Noah Gordon, o xamã



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igreja, onde os respectivos donos os apanhariam. Xamã ofereceu-se para levá-los. Mas ela queria falar com o reverendo Blackmer.

- Venha comigo - disse ela, mas Xamã balançou a cabeça, sabendo que significaria um longo sermão sobre os motivos pelos quais ele devia receber o espírito santo.

A crença literal da mãe no céu e no inferno era um motivo de constante espanto para ele. Lembrando as discussões dela com seu pai, podia imaginar a agonia da mãe,

torturada pela idéia de que, como o marido não era batizado, não estaria à sua espera no paraíso.

Ela apontou para a janela aberta.

- Alguém está chegando a cavalo.

Foi até a porta, ouviu atenta por algum tempo, depois disse, com um largo sorriso.

- Uma mulher perguntou a Alden se o médico estava em casa. O marido dela sofreu um acidente. Alden disse que o médico tinha morrido. “O jovem médico?” perguntou

ela, Alden disse, “Oh, não ele, ele está aqui.”

Xamã também achou graça. A mãe já estava apanhando a maleta de Rob J. onde ele sempre deixava, ao lado da porta, e a estendeu para o filho.

- Leve a carroça coberta. Os cavalos já estão atrelados. Eu vou à igreja mais tarde.

A mulher era Liddy Geacher. Ela e o marido, Henry, haviam comprado a casa de Buchanan no período em que Xamã estava em Ohio. Ele conhecia bem o caminho. Ficava a

poucos quilômetros da sua casa. Geacher caíra do jirau onde guardava o feno. Eles o encontraram no mesmo lugar, respirando com dificuldade. Gemeu de dor quando começaram

a despi-lo, então Xamã cortou a roupa cuidadosamente nas costuras, para que a Sra. Geacher pudesse costurar de novo. Não havia sangue, apenas uma feia equimose e

o tornozelo esquerdo inchado. Xamã tirou da maleta o estetoscópio do pai.

- Venha aqui, por favor. Quero que me diga o que está ouvindo - disse para a mulher, pondo o aparelho nos ouvidos dela.

A Sra. Geacher arregalou os olhos quando Xamã encostou a outra extremidade do aparelho no peito do marido. Deixou que ela ouvisse por um longo tempo, segurando o

estetoscópio com a mão esquerda enquanto que, com a direita, tomava o pulso do homem.

- Tum-tum-tum-tum-tum - murmurou ela.

Xamã sorriu. O pulso de Henry Geacher estava acelerado, e quem podia culpá-lo por isso?

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- O que mais está ouvindo? Não se apresse. Ela ouviu por um longo tempo.



- Nenhum estalido, como se estivessem quebrando hastes de palha seca?

Ela balançou a cabeça negativamente.

- Tum-tum-tum.

Muito bom. Não havia nenhuma costela quebrada espetando o pulmão. Tirou o estetoscópio dos ouvidos dela e com as duas mãos examinou cada centímetro do corpo de Geacher.

Como não podia ouvir, tinha de ser duas vezes mais cauteloso com os outros sentidos do que os outros médicos. Segurou as mãos do homem e sorriu satisfeito ao ouvir

o que o Dom lhe dizia. Geacher teve sorte, pois caiu sobre um grande monte de feno. Bateu com as costelas, mas não encontrou nenhum sinal de fratura grave. Provavelmente

pequenas fissuras em quatro costelas, da quinta à oitava, e talvez a nona também. Depois que Xamã enfaixou seu peito, Geacher começou a respirar melhor. O médico

entalou o tornozelo e depois tirou um vidro de analgésico da maleta do pai, uma mistura de álcool com um pouco de morfina e ervas.

- Ele vai sentir dor. Duas colheres de chá de hora em hora. Um dólar pela visita, cinqüenta centavos pela atadura, cinquenta

centavos pelo remédio. Mas apenas parte do trabalho estava feita. Os vizinhos mais próximos dos Geacher eram os Reisman, cuja casa ficava a dez minutos de distância.

Xamã foi falar com Tod Reisman e com seu filho Dave, que concordaram em tomar conta da fazenda dos Geacher durante uma semana, mais ou menos, até Henry ficar bom.

