Noah Gordon, o xamã



Baixar 2.32 Mb.
Página18/51
Encontro18.09.2019
Tamanho2.32 Mb.
1   ...   14   15   16   17   18   19   20   21   ...   51

sido uma velha bonita, mas seu rosto conservava toda sua dignidade. Rob estremeceu e apertou as mãos uma contra a outra, como uma criança rezando. - Eu sinto tanto,

Makwa - Rob não acreditava que ela pudesse ouvi-lo, mas era um consolo falar com ela. Apanhou a pena, tinta e papel e copiou os sinais cabalísticos dos seios dela,

sentindo que deviam ser importantes. Não sabia se alguém podia decifrá-los, porque Makwa não havia preparado ninguém para assumir o seu lugar, como guardiã dos espíritos

dos sauks, acreditando que ia viver muitos anos ainda. Provavelmente ela esperava que um dos filhos de Lua e Chega Cantando pudesse vir a ser um aprendiz adequado

quando chegasse a hora. Rapidamente, Rob desenhou o rosto dela, como era em vida. Algo terrível tinha acontecido a ele também. Assim como, durante toda a vida, ele

ia sonhar com o estudante de medicina e carrasco, segurando a cabeça decapitada do seu amigo Andrew Gerould de Lanark, ia sonhar com a morte de Makwa. Rob não sabia

dizer do que era feita a amizade, como não sabia do que era feito o amor, mas, de algum modo, aquela mulher índia e ele tinham sido verdadeiros amigos e sua morte

representava uma grande perda. Por um momento, ele esqueceu seu voto de não-violência. Se os homens que tinham feito aquilo estivessem ao seu alcance, ele os teria

esmagado como vermes.

O momento passou. Amarrou um lenço cobrindo o nariz e a boca por causa do mau cheiro. Apanhou o bisturi e, com movimentos rápidos, abriu um grande U, de ombro a

ombro, no corpo sem vida, depois fez uma incisão em linha reta até o umbigo, formando um Y sem nenhum sangue. Seus dedos pareciam insensíveis, obedecendo cegamente

166

às ordens do cérebro. Ainda bem que não estava operando um paciente vivo. Até ele descolar as três partes, o corpo era Makwa. Mas quando apanhou o cortador de costelas,



para liberar o esterno, deliberadamente Rob passou a um outro nível de conscientização, que afastou de sua mente tudo que não se relacionasse com o trabalho específico,

e, entrando na rotina conhecida, começou a fazer o que devia ser feito.

RELATÓRIO DE MORTE VIOLENTA.

Vítima: Makwa-ikwa

Endereço: Fazenda Cole de Criação de Ovelhas, Holden’s Crossing, Illinois.

Ocupação: Assistente, dispensário do Dr. Robert J. Cole.

Idade: Aproximadamente 29 anos.

Altura: 1,75 metro.

Peso: Aproximadamente 63 quilos.

Circunstâncias: Corpo da vítima, uma mulher da tribo sauk, foi descoberto numa parte do bosque da Fazenda Cole de Criação de Ovelhas por um transeunte, no meio da

tarde do dia 3 de setembro de 1851. Havia onze ferimentos de faca, seguindo em linha irregular, da jugular até o esterno, numa posição de aproximadamente dois centímetros

abaixo do apêndice xifóide. Os ferimentos tinham 0,947 a 0,952 centímetro de largura. Foram feitos por um instrumento agudo, provavelmente uma lâmina triangular

de metal, com três gumes muito afiados.

A vítima, que era virgem, foi estuprada. Os remanescentes do hímen indicam que era imperfuratus, e tinha a membrana espessa e sem flexibilidade. Provavelmente o

estuprador não conseguiu penetrá-la com o pênis; a defloracão foi completada com um instrumento sem corte, com arestas pequenas e ásperas, provocando extensa destruição

da vulva, mais profundos arranhões no períneo e nos grandes lábios, e ferindo e arrancando pedaços da entrada da vagina. Antes ou depois desse defloramento, a vítima

foi virada de bruços. As equimoses nas coxas sugerem que foi segura na posição sodomizada, o que indica que os atacantes eram pelo menos dois, e talvez mais. O canal

anal foi alargado e rasgado. Havia uma grande quantidade de esperma no reto, e hemorragia no colo descendente. Outras contusões generalizadas no corpo e na face

sugerem que a vítima foi severamente espancada, provavelmente por punhos de homem.

