Noah Gordon, o xamã



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Herbert continha uma informação temida mas não inesperada, pois quando Rob saiu da Escócia sabia que a vida da mãe estava no fim. Ela morreu três meses depois da

sua partida, escreveu Herbert, e foi sepultada ao lado do seu pai, no “novo cemitério” coberto de musgo do kirk, em Kilmarnock. O irmão do seu pai, Roland, morreu

no ano seguinte.

Herbert dizia que tinha aumentado o rebanho e construído um novo celeiro com pedra retirada da base do rochedo. Mencionava tudo isso com certa cautela, satisfeito

por contar ao irmão que estava indo bem, mas ao mesmo tempo evitando qualquer sugestão de prosperidade. Provavelmente, às vezes Herbert temia que ele voltasse para

a Escócia, deduziu Rob. A terra pertencia por direito a Rob J., o filho mais velho. Na noite anterior à sua fuga, para assombro e satisfação de Herbert, que adorava

a criação de ovelhas, ele passou o título de propriedade para o irmão.

Herbert contava que estava casado com Alice Broome, filha de John Broome, juiz da Exposição de Ovelhas em Kilmarnock, e de sua mulher, Elsa, da família dos McLarkin.

Rob lembrava-se vagamente de Alice Broome, uma jovem magra, de cabelo cor-de-rato, que levava a mão à boca sempre que ria porque tinha os dentes muito grandes. Ela

e Herbert tinham três filhas, mas Alice estava grávida e dessa vez Herbert esperava que fosse um filho, pois o rebanho estava crescendo e ele precisava de ajuda.

Uma vez que a situação política se acalmou, você não está pensando em voltar para casa?

Rob podia sentir a tensão na letra apertada de Herbert, a vergonha, a incerteza, a apreensão. Escreveu imediatamente uma resposta para eliminar os temores do irmão.

Não voltaria à Escócia, escreveu ele, a não ser para uma visita, algum dia, quando estivesse rico e aposentado. Enviava seu amor para a cunhada e para as sobrinhas

e elogiou Herbert

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pelo sucesso. Era evidente, escreveu ele, que a fazenda dos Cole estava em boas mãos.

Quando terminou, saiu e caminhou pela trilha na margem do rio, até a pilha de pedras que marcava o fim da sua propriedade e o começo das terras de Jay. Sabia que

nunca ia sair dali. Illinois o tinha conquistado, apesar das chuvas de granizo, dos tornados destruidores e dos extremos de temperatura. Ou talvez por causa de tudo

isso e de muito mais.

A terra da fazenda dos Cole era muito melhor do que a de Kilmarnock, terra preta em grande profundidade, tinha mais água, relva mais viçosa para o pasto. Rob já

se sentia responsável por ela. Sabia de cor todos os cheiros e sons, amava as manhãs quentes de verão quando o vento fazia murmurar a relva alta e o abraço brutal

e gelado do inverno cheio de neve. Era realmente sua terra.

Alguns dias depois, foi a Rock Island para a reunião da Sociedade de Medicina e passou pela prefeitura onde preencheu o formulário de naturalização.

Roger Murray, o funcionário encarregado, leu o formulário com

atenção.


- Só daqui a três anos, o senhor sabe, doutor, poderá ser cidadão.

Rob J. fez um gesto afirmativo.

- Eu posso esperar. Não vou a lugar nenhum - disse ele.

Quanto mais Tom Beckermann bebia, mais desequilibrado ficava o atendimento médico em Holden’s Crossing, o peso maior recaindo todo nas costas de Rob J., que amaldiçoava

o vício de Beckermann, desejando que aparecesse outro médico na cidade. Stephen Hume e Billy Rogers agravaram essa situação ao contarem a quem quisesse ouvir que

o Dr. Rob J. Cole fora o único médico que dissera a Samuel Singleton a gravidade da sua condição. Se Samuel tivesse dado ouvidos a Cole, diziam eles, o senador poderia

estar aqui hoje. A lenda de Rob J. crescia e novos pacientes o procuravam.

