Noah Gordon, o xamã



Baixar 2.32 Mb.
Página22/51
Encontro18.09.2019
Tamanho2.32 Mb.
1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   ...   51

indiferença. Eles deitaram sobre as mantas e, um a um, adormeceram, mas Xamã ficou acordado. Depois de algum tempo, o paciente começou a vomitar violentamente.

- Uísque e éter não combinam muito bem - disse seu pai. - Trate de dormir agora. Eu cuido do resto.

Xamã obedeceu e a luz cinzenta entrava pelas frestas da parede quando o pai o acordou e mandou vestir os agasalhos. O homem gordo estava deitado, olhando para eles.

- Vai sentir alguma dor por duas ou três semanas - disse o pai. - Vou deixar um pouco de morfina, não muita, mas é toda que tenho aqui. O mais importante é manter

o ferimento limpo. Se começar a gangrenar, mande me chamar que virei imediatamente.

O homem rosnou.

- Diabo, vamos estar muito longe daqui antes que você possa voltar.

- Bem, se tiver algum problema, mande me chamar. Eu irei onde quer que você esteja.

- Pague bem o homem - disse ele para o homem de barba branca, que tirou um maço de notas de uma mochila e o estendeu para o médico. O pai de Xamã tirou duas notas

de um dólar e jogou o resto na manta.

- Um dólar e meio pela visita noturna, cinqüenta centavos pelo éter. - Deu um passo para a porta e voltou-se. - Vocês sabem alguma coisa de um homem chamado Ellwood

Patterson? Às vezes viaja com um homem chamado Hank Cough e outro mais novo chamado Lenny.

Os homens apenas olharam para ele. O ferido balançou a cabeça. O pai de Xamã fez um gesto afirmativo e os dois saíram para o ar que cheirava só a árvores. Só o homem

de barba branca os acompanhou na volta. Esperou que estivessem montados para cobrir seus olhos com os lenços outra vez. Rob J. ouviu a respiração acelerada do filho

e desejou ter falado com ele antes de estarem com os olhos vendados.

Os ouvidos de Rob J. estavam funcionando a toda. Seu cavalo estava sendo puxado, ele ouvia as patas do outro animal na frente. Não havia ninguém atrás. Mas podia

ter alguém esperando no caminho. Tudo que teria a fazer era deixar que eles passassem, inclinar-se para a frente, encostar uma arma na cabeça de cada um e puxar

o gatilho.

Foi uma longa viagem. Quando finalmente pararam, Rob sabia que, se pretendiam matá-los, seria aquele o momento. Mas os lenços foram retirados.

- Siga aquele caminho ali, está ouvindo? Logo vai chegar a um lugar que conhece.

205

Piscando os olhos, Rob fez um gesto afirmativo, e não disse que já sabia onde estavam. Rob e Xamã seguiram numa direção, o homem de barba branca na outra.



Depois de algum tempo, Rob parou num pequeno bosque para urinar e esticar as pernas.

- Xamã - disse ele. - Ontem, você viu minha conversa com o homem ferido?

O menino assentiu, inclinando a cabeça e olhando para ele.

- Filho. Você sabe do que estávamos falando? Outro gesto afirmativo.

Rob J. acreditou.

- Muito bem, como é que você entendeu? Alguém andou falando sobre essas coisas com você... - Não podia dizer “sua mãe” - seu irmão?

- Alguns meninos na escola.

Rob J. respirou fundo. Olhos de um velho num rosto tão jovem, pensou ele.

- Muito bem, Xamã, o negócio é o seguinte. Eu acho que o que aconteceu - nossa viagem com aqueles homens, o tratamento do ferido, tudo que conversamos - acho que

tudo isso deve ser um segredo entre nós dois. Só seu e meu. Porque, se contar ao seu irmão ou à sua mãe, eles podem ficar magoados. E preocupados.

- Sim, pai.

Montaram outra vez. Uma brisa quente começou a soprar. O garoto tinha razão, pensou Rob, o degelo da primavera estava chegando. Dentro de um ou dois dias, os rios

estariam fluindo novamente. Então o tom decidido da voz de Xamã o sobressaltou.

