Noah Gordon, o xamã



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que os sinais não eram boa medicina para Xamã. O menino já sabia dezenove sinais. Sabia dizer que tinha fome, sede, que estava com frio, com calor, conhecia os sinais

para indicar saúde, prazer ou aborrecimento, sabia cumprimentar e se despedir, indicar tamanho dos objetos, comentar sobre sabedoria ou estupidez. Para as outras

crianças, era um novo jogo. Para Xamã, isolado de toda

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comunicação do modo mais estranho, era um novo contato com o mundo.



Seus dedos continuaram a falar.

Rob J. proibiu os outros de atenderem aos sinais dele, mas eram apenas crianças e quando Xamã fazia um sinal, o impulso para responder era às vezes intuitivo e irresistível.

Depois de ver Xamã usar a linguagem dos sinais várias vezes, Rob apanhou um rolo de atadura feito por Sarah, envolveu com ela os pulsos do filho e amarrou a ponta

no cinto do menino.

Xamã chorou e gritou.

- Você trata seu filho... como um animal - murmurou Sarah.

- Talvez já seja muito tarde para ele. Esta pode ser sua única chance. - Rob segurou as mãos da mulher, procurando consolá-la. Mas Rob não cedeu aos pedidos dela

e as mãos de Xamã continuaram amarradas, como as de um prisioneiro.

Alex lembrou do que tinha sentido quando teve sarampo e Rob J. amarrou suas mãos para evitar que se ferisse. Esqueceu como se coçava até tirar sangue, lembrando

apenas a comichão terrível e o horror de ficar amarrado. Na primeira oportunidade, ele apanhou uma foice no celeiro e cortou as ataduras que prendiam as mãos do

irmão.

Rob J. castigou Alex proibindo-o de sair de casa, mas o menino desobedeceu. Com uma faca de cozinha soltou outra vez as ataduras, depois tomou Xamã pela mão e o



levou embora.

Só ao meio-dia notaram a ausência dos irmãos e todos na fazenda interromperam o trabalho para procurar nos bosques, nos pastos, na margem do rio, chamando alto o

nome do único que podia ouvir. Ninguém mencionou o rio, mas, naquela primavera, dois franceses de Nauvoo haviam morrido afogados quando sua canoa virou com a força

da corrente. Agora, todos lembraram a ameaça do rio.

No fim do dia, quando começava a escurecer, não tinham visto nem sinal dos meninos. Então Jay Geiger apareceu a cavalo, na casa dos Cole, levando Xamã na sua frente,

na sela, e Alex atrás. Disse a Rob que os encontrara no meio do seu milharal, sentados no chão, de mãos dadas e cansados de tanto chorar.

- Se eu não tivesse ido até lá para limpar o mato, eles ainda estariam sentados no meio do milho - disse Jay.

Depois que os dois irmãos lavaram o rosto e jantaram, Rob J. levou Alex para um passeio na margem do rio. A água cantava, batendo nas pedras da margem, mais escura,

refletindo o começo da noite. Andorinhas voavam em círculos e mergulhavam no ar, às vezes tocando a superfície da água. Um pouco acima, uma garça caminhava no raso,

como um pequeno navio.

- Você sabe por que eu o trouxe aqui?

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- Vai me bater.

- Nunca bati em você, bati? Não vou começar agora. Não, quero fazer uma consulta.

Alex olhou para ele assustado, sem saber se uma consulta era pior do que uma sova.

- O que é isso?

- Você sabe o que é fazer uma troca? Alex fez um gesto afirmativo.

- Claro. Eu já troquei coisas, muitas vezes.

- Pois eu quero trocar idéias com você. Sobre seu irmão. Xamã tem sorte por ter um irmão mais velho como você, um irmão que toma conta dele. Sua mãe e eu... nos

orgulhamos de você. E agradecemos.

- ... Pai, você trata Xamã muito mal, amarrando as mãos dele e coisas assim.

- Alex, se você continuar a falar com ele com sinais, Xamã nunca vai precisar falar. Logo vai esquecer como se fala, e você nunca mais ouvirá a voz dele. Nunca mais.

Acredita em mim?

O menino arregalou os olhos, preocupado. Balançou a cabeça afirmativamente.