Voltou para casa, conduzindo Boss a passo lento, saboreando a primavera. A terra negra estava ainda muito molhada para o arado. Naquela manhã nos pastos dos Cole

avistara as primeiras flores, violetas, orcanetas cor-de-laranja, flox rosada, dentro de poucas semanas o prado estaria todo enfeitado de cores vivas. Com prazer,

aspirou o cheiro doce dos campos adubados.

Encontrou a casa vazia e o cesto de ovos não estava dependurado no gancho, o que significava que sua mãe estava no galinheiro. Xamã não foi ao encontro dela. Examinou

a maleta do pai antes de deixá-la ao lado da porta, como se a estivesse vendo pela primeira vez. O couro estava gasto, mas era de boa qualidade e ia durar a vida

inteira. Os instrumentos, ataduras e medicamentos estavam como o pai os tinha arrumado, limpos, em ordem, prontos para qualquer coisa.

Xamã dirigiu-se ao gabinete e começou um exame metódico dos pertences do pai, abrindo gaveta por gaveta, depois a arca de couro, separando tudo em três categorias;

para sua mãe, primeira escolha de todos os pequenos objetos que podiam ter valor estimativo; para Maior, a meia dúzia de suéteres tricotados por Sarah Cole com lã

das ovelhas criadas por eles, para agasalhar o médico quando atendia chamados nas noites frias, o equipamento de caça e pesca e um tesouro que Xamã viu pela

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primeira vez naquele dia, um revólver Texas Navy, Colt. calibre 44, com coronha de nogueira preta e cano estriado de nove polegadas. A arma foi uma surpresa e um



choque. Quando seu pai, pacifista por princípio, concordou em tratar os soldados feridos da União, deixou bem claro que não era combatente e que jamais pegaria em

armas. Por que então havia comprado aquela arma tão dispendiosa?

Os livros de medicina, o microscópio, a maleta, a farmácia de ervas e remédios ficariam com Xamã. Na arca, debaixo da caixa do microscópio, encontrou uma coleção

de livros, alguns volumes feitos com folhas de livro-caixa costuradas.

Xamã abriu o primeiro. Era um diário, relatando toda a vida do pai.

O volume que ele apanhou ao acaso era do ano de 1842. Ao folheálo, encontrou uma rica e desordenada variedade de anotações sobre medicina, farmacologia e pensamentos

íntimos. Havia também desenhos aqui e ali - rostos, desenhos anatómicos, um corpo nu de mulher que Xamã reconheceu como sua mãe. Estudou o rosto jovem, olhou fascinado

a carne proibida, sabendo que dentro daquela barriga, visivelmente grávida, estava o feto que seria ele. Abriu outro volume, de uma época anterior, quando Robert

Judson Cole era jovem, em Boston, recém chegado da Escócia. Havia também o desenho de uma mulher nua, mas desconhecida de Xamã, o rosto indistinto, mas a vulva desenhada

com detalhes clínicos e abaixo a descrição de uma aventura do seu pai com uma mulher, numa pensão.

À medida que lia, Xamã voltou no tempo. Os anos desapareceram, seu corpo regrediu, a terra inverteu seu movimento e os frágeis mistérios e tormentos da infância

reviveram. Era um menino outra vez, lendo livros proibidos na biblioteca, procurando palavras e gravuras que revelavam todas as coisas secretas, vulgares, talvez

maravilhosas que os homens faziam com as mulheres. Xamã levantou-se, trémulo, atento, temendo que o pai entrasse no gabinete e o encontrasse ali.

Sentiu então a vibração da batida da porta dos fundos, anunciando a chegada da sua mãe e, com relutância, Xamã fechou o livro e o guardou na arca.

Durante o jantar disse à mãe que tinha começado a examinar os objetos do pai e ia apanhar uma caixa vazia no sótão para guardar o que havia separado para o irmão.

Entre os dois erguia-se a pergunta. Alex estaria vivo e voltaria para usar aquelas coisas? Mas então Sarah resolveu concordar.

- Ótimo - disse ela, evidentemente aliviada por Xamã estar se encarregando do trabalho.

Naquela noite, sem conseguir dormir, Xamã disse a si mesmo que ler os diários do pai faria dele um voyeur, um intruso na vida dos pais, talvez até mesmo na intimidade

do seu quarto, e resolveu queimar os livros. Mas a lógica dizia que o objetivo do diário era registrar as partes essenciais da vida do pai, e, deitado na cama de

cordas frouxas, tentou

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imaginar qual seria a verdade sobre a vida e a morte de Makwa-ikwa, temendo que a verdade guardasse dolorosos perigos.



Finalmente levantou e, com a lanterna acesa, caminhou pelo corredor silenciosamente para não acordar a mãe.

Aparou o pavio do lampião e pôs a chama no máximo. A luz não era a ideal para ler. O gabinete estava desconfortavelmente frio àquela hora da noite. Mas Xamã apanhou

o primeiro livro, começou a ler e logo se esqueceu da fraca iluminação e do frio, à medida que começava a descobrir mais do que sempre quisera saber sobre seu pai

e sobre si

mesmo.

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Parte 2



TELA NOVA, NOVO QUADRO

11 de março, 1839

O IMIGRANTE

Rob J. Cole viu o Novo Mundo pela primeira vez num dia nublado de primavera, quando o Cormorant - um navio feioso, com três mastros atarracados e vela de mezena,

o orgulho da Linha Black Bali - foi sugado pela maré cheia para dentro do imenso porto e desceu a âncora no mar picado. O leste de Boston não era grande coisa, umas

duas fileiras de casas de madeira mal construídas, mas, num dos píeres, por três pence ele comprou uma passagem num pequeno barco a vapor que, ziguezagueando entre

um número incrível de embarcações, atravessou a baía na direção do cais principal, um amontoado de casas e lojas com o cheiro familiar de peixe podre, porão de navio

e corda alcatroada, como qualquer porto escocês.

Ele era mais alto e mais forte do que a maioria dos outros. Quando entrou na rua sinuosa, calçada de pedras, que saía do porto, mal conseguia andar, cansado da longa

viagem. Levava no ombro esquerdo a mala pesada e, sob o braço direito, um enorme instrumento de cordas como quem carrega uma mulher pela cintura. Rob J. Cole absorvia

a América através dos seus poros. Ruas estreitas, mal dando passagem para as carroças e carruagens. A maioria das casas era de madeira ou de tijolo muito vermelho.

Lojas repletas de mercadorias, com os nomes em grandes letras douradas. Tentou não olhar com muita insistência para as mulheres que entravam e saíam das lojas, embora

precisasse urgentemente, como um viciado precisa da bebida, sentir o cheiro de uma mulher.

Espiou para dentro de um hotel, o American House, mas os candelabros e tapetes persas, indicadores certos de preços altos, o intimidaram. Num restaurante na Union

Street, tomou um prato de sopa de peixe e perguntou a dois garçons onde podia encontrar uma boa pensão limpa e barata.

- Veja se resolve, rapaz, uma coisa ou outra - disse um deles. Mas o outro balançou a cabeça e indicou a pensão da Sra. Burton, em Spring Lane.

O único quarto disponível ficava no sótão, ao lado dos quartos do criado e da criada. Era pequeno, no alto de três lances de escada, um cubículo que devia ser muito

quente no verão e muito frio no inverno. Além da cama estreita, havia uma mesinha com uma bacia rachada, um

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urinol branco, coberto com uma toalha de linho bordada com flores azuis. Café da manhã - mingau de aveia, biscoitos, um ovo de galinha - estava incluído no preço



de um dólar e cinquenta por semana, informou Louise Burton, uma viúva pálida de sessenta e poucos anos, com um olhar muito direto.

- O que é esse objeto?

- Chama-se viola de gambá.

- Ganha a vida como músico?

- Toco para meu prazer. Ganho a vida como médico.

Ela balançou a cabeça numa afirmativa duvidosa. Pediu pagamento adiantado e indicou um lugar barato em Beacon Street, onde ele poderia jantar por um dólar por semana.

Rob J. Cole, exausto, deitou assim que ela saiu do quarto. Dormiu a tarde toda e toda a noite, um sono sem sonhos a não ser pela sensação balouçante de estar ainda

a bordo e acordou na manhã seguinte novo em folha. Desceu para o café e sentou ao lado de outro pensionista, Stanley Finch, que trabalhava numa chapelaria, em Summer

Street. Finch o informou de dois fatos do maior interesse; que poderia conseguir água quente numa pequena banheira, com o porteiro, Lem Raskin, por vinte e cinco

centavos, e que em Boston havia três hospitais, o Massachusetts General, o Albergue e a Enfermaria de Olhos e Ouvidos. Depois do café mergulhou por um longo tempo

num banho abençoado, começando a se lavar só quando a água já estava fria e depois procurou tornar sua roupa o mais apresentável possível. Quando desceu do quarto,

a criada estava de quatro, lavando o patamar da escada. Os braços nus eram sardentos e os glúteos arredondados tremulavam com o vigor com que ela esfregava o chão.

Um rosto de gata zangada ergueu-se para ele e o cabelo sob a touca era da cor de que ele menos gostava, o tom de cenoura molhada.

No Massachusetts General Hospital, depois de esperar metade da manhã, foi recebido pelo Dr. Walter Channing, que, sem perder tempo, tratou de informar que o hospital

não precisava de médicos. Essa experiência repetiu-se rapidamente nos outros hospitais. No Albergue, um jovem médico, chamado David Humphreys Storer, balançou a

cabeça delicadamente.

- A Escola de Medicina de Harvard forma médicos todos os anos, que precisam entrar na fila para conseguir colocação, Dr. Cole. A verdade é que um recém-chegado tem

poucas chances.

Rob J. Cole entendeu o que o Dr. Storer não foi capaz de dizer: alguns dos recém-formados locais tinham a vantagem do prestígio da família e dos bons relacionamentos,

como em Edimburgo ele usufruía da vantagem de pertencer à família de médicos Cole.

- Eu tentaria outra cidade, talvez Providence ou New Haven - disse o Dr. Storer, e Rob J. Cole retirou-se, murmurando um agradecimento. Mas quando já estava no corredor,

o Dr. Storer correu atrás dele.

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- Há uma possibilidade remota - disse o médico. - Procure o Dr. Walter Aldrich.



O Dr. Aldrich tinha um consultório em sua residência, uma casa branca de madeira, muito bem cuidada, no lado sul do parque que parecia uma enorme campina e que eles

chamavam de Common. Era a hora das consultas e Rob J. esperou um longo tempo. O Dr. Aldrich era corpulento, com uma barba espessa e grisalha no meio da qual a boca

aparecia como um corte fino horizontal. Ouviu com atenção o que Rob J. Cole tinha a dizer, interrompendo uma vez ou outra para uma pergunta. Hospital da Universidade

de Edimburgo? Trabalhou com o cirurgião William Fergusson? Por que deixou essa posição privilegiada de assistente?

- Se eu não fugisse, iam me deportar para a Austrália. - Sabia que sua única esperança seria dizer a verdade. - Escrevi um panfleto que provocou uma revolta industrial

contra a coroa inglesa, que há anos vem sugando o sangue da Escócia. Houve brigas nas ruas e mortos também.

- Fez muito bem - concordou o Dr. Aldrich. - Um homem deve lutar pelo bem-estar do seu país. Meu pai e meu avô combateram os ingleses. - Olhou para Rob J. intrigado.

- Temos uma vaga. Num serviço de caridade que presta assistência médica a indigentes.

Parecia um trabalho sujo e pouco auspicioso. O Dr. Aldrich disse que a maioria dos médicos recebia cinquenta dólares por ano e ficava muito feliz com a oportunidade

de adquirir experiência, e Rob perguntou a si mesmo o que um médico de Edimburgo iria aprender num miserável bairro provinciano.

- Se quiser trabalhar para o Dispensário de Boston, posso arranjar para que trabalhe também, à noite, como assistente docente, no laboratório de anatomia da Escola

de Medicina Tremont, ganhando duzentos e cinquenta dólares por ano.

- Duvido que eu possa viver com trezentos dólares, senhor. Não tenho quase nenhum capital.

- É só o que posso oferecer. Na verdade, a renda anual seria de trezentos e cinquenta dólares. Trabalharia no Oitavo Distrito, para o qual o conselho do dispensário

acaba de votar o ordenado de cem dólares para os médicos visitantes, ao invés de cinquenta.

- Por que o Oitavo Distrito paga duas vezes mais do que os outros? Foi a vez do Dr. Aldrich usar de sinceridade.

- É onde moram os irlandeses - disse com um tom de voz tão fino e pálido quanto seus lábios.

Na manhã seguinte, Rob J. subiu os degraus rangentes do número 109 da Washington Street e entrou no apertado depósito de medicamentos que funcionava como o único

escritório do Dispensário de Boston. Estava repleto de médicos à espera da sua lista de visitas. Charles K. Wilson, o gerente, tratou Rob com brusquidão eficiente.

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- Então. Novo médico para o Oitavo Distrito, não é? Muito bem, o bairro está sem atendimento. Eles o esperam - disse ele, estendendo um maço de pequenas folhas



de papel, cada uma com um nome e endereço.

Wilson explicou as regras e descreveu o Oitavo Distrito. Broad Street ficava entre o cais do porto e o vulto enorme de Fort Hill. Quando a cidade era nova, o bairro

foi criado por comerciantes que construíram grandes residências perto dos seus armazéns e lojas no cais. Depois de algum tempo, mudaram-se para ruas melhores e as

casas foram ocupadas por ianques da classe trabalhadora, depois por pobres da cidade, cada casa dividida por várias famílias e finalmente por levas de imigrantes

irlandeses que desembarcavam constantemente dos porões dos navios. A essa altura, as belas casas estavam quase em ruínas, subdivididas e com aluguéis semanais exorbitantes.

Os armazéns foram convertidos em colmeias com pequenos quartos sem luz e sem ar, e o espaço era tão limitado que atrás das casas existentes foram construídos barracos

miseráveis e precários. O resultado era uma favela onde viviam doze pessoas num quarto - mulheres, maridos, irmãos e filhos, dormindo, muitas vezes, numa única cama.

Seguindo a indicação de Wilson, Cole encontrou o Oitavo Distrito. O fedor da Broad Street, os miasmas que exalavam das poucas privadas usadas por muitas pessoas,

era o cheiro da pobreza, o mesmo em todas as cidades do mundo. Algo dentro dele, cansado de ser um estranho, acolheu feliz os rostos irlandeses, por serem, como

ele, de origem celta. Sua primeira visita foi para Patrick Geoghegan, de Half Moon Place. Se o endereço fosse na lua não seria tão difícil de encontrar e logo Cole

viuse perdido num labirinto de vielas estreitas e ruazinhas particulares, sem nome, que saíam de Broad Street. Finalmente deu uma moeda a um garoto de cara suja

que o levou a um pequeno beco apinhado de gente. Mais perguntas o levaram ao andar superior de uma casa, onde, depois de atravessar quartos ocupados por duas ou

três famílias, chegou ao cubículo dos Geoghegan. Uma mulher catava a cabeça de uma criança à luz da vela.

- Patrick Geoghegan?

Só depois de repetir o nome recebeu a resposta, num murmúrio rouco.

- Meu pai... morreu há cinco dias, de febre na cabeça.

Era assim também que os escoceses chamavam qualquer febre alta que precedia a morte.

- Eu sinto muito, senhora - disse ele, em voz baixa, mas a mulher nem levantou a cabeça.

Lá fora outra vez, ele parou e olhou em volta. Sabia que todos os países tinham ruas como aquela, reservadas a existências tão injustamente miseráveis que criavam

as próprias cenas, sons e cheiros; uma criança amarelada, sentada num degrau, mastigava uma fatia de toucinho, como um cão roendo um osso; três pés de sapatos desparelhados

usados

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até o fim enfeitavam a viela suja; uma voz de homem, embriagada, transformava em hino uma canção piegas sobre as colinas verdes de uma terra distante; imprecações



eram gritadas com fervor de preces; o cheiro de repolho cozido suplantava o fedor de bueiros entupidos e de todo tipo de imundície. Ele conhecia os bairros pobres

de Edimburgo e Paisley e a fileira de casas de pedra de muitas cidades, onde adultos e crianças saíam de casa, antes do nascer do sol, para as tecelagens de algodão

e as serrarias, e só voltavam exaustos, depois da chegada da noite, caminhantes eternos da escuridão. Rob J. sentiu a ironia da sua situação. Deixara a Escócia devido

à revolta que sentira contra as forças que formavam lugares como esse, e, agora, o novo país esfregava seu nariz na mesma miséria imunda.

A visita seguinte era para Martin O’Hara, de Humphrey Place, uma área de barracos na encosta de Fort Hill, no alto de uma íngreme escada de madeira. Ao lado da escada

havia uma vala aberta, também de madeira, por onde corria o lixo e o excremento de Humphrey Place, que aumentava a miséria e o fedor de Half Moon Place, logo abaixo.

Apesar da miséria que o rodeava, ele subiu rapidamente, para começar seu trabalho.

Foi um dia exaustivo e no fim da tarde só o esperava uma refeição escassa e apressada e o resto da noite no segundo emprego. O total do que ganhava não dava para

um mês e o dinheiro das suas economias não daria para pagar muitas refeições.

O laboratório de anatomia e a sala de aula da Escola de Medicina de Tremont ocupavam uma única sala ampla, em cima da loja de medicamentos de Thomas Metcalf, no

número 35 de Tremont Place. Era dirigido por um grupo de professores formados em Harvard que, descontentes com o ensino precário da sua alma mater, resolveram criar

um programa de cursos de três anos que, acreditavam, enriqueceria seus conhecimentos médicos.

O professor de patologia com o qual Rob J. ia trabalhar como docente de dissecação era um homenzinho de pernas curvas, uns dez anos mais velho do que ele. Com uma

rápida inclinação da cabeça, ele disse.

- Eu sou Holmes. Tem experiência como docente, Dr. Cole?

- Não, nunca fui docente. Mas tenho experiência em cirurgia e dissecação.

O gesto afirmativo do professor Holmes dizia: veremos. Descreveu sumariamente os preparativos que deviam ser feitos antes da sua aula. A não ser por uns poucos detalhes,

era uma rotina que Rob J. conhecia bem. Ele e Fergusson faziam autópsia todas as manhãs, antes da sua ronda, para pesquisa e para aperfeiçoar sua técnica operatória.

Removeu o lençol que cobria o cadáver de um jovem magro, depois vestiu o longo avental de dissecação e acabava de arrumar os instrumentos quando os alunos chegaram.

Eram apenas sete alunos. O Dr. Holmes ficou de pé na frente de um atril, ao lado da mesa de dissecação.

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- Quando estudei anatomia em Paris - começou ele - qualquer estudante podia comprar um corpo inteiro por cinqüenta sous, num determinado lugar, em plena luz do



dia. Mas hoje, os cadáveres para estudo estão em falta. Este aqui, um jovem que morreu de congestão pulmonar, nos foi enviado pela Diretoria de Caridades do Estado.

Vocês não vão dissecar esta noite. Nas próximas aulas, o corpo será dividido entre vocês, um braço para dois, uma perna para outros dois, e os outros ficam com o

tronco.

Enquanto o Dr. Holmes descrevia o trabalho do docente, Rob J. abriu o peito do jovem, retirando e pesando cada órgão, anunciando o peso com voz clara para que o



professor pudesse anotar. Depois disso, seu trabalho consistia em apontar para certas partes do corpo citadas especialmente pelo professor. Holmes falava em voz

alta e não muito clara, mas Rob percebeu que os alunos davam grande valor às suas aulas. O professor não se esquivava à linguagem pitoresca. Para ilustrar o movimento

do braço, dava murros ferozes no ar. Explicando o mecanismo da perna, deu um pontapé alto, e para mostrar o funcionamento dos quadris, fez uma pequena dança do ventre.

Os estudantes saboreavam cada palavra e cada gesto. No fim da aula, choveram perguntas. Enquanto respondia, o professor observava o novo docente. Rob J. levou o

cadáver e os espécimes anatómicos para o tanque com água salgada, lavou a mesa e depois lavou e enxugou os instrumentos, antes de guardá-los. Estava lavando as mãos




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