Rob esforçava-se para passar algum tempo com Sarah e os meninos. Estava admirado com Xamã. Era como uma planta que, depois de ter o crescimento ameaçado, reagia

como uma explosão de vitalidade, com brotos verdes por todo o lado. Xamã se desenvolvia a olhos vistos. Sarah, Alex, os sauks, Alden, todos que moravam nas terras

dos Cole praticavam fiel e longamente com ele a leitura dos lábios - na verdade, quase com histeria, tamanho o alívio que sentiam com o fim do seu silêncio - e quando

Xamã começou a falar, ele falava e falava. Tinha aprendido a ler um ano antes de ficar doente e agora era um apaixonado dos livros.

Sarah ensinava aos filhos o que sabia, mas tinha estudado apenas até o sexto ano da escola rural e conhecia as próprias limitações. Rob J. ensinava latim e aritmética.

Alex ia muito bem, era inteligente e estudioso.

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Mas foi Xamã quem brilhou com a facilidade com que aprendia tudo. Rob sentia o coração apertado vendo o brilhantismo natural do filho.

- Ele teria sido um médico e tanto - Rob disse para Jay, tristemente, naquela tarde, os dois sentados no lado da sombra, na casa de Geiger, tomando gengibre com

água. Confessou a Jay que era inato nos Cole o desejo de que o primeiro filho fosse médico.

Jay assentiu, compreensivo.

- Bem, você tem Alex. É um garoto muito bom. Rob J. balançou a cabeça.

- É uma coisa terrível, Xamã, que nunca será médico porque não pode ouvir, é o único que gosta de me acompanhar nas minhas visitas médicas. Alex, que pode ser o

que quiser, quando crescer, prefere andar atrás de Alden Kimball, como uma sombra. Prefere ver Alden fazer cercas ou lancetar o testículo inflamado de um carneiro

do que ver qualquer coisa que eu faço.

Jay sorriu.

- E você também não preferia, na idade dele? Bem, talvez os irmãos tomem conta da fazenda, juntos. Os dois são ótimos.

Lillian estava estudando o Concerto 23 para Piano, de Mozart. Ela era muito rigorosa com o dedilhado e chegava a irritar toda vez que repetia a mesma frase musical

até conseguir o colorido e a expressão corretos. Mas quando ficava satisfeita e tocava desinibidamente, era uma música especial. O piano Babcock tinha chegado quase

perfeito, a não ser por um extenso e não muito profundo arranhão, de origem desconhecida, que desfigurava a perfeição de uma das pernas elegantes de nogueira polida.

Lillian chorou quando viu a pequena avaria, mas Jay disse que nunca seria consertada para que seus netos soubessem o quanto eles tinham viajado para chegar aonde

estavam.

A Primeira Igreja de Holden’s Crossing foi consagrada no fim de junho, de modo que a inauguração quase coincidiu com o Quatro de Julho. O senador Hume e Nick Holden,

candidato ao cargo de Hume, discursaram na inauguração. Rob J. achou que Hume estava muito à vontade e descontraído, ao passo que Nick parecia desesperado, sabendo

que estava muito atrás na corrida.

No domingo depois do feriado, o primeiro de uma série de serviços religiosos conduzidos por pregadores visitantes, Sarah disse a Rob J. que estava nervosa e ele

compreendeu que ela pensava no pregador batista do Grande Despertar que pedia a condenação ao inferno de todas as mulheres que conceberam filhos ilegítimos. Ela

preferia um pastor menos severo, como o Sr. Arthur Johnson, o metodista que ministrara seu casamento. Mas a escolha do pastor seria feita por toda a congregação.

Assim, durante todo o verão, pregadores de todos os tipos visitaram

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Holden’s Crossing. Rob compareceu a vários serviços religiosos, para dar apoio a Sarah, mas, sempre que podia, ficava em casa.



Em agosto, um impresso pregado na porta do armazém-geral anunciava a visita de um tal Ellwood R. Patterson, que faria uma palestra intitulada “A onda que ameaça

o cristianismo”, na igreja, no sábado dia 2 de setembro, às 7 horas da noite, e, depois, conduziria o serviço religioso e faria o sermão de domingo.

