Noah Gordon, o xamã



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O menino deu as costas ao rio. Entre ele e a casa estava o túmulo e quando viu o vulto entre as faixas esgarçadas da neblina, não sentiu medo, apenas uma pequena

luta entre a incredulidade e a sensação avassaladora da mais doce felicidade e gratidão. Espírito, eu te chamo hoje. Espírito, fale comigo agora.

- Makwa! - exclamou ele cheio de alegria e deu um passo para a frente.

- Xamã?

Quando chegou perto dela, a primeira sensação foi de desapontamento. Não era Makwa.



- Lua? - disse ele, o nome uma interrogação por causa do terrível aspecto da mulher.

Viu então atrás de Lua dois vultos, dois homens. Um era um índio que ele não conhecia, e o outro era Cão de Pedra, que tinha trabalhado para Jay Geiger. Cão de Pedra

estava com o peito nu e com uma calça de pele de gamo. O estranho vestia calça de pano tecido em casa e uma camisa esfarrapada. Os dois calçavam mocassins, mas Lua

estava com botas de trabalho de homem branco e um vestido azul velho e sujo, rasgado no ombro direito. Os homens carregavam coisas que Xamã reconheceu, uma manta

de queijo, um presunto defumado, uma perna de carneiro crua e compreendeu que tinham assaltado o pequeno depósito sobre o rio, onde refrigeravam os alimentos.

- Tem uísque? - perguntou Cão de Pedra, apontando para a casa e Lua o repreendeu na língua sauk, depois cambaleou e caiu.

- Lua, você está bem? - perguntou Xamã.

- Xamã. Tão grande. - Olhou admirada para ele. Xamã ajoelhou ao lado dela.

- Onde você esteve? Os outros vieram também?

- Não... outros em Kansas. Reserva. dexei meus filhos lá, mas... - Ela fechou os olhos.

- Vou chamar meu pai - disse ele e ela abriu os olhos.

- Eles nos fizeram tanto mal, Xamã - murmurou Lua. Segurou a mão dele com força.

Xamã sentiu que alguma coisa passava do corpo dela para sua mente. Como se pudesse ouvir de novo o rugido do trovão, e ele soube - de alguma forma, ele soube - o

que ia acontecer a ela. Suas mãos formigavam. Xamã abriu a boca mas não conseguiu gritar, não podia avisar Lua. Um medo completamente novo para ele, mais selvagem

do que o terror do começo da surdez, pior do que qualquer coisa que tinha experimentado na vida, o paralisou.

Finalmente conseguiu soltar as rnãos.

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Correu para a casa como se fosse sua única chance. -Papai! - ele gritou.



Rob J. estava acostumado a ser acordado de madrugada para uma emergência, mas não pela voz histérica do filho. Xamã repetia, nervoso, que Lua tinha voltado e que

estava morrendo. Só depois de alguns minutos Rob J. e Sarah conseguiram fazer com que ele olhasse para seus lábios para ver o que estavam perguntando. Quando compreenderam

que Lua tinha mesmo voltado e estava muito doente, deitada no chão, na margem do rio, os dois saíram correndo de casa.

A neblina desaparecia rapidamente. A visibilidade melhorou e eles viram que não havia ninguém lá. Os pais interrogaram Xamã atenta e repetidamente. Lua e Cão de

Pedra e outro sauk estavam ali, insistia ele. Descreveu como estavam vestidos, o que tinham dito, a sua aparência.

Sarah saiu correndo quando Xamã disse o que eles levavam nas mãos e voltou furiosa porque a pequena casa sobre o rio estava arrombada e alguns alimentos conseguidos

com tanta dificuldade haviam desaparecido.

- Robert Cole - disse ela, zangada. - Você tirou aquelas coisas só por brincadeira e depois inventou essa história do retorno dos sauks?

Rob J. caminhou pela margem do rio, chamando Lua, mas ninguém respondeu.

Xamã chorava incontrolavelmente.

- Ela está morrendo, papai.

- Muito bem, e como você sabe disso?

- Ela segurou minhas mãos e ela... - O menino estremeceu. Rob J. olhou para o filho e respirou fundo. Balançou a cabeça afirmativamente. Aproximou-se de Xamã e o

abraçou com força.

