Noah Gordon, o xamã



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fossem histórias reais.

Quando finalmente o Sr. Perkins permitiu que Sarah voltasse ao seu lugar, mãos ávidas estenderam-se para ela e muitas vozes murmuravam palavras de alegria e de congratulações.

Era a realização cintilante de

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um sonho que a atormentava há muitos anos. Era a prova da bondade de Deus, de que o perdão de Cristo tornava possível a esperança e de que ela fora aceita num mundo



de amor e caridade. Era o momento mais feliz da sua vida.

Na manhã seguinte ia ser inaugurada a academia, primeiro dia de aula. Xamã adorou a companhia de dezoito crianças de vários tamanhos, o cheiro forte de madeira nova

da casa e dos móveis, sua lousa e lápis e seu livro McGuffey’s Fourth Eclectic Reader, muito surrado, porque a escola de Rock Island tinha comprado o mais recente

McGuffey’s Fifth Eclectic Reader para seus alunos e a Academia de Holden’s Crossing comprara os usados. Porém, quase imediatamente surgiram os problemas.

O Sr. Byers determinava os lugares dos alunos em ordem alfabética, em quatro grupos, de acordo com a idade, de modo que Xamã ficou na extremidade de uma das compridas

mesas comuns e Alex muito longe para poder ajudá-lo. O professor falava com rapidez nervosa e Xamã tinha dificuldade para ler os lábios dele. Mandou os alunos desenharem

suas casas nas lousas e depois escrever o nome, a idade, os nomes dos pais e suas profissões. Com o entusiasmo do primeiro dia de aula, todos viraram para a parede

e começaram a desenhar e escrever.

Xamã só percebeu que alguma coisa estava errada quando a vareta de madeira bateu no seu ombro.

O Sr. Byers tinha mandado a classe parar de escrever e virar para ele. Todos obedeceram, menos o menino surdo, que não ouviu a ordem. Quando Xamã virou rapidamente,

assustado, viu que as outras crianças estavam rindo dele.

- Agora, vou chamar um de cada vez para ler o que escreveu na lousa e mostrar o desenho da sua casa. Começaremos por você - e a vareta bateu no ombro dele outra

vez.

Xamã leu, hesitando em algumas palavras. Depois que ele mostrou o desenho, o Sr. Byers chamou Rachel Geiger, na outra extremidade da sala. Por mais que Xamã se inclinasse



no banco, não podia ver o rosto dela. Ele levantou a mão.

- O que é?

- Por favor - disse ele, dirigindo-se ao professor como sua mãe tinha ensinado. - Não posso ver os rostos daqui. Não posso ficar de pé na frente deles?

Na sua última escola Marshall Byers tivera problemas disciplinares, alguns tão terríveis que tinha medo de entrar na sala de aula. Essa escola era uma nova chance

e tinha resolvido controlar rigorosamente os pequenos selvagens. Decidiu que um meio de fazer isso era determinando os lugares deles na classe. Em ordem alfabética.

Em quatro pequenos grupos, de acordo com a idade. Cada um no seu lugar.

Compreendeu que não podia deixar o menino ficar de pé na frente

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dos outros enquanto eles recitavam a lição, olhando para os lábios deles, talvez fazendo caretas nas suas costas, provocando o riso e talvez brincadeiras maldosas

contra o professor.

- Não, você não pode.

Durante quase toda a manhã Xamã ficou sentado, sem compreender o que estava acontecendo à volta dele. Na hora do almoço, as crianças saíram para brincar de pique.

Xamã gostou da brincadeira, até que o maior aluno da escola, Lucas Stebbins, deu um safanão em Alex que o atirou para longe, no chão. Quando Alex se levantou, com

os punhos fechados, Stebbins chegou bem perto dele e disse.

- Quer brigar, seu merda? Não devíamos deixar você brincar com a gente. Você é um bastardo. Meu pai disse.

- O que é um bastardo? - perguntou Davey Geiger.

- Você não sabe? - perguntou Luke Stebbins. - Quer dizer que alguém, que não é seu pai, um bandido ladrão qualquer chamado Will Mosby enfiou o pinto no buraco de

fazer xixi da Sra. Cole.