No sábado de manhã, um homem apareceu no dispensário de Rob J. Esperou pacientemente na saleta enquanto Rob tratava o dedo médio da mão direita de Charley Haskins,

que tinha ficado preso entre duas toras de madeira. Charley tinha vinte anos, era filho do dono do armazém e lenhador por profissão. Estava sentindo muita dor e

censurava o seu descuido que provocara o acidente, mas era um jovem descontraído e irreverente, sempre de bom humor.

- Então, doutor. Isso vai me impedir de casar?

- Logo vai poder usar o dedo muito bem, como antes - disse Rob, secamente. - A unha vai cair, mas nasce outra vez. Agora dê o fora. E volte daqui a três dias para

mudar o curativo.

Rindo, ele levou Charley até a porta e chamou o homem que estava na sala de espera, que se apresentou como Ellwood Patterson. O pastor visitante, lembrou Rob. Ellwood

devia ter uns quarenta anos, com excesso de peso, corpo ereto, rosto largo e arrogante, cabelo negro longo, corado e pequenas veias salientes no nariz e nas faces.

O Sr. Patterson disse que sofria de espinhas. Quando ele tirou a camisa, Rob J. viu marcas escuras, cicatrizes de espinhas no meio das feridas abertas, erupções

purulentas, vesículas escamosas e granuladas e tumores moles gomosos.

Olhou para o homem com simpatia.

- O senhor sabe que tem uma doença?

- Disseram que é sífilis. Alguém no bar disse que o senhor é um médico especial. Então pensei em consultá-lo para ver se pode fazer alguma coisa.

Três anos atrás, ele tivera relações ao modo francês com uma prostituta. Logo depois apareceu uma úlcera sifilítica e uma inchação atrás

dos testículos, contou ele.

- Eu fui falar com a mulher. Ela não vai passar sífilis para mais

ninguém.

Alguns meses depois foi acometido de febre e feridas cor-de-cobre no corpo, bem como dores fortes nas juntas e dores de cabeça. Todos os sintomas desapareceram sem

nenhum tratamento e ele pensou que estava curado, mas então começaram a aparecer as feridas e caroços.

Rob escreveu o nome dele numa papeleta e a anotação “sífilis

terciária”.

- De onde o senhor é?

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- ... Chicago. - Mas ele hesitou o tempo suficiente para Rob pensar que estava mentindo. Não tinha importância.



- Não tem cura, Sr. Patterson.

- Sei... E o que acontece comigo agora? Não era caso para esconder informação.

- Se infectar seu coração, o senhor morre. Se chegar ao cérebro, fica louco. Se penetrar nos ossos ou nas juntas, ficará aleijado. Mas geralmente nenhuma dessas

coisas horríveis acontece. Às vezes, os sintomas simplesmente desaparecem e nunca mais voltam. O que tem a fazer é esperar e acreditar que o senhor é um dos felizardos.

Patterson riu com amargura.

- Por enquanto, as feridas não são visíveis quando estou vestido. Pode me dar alguma coisa para evitar que apareçam no rosto e no pescoço? Eu levo uma vida pública.

- Posso lhe vender uma pomada. Não sei se vai adiantar para esse tipo de ferida - disse Rob gentilmente e o Sr. Patterson, com um gesto afirmativo, apanhou a camisa.

Na manhã seguinte, um garoto descalço, com uma calça rasgada, chegou montado numa mula, logo depois do nascer do dia, e pediu, por favor, senhor, sua mãe estava

passando mal e será que o doutor podia ter a bondade de ir até sua casa? Era Malcolm Howard, filho mais velho de uma família que tinha chegado da Louisiana há poucos

meses, instalando-se nas terras baixas, dez quilômetros rio abaixo. Rob selou Vicky e seguiu a mula por caminhos difíceis até uma cabana um pouco melhor do que o

galinheiro pegado a ela. Dentro ele encontrou Mollie Howard na cama, e o marido, Julian, e os filhos em volta. A mulher estava com um acesso de malária, mas Rob

viu que não era grave e algumas palavras de encorajamento e uma dose de quinino aliviaram a preocupação da doente e da família.