- Não fique assustado. Não é culpa sua o que aconteceu com Lua. Vou tentar explicar isso tudo. Mas, primeiro, acho melhor tentar encontrar Lua - disse ele.

Rob J. selou o cavalo e saiu. Durante toda a manhã concentrou a busca na entrada da floresta ao longo do rio, porque, se estavam fugindo, procurariam abrigo entre

as árvores, onde não podiam ser vistos. Cavalgou primeiro para o norte, na direção de Wisconsin, depois para o sul. De tempos em tempos chamava Lua em voz alta,

mas ninguém respondeu.

Era possível que tivesse passado perto deles. Os três sauks podiam se esconder no mato alto, deixando que passasse por eles, talvez muitas vezes. No começo da tarde

teve de admitir que não sabia como pensavam os sauks fugitivos, porque ele não era um sauk fugitivo. Talvez tivessem se afastado do rio imediatamente. Havia ainda

na pradaria a relva alta de fim de verão que podia disfarçar a passagem de três pessoas e milharais trinta centímetros mais altos do que um homem.

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Quando afinal desistiu, Rob voltou para casa e foi procurar Xamã, que ficou extremamente desapontado com o insucesso da busca.

Os dois sentaram à sombra de uma árvore na margem do rio e Rob J. falou do Dom, como tinha aparecido a alguns membros da família Cole em um passado muito distante.

- Mas não são todos. Às vezes desaparece por toda uma geração. Meu pai tinha o Dom, mas meu irmão e meu tio não tinham. Ele se manifesta muito cedo.

- Você tem, papai?

- Sim, eu tenho.

- Que idade você tinha quando...?

- Eu só percebi quando era quase cinco anos mais velho do que você é agora.

- E o que é - perguntou Xamã, em voz baixa.

- Bem, Xamã... Na verdade, eu não sei. Só sei que não tem nada de magia nisso. Acredito que seja uma espécie de sentido, como ouvir ou sentir cheiro. Alguns de nós

podem segurar as mãos de uma pessoa e dizer se ela está morrendo. Acho que é uma sensibilidade extraordinária, como sentir o pulso em várias partes do corpo. Às

vezes... - deu de ombros. - Às vezes é uma habilidade muito útil para um médico.

Xamã balançou tremulamente a cabeça.

- Acho que vai ser útil quando eu for médico.

Rob J. teve de enfrentar o fato de que, se o filho tinha maturidade para saber do Dom, devia poder entender outras coisas também.

- Você não vai ser médico, Xamã - disse ele, gentilmente. - O médico precisa ouvir. Eu uso minha audição todos os dias para tratar meus pacientes. Escuto o peito

do doente, a respiração, a qualidade das suas vozes. O médico deve ser capaz de ouvir um chamado de socorro. Um médico precisa dos seus cinco sentidos.

Rob preferia não ter visto aquela expressão nos olhos do filho.

- Então o que eu vou ser quando crescer?

- Esta é uma boa fazenda. Pode tomar conta dela com Maior - disse Rob J., mas o menino balançou a cabeça.

- Bem, então pode ser um homem de negócios, talvez trabalhar numa loja. A senhorita Burnham disse que você é o aluno mais inteligente que ela já teve. Quem sabe

queira ser professor.

- Não, não quero ser professor.

- Xamã, você é ainda um garoto. Tem muitos anos para resolver. Enquanto isso, fique de olhos abertos. Estude os homens, suas ocupações. Há muitos meios de se ganhar

a vida. Você pode escolher qualquer coisa.

- Exceto - disse Xamã.

Rob J. não ia expor o filho a sofrimento desnecessário sugerindo a possibilidade de um sonho no qual ele não acreditava.

- Sim. Exceto - disse, com voz firme.

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Foi um dia triste, que deixou Rob revoltado com a injustiça da vida. Detestava ter de matar o sonho bom e luminoso do filho. Era o mesmo que dizer a uma pessoa

que ama a vida que não adianta fazer planos a longo prazo.

Rob percorreu a fazenda desanimado. Perto do rio, os mosquitos competiram com ele pela sombra das árvores e venceram.

