Mas outra coisa a perturbava, uma questão de senso comum da mecânica das medidas, e ela via mentalmente um diagrama assustador. Instintivamente pôs as mãos no colo,

como para se proteger.

- E claro - disse ela, em voz baixa - que não é possível fazer isso. Às vezes, informou Clara com ar importante, seu Harold usava manteiga kosher pura.

Rose Goldwasser tirou o travesseiro do rosto e olhou para a irmã, como quem acaba de fazer uma grande descoberta.

- Então é por isso que nossa manteiga está sempre acabando? - exclamou.

Os dias seguintes foram especialmente difíceis para Rachel. Ela e Rose, considerando as duas opções, acharam as revelações de Clara horríveis ou cômicas. Talvez

por autodefesa, escolheram a comédia. No café da manhã e no almoço, que geralmente consistiam de laticínios, bastava um olhar para provocar acessos de riso tão incontroláveis

que muitas vezes chegaram a ser expulsas da mesa. No jantar, quando os homens estavam presentes, era pior ainda, pois Rachel não podia sentar de frente para Harold

Green, olhar para ele e conversar, sem evocar a imagem do homem todo lambuzado de manteiga.

No ano seguinte, quando os Geiger visitaram Peoria, Rachel ficou desapontada ao saber que nem Clara e nem Rose estavam morando com os pais. Clara e Harold tinham

um filho e moravam agora numa casa própria, perto do rio. Quando visitavam os Goldwasser, Clara estava sempre ocupada com o filho e dava pouca atenção a Rachel.

Rose estava casada desde julho com um homem chamado Samuel Bielfield, e morava em St. Louis.

Naquele Yom Kippur, Rachel e seus pais foram abordados fora da sinagoga por um homem idoso chamado Benjamin Schoenberg. O Sr.

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Schoenberg usava uma cartola de pele de lontra, uma camisa de algodão com babados na frente e gravata preta fina. Ele conversou com Jay sobre a situação do comércio

farmacêutico e depois começou a fazer perguntas a Rachel sobre os estudos e o que fazia em casa para ajudar a mãe.

Lillian Geiger sorriu para o homem e balançou a cabeça enigmaticamente.

- É muito cedo ainda - disse ela e o Sr. Schoenberg fez um gesto afirmativo, sorriu e se despediu, com mais algumas amabilidades.

Naquela noite, Rachel ouviu trechos da conversa de sua mãe com a Sra. Goldwasser e ficou sabendo que o Sr. Benjamin Schoenberg era um shadchen, um agente matrimonial.

Na verdade, ele tinha arranjado os casamentos de Clara e Rose. Rachel ficou apavorada, mas acalmou-se lembrando que a mãe tinha dito que era cedo ainda. Ela era

muito nova para casar, como seus pais sabiam, pensou Rachel, esquecendo que Rose Goldwasser era apenas oito meses mais velha.

Durante todo aquele outono, incluindo as duas semanas passadas em Peoria, o corpo de Rachel transformou-se gradualmente. Os seios, quando se desenvolveram, eram

seios de mulher adulta, que chegavam a inclinar para frente o corpo magro e ela aprendeu tudo sobre sutiãs, fadiga muscular e dores nas costas. Esse foi o ano em

que o Sr. Byers começou a tocar nela, fazendo de sua vida um tormento, até seu pai resolver as coisas. Quando Rachel se olhava no espelho da mãe, tinha certeza de

que nenhum homem iria querer uma moça de cabelos lisos e negros, ombros estreitos, pescoço longo demais, seios muito pesados para o corpo, pele pálida e olhos castanhos

e bovinos.

Então ocorreu a ela que o homem que a aceitasse tinha de ser feio também, e burro, e muito pobre, e estava certa de que cada dia a levava para mais perto de um futuro

que ela não queria nem imaginar. Ressentia-se com os irmãos e os tratava com desprezo porque não conheciam os dons e privilégios concedidos por sua masculinidade,

o direito de viver na segurança e no calor da casa dos pais o tempo que quisessem, o direito de ir à escola e estudar por tempo ilimitado.

Sua menstruação começou tarde. De tempos em tempos, Lillian perguntava casualmente, demonstrando preocupação com o atraso. Então, uma tarde, quando Rachel estava

na cozinha ajudando a fazer geléia de morangos, sem nenhum aviso prévio, as eólicas a fizeram dobrar o corpo. A mãe mandou que ela fosse verificar e o sangue estava

lá. Seu coração disparou, mas não foi inesperado, nem tinha acontecido quando ela estava sozinha ou fora de casa. Lillian estava ali e com voz mansa ensinou o que

ela devia fazer. Tudo estava bem até a mãe a beijar e dizer que agora ela era uma mulher.

Rachel começou a chorar. Não conseguia parar. Chorou durante horas, inconsolável. Jay Geiger entrou no quarto da filha, deitou na cama ao lado dela, algo que não

fazia desde que Rachel era pequena.

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Acariciou a cabeça da filha e perguntou o que estava acontecendo. Os ombros dela tremiam convulsivamente e o coração de Jay se apertou. Teve de repetir a pergunta

uma porção de vezes.

Finalmente, ela murmurou.

- Papai, eu não quero casar. Não quero deixar vocês, nem a minha casa.

Jay a beijou no rosto e foi falar com a mulher. Lillian estava muito preocupada. Muitas meninas casavam com treze anos e ela achava que seria melhor tratarem de

arranjar um bom casamento judeu para a filha, do que dar atenção ao seu terror infantil. Mas Geiger a fez lembrar que quando se casaram, Lillian tinha mais de dezesseis

anos, não era uma menina. O que fora bom para a mãe seria bom para a filha, que precisava de uma chance para crescer e se acostumar à idéia do casamento.

Assim, Rachel ganhou um longo tempo de liberdade. Imediatamente sua vida melhorou. A senhorita Burnham informou Jay que ela era uma estudante nata e que seria muito

beneficiada se continuasse a estudar. Os pais resolveram que ela devia continuar na academia, ao invés de trabalhar o dia todo em casa e na fazenda, como era o costume,

e ficaram gratificados vendo a alegria e a vida voltar aos olhos da filha.

Em Rachel a bondade era instintiva, parte da sua natureza, mas a própria infelicidade a fazia especialmente sensível a todos que eram desfavorecidos pelas circunstâncias.

Ela sempre fora muito chegada aos Cole, como se fossem parentes. Certa vez, quando Xamã era pequeno e o puseram para dormir com Rachel, ele fez xixi na cama e foi

ela quem o consolou e o protegeu das risadas das outras crianças. Rachel ficou profundamente perturbada com a surdez dele porque era o primeiro incidente na sua

vida que indicava a presença de perigos desconhecidos e imprevisíveis. Ela acompanhou a luta de Xamã com a frustração de quem quer fazer alguma coisa e sabe que

não pode e orgulhava-se de cada progresso dele como se Xamã fosse seu irmão. Enquanto crescia, ela o viu passar de garotinho para um jovem alto e forte, maior do

que o irmão, Alex. Porque o corpo dele amadureceu cedo, nos primeiros anos de crescimento, ele parecia um cãozinho desajeitado e Rachel o observava com uma nova

ternura.

Várias vezes sentada na bergère da sala, sem ser vista, maravilhava-se com a coragem e a tenacidade de Xamã, testemunha fascinada da habilidade de Dorothy Burnham

como professora. Quando a senhorita Burnham perguntou a Xamã se alguém podia ajudá-lo, Rachel reagiu instintivamente, ansiosa para ter aquela oportunidade. O Dr.




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