Julian Howard não deu nem sinal de que pretendia pagar e Rob também não cobrou, vendo o pouco que eles tinham. Howard saiu da casa com ele e começou a comentar a

atuação do seu senador dos Estados Unidos, Stephen A. Douglas, que tinha conseguido a aprovação do Congresso para a Lei Kansas-Nebraska que estabelecia a criação

de dois novos territórios no oeste. O projeto de lei de Douglas propunha que ficasse a cargo das legislaturas territoriais decidir se as duas áreas deviam ou não

adotar a escravidão e, por isso, a opinião pública, no norte, estava combatendo a lei com unhas e dentes.

- Aqueles malditos nortistas, o que eles sabem sobre os negros? Alguns de nós, fazendeiros, estamos fundando uma organização para convencer o povo de Illinois a

permitir que um homem tenha escravos. Talvez o senhor queira se juntar a nós? Aquela gente de pele escura foi feita para trabalhar nos campos dos brancos. Eu soube

que muitos de

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vocês por aqui têm alguns negros vermelhos trabalhando nos seus

campos.


- Eles são sauks, não escravos. Recebem salário. Eu não sou a favor da escravidão.

Os dois homens entreolharam-se. Howard corou e ficou calado, sem dúvida constrangido por ter procurado dar uma lição ao médico arrogante que não cobrou seus serviços.

Quanto a Rob, ficou satisfeito por

poder ir embora.

Deixou mais quinino com ele e voltou para casa, mas, quando chegou, encontrou Gus Schroeder esperando-o, em pânico, porque Alma, quando estava limpando a cocheira,

descuidadamente ficou entre a parede e o grande touro malhado do qual tanto se orgulhavam. O touro a empurrou com o focinho, derrubando-a, no momento em que Gus

entrou no celeiro.

- Então aquela coisa amaldiçoada não quis mais sair do lugar. Ficou lá, em cima dela, abaixando os chifres, até eu ter de pegar o forcado e tirar ele de lá à força.

Ela diz que não está gravemente ferida, mas você

conhece Alma.

Assim, antes de tomar o café da manhã, ele foi para a casa dos Schroeder. Alma estava bem, embora pálida e abalada. Encolheu-se de dor quando Rob apalpou a quinta

e a sexta costelas do lado direito, e ele preferiu não correr o risco de não imobilizar as costelas. Sabia o quanto a mortificava despir-se na frente dele e pediu

para Gus cuidar do seu cavalo, para que o marido não fosse testemunha da sua humilhação. Mandou que ela segurasse os seios grandes e caídos, com veias azuis, conversando

o tempo todo sobre ovelhas e trigo e sua mulher e seus filhos. Quando terminou, ela sorriu timidamente para ele e foi para a cozinha fazer

café para os três.

Gus contou que a “palestra” de Ellwood, no sábado, tinha sido um discurso muito mal disfarçado a favor de Nick Holden e do partido

americano.

- Todos estão comentando que ele veio a mando de Nick.

Segundo Patterson, “A onda que ameaça o cristianismo” eram os imigrantes católicos nos Estados Unidos. Os Schroeder estiveram ausentes da igreja pela primeira vez

naquela manhã. Alma e Gus eram luteranos, mas ficaram fartos de Patterson com sua palestra. Ele disse que os estrangeiros - e isso se aplicava aos Schroeder - estavam

roubando o pão dos trabalhadores americanos. Achava que o período de três anos exigido para a naturalização devia ser aumentado para vinte e um anos.

Rob J. sorriu.

- Eu não gostaria de esperar tanto tempo - disse ele.

Mas os três tinham o que fazer no domingo e ele agradeceu a Alma pelo café e se despediu. Rob tinha de percorrer oito quilómetros rio acima para atender o velho

sogro de John Ashe Gilbert, Fletcher White, que estava de cama, com um resfriado muito forte. White tinha oitenta

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e três anos, mas era um homem forte, que havia superado problemas brônquicos antes e Rob J. tinha certeza de que ele iria superá-los outra vez. Tinha dito à filha

de Fletcher, Suzy, para dar bebidas quentes para o pai e ferver água numa chaleira, para Fletcher aspirar o vapor. Rob J. o visitava talvez mais do que era necessário,

mas dava um valor especial aos pacientes idosos, pois eram poucos. Os pioneiros, de um modo geral, eram homens jovens e fortes que deixavam os velhos para trás quando

iam para o oeste, e eram raros os velhos que faziam a viagem.

Fletcher estava muito melhor. Suzy Gilbert ofereceu a Rob um almoço de galo silvestre frito e panquecas de batata e pediu a ele para passar na casa dos seus vizinhos,

os Baker, porque um dos filhos precisava lancetar um dedo do pé inflamado. Rob encontrou Donny Baker, dezenove anos, muito mal, febril e sentindo dores intensas

devido a uma grave infecção. Metade da sola do pé estava quase negra. Rob amputou dois dedos, lancetou o pé e pôs um dreno, mas duvidava que o pé pudesse ser salvo.

Além disso, tivera muitos casos em que só a amputação do pé não bastava para conter a infecção.

A tarde estava no fim quando Rob começou a voltar para casa. No meio do caminho alguém o chamou e Rob puxou as rédeas de Vicky para que Mort London pudesse alcançá-lo

com seu cavalo de peito largo.

- Xerife.

- Doutor, eu... - Mort tirou o chapéu e, irritado, bateu com a mão numa mosca importuna. Suspirou - Uma coisa danada. Acho que precisamos de um legista.

Rob estava irritado também. As panquecas de Suzy pesavam no seu estômago. Se Calvin Baker tivesse falado com ele há uma semana, poderia ter tratado o dedo de Donny

Baker sem problemas. Agora, ia haver muitos problemas, talvez uma tragédia. Estava imaginando quantos dos seus pacientes estariam correndo perigo sem que ele soubesse

e tinha resolvido visitar pelo menos três antes da noite.

Acho melhor chamar Beckermann - disse ele. - Tenho muito que fazer hoje.

O xerife voltou-se para ele, com o chapéu na mão.

- Bem, acho que vai querer fazer esta, Dr. Cole.

- Um dos meus pacientes? - Começou a examinar mentalmente a lista de possibilidades.

- A mulher sauk. Rob J. olhou para ele.

- A mulher índia que trabalha para o senhor - disse London.

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A PRISÃO


Rob disse a si mesmo que era Lua. Não que Lua fosse menos importante ou que não gostasse dela ou que não desse valor a ela, mas só duas mulheres sauks trabalhavam

para ele, e se não era Lua, a alternativa era inconcebível.

- Aquela que o ajuda a tratar dos doentes - disse Mort London. - Apunhalada - continuou ele - uma porção de vezes. Quem a matou, a espancou muito antes. As roupas

foram arrancadas e rasgadas. Acho que foi estuprada.

Cavalgaram em silêncio por algum tempo.

- Deve ter sido mais de um. Uma porção de marcas de patas de cavalos na clareira em que foi encontrada - disse o xerife. Então ele se calou e eles seguiram o caminho.

Quando chegaram à fazenda, já haviam levado Makwa para o dispensário. Do lado de fora estavam Sarah, Alex, Xamã, Jay Geiger, Lua e Chega Cantando e seus filhos.

Os índios não estavam lamentando em voz alta, mas seus olhos falavam de dor e da inutilidade da vida. Rob J. foi até Sarah, que chorava mansamente, e a beijou.

Jay Geiger levou Rob para longe dos outros.

- Eu a encontrei. - Balançou a cabeça, como para espantar um inseto. - Lillian me pediu para levar umas conservas para Sarah. De repente, eu vi Xamã dormindo sob

uma árvore.

Rob J. ficou chocado.

- Xamã estava lá? Ele viu Makwa?

- Não, não viu, Sarah disse que Makwa o apanhou, de manhã, para colher ervas no’bosque, como fazia às vezes. Quando ele se cansou, ela o deixou dormir na sombra

da árvore. E você sabe que nenhum barulho, grito ou outra coisa qualquer poderia acordar Xamã. Imaginei que ele não devia estar sozinho, por isso eu o deixei dormindo

e segui em frente, para a clareira. Então a encontrei...

- Foi uma cena horrível, Rob. Precisei de alguns minutos para me refazer do choque. Voltei e acordei Xamã. Mas ele não viu nada. Então eu o trouxe para cá e depois

fui chamar London.

- Parece que você está sempre trazendo meu filho para casa. Jay olhou atentamente para ele.