Sabia que nunca mais veria Lua. Gostaria de ter se despedido dela. Teria perguntado onde Chega Cantando estava enterrado. Gostaria de sepultar os dois dignamente,

mas agora talvez ela também estivesse numa sepultura abandonada e sem marca. Como se costuma enterrar fezes de cachorro.

Sentia uma fúria selvagem e uma sensação de culpa porque ele era parte dos problemas deles, e sua fazenda também. No passado, os sauks possuíam ricas plantações

e as Cidades dos Mortos, com sepulturas marcadas.

Ele nos fizeram tanto mal, Lua dissera a Xamã.

Havia uma boa Constituição na América, que Rob já tinha lido cuidadosamente. Dava liberdade, mas tinha de admitir que só funcionava para as pessoas de pele branca

ou morena queimada de sol. Ter a pele mais escura significava o mesmo que ter pêlos ou penas.

Durante todo o tempo que andou pela fazenda, estava procurando. Só percebeu o que estava fazendo depois de algumas horas e então sentiuse um pouco melhor, mas não

muito. O lugar que ele queria não devia ser no campo ou no bosque, onde Alden ou um dos meninos, ou até mesmo um caçador furtivo, podiam chegar de repente. A casa

também não servia, porque precisava guardar segredo de todos da família, uma coisa que o incomodava bastante. Seu dispensário às vezes ficava vazio, mas quando estava

em uso ficava repleto de pacientes. O celeiro também era muito freqüentado. Mas...

Atrás do celeiro, separado da leiteria por uma parede fechada, havia um barracão estreito e comprido. O barracão de Rob J., onde ele guardava medicamentos, tônicos

e outros produtos medicinais. Além das ervas dependuradas e das prateleiras cheias de vidros e garrafas, havia uma mesa de madeira e um conjunto de bacias de drenagem,

porque era ali que ele fazia as autópsias, atrás da porta de madeira com uma fechadura forte.

A parte norte do barracão, como toda a parte do celeiro, fora construída sobre pedra. No barracão, uma parte da parede de pedra servia de prateleira, mas a outra

parte era de terra.

Depois de um dia inteiro de atendimento no dispensário e de várias visitas a pacientes, na manhã seguinte Rob conseguiu uma folga. Era o momento certo porque Xamã

e Alden estavam consertando cercas e construindo um telheiro para guardar as rações, longe do celeiro, e Sarah

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estava trabalhando num projeto da igreja. Só Kate Stryker, contratada por Sarah para ajudá-la nos trabalhos domésticos, metade do dia, estava em casa, mas ela não

o perturbaria.

Assim que todos saíram, Rob apanhou uma picareta e uma pá e começou a trabalhar. Há algum tempo não fazia trabalho braçal, por isso procurou não se apressar. O solo

era rochoso e pesado, como em quase toda a fazenda, mas ele era forte e a picareta soltava a terra facilmente. Rob empilhava a terra, depois, com a pá, a passava

para um carrinho de mão e a descarregava numa vala funda longe do celeiro. Imaginou que precisaria vários dias de trabalho, mas no começo da tarde tinha alcançado

a parede de pedra, que se estendia para o norte. A escavação não tinha mais de um metro de profundidade num lado e mais de três metros, no outro, com menos de três

metros de largura. Mal dava para um homem deitado, especialmente se precisasse guardar comida e outros suprimentos, mas Rob J. achou que ia servir. Cobriu o buraco

com tábuas de dois centímetros de espessura, que estavam empilhadas ao tempo, há mais de um ano, para não destoar do resto do celeiro. Com uma sovela alargou os

orifícios de entrada dos pregos e passou óleo, para que as tábuas pudessem ser retiradas com facilidade e sem ruído.

Cobriu cuidadosamente com uma camada de folhas a terra nova empilhada na vala.

Na manhã seguinte foi a Rock Island para uma conversa breve mas importante com George Cliburne.