- Eu quero ser igualzinho a você, papai. Quero ser um bom médico. Rob sentiu os olhos arderem. Não era o momento certo, de costas

para Xamã, na sela, o menino com frio, com fome, cansado, para explicar que alguns sonhos eram impossíveis por causa da surdez. Limitou-se a estender o braço para

trás e puxar o filho para mais perto. Sentiu a testa de Xamã nas suas costas e, deixando de se torturar, tirou um cochilo, como um homem faminto com medo de devorar

um prato de doce, enquanto o cavalo seguia o caminho, levando-os para casa.

206


33

RESPOSTAS E PERGUNTAS

Instituto Religioso Estrelas e Listras Palmer Avenue, 282 Chicago, Illinois

18 de maio, 1852

Dr. Robert J. Cole Holden’s Crossing, Illinois

Caro Dr. Cole

Recebemos sua carta pedindo o endereço do reverendo Ellwood Patterson. Infelizmente não podemos dar a informação pedida.

Como deve saber, nosso instituto serve tanto a igrejas quanto aos trabalhadores de Illinois, levando a mensagem cristã de Deus aos honestos mecânicos nativos deste

estado. No ano passado, o Sr. Patterson entrou em contato conosco e se ofereceu para ajudar nossa obra e nós o designamos para visitar sua comunidade e sua bela

igreja. Mas depois disso, ele saiu de Chicago e não temos nenhuma informação a seu respeito.

Queremos assegurar que, se tivermos alguma informação, nós a enviaremos ao senhor. Nesse meio-tempo, se tiver algum assunto que possa ser esclarecido por um dos

ministros de Deus pertencentes ao instituto - ou alguma questão teológica que eu possa esclarecer pessoalmente - não hesite em entrar em contato comigo.

Sinceramente, em Cristo

(assinado)

Oliver G. Prescott, Diretor

Instituto Religioso Estrelas e Listras.

Era mais ou menos o que Rob esperava. Então ele escreveu uma carta, relatando os fatos da morte de Makwa-ikwa. Citou também a presença dos três estranhos em Holden’s

Crossing. Falou sobre os pedaços de pele encontrados sob as unhas de Makwa e do Dr. Barr ter tratado três profundos arranhões no rosto do Sr. Ellwood Patterson na

tarde do dia do crime.

207


Enviou cartas idênticas para o governador de Illinois, em Springfield, e para os dois senadores, em Washington. Então por obrigação enviou outra, muito formal,

a Nick Holden. Pedia às autoridades para, usando as facilidades dos seus cargos, ajudá-lo a localizar Patterson e seus dois companheiros e investigar qualquer conexão

que pudessem ter com a morte da Mulher Urso.

Na reunião de junho a Sociedade de Medicina recebeu um convidado, um médico chamado Naismith, de Hannibal, Missouri. Antes do começo da reunião, ele falou sobre

um processo movido por um escravo do Missouri no sentido de se tornar um homem livre.

- Antes da guerra contra Falcão Negro, o Dr. John Emerson foi designado para o posto de cirurgião aqui no Illinois, no Forte Armstrong. Ele tinha um escravo negro

chamado Dred Scott e, quando o governo liberou as terras que pertenciam aos índios para os colonos, ele adquiriu uma parte na região então chamada Stephenson e que

hoje é Rock Island. O escravo construiu um barraco na terra e viveu ali durante muitos anos para que seu dono o pudesse qualificar como dono da terra.

- Dred Scott foi para Wisconsin com Emerson, quando o cirurgião foi transferido e depois voltou, com ele, para o Missouri, onde o médico morreu. O negro tentou comprar

da viúva sua liberdade, bem como a da mulher e das duas filhas. A Sra. Emerson não aceitou, então o negro atrevido foi para os tribunais, afirmando que durante muitos

anos vivera como um homem livre no Wisconsin e em Illinois.

Tom Beckermann deu uma gargalhada.

- Um negro entrando com um processo nos tribunais.

- Bem - disse Julius Barton - parece-me que a afirmação é procedente, a escravidão é proibida tanto em Illinois, quanto no Wisconsin.

O Dr. Naismith continuou, com um sorriso.

- Ah, mas é claro que ele foi vendido e comprado no Missouri, um estado escravagista, e voltou para lá.

Tobias Barr disse, pensativamente.