Alex avançou para Luke e recebeu um murro violento que tirou sangue do seu nariz e o mandou outra vez para o chão. Xamã correu para o atacante do irmão e ganhou

um murro nas orelhas, tão forte que as outras crianças, com medo de Luke, viraram o rosto.

- Pare com isso. Você vai machucar ele - gritou Rachel Geiger,

furiosa.


Geralmente Luke atendia Rachel, deslumbrado porque, apesar de ter apenas doze anos, Rachel já tinha seios bem visíveis. Mas dessa vez

apenas sorriu.

- Ele já é surdo. Não se pode machucar mais as orelhas dele. Os idiotas falam engraçado - disse ele, alegremente, com um murro final na cabeça de Xamã, antes de

ir embora.

Se Xamã permitisse, Rachel o teria abraçado carinhosamente. Para horror da menina, ele e Alex, sentados no chão, um ao lado do outro, começaram a chorar juntos,

sob os olhares das outras crianças.

Depois do almoço, tiveram aula de música, onde aprendiam a música e a letra de hinos religiosos e patrióticos, uma aula de que todos gostavam pois os livrava dos

livros. Durante a aula de música o Sr. Byers mandava o menino surdo esvaziar o balde com as cinzas da véspera, que ficava ao lado do aquecedor a lenha, e encher

o cesto de lenha, carregando achas pesadas. Xamã concluiu que detestava a escola.

Foi Alma Schroeder quem falou com admiração do testemunho de Sarah na igreja, pensando que Rob J. sabia. Quando Rob soube dos detalhes, teve uma discussão com Sarah.

Ele conhecia o tormento da mulher e sentia agora o alívio, mas não podia compreender como era possível revelar a estranhos detalhes da vida particular, dolorosos

ou não.


Não para estranhos, corrigiu ela.

- Irmãos na graça, irmãs em Cristo, que compartilharam minha confissão e minha absolvição.

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O Sr. Perkins tinha dito que todos que quisessem ser batizados na primavera deviam se confessar e obter a absolvição, explicou. Tudo era tão claro para ela. Não



compreendia como Rob não podia ver.

Quando os meninos começaram a chegar da escola com marcas de brigas, Rob J. suspeitou que pelo menos um dos irmãos na graça ou irmãs em Cristo não estava disposto

a compartilhar com os outros as confissões que observavam na igreja. Seus filhos não diziam nada sobre as marcas de violência. Rob não podia conversar sobre Sarah

com eles, a não ser para falar dela com amor e admiração sempre que possível. Mas conversava com eles sobre brigas.

- Não vale a pena bater em outra pessoa quando estamos zangados. As coisas podem se descontrolar facilmente, até levar à morte. Nada justifica matar uma pessoa.

Os meninos ficaram intrigados. Estavam falando de brigas no pátio da escola, não de matar.

- Como é que a gente vai deixar de bater quando batem na gente, papai? - perguntou Xamã.

Rob J. balançou a cabeça, compreensivo.

- Sei que é um problema. Você deve usar a cabeça e não os punhos. Alden Kimball ouviu essa conversa. Um pouco depois, ele olhou para

os dois irmãos e disse, horrorizado.

- Bobagem! Bobagem! Seu pai pode ser o homem mais inteligente que já existiu, mas acho que às vezes ele se engana. Ouçam o que eu digo, se alguém bate em você, você

tem de agarrar o filho da mãe, senão ele nunca mais pára de bater.

- Luke é muito grande, Alden - disse Xamã. Era o que seu irmão maior estava pensando.

- Luke? Aquele garoto dos Stebbins? Luke Stebbins? - perguntou Alden, e os dois fizeram que sim com a cabeça.

- Quando eu era moço, era um bom lutador. Sabem o que é isso?

- Um lutador bom mesmo? - perguntou Alex.

- Bom mesmo! Eu era melhor do que bom. Lutava boxe nas feiras. Parques de diversões e coisas assim. Lutava três minutos com qualquer pessoa que pagasse quatro dólares.

Se eles venciam, levavam três dólares. E não pensem que não tinha muito homem forte lutando por aqueles três dólares.

- Você ganhava muito dinheiro, Alden? - quis saber Alex. Alden ficou sério.