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O QUARTO SECRETO



Naquele outono o mundo começou a mudar para Xamã, nada tão repentino e terrível quanto a perda da audição, mas uma alteração complexa e gradual da polaridade de

sua vida. Alex e Mal Howard eram agora amigos íntimos e as conversas alegres e brincadeiras barulhentas isolavam um pouco Xamã da sua companhia. Rob J. e Sarah não

aprovavam aquela amizade. Sabiam que Mollie Howard era uma mulher relaxada e choramingas e o marido Julian, preguiçoso, e não gostavam que Alex fosse à casa suja

e sempre cheia de gente dos Howard onde boa parte da população comprava a bebida de polpa de milho destilada por Julian num alambique secreto com uma tampa enferrujada.

Sua preocupação aumentou no dia das bruxas quando Alex e Mal tomaram um pouco de uísque que o filho de Howard tinha roubado quando

219 ajudava o pai na destilaria secreta. Sob o efeito da bebida, os dois começaram a derrubar as privadas externas das fazendas do distrito, até Alma Schroeder sair

aos gritos da privada derrubada e Gus Schroeder acabar a brincadeira ameaçando-os com seu rifle de caçar búfalos.

O incidente deu origem a uma série de conversas entre Alex e os pais, nas quais Xamã logo desistiu de tomar parte porque, depois das primeiras, verificou que não

conseguia ler os lábios dos três. Uma reunião dos pais, com os meninos e o xerife London, foi mais desagradável ainda.

Julian Howard, todo ofendido, disse que estavam fazendo muito barulho por causa da brincadeira de dois garotos no dia das bruxas”.

Rob J. tentou esquecer sua antipatia por Howard que, era capaz de apostar, pertenceria à Suprema Ordem da Bandeira de Estrelas e Listras, se houvesse uma filial

em Holden’s Crossing e sempre disposto a fazer desordem. Concordou com o fabricante de uísque, dizendo que os meninos não eram bandidos nem assassinos, mas como

seu trabalho levava muito a sério a digestão das pessoas, não concordava com a opinião geral de que tudo que dizia respeito a fezes era engraçado, inclusive a destruição

de privadas. Sabia que o xerife London estava armado com uma série de queixas contra Alex e Mal e disposto a agir contra eles, porque não gostava dos pais de nenhum

dos dois. Rob J. sugeriu que Alex e Mal deviam reparar o que haviam feito. Três privadas estavam praticamente destruídas. Duas não deviam ser erguidas no mesmo lugar,

porque a fossa estava cheia. Os meninos deviam cavar novas fossas e reconstruir e consertar as privadas. Rob pagaria pela madeira necessária e Alex e Mal podiam

trabalhar na sua fazenda para cobrir essa despesa. E se não cumprissem o combinado, o xerife London podia entrar em ação.

Com relutância, Mort London admitiu que não via nada de errado nesse plano. Julian Howard foi contra, até saber que Mal e Alex continuariam responsáveis por suas

tarefas habituais. Não foi dada a Alex ou a Mal a oportunidade de recusar, assim, no mês seguinte, os dois tornaram-se especialistas em reabilitação de privadas,

cavando as fossas primeiro, antes que o inverno congelasse o solo, e fazendo o trabalho de carpintaria com mãos dormentes de frio. Trabalharam bem, todas as suas

privadas duraram anos, exceto a que ficava atrás da casa dos Humphrey, destruída por um tornado que arrasou a casa e o celeiro no verão de 1863 e matou Irving e

Letty Humphrey.

Alex continuava com as suas. Tarde da noite entrou no quarto que partilhava com Xamã, com o lampião aceso, e anunciou, com profunda satisfação, que finalmente tinha

feito aquilo.

- Aquilo o quê? - perguntou Xamã, esfregando os olhos cheios de sono.

- Você sabe. Eu fiz. Com Pattie Drucker. Xamã acordou completamente.

- Não. Está mentindo, Maior.

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- Não estou. Eu fiz com Pattie Drucker. Bem na casa do pai dela, quando a família foi visitar os tios.

Xamã olhou para ele encantado, incrédulo, mas querendo acreditar.

- Se você fez mesmo, como foi?

Com um sorriso, Alex começou a descrição.

- Quando você empurra seu pinto e passa os pêlos e tudo o mais, é quente e aconchegante. Muito quente e muito aconchegante. Mas então, você fica todo excitado e

começa a se mexer para a frente e para trás porque está feliz. Para a frente e para trás, como o carneiro faz com a ovelha.