- Qual a sua opinião sobre a escravatura, Dr. Cole?

- Eu acho - disse Rob J. deliberadamente - que um homem pode possuir um animal do qual ele gosta, e para o qual ele fornece água e comida suficientes. Mas não creio

que seja direito um ser humano possuir outro ser humano.

O Dr. Naismith esforçou-se para não perder a jovialidade.

- Sinto-me feliz por serem meus colegas de profissão, senhores, e não advogados ou juizes.

O Dr. Barr fez um gesto afirmativo, vendo que o homem queria evitar uma discussão desagradável.

- Dr. Naismith, houve muitos casos de cólera no Missouri este ano? - perguntou ele.

208

- De cólera não, mas tivemos muito do que alguns chamam de gripe - disse o Dr. Naismith. Descreveu então a aparente etiologia da doença, e até o fim da reunião trataram



de assuntos médicos.

Alguns dias depois, Rob J. passava, de tarde, pelo convento das Irmãs de São Francisco Xavier de Assis quando, num impulso de momento, virou o cavalo e entrou no

caminho que levava à casa das religiosas.

Dessa vez sua chegada foi detectada com bastante antecedência por um jovem que estava no jardim e entrou correndo na casa. A madre Míriam Ferocia ofereceu a cadeira

do bispo com um sorriso tranqüilo.

- Temos café - disse ela, e seu tom denotava que isso não era comum. - Aceita uma xícara?

Rob não queria desfalcar o convento, mas algo no rosto dela o fez aceitar, agradecendo. O café foi servido, preto e quente. Era muito forte e com um gosto estranho

para ele, como a religião das freiras.

- Não temos leite - disse madre Míriam Ferocia, jovialmente. - Deus ainda não nos mandou uma vaca.

Ele perguntou como ia o convento e ela respondeu, secamente, que estavam sobrevivendo muito bem, obrigada.

- Há um jeito de conseguir dinheiro para o seu convento - disse Rob J.

- É sempre prudente ouvir quando alguém fala em dinheiro - respondeu ela, com calma.

- Sua ordem é de enfermeiras que não têm lugar para exercer essa atividade. Eu trato de pacientes que precisam de cuidados de enfermagem. Alguns deles podem pagar.

Mas não conseguiu uma reação melhor do que a da primeira vez em que tocou no assunto. A madre superiora fez uma careta.

- Somos irmãs de caridade.

- Alguns dos pacientes não podem pagar coisa alguma. Tratem deles e estarão praticando a caridade. Outros podem pagar. Tratem deles e mantenham seu convento.

- Quando o Senhor nos der um hospital para tratar dos doentes, nós vamos trabalhar.

Rob J. sentiu-se frustrado.

- Pode me dizer por que não permite que suas enfermeiras atendam os pacientes em casa?

- Não. O senhor não compreenderia.

- Por que não tenta?

Mas Míriam, a Feroz, limitou-se a franzir a testa, friamente. Rob J. suspirou resignado e tomou mais um gole do café amargo.

- Há uma outra coisa. - Contou a ela tudo o que descobrira e seus esforços para localizar Ellwood Patterson. - Será que a senhora descobriu alguma coisa sobre esse

homem?


209

- Sobre o Sr. Patterson, não. Mas descobri sobre o Instituto Religioso Estrelas e Listras. Uma organização anticatólica patrocinada por uma sociedade secreta que

apoia o partido americano. É chamada a Suprema Ordem da Bandeira de Estrelas e Listras.

- Como ficou sabendo dessa... Suprema...?

- Ordem da Bandeira de Estrelas e Listras. Eles a chamam de SOBEL. - Olhou atentamente para ele. - A Santa Igreja é uma organização muito vasta. Tem meios de obter

informações. Nós oferecemos a outra face, mas seria tolice não procurar saber de onde virá o próximo golpe.

- Talvez a igreja possa me ajudar a encontrar esse Patterson.

- Vejo que é importante para o senhor.

- Eu acho que ele matou uma amiga minha. Não podemos permitir que mate outras pessoas.

- Não pode deixar que Deus se encarregue de seu julgamento? - perguntou, em voz baixa.

- Não.

Ela suspirou.