- Nada disso. Tinha um agente, ele sim ganhava dinheiro. Fiz isso durante dois anos, no verão e no outono. Então fui vencido. O agente pagou três dólares para o

cara que me venceu e o contratou para ficar no meu lugar. - Olhou para os dois. - O negócio é o seguinte, eu posso ensinar vocês a lutar, se quiserem.

Os dois rostinhos ergueram-se para ele. E as duas cabeças balançaram, assentindo.

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- Parem com isso! Será que não podem dizer sim? - disse Alden, irritado. - Parecem dois malditos carneiros.



- Um pouco de medo é bom - disse Alden. - Põe o sangue em movimento. Mas se ficarem apavorados, só podem perder. E não vão querer ficar zangados também. Um lutador

zangado começa a bater de qualquer jeito, ficando aberto para o inimigo.

Xamã e Alex sorriram, constrangidos, mas Alden estava muito sério quando mostrou a posição das mãos, a esquerda ao nível dos olhos, para proteger a cabeça, a direita

mais baixa, para proteger o corpo. Caprichou, ensinando como fechar o punho, insistindo para que dobrassem os dedos com força, endurecendo as juntas para atingir

o oponente como se tivessem uma pedra em cada mão.

- Só precisam saber quatro golpes - disse Alden. - Jab de esquerda, gancho de esquerda, cruzado de direita, direto de direita. O jab é como uma cobra. Pode arder

um pouco, mas não machuca muito o oponente, só o faz perder o equilíbrio, abrindo a guarda para um golpe mais duro. O gancho de esquerda não tem muito alcance, mas

funciona - você vira para a esquerda, põe o peso do corpo na perna direita, e ataca com força a cabeça do adversário. Agora, o cruzado de direita, você apoia o peso

do corpo na outra perna, vira rapidamente a cintura para dar mais força, assim. Meu favorito, o direto de direita no corpo, eu chamo de Stick. Você vira abaixado

para a direita, com o peso do corpo na perna esquerda, e manda o punho direto na barriga dele, como se todo seu braço fosse uma lança.

Ele ensinou um golpe de cada vez, para não confundir os meninos. No primeiro dia ele os fez golpear o ar durante duas horas, para que se acostumassem com a idéia

de dar um soco, familiarizando-se com o ritmo muscular. Na tarde seguinte eles voltaram à pequena clareira perto da casa de madeira de Alden, onde não seriam interrompidos,

e também todas as outras tardes depois daquela. Praticaram cada golpe exaustivamente, lutando um com o outro. Alex era três anos e meio mais velho, mas Xamã era

grande para a idade, de modo que a diferença parecia de apenas um ano. Lutavam, mas com cuidado, para não machucarem uns aos outros. Finalmente, Alden enfrentou

um deles de cada vez, dizendo para baterem forte, como se fosse uma luta de verdade. Para espanto dos meninos, ele girava o corpo, desviava-se dos golpes, bloqueava

os punhos deles com o braço ou com os punhos.

- Estão vendo? Não estou ensinando nenhum segredo. Outros também sabem lutar. Precisam aprender a se defender. - Insistiu na defesa de queixo, que devia ficar abaixado,

quase tocando o peito. Mostrou como prender o oponerte num clinch, mas disse que Alex devia evitar o clinch com Luke a qualquer custo. - Quando o homem é muito maior

do que você, fique longe, não deixe que ele prenda você no chão.

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Era pouco provável que Alex pudesse vencer um garoto daquele tamanho, pensou Alden, mas talvez pudesse castigá-lo o suficiente para que o deixasse em paz. Ele não

tentou fazer dos irmãos Cole lutadores perfeitos. Só queria que aprendessem a se defender, e ensinou somente os pontos básicos porque era o que sabia. Não mostrou

o jogo de pernas. Anos mais tarde, ele confessaria a Xamã que, se soubesse movimentar bem as pernas numa luta, não teria sido vencido por aquele lutador de três

dólares.


Por três vezes Alex pensou que estava pronto para enfrentar Luke, mas Alden disse que ele diria quando os dois estivessem preparados para isso, e essa hora ainda

não tinha chegado. Assim, Alex e Xamã iam para a escola todos os dias, sabendo que teriam maus momentos no recreio. Para Luke, os meninos Cole eram uma brincadeira.

Ele os esmurrava e insultava à vontade, e só os chamava de Idiota e Bastardo. Empurrava os dois violentamente quando brincavam de pegar e, quando lutavam, esfregava

os rostos deles na terra.

Mas Luke não era o único problema de Xamã na academia. Só podia ver menos da metade do que acontecia ou era dito na classe e desde o começo ficou muito atrasado

em relação aos outros. Marshall Byers ficou satisfeito com isso, pois tinha tentado convencer o pai do garoto que uma escola comum não era lugar para um surdo. Mas

estava sendo cauteloso, preparando tudo para ter provas suficientes quando o assunto fosse novamente abordado. Anotava criteriosamente as notas baixas de Xamã e

o fazia ficar na escola depois das aulas, fazendo deveres, o que, aparentemente, não contribuía para melhorar o seu aproveitamento.

Às vezes, o Sr. Byers fazia Rachel Geiger também ficar depois das aulas, uma vez que ela era a melhor aluna da escola. Quando isso acontecia, Xamã e Rachel voltavam

juntos para casa. Numa tarde cinzenta, quando a primeira neve do ano começava a cair, de repente Rachel começou a chorar, assustando Xamã.

Ele ficou imóvel, olhando para ela.

Rachel parou de chorar e virou para Xamã para que ele pudesse ler seus lábios.

- Aquele Sr. Byers! Sempre que ele pode, fica... muito perto de mim. É está sempre me tocando.

- Tocando?

- Aqui - disse ela, levando a mão à frente do casaco azul. Xamã, na sua inexperiência, não sabia como reagir à revelação.

- O que podemos fazer? - perguntou, mais para si mesmo do que para ela.

- Eu não sei. Não sei. - Para horror de Xamã, ela recomeçou a chorar.

- Eu tenho de matar o Sr. Byers - resolveu ele, calmamente.

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Rachel parou de chorar.



- Isso é bobagem.

- Não, não é. É o que vou fazer.

A neve começou a cair com mais força e os flocos se juntavam ao cabelo e no gorro de Rachel. Os olhos castanhos, com pestanas espessas e negras, ainda cheios de

lágrimas, estudaram Xamã pensativamente. Um floco maior derreteu no rosto macio mais moreno que o dele, um tom de pele entre o branco quase transparente de Sarah

e o moreno de Makwa.

- Você faria isso por mim?

Xamã pensou sinceramente no assunto. Teria prazer em se livrar do Sr. Byers, mas os problemas de Rachel com o professor eram um peso a mais a seu favor no prato

da balança e ele achou que podia responder afirmativamente. Então Xamã descobriu que o sorriso de Rachel despertava nele uma nova e agradável sensação.

Rachel pôs a mão no peito dele solenemente, na mesma altura em que tinha tocado o próprio peito para mostrar onde Byers a tocava.

- Você é meu amigo para sempre e eu sou sua amiga para sempre - disse ela, e Xamã reconheceu que era verdade.

Continuaram a andar e a mão enluvada de Rachel segurou a dele. Como as luvas azuis dela, as vermelhas de Xamã tinham sido feitas por Lillian, que sempre dava luvas

de presente de aniversário. O calor da mão dela passou através da luva e pareceu subir pelo braço de Xamã. Então Rachel parou outra vez e virou o rosto para ele.

- Como é que você vai... você sabe... fazer isso?

Xamã procurou retirar do ar frio a lembrança de uma frase que seu pai sempre dizia.

- Isso vai exigir um estudo considerável - respondeu.

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TEMPO DE ESCOLA



Rob J. gostava das reuniões da Sociedade de Medicina. Às vezes eram instrutivas. Mas, geralmente, era uma oportunidade de passar algumas horas na companhia de homens

que tinham experiências iguais às suas e que falavam uma linguagem comum. Na reunião de novembro, Julius Barton, um jovem médico do norte do condado, apresentou

um relatório sobre picadas de cobras e depois falou sobre mordidas estranhas de animais, que tinha tratado, como o caso da mordida que tirou sangue da nádega de

uma mulher.

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- O marido disse que foi o cachorro, o que fazia da mordida um caso muito especial, porque demonstrava claramente que o cachorro do casal tinha dentes humanos!



Para não ficar atrás, Tom Beckermann contou o caso de um amante de gatos que apareceu com arranhões nos testículos, que podiam ou não terem sido feitos por um gato.

Tobias Barr disse que essas coisas não eram incomuns. Alguns meses atrás, tinha tratado de um homem com o rosto todo arranhado.

- Ele disse que fora arranhado por um gato também, mas era um gato com três unhas e grandes como de uma gatinha humana - disse o Dr. Barr, provocando mais gargalhadas.

Ele começou em seguida a contar outro caso engraçado e ficou aborrecido quando Rob o interrompeu, perguntando se podia lembrar exatamente quando tinha atendido o

homem com o rosto arranhado.

- Não - disse ele, continuando com a história. Depois da reunião, Rob J. aproximou-se do Dr. Barr.

- Tobias, aquele paciente com o rosto arranhado. Será que tratou dele num domingo, dia 3 de setembro?

- Não posso afirmar. Não anotei a data - disse o Dr. Barr, na defensiva, pois sabia que Rob praticava um tipo de medicina mais científica, anotando e comentando

cada caso. - Pelo amor de Deus, não precisamos anotar todas as coisas estranhas e sem importância, precisamos? Especialmente com um paciente desse tipo, um pregador

itinerante de fora do condado, só de passagem pela cidade. Provavelmente eu nunca mais o verei, muito menos vou precisar tratar dele.

- Pregador? Lembra o nome dele?

O Dr. Barr franziu a testa, pensou por um tempo, balançou a cabeça.

- Talvez Patterson - disse Rob J. - Ellwood Patterson? O Dr. Barr arregalou os olhos.

Ao que se lembrava, o paciente não tinha deixado endereço.

- Acho que disse que era de Springfield.

- Para mim disse Chicago.

- Ele o procurou por causa da sífilis?

- Estágio terciário.

- Sim, sífilis terciária - disse o Dr. Barr. - Ele me perguntou sobre sífilis, depois que tratei seu rosto. O tipo de homem que quer tirar o máximo possível de cada

dólar. Se tivesse um calo no dedo do pé, ia querer que eu o tirasse pelo preço da consulta. Vendi a ele um unguento para a sífilis.

- Eu também - disse Rob J. e os dois sorriram. O Dr.. Barr estava intrigado.

- Ele ficou devendo a consulta, certo? Por isso você o está procurando?

- Não. Eu fiz autópsia numa mulher que foi assassinada no dia

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em que você o examinou. Ela foi estuprada por vários homens. Encontrei fragmentos de pele debaixo de três unhas, provavelmente arrancadas dos rostos dos homens.

O Dr. Barr pigarreou.

- Lembro que dois homens estavam esperando por ele, fora do meu consultório. Apearam dos cavalos e sentaram nos degraus na frente da porta. Um deles era grande,

parecia um urso em hibernação, com uma boa camada de gordura. O outro era magro, mais jovem. Tinha uma mancha cor-de-vinho no rosto debaixo do olho, acho que do

direito. Não cheguei a saber os nomes deles, nem vi nada além disso.

O presidente da Sociedade de Medicina tinha certa tendência ao ciúme profissional e às vezes era pomposo, mas Rob J. gostava dele. Agradeceu a Tobias Barr e saiu.

Mort London o recebeu com mais calma, talvez por se sentir inseguro com a ausência de Nick Holden, que estava em Washington, ou talvez por ter chegado à conclusão

de que um xerife eleito devia saber controlar a língua. Ele ouviu o que Rob J. tinha a dizer, anotou a descrição física de Ellwood Patterson e dos outros dois homens

e prometeu, atenciosamente, começar a investigação. Rob J. teve a vaga impressão de que aquelas anotações iam parar na cesta de lixo assim que ele saísse do escritório

do xerife. Se pudesse escolher entre Mort furioso e Mort suavemente diplomático, daria preferência ao primeiro.

Assim, Rob começou a investigar por conta própria. Carroll Wilkenson, o corretor de imóveis e de seguros, era presidente do comitê pastoral da igreja e tinha providenciado

a vinda de todos os pregadores visitantes até escolher o Sr. Perkins. Um bom comerciante, Wilkenson tinha um arquivo muito completo de todas as suas atividades.

- Aqui está - disse ele, tirando do arquivo um volante dobrado. - Apanhei numa reunião de agentes de seguros, em Galesburg. O folheto oferecia às igrejas cristãs

a visita de um pregador que faria um sermão sobre os planos de Deus para o vale do rio Mississipi. A igreja não pagaria nada ao pregador visitante e todas as suas

despesas seriam cobertas pelo Instituto Religioso Estrelas e Listras, Palmer Avenue, 282,

Chicago.


- Escrevi uma carta dando a eles para escolher três datas abertas, três domingos. Responderam dizendo que Ellwood Patterson estaria aqui no dia 3 de setembro. Eles

se encarregaram de tudo. - Reconheceu que o sermão de Patterson não tinha agradado muito. - Ele se limitou a fazer advertências contra os católicos. - Sorriu. -

Se quer saber a verdade, ninguém deu muita atenção. Mas então, ele começou a falar das pessoas que vêm de outros países para o vale do Mississipi. Disse que estavam

roubando os empregos dos cidadãos nascidos aqui. Os que vieram de outros países ficaram danados da vida. - Ele não tinha o endereço

194 de Patterson. - Ninguém pensou em convidar o homem outra vez. A última coisa que uma igreja como a nossa precisa é de um pregador que procura dividir a congregação,

jogando uns contra os outros. Ike Nelson, o dono do bar, lembrava de Ellwood Patterson.

- Eles chegaram tarde, na noite de sábado. Ele é um mau bebedor, aquele Patterson, assim como os outros que estavam com ele. Fácil com o dinheiro, mas não valia

os problemas que criaram. O grandalhão, Hank, passou o tempo todo gritando comigo, pedindo para arranjar algumas prostitutas, mas não demorou a ficar bêbado e esqueceu

das mulheres.

- Qual o sobrenome desse Hank?

- Um nome engraçado. Sneeze, não... Cough! Hank Cough. O outro homem, pequeno e magricela, mais moço, eles chamavam de Len. Às vezes de Lenny. Não me lembro de ter

ouvido o sobrenome. Tinha uma marca roxa no rosto. Mancava, como se tivesse uma perna mais curta do que a outra.

Toby Barr não tinha falado de um homem manco. Provavelmente não vira o homem andar, pensou Rob.

- De que perna ele mancava? - perguntou e percebeu que Nelson não tinha entendido a pergunta.

- Ele andava assim? - disse Rob, favorecendo a perna direita. - Ou assim? - favorecendo a esquerda.

- Menos do que isso. Quase não dava para notar. Não sei de que lado. Tudo que sei é que os três tinham pernas ocas, para agüentar tanta bebida. Patterson pôs um

belo maço de notas no bar e me mandou continuar servindo e tomar alguns também. No fim da noite, tive de mandar chamar Mort London e Fritz Graham, dei pra eles algumas

notas do maço e mandei levar os homens para a casa de Anna Wiley e pôr os três na cama. Mas ouvi dizer que no dia seguinte, na igreja, Patterson estava sóbrio e

tão santo quanto se pode desejar. - Com um largo sorriso, Ike disse. - Esse é o meu tipo de pregador!

Oito dias antes do Natal, Alex Cole foi para a escola com a permissão de Alden para brigar.

No recreio, Xamã viu o irmão atravessar o pátio. Horrorizado, notou que as pernas do Maior estavam tremendo.

Alex foi direto para onde Luke Stebbins e mais alguns meninos brincavam de saltar, no canto do pátio onde a neve macia estava ainda empilhada. A sorte sorriu para

Alex pois Luke tinha errado dois saltos e, para melhorar o desempenho, tirou o pesado casaco de pele de boi. Dar um soco naquele casaco era o mesmo que bater num

pedaço de madeira.

Luke pensou que Alex queria entrar na brincadeira e se preparou para se divertir mais uma vez. Mas Alex caminhou para ele e acertou um direto bem no meio do sorriso




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