- A mulher também vai para a frente e para trás?

- Não - disse Alex. - Ela fica deitada, muito feliz e deixa você fazer o movimento.

- Então, o que acontece?

- Bom, você fica vesgo. A coisa sai do seu pinto como uma bala.

- Puxa! Como uma bala! Machuca a mulher?

- Não, seu bobo, eu quis dizer, rápido como uma bala, não duro como uma bala. É mais macio do que pudim, como quando você faz sozinho. Bom, a essa altura, está quase

acabado.

Xamã ficou convencido que era verdade por causa dos detalhes que não conhecia.

- Isso quer dizer que Patty Drucker é sua namorada?

- Não! - disse Alex.

- Tem certeza? - perguntou Xamã, ansioso. Patty Drucker já era quase tão grande quanto a mãe de rosto pálido e sua risada parecia um relincho.

- Você é criança demais para entender - resmungou Alex, preocupado e irritado, apagando o lampião para acabar a conversa.

Deitado no escuro, Xamã pensou no que Alex tinha contado, também excitado e preocupado. Não gostava da parte de ficar vesgo. Luke Stebbins tinha dito que, se ele

se masturbasse, podia ficar cego. Se surdo já bastava, não queria perder mais nenhum dos sentidos. Talvez já estivesse começando a ficar cego, pensou, e na manhã

seguinte passou muito tempo testando sua visão, em objetos próximos e distantes.

Quanto menos tempo Maior passava com ele, mais Xamã procurava a companhia dos livros. Lia depressa e não se acanhava de pedir mais. Os Geiger tinham uma boa biblioteca

e emprestavam seus livros a ele. Xamã ganhava livros no aniversário e no Natal, o combustível para aquecer o frio da solidão. Dorothy Burnham dizia que nunca vira

ninguém ler tanto.

Ela trabalhava com afinco para melhorar a dicção de Xamã. Nas férias tinha casa e comida de graça na casa dos Cole e Rob J. providenciava para que seus esforços

fossem recompensados, mas ela não trabalhava

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com Xamã para proveito próprio. Conseguir que ele falasse perfeitamente e claramente era seu objetivo pessoal. Continuaram com o treinamento no piano. A senhorita



Burnham, desde o começo, observou, fascinada, que ele era sensível às diferentes vibrações e em pouco tempo podia identificar as notas, assim que eram tocadas.

O vocabulário de Xamã ampliou-se com a leitura, mas ele tinha problemas de pronúncia, pois era incapaz de ouvir como os outros usavam as palavras. Por exemplo, “catedral”

ele pronunciava “catedral”, e ela compreendeu que parte da dificuldade residia no desconhecimento da acentuação. Passou a usar uma bola de borracha para demonstrar

a ênfase correta das palavras, batendo a bola suavemente no chão para a acentuação branda e com mais força para a mais aguda. Isso tomava muito tempo, porque Xamã

tinha dificuldade para apanhar a bola. Dorothy Burnham percebeu então que seu movimento para apanhar a bola era condicionado ao som que a mesma fazia quando batia

no chão. Xamã não tinha esse condicionamento, portanto tinha de saber de cor o tempo exato que a bola precisava para bater e voltar para sua mão, dependendo da força

com que era lançada.

Quando Xamã finalmente identificou os saltos da bola como representantes da ênfase das palavras, ela iniciou uma série de testes com lousa e giz, escrevendo as palavras

e desenhando pequenos círculos sobre as sílabas não acentuadas e círculos maiores^obre as^ue^deviam ser acentuadas. Ca-te-dral. Bom di-à. Qua-dfo. Fes-ta. Mon-ta-nha.

Rob J. cooperou, ensinando Xamã a fazer malabarismo, geralmente com a ajuda de Alex e Mal. Rob J. já tinha feito isso muitas vezes para distrair os filhos e eles

achavam divertido e interessante, mas era uma arte difícil. Mesmo assim, ele os encorajava a persistir.