- É pouco provável que o encontre por meu intermédio. Às vezes uma investigação percorre apenas um ou dois elos da infinita corrente da igreja. Muitas vezes perguntamos

e nunca mais ouvimos falar no assunto. Mas vou indagar.

Rob saiu do convento e foi à fazenda de Daniel Rayner onde tentou, sem sucesso, aliviar a torção nas costas de Lydia-Belle Rayner e depois foi para a fazenda de

criação de cabras de Lester Shedd. Shedd esteve a poucos passos da morte com uma inflamação dos pulmões e era um exemplo do quanto seria útil o trabalho das irmãs

enfermeiras. Mas Rob J. o tinha visitado sempre que podia durante todo o inverno e toda a primavera e, com a ajuda da Sra. Shedd, conseguiu curá-lo.

Shedd ficou aliviado quando Rob J. disse que suas visitas não seriam mais necessárias, mas falou sobre o que devia a ele, um tanto constrangido.

- Você por acaso tem uma boa cabra leiteira? - perguntou Rob J., atónito com as próprias palavras.

- Não dando leite agora. Mas tenho uma belezinha, um pouco nova ainda para ser iniciada. Mas dentro de dois meses eu garanto os serviços de um dos meus bodes reprodutores,

sem cobrar nada. Cinco meses depois - muito leite.

Rob J. arrastou o animal recalcitrante até o convento, com uma corda amarrada na sela do seu cavalo.

A madre Miriam agradeceu adequadamente, mas observando com certa ironia que, dentro de sete meses, quando ele as visitasse outra vez, tomaria café com creme, como

que o acusando de dar o presente para satisfazer o próprio paladar.

Mas Rob viu um brilho diferente nos olhos dela. O sorriso de madre Miriam aqueceu seu rosto de traços fortes e severos e Rob voltou para casa sentindo que tinha

aproveitado muito bem o seu dia.

210

Dorothy Burnham até então via o jovem Robert Cole apenas como um aluno inteligente e ansioso para aprender. Primeiro ela estranhou as notas baixas de Robert Cole



no livro do Sr. Byers, e depois ficou indignada, pois percebeu que o menino era muito inteligente e sem dúvida fora tratado com desprezo.

Não tinha nenhuma experiência com alunos surdos, mas era uma professora que dava valor a uma experiência nova.

Quando se hospedou na casa dos Cole por duas semanas, esperou o momento oportuno para falar em particular com o Dr. Cole.

- É sobre a dicção de Robert - começou ela e logo percebeu que tinha toda a atenção do médico. - Temos sorte porque ele fala com clareza. Mas, como sabe, há outros

problemas.

Rob J. fez um gesto afirmativo.

- Sua dicção é sem cadência ou expressão. Eu sugeri que ele procurasse variar o tom da voz mas... - ele balançou a cabeça.

- Eu acho que ele fala monotonamente porque com o passar do tempo vai esquecendo o som da voz humana, os altos e baixos da entonação. Acho que podemos fazer com

que volte a lembrar - disse ela.

Dois dias depois, com a permissão de Lillian, a professora levou Xamã à casa dos Geiger, depois da aula. Fez o menino ficar de pé ao lado do piano, com a palma da

mão apoiada sobre a caixa de cordas do instrumento. Tocou com força a nota mais baixa e segurou para que a vibração chegasse até a mão do menino. Então, olhando

para ele, disse “Nossa!” A mão direita da professora estava também sobre o piano, com a palma para cima.

Tocou a nota seguinte, “escola!”. Ergueu um pouco a mão direita.

A nota seguinte, “é”. Levantou mais um pouco a mão.

Nota por nota ela tocou a escala ascendente, para cada uma dizendo as palavras do que cantavam na classe, “Nossa-escola-é-um-refúgio-precioso!” Então, a escala descendente,

“Aqui-nós-a-prendemos-a-pensare-a-crescer!”

Ela repetiu as escalas várias vezes, para que Xamã se acostumasse às diferentes vibrações, cuidando para que ele observasse a subida e a descida gradual da sua mão

com cada nota.