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- Você está bem?

Rob fez um gesto afirmativo.

Jay estava pálido e parecia muito abalado.

- Acho que você tem muito que fazer. Os sauks querem limpar Makwa para enterrar.

- Mantenha todos afastados, por algum tempo - disse Rob J. entrando sozinho no dispensário e fechando a porta.

Ela estava coberta com um lençol. Não fora deixada ali por Jay nem por nenhum dos sauks. Provavelmente dois ajudantes de London, porque a tinham jogado, quase descuidadamente,

na mesa de dissecação, de lado, como um objeto inanimado e sem valor, um tronco de madeira ou uma mulher índia. O que ele viu primeiro, quando ergueu o lençol, foi

a nuca e as costas nuas, as nádegas e as pernas.

A lividez post-mortem indicava que ela estava deitada de costas quando morreu. As costas e as nádegas apresentavam manchas roxas de sangue capilar coagulado. Mas

na crena anal violada, ele viu uma rugosidade vermelha e líquido branco seco, tingido de vermelho onde se misturava com o sangue.

Gentilmente ele a virou, para ficar deitada de costas na mesa.

O rosto estava arranhado talvez por gravetos, ao ser arrastada pelo chão da floresta.

Rob J. tinha um carinho especial pelo traseiro feminino. Sarah tinha descoberto isso logo no começo do casamento. Ela gostava de se oferecer a ele, com os olhos

apertados contra o travesseiro, os seios amassados contra o lençol, os meniscos em forma de pêra brancos e rosados acima do velocino de ouro. Uma posição desconfortável,

mas que ela adotava às vezes porque a excitação sexual do marido aguçava seu prazer. Rob J. considerava o coito como uma forma de amor e não mero veículo para a

procriação, por isso, para ele, nenhum orifício era sagrado no ato sexual. Mas, como médico, tinha observado que o esfíncter anal podia perder a elasticidade se

usado exageradamente e era fácil, quando fazia amor com Sarah, escolher os modos que não pudessem prejudicá-la.

Mas não tiveram essa consideração com Makwa.

Seu corpo moldado pelo trabalho era o de uma mulher com dez anos menos do que a idade que devia ter. Anos atrás, ele e Makwa tinham aprendido a controlar cuidadosamente

a atração física entre os dois. Mas, algumas vezes, ele pensava naquele corpo, imaginando como seria fazer amor com ela. Agora, a morte começava sua destruição.

O abdome estava inchado, os seios achatados pela morte dos tecidos. Os músculos começavam a enrijecer e ele esticou as pernas dela, antes que fosse tarde demais.

O púbis era como uma moita negra, bastante ensangüentado. Talvez fosse uma misericórdia Makwa não ter sobrevivido, porque teria perdido seu poder de curar.

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“Canalhas! Seus canalhas imundos!”



Rob passou a mão nos olhos, lembrando que todos lá fora deviam ter ouvido seu grito e sabiam que estava sozinho com Makwa. A parte superior do torso dela era uma

massa de contusões e ferimentos, e o lábio inferior completamente esmagado, talvez por um punho forte.

No chão, ao lado da mesa, estavam os objetos encontrados pelo xerife. O vestido rasgado e cheio de sangue (um velho vestido de chita, dado por Sarah); o cesto quase

cheio de folhas de hortelã, um tipo de agrião silvestre e algumas folhas de árvore, talvez de amora preta, e um pé de sapato de pele de gamo. Um pé de sapato? Rob

procurou mas não encontrou o outro. Os pés morenos e quadrados estavam descalços, pés fortes, com pele grossa. O segundo dedo do pé esquerdo era torto, resultado

talvez de uma antiga fratura. Rob a tinha visto descalça muitas vezes e sempre tentava imaginar como tinha acontecido aquela fratura, mas

nunca perguntou.

Olhou para o rosto e viu a boa amiga. Os olhos estavam abertos, mas o humor vítreo perdera a pressão e as pupilas secas eram a coisa mais morta de todo aquele corpo.

Rob os fechou rapidamente e pôs uma moeda sobre cada pálpebra, mas sentia como se continuassem olhando para ele. O nariz parecia maior e mais feio. Makwa não teria




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