- Em Kilmarnçck, todas as crianças da família Cole aprendem a fazer malabarismo. É um costume antigo. Se eles podem aprender, vocês também podem - disse ele e os

meninos descobriram que Rob estava certo. Para seu desapontamento Mal Howard era o melhor dos três e logo estava usando quatro bolas. Mas Xamã vinha logo atrás,

e Alex treinou com afinco até conseguir manter três bolas no ar com bastante facilidade. O objetivo não era preparar malabaristas, mas dar a Xamã a noção da variedade

de ritmos, e funcionou.

Certa tarde, quando a senhorita Burnham trabalhava no piano de Lillian com Xamã, ela tirou a mão dele do piano e a encostou no seu pescoço.

- Quando eu falo - disse ela - as cordas da minha laringe vibram, como as cordas do piano. Você sente as vibrações, como são diferentes para cada palavra?

Ele balançou a cabeça afirmativamente, encantado, e os dois sorriram.

- Oh, Xamã - disse Dorothy Burnham, tirando a mão dele do seu pescoço e segurando-a entre as suas. - Você está progredindo

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maravilhosamente. Mas precisa de treinamento constante, mais do que vou poder dar quando começarem as aulas. Você conhece alguém que possa fazer isso?

Xamã sabia que o pai estava sempre muito ocupado. A mãe tinha o trabalho da igreja e além disso ele percebia uma certa relutância da parte dela em tomar conhecimento

da sua surdez, uma relutância que o intrigava, mas que era real. E Alex saía com Mal sempre que podia.

Dorothy suspirou.

- Quem poderia trabalhar regularmente com você?

- Eu teria prazer em ajudar. - A voz vinha da grande bergère que ficava de costas para o piano e Dorothy viu Rachel Geiger levantar-se rapidamente da cadeira e se

aproximar deles.

Quantas vezes, pensou Dorothy, Rachel tinha sentado ali, ouvindo os exercícios?

- Eu sei que posso, senhorita Burnham - disse Rachel, um pouco ofegante.

Xamã parecia ter gostado da idéia.

Dorothy sorriu e apertou de leve a mão de Rachel.

- Tenho certeza de que pode, minha querida - disse ela.

Rob J. não recebeu nenhuma resposta das suas cartas sobre o assassinato de Makwa-ikwa. Uma noite ele resolveu transpor sua frustração para o papel com outra carta,

mais agressiva, tentando agitar a lama pegajosa.

“... Os crimes de estupro e assassinato têm sido sistematicamente ignorados pelos representantes do governo, um fato que suscita a questão: será o Estado de Illinois

- ou, na verdade, todos os Estados Unidos da América - o reino de uma verdadeira civilização ou um lugar onde os homens têm permissão para agir como animais inferiores,

com inteira impunidade?”Enviou as cartas para os mesmos destinatários das primeiras, esperando que o tom mais agressivo produzisse algum resultado.

Ninguém se comunicava com ele sobre qualquer assunto, pensou Rob, desanimado. Tinha cavado o esconderijo no barracão quase freneticamente, mas até agora não ouvira

nem uma palavra de George Cliburne. A princípio, à medida que os dias se transformavam em semanas, ele tentava imaginar como iam se comunicar com ele, e depois começou

a pensar que seu oferecimento fora ignorado. Tratou de esquecer o esconderijo, voltando a atenção para o encurtamento dos dias, o espetáculo da formação em V dos

gansos voando para o sul no ar azul, o som sussurrante do rio mais cristalino à medida que o frio aumentava. Certa manhã ele entrou na cidade e Carroll Wilkenson

levantou-se da cadeira na varanda do armazém e caminhou calmamente para ele, esperando que Rob apeasse do pequeno malhado de pescoço caído.

- Cavalo novo, doutor?

- Estou experimentando hoje. Nossa Vicky está quase cega. É boa

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para as crianças, no pasto, mas... Esta aqui é de Tom Beckermann. - Balançou a cabeça. O Dr. Beckermann dissera que o malhado tinha cinco anos, mas os dentes incisivos



do animal diziam que tinha duas vezes essa idade, e ele se assustava com qualquer inseto ou sombra.

- Tem preferência por éguas?

- Não necessariamente, embora elas sejam mais confiáveis do que os garanhões.




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