Então, mandou que ele cantasse as palavras das escalas, não apenas com o movimento dos lábios, como fazia na escola, mas em voz alta. O resultado não foi nada musical,

mas Dorothy Burnham não estava procurando fazer música. Queria que Xamã conseguisse controlar o tom da voz e, após várias tentativas, em resposta aos movimentos

rápidos da mão dela, Xamã elevou a voz. Porém, foi além de uma única nota e então ele olhou mesmerizado para a mão da professora que, com o dedo polegar e indicador

quase juntos, indicava um pequeno espaço.

211

E assim ela insistiu e corrigiu e Xamã não gostou muito. A mão esquerda da senhorita Burnham marchava sobre o teclado, tocando uma nota depois da outra, enquanto



que a direita ia se levantando a cada som diferente, depois começava a baixar do mesmo modo. Xamã coaxou repetidamente seu amor pela escola. Às vezes ele parecia

zangado, e em duas ocasiões seus olhos se encheram de lágrimas, mas Dorothy Burnham aparentemente não notou.

Finalmente ela parou de tocar. Abriu os braços e envolveu Robert Cole com eles, abraçando-o por um longo tempo e acariciando a cabeça dele duas vezes antes de soltá-lo.

- Vá para casa - disse ela, mas o fez parar, quando ele se virou para sair. - Vamos repetir amanhã, depois da aula.

Xamã disse, desapontado.

- Sim, senhorita Burnham - sem nenhuma inflexão na voz, mas ela não desanimou.

Depois que ele saiu, ela sentou ao piano e tocou as escalas mais uma

vez.


- Sim - disse Dorothy Burnham.

Naquele ano a primavera passou rapidamente - um pequeno período de calor agradável, e depois um calor opressivo caiu sobre a planície. Numa tórrida manhã de sexta-feira,

em meados de junho, quando passava pela rua Principal, em Rock Island, Rob J. foi abordado por George Cliburne, um fazendeiro quacre que era agora intermediário

da venda de cereais.

- Pode me dar um minuto, doutor? - disse Cliburne delicadamente, e num acordo tácito e mútuo os dois saíram do sol escaldante para o abrigo refrescante e quase sensual

que a sombra de uma nogueira proporcionava.

- Ouvi dizer que o senhor tem simpatia por homens escravizados. Rob J. estranhou a observação. Conhecia o comerciante apenas de vista. George Cliburne tinha fama

de bom negociante, astuto, mas honesto.

- Minhas opiniões pessoais não são da conta de ninguém. Quem teria dito isso ao senhor?

- O Dr. Barr.

Rob lembrou a conversa com o Dr. Naismith na reunião da Sociedade de Medicina. Percebeu que Cliburne olhava em volta para se certificar de que ninguém estava ouvindo.

- Embora nosso estado proíba a escravidão, os oficiais da lei de Illinois reconhecem o direito dos cidadãos de outros estados de terem escravos. Assim, escravos

fugidos dos estados do sul são presos aqui e devolvidos aos seus donos. São tratados cruelmente. Vi com meus próprios olhos uma grande casa, em Springfield, cheia

de pequenas celas, cada uma com um escravo com pés e mãos presos à parede por pesadas correntes.

- Alguns de nós... que pensamos do mesmo modo, que abomina-

212


mos os males da escravidão, estamos trabalhando para ajudar aqueles que fogem à procura da liberdade. Nós o convidamos a juntar-se a nós nessa obra de Deus.

Rob J. esperou que Cliburne dissesse mais alguma coisa, e finalmente deu-se conta de que ele acabava de fazer uma oferta.

- Ajudar... como?

- Não sabemos de onde eles vêm. Não sabemos para onde vão quando saem daqui. São trazidos para nós e levados só em noites sem lua. O senhor só precisa preparar um

esconderijo seguro com espaço para um homem. Um canto no celeiro, uma abertura na parede, um buraco no solo. Comida suficiente para dois ou três dias.

Rob J. nem pensou. Balançou a cabeça.

- Sinto muito.

A expressão de Cliburne não era de surpresa, nem ressentimento, mas tinha algo de familiar.

- Pode guardar segredo desta conversa?

- Sim. Sim, é claro.

Cliburne respirou fundo e fez um gesto afirmativo.

- Que Deus o acompanhe - disse ele, saindo da sombra para o calor da rua.