Há evidência de que a vítima resistiu ao ataque. Debaixo das unhas dos dedos indicador, médio e anular havia pedaços de pele e dois fios de cabelos pretos, talvez

de barba.

As facadas foram bastante violentas, a ponto de lascar a terceira costela e penetrar várias vezes no esterno. O pulmão esquerdo foi atingido duas vezes, e o direito,

três vezes, rasgando a pleura e lacerando o tecido interno. Os dois pulmões devem ter entrado em colapso imediatamente.

167


Três golpes de faca penetraram no coração, dois deles provocando ferimentos na região do átrio direito, de 0,887 centímetro e 0,799 centímetro, de largura, respectivamente.

O terceiro ferimento, no ventrículo direito, tinha 0,803 centímetro de largura. O sangue do coração dilacerado ficou depositado em toda a cavidade abdominal.

Não foi encontrado nada de excepcional nos órgãos, a não ser o trauma. Peso do coração, 263 gramas; do cérebro, 1,43 quilo; fígado, 1,62 quilo; baço, 199 gramas.

Conclusão: Homicídio seguido de estupro, por uma pessoa ou pessoas desconhecidas.

(assinado) Dr. Robert Judson Cole Médico-legista Condado de Rock Island Estado de Illinois.

Naquela noite, Rob J. ficou acordado até tarde, fazendo uma cópia do relatório para o arquivo do condado e outra para Mort London. De manhã, os sauks enterraram

Makwa-ikwa na ribanceira do rio, perto do hedonoso-te. Rob ofereceu o local sem consultar Sarah. Ela ficou furiosa quando soube.

- Na nossa terra? Onde você estava com a cabeça? Uma sepultura é para sempre, ela vai ficar ali eternamente. Nunca nos livraremos dela! - disse Sarah, com desespero.

- Controle sua língua, mulher - disse Rob J., em voz baixa, e Sarah deu meia-volta e afastou-se dele.

Lua lavou Makwa e a vestiu com a túnica de Xamã de pele de gamo. Alden ofereceu-se para fazer um caixão de pinho, mas Lua disse que os sauks enterravam seus mortos

apenas envoltos na sua melhor manta. Então, Alden ajudou Chega Cantando a cavar o túmulo. Lua os fez começar o trabalho de manhã bem cedo. Esse era o costume, disse

ela, a cova aberta de manhã, o enterro à tarde. Disse que os pés de Makwa deviam apontar para o oeste e mandou apanhar no acampamento sauk a cauda de uma fêmea de

búfalo para pôr no túmulo. Isso ajudaria Makwa a atravessar a salvo o rio de espuma que separa a terra dos vivos da Terra no Oeste, ela explicou para Rob J.

O enterro foi uma cerimônia simples. Os índios, os Cole e Jay Geiger, ao lado da cova aberta, esperaram que alguém começasse, mas não havia ninguém, eles não tinham

mais um Xamã. Então Rob viu que os índios olhavam para ele. Se ela fosse cristã, talvez ele cedesse, dizendo algumas coisas nas quais não acreditava. Mas, como esse

não era o caso, a idéia era absurda. De algum lugar veio a lembrança das palavras:

O barco no qual estava sentada, como um tronco brilhante, Cintilava sobre as águas; a proa de ouro batido, Roxas as velas, e tão perfumadas que os ventos

168


Estavam cegos de amor por elas; os remos eram de prata, Que, ao som de flautas, moviam-se ritmadamente, fazendo A água na qual batiam correr mais depressa, Como

que apaixonada por sua carícia. Quanto a ela, Estava acima de qualquer descrição.

Jay Geiger olhou espantado para ele, como se Rob estivesse louco. Cleópatra? Mas compreendeu que, para ele, Makwa tinha uma espécie de majestade sombria, um brilho

régio e sagrado, uma beleza especial. Era melhor do que Cleópatra; Cleópatra não sabia tudo sobre auto-sacrifício, fidelidade e ervas. Ele jamais conheceria outra

igual e John Donne deu a ele outras palavras para atirar no rosto do Cavaleiro Negro:

Morte, não fiques orgulhosa, embora alguns te considerem

Poderosa e assustadora, não és nada disso,

Pois aqueles que pensas que podes destruir

Não morrem, pobre morte, ainda não podes me matar.

Quando se tornou evidente que isso era tudo que ele pretendia dizer, Jay pigarreou e disse algumas frases numa língua que Rob supôs ser hebraico. Por um momento

ele teve medo de que Sarah incluísse Jesus na cerimônia, mas ela era tímida demais para isso. Makwa havia ensinado algumas preces cantadas para os sauks e eles entoaram

uma delas, hesitantes, mas em uníssono.

Tti-la-ye ke-wi-ta-mo-ne i-no-ki,

Tti-la-ye ke-wi-ta-mo-ne i-no-ki-i-i,

Me-ma-ko-te-si-tct

Ke-te-ma-ga-yo-se.

Era uma canção que Makwa cantava sempre para Xamã, e Rob viu o filho movendo os lábios silenciosamente, dizendo as palavras. Quando terminou o canto, a cerimônia

terminou também. E foi tudo.

Mais tarde ele foi à clareira, no bosque, onde tudo tinha acontecido. O solo estava coberto de marcas de patas de cavalos. Rob perguntara a Lua se algum dos sauks

era bom rastreador, mas ela disse que todos os rastreadores estavam mortos. De qualquer modo, os homens de London já tinham estado na clareira e as marcas das suas

botas e dos seus cavalos misturavam-se com as outras. Rob J. sabia o que estava procurando. Encontrou o galho fino de árvore numa moita. Parecia um graveto comum

a não ser pela cor de ferrugem numa das extremidades. O outro pé de sapato estava no meio do mato, no outro lado da clareira, atirado por alguém com bastante força

no braço. Não havia nada mais para ver. Rob

169


embrulhou os dois objetos num pedaço de pano e foi direto para o escritório do xerife.

Mort London aceitou o relatório e os dois objetos sem fazer nenhum comentário e com certa frieza, aborrecido talvez porque seus homens não haviam encontrado o graveto

e o sapato. Rob não se demorou.

Ao lado do escritório do xerife, na varanda do armazém geral, Julian Howard o chamou.

- Tenho uma coisa para você - disse Howard, começando a procurar nos bolsos. Rob ouviu o tilintar de moedas grandes e Howard estendeu para ele um dólar de prata.

- Não tem pressa, Sr, Howard.

Mas Howard continuou com a mão estendida.

- Eu pago minhas dívidas - disse ele, carrancudo, e Rob apanhou a moeda, sem mencionar que faltavam cinquenta centavos dos medicamentos que tinha deixado para a

doente. Howard já tinha dado as costas sem se despedir.

- Como está sua mulher? - perguntou Rob.

- Muito melhor. Ela não precisa de você.

Boas novas, pensou Rob, pois o livraram de uma viagem longa e penosa. Foi então para a fazenda dos Schroeder e encontrou Alma ocupada com a faxina de outono. Evidentemente

não tinha nenhuma costela quebrada. Em seguida, visitou Donny Baker. O garoto estava ainda febril, e, pela aparência do pé, Rob não podia ainda fazer um prognóstico.

Trocou o curativo e deu láudano para a dor.

A partir desse momento, a manhã, que tinha começado sombria e tristonha, foi piorando. Sua última parada foi na fazenda de Gilbert, onde encontrou Fletcher White

em péssimo estado, com os olhos cegos e sem brilho, o corpo magro sacudido pela tosse, a respiração uma tortura. - Ele estava melhor - murmurou Suzy Gilbert. Rob

sabia que Suzy tinha muitos filhos e trabalhava arduamente em casa. Tinha interrompido a inalação de vapor de água e as bebidas quentes cedo demais e Rob teve vontade

de gritar com ela e sacudi-la pelos ombros. Mas, ao segurar as mãos de Fletcher, viu que o homem tinha pouco tempo de vida e a última coisa que Rob desejava era

fazer com que Suzy pensasse que o pai tinha morrido por sua culpa. Deu a ela o tónico poderoso de Makwa para aliviar o sofrimento de Fletcher. Seu estoque de tónico

estava no fim. Rob vira Makwa preparar o medicamento várias vezes e sabia quais eram os ingredientes. Precisava fazer mais.

Rob tinha programado passar a tarde no dispensário, mas quando chegou em casa encontrou um caos. Sarah estava muito pálida. Lua, que não tinha derramado uma lágrima

no enterro de Makwa, chorava copiosamente. As crianças estavam apavoradas. Mort London, Fritz Granam, seu assistente, e Otto Pfersick, nomeado assistente para a

ocasião, tinham chegado quando Rob estava fora. Sob a mira dos rifles, Mort deu ordem de prisão a Chega Cantando. Com as mãos atadas atrás das

170


costas e uma corda em volta do corpo, amarrada na sela de um dos cavalos, eles o levaram como se fosse um animal.

29

OS ÚLTIMOS ÍNDIOS DE ILLINOIS



- Está cometendo um erro, Mort - disse Rob.

Embora visivelmente constrangido, Mort balançou a cabeça.

- Não. Nós achamos que é quase certo que o filho da mãe a matou. Algumas horas antes, quando Rob passou por seu escritório, Mort

não comentara nada sobre sua intenção de ir à casa do médico para prender um dos seus empregados. Algo estava errado. O problema de Chega Cantando era como uma doença

de etiologia desconhecida. Notou que Mort disse “nós”. Rob sabia quem eram “nós” e compreendeu que Nick Holden pretendia tirar alguma vantagem política com a morte

de Makwaikwa. Mas Rob procurou controlar a fúria.

- Um grave erro, Mort.

- Uma testemunha viu o índio grande na clareira onde o corpo foi encontrado, um pouco antes do crime.

Não havia nada de estranho nisso, disse Rob, uma vez que Chega Cantando era um dos seus empregados e o bosque estava dentro de suas terras.

- Eu quero pagar a fiança.

- Não pode haver fiança. Precisamos esperar a chegada de um juiz itinerante de Rock Island.

- Quanto tempo vai demorar? London deu de ombros.

- Uma das boas coisas que herdamos dos ingleses é o código penal. Precisamos agir de acordo com ele aqui.

- Não posso apressar um juiz por causa de um índio. Cinco, seis dias. Talvez uma semana.

- Eu quero falar com Chega Cantando.

London o levou até as duas celas do escritório do xerife. Os assistentes estavam sentados no corredor escuro, entre as celas, com os rifles no colo. Fritz Graham

parecia estar se divertindo a valer. Otto, por sua vez, tudo que queria era estar no seu moinho, fazendo farinha. Uma das celas estava vazia. A outra estava lotada

com o imenso Chega Cantando.

- Desamarre o homem - disse Rob secamente.

171
London hesitou. Rob percebeu que eles tinham medo de chegar perto do prisioneiro. Chega Cantando tinha uma contusão no olho direito (uma coronhada?). Seu tamanho

bastava para intimidar qualquer um.

- Deixe-me entrar na cela. Eu mesmo o desamarro. London abriu a cela e Rob J. entrou sozinho.

- Pyawanegawa - disse ele, pondo a mão no ombro de Chega Cantando, chamando-o pelo nome índio.

Tentou desatar a corda que prendia as mãos de Chega Cantando, mas o nó estava cruelmente apertado.

- Preciso cortar - disse para London. - Me dê sua faca.

- Uma ova que eu dou.

- Uma tesoura, na minha maleta.

- Também é uma arma - resmungou London, mas deixou que Graham apanhasse a tesoura e Rob J. cortou a corda. Esfregou os pulsos de Chega Cantando, olhando-o nos olhos,

falando como falava com o

filho surdo.

- Cawso wabeskiou vai ajudar Pyawanegawa. Somos irmãos da mesma Metade, dos Cabelos Longos, os keeso-qui.

Ignorou a surpresa desdenhosa dos brancos no outro lado das grades. Não sabia se Chega Cantando havia entendido tudo, mas percebeu uma leve mudança nos olhos negros

e inexpressivos, algo que não podia definir com certeza, que podia ser fúria ou o renascer da esperança.

Naquela tarde, ele levou Lua para ver o marido. Ela serviu de intérprete no interrogatório.

Chega Cantando parecia surpreso com as perguntas.

Admitiu imediatamente sua presença na clareira naquela manhã. Estava apanhando lenha para o inverno, disse ele, olhando para o homem que o pagava para fazer aquele

serviço. E estava procurando bordos de açúcar, memorizando a localização das árvores, para retirar a seiva na

primavera.

- Ele morava na mesma casa que a mulher morta, observou

London.


- Sim.

- Alguma vez teve relações sexuais com ela?

Lua hesitou, antes de traduzir. Rob J. olhou furioso para London, mas tocou no braço dela, fez um gesto afirmativo e Lua transmitiu a pergunta para o marido. Chega

Cantando respondeu imediatamente, sem parecer zangado.

- Não, nunca.

Terminado o interrogatório, Rob J. voltou com Mort London para o escritório do xerife.

- Pode me dizer por que prendeu este homem?

172


- Eu já disse. Uma testemunha o viu na clareira um pouco antes do crime.

- Quem é a sua testemunha?

- ... Julian Howard.

Rob perguntou a si mesmo o que Julian Howard estaria fazendo em suas terras. Lembrou do tilintar das moedas quando Howard pagou a consulta que devia.

- Vocês pagaram Howard para dizer isso. - Era uma afirmação, não uma pergunta.

- Foi ou não. Não - disse London, corando intensamente, mas ele era um vilão amador, não tinha prática na arte de fingir que estava ofendido na sua honra.

Nick devia ter se encarregado da recompensa, além de bajular Julian, garantindo que ele era um santo, apenas cumprindo seu dever.

- Chega Cantando estava onde devia estar, trabalhando na minha propriedade. Você podia me prender também como dono da terra onde Makwa foi assassinada, ou Jay Geiger

por encontrar o corpo.

- Se não foi o índio, vamos saber no julgamento. Ele vivia com a mulher...

- Ela era uma Xamã. O mesmo que um pastor cristão. O fato de morarem na mesma casa proibia o sexo entre eles, eram como irmãos.

- Pastores cristãos já foram assassinados. E já transaram com suas irmãs.

Rob J. dirigiu-se para a porta, enojado, mas parou e disse.

- Não é tarde para esclarecer as coisas, Mort. O posto de xerife é apenas um maldito emprego, você pode sobreviver sem ele. Acho que você é um homem bom. Mas se

fizer uma coisa dessas uma vez, vai ficar mais fácil fazer outras e outras vezes.

Foi um erro. Mort podia viver com o fato de toda a cidade saber que estava no bolso de Nick Holden, desde que ninguém jogasse isso no seu rosto.

- Eu li aquela porcaria que você chama de relatório da autópsia, Dr. Cole. Vai ter muito trabalho para convencer um juiz e um júri de seis bons homens brancos de

que aquela mulher era virgem. Uma índia bonita, na idade dela, e todos sabem que era sua mulher. Você tem coragem, pregando moral. Agora, dê o fora daqui. E não

pense em voltar a não ser que tenha alguma informação oficial.

Lua disse que Chega Cantando estava assustado.

- Não acredito que façam algum mal a ele - disse Rob J.

Ela disse que o marido não tinha medo de ser maltratado fisicamente.

- Mas ele sabe que os brancos, às vezes, enforcam as pessoas. Se um sauk morrer enforcado, não pode atravessar o rio de espuma, nunca poderá entrar na Terra do Oeste.

173


- Ninguém vai enforcar Chega Cantando - disse Rob J., irritado. - Eles não têm nenhuma prova concreta. É só uma manobra política, e dentro de alguns dias terão

de libertá-lo.

Mas o medo de Lua contagiava. Nick Holden era o único advogado de Holden’s Crossing. Havia outros em Rock Island, mas Rob não conhecia nenhum pessoalmente. Na manhã

seguinte, atendeu os pacientes que precisavam de cuidados imediatos e depois dirigiu-se à sede do município. Havia mais gente na sala de espera do senador Stephen

Hume do que Rob costumava ver no seu dispensário. Teve de esperar quase noventa minutos para ser atendido.

Hume o ouviu atentamente.

- Por que veio me procurar? - perguntou.

- Porque é candidato à reeleição e seu oponente é Nick Holden. Por algum motivo que eu ainda não entendi, Nick está procurando criar problemas para os sauks em geral

e para Chega Cantando em particular.

Hume suspirou.

- Nick está andando com gente da pesada, e eu não posso arriscar a minha candidatura. O partido americano está incutindo nos trabalhadores sentimentos de medo e

ódio contra os imigrantes e os católicos. Eles mantêm uma central clandestina em cada cidade com um buraco na porta para evitar a entrada dos que não pertencem ao

partido. O povo o chama de Partido dos que Não Sabem de Nada porque são treinados para não revelar coisa alguma sobre suas atividades. Promovem e usam a violência

contra os estrangeiros, e tenho de admitir, embora envergonhado, que estão dominando politicamente o país. Os imigrantes continuam a chegar em grande quantidade,

mas no momento setenta por cento dos habitantes de Illinois são nascidos aqui, e os outros trinta por cento não são cidadãos e não votam. No ano passado, os Não

Sabem de Nada quase elegeram o governador de Nova York e elegeram quarenta e nove deputados. Uma aliança do partido liberal com os Não Sabem de Nada dominou a eleição

na Pensilvânia e no Delaware, e Cincinnati votou em peso com eles depois de uma luta ferrenha.

- Mas por que Nick está perseguindo os sauks? Eles não são estrangeiros!

Hume sorriu com amargor.

- Provavelmente os instintos políticos de Nick são bem fundamentados. Dezenove anos atrás, os brancos estavam sendo massacrados pelos índios nesta região, e retribuindo

na mesma moeda. Muita gente morreu na guerra contra Falcão Negro. Dezenove anos é pouco tempo. Muitos dos que eram garotos ainda e sobreviveram aos ataques e ao

medo dos índios, hoje são eleitores e ainda odeiam e temem os índios. Portanto, meu honrado oponente está atiçando as brasas. Uma noite, em Rock Island, ele pagou

uísque para muita gente e depois recapitulou as guerras contra os índios, sem esquecer um único escalpo ou suposto ato de depravação. Então referiu-se aos últimos

índios de Illinois, sedentos de

174

sangue, que estão sob sua proteção, na sua cidade, e prometeu que, quando for eleito senador dos Estados Unidos, fará com que todos voltem para a reserva do Kansas,



que é o lugar deles.

- O senhor pode fazer alguma coisa para ajudar os sauks?

- Fazer alguma coisa? - Hume suspirou outra vez. - Dr. Cole, sou um político. Os índios não votam, portanto não vou tomar uma posição pública a favor deles, individual

ou coletivamente. Mas politicamente, posso me beneficiar se conseguir anular essa coisa porque meu oponente está fazendo uso dela para ganhar o meu lugar.

- Os dois juizes do tribunal itinerante deste distrito são o meritíssimo Daniel P. Allan e o meritíssimo Edwin Jordan. O juiz Jordan é mesquinho e partidário dos

liberais. Dan Allan é um ótimo juiz e um excelente democrata. Eu o conheço e trabalhei com ele durante muito tempo e, se ele presidir o julgamento deste caso, não

permitirá que Nick Holden o transforme num carnaval para condenar seu amigo sauk sem provas concretas e para ajudar a eleição de Nick. Não tenho meios para saber

qual dos dois vai ser designado para julgar o caso. Se for Allan, ele será justo, mas apenas justo.

- Nenhum advogado da cidade vai querer defender um índio, essa é a verdade. O melhor advogado que temos é um jovem chamado John Kurland. Vou conversar com ele, ver

se consigo convencê-lo.

- Eu agradeço muito, senador.

- Bem, pode demonstrar sua gratidão com seu voto.

- Faço parte dos trinta por cento. Já pedi minha naturalização, mas tenho de esperar três anos...

- Então poderá votar nas próximas eleições - disse Hume, com espírito prático. Apertou a mão de Rob com um largo sorriso. - Enquanto isso, vá convencendo seus amigos.

A cidade não ia se interessar durante muito tempo pela morte de uma índia. Era mais importante a anunciada inauguração da Academia de Holden’s Crossing. Todos estariam

dispostos a ceder uma parte das suas terras para a construção de uma escola, garantindo assim o acesso dos próprios filhos, mas ficou decidido que a instituição

devia ficar num ponto central, e finalmente o conselho da cidade aceitou três acres de Nick Holden, para grande satisfação dele, pois o local escolhido era o mesmo




1   ...   14   15   16   17   18   19   20   21   ...   51


©aneste.org 2017
enviar mensagem

    Página principal