- Eu quero que você deixe as mãos dele amarradas. Estou pedindo para nunca mais usar os sinais para falar com Xamã. Quando falar com ele, primeiro faça com que ele

olhe para a sua boca. Depois, fale clara e distintamente. Repita as palavras, para que ele comece a ler seus lábios. - Rob J. olhou para ele. - Compreendeu, filho?

Vai nos ajudar a ensinar Xamã a falar?

Alex fez que sim com a cabeça. Rob J. o abraçou com força. Alex cheirava exatamente como um garoto de dez anos, que havia passado o dia sentado no solo adubado do

milharal, suando e chorando. Quando voltassem para casa, pensou Rob J., ia ajudá-lo a preparar um banho para ele e para Xamã.

- Eu te amo, Alex.

- ... também, pai - murmurou Alex.

Todos receberam as mesmas instruções.

Captar a atenção de Xamã. Apontar para os próprios lábios. Falar para os olhos dele, e não para os ouvidos.

De manhã, quando levantavam, Rob J. amarrava as mãos do filho. Alex as desamarrava na hora da refeição, para que ele pudesse comer. Depois, as prendia outra vez.

Alex se encarregou de impedir que as outras crianças falassem com Xamã usando sinais.

Mas a expressão no rostinho magro de Xamã era de aflição. Não conseguia compreender. E não disse uma palavra.

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Se Rob J. soubesse de alguém que mantinha as mãos do filho amarradas, teria feito de tudo para salvar a criança. A crueldade não era um dos seus talentos e percebeu



o efeito do sofrimento de Xamã em todos os outros. Para ele, apanhar sua maleta e sair para atender aos doentes era como uma fuga.

O mundo, fora da sua fazenda, continuava, em nada afetado pelos problemas da família Cole. Naquele verão, três famílias estavam construindo casas novas de madeira

para substituir as cabanas de barro em Holden’s Crossing. Começaram a falar em construir uma escola e em contratar um professor e Rob J. e Jason Geiger aprovaram

calorosamente a idéia. Eles ensinavam os filhos em casa, às vezes revezando-se, em caso de emergência, mas sabiam que uma escola seria melhor para as crianças.

Naquele dia, quando Rob J. passou pela farmácia, Jay tinha novidades. Finalmente, haviam mandado buscar o piano Babcock de Lillian. Engradado e embarcado em Columbus,

o instrumento viajara mais de mil quilômetros, por balsa e barco fluvial.

- Desceu o rio Scioto até o Ohio, do Ohio ao Mississipi e subiu o Mississipi até o píer da Grande Companhia de Transportes do Sul, em Rock Island, onde está agora,

esperando a minha carroça puxada por bois.

Alden Kimball pediu a Rob J. para atender um dos seus amigos em Nauvoo, a cidade abandonada dos mórmons.

Alden acompanhou Rob para mostrar o caminho. Compraram passagens para ambos e para os cavalos, na chata que descia o rio. Nauvoo era uma cidade sinistra, quase deserta,

uma rede de ruas largas à margem de uma bela curva do rio, com casas bonitas e ricas e, no centro, as ruínas do grande templo de pedra que parecia construído pelo

rei Salomão. Um pequeno número de mórmons morava ainda na cidade, disse Alden, velhos e rebeldes, desligados dos líderes dos mórmons quando os Santos dos Últimos

Dias mudaram para Utah. Era um lugar que atraía livres-pensadores. Uma das extremidades da cidade era alugada a uma pequena colônia de franceses que se intitulavam

icarianos e viviam em sistema de cooperativa. Alden e Rob J. atravessaram o bairro francês, Alden muito empertigado na sela, com olhar desdenhoso, e chegaram a uma

casa de tijolos vermelhos, castigada pelo tempo, ao lado de uma bela trilha arborizada.

Uma mulher de meia-idade atendeu à porta e cumprimentou Alden com uma inclinação de cabeça, sem uma sombra de sorriso. Inclinou a cabeça outra vez quando Alden a

apresentou a Rob J. como a Sra. Bidamon. Entraram e viram uma dezena de pessoas na sala, mas a Sra. Bidamon levou Rob para o andar superior, onde estava o garoto

de mais ou menos dezesseis anos, com sarampo. Não era um caso grave. Rob deu

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semente de mostarda moída para ser misturada na água do banho do doente e um pacote de flores secas de sabugueiro para fazer chá.



- Acho que não vai mais precisar de mim - disse ele. - Mas quero que me chame imediatamente se ele tiver inflamação dos ouvidos.

A Sra. Bidamon desceu a escada na frente dele e tranqüilizou as pessoas que estavam na sala. Quando Rob J. apareceu na porta, eles o esperavam com presentes, um

vidro de mel, três vidros de conserva, uma garrafa de vinho. E murmúrios de agradecimentos. Fora da casa, ele ficou parado, com os braços cheios de presentes, olhando

atônito para Alden.

- Eles são gratos a você por tratar do menino - disse Alden. - A Sra. Bidamon é viúva de Joseph Smith, o Profeta dos Santos do Último Dia, o fundador da religião.

Eles acreditam que o menino doente é também profeta.

Quando partiram, Alden olhou para a cidade de Nauvoo e suspirou.

- Era um bom lugar para se viver. Arruinado porque Joseph Smith não conseguiu guardar o pênis dentro da calça. Ele e sua poligamia. Joseph as chamava de esposas

espirituais. Nada de especial, só que ele gostava de variar.

Rob J. sabia que os Santos tinham sido expulsos de Ohio, do Missouri e finalmente de Illinois, por escandalizarem os habitantes com sua poligamia. Rob J. era discreto,

nunca perguntara sobre o passado de Alden, mas dessa vez não resistiu.

- Você também tinha mais de uma mulher?

- Três. Quando me separei da Igreja, elas e os filhos foram distribuídos entre os outros Santos.

Rob não teve coragem de perguntar quantos eram os filhos. Mas um demônio o levou a dizer.

- Você não se aborreceu com isso?

Alden pensou um pouco, depois cuspiu para o lado.

- Não posso negar que a variedade era bem interessante. Mas sem elas, a paz é maravilhosa - disse ele.

Naquela semana, depois de tratar um jovem profeta, Rob atendeu um velho senador. Foi chamado a Rock Island para examinar o senador dos Estados Unidos Samuel T. Singleton,

que começou a se sentir mal quando voltava de Washington para Illinois.

Quando Rob entrou na casa de Singleton, Beckermann estava saindo. Ele disse que Tobias Barr também havia examinado o senador Singleton.

- Ele precisa de uma porção de opiniões médicas, não é mesmo? - disse Beckermann, mal-humorado.

Isso indicava a extensão do medo de Sammil Singleton e, após examiná-lo, Rob concluiu que o medo não era infundado. Singleton tinha setenta e nove anos, era um homem

pequeno, quase completamente

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calvo, com pele flácida e uma enorme barriga. O coração dele chiava, gorgolejava e estalava, esforçando-se para continuar batendo.

Rob segurou as mãos do homem nas suas e olhou nos olhos do Cavaleiro Negro.

O assistente de Singleton, Stephen Hume, e seu secretário, Billy Ro-

gers, estavam sentados ao pé da cama.

- Passamos o ano todo em Washington. Ele precisa fazer discursos. Consertar cercas. Tem muito trabalho para fazer, doutor - disse Hume, acusador, como se a indisposição

de Singleton fosse culpa de Rob J. Hume era um nome escocês, mas Rob J. não simpatizou com ele.

- O senhor tem de ficar na cama - Rob disse, sem rodeios. - Esqueça os discursos e as cercas. Faça uma dieta leve. Não abuse do álcool.

Rogers disse, zangado.

- Não foi o que os outros dois médicos recomendaram. O Dr. Barr disse que qualquer pessoa se sentiria assim depois da longa viagem de Washington. O outro, de sua

cidade, Dr. Beckermann, concordou com Barr, e disse que o senador só precisa de boa cozinha e ar puro da planície.

- Achamos que seria uma boa idéia chamar alguns de vocês - disse Hume - para o caso de haver divergência de opinião. Exatamente o que estamos tendo, não é mesmo?

E os outros médicos discordam de você, dois a um, portanto.

- Muito democrático. Mas isto não é uma eleição - Rob J. voltou-se para Singleton. - Para sua sobrevivência, espero que faça o que

recomendei.

Uma expressão divertida passou pelos olhos velhos e frios.

- Você é amigo do deputado Holden. Sócio dele em vários empreendimentos, se estou certo.

Hume deu uma gargalhada.

- Nick está um pouco impaciente. Não vê a hora de o senador se

aposentar.

- Eu sou médico. Não ligo a mínima para política. O senhor mandou me chamar, senador.

Singleton inclinou a cabeça, assentindo, e lançou um olhar de advertência aos outros dois homens. Billy Rogers saiu do quarto com Rob. Quando o médico procurou acentuar

a gravidade do estado do senador, o secretário limitou-se a fazer um gesto afirmativo e a agradecer com palavras convencionais. Rogers pagou a consulta como quem

dá gorjeta a um criado e conduziu Rob suave e rapidamente para fora da casa.

Algumas horas mais tarde, quando seguia, montado em Vicky, pela rua principal de Holden’s Crossing, Rob percebeu que o sistema de espionagem de Holden estava funcionando.

Nick o esperava na varanda da loja de Haskins, com a cadeira inclinada para trás, o espaldar apoiado na parede, um dos pés na grade. Quando avistou Rob J., indicou-lhe

o poste onde amarravam os cavalos.

Nick levou Rob para os fundos da loja, sem disfarçar a excitação.

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- E então?

- Então o quê?

- Eu sei que está vindo da casa de Sammil Singleton.

- Eu falo dos meus pacientes só com os meus pacientes. Ou, às vezes, com quem eles amam. Você é um dos entes queridos de Singleton?

Nick sorriu.

- Eu gosto muito dele.

- Gostar não basta, Nick.

- Não brinque comigo, Rob J. Só preciso saber de uma coisa. Ele vai ter de se aposentar?

- Se quer saber, pergunte a ele.

- Deus do céu - disse Holden, irritado.

Rob J. passou cuidadosamente ao lado de uma ratoeira armada e saiu dos fundos da loja. A fúria de Nick o acompanhou, misturando-se ao cheiro do couro dos arreios

e de batata podre.

- Seu problema, Cole, é que você é burro demais para saber quem são seus verdadeiros amigos!

É provável que Haskins tenha muito cuidado no fim do dia para guardar o queijo em lugar fechado, além de cobrir o barril de biscoitos. Os ratos podem fazer uma farra

com sua mercadoria, durante a noite, pensou Rob, caminhando para a frente da loja. E não há jeito de evitar os ratos ali, tão perto da pradaria.

Quatro dias depois, Samuel Singleton estava à mesa, na companhia de dois membros do conselho municipal de Rock Island e dois de Davenport, lowa, explicando a posição

tarifária da Estrada de Ferro Chicago e Rock Island, que pretendia construir uma ponte ferroviária sobre o Mississipi, entre as duas cidades. Estava falando sobre

direitos de passagem, quando deu um pequeno suspiro, como se estivesse irritado, e afundou na cadeira. Quando o Dr. Tobias chegou, todos na vizinhança sabiam que

Sammil Singleton estava morto.

Só depois de uma semana o governador indicou o sucessor. Nick Holden se ausentara da cidade logo após os funerais para tentar obter a nomeação. Rob podia imaginar

a força de persuasão empregada por Nick e sem dúvida por seu ocasional companheiro de alguns copos de uísque, o vice-governador natural do Kentucky. Mas evidentemente,

a organização de Singleton tinha seus próprios amigos e o governador nomeou o assistente de Singleton, Stephen Hume, para os últimos dezoito meses do mandato.

- Nick perdeu a parada - observou Jay Geiger. - Até o fim do mandato, Hume vai arrumar sua cama. Vai concorrer nas próximas eleições como candidato à cadeira do

Senado e será quase impossível a vitória de Nick.

Rob J. não estava interessado. Vivia ocupado com o que acontecia dentro de sua casa.

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Ao fim de duas semanas, ele deixou de amarrar as mãos do filho. Xamã não tentava mais os sinais, mas também não falava. Havia algo morto e triste nos olhos do menino.

Eles o abraçavam constantemente, mas isso só o consolava por um momento. Sempre que Rob olhava para Xamã era com uma sensação de insegurança e desamparo.

Enquanto isso, todos seguiam suas instruções, como se ele fosse infalível no tratamento da surdez. Falavam com Xamã lentamente, enunciando bem as palavras, primeiro

apontando para a própria boca e, quando captavam sua atenção, procuravam incitá-lo a ler seus lábios.

Foi Makwa-ikwa quem pensou numa nova abordagem do problema. Disse a Rob que ela e as outras sauks tinham aprendido a falar inglês rapidamente na Escola Evangélica

para Meninas índias porque, na hora da refeição, os pratos não eram servidos se não fossem pedidos em

inglês.

Sarah explodiu, furiosa, quando Rob expôs a ela a idéia de Makwa-ikwa.



- Não chegou você amarrá-lo como a um escravo? Agora quer que

ele morra de fome, também?

Mas Rob J. não tinha muitas alternativas e começava a se desesperar. Conversou longa e seriamente com Alex, que concordou em cooperar, e depois pediu a Sarah para

preparar uma refeição especial. Xamã adorava comida agridoce, e Sarah fez galinha cozida no vapor com bolinhos de massa e torta quente de ruibarbo para sobremesa.

Naquela noite, quando a família sentou à mesa e ela serviu o primeiro prato, a seqüência foi semelhante à que vinham seguindo há quase uma semana. Rob levantou a

tampa da terrina fumegante, espalhando o cheiro tentador da galinha, dos bolinhos e dos vegetais.

Ele serviu Sarah primeiro, depois Alex. Sacudiu a mão, até conseguiu a atenção de Xamã e apontou para a própria boca.

- Galinha - disse ele, erguendo a terrina. - Bolinhos. Xamã olhou para ele, em silêncio.

Rob J. serviu-se e sentou.

Xamã observou os pais e o irmão atentos aos próprios pratos, ergueu o seu e rosnou, zangado.

Rob apontou outra vez para a boca e ergueu a terrina.

- Galinha.

Xamã continuou com o prato levantado, esperando.

- Galinha - repetiu Rob J. Xamã não disse nada. Rob pôs a terrina na mesa e voltou a comer.

Xamã começou a chorar. Olhou para a mãe que, com esforço, tinha acabado a comida do prato. Ela apontou para a própria boca e estendeu

o prato para Rob.

- Galinha, por favor - pediu e Rob atendeu.

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Alex também pediu mais e recebeu. Xamã tremia de horror, com o rosto contraído ante aquele novo assalto, esse novo terror, a privação da comida.

Todos terminaram, os pratos foram retirados e então Sarah serviu a sobremesa, quente ainda, acompanhada de uma jarra de leite. Sarah orgulhava-se da sua torta de

ruibarbo, feita segundo uma antiga receita da Virgínia. Muito açúcar de bordo fervido com o suco ácido do ruibarbo para caramelizar a parte de cima, como uma sugestão

da delícia do que havia dentro.

- Torta - disse Rob, e Sarah e Alex repetiram.

- Torta - ele disse para Xamã.

Não estava funcionando. O coração de Rob se apertou. Afinal, não podia deixar o filho morrer de fome, pensou, era melhor um filho mudo do que um filho morto.

Desanimado cortou uma fatia da torta.

- Torta!

Foi um uivo de revolta, um ataque a todas as injustiças do mundo. A voz era familiar e amada, uma voz que Rob não ouvia há muito tempo. Porém, ele ficou imóvel por

um momento, abismado, querendo ter certeza de que não tinha partido de Alex.

- Torta! Torta! Torta! - berrou Xamã. - TORTA!

O corpo pequeno tremia de fúria e frustração. O rosto estava molhado de lágrimas. Afastou a mão da mãe, que tentava limpar seu nariz.

As boas maneiras não importavam naquele momento, pensou Rob. “Por favor” e “obrigado” podiam ficar para depois. Apontou para a própria boca.

- Sim - disse para o filho, cortando uma grande fatia de torta. - Sim, Xamã! Torta.

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POLÍTICA



A terra plana com relva alta, ao sul da fazenda de Jay Geiger, foi comprada do governo por um imigrante sueco chamado August Lund. Lund passou três anos extraindo

as raízes do mato, mas na primavera do quarto ano sua jovem mulher apanhou cólera e morreu. A morte da mulher foi como se tivessem envenenado sua terra e Lund ficou

inconsolável. Jay comprou suas vacas e Rob os arreios e algumas ferramentas, pagando

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um preço quase absurdo porque sabiam que Lund queria desesperadamente sair de Holden’s Crossing. Ele voltou para a Suécia e nos dois anos seguintes o campo preparado

para o cultivo ficou deserto e triste como uma mulher abandonada, lutando para voltar ao que era antes. Então a propriedade foi vendida por um corretor de Springfield

e alguns meses depois chegaram, em duas carroças cobertas, um homem e cinco mulheres.

Um cafetão com suas prostitutas não teria provocado tanto alvoroço em Holden’s Crossing. Eram um padre e cinco freiras da Ordem Católica Romana de São Francisco

Xavier de Assis e logo se espalhou a notícia de que pretendiam abrir uma escola para atrair as crianças para o papismo. Holden’s Crossing precisava de escola e de

igreja. Esses dois projetos provavelmente teriam ficado na intenção por muitos anos ainda se não fosse a chegada dos franciscanos. Depois de uma série de “reuniões

sociais” nas salas das fazendas, foi nomeado um comitê destinado a levantar fundos para a construção de uma igreja. Depois de uma reunião, Sarah disse, irritada.

- Eles simplesmente não conseguem chegar a um acordo, como um bando de crianças teimosas. Uns querem uma igreja econômica, de toras de madeira. Outros querem uma

estrutura de madeira, ou de tijolo, ou de pedra. - Ela era a favor de uma construção de pedra, com torre, campanário e vitrais - uma igreja de verdade. Durante todo

o verão, o outono e o inverno eles discutiram, mas em março, reconhecendo que o povo da cidade teria de pagar também a construção de uma escola, o comitê resolveu

fazer uma igreja simples de troncos de árvore, com as paredes entabuadas, ao invés de lambris, e pintada de branco. A controvérsia sobre a arquitetura foi amena,

tendo em vista o debate acirrado sobre a afiliação e denominação religiosa da nova igreja, mas como os batistas predominavam em Holden’s Crossing, a maioria prevaleceu.

O comitê entrou em contato com a Primeira Igreja Batista de Rock Island, que contribuiu com orientação e uma quantia mínima para ajudar a instalação da igreja irmã.

Correu a lista das doações e Nick Holden assombrou a todos com a imensa quantia de quinhentos dólares.

- Vai precisar de muito mais que filantropia para ser eleito para o Congresso - Rob J. disse a Jay. - Hume trabalhou com afinco e sua indicação para candidato do

partido democrata está quase certa.

Evidentemente, Holden também pensava assim, pois logo todos ficaram sabendo que Nick Holden tinha rompido com os democratas. Alguns esperavam que ele procurasse

o apoio do partido liberal, mas ele se declarou membro do partido americano.

- Partido americano. É novidade para mim - disse Jay.

Rob explicou, lembrando os sermões antiirlandeses e os artigos que vira por toda a parte, em Boston.

- É um partido que glorifica o americano nativo e prega a supressão dos católicos e dos estrangeiros.

- Nick tira vantagem de qualquer paixão ou medo que encontra - disse Jay. - Outra noite, na varanda do armazém geral, ele estava advertindo as pessoas contra Makwa-ikwa

e os sauks, como se fossem o bando de Falcão Negro. Alguns dos homens ficaram bastante entusiasmados. Ele disse que, se não tomarmos cuidado, vai haver derramamento

de sangue, muitos fazendeiros com os pescoços cortados. - Jay fez uma careta. - Nosso Nick. O eterno estadista.

Certo dia Rob recebeu uma carta do irmão Herbert, que estava na Escócia. Era a resposta à que ele havia mandado oito meses antes, falando da sua família, sua clínica,

sua fazenda. Descreveu com muito realismo sua vida em Holden’s Crossing e pediu a Herbert para mandar notícias de todos que ele amava, no velho país. A carta de




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