Dois dias depois, no domingo, os Geiger foram jantar na casa dos Cole. Alex e Xamã gostavam dessas visitas porque o jantar era sempre especial. No começo, Sarah

ficou ofendida quando notou que os Geiger sempre recusavam a carne que ela fazia, para não quebrar seu kashruth. Mas acabou compreendendo e procurava compensar.

Sempre que eles os visitavam, oferecia pratos diferentes, uma sopa sem carne, pães variados, legumes e várias sobremesas.

Jay levou com ele o Weekly Guardian, de Rock Island, com uma reportagem sobre o processo de Dred Scott e o comentário de que o escravo tinha pouca ou nenhuma chance

de ganhar nos tribunais.

- Malcolm Howard diz que na Louisiana todo mundo tem escravos - disse Alex, e sua mãe sorriu.

- Nem todos - disse Sarah. - Duvido que o pai de Malcolm Howard tenha tido muitos escravos ou muito de qualquer outra coisa.

- Seu pai tem escravos lá na Virgínia? - perguntou Xamã.

- Meu pai era um modesto madeireiro - disse Sarah. - Tinha só três escravos, mas as coisas ficaram difíceis e ele teve de vender a serraria e os escravos e foi trabalhar

para o pai dele, que tinha uma grande fazenda e mais de quarenta escravos.

- E a família do meu pai na Virgínia? - perguntou Alex.

- A família do meu primeiro marido era de comerciantes - disse Sarah. - Não tinham escravos.

- Afinal, por que alguém vai querer ser escravo? - perguntou Xamã.

213


- Eles não querem - disse Rob J. - São pessoas pobres e infelizes em situação desprivilegiada.

Jay tomou um gole de água da fonte e franziu os lábios.

- Sabe, Xamã, é assim que as coisas são, assim que têm sido no sul por mais de duzentos anos. Os radicais reclamam, dizendo que os negros devem ser livres. Mas se

um estado como a Carolina do Sul libertasse todos os escravos, como eles iam viver? Agora eles trabalham para os brancos e os brancos tomam conta deles. Alguns anos

atrás, o primo de Lillian, Judah Benjamin, tinha cento e quarenta escravos na sua plantação de cana, na Louisiana. E ele tratava a todos muito bem. Meu pai, em Charleston,

tinha dois criados negros. Pertenceram a ele durante grande parte da minha vida. Meu pai trata os dois com tanta bondade que tenho certeza que não o abandonariam

nem que alguém os pudesse levar embora.

- Exatamente - disse Sarah.

Rob J. abriu a boca mas fechou sem dizer nada e passou as ervilhas e cenouras para Rachel. Sarah foi até a cozinha e voltou com um enorme bolo de batata, feito com

uma receita de Lillian Geiger, e Jay gemeu, dizendo que estava mais do que satisfeito, mas assim mesmo estendeu o prato.

Quando se despediram, Jay insistiu para que Rob J. os acompanhasse até em casa para tocarem um pouco. Mas Rob declinou do convite alegando cansaço.

A verdade era que estava se sentindo anti-social, irritado. Esperando melhorar o humor, andou até o rio para aproveitar a brisa. Notou o capim alto no túmulo de

Makwa e com uma fúria selvagem arrancou tudo pela raiz.

Compreendeu por que a expressão de George Cliburne lhe tinha parecido familiar. Era a mesma que vira nos olhos de Andrew Gerould na primeira vez que ele pediu a

Rob para escrever um panfleto contra a administração dos ingleses e Rob recusou. Havia nos rostos dos dois homens um misto de fatalismo, força obstinada e o constrangimento

de saber que tinham se tornado vulneráveis ao seu caráter e ao seu silêncio.

34

O RETORNO



Quando a neblina da madrugada pairava como vapor espesso sobre o rio e cobria as árvores do bosque, Xamã saiu de casa, passou pela privada e foi urinar languidamente

nas águas claras. Um disco cor-de-laranja apare-

214

cia bem acima da névoa, embaçando as camadas mais baixas. O mundo era novo e de um frescor que cheirava bem, e ele pôde perceber que o rio e os bosques combinavam



com a paz permanente dos seus ouvidos. Se alguém quisesse pescar naquele dia, pensou, tinha de começar cedo.




1   ...   18   19   20   21   22   23   24   25   ...   51


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal